0. Capa_OpusMagnumOlisiponense

“Primeiro combinamos, em seguida decompomos, dissolvemos o decomposto, depuramos o dividido, juntamos o purificado e solidificamo-lo. Deste modo, o homem e a mulher transformam-se num só.”

Büchlein vom Stein des Weisen, 1778

 

Lisboa! Quando falamos desta cidade é difícil encontrar argumentos que definam a sua beleza e grandiosidade, pois são simplesmente as suas imagens que nos invadem o mais profundo e intimo do ser e compadecem harmoniosamente com a sensação de que a ela pertencemos.

No que toca às suas raízes fundadoras, ela apresenta uma tradição que passou ao longo dos séculos e contribuiu para o que é hoje. Desde o Paleolítico Inferior até ao Superior, aos Ligures, Celtas, Lusitanos, Romanos, Suevos, Alanos, Visigóticos, Judeus, Árabes, Moçárabes e Cristãos até aos dias de hoje, Lisboa sempre foi local desejado e de culto. Já Fernando Pessoa dizia: “O mito é o nada que é tudo”, e por detrás de cada mito existe sempre uma certa verdade velada ou oculta que mobiliza o motor psicossocial. Lisboa é exemplo disso mesmo, no que toca à mitologia da sua fundação. De acordo com ela, teria sido fundada pelo Chefe dos Argonautas gregos, Ulisses, que aqui se apaixonara pela belíssima Rainha Ofiússa, a Deusa-Serpente. Toda a história mitológica de Ulisses (Sol) e Ulissipa ou Ofiússa (Lua) caracterizam a fundação mítica da cidade nesse período dos semi-deuses Gregos, originando o nome Olisipo (aproveitando o termo celta já existente, Olisipon, “lugar de cavalos”, justificativa filológica até hoje prevalecendo graças ao valor célebre do cavalo lusitano). Posteriormente os Romanos, sabendo da história da fundação mítica da cidade e aproveitando o termo ligure lyx (vocábulo referente às águas do Tejo) para o converter em lux (“água santa”, que na altura deveria ser as das diversas nascentes, possuídas de propriedades minerais óptimas para a saúde, dispersas pela Lisboa ribeirinha), e igualmente pegando no derivado da palavra Olisipo que seria Olisipona, transformariam esta em Ulyssipona, e daí em Ulyssibona. Depois seriam os Árabes a ainda aproveitar o termo lyx sob a forma lix, transformando o nome em Lixbona (“águas boas”) que mais tarde, após a Reconquista cristã, se tornaria na que hoje conhecemos: Lisboa.

Quando estudamos a origem dos etimólogos que foram se articulando até ao formato actual, como o de Lisboa, somos levados de um “nada que é tudo” a uma verdade que acolhe os princípios ocultos desta cidade. O termo celta Olisipon designá-la-ia como “lugar de cavalos”, mas sendo que “cavalo” igualmente encontra a derivação filológica seguinte: Cavalo, Caballo, Cabala, esta como Tradição Iniciática, tal qual se encontra na história simbólica de Ulisses e a Deusa-Serpente ou Telúrica Ofiússa, a qual vai de encontro, mais uma vez, à mesma verdade, pois a serpente simbolicamente significa Tradição, Iniciação e Imortalidade. Em relação ao formato actual do étimo Lisboa, decompondo a palavra em Lis+Boa revelamos o mesmo, pois Lis é a Flor-de-Lis, símbolo da Boa Lei e do Governo Espiritual do Mundo chefiado pelo seu Rei ou Imperador Universal, Melki-Tsedek, igualmente simbólica da cidade reservando nas suas hastes os sentidos de Soberania, Mistério e Iniciação.

Após o terramoto de 1755, Lisboa foi reerguida pela genialidade e “iluminação” do ministro real Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal. Nesse enorme e importantíssimo feito o Marquês de Pombal, rodeado por uma corte de maçons operáticos e cabalistas sábios, teve como arquitecto principal o húngaro Carlos Mardel. Dispostos a fazer desta Lisboa despedaçada pela “Ira Divina” uma nova Elisipólis (segundo o outro mito bíblico, não grego, da fundação de Lisboa), o seu esquisso baseado na Arquitectura Sagrada veio a ser a confirmação disso mesmo. Com as suas inovações de ruas amplas e praças largas, constitui-se assim a Baixa Pombalina, entre o Terreiro do Paço e o Rossio. Todo este novo imóvel trabalhado e fixado para a eternidade, centralizou-se no na Praça do Rossio assente no modelo arquitectónico romano designado Mundus, o qual define a Cidade Eleita como o Centro de Ordenação do Mundo, ou seja, quis-se nisto que Lisboa seria o próprio Centro do Mundo, em conformidade com o pensamento sagrado da Cosmologia tradicional.

Toda essa sabedoria e esclarecimento de Carlos Mardel foram adaptados à Tradição Espiritual Portuguesa por via da sua ligação à ilustre Casa dos 24, inaugurada por D. João I como reguladora dos mesteres ou diferentes ofícios na cidade, dentre eles os dos arquitectos e pedreiros, neste caso, Maçonaria Operativa, os quais se reuniam na igreja de S. José dos Carpinteiros. Igualmente desempenhou cargo de relevo na primeira Obediência Maçónica Portuguesa, a Casa Real dos Maçons da Lusitânia.

Tendo a Maçonaria como função psicossocial a operação da regeneração mental e moral do Homem levando-o a lapidar a sua pedra bruta (personalidade) numa pedra cúbica pontiaguda (Individualidade), de forma a tornar o colectivo uma Sociedade Humana mais Justa e Perfeita, a sua denominação genérica estabeleceu-se como Arte Real. No entanto, esse termo não é especifico e particular da Maçonaria, pois há uma outra doutrina muito mais antiga (na qual a Maçonaria Especulativa bebeu muitíssimo no seu início, século XVIII) que é também e por excelência Arte Real, a Alquimia. Ora partindo do Terreiro do Paço, passando pela Rua Augusta até chegar ao Rossio, observa-se a existência de figuras, elementos e símbolos arquitectónicos oriundos da Tradição Hermética de quem a Alquimia é o seu corpo, ou seja, o Corpus Hermeticum.

 

O que é a Alquimia?

 

Quando se fala em Alquimia, miserável e instantaneamente associa-se a fantasia, a superstição, a feitiçaria…Algumas mentes, ainda assim um pouco mais informadas, lá vão dizendo, pobremente, que ela foi a “mãe da Química”, enquanto outros simplesmente dizem, sem nada dizer, tratar-se de uma “ciência hermética e oculta”. Mesmo não deixando de ser verdade, tenho a dizer que essas são definições bastante redutoras e medíocres, pois a Alquimia é muito mais do que uma simples “ciência oculta”, “mãe da Química” e muito menos uma “fantasia” ou uma “ciência de charlatães e vigaristas”. Para ela apresento uma definição que, na minha opinião, expressa muito bem aquilo que é a Alquimia e ao que ela se propõe, do autor Michael Noize:
 

Conjunto de doutrinas e práticas baseado na teoria das correspondências, das acções recíprocas, numa concepção unitária da matéria e na ideia de os metais se encontrarem em gestação na mina e nascerem enfermos. Conjunto enriquecido com ideias neo-platónicas e neo-aristotélicas, cuja aplicação deveria permitir a perfeição do manipulador e do seu material, graças a uma determinada operação místico-química. Tal operação consiste em, recorrendo-se a um processo natural, levar uma matéria, mantida secreta, ao estádio de perfeição, extensiva a todo o reino metálico. Por outro lado, tal operação deverá permitir a obtenção de determinados produtos que se administrarão como panaceia. Uma aura impenetrável de mistério paira sobre este conjunto, que deverá conferir ao Adepto a segurança material, a cura dos males físicos e a iluminação, tanto espiritual como intelectual.

Alquimia, para o público comum, também é sinónima de Pedra Filosofal, o Lapis Philosophorum, que supostamente permitirá ao Alquimista obter de uma “derivação” dela, a Panaceia Universal ou Medicina Universal e o Pó de Projecção, de forma a realizar a transmutação dos metais em ouro. Hoje, a Alquimia continua sendo vítima da ignorância da informação, antes, da desinformação, a qual simplesmente apercebe o seu limiar mais superficial. Na sociedade materialista, consumista e facilitista dos dias de hoje, também não me surpreende que surjam autores e livros a afirmar que “descobriram a Pedra Filosofal” e que o “mistério dos Tempos foi encontrado”, como se fosse possível um Adepto Real fazer propaganda profana da sua grandeza espiritual, e como se isso fosse o mais interessante que há na Alquimia. Como o respeitável leitor acabou de verificar na definição dada acima, a Pedra Filosofal é o resultado final da Grande Obra, ou Opus Magnum, que corresponde à Iluminação Espiritual do Adepto, por seus próprios esforços e méritos após sacrifícios imensos num permanente ora et labora, indo torná-lo um Ser discreto e sigiloso, apartado de toda a poluição psicomental, absolutamente ao contrário aos espaventos, com mais ou menos carisma e mais ou menos espectáculo próprio para alimentar emoções fortes de mentes fracas, correndo na “praça pública”.

 

Breve História da Alquimia e Alquimia em Portugal

 

As origens da Alquimia, segundo os investigadores desta temática, parecem advir do Antigo Egipto. No entanto, os factos até à actualidade apontam o seu início apenas no Oriente, mais especificamente na China. Para além do seu lado Operativo, a Alquimia Especulativa Chinesa (século VI), tendo tido nomes importantes como Lao Tsé e Ko Hung, foi absorvida posteriormente pelo Taoismo (século XIII), a Filosofia Hindu e a Hatha-Yoga. No Mundo Árabe, ela foi influenciada através da Escola de Alexandria que integrou nomes importantíssimos como Geber (que estabeleceu o princípio do Enxofre-Mercúrio), Razes (estabelecedor do princípio trinitário do Enxofre-Mercúrio-Sal) e Avicena (que associou Alquimia e Medicina). Com o contacto do Ocidente cristão com o Oriente islâmico nos séculos XII e XIII, a Alquimia seria profundamente influenciada por ambas as correntes religiosas, e foi assim que exerceu a sua influência espiritual em toda a Europa ao longo de vários séculos. O alemão Alberto Magno (Alquimia Laboratorial ou Operativa e Discursiva ou Especulativa) e o seu discípulo Tomás de Aquino (Alquimia não Operativa), o inglês Roger Bacon (perseguido pela Igreja, pontificando o Papa Urbano IV), os espanhóis Arnaldo de Vilanova (valenciano, que também foi perseguido pelo Clero) e o seu iniciador e amigo Raimundo Lúlio (maiorquino), assim o famoso francês Nicholas Flamel, são alguns nomes célebres de Adeptos Herméticos ou Filósofos do Fogo (Philosophum per Ignium). Já durante a Europa dos fins da Idade Média, Renascença e Modernidade tivemos o grande Adepto suíço Philippus Theophrastus Bombast, ou seja, Paracelso (Alquimia e Medicina, antes, Taumaturgia, tal como Avicena), os alemães Bernard Trevisan e Basílio Valentim, de Bruxelas (Bélgica), Van Helmont (século XVII, seguidor de Paracelso). Nos séculos XVII e XVIII, Ireneu Filaleto (Adepto Thomas Vaughan), Alexandre Sethon (também conhecido por Cosmopolita) e Lascaris. No século XVIII a Alquimia passa por um período negro de má reputação devido às controvérsias geradas pelos racionalistas e enciclopedistas franceses, questionando tudo e todos, contudo, Ordens Iniciáticas como a Rosa+Cruz e a Maçonaria, apesar de toda a controvérsia especulativa como “fermento” das posteriores condições de materialismo e ateísmo, não deixaram de aplicar com magnificência e êxito os segredos da Arte Real, surgindo, ligadas a elas, figuras ilustríssimas como os misteriosos Condes de Cagliostro e Saint Germain (ou São Germano). No século XIX tivemos Cyliani e D`Espagnet, e já no século XX o misterioso e popular Fulcanelli, pseudónimo dum Alquimista francês muito conhecido, como também o francês Armand Barbault (de quem alguns afirmam que praticava mais a Espagíria, “ciência dos elixires”, do que a Alquimia, “ciência dos metais”).
 

Relativamente a Portugal, já é sabido que a Tradição Alquímica também teve os seus dias de glória e os seus Alquimistas para serem celebrados no Panteão da Honra. Existem indícios de ter havido prática alquimista no Convento de Cristo, em Tomar (contudo, ao que tudo indica, mais que à Crisopeia e Argiopeia, “fábricas do Ouro e da Prata filosofais”, dedicar-se-iam à Espagíria, à concepção de medicamentos para ajudar os mais necessitados, tal qual acontecia no Convento dos Capuchos, em Sintra), como igualmente no Mosteiro de Odivelas, de acordo com o testemunho de D. Feliciana de Milão (1642-1705), que aí redigiu o seu Discurso sobre a Pedra Filosofal, e também no Convento do Carmo, Lisboa, onde está um túmulo em cuja ilustração se vê um Alquimista rodeado dos instrumentos da Arte. Também se sabe que este pequeno país discretamente plantado à beira-mar no Extremo Ocidente da Europa, foi ponto obrigatório de visita e partilha de conhecimentos da Arte Real por grandes nomes da Alquimia, como Raimundo Lúlio e Arnaldo Vilanova, facto relatado pelos próprios, e também o grande e excelso Paracelso, segundo o autor Amorim da Costa, teria passado por terras lusas, estado em Lisboa, e partilhado conhecimentos alquímicos com Iniciados nesta Arte.

Túmulo com alegoria alquímica no Convento do Carmo, Lisboa

Túmulo com alegoria alquímica no Convento do Carmo, Lisboa
Relativamente aos Alquimistas portugueses, são conhecidos vários desde o século XIII, como Pedro Hispano (o único Papa português, denominado João XXI) que teve contacto com o Mestre Alberto Magno e o seu discípulo Tomás de Aquino, deixando um único tratado alquímico sobre as águas: Tractatus Mirabilis Aquarum. No século XV, o nosso “Rei Alquimista” D. Afonso V, da Dinastia de Avis e cognominado o Africano, deixou para a História o seu tratado sobre a feitura da Pedra Filosofal dividido em duas partes: Lapis Philosophorum e Divisão dos Quatro Elementos, que posteriormente foi furtado do gabinete do monarca e andou transviado em edições de “cordel” por terras inglesas e espanholas, até que cerca de 1980 Vitor Manuel Adrião recuperou-o para Portugal. Em 1557 o Padre António de Gouveia, o “Padre do Oiro”, natural dos Açores, que viajara a maior parte da sua vida pela Europa afora, foi acusado pela Inquisição de que sabya fazer outras cousas grandes como era a lapis filososuforu, a Pedra Filosofal, e inclusive ofereceu-se no Palácio de D. Isabel de Albuquerque para transmutar a prata em ouro; Frei Vicente Nogueira, que apresentava uma biblioteca com várias obras influentes de Alquimia, que a Inquisição mandou queimar. No século XVII, Pedro Nunes, que foi testamentário do famoso Alquimista inglês John Dee; Duarte Madeira Arrais e o seu livro Novae Philosophiae. No século XVIII, Raphael Bluteau, justamente consignado o “Hermes Lusitano”, nascido em Inglaterra de pais franceses e terminando a vida em Portugal, foi protegido pela rainha Dona Maria Francisca de Sabóia, esposa do rei Afonso VI de Portugal, e depois por D. Pedro II de Portugal e ajudado por D. João V para que as suas obras fossem todas impressas; outra figura de enorme relevo na Alquimia portuguesa, foi o médico e familiar do Santo Oficio, Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, com a sua famosa obra Ennoea ou Applicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal; temos ainda um autor desconhecido de 1724, que publicou um livro só com imagens alquímicas e sem comentários, portanto, um liber mutus intitulado Veritas Hermetica Veritatem Qvaerenti, documento que pertenceu à biblioteca do rei D. Carlos; e o próprio Bartolomeu Gusmão, pressuposto o primeiro aviador do mundo com a sua “passarola” no século XVIII, também foi suspeito de práticas alquímicas, contudo, não há provas concretas. Ainda no século XVIII, pelas razões já indicadas atrás, sabe-se que a Arte Real foi descredibilizada e, com isso, muitos Alquimistas da altura remeteram-se ao sigilo total, facto relatado por Francisco de Castro na sua Ronda de Lisboa. No século XIX, é também sabido pela difusão pública feita em primeira mão por Vitor Manuel Adrião desde 1985, que o ilustre e iluminado luso-brasileiro, António Augusto Carvalho Monteiro, criador do maior dos patrimónios esotéricos de cariz nacional em Portugal, a Quinta da Regaleira, também conhecida como a “Mansão Filosofal de Sintra”, igualmente se dedicou à Alquimia.
 
 

O Arco do Triunfo e a Iniciação Hermética

 
Voltando novamente à cidade de Lisboa, a Rua Augusta, antes de ser percorrida a partir do Terreiro do Paço, é precedida pelo seu Arco Triunfal. A obra foi concebida pelos arquitectos do tempo do Marquês de Pombal, posta a concurso apenas em 1843, no Governo de Costa Cabral, executada em 1862, e só em 1873 se lhe encontrou um remate, com o projecto de Veríssimo José da Costa e a intervenção de Vítor Bastos e do francês A. C. Camels. Este Arco sustenta a coroação dos Deuses Minerva e Apolo (que tem abaixo uma estatueta representando Ulisses, como referência à fundação mitológica da cidade) pela Lusitânia Triunfante, Gloriosa como Laurenta, sendo aqui expressão da Grande Mãe Universal, obra do francês Camels; baixo, nos lados, estão 4 estátuas de figuras emblemáticas da História de Portugal, obra de Vítor Bastos, sendo elas (da esquerda para a direita): Viriato, Vasco da Gama, Marquês de Pombal e Nuno Álvares Pereira, tendo a ladeá-las outras duas representando os Deuses do Génio e Valor (alegorias aos rios Tejo e a Douro, representando assim a união do Norte e Sul do País como um todo indissociável). Segundo o autor Vitor Manuel Adrião, o Arco da Rua Augusta tem um profundo significado esotérico, por ser como o Umbral dos Mistérios, a Passagem das trevas para a Luz, da morte para a Imortalidade que a Sabedoria das Idades concede. O facto é que toda a cidade (como Jerusalém e Roma) assente em sete colinas, sagradas para os locais, possui um Arco do Triunfo ou da Salvação.
 
Visto por esta perspectiva gnoseológica, não poderia estar mais de acordo, pois se toda a Rua Augusta expressa o Magistério da Opus Magnum, logo, o carácter iniciático é implícito nela mesma, e, tal como Mircea Eliade defendeu, a Alquimia não deixa de ser uma Iniciação, inclusive no decifrar da sua mensagem críptica após apreender a sua misteriosa linguagem, prefigurada “Fala dos Pássaros” (Anjos), a qual não permite a qualquer indivíduo despreparado física e psicomentalmente aceder indiscriminadamente aos segredos operáticos da Arte Real, reservados apenas àqueles Iniciados na Matéria, na “Fala”, na Filosofia em si mesma. Além disso, sendo esta uma Ciência tendo uma perspectiva unitária da Matéria, ao trabalhar sobre os metais o Alquimista está a trabalhar sobre si mesmo, permitindo-lhe aceder a um conjunto de experiências espirituais que possibilitem a sua transformação interior e alcançar a Perfeição não só física mas sobretudo espiritual. Visto assim, o Arco da Rua Augusta assume a função de athanor ou “forno” alquímico no qual a personalidade ou Neófito funciona como a “matéria” que é introduzida, perpassada nele para ser trabalhada. Ora esta, exposta de forma muito simples, é o objectivo principal de toda a INICIAÇÃO: A TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL DO SER HUMANO, ou por outra, A TRANSFORMAÇÃO DA VIDA-ENERGIA EM VIDA-CONSCIÊNCIA!
 

De que provas é que me sustento para afirmar tal coisa? Bem ainda de acordo com o autor Vitor Manuel Adrião, o Terreiro do Paço, através do traçado de linhas fixas indo até determinados pontos geográficos, configura dois objectos: o Compasso e o Esquadro, que entrelaçados tornam-se o símbolo da Maçonaria Simbólica, mas que também configuram o Hexalfa, Hexagrama ou Selo de Salomão, localizando-se dentro e ao centro do mesmo a estátua equestre de D. José I (da autoria de Machado de Castro e fundida por Bartolomeu da Costa, no dia do aniversário do rei, 6 de Junho de 1775). Este último, para o mesmo autor, por ser muito devoto de S. Jorge (Akdorge), quis ser retratado de forma a personificar o santo, o “vencedor da Tarasca”, o “matador de dragões” (representados nas serpentes calcadas pelas patas do cavalo no monumento, ademais os dragões também são serpentes aladas), o Vigilante Silencioso da Pátria Lusitana, assim mesmo assegurando a marcha precessional do Sol (Ulisses) do Oriente ao Ocidente (figurados no pedestal da estátua, respectivamente, no Elefante, ou Fama, e no Cavalo, ou Triunfo), no justo exercício de Rei do Mundo ou Imperador Universal (Melkitsedek ou Ckakravarti).

Os pontos a que nos referimos para a formação das linhas do Compasso e o Esquadro, estabelecem-se com as duas Praças, Figueira e Rossio, ligadas ao Terreiro do Paço pelas Ruas do Ouro e da Prata indo unir-se no Cais das Colunas (da autoria de Eugénio dos Santos, sob o nome Cais das Colunas Tágides, desconhecendo-se a data exacta da sua construção), à beira Rio Tejo, surgindo disso um Esquadro ou Triângulo invertido (expressivo do Mundo Terrestre, do Terceiro Logos, dos Manasa-Putras ou “Anjos do Seio da Terra”). O formato do Compasso ou Triângulo Equilátero (expressivo do Mundo Celeste, do Segundo Logos, dos Matra-Devas ou “Anjos do Seio do Céu”), é marcado pela união dos torreões, poente e nascente do Terreiro do Paço ou Praça do Comércio, com o próprio eixo do Arco da Rua Augusta.

A  noção de Rei do Mundo ou Rei-Sol (cognome também dado a D. João V, idealista do Quinto Império e que dividiu Lisboa em Oriental e Ocidental, dando-lhe carácter andrógino) também compadece com o significado que o Selo de Salomão representa na linguagem hermetista. Assim, desvelando o Selo de Salomão na sua simbologia, temos:

Os 4 Elementos

1. Quatro Elementos

A União dos Opostos

3. Planetas e os Metais

Os Planetas e os Metais

3. Planetas e os Metais

Sendo o Hexalfa representativo da relação entre os metais e os planetas, o próprio centro do símbolo expressa o Sol-Ouro manifestando o intuito supremo da Alquimia: a transformação do imperfeito, do que se encontra na periferia, na Perfeição Única, ou seja, a redução do múltiplo a Um. Este aspecto está em conformidade com o significado do que representa São Jorge ou Akdorge, o Rei do Mundo ou Rei-Sol, o unificador dos extremos Oriente-Ocidente num só ponto: a “Lisboa Andrógina”.

O facto dos elementos da Natureza serem representativos do Selo de Salomão, quando analisamos a geografia do local não deixa de nos surpreender que o elemento Água encontre-se exactamente sobre o Tejo, no Cais das Colunas. Logo, se o oposto dessa é o Fogo, o local no Terreiro do Paço onde este se localizará é precisamente o Arco da Rua Augusta. Ora, este facto está totalmente de acordo com a perspectiva de Iniciação do Arco, explicada anteriormente, pois é através do Fogo (neste caso Externo, que irá despoletar o Fogo Interno, o Fogo Purificador ou Transformador do indivíduo) que todo o Magistério se realiza. No fundo, é através do Fogo que toda a Obra se inicia e acaba, é através dele que todo o processo iniciático se desenrola. Além disso, o Selo de Salomão para a Alquimia e a Teosofia é corrente o seu uso sob a forma de “Estrela Sinete” (Sri Yantra), funcionando como uma Estrela ou Força celestial que ilumina os homens sábios e lhes indica o caminho, como aos Reis Magos no Oriente (G. Gichtel, Teósofo seguidor de Jakob Böhme e que editou os trabalhos deste último em 1682-83).

 

O Magistério da Rua Augusta

 

Ao continuarmos ao longo da Rua Augusta, atravessando as suas transversais, deparamo-nos com a figura fixa numa esquina “vivendo” desapercebida ao olhar do imenso número de pessoas que ali passa todos os dias com os mais diferentes propósitos. A figura é uma águia, magistralmente de asas abertas e com as suas garras pousadas nas labaredas de uma chama densa e forte, patente na Rua de São Nicolau.

Quando verificamos o número de ruas existentes desde o início do Arco do Triunfo até ao final da Rua Augusta, confirmamos serem sete. Isto leva a pensar que não foram abertas ali ao acaso e que antes possuem um significado específico, apesar de velado. Para mim, o significado esotérico de toda a Rua Augusta prende-se com um trajecto iniciático de carácter alquímico. Não esqueçamos que as ruas laterais à Rua Augusta são a Rua do Ouro (que também me faz lembrar a famosa rua do mesmo nome onde o imperador romano-germânico Rodolfo II, grande adepto da Arte Real, tinha a sua fortaleza em Praga e nela alojou, certa vez, cerca de duzentos Alquimistas) e a Rua da Prata, e tal como Olímpio Neves revelou, na sua Lisboa à luz dos seus Arcanos, trata-se de um caduceu. Tradicionalmente, o caduceu apresenta-se com duas serpentes branca e negra (Sol e Lua, Ouro e Prata) entrelaçadas ascensionalmente ao longo de um bastão (o bastão de Hermes), terminando viradas uma para outra em sentido oposto e com duas asas de anjos no seu topo. Aqui, as serpentes ou ofiússas representadas nas artérias principais da Baixa Pombalina, são exactamente as artérias pelas quais flui a Energia Vital Serpentina (Kundalini) desdobrada nos seus dois aspectos complementares: o lunar (Apana), que é frio e passivo, e o solar (Prana), que é quente e activo. O bastão central ou de Hermes (Rua Augusta), é o canal de fusão e síntese dessas duas forças polares (Sushumna). Assim, as três artérias representam o seguinte:

Rua Augusta = Andrógina (conduto central – SUSHUMNA – da Energia Vital ou PRANA). Hierarquia: ASSURAS (Arqueus). Planeta: Mercúrio em Saturno (Terra).

Rua do Ouro = Masculina (Conduto lateral direito – PINGALA – da Energia Eléctrica ou FOHAT). Hierarquia: AGNISVATTAS (Arcanjos). Planeta: Sol.

Rua da Prata = Feminina (Conduto lateral esquerdo – IDA – da Energia Electromagnética ou KUNDALINI). Hierarquia: BARISHADS (Anjos). Planeta: Lua.

caduceu da baixa pombalina

Quando falamos do significado do caduceu, dando-lhe o significado teúrgico inédito, reservando o principal para outro lugar, mesmo assim sabemos muito bem que muitas vezes este símbolo é confundido por inúmeras entidades ou instituições que, todavia, aproveitam a sua imagem como logótipo ou emblema representativo. Não querendo virar o tema discussão, a verdade é que este signo mercuriano representa o Deus Hermes da Grécia Antiga, o Mensageiro dos Deuses, o Portador do Verbo, o Anjo da Palavra com que liga (e desliga) o Céu e a Terra, sendo a referência mais importante da linguagem hermetista e que inclusive caracterizou a aparição da figura do Patrono da Alquimia: Hermes Trimesgisto, o “três vezes Grande” – pelo Corpo (Sal), pela Alma (Mercúrio) e pelo Espírito (Enxofre). Logo, a confirmação do carácter alquímico das artérias principais da Baixa fica claramente implícita.

Ficando esclarecida essa parte da gnoseologia hermética da Baixa Pombalina, resta agora interpretar interna e paralelamente a Rua Augusta e o significado que encerra. Então, como foi afirmado, temos que a figura alada que se encontra nessa artéria e esta mesma junta às ruas (paralelas), fazem chegar à conclusão de que a Rua Augusta é a representação exacta do Magistério que conduz à obtenção da Pedra Filosofal.

 

As Três Etapas da Grande Obra na Rua Augusta

 

Em termos gerais, existe o acordo que a Grande Obra é caracterizada por três partes: o Nigredo, o Albedo e o Rubedo. No entanto, alguns defendem uma fase intermédia do Albedo para o Rubedo chamada Citrinitas, e outros ainda consideram uma quinta etapa, a Viriditas. Contudo, as três primeiras são aquelas geralmente referenciadas e lhes atribuída uma cor, tendo-se assim o preto, o branco e o vermelho, respectivamente. Igualmente na Cosmologia hindu encontramos designações para essas diferentes fases, nas referências à descensão, ascensão e expansão da Luz, tomando as designações Tamas, Rajas e Satva. Além desta divisão em três etapas e respectivas cores, também temos outra divisão em Obra Menor e Obra Maior, na qual a primeira caracteriza a espiritualização do Corpo e a segunda a corporização do Espírito ou a “fixação do Volátil”, na linguagem técnica da Alquimia.

 

1.ª Etapa – Nigredo

 

Para compreendermos as três Etapas da Grande Obra, iremos analisá-las em separado em conformidade com o pensamento unitário que caracteriza a Alquimia observada por duas vertentes, ainda assim interligadas: por um lado, a operação física dos metais, e por outro, a operação espiritual e o seu significado.

Do ponto de vista laboratorial, operativo, o que de momento podemos aferir, posto que muitas das operações alquímicas estão envoltas num enorme mistério por os Alquimistas guardarem segredo, serão as operações metálicas expostas de forma muito genérica. Além disso, o modus operático que iremos descrever pertence à Via Húmida alquímica (cuja duração é de 28 meses filosóficos), pois há outras Vias (a Seca, por exemplo) para chegar à obtenção da Pedra Filosofal.

Na realização da Grande Obra, o seu início é feito através da Prima-Materia ou Matéria-Prima, a Matéria dos Sábios ou Dragão Vermelho, o qual será submetido a um tratamento alquímico para se retirar os dois princípios antagónicos contidos na Matéria caótica e corrupta – Enxofre e Mercúrio – através do Fogo Secreto ou o Primeiro Agente, o Princípio Ígneo espiritual simbolizado pela Salamandra (Sal+Mandra), que alguns autores afirmam ser um “Sal duplo”.

Na cocção da Matéria, o seu “reincruamento” caracteriza a separação ou dissolução (Solve) dos dois Princípios antagónicos que estão unidos, o Enxofre (Espírito, Activo-Masculino, Fixo) e o Mercúrio (Alma, Passivo-Feminino, Volátil) junto com o Sal (Corpo, Coagula), através de uma disputa brutal indo atingir-se o estado caótico que leva à putrefacção da Matéria. Nesta operação, o Alquimista “parte o ovo com a sua espada” (bem ilustrada na Atlanta Fugiens, de Michael Maier), característica principal da Etapa do Nigredo, também designada de Corvo (devido à cor preta, e que só por “acaso” é a ave augure de Lisboa), para que dela renasça um novo estado, uma nova vida, uma mais ampla consciência.

Do ponto de vista espiritual, a Iniciação do Neófito também se caracteriza por uma Morte e uma Ressurreição simbólicas. O conflito, neste caso, verifica-se na batalha que se estabelece entre os dois princípios opostos do indivíduo, o Inconsciente e o Consciente, onde este para obter a sua “Matéria-Prima” necessita “visitar” o seu interior, o seu Corpo, o seu próprio Caos ou as suas “Águas Primordiais” (segundo Carl Jung), o Akasha ou Éter de onde a Vida começou, para puder encontrar a Pedra Oculta, a Força Vital, a Alma ou Anima (ou Animus, no caso do homem), de forma a ser posteriormente iluminada pelo Espírito e assim transformar o Corpo material em Corpo Glorioso, Corpo Iluminado, Corpo Consciente, Corpo Imortal ou Vas Insignis.

Assim, o Neófito necessita de “morrer” simbolicamente para puder “ressuscitar”, precisa de descer aos “Infernos” para conseguir “elevar-se aos Céus”. Para que esse processo ocorra, a sua Consciência deve ser subtraída aos sentidos imediatos e voltar-se para Si mesma, para o seu interior, e nessa obscuração libertar-se de tudo quanto é “corrupto” e “corruptível”, mortal em seu Corpo e Alma, situando-se num estado onde não têm “apoios” nem “terra debaixo dos pés”, para descobrir a sua verdadeira Essência, para então a trabalhar e transformar, isto é, a manifestar e expandir.

Isso vai exactamente de encontro à sigla V.I.T.R.I.O.L (Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem), palavra misteriosa de 7 letras da Tradição Hermética, que traduzida do latim significa: Visita o Interior da Terra Rectificando encontrarás a Pedra Oculta. No fundo, este objectivo vai de encontro ao Ideal supremo da Maçonaria: o polimento da Pedra Bruta da Personalidade humana para que se transforme na Pedra Polida Pontiaguda (Lapis) da sua Individualidade espiritual que, neste caso, será a Pedra Filosofal (Lapis Philosophorum).

A Ressurreição também está presente na tradição Maçónica, como referência ao lendário Arquitecto do Templo de Salomão, Hiram Abiff, assassinado por não ter revelado os segredos de construção da Arte Real aos seus Aprendizes, sendo o Ritual simbólico realizado como forma de eleger um novo Mestre, para que este para dê continuidade ao drama da Morte e Ressurreição na infindável Cadeia das Necessidades, até que se liberte de vez, se torne efectivamente um Mestre Perfeito como Hiram o foi.

 

A Águia Alquímica

 

Após a renovação da Matéria, é necessário a “limpar” através das destilações, tal como Ireneu Filaleto utiliza na Entrada Aberta ao Palácio Fechado do Rei, de forma que o Corpo fique então totalmente purificado. Por vezes esta fase é confundida com a designada “sublimação”, pois que ainda se está na fase do Nigredo, tal como Nicholas Flamel a descreve no Livro dos Hieróglifos: “a matéria é negra e liquida […] esta água desce, reduz o mais que pode o resto dos ingredientes, até tudo ficar como que uma mistura cozida e negra. Por este motivo se denomina a este processo sublimação e volatilização, já que voa para o alto”. O processo de destilação, no simbolismo alquímico, é designado de “Águia”. Ora, ao percorrer-se a Rua Augusta e após quatro ruas a partir do Arco do Triunfo, mais especificamente na Rua de São Nicolau, encontra-se a Águia de asas abertas, como que estivesse a ascender ou a voar de uma labareda que se encontra por baixo dela. Imagem que faz lembrar de imediato duas coisas: a Fénix e a Águia alquímicas, que estão plenamente em comunhão com a segunda Etapa do Magistério, o Albedo, pois a Matéria renasceu tal como a Fénix renasce do Fogo, sendo o início da segunda fase designado de Águia.

A Águia Filosófica da Rua Augusta A Águia Filosófica da Rua Augusta

Além disso, essa figura também se inscreve na sinalética esotérica descritiva da Lisboa Mítica como a Águia Flamejante de São Nicolau, tal como o autor Vitor Manuel Adrião, no seu Guia de Lisboa Insólita, defende muito bem. Passemos a citá-lo:

O seu simbolismo transfere para o tema da translatio imperii, isto é, da translação dos impérios ou poderes, tradicionalmente, segundo a tese perfilhada pelo Padre António Vieira, sendo cinco: Assírio, Persa, Grego, Romano e Português, o que já antes Luís de Camões vaticinara em Os Lusíadas, VI, 7: “Via estar todo o céu determinado / De fazer de Lisboa nova Roma / Não o podendo estorvar que destinado / Está de outro poder que tudo doma”.

Isso está de acordo com as três Idades do Mundo da tese trinitária do cisterciense Joaquim de Flora, no século XIII, indo manifestar-se em simultâneo com a marcha precessional do Sol do Oriente para o Ocidente, incidindo em três Centros urbanos principais: a Idade do Pai correspondeu ao Ciclo do Carneiro incidindo sobre Jerusalém; a Idade do Filho corresponde ao Ciclo de Peixes e a Roma; a Idade do Espírito Santo corresponderá ao Ciclo de Aquarius auspiciando Lisboa.

Estando Portugal sob a égide do signo Peixes e do planeta Júpiter, este entre os antigos era figurado pela águia, o que vem dar a esta em questão o sinal imperial de Lisboa capital do desejado Quinto Império do Mundo, a nascer (donde Natal e Nicolau) nesta cidade mais ocidental da Europa, segundo a Utopia que vai se fazendo.

O facto de esta ave estar sobre chamas, tem o sentido místico de Iluminação Espiritual da Alma Ibérica, península sob a égide do Sagitário e de Júpiter, desde o seu Centro fundamental que é Lisboa, sendo a águia a única ave a poder fitar o Sol de frente por possuir dupla pálpebra, logo, é ave solar. A legenda latina dos hermetistas ocidentais, Ignis Natura Renovatur Integra, “Pelo Fogo se Renova a Natureza inteira”, ganha novo alento aqui: tal como a fénix renasce das cinzas, segundo o mito, igualmente a águia ulissiponense renasceu das chamas destruidoras provocadas pelo terrível terramoto de 1755, ganhando outra e mais moderna feição graças ao pragmatismo modernista do Marquês de Pombal que parecia antever já uma nova Lisboa, ao desinibi-la do passado e igualá-la às mais modernas capitais europeias.

 

2.ª Etapa – Albedo

 

Nesta Etapa, operacionalmente “corta-se a cabeça do corvo” para se atingir a cor branca. Com um controlo exímio do Fogo obter-se-á o Mercúrio Comum, o Alkaest (termo também utilizado por Paracelso para designar o Fogo Secreto), e posteriormente conseguir-se-á o Enxofre Filosófico através do reaproveitamento da “casca” ou a “cinza” que se formou na Etapa do Nigredo, de forma que o Alkaest reanime o Enxofre “morto”. Deste ter-se-á os constituintes necessários para se alcançar o mais importante desta Etapa, o Mercúrio Filosófico, também chamado Rebis (esta operação mantém-se em grande sigilo). Operação que se baseia na junção dos dois compostos obtidos anteriormente – Enxofre Filosófico e Mercúrio Comum ou Dissolvente Universal – e submetendo-os a uma cocção muito lenta catalisada pelo Fogo Secreto, dar-se-á a chamada “Núpcia Química”, o “Casamento do Irmão com a Irmã” ou “Casamento do Rei com a Rainha”, concretizando-se então o Grande Arcano da Alquimia, a união dos opostos, neste caso a união do Fixo ao Volátil. Então, é assim que o “Rei ressuscita da morte” e “casa com a Rainha”, terminando assim esta segunda Etapa do Albedo. No nosso percurso ao longo da Rua Augusta, tal aspecto (União do Rei com a Rainha) está representado por duas artérias paralelas a ela, as Ruas do Crucifixo e da Madalena.

Fonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, LisboaFonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Tendo sido a Etapa anterior uma “descensão aos Infernos”, uma “visita ao Interior da Terra” e o encontro da “Pedra Oculta”, que também foi uma Morte simbólica, consequentemente essa Etapa foi presidida por Saturno por representar a “Noite Saturnina”, a Morte (neste caso, pelo sacrifício da Matéria) ou separação dos dois Princípios antagónicos sob a sua foice. Esta Etapa posterior, o Albedo, é simbolicamente presidida por Júpiter, pois no campo espiritual representa a “Ressurreição”, a “Ascensão aos Céus” graças ao estado de Consciência que se alcançou, que até aí era inacessível ao indivíduo na sua condição normal. A Alma elevou-se, evolou-se da “prisão” mais recôndita da “Terra”, ressurgindo da “Noite” do Caos desenvolvendo e manifestando a sua força máxima… a Vida vence a Morte.

O processo acima descrito, espiritualmente ocorre essencialmente pela incorporação da Luz Absoluta pela própria Individualidade, cujo rejuvenescimento do Corpo desenvolver-se-á através do contacto com a sua Força Vital, Força profunda do seu Ser Anímico ou Alma, definido assim a espiritualização do Corpo, e posteriormente, após “lavar-se”, “purificar-se” ou “branquear-se” esse, estará então preparado para a unificação, coagulação, condensação, “fixação do Volátil”, ou seja, a corporização do Espírito, tornando-se assim um “Ser Imortal”, um “Homem Regenerado”. O mesmo é afirmado na Turba dos Filósofos: “Os Espíritos não se unem aos Corpos senão depois de estes terem sido perfeitamente purificados das suas impurezas”.

 

3.ª Etapa – Rubedo

A Núpcia Química

 

O Rebis, do ponto de vista operativo, no fundo é a “coisa dupla” da matéria da Pedra Filosofal, é o Andrógino Alquímico, a sua essência primaz que possui o poder absoluto de dissolver, mortificar, e destruir os Corpos, de os dissociar, separar as suas porções impuras das puras, uni-los aos Espíritos e, por consequência, gerar novos seres metálicos diferentes dos seus originais. Entramos, então, na última Etapa do Magistério, o Rubedo.

A Matéria submetida a “regimes” específicos de calor com adição de Fogo Secreto, irá chegar ao Enxofre Vermelho, que sofrerá a multiplicação enriquecendo-se a Matéria até ao estado de Elixir, sendo este um estado primário da Pedra Filosofal. Este é levado ao vermelho, no fundo ao rubro (purpurado), onde apresentará as características de irredutível e absolutamente impermeável à acção dos agentes químicos, como explica Fulcanelli.

A confirmação se a Pedra Filosofal foi atingida ou não, surge com a criação do Pó de Projecção para realizar-se a transmutação de um metal vulgar em Ouro, processo chamado Crisopeia. No entanto, a finalidade de alcançar a Pedra Filosofal também e sobretudo tem uma intenção mais altruísta e espiritual que a ambiciosa e material da simples produção de ouro (que levou muitos alquimistas ou pseudo-alquimistas, assopradores, a serem presos e torturados por governantes cobiçosos dos seus segredos, ainda mais ambiciosos que eles): a Panaceia Universal, a Medicina Universal, o Ouro Potável, a Fonte da Eterna Juventude. Essa seria produzida através de uma destilação da Pedra Filosofal por um “espírito” (termo para designar um álcool), que após tomado iria rejuvenescer o corpo de forma a atingir a juventude eterna (o pensamento profano contemporâneo acredita tratar-se exclusivamente do rejuvenescimento celular do organismo, ignorando que para se alcançar a Imortalidade física tem primeiro de passar-se pelo fenómeno natural da Morte, pois sem esta não há Ressurreição. A própria Igreja Católica fala disto, mesmo não entendendo nada de tamanho Mistério Kumárico, antes, Manasaputra a ver com a “Ressurreição dos Corpos” e os “Vasos Insignes de Eleição”).

5. FIG2.RosariumPhilosophorum,séculoXVI

Do ponto de vista espiritual, como foi referido anteriormente, trata-se de consumar a corporização do Espírito, da associação, união, junção, “casamento” do Espírito com um Corpo “lavado”, purificado, para se atingir aquilo a que a Grande Obra se propõe: a Crisopeia e a Panaceia Universal, pois todo este processo centra o Corpo na Força Vital (também chamada Alma, Anima, Caijah, Pedra Oculta, etc.) que foi resgatada, purificada e reunida ao Espírito, ocorrendo a transmutação espiritual de um “corpo vil” ou “obscuro” (chumbo) num “corpo nobre” ou “iluminado” (ouro). Trata-se a passagem da Lua para o Sol, da Anima para o Animus, de Psique para Eros. Com isso, o Corpo regenerado faz-se Imortal, pelo facto da Força Vital também ser imortal, eterna como uma chama que não se apaga, uma Chama Eterna (a Mónada Divina). Nicholas Flamel na culminação da Grande Obra, afirmou: “(…) É como um leão que devorasse toda a natureza impura e metálica e a transformasse na sua própria substância, quer dizer, em ouro verdadeiro, mais puro do que o das melhores minas (…)”.

6. FIG3.RosariumPhilosophorum,séculoXVI

Assim, podemos resumir todo o Magistério Alquímico nos imóveis descritos anteriormente, da forma seguinte:

ARCO DO TRIUNFO = “Separação” (Initio) – Nigredo. Símbolo: Corvo.

ÁGUIA FLAMEJANTE = “Destilação” (Medius) – Albedo. Símbolo: Águia.

CRUCIFIXO-MADALENA = “União” (Finis) – Rubedo. Símbolo: Caduceu.

A Escada e o Magistério

7 Ruas – 7 Fases

Quando falamos de Magistério, obrigatoriamente é implícito todo um percurso árduo caracterizado por fases, etapas, graus, etc., que assumem um sentido de ascensão, de subida, de alcançar a Transcendência, a Iluminação, de busca da Perfeição, do Bem, do Bom e do Belo, do Divino, enfim. Assim, é natural que simbolicamente se assumam símbolos que retratem esse aspecto. Na Alquimia, como também na Maçonaria, tal como noutras tradições antigas, esse símbolo de Iniciação é caracterizado por uma Escada (por exemplo, a Escada de Jacob). Relativamente à Alquimia, é inevitável referir a obra de Fulcanelli, o grande Alquimista do século XX, intitulada Le Mystère des Cathédrales. Nesta, o autor enfoca no pórtico principal da Catedral de Notre Dame, Paris, a sequência de 12 altos-relevos dos finais do século XIII, que afirma tratar-se de representações alquímicas. Entre eles há um medalhão que é a configuração antropomórfica da própria Alquimia.

7. Simbolo da Alquimia, Catedral de Notre Dame, Paris

Essa figura andrógina expressiva do Rebis ou Melkitsedek, prefigura a Alquimia e ostenta dois livros, um aberto e outro fechado, representando o conhecimento exotérico e o conhecimento esotérico, respectivamente. Ademais, apresenta diante de si a escada simbólica, a qual parece ter duas interpretações. A primeira, refere-se a ela como a paciência que o Alquimista necessita ter para conseguir ao seu topo, ou seja, à obtenção da Pedra Filosofal. A segunda, mais imediata, afirma que os seus nove degraus poderão representar as 9 operações principais necessárias para se alcançar o final da Grande Obra.

As 9 operações estão de acordo com os 9 meses de gestação do feto no ventre da mãe. O ventre, para os Alquimistas, tem mais do que o simples significado de matrás, “vaso de vidro” ou retorta, pois que nesta dispõem a geração do Mercúrio Filosófico, intencionalmente referindo-se sempre ao “Delfim Filosófico que é alimentado no Ventre da Mãe”, pois é nele que se dá o processo de Criação. Significativamente, o Terreiro do Paço apresenta por cima dos seus arcos ou arcanos tarôticos “cabeças de delfim”…

Em plena Baixa Pombalina tem-se a Escada do Céu, Scalae Coeli, prefigurada no Templo Cristológico e Graalístico de Santa Maria Maior, vulgo Sé Patriarcal, levando de nome oculto ou secreto “Templo da Luz” e de nome magisterial ou sacerdotal “As Três Luzes ou Chamas”.

Contudo, quando analisamos as diferentes interpretações relativas à noção de escada, constatamos que esta apresenta diferentes visões consoante os autores que debatem o assunto. Vejamos alguns exemplos:

Raimundo Lúlio (1235-1315), o Doctor iluminatus, hermetista e alquimista espanhol, amigo de Arnaldo de Vilanova (dois grandes pilares da Alquimia medieval) e verdadeiro Adepto da Arte Real (sendo que se afirma que alcançou a Pedra Filosofal), apresenta na sua De nova logica (documento com a data 1512, o que induz à crença dele não ter morrido na data citada acima) uma escada com nove degraus pela qual Sophia (a Sabedoria) avança pelos diferentes Reinos (tendo a Intuição como guia) até Deus, através do instrumento ars generalis, e aí constrói a sua morada. Além dessa, também no seu Breviculum (século XIV) apresenta nove filósofos que encarnam as nove dúvidas que podem advir dos nove Reinos-objectos do Universo, estando enumerados na primeira escada da pintura.

A Escada de Jacob foi a que apareceu em sonhos ao patriarca bíblico e lhe dava acesso ao Paraíso Celestial, sendo percorrida acima e abaixo pelos Anjos de Deus. A Musurgis universalis de Athanasius Kircher (1601-1680), obra de 1662, apresenta na sua divisão das regiões superiores do Cosmos, aproveitando o modelo da Escada de Jacob, nove coros de Anjos.

A escada do número dez de Agrippa (1486-1535), apresenta-se dividida horizontalmente em seis degraus, desde o Mundo Subterrâneo através do Mundo dos Elementos até ao Mundo dos Arquétipos, com os dez Nomes de Deus e as suas “Emanações”, as dez Sefiroths (Agrippa von Nettesheim, De occulta philosophia, 1510).

Segundo a escada apresentada por Robert Fludd (1574-1637), a organização das diversas faculdades do conhecimento do Homem dispõe-se sobre seis degraus e resumem-se à percepção, sensação, imaginação, razão e análise, sendo o último degrau a compreensão directa da Palavra Divina através da meditação (verbum). A escada em si não vai além do próprio Deus (R. Fludd, Utriusque Cosmi, Vol.II, Oppenheim, 1619).

Como vimos anteriormente, o símbolo ou representação da escada prende-se com o conceito de Iniciação, pois com esta o neófito ascenderá dum Plano inferior para outro superior, elevado, considerado Divino, e para o fazer terá que passar por várias provas (degraus) a fim de atingir o topo, o Nível Superior. Quando analisamos figuras que dizem respeito à Iniciação na Maçonaria, verificamos sem qualquer espanto que a escada também está presente e que os degraus que constam nela são nada mais e nada menos do que sete. Na imagem específica que apresentamos, respeitante à tábua ou painel do 2.º Grau da Maçonaria – Companheiro – estão presentes os sete degraus e o arco, exactamente como está estabelecido no conjunto Arco Triunfal+Sete Transversais da Rua Augusta.

8. Tábua do Segundo Grau, J Bowring, 1819

Tendo em conta que Arte Real também é figurativa do objectivo supremo da Maçonaria Hermética (transformar a “Pedra Bruta” em “Pedra Polida Pontiaguda”), tal facto está em consonância com a designação igual de Arte Real dada à Filosofia Alquímica (transmutar o “Chumbo” em “Ouro”). Assim, justifica o número sete respeitante ao objectivo Maçónico: o alcance da Perfeição do Homem operada através da Via Alquímica.

Contudo, quando verificamos o significado do número sete na Alquimia, ele apresenta-se inúmeras vezes ligado não só ao número das operações principais (bastante bem ilustradas no Splender Solis, de Salomon Trismosin, século XVI) que são necessárias realizar para chegar ao fim da Grande Obra, mas também às operações intermédias nas diferentes etapas. Wiliam Blake falava nas “7 fornalhas da alma”, referindo-se às sublimações atribuídas a Saturno, ou seja, durante a Etapa do Nigredo. Temos as 7 destilações necessárias no Albedo, tal como dizia Ostanes ou Ostano, Alquimista da Antiguidade helénico-alexandrina, e tal como Raimundo Lúlio falou, dizendo que para se atingir a Água Divina era necessário rectificá-la 7 vezes, por sua vez afirmando Nicholas Flamel que para purificar a “cabeça do corvo” era necessário mergulhá-la 7 vezes no rio Jordão. Igualmente temos as 7 fases ou “regimes” de calor pelos quais passa o Rebis na Etapa do Rubedo para se atingir a Pedra Filosofal.

No fundo, o número das sete ruas que constituem as transversais da Rua Augusta são simbolicamente as sete operações principais da Grande Obra, representando igualmente as sete operações intermédias de cada fase (7 sublimações – Nigredo; 7 destilações – Albedo; 7 multiplicações – Rubedo) necessárias para alcançar a meta final do Magistério, a Pedra Filosofal. A pintura abaixo sintetiza muito bem as principais fases da Alquimia em forma de escada, justificando tudo quanto ficou exposto.

9. Cabala, S. Michelspacher, Augsburg, 1616

Ainda segundo a perspectiva tradicional, iniciática, tendo presente o pensamento e pretensão manifesta do Universo Alquímico (Macrocosmos-Microcosmos, o Todo-Tudo, o Uno-Unidade), percorrendo essas sete ruas transversais da Rua Augusta, simbolicamente elas poderão representar os 7 Chakras (Centros Vitais) que o Homem possui no “interior” do seu Corpo Vital, que no Físico denso são as Glândulas, e que o percurso deles, de baixo a cima, acaba por ser o percurso que a “Serpente” Kundalini (o Fogo Secreto, o Fogo Criador do Espírito Santo) realiza ao longo da coluna vertebral, até chegar ao topo e atingir o estado mais elevado de Consciência. Assim, a planta gnoseológica da Baixa Pombalina, ficará completa:

Rua Augusta = Andrógina (conduto central – SUSHUMNA – da Energia Vital ou PRANA). Hierarquia: ASSURAS (Arqueus). Planeta: Mercúrio em Saturno (Terra).

Rua do Ouro = Masculina (conduto lateral direito – PINGALA – da Energia Eléctrica ou FOHAT). Hierarquia: AGNISVATTAS (Arcanjos). Planeta: Sol.

Rua da Prata = Feminina (conduto lateral esquerdo – IDA – da Energia Electromagnética ou KUNDALINI). Hierarquia: BARISHADS (Anjos). Planeta: Lua.

Rua do Crucifixo = Expressa o cordão simpático a ver com a Rua do Ouro, ou seja, o conduto etérico que reveste PINGALA – VAJRINI. Princípio Masculino. Hierarquia: JIVAS (Homens). Planeta: Marte.

Rua da Madalena = Expressa o cordão simpático a ver com a Rua da Prata, ou seja, o conduto etérico que reveste IDA – CHITRINI. Princípio Feminino. Hierarquia: JINAS (Adeptos). Planeta: Vénus.

 

Conclusão

 

Se até aqui têm estado representadas todas as operações materiais da Grande Obra, resta saber onde está o resultado dela, ou seja, a Pedra Filosofal. E até neste aspecto Lisboa torna-se uma cidade magnífica por também possuir, segundo a minha interpretação, a Pedra Filosofal representada nela, em conformidade ao pensamento sagrado e até religioso da Cosmologia que tradicionalmente era aplicada no esquisso arquitectónico das cidades, centralizadas no Mundus, cuja cruzeta era o Cardus e o Decumanus, e que é herança fidedigna da Tradição Hermética aos arquitectos e geómetras da Antiguidade até um período bastante recente (meados do século XVIII, sendo Lisboa a última cidade europeia a ser construída segundo a Arquitectura e Geometria Sagradas, inclusive tendo servido de modelo para a edificação da norte-americana cidade de Washington). Tal como Roma foi uma cópia de Jerusalém, como afirmou o padre jesuíta Athanasius Kircher na sua Arithmologia (Roma, 1665), o mesmo autor do Mundus Subterraneus, também para Lisboa houve a pretensão de que fosse a Nova Jerusalém Celeste descida à Terra através do “Rei-Sol” D. João V, quando obteve autorização do Papa Clemente XI para criar o Patriarcado de Lisboa, que sempre esteve em oposição ao Bispado de Roma, o que valeu ao monarca uma excomunhão (mais tarde retirada).

Após o terramoto de 1755, Carlos Mardel e a sua equipa de arquitectos remodelou a cidade entre o Rossio e o Terreiro do Paço, prosseguindo assim a tradição romana do Mundus e indo caracterizar a “Lisboa Quadrada”. Já antes, reinando D. João V, Lisboa havia sido dividida em Oriental e Ocidental, do modo a distinguir a Autoridade Espiritual do Poder Temporal, ficando com dois hemisférios sobre as sete colinas para que assim se revelasse cidade sagrada e caput mundi, “cabeça do mundo”, conformada às profecias bíblicas que foram sabiamente interpretadas e ajustadas pelo Padre António Vieira ao tema do Quinto Império e da sua capital universal, Lisboa.

Sendo o Omphalos o “Umbigo” do Mundus, o Centro do Universo do qual este nasceu e cresceu, assim também a Pedra Filosofal, visto ser a Matéria Primordial de todo o Cosmos. Enquanto isso, a realização da Grande Obra é operada no sentido inverso, no retrocesso ou contracção da expansão do Universo, a fim de obter o estado mais puro, perfeito e original da Matéria. O Omphalos de Lisboa localiza-se no Rossio, sendo este o ponto central (Mundus), o ponto zero de todas as direcções da cidade ao país, mas também para onde convergem todas as direcções, e a partir do qual ela cresceu e expandiu (depois de 1755) através dos seus quatro pontos cardeais. Ora o ponto central da Praça do Rossio é onde está a coluna monumental com a estátua de D. Pedro IV, que traz na mão direita a Carta Constitucional de 1826 (29 de Maio), sustentado rés-do-chão pela guarda de quatro figuras emblemáticas, caracterizando então o Axis Mundi, o “Pilar ou Canal de ligação do Céu e a Terra”, a “rotura dos níveis”, como também Mircea Eliade afirmou. Esta obra foi adjudicada ao escultor Elias Robert e ao arquitecto Gabriel Davioud, ambos franceses.

Do ponto de vista esotérico, segundo o autor Vitor Manuel Adrião, as quatro estátuas em volta da coluna, com trajes solenes greco-romanos, representam os Guardiões do Mundo orientados nas quatro direcções do Globo, onde cada uma apresenta um naipe do baralho, ficando assim: paus, espadas, ouros e copas. A estátua do rei D. Pedro IV de Portugal e I Imperador do Brasil (4+1 = 5 = Pentalfa igual ao Infinito), fica assim representando o Quinto Guardião ou Regente do Mundo, posto que um “Imperador é Rei de reis”. Ainda segundo a tradição cabalística judaico-cristã, iconograficamente eles apresentam-se como os “Quatro (Cinco) Anjos Coroados” com os nomes de Rafael, Mikael, Auriel, Gabriel (e Anjo Custódio). As direcções que assumem as quatro estátuas, ainda de acordo com o mesmo autor, vão coincidir com determinados pontos característicos da Baixa de Lisboa. Assim, a estátua que segura na mão direita uma rodela com uma serpente, configurando o naipe ouros, e que é a Prudência, assume a direcção da Gare Central do Rossio, a 56º NW, onde à entrada figura D. Sebastião com a espada e o escudo das quinas; na direcção da Porta de Santo Antão, o “Anacoreta do Deserto”, a qual inclina 17 graus para a direita, está a Temperança com uma taça, que é copas, a 7º NE; a Força, apoiada com uma maça que é paus, direcciona-se, a 40º SW, para o Convento do Carmo; com a espada e a balança, naipe final, temos a Justiça a 25º SE, direccionada à Sé Patriarcal. Por fim, a figura de D. Pedro com o olhar virado para o Arco da Rua Augusta e o Cais das Colunas, está simbolizado o Domínio do Mundo como figuração do Imperador Universal.

10. FIG3.Estátuas do Rossio

No que respeita ainda a esta Arquitectura Sagrada, Michael Maier, em 1616, no seu tratado Circulus Quadratos comparou os quatro pontos cardeais opostos do Omphalos da Jerusalém Celeste com os Elementos que compõe a Natureza, e sabendo que Carlos Mardel aplicou o modelo arquitectónico sagrado romano, Mundus (sendo que Roma foi edificada à imagem de Jerusalém após o século V), o Axis Mundi do Rossio e as quatro figuras (quatro pontos cardeais) que o compõem, acabam por constituir também o Quinto Elemento, a Quintessência, o Éter (preenchendo o Ar respirado pelos Deuses da Mitologia Grega, e que foi utilizado até ao século XIX na propagação da Luz – luminiferous aether) originador dos quatro Elementos da Natureza nos quatro pontos cardeais do Mundo: Ar, Fogo, Água e Terra, ficando estabelecido como coroa do monumento o Imóvel, o Uno, a Unidade do Cosmos (manifestado como Três Mundos: Supramundo, Mundo, Submundo), a Matéria Primordial, no fundo, a Pedra Filosofal.

Também o Alquimista do século XV, George Ripley, associou Jerusalém com as suas 12 portas às 12 fases da Magnus Opus. Em Lisboa não há as 12 portas e sim 12 bairros principais, representativos dos 12 signos do Zodíaco que igualmente regem a Grande Obra, tal como os 7 outeiros ou colinas representam os 7 planetas tradicionais (Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus, Saturno), e particularmente alinhavaram-se as 17 artérias da mesma “Lisboa Quadrada”, ajustando-a ao número 17 do biorritmo de Portugal. A própria figura apresentada anteriormente, Cabala, de S. Michelspacher, faz jus a esse aspecto astrológico e astrosófico que os arquitectos iniciados ao serviço do Marquês de Pombal quiseram preservar.

Além disso Lisboa, aplicando a linguagem hermetista, pode ser mesmo encarada como o Palácio dos Mistérios e Segredos da Grande Obra, a que só os verdadeiros Iniciados terão acesso. Sendo o Terreiro do Paço, de acordo com o que anteriormente foi tratado (Selo de Salomão), a representação microcósmica do Mundus, não deixa de ser a chave ou veículo interpretativo (em conjunto com os 22 Arcos ou Arcanos Maiores do Tarot nele presentes) para “entrar” na Lisboa não profana e desvelada , e sim na Lisboa sagrada e velada, ocultada ou secreta.

Arco Rua Augusta

No geral, o percurso do espaço característico desde Terreiro do Paço ao Rossio, passando pela Rua Augusta (com as pares do Ouro e da Prata), representa toda a Obra Alquímica que se expressa num itinerário iniciático de compreensão simbólica e operação interior do indivíduo, dando contributo à sua TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL, ou melhor, TRANSMUTAÇÃO ESPIRITUAL (“de metal comum em ouro raro”), numa reflexão alusiva à demanda e conquista da Pedra Filosofal, ou por outra, do Santo Graal. Assim, estas três zonas principais da Baixa lisboeta vêm a caracterizar diferentes funções e acções referentes à Grande Obra, tendo como pano de fundo a concepção unitária da Filosofia Alquímica, onde Lisboa (Macrocosmos) e o Lisboeta (Microcosmos) tornam-se um só. Podemos, então, sintetizar os esses espaços imóveis da seguinte forma:

TERREIRO DO PAÇO – A Chave dos Mistérios Alquímicos – Espírito Santo

RUA AUGUSTA – O Magistério Alquímico – Filho

ROSSIO – A Pedra Filosofal – Pai

O Terreiro do Paço, representa o guia e a síntese daquilo que a Grande Obra Alquímica representa e se propõe. Síntese, porque manifesta os princípios da Natureza e a sua união, como sucede com os metais necessários à Obra, representados no simbolismo multifacetado do Selo de Salomão; e guia porque “aconselha” o neófito, operando com os 22 Arcanos Maiores, sobre o trajecto que deverá tomar para que finalmente seja abençoado na consumação do Magistério.

A Rua Augusta, propõe-se como o terreno (ou “retorta”) de operação alquímica da Matéria-Prima (o neófito), com o objectivo de “operar” sobre esta através das diferentes “fases” (ruas) da Obra, de forma a atingir a Perfeição da Matéria, a Pedra Filosofal (o Ouro Puro, o Leão de Fogo, a Iluminação Espiritual).

O Rossio, a própria Pedra Filosofal, a Matéria Primordial erigida sobre os 4 Elementos da Natureza (4 pontos cardeais) constituindo o “Centro do Mundo”, o Axis Mundi, estabelecendo-se a Comunhão, o Uno, a Unidade ou União do Homem com o Divino, a “ligação da Terra com o Céu”, no fundo, o Grande Arcano da Alquimia, a União dos Opostos (“…o que está em baixo é como o que está em cima…”).

Não terá sido por acaso que o ilustre e majestoso artista (e não só) Lima de Freitas pintou em magnífico painel de azulejos, plantado em plena Lisboa, dentro da Gare Central do Rossio, a ilustração intitulada Pessoa e a Serpente, que praticamente resume tudo quanto foi dito até aqui. Enfim, uma imagem vale mais que mil palavras…

Fernando Pessoa

[…] Não precisamos dos sete montes de Roma: também aqui, em Lisboa, temos sete montes. Edifiquemos sobre estes a nossa Igreja […].

 Fernando Pessoa

 FIM

 

Obras consultadas

 

A. M. Amorim da Costa, Alquimia, um Discurso religioso. Colecção Janus. Editora Vega, Lisboa, 1999.

Alexander Roob, O Museu Hermético, Alquimia & Misticismo. Taschen, 2006.

Athanasius Kircher, Arithmologia, Roma, 1665.

Fulcanelli, Le Mystère des Cathédrales. Ed. Jean-Jaques Pauvert, Paris,1964.

Mariano J. Vázquez Alonso, O Universo da Alquimia. Editorial Estampa, Lisboa, 2007.

Michael Maier, Atlanta Fugiens. Oppenheim, 1616.

Michel Saint, Dossieres Secretos da Alquimia. Litexa Editora, Lisboa, 1986.

Mircea Eliade, Forgerons et Alchemistes. Ed. Flammarion, Paris, 1956.

Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano. A Essência das Religiões. Livros do Brasil, Lisboa, edição 2006.

Olímpio Neves, Lisboa à luz dos seus Arcanos. Revista “Graal”, Ano-I, N.º 2/3, Verão-Outono 1982, Sintra.

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Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2009.

Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal. Madras Editora, S. Paulo, 2000.

Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

Vitor Manuel de Adrião, Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império, Via Occidentalis Editora, Lisboa, 2007.

Créditos fotográficos – Autor, Paulo Andrade e “Google”.