Nuno Álvares Pereira, o Santo Guerreiro – Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Out 27 2009 

DSCF2019
Lisboa, 25.10.2009   

  

Nuno Álvares Pereira, também conhecido como o Santo Condestável, Beato São Nuno de Santa Maria ou simplesmente Nun´Álvares (nascido em Cernache de Bonjardim, Sertã, em 24.6.1360, e falecido em 1.4.1431 no Convento do Carmo, Lisboa), foi um nobre e guerreiro português do século XIV que desempenhou um papel fundamental na crise de 1383-1385, onde Portugal jogou a sua independência contra Castela. Nuno Álvares Pereira foi também 2.º Conde de Arraiolos, 7.º Conde de Barcelos e 3.º Conde de Ourém, tendo chegado a Condestável do Exército Português, cargo que hoje equivale ao de Ministro da Defesa, e faleceu com fama de Santo da Ordem do Carmelo. Nuno Álvares Pereira foi um dos dez filhos de D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior da Ordem do Hospital com sede no Convento da Flor da Rosa, Crato, e de D. Íria Gonçalves do Carvalhal, filha de fidalgo. O jovem cresceu na casa do seu pai, na Flor da Rosa, onde viveu até aos 13 anos, tendo aprendido as artes militares e onde ganhou gosto pela leitura, sobretudo pelos livros de Cavalaria “onde a pureza era a virtude que tornara invencíveis os heróis da Távola Redonda”, e assim desejou para si “que a sua alma e corpo se conservassem imaculados”. Sonhou e confessou a sua mãe que também iria ser um Cavaleiro do Santo Graal, que O iria demandar, conquistar e depor no Altar da Pátria Lusitana. Isto confessou a sua mãe, que passou a chamá-lo de “o meu Galaaz”, este o herói da Távola Redonda que, segundo a narrativa, conseguiu apossar-se da Taça Sagrada, sabendo-se que Galaaz é apodo do próprio Cristo

Com essa idade de 13 anos entrou para a corte do rei do D. Fernando I, onde foi feito cavaleiro com uma armadura emprestada por D. João, Mestre da Ordem de Avis. Aos 16 anos, em 15.8.1376, casou-se em Vila Nova da Rainha, Azambuja, com D. Leonor Alvim, fidalga do Minho que enviuvara muito cedo e não tinha filhos. O casamento fora arranjado pelo rei e por D. Álvaro Pereira, a contragosto do filho que não queria casar. Do matrimónio nasceram dois filhos que morreram durante o parto, e uma filha, Beatriz. A mãe não resistiu aos problemas do parto e morreu pouco tempo depois do nascimento da filha, em Janeiro de 1388. D. Nuno Álvares Pereira entregou esta aos cuidados da avó, D. Íria Gonçalves. D. Beatriz casou em 1.11.1401 no Paço de Frielas, Loures, com D. Afonso, filho bastardo de D. João I e 1.º Duque de Bragança, Casa esta que iria ter papel determinante em vários períodos da História de Portugal e mesmo do Brasil Império. 

Quando o rei D. Fernando I morreu em 1383, sem herdeiros a não ser a princesa D. Beatriz, casada com o rei D. João I de Castela, D. Nuno Álvares foi um dos primeiros nobres a apoiar as pretensões portuguesas de D. João, Mestre de Avis, à Coroa. Apesar de ser filho ilegítimo de D. Pedro I de Portugal, D. João afigurava-se como uma hipótese preferível à perda da independência nacional para Castela. Depois da primeira vitória militar de D. Nuno Álvares sobre os castelhanos na batalha dos Atoleiros, em Abril de 1384, D. João de Avis nomeou-o Condestável de Portugal e Conde de Ourém. 

A 6.4.1385 o Mestre de Avis é reconhecido pelas Cortes reunidas em Coimbra como D. João I, rei de Portugal. A resposta de Castela não se fez esperar e invadiu o País com um poderoso exército. A 14 de Agosto desse ano, as forças portuguesas enfrentaram as castelhanas em Aljubarrota. Apesar da desvantagem numérica de 1 português para 10 castelhanos, em menos de uma hora decidiu-se a vitória retumbante dos portugueses graças ao génio militar do Condestável, que desde então e para sempre é o General do Exército Português. 

A batalha de Aljubarrota marcou o fim definitivo da instabilidade política e a consolidação da independência nacional. Em 25.7.1415 D. Nuno Álvares Pereira integrou a armada de 200 navios da Expedição a Ceuta, Norte de África, tendo sido a primeira conquista da época dos Descobrimentos Marítimos, entendida como acto da reconquista cristã e acto de gesta missionária. Foi a última batalha do Condestável. Com 55 anos de idade e riquíssimo, distribuiu os seus bens pelos familiares e pela Ordem do Carmelo, e despojado das riquezas deste mundo, só com um humilde burel, entrou a professar como frade mendicante no Convento de Nossa Senhora do Carmo, em Lisboa. 

No exercício espiritual Frei Nuno de Santa Maria, nome que adoptara quando abraçou a vida religiosa, mostrou-se tão dedicado e bondoso para com todos que todos vinham comer do seu “caldeirão”, isto é, receber as suas esmolas, fossem por conselhos sábios e amoráveis, fossem por moedas, roupas ou comida que esmolara aos ricos para oferecer aos pobres. A sua fama de santo cresceu rapidamente, e ainda em vida atribuíram-lhe milagres. Havia quem dissesse que até ressuscitara mortos… 

Mas Frei D. Nuno não se despojou de tudo: conservou na sua pequena cela a sua espada e armadura. Abraçara a Religião mas não morrera a alma de leão devoto à Pátria. Há uma história fabulosa, invenção apologética do senso patriótico, sobre o embaixador de Castela que o terá visitado no Convento do Carmo e lhe perguntado o que faria se Castela invadisse novamente Portugal? Então o velho guerreiro levantou o hábito e deixou ver que por baixo trazia vestida a sua cota de malha, dizendo com firmeza: “Se el-rei de Castela mover guerra a Portugal, servirei ao mesmo tempo a religião que professo e a terra que me deu o ser”. 

Outra história fabulosa, situada no início da vida monástica de D. Nuno, foi a do boato de Ceuta estar prestes a apresada pelos mouros, e o velho guerreiro alquebrado querer embarcar na Expedição de socorro a Ceuta. Quando o tentaram dissuadir, pegou numa lança e atirou-a da varanda do Convento. A lança atravessou o vale em baixo e foi cravar-se numa porta do outro lado do Rossio, dizendo D. Nuno: “Em África a poderei meter, se tanto for mister”! Daqui nasceu a expressão “meter uma lança em África”, no sentido de se vencer uma grande dificuldade. 

Em 30 de Março de 1431, Sexta Feira da Paixão, o “Frade Santo”, como lhe chamavam, com 70 anos de idade tombou gravemente doente. Acudiram ao Carmo os mais importantes do Reino, incluindo D. João I e o príncipe herdeiro, D. Duarte. Ao meio-dia de 1 de Abril, Domingo de Páscoa, Frei D. Nuno morreu. O rei D. João I estava à sua cabeceira. 

O Povo de Portugal chorou o seu Santo Guerreiro, até em Castela o choraram, por seus dotes de pureza e justiça. Começaram as romarias piedosas ao Carmo, e todos queriam levar uma mão cheia de terra do túmulo do Santo Condestável, que assim ficou conhecido até hoje. Segundo a Crónica dos Carmelitas, essa terra milagrosa misturada com água e tomada naturalmente ou aplicada, operou 12 ressurreições, 24 curas de paralíticos, 21 curas de cegos, 21 curas de surdos ou mudos, 18 curas de doenças internas, 16 curas de doenças fatais, 10 recuperações de febres altas e derrame de sangue e 6 aparições do Grande Cavaleiro com graças espirituais. 

Os milagres atribuídos ao Santo Condestável prosseguiram pelos séculos seguintes, até que Nuno Álvares Pereira foi beatificado em 23 de Janeiro de 1918 pelo Papa Bento XV, tendo consagrado o dia 6 de Novembro ao então Beato. O seu processo de canonização, iniciado em 1940, após várias interrupções, desfechou com D. Nuno Álvares Pereira sendo canonizado como São Nuno de Santa Maria pelo Papa Bento XVI em Roma, às 9 horas e 33 minutos (hora de Portugal) de 26 de Abril de 2009. 

  

A “Espada Mágica” do Santo Condestável  

  

Desde a sua juventude que o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira era tremendamente influenciado pela Mística dos Cavaleiros da Távola Redonda e a sua Demanda do Santo Graal, símbolo perene de Iluminação na Graça do Espírito Santo incarnado na imagem ideal de Santa Maria Maior. 

Homem feito, ingressado na carreira das armas e já destacado como esforçado cavaleiro defensor do reino, procurou ter uma “espada mágica” como aquela que o rei Artur possuiu, uma nova caliburna ou excalibur que desta vez seria deste novo “Galaaz do Carmelo”. Pegou na sua velha espada e procurou Fernão Vaz, alfageme de Santarém, para que a corrigisse, e ele assim fez, dando-lhe têmpera e feição nova, nada cobrando ao Condestável pelo trabalho, dizendo, em guiso profético, que quando ele fosse Conde de Ourém lhe haveria de pagar, o que veio a acontecer, tendo D. Nuno feito grandes intercessões a favor desse alfageme, misto de ferreiro, alquimista e profeta.   

2446671599_bec7c1d5d6[1]

Espada do Santo Condestável Nuno Álvares Pereira no Museu Militar de Lisboa

 A espada é de lâmina direita e aguçada, e o punho em cobre, tendo também à roda em espiral fio de cobre, medindo na sua maior largura três polegadas, diminuindo sucessivamente até à ponta. Num dos lados da lâmina, onde também se reconhece o signo do corregedor – uma cruz e uma estrela – D. Nuno mandou gravou a seguinte inscrição: Excelsus super omnes gentes Dominicus. Na outra face está gravado o santo nome de Maria, e dentro de um círculo as palavras Dom Nuno Álvaro, vendo-se ainda uma contra-marca, com a cruz entrelaçada por flores. As aberturas/saliências na lâmina serviam, além aspecto decorativo, para tornar a espada mais leve, logo, mais fácil de manusear. Sugerem o formato de runas, com o sentido prático de levar as lâminas adversárias a encravarem-se nas mesmas, e com um golpe hábil prontamente o adversário era desarmado. 

Com essa excalibur ungida, erguida ao Céu evocando os seus Poderes, D. Nuno Álvares Pereira salvou a independência ameaçada de Portugal por Castela, e depois vira-a para baixo e fá-la Cruz, a qual abraça incondicionalmente na Fé do Carmelo, no todo sendo cavaleiro-monge, o paradigma perfeito da Linhagem Cavaleiresca ou Kshatriya sob o pendão da Mãe Divina de quem era Grão-Tributário. 

Pode-se ver a réplica exacta desta espada no claustro arruinado do Convento do Carmo (assim como à entrada da igreja do Santo Condestável, também em Lisboa, havendo outra igual na Sertã, por cima da porta lateral da capela de N.ª Sr.ª dos Remédios), mesmo que se diga que a peça original é a que está patente ao público no Museu Militar de Lisboa, junto a Santa Apolónia. 

  

A Porta Real do Carmo 

  

O Convento de Nossa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo afronta o Monte do Castelo de S. Jorge em cuja encosta estavam o Paço Real e a Sé Catedral, estando permeio a ambos os Montes o campo do Rossio, chamado nos séculos XIV e XV de Valverde. Esta conjunção geográfica ficou assim por vontade de D. Nuno Álvares Pereira, que após abandonar a vida militar e entrado na religiosa mandou construir este convento em 1389, confirmando-se a teimosia com que quis fosse aqui a Casa principal do Carmelo em Lisboa, apesar das dificuldades técnicas em construí-la devido à consolidação da escarpa onde assentaram as fundações da cabeceira do templo. 

Aliás, no tempo do Santo Condestável chamava-se ao Monte do Carmo de lugar da Pedreira, habitado sobretudo por judeus, tendo ele insistido ter de ser aí o lugar do convento e igreja, e quando os seus alicerces cederam por duas vezes, D. Nuno jurou fazê-los de bronze caso voltassem a ruir. Para a terceira tentativa foram contratados os mestres canteiros, o mesmo que arquitectos, mais famosos de Lisboa: Afonso, Gonçalo e Rodrigo Eanes, que não consta que fossem parentes. Com eles foram contratados os mestres pedreiros Lourenço Gonçalves, Estevão Vasques, Lourenço Afonso e João Lourenço. Os servidores e amassadores de cal, tarefa especializada, foram os judeus Judas Acarron e Benjamim Zagas. Esta Maçonaria Operática, tendo deixado com fartura siglas e inscrições lapidares nas paredes do templo que ainda se podem ver, finalmente viu a sua empresa coroada de êxito. 

Convento_do_Carmo[1]

O Convento do Carmo em Lisboa antes de 1755

Quando se venciam os percalços, novos surgiam, e assim, percalço sobre percalço, o templo foi se construindo até se tornar o mais notável edifício gótico da época. Porque D. Nuno escolheu este lugar quase impossível para se construir coisa alguma, alcantilado na Pedreira que se fez Carmo? Há a razão gnoseológica, atendendo que o Carmo, o Paço no Castelo e a Sé prefiguravam um triângulo, ficando o espaço do mesmo ocupado pelo campo de Valverde, nome que lhe foi aposto pelo próprio Condestável, decerto em memória da sua vitória retumbante (Outubro de 1385) na batalha do mesmo nome. 

Tanto que o Paço e este Convento ficavam defronte um ao outro, e quem vinha daquele entrava neste pela sua hoje quase esquecida ou ignorada porta real, gótica, lateral à entrada principal, razão de estar decorada com flores-de-lis, símbolo de realeza adoptado oficialmente por D. João I, o iniciador da Dinastia de Avis cujo paraninfo foi o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, e como religioso, simplesmente Fr. Nuno de Santa Maria. 

A Porta Real do Carmo - 59

Porta Real do Convento do Carmo, Lisboa

Junto a esta entrada, pode igualmente observar-se pedras inscritas com legendas e desenhos de peixes, animais e aves, assim como parte da antiga escadaria que descia para o campo de Valverde a caminho do Paço, sobreviventes desconjuntados do terramoto de 1755 cujos sinais mais dramáticos dos seus efeitos na cidade vêem-se aqui. 

  

As relíquias do Santo Condestável 

  

Depois do terramoto de 1755, as poucas ossadas de D. Nuno Álvares Pereira que sobreviveram à catástrofe foram colocadas numa réplica em madeira do seu túmulo, em 21 de Março de 1768, onde ficaram até 14 de Março de 1856, quando foram removidas e postas numa urna forrada a veludo, em 9 de Março de 1895. Em 1912, foram depostas num relicário de prata e devotamente percorreram o país até que, cerca de 1967, roubaram as relíquias e nunca mais se recuperaram. 

Outros ossos do Santo e Guerreiro, que por cautela antecipada estavam guardados noutro lugar, substituíram os roubados e foram divididos em duas partes, uma destinada à veneração na capela da Ordem Terceira, no Largo do Carmo, ao lado das ruínas do convento, e outra para a igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, onde as ossadas ficaram numa urna debaixo do altar-mor. 

De facto, o terrível terramoto destruiu completamente os bairros do Carmo e da Trindade, hoje ligados pelo conhecido prolóquio cair o Carmo e a Trindade. O convento carmelita que D. Nuno Álvares Pereira aqui fundou foi arrasado pelo cataclismo, assim desaparecendo o seu túmulo, do qual só restam as ditas ossadas consideradas relíquias santas. 

A sepultura original, conforme Frei D. Nuno rogara como esmola pouco antes de falecer, era “uma mortalha e uma cova para o corpo”. Portanto, campa rasa simples e humilde. Mas algum tempo depois foi construído um túmulo condigno com a sua grande pessoa, inscrevendo-lhe o seguinte epitáfio: “Aqui jaz o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a vida na Terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta igreja onde descansa o seu corpo”. 

T%C3%BAmulo+na+Ordem+do+Carmo[1]

Réplica do túmulo de Nuno Álvares Pereira no Convento do Carmo, Lisboa

O túmulo estava junto ao altar-mor e continha um único corpo amortalhado, com uma espécie de gaveta isolada que protegia a cabeça, evitando o contacto desta com a terra e a cal. Este artefacto, caído em desuso cerca de um século antes da morte de D. Nuno Álvares Pereira, era igual àquele dos lendários cavaleiros da Távola Redonda cujos feitos o haviam inspirado tanto desde a infância. Aliás, a sua mãe, D. Irene, apelidava-o em pequeno de Galaaz, nome do mais puro dos cavaleiros da Távola do rei Artur Pendragon. O próprio povo, que rompia o chão da igreja para conseguir uma mão cheia de terra santa da sua sepultura miraculosa, considerava-o o último cavaleiro medieval, modelo de justiça e perfeição. 

  

A fachada apologética da igreja do Santo Condestável 

  

A fachada exterior da igreja do Santo Condestável apresenta no topo, sob a Cruz da Ordem de Avis, as Armas de Portugal coroadas com o Dragão dos Lusos, na forma clássica do mítico baphomet, o ídolo estranho atribuído aos antigos Templários. Mais abaixo, dos lados, Santa Maria com o Menino ao colo, num nicho cuja mísula é suportada por três cabeças de Anjos, aludindo à Trindade Divina. Nossa Senhora, Cordo Mariz ou “Coração de Mãe” de todo o Portugal, era da devoção maior do Santo Frei Nuno de Santa Maria do Carmelo, e por isso postou-se aqui a sua imagem com o salvífico escapulário carmelitano no peito, tendo o Menino ao lado. 

Noutro nicho, está S. Jorge erecto lanceando o dragão da iniquidade e da traição à Pátria que é tanto mística como geográfica, tendo sido o Condestável D. Nuno o primeiro a render o preito da sua devoção ao Santo Guerreiro, como Filho para Pai expressando na Terra ao Metraton do Céu, o mesmo Mikael ou S. Miguel Arcanjo incarnado como S. Jorge ou Akdorge, Padroeiro do Exército Português desde a sua vitória retumbante na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de 1385. Repetem-se três cabeças de Anjos na mísula, expressando a Santíssima Trindade na Terra, enquanto na outra a expressam no Céu. 

DSCF1986

Fachada dianteira da igreja do Santo Condestável, Lisboa

Ao centro, sobre a entrada, está D. Nuno Álvares Pereira trajado de carmelita e adorado lateralmente por dois Anjos, um custodiando a Taça Eucarística do Graal e outro à Espada Mágica de Excalibur em cuja lâmina se enrosca uma serpente em ascensão. Aos pés do Santo Condestável, as Armas de Avis já gravadas na sua bandeira lábaro sagrado de Portugal, aliás, Porto-Graal

A igreja abriga as relíquias deste Santo Condestável, e o seu tesouro artístico são os dois vitrais de Almada Negreiros que iluminam os altares laterais, alusivos à devoção do Santo e Guerreiro por Cristo e sua Mãe, com figuras longas e em tons fortes. Estão moldados em janelas ogivais, repartidas por cruzes altas. 

Esta igreja do Santo Condestável, inaugurada em 14 de Agosto de 1951, situa-se em Lisboa entre o Mercado de Campo de Ourique e a Rua Saraiva de Carvalho, e pertence à série das “Novas Igrejas”, resultado do desenvolvimento peculiar do modernismo conciliado com os moldes góticos e manuelinos. Este templo “neogótico”, como é uso classificar-se, foi projectado em 1946 pelo arquitecto Vasco Regaleira (Vasco de Morais Palmeiro) que colaborou na Exposição do Mundo Português em 1940. 

  

Ordem de Santa Maria do Carmelo 

  

A Ordem do Carmo que originalmente se chamou Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, constituiu-se entre os anos 1206-1214 dum grupo de leigos latinos (eremitas penitentes, possivelmente ex-cruzados) liderados por um tal de B, posteriormente identificado como Brocardo, os quais viviam na região do Monte Carmelo, uma cadeia de colinas próxima à cidade de Haifa, antiga Porfíria, no actual Estado de Israel. 

A palavra Carmelo significa “jardim”. Nesse Monte se recolheram os eremitas cristãos seguindo a tradição bíblica do Profeta Elias que no passado remoto aí se estabelecera numa gruta, seguindo uma vida eremítica de oração e silêncio. Mais tarde, esses cristãos penitentes rogaram uma regra de vida a St.º Alberto, Patriarca de Jerusalém, que os atendeu e reuniu numa Ordem tipicamente eremítica e cristocêntrica, mas idealizada na Vida da Mãe de Deus. A Regra Carmelita foi aprovada pelo Papa Honório III em 1226, tendo a seguir os monges emigrado para o Ocidente europeu, onde iniciaram a propagação da Hipertúlia, ou seja, o culto e veneração a Nossa Senhora, desde logo se assumindo como a primeira Ordem religiosa Mariana ou Matrística da Europa. 

Nos inícios do século XIV os Carmelitas entraram em Portugal e estabeleceram-se em Moura, no Alentejo. O Santo Condestável Nuno Álvares Pereira simpatizou de imediato com eles por sua grande devoção à Virgem Maria, e mandou construir em Lisboa o Convento do Carmo para albergar os freires, tendo ele mesmo, nos anos finais da sua vida, ingressado aí, como freire penitente da Ordem Carmelita da Antiga Observância, que é o seu ramo mais antigo. 

Posteriormente, em 1593, formou-se a Ordem dos Carmelitas Descalços, resultado da reforma feita ao carisma carmelita elaborado por St.ª Teresa de Ávila e S. João da Cruz. Este ramo reparte-se em três diferentes tipos da família carmelitana: os padres e frades, as freiras de clausura, e os irmãos leigos. 

Também os carmelitas não escaparam a uma certa filiação à Tradição Hermética, como indiciam vários acontecimentos históricos: desapoiaram o Papa Clemente V (assassino moral da Ordem do Templo) e apoiaram a eleição de João XII, autor da Bula Sabatina, gozando da protecção da Ordem de S. João de Acre, vulgo Hospitalários; igualmente foram acusados de confundirem a Virgem Maria com Maria, a Egípcia, famosa por um processo alquímico ligado ao seu nome: o de destilar pelo fogo a água, ou seja, o conhecido “banho-maria”. 

Imagem 23Imagem 22 

“Procissão Triunfal”, Jardim Castro Guimarães, Cascais 

Ainda mais significativo: no extinto Convento de Nossa Senhora da Piedade de Cascais havia dois enormes painéis de azulejos (desde 1925 patentes no Jardim Castro Guimarães dessa vila), um deles provando cabalmente a filiação hermética do Carmelo, quando retrata a Procissão Triunfal com a Virgem Maria em Glória (Shekinah) sentada no Carro ou Merkabah tendo adiante os Arcanjos S. Miguel e S. Gabriel, associados ao Sol e à Lua, e atrás o cortejo dos “Filhos de Maria”, ou seja, os Adeptos da Alquimia que é uma Ciência de Espírito Santo configurado na mesma Mãe de Deus. Todos esses Adeptos ligados à Tradição Espiritual Portuguesa dos quais se destacam: St.º António, St.ª Isabel de Portugal, St.ª Isabel da Hungria, St.º Alberto Magno, Raimundo Lúlio, Arnaldo de Vilanova, Escoto, etc. Por cima do conjunto vogam Anjos, cada qual com uma alfaia do Hermetismo Carmelitano cujas Armas, abaixo, selam a obra. 

  

Fernando Pessoa no encómio ao Santo Condestável 

  

Mensagem, Lisboa, Ática, 1934. 

   

Que auréola te cerca? 

É a espada que, volteando, 

Faz que o ar alto perca 

Seu azul negro e brando. 

  

Mas que espada é que, erguida, 

Faz esse halo no céu? 

É Excalibur, a ungida, 

Que o Rei Artur te deu. 

  

´Sperança consumada, 

S. Portugal em ser, 

 Ergue a luz da tua espada 

Para a estrada se ver. 

  

Créditos fotográficos: Autor e Paulo Andrade. 

  

  

  

  

  

  

  

    

Anúncios

Consagração da Lisboa Hermética – Hugo M. D. Martins Domingo, Out 4 2009 

1

A magia de Lisboa é um espírito infinito de experiência, revelação, mistério e iniciação. Toda a arquitectura expressa em Lisboa, mais especificamente na chamada Baixa Pombalina, é fruto de uma combinação perfeita das lendas, mitos, filosofias e tudo com muita beleza. Desde o Terreiro do Paço, com a estátua central de D. José I a cavalo “derrotando as ofiússas ou serpentes figurativas de dragões” (configuração do arquétipo São Jorge), à passagem pelo magnífico Arco “Iniciático” da Rua Augusta ilustrado com os seus Heróis nacionais, à transposição de toda a intersecção das ruas da Baixa como verdadeiras serpentes de Ouro e de Prata vigiadas por uma Águia altiva mas discreta, todos esses elementos completam este percurso único e transformador do ser humano… uma verdadeira Opus Magnum sob a regência tutelar das sete colinas sagradas da cidade, garante de uma Alquimia Mística no Laboratorium da capital do País.

Cidade Mui Nobre e Leal, palavras de D. João I sobre a nossa Lisboa que hoje estão expressas no brasão que caracteriza o símbolo da identidade comum da urbe, imposto na bandeira da mesma, dividida opostamente nos tons branco e negro, esvoaçando ao sabor do vento na haste disposta sobre o edifício do seu Município. É neste lugar que a nossa viagem inicia, desenvolverá e acabará, visto ser aqui que está o órgão político-social regente da cidade, assim mesmo reflectindo o seu espírito e vida própria. Adiante do Município abre-se o seu largo quadrado de proporções largas, a Praça do Município, completado ao centro por um belo, magnífico e até transcendente pelourinho. Aqui os imóveis absorvem a luz radiante penetrando a praça e, sob o seu granítico silêncio, ocultam inúmeros significados muito além do ruído e stress envolventes, mas que a calma e serenidade do observador curioso de toda a sua verdade desvela.

 

1. O pelourinho esotérico

 

Em Portugal os pelourinhos datam desde o século XII, e tinham como principal função a consagração política de um povoado, aldeia, vila ou cidade distinta através da sua implantação defronte à Câmara dos Vereadores, e a partir daí, com esse testemunho do poder político soberano, passava a funcionar legal ou legitimamente, na forma prevista nas Ordenações Portuguesas (Ordenações Afonsinas, Ordenações Manuelinas e Ordenações Filipinas), estabelecendo e regulando o Poder Público, Administrativo, Legal e Jurisdicional.

Contudo, os pelourinhos, símbolos do Poder Legal estabelecido (Legislativo e Executivo), em nome do mesmo era assim que serviam para anunciar publicamente as sentenças finais dos julgamentos ditando castigos públicos, desde flagelamentos até enforcamentos, a criminosos assim expostos à vergonha pública, sendo amarrados a argolas e torturados ou mortos, conforme a gravidade do delito cometido.

Na generalidade, os pelourinhos localizavam-se defronte ao edifício da Câmara, contudo também tinham direito a ser seus donatários as Dioceses e os Cabidos dos principais Mosteiros, como prova e instrumento da Jurisdição Feudal 1, mesmo assim subordinada ao Poder Central da Coroa, que detinha a “palavra final” No antigo território ultramarino português, o símbolo do pelourinho também estava presente, representando, portanto, a administração pública lusitana regida pelas Ordenações2.

A constituição básica dos pelourinhos apresenta sempre uma base com determinada forma geométrica (circular, quadrada ou até octogonal), na qual se ergue uma coluna ou fuste, terminando num capitel. Consoante a sua estrutura geométrica e estilo artístico, pode ter várias classificações: gaiola, roca pinha, extravagante, etc.3

Com a ascensão do Liberalismo no século XVIII até meados do século XIX, fustigado pelos escritos de personalidades como John Locke e Adam Smith, cultivou-se a renovação da sociedade desse período para a democratização. A palavra liberal, etimologicamente oriunda do latim liber (“livre”, ou “não escravo”), era associada a essa outra de liberdade. Assim, os pelourinhos, simbólicos de pressuposta jurisdição feudal e de pressuposto absolutismo monárquico, rapidamente tornaram-se sinónimos abjectos de tirania, pelo que em 1834 foram destruídos pelos liberais 4. Contudo, facto interessante, é não se ter destruído no século XIX este pelourinho de Lisboa, enquanto outros pelourinhos de localidades importantes, como foi o caso do de Sintra (e neste caso só reconstituído em 1940 pelo escultor José da Fonseca), não sobreviveram, mas este da Capital do País (cujo primitivo manuelino não sobreviveu ao terramoto de 1755 mas serviu de modelo ao actual setecentista) tem-se mantido intacto, poupado à eliminação tanto pelos liberais quanto pela liberalidade republicana.

Com efeito, o pelourinho que está na Praça do Município, em Lisboa, é de construção mais recente (século XVIII), e em consequência do terramoto de 1755 foi reconstruído sob projecto do arquitecto Eugénio dos Santos, sendo o seu escultor Joaquim Machado. O primitivo, existente na antiga Praça do Pelourinho (localizada antes no que hoje constitui a Rua do Comércio, entre as Ruas dos Fanqueiros e da Madalena), onde funcionaram os serviços camarários até ao final do século XIX, foi destruído pelo supradito terramoto, sendo substituído e reposto na nova Praça do Pelourinho que em 1886, no Edital de 24 de Maio desse ano, viria a ser chamada de Praça do Município 5. Apresenta-se com 10 metros de altura, assenta numa base granítica em forma octogonal com cinco degraus com cantos de curva côncava. O seu fuste em espiral, definido por três hastes, também elas em forma octogonal de lados curvos e torcidas no sentido ascendente, rematam no capitel. Este é coroado pela esfera armilar de metal dourado, da autoria de Pêro Pinheiro, com 56 cm de diâmetro.

No entanto, ao analisarmos a constituição da praça quadrada à volta deste pelourinho, verificamos que a calçada aí existente apresenta sob determinada disposição geométrica um círculo que induz uma rotação em determinado sentido (esquerda para a direita). Este facto da “Quadratura do Círculo” certamente não terá sido disposto ao acaso, como igualmente as ligações veladas que o pelourinho apresenta com o próprio Município à sua frente, deixando-nos com a impressão clara de que ambos os imóveis estão «unidos» do ponto de vista arquitectónico e simbólico.

No que diz respeito ao círculo em si, parece um resíduo latente da Cosmologia Geocêntrica dominante ainda no século XVIII (nomeadamente assumida pela Maçonaria da época), a qual é expressa pelos cincos anéis da calçada que circundam a escultura vertical, tal como a disposição dos triângulos num só sentido dão a dinâmica do movimento da esquerda para a direita, dextroversum, como se fosse o Universo girando em torno da Terra, da Sfera Mundi, tal como o alemão Gregorius Anglus Sallwigt (ou George Von Weling) representou na sua obra Opus Magnum Cabalisticum nesse século.

No entanto esta praça não teve sempre a aparência que actualmente tem, inclusive a calçada hoje existente aí só foi colocada muito posteriormente à data 1755, cingindo-se a sua estrutura inicial (registada em fotos) apenas à delimitação de um círculo (noutros tempos decorado com plantas e flores) tendo no centro o pelourinho sobre base quadrada.

2.

A relação do pelourinho com o próprio Município parece ser bastante evidente, devido à relação de determinados elementos da fachada daquele com elementos deste. Refiro-me, especificamente, aos três rostos coroados no Município em sintonia como as três hastes ascendentes do fuste, tal como também as estrelas de oito pontas (acima de cada rosto) têm igual valor numérico nos oito lados da base do pelourinho e nos oito lados curvos de cada haste. Estabelecida a relação, resta agora saber e interpretar o significado específico de cada elemento, e, consequentemente, o significado geral do conjunto destes imóveis.

A escadaria octogonal expressa o octagrama ou estrela de oito pontas que é um símbolo de plenitude e regeneração, assim se a ligando a sistemas de oito extremidades sendo representativa, segundo a Filosofia Taoista da China, das oito possibilidades (Trigrama) de união entre os pares de opostos (Yin-Yang, Feminino-Masculino”), o que também me recorda o Ogdoad ou Panteão da Mitologia Egípcia no que respeita às oito divindades da sua Cosmogonia, as quais fundaram a cidade de Khumun (“A cidade dos oito deuses”) que tinha como Orago Thot (expressivo da Sabedoria Divina e do Conhecimento Humano), que na Cultura Grega seria posteriormente denominado Hermes (o “Mensageiro dos Deuses”), caracterizando então o nome de Hermópolis (“Cidade de Hermes”) 6. Também esta Capital olisiponense está consagrada a esse deus Mercúrio de função psicopompa ou medianeira, através do escultórico patente na sua Sede autárquica apresentando três rostos expressivos de Hermes Trimesgisto, o “Três vezes Grande” (no Passado, Presente e Futuro como Patrono do Hermetismo), acompanhados de estrelas de oito pontas e cada rosto encarando a Praça do Município, como declaração clara de também esta ser uma Hermópolis, uma “Cidade de Hermes”, uma verdadeira Lisboa Hermética.

Contudo, a estrela de oito pontas também se associa geometricamente à Cruz Templária, e a associação esotérica desta com a Alquimia faz-se evidente. A relação Alquimia entre os Templários foi um facto elucidado e dado ao conhecimento público em 1970 por Roger Caro, na sua obra Legende des Frères Aînes de la Rose-Croix (“Lenda dos Irmãos Primogénitos da Rosa-Cruz”), referindo a formação de uma nova Sociedade Iniciática oriunda dos Templários após o Concilio de Viena em 1312, designada FARC (Frère Aînes de la Rose-Croix), que utilizava os conhecimentos alquímicos que os Templários haviam adquirido na sua relação com outras culturas, nomeadamente a Muçulmana. Além disso, nos pressupostos Estatutos Secretos da Ordem do Templo, também pressupostamente escritos pelo Irmão Roncelinus no século XIII e encontrados pelo bispo alemão Friedrich Münster em 1780, a Alquimia tinha a referência seguinte: Tende em vossas casas lugares de reunião vastos e escondidos a que se terá acesso por corredores subterrâneos para que os Irmãos possam ir às reuniões sem o risco de serem perturbados… É interdito, nas Casas onde os Irmãos não são Eleitos, trabalhar certas matérias pela Ciência Filosófica e, portanto, transmutar os metais vis em ouro e prata. Isto nunca será feito senão em lugares escondidos e em segredo. 7

3.

Neste sentido, o significado da Rosa na Cruz Templária a Cruz alude à Morte, associada ao Masculino, e a Rosa com as suas pétalas expressando o Feminino, naturalmente liga-se ao Nascimento, perfazendo no conjunto a Morte/Nascimento, e vice-versa, indo dar o significado de Re-nascimento ou Reencarnação 8. Assim, a Cruz Templária (ou Cruz de Cristo) está totalmente em sintonia com a linguagem alquímica da Grande Obra, pois é durante esta que ocorre a “morte do Rei”, dá-se o seu “renascimento” e por fim o “casamento” com a Rainha, a Núpcia Química. Além disso, não deixa de ser interessante que neste pelourinho de Lisboa o próprio fuste apresente um polígono de oito lados no nível de baixo (tendo outro igual no nível de cima, desde logo lembrando a célebre sentença de Hermes Trimegisto: O que está em cima é como o que está em baixo, para se cumprir o milagre da Unidade), no mesmo modelo da escada, e ao contarmos o número de passos que vão deste até ao início do vértice da escada, dão exactamente 8! Ora este facto parece comprovar a ligação do centro do fuste à periferia, desenhando perfeitamente a Cruz Templária que descrevemos anteriormente.

A partir desse ponto, temos a sua continuação no fuste (modelado em espiral, definido por três hastes com secção octogonal de lados curvos, distintas e torcidas) que é a representação da Via Alquímica com os seus três Princípios naturais – Enxofre, Mercúrio e Sal – a unificar as duas Forças Polares opostas (Ying-Yang) formando o Rebis, o Andrógino Alquímico como consumação da Núpcia Química (o já referido “casamento filosófico do Rei e da Rainha”) o que está representado no seu topo pela Esfera Armilar, símbolo de Hermes-Toth adoptado para Armas Manuelinas por ingerência do cabalista e conselheiro real Abraão Zacuto junto de D. Manuel I (século XV).

4.

O círculo, cuja hipótese já foi referida anteriormente, vinha a ser representação notável da Cosmologia Geocêntrica dominante na Maçonaria do século XVIII acabando por ser, talvez, uma resposta de repulsa contra o modelo Heliocêntrico adoptado pela Ciência encabeçada por Nicolau Copérnico, no século XVI. Além disso, o esquema que hoje está representado na calçada em redor do pelourinho, também faz lembrar um outro instrumento da ciência náutica marítima: a bússola! Reparemos que o número de divisões que existem no círculo é exactamente 32. Incluindo a escada octogonal cuja configuração geométrica vem a dar na Cruz Templária encimando o abacus ou báculo pastoral, e inclusive na Cruz da Ordem de Cristo, temos representadas as diferentes direcções da Rosa-dos-Ventos – os 4 pontos cardeais: Norte (0º do azimute cartográfico), Sul (180º), Este ou Leste (90º) e Oeste (270º); e também os chamados pontos colaterais: Nordeste (45º), Sudeste (135º), Noroeste (315º) e Sudoeste (225º); mais ainda os oito pontos chamados pontos subcolaterais: Nor-nordeste (22,5º), Lés-nordeste (67,5º), Lés-sudeste (112,5º), Su-sudeste (157,5º), Su-sudoeste (202,5º), Oés-sudoeste (247,5º), Oés-noroeste (292,5º) e Nor-noroeste (337,5º)). Por fim, a sombra do pelourinho funciona como a própria agulha da bússola que determinada hora do dia indica o Norte magnético, ou seja, a direcção para o Interior da Terra, para a AGHARTA.

A Esfera Armilar, na generalidade do conhecimento comum é tida como a representação do Mundo e alusão à Epopeia Marítima dos Descobrimentos, contudo, na Kaballah expressa a “Árvore Áurica da Vida” chamada Atziluth, e da perspectiva hermética é a representação exacta da unificação dos princípios opostos (Yin-Yang, Lua-Sol, Sal-Mercúrio, Kundalini-Fohat, etc.) que a Alquimia denomina de Rebis. Este assunto já foi analisado no meu estudo anterior, Opus Magnum Olisiponense, inclusive com a ilustração da imagem escultural da “Fonte bicéfala” manuelina existente no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, que mais uma vez reproduzo aqui.

Fonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, LisboaFonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Essa obra escultórica é talvez das mais reveladoras da Ciência Hermética perfilhada pelo rei D. Manuel I, tanto quanto a sua adopção da Esfera Armilar para signa pessoal e que se universalizou com o processo da Epopeia Marítima Portuguesa. No entanto, como é sabido e graças ao esforço anterior de D. Dinis (séculos XIII-XIV), os Descobrimentos Marítimos vieram a ser a continuação do grande Projecto Templário de a unificação do Ocidente com o Oriente, do qual a Ordem de Cristo deu seguimento com homens de rara craveira tanto em carácter como em cultura, perfilados no Panteão da Espiritualidade Lusa como distintos Iniciados nessa Ordem. Neste aspecto, a Esfera Armilar mostra-se representativa de um significado duplo: por um lado, o Mundo navegado pelos descobridores portugueses, a Epopeia Marítima, os Descobrimentos; por outro, a Unificação dos Opostos, Oriente-Ocidente, Rei-Rainha ou Enxofre-Mercúrio (na Alquimia ocidental), Yin-Yang (nos Trigramas chineses). Sendo assim, na reedificação do pelourinho da Praça do Município pelo arquitecto Eugénio dos Santos, houve o cuidado de conservar o aspecto hermético desse monumento manuelino, jóia preciosa do património arquitectónico português com a sua dupla interpretação exotérica (historiográfica) e esotérica (iniciática).

 

2. Fachada superior do Município

 

O edifício do Município de Lisboa foi inaugurado após o terramoto de 1755, com arquitectura idealizada pelo ilustre engenheiro Eugénio dos Santos de Carvalho mas que viria a ser dramaticamente destruída pelo incêndio de 1863. Eugénio dos Santos, verdadeiro génio da Arquitectura, foi convidado pelo Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal, para integrar a equipa dirigida pelo engenheiro-mor do Reino, Manuel da Maia, para a reedificação da Lisboa destruída numa Nova Lisboa. Duramente criticado no seu tempo e admirado na actualidade, Eugénio dos Santos não resistiu à inveja e ataques constantes à sua obra pelos seus pares, e acabou por mergulhar numa depressão profunda que o acompanhou até à morte, ocorrida em 5 de Agosto de 1760 9.

O ano de 1865 seria o do começo da construção do novo edifício no mesmo local, estando sobre a direcção do arquitecto camarário Domingues Parente da Silva, responsável pela adição do remate da fachada do imóvel. Contudo, essa fachada havia já sido desenhada pelo magnífico escultor francês Anatole Célestin Calmels, responsável pelo trabalho realizado no Arco Triunfal da Rua Augusta, nos escultóricos da Glória coroando o Génio e o Valor. Seria através da decisão sábia do engenheiro Ressano Garcia, responsável pelos Serviços Técnicos da Câmara e arquitecto de inúmeras obras importantes na cidade, destacando-se a criação da linha férrea ligando Lisboa-Sintra, obra que planeou e seguiu de perto, que o remate da fachada do Município seria preservado no modelo desenhado por Calmels. A obra culminaria em 1880, mas não seria a última a ser realizada10.

Posteriormente, em 1996, o Município seria outra vez vítima de um incêndio destruindo toda a obra arquitectónica que fora reposta no século XIX. Desta vez, a responsabilidade da sua recuperação seria entregue ao arquitecto Silva Dias, indo recuperar-se os andares superiores com a preocupação permanente de conservar o diálogo entre o património histórico e o arquitectónico, havendo também intervenção artística nos moldes da arquitectura moderna. Para esse projecto foram convidados os arquitectos João de Almeida, Manuel Tainha, Nuno Teotónio Pereira, professor Daciano Costa e vários artistas plásticos com o intuito de intervirem ao nível do exterior; Eduardo Nery ficou encarregue do arranjo de superfície da praça e Jorge Vieira com o das esculturas. Todo o seu trabalho foi no sentido de manter as obras escultóricas anteriores do francês Calmels e do projecto arquitectónico de Domingos Parente da Silva11.

No que diz respeito a todo o significado da fachada do Município, um primeiro factor imediato prende-se obviamente com o sentido histórico da própria cidade de Lisboa, tal como com o próprio património histórico nacional. Contudo, não podemos esquecer que toda a arquitectura foi feita e recuperada com a finalidade de preservar o sentido da Lisboa reconstruída pós-1755, expressando assim o espírito do século XVIII. No entanto, esse século na História de Portugal também se caracterizou pelo espírito do Hermetismo, que se prolongou pela centúria seguinte e chegou às primeiras décadas do século XX. Com efeito, quando analisamos a Baixa Pombalina denotam-se em inúmeros elementos desta a presença do Hermetismo, sobretudo nos vectores da Cabala, Astrologia e Alquimia. A fachada do Município de Lisboa, segundo a minha interpretação, também não escapou a essa influência. Analisemos os factos.

De uma perspectiva mais imediata (até para os mais descrentes nestas matérias), a visão da fachada do Município pode ser vista como simples composição mitológica pretendendo outorgar determinados valores à Autarquia de Lisboa. Ao centro, as Armas da cidade acompanhadas, dos lados esquerdo e direito, das figuras alegóricas da Liberdade e do Amor à Pátria, respectivamente. As restantes figuras, expressam a Ciência, a Navegação, o Comércio, a Indústria e as Belas-Artes 12. No entanto, nesta análise horizontal e superficial vêm a ser discriminados elementos peculiares que alteram e bastante a análise superficial que se faça desta fachada. Há nela um abacus ou “bastão pastoral”, antigamente encimado pela Cruz dos Templários, do lado esquerdo, e do lado direito a figura de Hermes (o Mensageiro dos Deuses), acompanhado de três livros fechados e um pote, este também fechado e guardado por duas figuras míticas com uma inscrição particular: “ESCRUTÍNIO”. Façamos, então, a análise.

Iniciando no lado esquerdo da fachada superior, sobe a insígnia “DEUS e PÁTRIA” podemos verificar, através do símbolo da Cruz Templária como foi referida, a representação da Formação de Portugal; a construção da Identidade de Portugal através da alegoria do cavalo com a figura clássica em cima, e, por fim, a Expansão de Portugal como Império com a Esfera Armilar e o símbolo da Ordem de Cristo acompanhados de instrumentos de Náutica e parte do corpo de uma figura marinha (possivelmente um xarroco). A Formação do País e de Lisboa, pois, em grande parte foi graças à intervenção Templária como parte crucial na criação da sua Identidade, devido à derrota e expulsão dos mouros, e os que ficaram foram reduzidos às fronteiras das moiramas ou mourarias, espécies de guetos dentro das cidades, inclusive em Lisboa, e a Expansão deveu-se sobretudo à Navegação. Digamos que, deste lado da fachada, temos a História que caracterizou Portugal como País e Potência no Mundo, no fundo, a História conhecida dos Portugueses, a História Exotérica.

Do lado direito da fachada, temos o Portugal Esotérico, Oculto, Hermético retratado principalmente pela figura mitológica grega de Hermes com o seu caduceu (não deixa de ser interessante este símbolo repetir-se inúmeras vezes ao longo de toda a Lisboa…), acompanhado de três livros fechados (conhecimento esotérico), induzindo-nos ser a figura mítica de Hermes Trimesgisto, o “Três Vezes Grande”. Além disso, ele apresenta-se unido à deusa Atenas com o malho ou martelo (figurando o Trabalho ou Indústria), cruzando-se assim o Trabalho com o Hermetismo, ou seja, o Trabalho Hermético na prossecução daquele que os primitivos Monges Construtores realizavam na construção canónica dos templos medievais como verdadeiras operações alquímicas 13 e que mais tarde, perdendo-se o conhecimento operático, verteu-se no objectivo psicossocial da Maçonaria Especulativa: a lapidação da pedra bruta (Personalidade) em pedra cúbica pontiaguda (Individualidade). O mesmo para os Alquimistas, no seu trabalho exterior (matéria, metais) em conjunto e sincronismo com o trabalho interior (espiritual), com o supremo objectivo de obterem a Pedra Filosofal, derivada da verdadeira transmutação da matéria bruta ou imperfeita (corpo físico, consciência profana) em ouro espiritual (corpo iluminado, consciência iniciática), no fundo, sendo a transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência, o que se congrega harmoniosamente com a regra beneditina: Ora et Labora.

Temos ainda as figuras mitológicas que dizem respeito à Agricultura e às Belas-Artes, que acabam por completar todo o trabalho hermético a que se propôs o verdadeiro Adepto, reflectindo-se numa verdadeira Agricultura Hermética 14 da qual o indivíduo realiza a colheita dos frutos que plantou, expressando-a pela cultura artística das Belas-Artes. Neste aspecto, nunca é demais referir o Pensamento Hermético que caracterizou um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, Fernando Pessoa.

O pote fechado guardado por duas figuras mitológicas com a palavra “ESCRUTÍNIO” inscrita nele, também se enquadra na feição esotérica desta fachada, pois retrata exactamente o labor necessário para aceder ao lado oculto do Conhecimento, ou seja, através de um escrutínio de eleição da Consciência Espiritual (exame feito criteriosamente e sem falsidades perante si mesma pela Consciência Humana).

Todo esse dualismo (exotérico e esotérico, desvelado e velado) é comprovado simbolicamente pelas duas figuras clássicas (já referidas como o Amor à Pátria e a Liberdade) junto ao Brasão da cidade, acabando por constituir, através da figura masculina desnuda, a História exotérica ou desvelada de Portugal e de Lisboa, enquanto a feminina, vestida ou coberta, expressa a História esotérica ou velada do País e desta sua Capital.

Dessa forma esses dois princípios opostos caracterizam perfeitamente o espírito e a tradição da Alquimia, ou seja, uma parte desvelada, histórica, e outra parte velada, operativa, juntas caracterizando o Corpus Hermeticum de Lisboa. Essas duas figuras clássicas, masculina e feminina, igualmente representam, à luz da prática alquímica, os princípios antagónicos, opostos ou contrários onde o Homem representa o Enxofre, o Princípio Activo, Fixo, Masculino, Solar, e a Mulher o Mercúrio, o Princípio Passivo, Volátil, Feminino e Lunar.

6.

Com tudo isso, perspectivo esta fachada da Autarquia de Lisboa como resumo de tudo aquilo que caracteriza a Lisboa esotérica, construída pós-terramoto 1755 pelo conjunto de mentes iluminadas na Geometria e Arquitectura cabalísticas que o Marquês de Pombal reuniu para este seu projecto já chamado Lisboa Pombalina. A cidade foi reconstruída sob o modelo do mundus, assim se estabelecendo a Lisboa quadrada tendo por centro ou omphalo o Rossio, onde está a estátua de D. Pedro IV, imperador da Nova Lusitânia, o Brasil, e que é o ponto de partida de expansão da cidade nas 4 direcções (assinaladas pelas estátuas da Prudência, Temperança, Força e Justiça na base do mesmo padrão monumental de D. Pedro IV que está no topo).

No entanto, Lisboa também foi reconstruída com a intenção velada, já vinda de D. João V, o Rei-Sol que recebeu o titulo de Fidelíssimo pelo seu contributo na fundação do Patriarcado de Lisboa mas que mais tarde lhe foi retirado, de tornar esta cidade o centro axial da Nova Jerusalém Terrestre erguida sobre dois Pólos ou duas Dioceses, uma Ocidental e outra Oriental (esta segunda subordinada à primeira, assim a projectando num Novo Ciclo, o do EX OCCIDENS LUX!), triangulando com a cúspide assinalada no Convento de Mafra, o Templo Lusitano vocacionado ao Tempo do V Império, assim mesmo expressando a Jerusalém Celeste.

Após o terramoto de 1755, a equipa de arquitectos liderada pelo húngaro Carlos Mardel estabeleceu a arquitectura de Lisboa nas linhas arquitectónicas da antiga Roma (que no período cristão tentou igualar-se à antiga Jerusalém), estabelecendo não 12 portas como esta tem e sim 12 bairros, e sacralizada por 7 colinas semelhantes às que Jerusalém apresenta. O Rossio é, pois, o ponto de partida da expansão pombalina e missão parúsica a que a cidade se propõe, com o seu centro ilustrado com a supradita estátua-padrão preenchida pelas 5 estátuas que também são, simbolicamente falando, figurações dos 4+1 Elementos subtis da Natureza [(Terra, Água, Fogo, Ar)+ÉTER]15.

Quando olhamos para as 3 estrelas que se encontram acima das três cabeças (figurativas de Hermes Trimesgisto, o “três vezes Grande”), o resultado é imediato à presença do Hermetismo na cartografia de Lisboa, partindo do cálculo matemático da multiplicação de oito por três resultar vinte e quatro. Na perspectiva imediata, essa soma normal obviamente nada de transcendente indicará ao leitor comum, contudo, indica tudo que constituiu a coluna dorsal da Lisboa Sagrada, justificando o seu Corpus Hermeticum da seguinte forma:

7 Colinas + 12 Bairros + 5 Elementos = 24.

A lenda e o mito desta cidade ganham vida ao expressarem Lisboa como a “Terra da Deusa-Serpente”, Ofiússa, que Ulisses aqui encontrara e se apaixonara quando desembarcou aqui, ficando o povoado com o seu nome para sempre: Olisipo, Ulyssipona, Ulissebona, Lixbona, Lisabona, Lisboa. Também a decomposição de Lisboa em Lis+Boa ou Boa Lis, leva à interpretação esotérica da Flor-de-Lis como símbolo da Boa Lei, da Lei Suprema ou Pensamento Divino como Consciência Universal, plenamente desperta no Iniciado humano como parte integrante da Realeza Divina, pelo que essa flor símbolo da cidade está correlacionada ao significado da própria serpente: Iniciação e Conhecimento, os únicos elementos capazes de concorrer para a verdadeira Iluminação Interior do individuo ou indivíduos, que assim e aqui passam a constituir a expressão fidedigna da Consciência Universal em Lisboa, Capital do Quinto Império16.

A visão micro-macrocósmica de Lisboa-Individuo está estabelecida nisso, e tal como o indivíduo apresenta na sua anatomia 24 vértebras expressas numa forma serpenteada (duas cifoses e duas lordoses), também a própria serpente ou “Deusa-Serpente” Ofiússa (simbólica de Kundalini, a Energia Serpentina provinda do Seio da Terra, do “Laboratório do Espírito Santo” ou Shamballah) é corpo, ou melhor, coluna de Lisboa caracterizada pelo número 24, estabelecendo-se a seguinte correspondência:

8.

Finalmente, tal como o centro ou omphalo onde a cidade se inicia e expande é definido por 5 estátuas, também a coluna vertical humana tem por base as 5 vértebras da zona lombar (L1 a L5), onde se inicia a ascensão da “Serpente” Kundalini ao longo de toda a coluna passando pelas 12 vértebras dorsais (12 bairros) e 7 vértebras cervicais (7 colinas) chegando finalmente ao cérebro, Iluminando-o, conferindo-lhe a Consciência Universal (Flor-de-Lis) que caracteriza a própria Lis Boa (Lisboa). É todo este trabalho que está esotericamente expresso nas Ruas da Baixa Pombalina, nomeadamente as Ruas do Ouro e da Prata tendo entre elas a Rua Augusta, compondo assim o símbolo do caduceu, estabelecendo-se a árvore gnoseológica da Baixa Pombalina da seguinte maneira 17:

Rua Augusta = Andrógina (conduto central, SUSHUMNA, da Energia Vital ou PRANA. Sistema nervoso cérebro-espinhal, neutro ou andrógino). Hierarquia: ASSURAS (Arqueus). Planeta: Mercúrio em Saturno (Terra).

Rua do Ouro = Masculina (conduto lateral direito, PINGALA, da Energia Eléctrica ou FOHAT). Hierarquia: AGNISVATTAS (Arcanjos). Planeta: Sol.

Rua da Prata = Feminina (conduto lateral esquerdo, IDA, da Energia Electromagnética ou KUNDALINI). Hierarquia: BARISHADS (Anjos). Planeta: Lua.

Rua do Crucifixo = Expressa o cordão do sistema nervoso simpático, activo, a ver com a Rua do Ouro, ou seja, o conduto que reveste PINGALA, VAJRINI. Princípio Masculino. Hierarquia: JIVAS (Homens comuns). Planeta: Marte.

Rua da Madalena = Expressa o cordão do sistema nervoso vegetativo, passivo, a ver com a Rua da Prata, ou seja, o conduto que reveste IDA, CHITRINI. Princípio Feminino. Hierarquia: JIVATMÃS (Homens Perfeitos). Planeta: Vénus.

 

Conclusão

 

Posto assim, depreende-se que realmente o espírito que assiste a toda a fachada do Município, tal como ao pelourinho na praça defronte, reflecte a Tradição Hermética que sempre existiu desde a mais tenra idade de Portugal e desta sua capital, e a qual se manifestou com grande intensidade nos séculos XVI, XVII e finalmente XVIII, aquando a edificação da Nova Lisboa teve lugar após o terramoto de 1755. Poderemos afirmar que todo este espaço acaba por caracterizar em síntese tudo aquilo que Lisboa representa, uma Lisboa conhecida e exotérica, e também uma Lisboa desconhecida e esotérica, iniciática reservada apenas a alguns.

Será a partir deste ponto que toda a Lisboa, desde o Terreiro do Paço até à Rotunda do Marquês de Pombal, se expressa como uma verdadeira Cidade Hermética com os seus segredos e mistérios dispostos estrategicamente nos mais diversos locais, geralmente passando desapercebidos ao lisboeta comum que percorre todo o seu corpo de uma forma dessacralizada e stressada. Cabe a cada um de nós percorrer com outra consciência, emoção e atitude, a capital que é não só centro do desenvolvimento económico e social do País, mas também e sobretudo centro singular e plural do desenvolvimento espiritual interior do indivíduo, do verdadeiro Filho de Lis Boa, sim, do Adepto da Boa Lis como Partícula Viva da Consciência Universal.

 

NOTAS

 

1) Teixeira Félix da Costa, Os pelourinhos: estudo histórico. Elvas, 1926.

2) Luís Chaves, Pelourinhos do ultramar português. Lisboa, Ag. Geral das Colónias, 1948.

3) Luís Chaves, Os pelourinhos portugueses. Gaia, Apolino, 1930.

4) Nuno Catarino Cardoso, Pelourinhos demolidos. Lisboa, N.C.C., 1935.

5) Robert Batty, Lisboa – a Praça do Pelourinho. Visual gráfico, S.1., s.n., 1963.

6) Ian Shaw e Robert Jameson, A Dictionary of Archaeology. Blackwell Publishers, 2002.

7) Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário. Via Occidentalis Editora Ltda, Lisboa, 2007.

oito) J. E. Cirlot, A Dictionary of Symbols. Routledge, London, 2001.

9) Maria Oliveira, Morgado Ferrão de Leonor, Eugénio dos Santos e Carvalho: arquitecto e engenheiro militar, 1711-1760: cultura e prática de arquitectura. Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, inst. acad. Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.

10) Dados obtidos no site do Município: http://www.cm-lisboa.pt

11) Dados obtidos no site do Município: http://www.cm-lisboa.pt

12) Laborde Ferreira e V. M. Lopes Vieira. Estatuária de Lisboa, pág. 224. Ed. Língua Portuguesa, 1985.

13) Fulcanelli, Le Mystère des Cathedrales. Ed. Jean-Jacques Pauvert, Paris, 1964.

14) Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário. Via Occidentalis Editora Ltda, Lisboa, 2007.

15) Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta. Via Occidentalis Editora Ltda, Lisboa, 2007.

16) Vitor Manuel Adrião, ob. cit.

17) Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita (no prelo). Edições Jonglez, Paris.

 

Créditos fotográficos: Autor e Arquivo da Comunidade Teúrgica Portuguesa.