…Muitas vezes passamos ao lado do fenómeno, até mesmo do milagre, sem dar por ele, cegos e surdos…

 Fulcanelli, Mistério das Catedrais

 

Percorrendo as ruas da magnífica Lisboa, os mistérios e encantos desta vão-se sublimando aos olhos do observador atento e interessado despertando, no seu mais íntimo campo subtil, o apego e respeito valoroso pela história e importância desta bela cidade iluminada (e iluminadora) às portas do Tejo.

Capital de Portugal, mas também capital de devoção e fé, Lisboa está no seu corpo repleta de igrejas ao longo de toda a Baixa Pombalina, sendo a “mãe” de todas elas a Catedral de Santa Maria Maior, mais conhecida por a Sé Patriarcal, por alguns apelidada também de Notre Dame Portuguesa.

A reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755, fez muitas das igrejas reconstruídas passarem desapercebidas em toda a arquitectura (também ela sagrada) da Baixa Pombalina. Aspecto premeditado pelo ministro Sebastião José Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal, com o intuito de controlar o poder da Igreja Católica.

Inclusivamente, nos dias de hoje muitas das igrejas que pertencem ao Estado ou a Bancos são utilizadas para os mais diversos fins sem serem o da devoção e da fé, a que estas estavam destinadas originalmente. Um dos casos mais insólitos, prende-se com a utilização de uma das igrejas como depósito ou garagem para automóveis, profanando por completo todo o sentido sagrado desse local o qual as mentes ignorantes pobres de espírito que o utilizam fazem questão de “fé” continuar a “manchar”.

Mas casos insólitos aparte e voltando ao nosso assunto, foquemos a atenção no que ainda de bem, de bom, e de belo é mantido e preservado (salvo seja, visto que a manutenção dos monumentos fica bastante a desejar!) nesta cidade. Seguindo pela Rua das Alfândega, no sentido da famosa “Casa dos Bicos”, para o Arco Triunfal da Rua Augusta, passa-nos desapercebida uma igreja um pouco diferente das restantes no que toca às suas características. Estando absorvida por toda a massa constituinte do edifício dos Ministérios do Governo, esta igreja, que hoje apenas representa uma simples fotografia rápida ao mero turista ou um desprezo enorme pelo comum lisboeta, é um tesouro maravilhoso no que toca à sua história, estilo e mensagem.

A origem desta construção data do século XVI, mais especificamente 1520, reinando D. Manuel I e posta sob a invocação de Nossa Senhora da Misericórdia, constituindo assim a primeira Misericórdia de Lisboa e que no País foi instituída em 1498 por iniciativa de D. Leonor, irmã deste monarca, e do seu confessor Frei Miguel Contreiras (1). Neste período seria um dos monumentos mais importantes da cidade – a seguir ao Mosteiro dos Jerónimos de Santa Maria de Belém – com toda a sua fachada virada para o Tejo em conjunção com a imagem da Varina no seu pórtico, enaltecendo a importância das águas desta terra que caracterizou o próprio nome de Lisboa (Lis+Bona = “águas boas” ou “boas águas”).

O caro leitor neste momento deverá estar a questionar: como é que esta igreja tem o nome de Conceição-a-Velha quando o seu original era igreja da Misericórdia?

Esse facto, também ele gerou alguma confusão na história deste edifício, visto que no tempo de D. Manuel I existia já uma Conceição Velha doada pelo monarca em 1502 aos freires da Ordem de Cristo, construída no lugar da sinagoga da Judiaria Grande e que justificaria a transposição da devotíssima Virgem Negra da capela da Memória no Restelo, doada pelo Infante Henrique de Sagres em 1460 aos mesmos freires de Cristo, para este local, trasladação realizada em procissão triunfal pela freiria da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquando do terramoto de 1755, essa igreja ficou destruída e não se reconstruiu, sendo dado um espaço novo aos freires da Ordem de Cristo por D. José I, visto esse imóvel não estar incluído na reconstrução da Baixa Pombalina, sendo atribuída à Ordem a que hoje se localiza na Rua da Alfândega.

Assim, a primitiva igreja da Misericórdia, do tempo de D. Manuel I, viria a chamar-se igreja da Conceição-a-Velha (em substituição da antiga) até aos dias de hoje, contudo, muito diferente da original, visto ter sido destruída quase na totalidade pelo terramoto e reerguida pela intervenção do arquitecto Francisco António Ferreira em conjunto com Honorato José Correia, em 1770, reaproveitando parte da antiga igreja da Misericórdia, nomeadamente o portal e as duas janelas claramente Manuelinas, assim como um baixo-relevo de Nossa Senhora da Misericórdia e a capela do Santíssimo Sacramento, esta já do século XVII, que se adaptou a capela-mor. Desta forma alterou-se a orientação do templo, cujo portal transversal Sul passou a principal, a eixo com a capela-mor que era anteriormente uma capela lateral. O interior apresenta-se de nave única, com capelas colaterais, coro alto e capela-mor rectangular. As esculturas de valor, talhas e revestimentos de azulejos e estuques que aqui ainda se conservam, datam do período Setecentista (2). Além disso, a supracitada Virgem Negra, seria então transposta para aqui por simples mudança e não por procissão triunfal, como muitos autores de renome consideraram ter sucedido, tendo esta provavelmente sido realizada apenas para a antiga Conceição-a-Velha, a que ficou destruída e não foi reconstruída, na Judaria Grande.

O monarca D. Manuel I deixou um legado importante de igrejas e mosteiros por todo o País, denotando o Hermetismo vigente que se viveu na sua época. Um dos legados inquestionáveis deixados na Cultura Portuguesa foi, sem sombras para dúvidas, o imponente estilo arquitectónico muito apropriadamente chamado Manuelino. A igreja da Conceição-a-Velha, pertencente a esse legado, foi na realidade um verdadeiro milagre que sobreviveu heroicamente ao tempo e ao derradeiro terramoto, como também à pouco habilidosa reconstrução da fachada e do seu interior, valorizando-se nos seus elementos maravilhosos e mágicos no estilo Manuelino, que os cinzéis dos incógnitos Mestres-Canteiros deixaram para a eternidade no Corpo Hermético Olisiponense.

Perdendo-nos nas maravilhosas esculturas, baixos-relevos e rendilhados trabalhados magicamente na pedra que enchem os nossos olhos e prendem-nos hipnoticamente no infinito, deparamo-nos com uma riqueza de elementos herméticos, muito semelhantes a alguns presentes no Mosteiro dos Jerónimos, ligando-nos a uma linguagem alquímica, completando esta heróica igreja como um verdadeiro Milagre Filosofal.

Numa primeira abordagem mais superficial, temos inúmeros símbolos que inundam os elementos sobreviventes da igreja (pórtico e janelas) e nos permitem afirmar que a linguagem alquímica está aqui patente. Focando a nossa atenção nas janelas, temos aí dragões com os seus pescoços entrelaçados unindo-os um ao outro e cuspindo uma flor das suas mandíbulas, denotando a união dos opostos a que a Alquimia se dedicava esmeradamente caracterizando, como veremos mais à frente, as Núpcias Químicas. Para além de dragões temos grifos, localizados abaixo das figuras cristãs, que simbolizam os dois princípios opostos da matéria, o volátil (devido às asas) e o denso (patas de leão). O ouroborus, a serpente que devora a si mesma e se gera de novo, é um dos símbolos mais importantes (senão o mais importante) da Alquimia, também está aqui presente, representando a própria Grande Obra, a Unidade dos Opostos (como a do Espírito com a Matéria, do Fixo com o Volátil, do Masculino com o Feminino, do Enxofre com o Mercúrio), transpondo também o Infinito na Eternidade cíclica figurada no seu “movimento” circular sobre si mesmo, para o eterno devir completando a Unidade permanente, a Pedra Filosofal. Junto do ouroborus também observamos vários pássaros comendo dos frutos da Árvore da Vida, expressando a própria “Fala dos Pássaros” que os Alquimistas teriam de dominar para mergulhar nos Mistérios Alquímicos. Inclusivamente, o grande dogma de Hermes Trimegisto está aqui representado: (…) o que está em cima é como o que está em baixo, para se cumprir o milagre da unidade (…), através de um baixo-relevo onde os pássaros olham para baixo e os grifos para cima. Assim, a nossa primeira impressão prende-se na apercepção de que a linguagem alquímica é aqui uma constante, valendo a intenção de olharmos para ela com mais atenção, sublimando, aos nossos olhos, o resto que aqui vai transposto. Analisemos.

 O Ouruborus na fachada da Conceição-a Velha

 

No portal desta igreja encontra-se a figura da Varina com uma espada e uma balança nas mãos. Segundo Vitor Manuel Adrião, na sua obra Lisboa Secreta (3), ela está presente sob um significado esotérico, lendo-se: «Varina decompõe-se em Vénus+Ina, esta última significando, entre os povos da Oceânia, “Mãe do Mar”, o que se enquadra na bíblica STELLA MARIS – da adopção Carmelitana – Estrela-do-Mar». E Stella Maris é o célebre termo utilizado na linguagem alquímica, sendo a alusão ao “Mar dos Filósofos Herméticos”, ou seja, ao lugar onde ocorre o milagre universal da aparição da Estrela, sinal da formação do Rebis, indicativo da unificação dos opostos a que toda a Alquimia se propõe. Portanto, fica aqui evidenciado o carácter hermético do portal desta igreja.

Amálgama, no que diz respeito à definição química, é toda a liga metálica em que um dos metais envolvidos está em estado líquido, sendo geralmente o mercúrio.

O Mercúrio, na Alquimia, é o metal dissolvente dos outros metais, estando associado à figura da mulher e da água, também designada como a água mercurial divina, muito bem transposta na obra de Baro Urbigerus, Chymische Schriften, de 1705, justificando a própria imagem da Stella Maris, a Estrela-do-Mar que garante a cooperação ou união dos opostos entre si, a Núpcia Química ou Rebis. É o que se trata no portal da Conceição-a-Velha, pois a Varina situa-se no centro do portal sendo o ponto de união através dos arcos das duas colunas opostas tanto arquitectonicamente como pictoricamente, configurando no seu conjunto a letra sagrada M, justificando o que anteriormente foi descrito.

A Varina como representação da Stella Maris,

a água mercurial divina que unifica os princípios opostos

 

Além disso, a espada e a balança são referências aos princípios necessários para realizar a Grande Obra na Alquimia, sendo a balança a exigência no domínio dos pesos e proporções para que as reacções tenham sucesso. Por outro lado, a espada, que foi um termo utilizado na Alquimia e enganou muitos investigadores, é a Espada dos Sábios, o seu Fogo Salino, caracterizando o seu poder, a sua faca e a sua espada. Subentende-se, portanto, que “cortar” significa por vezes na Alquimia “cozer” (4). Normalmente os símbolos da Alquimia são apresentados com a balança e o compasso, podendo-se afirmar que estes (espada e balança) pertencem à figura da Justiça; no entanto, existem várias referências à espada e balança entre vários autores. A própria sétima Chave de Basilius Valentinus, é uma alegoria ao regime do Fogo exactamente com a espada e a balança. Em termos da representação artística, a obra Viridarium Chymicum, de D. Stolcius von Stolcenberg, 1624, faz jus à mesma imagem da Varina.

Viridarium Chymicum, de D. Stolcius von Stolcenberg (1624), Frankfurt

 

Para além da Varina, outros elementos escultóricos alusivos ao mesmo simbolismo alquímico estão aqui presentes, tal como os santos existentes nas janelas ao lado do pórtico, tendo do lado direito São Paulo e São Pedro, e do lado esquerdo Santo André e São Tiago. Analisemos:

São Paulo, o grande difusor do Cristianismo e considerado o verdadeiro criador da religião, banindo-a de vez como uma seita, expressa na linguagem esotérica o SEGREDO REVELADO mas apenas aos merecedores, aos dignos de receberem tal revelação (5). Este facto prende-se aos objectos iconográficos que o Santo possui, onde na mão direita carrega um alfange mourisco (referência à Viagem Paulista à Hispânia, segundo os Actos dos Apóstolos), que também parece um espelho às avessas, e na mão contrária um livro fechado (referência ao Conhecimento Esotérico ou Velado). São Paulo torna-se aqui a referência, visto ter sido a testemunha da declaração de Jesus aos seus Apóstolos sobre o «segredo escondido em todos os Tempos e em todas as Idades» (6), que na linguagem alquímica corresponde à revelação da Matéria-Prima verdadeira para a iniciação da Grande Obra. Ora este “segredo de todas as Idades”, a Matéria-Prima, é expresso pelo espelho, visto conter todos os princípios divinos retratando o Todo no Uno, como o reflexo de um espelho. No entanto aqui e o sendo, aparenta estar virado ao contrário, visto só os merecedores e Iniciados na Arte terem a sua revelação…

São Pedro também não deixa de ser uma referência para o simbolismo alquímico, tal como Fulcanelli explica no Mistério das Catedrais (7), pois representa uma referência muito importante para a Grande Obra simbolizado com as duas chaves entrecruzadas. Passo a citá-lo:

«(…) Então o galo, atributo de S. Pedro, a Pedra verdadeira e fluente sobre a qual repousa o Edifício cristão, o galo terá cantado três vezes. Porque é ele o primeiro Apóstolo, que detém as duas chaves entrecruzadas da solução e da coagulação; ele é o símbolo da pedra volátil que o fogo torna estável e densa ao precipitá-la. S. Pedro, ninguém o ignora, foi crucificado de cabeça para baixo(…)»

Santo André, o mártir que foi crucificado numa cruz aspada ou em forma de X, e segundo o Novo Testamento o irmão de São Pedro, por sua vez é mais uma referência ao Labor Alquímico, transpondo-se como a Ciência que trata não apenas da Matéria mas também do Espírito. No fundo, trata-se de vencer a Matéria para se atingir o Espírito, correspondendo a figura a uma das primeiras fases do trabalho sobre a Matéria-Prima, a chamada Crucificação da Matéria.

São Tiago, o Peregrino e o Padroeiro dos Alquimistas, representa com a sua concha ou vieira o chamado Mercúrio Filosofal (8), sendo um dos Princípios Divinos mais importantes para os Alquimistas: «Na nossa Obra, afirmam os Filósofos, o Mercúrio é suficiente». Além disso, vindo de França, foi o grande Nicolas Flamel quem realizou o mítico trilho de Peregrinação a Santiago, na sua viagem a Espanha, melhor dito, à galaica terra luso-céltica.

São Paulo, São Pedro, Santo André e São Tiago

 

Assim, este conjunto acaba por sintetizar toda a Grande Obra, não deixando de haver o pressuposto Espelho da Arte (Matéria-Prima da Obra) transposto na imagem de São Paulo, aplicando as duas “chaves” principais da Operação Alquímica – Solve et Coagula – transportada por São Pedro, e manifestadas na Crucificação da Matéria com Santo André, e no Mercúrio Filosofal com a Concha de Santiago, respectivamente.

 

O Laboratorium Alquímico da Conceição

 

Toda a Obra é uma recapitulação ou imitação da Criação do Mundo e do Cosmos por Deus. Desta maneira, todo o simbolismo alquímico existente no pórtico e janelas é apenas uma substituição com o mesmo carácter cosmogónico da Criação Divina, que não deixa de ser recriado num verdadeiro Laboratório Alquímico.

Os Quatro Elementos da Natureza, estão representados pelas quatro figuras femininas que se dispõem nos pólos opostos do pórtico formando a figura de uma Cruz, caracterizando o próprio símbolo espagírico, o Crucibulum, ou também o Tigillum, expressando o almofariz ou o gral onde se coloca e prepara a Matéria-Prima ou Prima Matéria (definida por Aristóteles como a síntese dos Quatro Elementos), e que o Alquimista sublima levando essa ao Lapis (Pedra Filosofal).

Esses Quatro Elementos não estão representados simplesmente ao acaso só por estarem dispostos em pólos opostos verticais e horizontais, mas sim devido a toda a sua relação simbólica que perfaz o símbolo acima descrito. E como foi descrito anteriormente, a Varina com a espada e a balança é o ponto inicial desta análise simbólica na relação com as outras figuras. Um aspecto muito importante, é filtrarmos a nossa atenção para o facto das figuras que caracterizam este Crucibulum serem todas elas femininas, logo sendo possível estabelecer uma relação superficial entre elas, no entanto, sendo a Stella Maris a representação do “Mar dos Filósofos” (e, por sua vez, da Via Húmida) o seu elemento oposto é o Fogo, sendo a imagem da própria Nossa Senhora da Misericórdia a expressão tipomorfizada do Espírito Santo, o Fogo Celeste ou Cósmico (na Alquimia existem três tipos de Fogo: Fogo Elementar, Fogo Secreto e Fogo Cósmico).

Nas duas figuras laterais, temos a Virgem e o Anjo Gabriel, que para além do sentido bíblico representam verdadeiramente a divisa da Regra Beneditina do século VI d. C., Ora et Labora (Reza e Trabalha), que os Alquimistas viriam a aplicá-la tão fielmente caracterizando posteriormente a palavra, que hoje é tão comummente utilizada, Laboratório (Labor+Oratório). Este que seria o lugar onde se orava (mais se estudava os velhos textos) e se laborava (com os fornos e retortas), caracterizado então como o espaço de unificação desses dois exercícios, o Laboratorium. É precisamente isso que interliga as duas figuras: a Virgem (lado esquerdo) está a realizar, com a mão direita sobre o peito e o livro aberto, a sua oração. Do lado oposto, o Anjo Gabriel (mas expresso como figura feminina, por expressar a Lua como Princípio Feminino) com um objecto de trabalho alquímico, o matrás, selado hermeticamente expressando o próprio labor hermético da Grande Obra só acessível aos Adeptos. Não esquecendo que São Gabriel é o Mensageiro de Deus, este aspecto congratula-se com aquilo que é o símbolo da Alquimia, o Mercúrio, sendo este, no Pensamento Clássico, exactamente o Mensageiro dos Deuses. Além disso, o livro aberto da figura ora representa o Conhecimento Exotérico, Desvelado, contrário ao matrás selado que simboliza o Conhecimento Esotérico, Velado. Ambos estão presentes na Arte Real.

Assim se estabelece a Cruz entre as figuras femininas (a própria imagem alegórica da Alquimia é uma Mulher, como expressa a supracitada obra de Fulcanelli, O Mistério das Catedrais), caracterizando a Água na Varina, o Fogo em Nossa Senhora da Misericórdia, o Ar na oração da Virgem e a Terra na laboração dos metais (provenientes da Terra) no matrás do Anjo da Anunciação, Gabriel, o Mensageiro de Deus. Podendo-se também analisar esses dois últimos de forma inversa, o Anjo Gabriel como Ar, expresso pelas suas asas angélicas, e a Virgem Maria como a Terra receptora da Mensagem do Divino.

As duas esculturas (Virgem Maria e Anjo Gabriel) representativas da divisa beneditina – Ora et Labora

 

Além disso, as figuras femininas são a expressão dos regimes de Fogo, constituindo 4 Graus de Fogo que correspondem a Negro, Branco, Alaranjado e Vermelho associados com as fases da Obra, onde a sua regulação opera-se consoante as Estações do ano, sendo que na Primavera com o signo de Carneiro, executa-se a calcinação; no Verão com o signo de Caranguejo e um Fogo suave, a dissolução; no Outono com o signo da Balança e um Fogo moderado, a sublimação; e no Inverno com a fase saturnina do Capricórnio, a putrefacção e fermentação. A primeira aparece em Solve, e as outras três em Coagula (9). Este aspecto surge muito bem expresso figurado no Viridarium Chymicum, de D. Stolcius von Stolcenberg, 1624.

Viridarium Chymicum, de D. Stolcius von Stolcenberg (1624), Frankfurt

 

O Fogo Secreto está alinhado com o ponto que unifica a Cruz formada pelos quatro elementos femininos, através da cara masculina aí representada. Neste caso, estamos mesmo no ventre da operação, onde o fogo espermático do elemento macho faz despertar o fogo matricial da fêmea, dando-se o inicio da sublimação dos três corpos (Sal, Enxofre e Mercúrio), elevando-se e encontrando-se numa atracção natural no alto do Pórtico. É sobre este aspecto que Kamala Jnana define no seu Dicionário de Filosofia Alquímica (10) aquilo que o ventre simboliza na linguagem alquímica:

«Ventre. Sob a acção do fogo espermático do elemento macho, o fogo matricial da fêmea desperta. Uma reacção em cadeia desencadeia-se; é o início da sublimação dos três corpos… sublimação que se traduz pela elevação de vapores no alto do vaso. Em seguida estes três corpos vaporosos, encontrando entre eles uma atracção natural, unem-se. Ora como um deles tende a formar-se em terra quando é separado da sua massa, resulta que pequenas esferas se formam no centro dos vapores.»

No entanto, a imagem pictórica relativamente ao Fogo Secreto está contida nos dois dragões que estão em pólos opostos em forma de S, olhando na direcção um do outro mas coincidindo ao centro com a face masculina. Porque é que os dragões constituem o Fogo Secreto? Exactamente porque este Fogo Secreto, nas operações alquímicas, é um Sal Duplo (o Sal Duplo é uma expressão especifica da Via Seca, no entanto, o Fogo Secreto da Via Húmida tem um tratamento com um segundo Sal, acabando por constituir um Sal Duplo), alcalino e muito cáustico, que permite fazer a separação do Enxofre e do Mercúrio. Além disso, os próprios dragões respeitam ao enigma figurado do Salitre, tal como o Leão Verde ao Mercúrio, ou ainda o Lobo ao Antimónio (11), e estando estes situados nos pólos opostos representam o tal Sal Duplo, o chamado Fogo Secreto, constituindo assim o 5.º Fogo (em conjunto com os quatro anteriores) que activa toda a Matéria e a mantém sempre à mesma temperatura.

Ademais, a forma geométrica que envolve a face masculina é figurativa do símbolo do Vitrum ou alambique ( ) na Arte Real. O alambique é um dos utensílios mais importantes na Alquimia, no qual se realizam as destilações para obter os espíritos que são tão importantes nesta.

Representação do Alambique e do Fogo Secreto

 

As colunas opostas e o Magistério

 

O Grande Arcano da Alquimia, como já foi expresso, prende-se à unificação dos opostos, o Homem e a Mulher, o Mercúrio e o Enxofre, o Sol e a Lua, o Princípio Passivo com o Princípio Activo, o Fixo com o Volátil, etc.

Quando analisamos as colunas mais pormenorizadamente, verificamos que ambas estão dispostas ou organizadas em espelho (acaba por ser o “Espelho” de São Paulo revelado ao Iniciado), no fundo sendo uma oposição constante que se realiza até ao topo do arco magno do portal, à imagem do simbolismo paradisíaco da Árvore da Vida pelos seus inúmeros elementos naturais de rosas, ramos e pássaros, acabando no topo por se “cumprir o milagre da Unidade”.

Os símbolos do Espelho e da Árvore da Vida, são ambos elementos de referência na Cultura Hermética representando na Grande Obra Alquímica, respectivamente, o seu início e o seu fim. Facto que Fulcanelli, na sua obra Mistério das Catedrais (12), reforça muito bem, deixando frisado que o início da Grande Obra é a Matéria-Prima, que o Artista deve eleger após denominada pelo Espelho da Arte. E porque é que este Espelho retrata a Matéria-Prima? Porque estamos sob uma visão micro-macrocósmica onde “o que está em cima é como o que está em baixo”, como um verdadeiro Espelho onde os princípios da Matéria-Prima são o reflexo microcósmico de todo o Universo, ou seja, do Macrocosmos. A Árvore da Vida é o final da Obra, pois o seu crescimento e desenvolvimento é uma verdadeira Obra da Natureza. O Alquimista, na utilização dos diferentes metais através de uma verdadeira “Agricultura Celeste” ou Hermética, visa o objectivo de atingir uma verdadeira Obra Perfeita da Natureza, a Pedra Filosofal.

Completando a simbologia do Espelho em conjunto com uma das figuras principais (senão a principal) do pórtico desta igreja descrita anteriormente, a Varina, voltamos a referenciar novamente Fulcanelli na sua obra Mansões Filosofais, onde atribui também ao Espelho o Antimónio, o chamado “Filho de Saturno”, a Matéria-Prima da Via Seca da Grande Obra. Nesta Via, o Alquimista prepara o Régulo Marcial Estrelado, bem simbolizado na 1.ª Lâmina do Speculum Veritatis (Espelho da Verdade), de Ireneu Filaleto, onde um personagem detém na mão um Globo Crucífero com uma Estrela no seu interior oferecendo-o a dois Anciães ou Alquimistas. Quando olhamos para o pórtico de um plano mais afastado, conseguimos observar esses dois aspectos na circunferência que o arco do pórtico estabelece imageticamente e no cimo uma cruz com um elemento particular no seu interior, a própria Varina, que é nada mais nada menos que a Stella Maris, a Estrela-do-Mar tratada anteriormente. Desta forma, temos assim uma constatação das Vias que participam na Grande Obra expressas neste pórtico, tanto a Via Seca como a Via Húmida, acabando por constituir a Via Mista ou das Amálgamas praticada por Alquimistas como Ireneu Filaleto e Nicolas Flamel.

1.ª Lâmina do Speculum Veritatis e o

símbolo do Antimónio no pórtico da Conceição-a-Velha

 

Na Opus Magnum existem três grandes fases, segundo a Via Húmida, caracterizadas por três cores diferentes, constituindo, respectivamente, o Nigredo (negro), Albedo (branco) e Rubedo (vermelho). A fase do Nigredo é definida por um conflito entre os dois Princípios opostos (Mercúrio e Enxofre) onde ocorre a putrefacção da Matéria, “morrendo”, dando-se a separação dos dois Princípios Divinos, para que esta renasça novamente, se purifique e aperfeiçoe. É exactamente na segunda fase, o Albedo, que a cor branca assume a purificação da Matéria renascida, onde esta é “lavada” através das chamadas “Águias”. Por fim a terceira fase, o Rubedo, inicia-se com a re-união (Rebis ou “Núpcia Química”) dos Princípios Divinos agora sublimados e perfeitos, atingindo por fim o culminar da Obra: a Pedra Filosofal.

No entanto, existem determinados elementos simbólicos que caracterizam o fim ou o início de cada dessas fases, sendo que vários desses elementos estão maravilhosamente esculpidos em alguns baixos-relevos ao longo do majestoso pórtico culminado no seu topo com “o milagre da Unidade”, a Pedra Filosofal. Analisemos, então, cada um deles.

Iniciando a análise junto ao solo, constatamos a imagem de uma criatura do subsolo, além de um Sol e uma Lua, e que é uma besta assemelhando-se a uma esfinge ou um grifo (devido às asas de águia e ao corpo de leão). Desta forma, esses três símbolos caracterizam aquilo que o Alquimista no início do Magistério terá que conseguir obter, os dois Princípios Divinos e opostos existentes na Matéria imperfeita e corrompida, tendo que laborar várias operações para penetrar bem fundo nesta e obter então o Enxofre e o Mercúrio Filosóficos. São estes dois Princípios presos ou ocultos no Submundo da Matéria (daí a criatura do Submundo) que a besta representa no seu corpo de Leão (Enxofre), asas de Águia (Mercúrio) e cabeça de Homem (Princípio Activo) e Mulher (Princípio Passivo), fazendo a sua correspondência respectiva com os símbolos do Sol (Espírito) e da Lua (Alma). Recorrendo novamente ao autor Kamala Jnana (13), o próprio confirma esta correspondência:

«Besta. Em Solve, a besta macho ou Enxofre dos Filósofos é chamado Leão Vermelho por contraste com o Sal Filosófico, que é nomeado Leão Verde (não por causa da sua cor, mas pela virtude ácida que ele possui e que significa qualquer coisa não madura). Quanto à besta fêmea ou Mercúrio dos Filósofos, é denominada Águia por causa da sua volatilidade. Por vezes, também, o Enxofre e o Mercúrio são chamados Dragões, e o Sal, Cão da Arménia. Do seu combate até à morte, nasce a Quintessência ou Sangue dos Inocentes. Por fim, no fim de Solve a granulação toma por vezes o nome de Fénix, porque ela parece renascer das cinzas do composto, donde é originada.»

No entanto, também tem aqui lugar o significado da Esfinge, pois este conflito é analisado como que uma passagem ou uma prova necessária à Iniciação de todo o Magistério a fim de se obter os Princípios opostos e atingir o objectivo final, o Lapis, sendo que, neste caso, podemos analisar toda esta complexidade segundo o mito edipiano e o seu encontro com a Esfinge, a Guardiã dos Templos (neste caso, Guardiã da Matéria), onde o peregrino (Alquimista) apenas prosseguiu o seu percurso (Grande Obra) quando respondeu acertadamente às perguntas (Sabedoria) inquiridas por ela.

Representação dos dois Princípios Divinos encerrados na Matéria que oAlquimista terá de obter

com a Sabedoria e a Arte necessárias para iniciar a Obra. Repare-se no Ouroborus do lado esquerdo, como símbolo importante para a Alquimia

 

Estas figuras caracterizam o inicio das operações da Obra até ao estado de putrefacção da Matéria, sendo esta a «primeira fase do Solve. Dura cerca de quatro meses filosóficos. É o reino de Saturno; o seu odor é nauseabundo. Tudo é negro, muito negro. É nesta fase que aparecem a coroa de ouro e o sangue do dragão». (14)

Quando a fase do Nigredo termina e o Alquimista pretende avançar para a fase seguinte, ele, segundo a linguagem alquímica, terá que “cortar a cabeça do corvo”. O corvo é simplesmente a cor negra que caracteriza esta fase, como também o sucesso da preparação exacta do composto, “o sinal canónico da Obra” (15), e a sua cabeça cortada é o fim desta e início da seguinte, mas que na prática alquímica é a abertura do matrás para retirar determinada quantidade de matéria acocorada pelo fogo. Pois bem, quando olhamos para o pórtico temos exactamente a imagem de uma ave sem cabeça, se bem que o seu corpo se assemelhe bastante à forma de um matrás aberto. Desta fase entramos para o Albedo.

O Albedo, como foi dito, caracteriza-se pela purificação da Matéria putrefacta através das “Águias” e é terminada com a corporização do Espírito, estando este facto representado noutro baixo-relevo que apresenta um Ser com asas de anjo, seios de mulher e entre as pernas uma folha de Adão tapando o seu sexo. As asas, são por se tratar de uma Matéria sublimada ao ponto de ter atingido um nível de pureza tal que se acerca ao Plano do Divino. Os dois seios visíveis, são simplesmente por retratarem o Alkaest, ou seja, o Dissolvente Universal, aquele que permite a unificação dos dois Princípios Divinos, sendo cada seio como que o alimento que a mãe dá aos seus filhos, o “Leite da Virgem”, unindo-os num mesmo corpo. É, no fundo, o Mercúrio Comum dos Filósofos, ou também o Mercúrio dos Sapientes, Sal Celeste ou Florido, que desta forma justifica o elemento feminino (tal como o Mercúrio). Além disso, esta imagem encaixa-se perfeitamente naquilo que o Mestre Ireneu Filaleto afirmou na sua Entrada Aberta ao Palácio Fechado do Rei, no capítulo XI, Da Invenção do Perfeito Magistério, onde diz:

«…o céu permaneceu nublado por um pouco mas depois das abundantes chuvas, reencontrou a sua serenidade.»

«Daqui surgiu um Mercúrio Hermafrodita. Puseram-no sobre o fogo e o coagularam em pouco tempo e na sua coagulação encontraram o Sol e a Lua.»

Esta preparação, do ponto de vista operativo, é baseada nas duas Vias, onde a Via Húmida só é utilizada depois da Via Seca ser utilizada primeiro com o Regulo Marcial, obtendo-se no fim o Mercúrio Filosófico. Assim e neste sentido, a razão deste baixo-relevo se apresentar sem um sexo definido, é que para além de representar o Mercúrio Comum, e estando associado ao Antimónio da Via Seca (descrito anteriormente sobre o pórtico), constitui também o Rebis ou Mercúrio Filosófico, visto se apresentar como um Ser Andrógino, o Ser completo e unido dos dois Princípios opostos, a verdadeira Unidade da Matéria, a Unificação do Rei e da Rainha.

“No Mercúrio está tudo o que procuram os Sábios”.

Cabeça do Corvo cortada, Alkaest Rebis, Pedra Filosofal

 

Deste ponto, na fase do Rubedo, mediante determinada operação a Pedra é levada ao rubro, onde o Alquimista realiza as “multiplicações” desta Matéria Andrógina, una, para a atingir a Perfeição, a Pedra Filosofal, representada pelo Sol bem no topo do pórtico, sendo compreendida como a Pedra do Fogo ou a Pedra do Sol, oriunda e laborada pela Arte do Fogo. Durante a rubificação, tinge-se com o Mercúrio “tingidor” ou “Sangue do Dragão”, com vista à obtenção do Elixir (16).

Os dois grandes princípios que correspondem ao axioma fundamental de todo o Magistério, são o Solve e o Coagula. Respectivamente, significam “dissolver” e “coagular”, neste caso, a Matéria-Prima da Obra, pretendendo dissolver-se os corpos e coagular os espíritos, no fundo, volatilizar o fixo e coagular o volátil. Quando analisamos estes dois princípios (Solve e Coagula) que estão em consonância com as figuras explicadas anteriormente, o Grifo, o Corvo, o Alkaest e o Rebis regem todo o estado da Matéria e a direcção da Obra até ao seu fim. Assim, na continuação dos baixos-relevos da Esfinge, o Sol e a Lua localizados junto ao solo, temos uma ascensão (complementada pelas figuras explicadas nos parágrafos anteriores, caracterizando as fases da Obra) do estado de evolução da Matéria do volátil ao denso, exprimindo a separação dos Princípios Divinos e nova união sob o processo da coagulação.

Segundo essa disposição, obtemos o número de operações existentes na Obra, que se caracterizam por sete operações alquímicas podendo ser entendidas da seguinte forma:

1.ª Calcinação: transformação pela acção do fogo.

2.ª Sublimação: o puro é separado do impuro.

3.ª Solução: a quente dissolve gorduras; a frio dissolve sais, substâncias corrosivas e corpos calcinados.

4.ª Putrefacção: o que está vivo morre e o que está morto ganha nova vida.

5.ª Destilação: as águas, os líquidos e os óleos são subtilizados.

6.ª Coagulação: pelo fogo é fixa, pelo frio não o é.

7.ª Tintura: o imperfeito torna-se perfeito (Pedra Filosofal).

(adaptado de Princípios Elementares de Alquimia, de Rodolfo Domenico Pizzinga)

Esta hipótese é colocada devido à expressão que o próprio bestiário alquímico assume na Grande Obra, onde consoante o tipo de animal que se apresenta, este esconde um determinado significado sobre o estado da Matéria. De uma forma genérica, esse bestiário organiza-se segundo a configuração do Solve et Coagula, ou seja, do estado volátil para o fixo, sendo que as figuras com asas ou associadas ao ar correspondem exactamente ao volátil, enquanto os animais que apresentam patas ou um corpo sem asas exprimem o contrário, o fixo ou denso. Assim, nesta sequência apresentada é expresso isso mesmo, tendo no início os xarrocos, seguido de anjos, pássaros e finalmente as duas últimas figuras, como a união ou fixação dos princípios opostos, nos dragões sem asas unidos num laço ao pescoço (semelhante à Flor-de-Lis), a Pedra Filosofal. Uma das obras pictóricas que transpõe muito bem este enigma figurado do bestiário alquímico, é o Viatorium, de Michael Maier:

 Viatorium, de Michael Maier (1618), Oppenheim

 

Finalizando todo este conjunto de baixo-relevos, temos de cada lado das colunas um conjunto magnífico de seis anjos olhando para o alto sobre joelhos com as mãos dispostas numa reza aos céus. Esta ascensão angélica é exactamente a ascensão que a Matéria leva através da aplicação do Fogo dos Filósofos no alcance da Perfeição. No entanto, não podemos descriminar o seu número total que perfaz doze. Este número poderá ser o da regência dos 12 signos do Zodíaco assistentes às 12 Fases da Grande Obra, ainda que neste caso pareça mais relacionado com os trabalhos acessórios, chamados trabalhos de Hércules (pois são penosos e morosos) (17), necessários para preparar antes de enveredar por qualquer uma das Vias, tendo o Alquimista de os fazer heroicamente e com a arte necessária, de forma a levar a Obra a bom porto, ou seja, à ascensão da Matéria culminada na Pedra Filosofal.

Anjos representando a Matéria em ascensão

através dos 12 Trabalhos de Hércules

 

Os 12 Signos do Zodíaco regentes da Grande Obra

 

No cimo deste pórtico, o destaque que se abre aos olhos do observador é o alto-relevo que ostenta a figura feminina da Nossa Senhora da Misericórdia acompanhada de dois Anjos Custódios que seguram as abas do Seu largo manto aberto e sustido, envolvendo protectoramente 12 figuras, organizadas em 6 de cada lado, ajoelhadas com as mãos postas em prece. Do lado direito, apresenta-se um pontífice (alguns autores defendem ser Leão X, e outros Alexandre VI), Frei Miguel Contreiras e outros clérigos; do lado esquerdo, o rei D. Manuel I, a rainha D. Leonor, viúva de D. João II, D. Maria, mulher do soberano, o príncipe herdeiro, alguns religiosos e personagens da nobreza. (18)

O facto curioso deste alto-relevo sobrelevado no pórtico, é exactamente o número de figuras que se estabelecem em volta da Nossa Senhora da Misericórdia, estando aqui um significado subliminar às ditas figuras descritas anteriormente. É do conhecimento geral que na construção de catedrais, igrejas ou mosteiros góticos, a constituição dos pórticos tinha uma influência astrológica transposta ao número ou às figuras de pessoas e animais que aí eram esculpidas, indo justificar a máxima hermética de o que está em cima é como o que está em baixo. Desta forma, as doze figuras deste alto-relevo induzem a manifestação das doze constelações astrológicas.

Além disso, as constelações ou signos do Zodíaco têm uma forte componente na gestão de toda a Opus Magnum orientando-a ao longo de toda a sua evolução. A Alquimia distancia-se da Química comum através dos processos alquímicos em determinados períodos do ano, estando interligada totalmente com a Natureza e o Cosmos, contrariamente à sua descendente afastada. O conjunto de operações alquímicas está assim associado aos diferentes signos ou símbolos do Zodíaco, completando a discriminação seguinte: 

Carneiro – calcinar ou calcinação

Touro – congelar ou congelação

Gémeos – fixar ou fixação

Caranguejo – dissolver ou dissolução

Leão – digerir ou digestão

Virgem – destilar ou destilação

Balança – sublimar ou sublimação

Escorpião – separar ou separação

Sagitário – incinerar ou incineração

Capricórnio – fermentar ou fermentação

Aquário – multiplicar ou multiplicação

Peixes – projectar ou projecção

Para além disso e segundo esta perspectiva, ao analisarmos as datas de nascimentos das figuras que constituem este alto-relevo, parece existir uma relação não só histórica mas também astrológica e por sua vez alquímica com D. Manuel I, D. Maria de Aragão e Castela, o seu sucessor D. João III e a viúva de D. João II, D. Leonor (irmã de D. Manuel I). Analisemos:

a) D. Manuel I – Gémeos31 de Maio de 1469

b) D. Maria de Aragão e Castela – Leão 29 de Junho de 1482

a) D. Leonor – Touro2 de Maio de 1458

b) D. João III – Caranguejo – 6 de Junho de 1502

No entanto, segundo a ordem cronológica normal dos signos do Zodíaco demonstrada anteriormente, as datas de nascimentos e signos correspondentes das personagens históricas não estão alinhadas correctamente. Poderá ser pura especulação, visto não sabermos ao certo quem são as restantes personagens de todo o alto-relevo, mas os signos destas personagens históricas, para além de não se repetirem, parecem ter algum significado do ponto de vista alquímico. Segundo Fulcanelli, esta disposição trocada dos signos tem um significado específico relacionado com determinada operação alquímica. Passemos a citá-lo, sendo do meu acrescento o que está nos parênteses:

«(…) Objectar-se-á, sem dúvida, que o Zodíaco pode não ter um significado oculto e representar apenas a zona das constelações. É possível. Mas nesse caso deveríamos encontrar a ordem astronómica, a sucessão cósmica das figuras zodiacais que de modo nenhum os nossos antepassados ignoraram. Ora, a Gemini (Gémeos) sucede Leo (Leão) que usurpa o lugar de Câncer (Caranguejo), relegado para o pilar oposto. O imagista quis portanto indicar, por esta hábil transposição, a conjugação do fermento filosófico – ou Leão – com o composto mercurial (pressupõe-se o Mercúrio Comum), união que se deve produzir por volta do fim do quarto mês da primeira Obra (…)» (19) 

Os 12 signos do Zodíaco que regem a Grande Obra

representados nas figuras junto a Nossa Senhora da Misericórdia

 

Finalizando, todo o conjunto perfaz a soma 12+1, constituindo o ARCANO XIII do Tarot Sacerdotal Aghartino, conhecido vulgarmente como A MORTE mas aí chamado de A GRANDE MÃE… que faz “renascer o seu Filho”, a qual é, neste contexto, a própria Alquimia (Allah-Chêmia, Química de Deus, sendo Maria a Mãe dos Filósofos), morrendo o Filho para o mundo profano mas ressuscitando iluminado para o Mundo Espiritual. No fundo, é a transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência, que leva o discípulo a superar-se e transformar-se num Adepto JUSTO E PERFEITO. Esta GRANDE MÃE desce das Alturas do Segundo Trono ou Logos Celeste para o Terceiro Trono, assim se projectando na Terra como ESPÍRITO SANTO, cuja Acção permanente é impulsionar os seres viventes acedam a estados mais latos e subtis de Consciência. Mais uma vez, tem-se a comprovação do carácter ígneo que este conjunto apresenta, coincidindo com o elemento fogo do Laboratorium alquímico descrito anteriormente.

No entanto, este número, 12+1, também é representativo do Governo Oculto do Mundo na Face da Terra, tomando proporções cósmicas expressas em inúmeros aspectos que abam indo dar ao escrínio da misteriosa e sagrada Serra de Sintra, sob o pendão do mesmo Arcano XIII, tão sibilino quanto a antiga Ordem Rosa+Cruz que esteve sob a sua influência, atendendo-se a que originalmente 12 Rosacruzes cercando o seu Divino PATER ROTAN… e também, depois, com muitos Rosacruzes recolhidos ao seio materno da mesma Sintra.

Neste aspecto, incluímos não só a referida Ordem Rosa+Cruz mas também a grande mística e guerreira Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, vulgo Ordem de Cristo, pois que também tinha esta mesma estrutura organizacional, onde 12 Cavaleiros destacados representavam ao Grão-Mestre da Ordem. É isto mesmo que trata o documento A Regra e Definições da Ordem e Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo. 1503 – Dezembro, 8, Tomar (20):

Capítulo XXX, da eleição do mestre e do modo em que se fará.

Item. Por quanto à eleição do novo mestre deve ser feita e ordenada em tal perfeição e modo que se faça segundo Deus e como a ordem possa ser regida e governada a bem e proveito dos cavaleiros e pessoas dela, conformando-nos nisso com as antigas definições e estatutos. Definimos e ordenamos que daqui em diante para em todos os tempos se guarde esta maneira na eleição do mestre.

Primeiramente tanto que o mestre ou governador for falecido, o comendador mor até ser elegido mestre tenha e governança do dito mestrado, e o sacristão do convento tenha o estoque e a bandeira e o selo do mestre, e [o] dom prior do convento fará logo chamar por suas cartas a capítulo geral ao dito convento e não outro lugar o comendador mor e craveiro e sacristão e todos os comendadores cavaleiros vigários e freires da dita ordem fazendo-lhes saber como assim o mestre ou governador é falecido, e assinando-lhe o dia certo a que todos sejam por si em pessoa no dito convento o qual não passe até dez dias do dia em que o mestre falecer. (…) E sendo assim todos juntos com o dito dom prior, comendador mor, craveiro, sacristão do dito convento o dito dom prior dirá missa do Espírito Santo. (…) E todos assentados no dito cabido e o intróito e verso de Emitte Spiritum Tuum acabado, o dito dom prior encomendará que todo muito devotamente se encomendem ao Espírito Santo que alumie seus corações para ali ser elegido mestre qual for mais serviço a Deus e bem da ordem. E, dito assim por ele dará o dito dom prior juramento dos Santos Evangelhos ao dito comendador mor craveiro comendadores cavaleiros vigários e freires que no dito convento estiverem que verdadeiramente e sem afeição elejam nove cavaleiros da dita ordem tementes a Deus e de sãs consciências e que bem e verdadeiramente façam a eleição do dito mestre com ele dito dom prior comendador mor craveiro sacristão com que são treze que há dita eleição hão-de fazer. (…) E então feito assim se apartam todos treze para darem as vozes da eleição do dito mestre sem um mais se ver nem falar com o outro, no que o dito dom prior terá grande avisamento para assim se fazer, e cada um dos sobreditos assim apartado dará sua voz ao dito dom prior em escrito cerrado e selado nesta maneira (…).

Além disso, se analisarmos pormenorizadamente a Cruz da Ordem de Cristo chegamos também ao mesmo valor 13. Não esquecendo que esta Ordem, criada por D. Dinis em 15 de Março de 1319, foi a herdeira universal da extinta Ordem do Templo, tendo exaltado o seu símbolo nas Caravelas Marítimas dos Descobrimentos, respeitava como a sua anterior a Regra Beneditina com 73 capítulos, apresentando a sua Cruz em cor vermelha as hastes em triângulo (com ângulo de 45 graus), e uma cruz branca no centro. Os 73 capítulos da Regra de São Bento apresentam-se sob a razão numerológica 1+72, visto cada haste apresentar 3 lados que na Cruz faz a soma de 12 lados, e com os 6 lados parciais dos triângulos vertical e horizontal (6×12), dá o valor 72, e que com o “excedente” ou total da própria Cruz perfaz o 73 (72+1). No entanto, se assumirmos cada ponto do vértice como o Cavaleiro e a Cruz do centro como o Grão-Mestre, teremos exactamente o número 13 (12+1).

Cruz da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo

 

Se analisarmos todo o processo alquímico da Grande Obra é isso que se passa com as diferentes fases que ela atravessa, iniciando-se com a morte da Matéria (Nigredo) separada dos seus princípios opostos (Mercúrio e Enxofre); o seu rejuvenescimento e purificação (Albedo), e por fim a unificação (dos princípios opostos) e ascensão (Rubedo), culminando com a Pedra Filosofal (espiritualmente, transpõe-se para o Ser Andrógino, Integral, Iluminado, etc). Assim, tal como a matéria vinda de um estado imperfeito e corruptível teve de morrer para atingir um estado sublime e perfeito, também o Iniciado, e assim todo o homem, simbólica e realmente, morre para aquilo que é profano e corruptível no seu corpo (Personalidade) para rejuvenescer e atingir um estado mais sublime e perfeito (Individualidade). Toda esta transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência é o processo a que os Alquimistas no seu Magistério designam de Transmutação dos Metais, onde o Chumbo (metal imperfeito) é a própria Personalidade que se transforma em Ouro (metal perfeito), neste caso, não tanto físico mas sobretudo espiritual, por se tratar da Individualidade alçada ao estado mais elevado de Consciência Iluminada pelo seu Deus que de Imanente fez-se Transcendente.

 

Conclusão

 

Toda a Obra Alquímica tem como objectivo final levar a Matéria à Perfeição, ao Telesma, como também denominaram os Alquimistas. Todo este magistério lapidado pelos cinzéis dos Mestres-Canteiros teve como objectivo maior a Transformação Integral do Indivíduo em algo ou alguém mais Perfeito, ou melhor, mais JUSTO E PERFEITO. O indivíduo é a própria matéria-prima levada a operar na sua “retorta”, transmutando-se espiritualmente à medida que a Obra e as suas diferentes fases se operam perante os seus olhos no silêncio infinito da pedra, reservando-lhe os mais profundos e sagrados fascínios do seu ser, conduzindo-o no final à Iluminação Interior, à sua Pedra Filosofal.

Pode-se, com toda a legitimidade, questionar os conceitos tratados em termos da interpretação dada aos diferentes símbolos presentes nos relevos analisados anteriormente. No entanto, a Alquimia presente na Filosofia Hermética prosperava e cultivava-se “despudoradamente” na sociedade seiscentista e inclusive anterior ao próprio D. Manuel I, tendo tido o seu avô, D. Afonso V, como Rei Alquimista, deixando este dois tratados alquímicos sobre a Pedra Filosofal. 

O próprio estilo arquitectónico Manuelino é herdado do Gótico ou Ars Argot, que deixou um legado surpreendente de catedrais e igrejas ao longo da Europa expressando, através dos Monges-Construtores, os segredos da Alquimia e do Hermetismo transpostos cuidadosamente na pedra lapidada para a eternidade. Este estilo também parece não ser excepção neste caso, e muitos dos símbolos que aqui verificamos na Conceição-a-Velha também existem no Mosteiro dos Jerónimos transparecendo claramente o espírito alquímico partilhado e transposto na pedra.

Apesar deste “Milagre Filosofal” ser hoje uma dádiva, não podemos saber em concreto quem foram os incógnitos Mestres-Canteiros que a construíram e lapidaram tal como o mestre-de-obras que orientou toda a construção, devido ao facto dos seus documentos terem sido perdidos em consequência do terramoto de 1755 (21). No entanto, ainda hoje reside um certo mistério em volta do mestre-de-mbras Diogo Boytaca que esteve integrado nas obras do Mosteiro dos Jerónimos, e abruptamente foi afastado delas. O curioso, é analisar as semelhanças que se encontram nos portais principais entre os Jerónimos e a Conceição Velha, levando à especulação do monarca ter requerido o mestre-de-obras para entregar-se a este projecto que pulsava no íntimo de D. Manuel, querendo-o com a mesma magnificência do templo hieronimita, de forma a demonstrar a grandiosidade da instituidora das Misericórdias, a sua irmã D. Leonor. Os Mestres-Canteiros, foram corporação de mesteres afiliada à própria Casa dos 24 que existia, segundo a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, desde 1383 em Lisboa, altura em que o Mestre de Avis decidiu prestigiar os homens do povo, pertencentes a corporações, que apoiaram a sua subida ao trono, e esta mesma Casa só teria o seu declínio após a tentativa de assassinato de D. José I, em 1758, tendo sido acusada de cúmplice, terminando definitivamente em 7 de Maio de 1834 (22). No entanto, fica o testemunho das antigas Crónicas sobre a beleza maravilhosa desta outra Casa consagrada a Nossa Senhora da Misericórdia, levando-nos ao desejo de outros tempos:

«A porta principal, voltada a ocidente, elevaria a azul do infinito a brancura dos seus mármores “ostentando todas as galas da arquitectura gótica”; no interior viam-se “vinte colunas, monolíticas, de mármore, de elevadíssima altura, primorosamente lavradas”, seis dividindo a igreja em três amplas naves e catorze meio embebidas nas paredes, sustentando a abóbada, toda de elegante laçaria de pedra, com artesões e florões, onde se alternavam os emblemas da fé cristã com divisas do rei fundador. A capela-mor era um monte de oiro em obra de talha, revelando excelente escultura. No cruzeiro viam-se duas ricas e elegantes capelas ocupando os topos, e dois bem adornados altares nas paredes laterais.» (23)

Apesar da reconstrução interior não ter sido das mais felizes, há a apontar o facto curioso que reside na pintura do Triunfo da Imaculada Conceição pintado em 1770 no tecto da igreja, onde temos junto da Imaculada o Menino matando o Dragão, acabando por simbolizar o “matar” o “transpor” ou “dominar” da matéria, pois o Dragão representa os 4 Elementos, analisando-se: asas (Ar), patas (Terra), cauda (Água) e cabeça (Fogo). Desta forma, com o significado da Imaculada Conceição, sendo esta a personificação da Substância Primordial, como nos conta Fulcanelli (24), completa-se todo o conjunto, como o domínio da Matéria ascendendo-se ao Telesma, à Substância Primordial, sintetizando assim toda a Opus Magnum. O nome da pintora, não deixa de ser um acaso (ou uma causalidade) curioso: Joana Salitre.

Finalizando, só há a lamentar o estado de quase abandono na conservação desta relíquia histórica e espiritual, sendo os pombos e os seus dejectos uma tela feia e mal pintada em algo tão perfeito e belo deixado na memória do tempo. Mas no efémero das acções dos homens resiste e persiste aquilo que é eterno e imutável, cabendo a cada espírito predisposto a envolver-se no seu “diálogo silencioso” transmutar-se do vulgar ao mais puro e verdadeiro Ouro Alquímico atingindo a eternidade da Panaceia Universal, sendo a confirmação que a Pedra Filosofal foi atingida!

 

Notas

 

(1) Sílvia Leite, Igreja da Conceição Velha. / DIDA / IGESPAR, I. P. / 16-04-2008. Instituto Português do Património Arquitectónico.

(2) Sílvia Leite, ob. cit.

(3) Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império. Via Occidentalis, Lisboa, 2007.

(4) Kamala Jnana, Dictionaire de Philosophie Alchimique. Editions Massane, Laroque, France, 1961.

(5) Fulcanelli, Le Mystère des Cathédrales. Ed. Jean-Jacques Pauvert, 1964, pág. 80.

6) S. Paulo, Epístola aos Colossenses, cap. I, vers. 25 e 26.

(7) Fulcanelli, ob. cit., pág. 177.

(8)  Fulcanelli, ob. cit., pág. 218.

(9) Kamala Jnana, ob. cit.

(10) Kamala Jnana, ob. cit.

(11) Alexander Roob, O Museu Hermético, Alquimia & Misticismo, pág.288. Taschen, 2006.

(12) Fulcanelli, ob. cit., pág. 131.

(13) Kamala Jnana, ob. cit. 

(14) Kamala Jnana, ob. cit.

(15) Fulcanelli, ob. cit., pág. 106.

(16) Michael Saint-Ailme, Os Dossiers Secretos da Alquimia (dicionário). Litexa Editora, Lisboa, 1986.

(17) Rubellus Petrinus, A Grande Obra alquímica: De Ireneu Filaleto, Nicolau Flamel e Basílio Valentim / Rubelus Petrinus.  Lisboa, Hugin – Editores Lda., 1997.

(18) Robélia de Sousa Lobo Ramalho, Guia de Portugal Artístico. Lisboa, M. Costa Ramalho, 1933.

(19) Fulcanelli, ob. cit., pág. 145.

(20) Arquivo Nacional Torre do Tombo, Série Preta, nº 1393. Versão actualizada por Vitor Manuel Adrião em Portugal Templário. Via Occidentalis Editora, Lisboa, 2007.

(21) Robélia de Sousa Lobo Ramalho, ob. cit.

(22) Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império. Via Occidentalis, Lisboa, 2007.

(23) Robélia de Sousa Lobo Ramalho, ob. cit.

(24) Fulcanelli, ob. cit., pág 94.

 

Créditos fotográficos: Hugo Martins e Paulo Andrade.

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