Wilmshurst, um dos fundadores da Maçonaria Especulativa no século XVIII, define-a da maneira seguinte: “É um sistema sacramental que, como todo o sacramento, tem um aspecto externo e visível, consistindo no seu cerimonial, doutrinas e símbolos, e outro aspecto interno, mental e espiritual oculto sob as cerimónias, doutrinas e símbolos, só acessível ao maçom que haja aprendido a usar a sua imaginação espiritual e seja capaz de apreciar a realidade velada pelo símbolo externo”.

Il Frosini afirma que a original Maçonaria Operativa já existia em Veneza no séculos XV-XVI, tendo em 1515 se transferido para Santo Apolinário graças à intervenção de Pietro Lombardo que adquiriu uma parcela do Campanile para construir a sua própria sede. Tal construção, na Rua do Campanile, apresenta ainda hoje na sua fachada o alto-relevo com os “Quatro Santos Coroados” e a inscrição: “MDCLII SCOLA DI TAGLIAPIERA”.

Essa Escola de Pedreiros-Livres esteve activa em Veneza até 1686, data em que a Maçonaria foi interdita nesta cidade, e só após 1729, quando o Grão-Mestre da Loja de Londres visitou Veneza, hospedando-se numa casa na Madonna dell´Orto, é que a Maçonaria voltou a tomar força mas já sob a nova forma de Especulativa. Então, é fundada por Marconis de Negre, filho de um oficial da armada francesa no Egipto, a Sociedade dos Sábios da Luz, que foi o ponto de partida para a expansão da Maçonaria veneziana no século XVIII.

Os maçons venezianos quiseram inculcar reforma políticas na República de Veneza para que fosse um modelo social a seguir por todas as sociedades da Europa, e da cidade de Veneza quiseram-na fazer um modelo de perfeição moral e social, como se constata, por exemplo, no poema heróico do filósofo e maçom Giulio Strozzi, La Venetia Edificata. Para isso serviram-se da literatura e das belas-artes para gerar reformas profundas no tecido social e urbano veneziano.

Ao contrário desse pensamento iluminista, deu-se o anacronismo da Maçonaria utilizar-se da Carbonária, espécie de seu “braço armado” com organização interna semelhante à maçónica que aparecera em Itália no início do século XIX pela mão dum tal general Pepe, a qual distinguiu-se sobretudo pelas suas acções armadas que espalharam o terror na República veneziana e em toda a península itálica. Os carbonários reuniam-se secretamente em cabanas de carvoeiros, derivando daí o seu nome. Republicanos radicais, muitas vezes assassinos de reis e rainhas, aos carbonários também se deve a invenção do esparguete à carbonara.

Por essa razão, durante a República de Veneza a Maçonaria foi sempre estreitamente vigiada pelas autoridades. Ainda assim, em 1778 existiam nela cinco Lojas maçónicas (duas em Veneza, uma em Bréscia, uma em Vicenza e uma em Pádua). Mas igualmente houve maçons que se distanciaram das agitações políticas do seu tempo e se dedicaram exclusivamente à prática da sua ideologia espiritualista, esta que também foi vigiada de perto pela Igreja que via na Maçonaria uma adversária em matéria de conhecimentos e tradição.

Segundo o Inventário de 7 de Maio de 1785, noticiado por Rossi Osmida em 1988, a primeira e principal Loja de Veneza chamava-se Fedeltà e fora fundada em 1780. Estava instalada num palácio junto ao Rio Marin e caracterizava-se pelos seus estudos de Alquimia e Hermetismo e a prática do Rito Escocês Rectificado; depois adoptou o Rito de Misraim, fundado em Veneza em 1788 por Cagliostro. Fundaram esta Loja Domenico Gasperoni e o veneziano Michele Sessa, apelidado Ecques Michael a Leone, ou seja, “Michele veneziano”, que passou a Venerável ou dirigente supremo dessa Loja após ter obtido autorização da Grande Loja de Verona, em 1778.

Palácio Maçónico junto ao Rio Marin, Veneza

A Loja Fedeltà possivelmente esteve activa até perto do final do século XIX. Sabe-se que por ela passaram nomes distintos da Maçonaria, como Giuliano de Lorenzo, Francesco Milizia e o seu discípulo Tommaso Temanza (1705-1789), arquitecto da igreja de Santa Maria Madalena nesta cidade de Veneza.

Igreja de Santa Maria Madalena, Veneza

A filiação maçónica de Tommaso Temanza ficou claramente marcada nessa igreja da Madalena, em vários símbolos que aí se podem ver, sendo de realçar que Maria Madalena, para os primitivos monge-construtores cristãos, era simbólica da Arte Operativa por ter sido ela, segundo os Evangelhos, quem primeiro viu o Senhor ressuscitado e deu início à difusão da sua Palavra de edificação da Igreja Universal. A tradição simbólica associa ainda o nome de Madalena à deusa Lusina celta, também ela Orago dos construtores-livres, e à fabulosa Melusina, cuja lenda nobiliárquica dá-a como origem dos Lusignan, sendo ao mesmo tempo figuração da Iniciação Secreta, isto é, detentora dos conhecimentos esotéricos vedados à Humanidade comum.

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