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Lisboa, 25.10.2009   

  

Nuno Álvares Pereira, também conhecido como o Santo Condestável, Beato São Nuno de Santa Maria ou simplesmente Nun´Álvares (nascido em Cernache de Bonjardim, Sertã, em 24.6.1360, e falecido em 1.4.1431 no Convento do Carmo, Lisboa), foi um nobre e guerreiro português do século XIV que desempenhou um papel fundamental na crise de 1383-1385, onde Portugal jogou a sua independência contra Castela. Nuno Álvares Pereira foi também 2.º Conde de Arraiolos, 7.º Conde de Barcelos e 3.º Conde de Ourém, tendo chegado a Condestável do Exército Português, cargo que hoje equivale ao de Ministro da Defesa, e faleceu com fama de Santo da Ordem do Carmelo. Nuno Álvares Pereira foi um dos dez filhos de D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior da Ordem do Hospital com sede no Convento da Flor da Rosa, Crato, e de D. Íria Gonçalves do Carvalhal, filha de fidalgo. O jovem cresceu na casa do seu pai, na Flor da Rosa, onde viveu até aos 13 anos, tendo aprendido as artes militares e onde ganhou gosto pela leitura, sobretudo pelos livros de Cavalaria “onde a pureza era a virtude que tornara invencíveis os heróis da Távola Redonda”, e assim desejou para si “que a sua alma e corpo se conservassem imaculados”. Sonhou e confessou a sua mãe que também iria ser um Cavaleiro do Santo Graal, que O iria demandar, conquistar e depor no Altar da Pátria Lusitana. Isto confessou a sua mãe, que passou a chamá-lo de “o meu Galaaz”, este o herói da Távola Redonda que, segundo a narrativa, conseguiu apossar-se da Taça Sagrada, sabendo-se que Galaaz é apodo do próprio Cristo

Com essa idade de 13 anos entrou para a corte do rei do D. Fernando I, onde foi feito cavaleiro com uma armadura emprestada por D. João, Mestre da Ordem de Avis. Aos 16 anos, em 15.8.1376, casou-se em Vila Nova da Rainha, Azambuja, com D. Leonor Alvim, fidalga do Minho que enviuvara muito cedo e não tinha filhos. O casamento fora arranjado pelo rei e por D. Álvaro Pereira, a contragosto do filho que não queria casar. Do matrimónio nasceram dois filhos que morreram durante o parto, e uma filha, Beatriz. A mãe não resistiu aos problemas do parto e morreu pouco tempo depois do nascimento da filha, em Janeiro de 1388. D. Nuno Álvares Pereira entregou esta aos cuidados da avó, D. Íria Gonçalves. D. Beatriz casou em 1.11.1401 no Paço de Frielas, Loures, com D. Afonso, filho bastardo de D. João I e 1.º Duque de Bragança, Casa esta que iria ter papel determinante em vários períodos da História de Portugal e mesmo do Brasil Império. 

Quando o rei D. Fernando I morreu em 1383, sem herdeiros a não ser a princesa D. Beatriz, casada com o rei D. João I de Castela, D. Nuno Álvares foi um dos primeiros nobres a apoiar as pretensões portuguesas de D. João, Mestre de Avis, à Coroa. Apesar de ser filho ilegítimo de D. Pedro I de Portugal, D. João afigurava-se como uma hipótese preferível à perda da independência nacional para Castela. Depois da primeira vitória militar de D. Nuno Álvares sobre os castelhanos na batalha dos Atoleiros, em Abril de 1384, D. João de Avis nomeou-o Condestável de Portugal e Conde de Ourém. 

A 6.4.1385 o Mestre de Avis é reconhecido pelas Cortes reunidas em Coimbra como D. João I, rei de Portugal. A resposta de Castela não se fez esperar e invadiu o País com um poderoso exército. A 14 de Agosto desse ano, as forças portuguesas enfrentaram as castelhanas em Aljubarrota. Apesar da desvantagem numérica de 1 português para 10 castelhanos, em menos de uma hora decidiu-se a vitória retumbante dos portugueses graças ao génio militar do Condestável, que desde então e para sempre é o General do Exército Português. 

A batalha de Aljubarrota marcou o fim definitivo da instabilidade política e a consolidação da independência nacional. Em 25.7.1415 D. Nuno Álvares Pereira integrou a armada de 200 navios da Expedição a Ceuta, Norte de África, tendo sido a primeira conquista da época dos Descobrimentos Marítimos, entendida como acto da reconquista cristã e acto de gesta missionária. Foi a última batalha do Condestável. Com 55 anos de idade e riquíssimo, distribuiu os seus bens pelos familiares e pela Ordem do Carmelo, e despojado das riquezas deste mundo, só com um humilde burel, entrou a professar como frade mendicante no Convento de Nossa Senhora do Carmo, em Lisboa. 

No exercício espiritual Frei Nuno de Santa Maria, nome que adoptara quando abraçou a vida religiosa, mostrou-se tão dedicado e bondoso para com todos que todos vinham comer do seu “caldeirão”, isto é, receber as suas esmolas, fossem por conselhos sábios e amoráveis, fossem por moedas, roupas ou comida que esmolara aos ricos para oferecer aos pobres. A sua fama de santo cresceu rapidamente, e ainda em vida atribuíram-lhe milagres. Havia quem dissesse que até ressuscitara mortos… 

Mas Frei D. Nuno não se despojou de tudo: conservou na sua pequena cela a sua espada e armadura. Abraçara a Religião mas não morrera a alma de leão devoto à Pátria. Há uma história fabulosa, invenção apologética do senso patriótico, sobre o embaixador de Castela que o terá visitado no Convento do Carmo e lhe perguntado o que faria se Castela invadisse novamente Portugal? Então o velho guerreiro levantou o hábito e deixou ver que por baixo trazia vestida a sua cota de malha, dizendo com firmeza: “Se el-rei de Castela mover guerra a Portugal, servirei ao mesmo tempo a religião que professo e a terra que me deu o ser”. 

Outra história fabulosa, situada no início da vida monástica de D. Nuno, foi a do boato de Ceuta estar prestes a apresada pelos mouros, e o velho guerreiro alquebrado querer embarcar na Expedição de socorro a Ceuta. Quando o tentaram dissuadir, pegou numa lança e atirou-a da varanda do Convento. A lança atravessou o vale em baixo e foi cravar-se numa porta do outro lado do Rossio, dizendo D. Nuno: “Em África a poderei meter, se tanto for mister”! Daqui nasceu a expressão “meter uma lança em África”, no sentido de se vencer uma grande dificuldade. 

Em 30 de Março de 1431, Sexta Feira da Paixão, o “Frade Santo”, como lhe chamavam, com 70 anos de idade tombou gravemente doente. Acudiram ao Carmo os mais importantes do Reino, incluindo D. João I e o príncipe herdeiro, D. Duarte. Ao meio-dia de 1 de Abril, Domingo de Páscoa, Frei D. Nuno morreu. O rei D. João I estava à sua cabeceira. 

O Povo de Portugal chorou o seu Santo Guerreiro, até em Castela o choraram, por seus dotes de pureza e justiça. Começaram as romarias piedosas ao Carmo, e todos queriam levar uma mão cheia de terra do túmulo do Santo Condestável, que assim ficou conhecido até hoje. Segundo a Crónica dos Carmelitas, essa terra milagrosa misturada com água e tomada naturalmente ou aplicada, operou 12 ressurreições, 24 curas de paralíticos, 21 curas de cegos, 21 curas de surdos ou mudos, 18 curas de doenças internas, 16 curas de doenças fatais, 10 recuperações de febres altas e derrame de sangue e 6 aparições do Grande Cavaleiro com graças espirituais. 

Os milagres atribuídos ao Santo Condestável prosseguiram pelos séculos seguintes, até que Nuno Álvares Pereira foi beatificado em 23 de Janeiro de 1918 pelo Papa Bento XV, tendo consagrado o dia 6 de Novembro ao então Beato. O seu processo de canonização, iniciado em 1940, após várias interrupções, desfechou com D. Nuno Álvares Pereira sendo canonizado como São Nuno de Santa Maria pelo Papa Bento XVI em Roma, às 9 horas e 33 minutos (hora de Portugal) de 26 de Abril de 2009. 

  

A “Espada Mágica” do Santo Condestável  

  

Desde a sua juventude que o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira era tremendamente influenciado pela Mística dos Cavaleiros da Távola Redonda e a sua Demanda do Santo Graal, símbolo perene de Iluminação na Graça do Espírito Santo incarnado na imagem ideal de Santa Maria Maior. 

Homem feito, ingressado na carreira das armas e já destacado como esforçado cavaleiro defensor do reino, procurou ter uma “espada mágica” como aquela que o rei Artur possuiu, uma nova caliburna ou excalibur que desta vez seria deste novo “Galaaz do Carmelo”. Pegou na sua velha espada e procurou Fernão Vaz, alfageme de Santarém, para que a corrigisse, e ele assim fez, dando-lhe têmpera e feição nova, nada cobrando ao Condestável pelo trabalho, dizendo, em guiso profético, que quando ele fosse Conde de Ourém lhe haveria de pagar, o que veio a acontecer, tendo D. Nuno feito grandes intercessões a favor desse alfageme, misto de ferreiro, alquimista e profeta.   

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Espada do Santo Condestável Nuno Álvares Pereira no Museu Militar de Lisboa

 A espada é de lâmina direita e aguçada, e o punho em cobre, tendo também à roda em espiral fio de cobre, medindo na sua maior largura três polegadas, diminuindo sucessivamente até à ponta. Num dos lados da lâmina, onde também se reconhece o signo do corregedor – uma cruz e uma estrela – D. Nuno mandou gravou a seguinte inscrição: Excelsus super omnes gentes Dominicus. Na outra face está gravado o santo nome de Maria, e dentro de um círculo as palavras Dom Nuno Álvaro, vendo-se ainda uma contra-marca, com a cruz entrelaçada por flores. As aberturas/saliências na lâmina serviam, além aspecto decorativo, para tornar a espada mais leve, logo, mais fácil de manusear. Sugerem o formato de runas, com o sentido prático de levar as lâminas adversárias a encravarem-se nas mesmas, e com um golpe hábil prontamente o adversário era desarmado. 

Com essa excalibur ungida, erguida ao Céu evocando os seus Poderes, D. Nuno Álvares Pereira salvou a independência ameaçada de Portugal por Castela, e depois vira-a para baixo e fá-la Cruz, a qual abraça incondicionalmente na Fé do Carmelo, no todo sendo cavaleiro-monge, o paradigma perfeito da Linhagem Cavaleiresca ou Kshatriya sob o pendão da Mãe Divina de quem era Grão-Tributário. 

Pode-se ver a réplica exacta desta espada no claustro arruinado do Convento do Carmo (assim como à entrada da igreja do Santo Condestável, também em Lisboa, havendo outra igual na Sertã, por cima da porta lateral da capela de N.ª Sr.ª dos Remédios), mesmo que se diga que a peça original é a que está patente ao público no Museu Militar de Lisboa, junto a Santa Apolónia. 

  

A Porta Real do Carmo 

  

O Convento de Nossa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo afronta o Monte do Castelo de S. Jorge em cuja encosta estavam o Paço Real e a Sé Catedral, estando permeio a ambos os Montes o campo do Rossio, chamado nos séculos XIV e XV de Valverde. Esta conjunção geográfica ficou assim por vontade de D. Nuno Álvares Pereira, que após abandonar a vida militar e entrado na religiosa mandou construir este convento em 1389, confirmando-se a teimosia com que quis fosse aqui a Casa principal do Carmelo em Lisboa, apesar das dificuldades técnicas em construí-la devido à consolidação da escarpa onde assentaram as fundações da cabeceira do templo. 

Aliás, no tempo do Santo Condestável chamava-se ao Monte do Carmo de lugar da Pedreira, habitado sobretudo por judeus, tendo ele insistido ter de ser aí o lugar do convento e igreja, e quando os seus alicerces cederam por duas vezes, D. Nuno jurou fazê-los de bronze caso voltassem a ruir. Para a terceira tentativa foram contratados os mestres canteiros, o mesmo que arquitectos, mais famosos de Lisboa: Afonso, Gonçalo e Rodrigo Eanes, que não consta que fossem parentes. Com eles foram contratados os mestres pedreiros Lourenço Gonçalves, Estevão Vasques, Lourenço Afonso e João Lourenço. Os servidores e amassadores de cal, tarefa especializada, foram os judeus Judas Acarron e Benjamim Zagas. Esta Maçonaria Operática, tendo deixado com fartura siglas e inscrições lapidares nas paredes do templo que ainda se podem ver, finalmente viu a sua empresa coroada de êxito. 

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O Convento do Carmo em Lisboa antes de 1755

Quando se venciam os percalços, novos surgiam, e assim, percalço sobre percalço, o templo foi se construindo até se tornar o mais notável edifício gótico da época. Porque D. Nuno escolheu este lugar quase impossível para se construir coisa alguma, alcantilado na Pedreira que se fez Carmo? Há a razão gnoseológica, atendendo que o Carmo, o Paço no Castelo e a Sé prefiguravam um triângulo, ficando o espaço do mesmo ocupado pelo campo de Valverde, nome que lhe foi aposto pelo próprio Condestável, decerto em memória da sua vitória retumbante (Outubro de 1385) na batalha do mesmo nome. 

Tanto que o Paço e este Convento ficavam defronte um ao outro, e quem vinha daquele entrava neste pela sua hoje quase esquecida ou ignorada porta real, gótica, lateral à entrada principal, razão de estar decorada com flores-de-lis, símbolo de realeza adoptado oficialmente por D. João I, o iniciador da Dinastia de Avis cujo paraninfo foi o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, e como religioso, simplesmente Fr. Nuno de Santa Maria. 

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Porta Real do Convento do Carmo, Lisboa

Junto a esta entrada, pode igualmente observar-se pedras inscritas com legendas e desenhos de peixes, animais e aves, assim como parte da antiga escadaria que descia para o campo de Valverde a caminho do Paço, sobreviventes desconjuntados do terramoto de 1755 cujos sinais mais dramáticos dos seus efeitos na cidade vêem-se aqui. 

  

As relíquias do Santo Condestável 

  

Depois do terramoto de 1755, as poucas ossadas de D. Nuno Álvares Pereira que sobreviveram à catástrofe foram colocadas numa réplica em madeira do seu túmulo, em 21 de Março de 1768, onde ficaram até 14 de Março de 1856, quando foram removidas e postas numa urna forrada a veludo, em 9 de Março de 1895. Em 1912, foram depostas num relicário de prata e devotamente percorreram o país até que, cerca de 1967, roubaram as relíquias e nunca mais se recuperaram. 

Outros ossos do Santo e Guerreiro, que por cautela antecipada estavam guardados noutro lugar, substituíram os roubados e foram divididos em duas partes, uma destinada à veneração na capela da Ordem Terceira, no Largo do Carmo, ao lado das ruínas do convento, e outra para a igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, onde as ossadas ficaram numa urna debaixo do altar-mor. 

De facto, o terrível terramoto destruiu completamente os bairros do Carmo e da Trindade, hoje ligados pelo conhecido prolóquio cair o Carmo e a Trindade. O convento carmelita que D. Nuno Álvares Pereira aqui fundou foi arrasado pelo cataclismo, assim desaparecendo o seu túmulo, do qual só restam as ditas ossadas consideradas relíquias santas. 

A sepultura original, conforme Frei D. Nuno rogara como esmola pouco antes de falecer, era “uma mortalha e uma cova para o corpo”. Portanto, campa rasa simples e humilde. Mas algum tempo depois foi construído um túmulo condigno com a sua grande pessoa, inscrevendo-lhe o seguinte epitáfio: “Aqui jaz o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a vida na Terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta igreja onde descansa o seu corpo”. 

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Réplica do túmulo de Nuno Álvares Pereira no Convento do Carmo, Lisboa

O túmulo estava junto ao altar-mor e continha um único corpo amortalhado, com uma espécie de gaveta isolada que protegia a cabeça, evitando o contacto desta com a terra e a cal. Este artefacto, caído em desuso cerca de um século antes da morte de D. Nuno Álvares Pereira, era igual àquele dos lendários cavaleiros da Távola Redonda cujos feitos o haviam inspirado tanto desde a infância. Aliás, a sua mãe, D. Irene, apelidava-o em pequeno de Galaaz, nome do mais puro dos cavaleiros da Távola do rei Artur Pendragon. O próprio povo, que rompia o chão da igreja para conseguir uma mão cheia de terra santa da sua sepultura miraculosa, considerava-o o último cavaleiro medieval, modelo de justiça e perfeição. 

  

A fachada apologética da igreja do Santo Condestável 

  

A fachada exterior da igreja do Santo Condestável apresenta no topo, sob a Cruz da Ordem de Avis, as Armas de Portugal coroadas com o Dragão dos Lusos, na forma clássica do mítico baphomet, o ídolo estranho atribuído aos antigos Templários. Mais abaixo, dos lados, Santa Maria com o Menino ao colo, num nicho cuja mísula é suportada por três cabeças de Anjos, aludindo à Trindade Divina. Nossa Senhora, Cordo Mariz ou “Coração de Mãe” de todo o Portugal, era da devoção maior do Santo Frei Nuno de Santa Maria do Carmelo, e por isso postou-se aqui a sua imagem com o salvífico escapulário carmelitano no peito, tendo o Menino ao lado. 

Noutro nicho, está S. Jorge erecto lanceando o dragão da iniquidade e da traição à Pátria que é tanto mística como geográfica, tendo sido o Condestável D. Nuno o primeiro a render o preito da sua devoção ao Santo Guerreiro, como Filho para Pai expressando na Terra ao Metraton do Céu, o mesmo Mikael ou S. Miguel Arcanjo incarnado como S. Jorge ou Akdorge, Padroeiro do Exército Português desde a sua vitória retumbante na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de 1385. Repetem-se três cabeças de Anjos na mísula, expressando a Santíssima Trindade na Terra, enquanto na outra a expressam no Céu. 

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Fachada dianteira da igreja do Santo Condestável, Lisboa

Ao centro, sobre a entrada, está D. Nuno Álvares Pereira trajado de carmelita e adorado lateralmente por dois Anjos, um custodiando a Taça Eucarística do Graal e outro à Espada Mágica de Excalibur em cuja lâmina se enrosca uma serpente em ascensão. Aos pés do Santo Condestável, as Armas de Avis já gravadas na sua bandeira lábaro sagrado de Portugal, aliás, Porto-Graal

A igreja abriga as relíquias deste Santo Condestável, e o seu tesouro artístico são os dois vitrais de Almada Negreiros que iluminam os altares laterais, alusivos à devoção do Santo e Guerreiro por Cristo e sua Mãe, com figuras longas e em tons fortes. Estão moldados em janelas ogivais, repartidas por cruzes altas. 

Esta igreja do Santo Condestável, inaugurada em 14 de Agosto de 1951, situa-se em Lisboa entre o Mercado de Campo de Ourique e a Rua Saraiva de Carvalho, e pertence à série das “Novas Igrejas”, resultado do desenvolvimento peculiar do modernismo conciliado com os moldes góticos e manuelinos. Este templo “neogótico”, como é uso classificar-se, foi projectado em 1946 pelo arquitecto Vasco Regaleira (Vasco de Morais Palmeiro) que colaborou na Exposição do Mundo Português em 1940. 

  

Ordem de Santa Maria do Carmelo 

  

A Ordem do Carmo que originalmente se chamou Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, constituiu-se entre os anos 1206-1214 dum grupo de leigos latinos (eremitas penitentes, possivelmente ex-cruzados) liderados por um tal de B, posteriormente identificado como Brocardo, os quais viviam na região do Monte Carmelo, uma cadeia de colinas próxima à cidade de Haifa, antiga Porfíria, no actual Estado de Israel. 

A palavra Carmelo significa “jardim”. Nesse Monte se recolheram os eremitas cristãos seguindo a tradição bíblica do Profeta Elias que no passado remoto aí se estabelecera numa gruta, seguindo uma vida eremítica de oração e silêncio. Mais tarde, esses cristãos penitentes rogaram uma regra de vida a St.º Alberto, Patriarca de Jerusalém, que os atendeu e reuniu numa Ordem tipicamente eremítica e cristocêntrica, mas idealizada na Vida da Mãe de Deus. A Regra Carmelita foi aprovada pelo Papa Honório III em 1226, tendo a seguir os monges emigrado para o Ocidente europeu, onde iniciaram a propagação da Hipertúlia, ou seja, o culto e veneração a Nossa Senhora, desde logo se assumindo como a primeira Ordem religiosa Mariana ou Matrística da Europa. 

Nos inícios do século XIV os Carmelitas entraram em Portugal e estabeleceram-se em Moura, no Alentejo. O Santo Condestável Nuno Álvares Pereira simpatizou de imediato com eles por sua grande devoção à Virgem Maria, e mandou construir em Lisboa o Convento do Carmo para albergar os freires, tendo ele mesmo, nos anos finais da sua vida, ingressado aí, como freire penitente da Ordem Carmelita da Antiga Observância, que é o seu ramo mais antigo. 

Posteriormente, em 1593, formou-se a Ordem dos Carmelitas Descalços, resultado da reforma feita ao carisma carmelita elaborado por St.ª Teresa de Ávila e S. João da Cruz. Este ramo reparte-se em três diferentes tipos da família carmelitana: os padres e frades, as freiras de clausura, e os irmãos leigos. 

Também os carmelitas não escaparam a uma certa filiação à Tradição Hermética, como indiciam vários acontecimentos históricos: desapoiaram o Papa Clemente V (assassino moral da Ordem do Templo) e apoiaram a eleição de João XII, autor da Bula Sabatina, gozando da protecção da Ordem de S. João de Acre, vulgo Hospitalários; igualmente foram acusados de confundirem a Virgem Maria com Maria, a Egípcia, famosa por um processo alquímico ligado ao seu nome: o de destilar pelo fogo a água, ou seja, o conhecido “banho-maria”. 

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“Procissão Triunfal”, Jardim Castro Guimarães, Cascais 

Ainda mais significativo: no extinto Convento de Nossa Senhora da Piedade de Cascais havia dois enormes painéis de azulejos (desde 1925 patentes no Jardim Castro Guimarães dessa vila), um deles provando cabalmente a filiação hermética do Carmelo, quando retrata a Procissão Triunfal com a Virgem Maria em Glória (Shekinah) sentada no Carro ou Merkabah tendo adiante os Arcanjos S. Miguel e S. Gabriel, associados ao Sol e à Lua, e atrás o cortejo dos “Filhos de Maria”, ou seja, os Adeptos da Alquimia que é uma Ciência de Espírito Santo configurado na mesma Mãe de Deus. Todos esses Adeptos ligados à Tradição Espiritual Portuguesa dos quais se destacam: St.º António, St.ª Isabel de Portugal, St.ª Isabel da Hungria, St.º Alberto Magno, Raimundo Lúlio, Arnaldo de Vilanova, Escoto, etc. Por cima do conjunto vogam Anjos, cada qual com uma alfaia do Hermetismo Carmelitano cujas Armas, abaixo, selam a obra. 

  

Fernando Pessoa no encómio ao Santo Condestável 

  

Mensagem, Lisboa, Ática, 1934. 

   

Que auréola te cerca? 

É a espada que, volteando, 

Faz que o ar alto perca 

Seu azul negro e brando. 

  

Mas que espada é que, erguida, 

Faz esse halo no céu? 

É Excalibur, a ungida, 

Que o Rei Artur te deu. 

  

´Sperança consumada, 

S. Portugal em ser, 

 Ergue a luz da tua espada 

Para a estrada se ver. 

  

Créditos fotográficos: Autor e Paulo Andrade. 

  

  

  

  

  

  

  

    

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