Madrid, entre o hierático e o herege – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Jun 30 2010 

ORIGEM E EVOLUÇÃO DO NOME MADRID

 

Edificada na margem esquerda do Rio Manzanares, Madrid foi por D. Filipe II elevada à categoria de capital da Espanha em Junho de 1561, ao transladar a corte de Toledo para aqui, então contando com trinta mil habitantes. Com a chegada da corte a cidade começou a crescer vertiginosamente, construindo-se edifícios nobres, igrejas e conventos, em torno dos quais a vida social decorria e aumentava.

Segundo as crónicas espanholas, a escolha real de Madrid para sede política da antiga Hispânia deveu-se sobretudo ao facto de nesse tempo ela ser como um oásis paradisíaco com jardins, bosques, prados, fontes e um quase permanente céu azul. Os produtos da agricultura e da caça eram suficientes para manter a escassa população do povoado. Para evitar os malefícios dos ventos agrestes da Serra de Guadarrama, foram plantadas árvores de grande porte que proporcionam nos dias estivais uma agradável frescura.

Os mais antigos cronicões que se referem a Madrid são do século X da era actual. Neles descreve-se o burgo como dispondo de uma fortaleza acastelada no local onde mais tarde se ergueria o palácio real, sob o reinado de Filipe V.

Etimologicamente, Madrid deixa-se analisar através das falas celtas que acabariam entrando nas línguas de outros povos posteriormente fixando-se nestas terras do Rio Manzanares. Há testemunhos arqueológicos que provam a existência do Homem aqui desde o Paleolítico, e uma povoação recuando ao Neolítico e às Idades do Bronze e do Ferro, portanto, à Proto-História.

Os celtas empregavam o termo magos como denominação de “campo”, tema que foi alargando o seu âmbito semântico até envolver o sentido de “mercado”. Magos é o primeiro tema incorporado no topónimo Madrid, sendo o segundo o nome ritum, com o qual os celtas designavam os locais de passagem dos cursos fluviais. Magos e ritum são os temas originais constitutivos do topónimo Madrid. O Magoritum celta metaplasmou-se na voz mourisca Magerit que a prosódia árabe fonetizou Madjerit, de que advieram as formas Madrit e Madrid.

Aos celtas sucederam os romanos na dominação do Magoritum castrejo, e deram-lhe então o nome de Osoria, corrompido Ursaria, isto por haverem ursos em abundância nestas terras e, sobretudo, por os habitantes do castro terem se defendido dos sitiantes “como ferozes ursos guerreiros”.

Reportando-se ao período romano madrileno, vários autores dos séculos XVII-XIX falaram e escreveram afirmativamente que a cidade tinha origens mitológicas, resultantes do desejo íntimo de emularem a história de outras cidades europeias na ignorância de velhas civilizações perdidas redescobertas, vez por outra, pelos actuais investigadores cientistas. Os que acreditaram na origem mitológica de Madrid, afirmaram que ela foi então chamada Metragirta ou Mantua Carpetana sendo fundada por Ocno Bianor, filho de Tibério, rei da Toscana e da bela Mantua.

Nos finais do século IX, os árabes sob o domínio do califa Muhammad I, quinto emir independente de Córdoba e filho de Abderramán II, construíram um alcazár na colina sobre a margem esquerda do Rio Manzanares, e foi quando Madrid tomou a feição de verdadeira cidade numa sociedade mais pastoril que sedentária. O seu nome passou a soar nas vozes mouriscas Magerit, com as suas variantes Madjerit, Mageridum, Magritum, Matritum, Mayrit, etc.

Dentre os madrilenos muçulmanos ilustres destaca-se Abul-Qasim Maslama, astrónomo e matemático.

Após a conquista de Toledo por Alfonso VI de Castela a cidade passa para o domínio cristão, apesar de mudar de mãos mouras a cristãs várias vezes, sendo conquistada definitivamente em 1085. É quando a Mayrit arábica se torna a Madrit românica.

Mayrit herda o nome da Madrid pré-muçulmana, provavelmente visigótica dos séculos V-VII d. C., que aludindo ao arroio correndo por entre as duas colinas enfrentando o povoado, chamaram-lhe Matrix, “Matriz”, “Mãe das Águas”. O tema é prosseguido no nome Mayrit, composto pelo termo árabe Mayra, “Mãe, Matriz”, e o sufixo ibero-românico it, equivalente a “lugar”. Madrit significa a mesma coisa, e assim também a forma actual de a falar e grafar: Madrid, termo que atendendo ao epíteto Mãe das Águas, aqui as primordiais da Criação que corriam no Jardim do Éden, chega a ser interpretado como Madre de Dios.

Como se constata, Madrid foi uma povoação fundada por um clã de etnia céltica junto de uma passagem ou arroio do Rio Manzanares, e num edénico campo que segundo os autores espanhóis fazia lembrar o Paraíso bíblico.

 

SIMBOLISMO TRADICIONAL DA PORTA DO SOL

 

A Porta do Sol, marco ou quilómetro zero das estradas radiais espanholas desde 1950, desde esta data destronou a Praça Maior de Madrid e tornou-se o centro axial da cidade. Já desde os séculos XVI e XVII que este enclave vinha aumentando de importância estratégica, devido a uma série de acontecimentos lendários envolvendo desde o próprio Lúcifer, o Anjo Caído, até ao urso e o medronheiro do simbolismo da primitiva cultura celta.

O nome da Porta provém de um Sol que adornava a cerca de entrada no burgo no século XV, estando orientada para Levante. Esse Sol de pedra desapareceu com o tempo e no século XIX as suas funções simbólicas foram reocupadas pelo relógio da torre da Casa dos Correios, o edifício mais antigo desta Praça. O povo madrileno costuma reunir-se aqui para festejar a passagem do ano velho para o novo, anunciado pelas doze badaladas do relógio, e nesse momento festivo ninguém pensa e quase de certeza nem sabe que as mesmas badaladas servem igualmente para esconjurar o Príncipe do Mal, Lúcifer.

Protagonista, sem querer, dum acontecimento estranho, foi o célebre relógio (que não é o actual que substituiu aquele) procedente da antiga igreja (e hospital de caridade) do Bom Sucesso, que já estava um tanto em desuso e que acabaram derrubando. Conta-se que quando as tropas napoleónicas ocuparam Madrid em 2 de Novembro de 1812, um capitão dos Dragões franceses instalou-se no edifício da torre do relógio acompanhado dum punhado de soldados, que conseguiram sobreviver ao furor popular nos primeiros momentos do levantamento madrileno. Quando a população soube onde estavam esses franceses, enfurecida cercou a Casa dos Correios para os chacinar. Os soldados conseguiram fugir, porém, do capitão francês nada se soube. Mas a lenda garante que o próprio Lúcifer ajudou-o a esconder-se no relógio. A fim de encontrá-lo, foram convocados especialistas relojoeiros de todo o país para que revistassem minuciosamente a maquinaria, acabando por encontrar… um rato pequenino! Estava encontrada a explicação do desaparecimento misterioso do capitão francês: o Diabo transformara-o num rato para que pudesse escapar.

Os antigos romanos chamavam Lúcifer ao planeta Vénus, e é esta a primeira estrela a avistar-se na alva do novo dia, neste caso, o primeiro dia do ano novo garantido por Lúcifer ou Vénus, a “estrela da manhã” que veio a ser personagem central dessa patriótica lenda urbana.

A associação de Vénus com o Sol, pela semelhança das suas trajectórias diurnas, fez com que os povos antigos, romanos e celtas, considerassem esse planeta um astro divinizado mensageiro do astro-rei, do Logos Primordial intercessor entre este e a Humanidade. Razão para a sua presença lendária no centro axial de Madrid, nesta Porta do Sol que é o lugar obrigatório de passagem da cidade para toda Espanha e desta para toda a Madrid, tal qual, nas antigas teologias, Lúcifer é o trânsito entre o Homem e Deus e vice-versa, e o esconjuro das trevas da noite.

A importância da Porta do Sol é tamanha que nela figura a estátua das Armas oficiais de Madrid: um urso alçado a um medronheiro. Essa estátua prefigura uma história muito peculiar: segundo alguns historiadores o urso é na realidade uma ursa, e para eles simboliza a fertilidade a par da lembrança do grande número de ursos que na Idade Média existia nos campos arredores de Madrid. Quanto ao medronho (simbólico do acordo de 1222 de repartição do uso e desfrute das terras em redor do burgo – suas casas, árvores e pastos – havido entre a Igreja e o povo de Madrid), trata-se de um arbusto que não é autóctone desta região. Sendo o seu significado para a cidade objecto constante de divergências, o certo é que, segundo conta a história, durante uma visita aqui de Carlos V no século XVI, ele foi acometido por febres altíssimas das quais se recuperou graças a umas infusões de medronho. Este tem um significado simbólico que o torna apoio do significado do urso:

No simbolismo tradicional do mundo céltico, o urso é símbolo do poder temporal (facto expresso aqui marcando Madrid como capital de Espanha), da classe guerreira, esta representada nos cavaleiros simultaneamente monges, expressando a realização do seu ideal de perfeição por uma via mais activa que contemplativa como foi aquela dos Templários modelo da “Cavalaria Iluminada”, e até mesmo dos lendários “Reis Caçadores Santos” em misteriosas montarias que deram azo a acontecimentos sobrenaturais onde as feras perseguidas transformavam-se em divindades reveladas.

Por essa via activa, implicando a condição andante ou de peregrinação, os cavaleiros ou kshatriyas, como são consignados na sociedade tradicional hindu, buscavam alcançar a meta final do seu destino, que era a iluminação interior ou mística, e é aqui que entra o simbolismo do medronheiro, a quem o urso se apoia na heráldica madrilena.

Com os bagos do medronho os antigos fabricavam o hidromel, e é assim que esse arbusto de folhas perenes representa a morte e a imortalidade. A morte honrosa que o cavaleiro podia encontrar no campo de batalha e lhe dava acesso à imortalidade. Mas também, sobretudo, sendo a morte ideal da consciência profana ou velha do guerreiro para se tornar monge e santo consciente da sua imortalidade espiritual, o que sempre procurou alcançar em vida. Transposto este sentido para a urbe, não é Madrid a cristianíssima capital de Espanha?

 

TÚNEIS SECRETOS DE MADRID

 

O segredo menos conhecido de Madrid será certamente a sua rede subterrânea de túneis e passagens formando vasto labirinto sob a cidade enorme. Muitos desses túneis permanecem desconhecidos e outros têm vindo a ser descobertos ou por mero acaso ou por antigas referências históricas, permanecendo ainda outros entaipados para evitar acidentes graves para quem arrisque adentrá-los sujeitando-se a perder-se na noite eterna do longo e tortuoso mundo subterrâneo madrileno.

 A quantidade destes subterrâneos é difícil de controlar, pois que a maioria dessas vias debaixo da terra não está descrita em documento algum que permita saber onde se encontram, já que normalmente eram saídas ou entradas secretas de nobres, clérigos, famílias influentes e até ocultistas que, para escapar à repressão eclesiástica, por esse meio dirigiam-se secretamente para lugares de reuniões que hoje não se sabe precisar exactamente onde eram, mas certamente passagens secretas entre edifícios mais ou menos distantes entre si, como aconteceu com muitos tendo algo a ver com a Casa Real e comunicando muitas vezes com o próprio Palácio.

No mapa dos túneis secretos de Madrid, aparecem as passagens subterrâneas por onde Afonso XIII se escapava, a estação do Metro fantasma de Chamberí, os condutos de água nos quais cabe um nobre escapulindo às escondidas para os braços da sua amante ou para alguma reunião secreta, as galerias que unem o Retiro com a Atocha, as covas secretas de Luís Candelas, os atalhos da Inquisição, os bunkeres abandonados que serviram de refúgio durante a Guerra Civil (1936-1939) e que já existiam antes dela, os mosteiros e teatros com as suas passagens que desembocam no Palácio Real.

Há passagens que já não existem ou se perdeu completamente a memória, outras que a lenda urbana inoculou, algumas entaipadas por ordem da Casa da Villa, poucas sobrevivem secretas, e a maioria são território por explorar para os especialistas aficionados da espeleologia, sem que falta a presença misteriosa dos fantasmas e deuses que secretos movem-se sob as calles agitadas da metrópole madrilena.

Um dos enigmas subterrâneos que mais deu que falar é relativamente moderno, data de 1966 e tem fantasma. Não é uma passagem nem tampouco um túnel, mas sim uma estação de comboio fantasma: Chamberí. Está debaixo da Plaza Vieja de Chamberí, a poucos metros da estação da Igreja, na Linha 1, e durante muitos anos se cruzou espectral e abandonada, nunca parando nenhum comboio aí. Chamberí, desenhada como quase toda a rede de Metro por Antonio Palacios, foi inaugurada em 1919 e abandonada em Maio de 1966. Aparentemente, a razão era simples: não permitia a sua ampliação em 30 metros para caberem mais carruagens em cada comboio. E aí começa a lenda. A estação foi fechada apressadamente sem se recolher absolutamente nada (bilheteiras, assentos, cartazes publicitários, etc.) e aconteceu algo estranho: apesar do abandono, nunca houve aranhas nem ratos e começaram a aparecer fantasmas. Quando se construiu a estação fantasma de Chamberí foi construída, os trabalhadores descobriram um enterramento de monges que ficara oculto quando se derrubou o convento da Merced, e não sabendo que fazer com as ossadas decidiram enterrá-las num dos andares da estação, e é precisamente isto que alimenta, junto com o seu abandono, a lenda sobre as estranhas aparições nesta estação fantasma. Hoje, este é espaço museológico que se pode visitar.

A partir da estação de Chamberí e dos seus túneis imediatos corre um antigo complexo de galerias abobadadas e uma série de estruturas a várias níveis vários quilómetros de extensão. Foram descobertas há mais de duas décadas com as obras na Plaza Vieja. As passagens dirigem-se para a Junta Municipal de Chamartín, antigo palacete frequentado pelas amantes de Fernando VII, e prosseguem até debaixo do Convento das Servas de Maria, conhecidas popularmente como “las búho”, porque trabalhavam de noite para cuidar dos enfermos e velhos, gratuitamente por voto de obediência.

A partir do Convento das Servas de Maria, o túnel bifurca-se até ao Quartel-General do Exército, no Palácio de Buenavista, na Praça de Cibeles. Três correntes subterrâneas confluem aqui, dizendo-se que serão caudais de água sulfurosa formando um lago mesmo por debaixo da famosa fonte, próxima ao Banco de Espanha cujos alicerces são em caixa indo até 36 metros de profundidade submersa na água, com um sistema de abertura estanque para o seu famoso bunker, construído nos anos 30 durante a Guerra Civil.

Há ainda outros acessos subterrâneos, como as galerias e canalizações de água que, em alguns casos, existem desde o século XI, quando Madrid era ainda a árabe Magerit, nome que remete ao “fui edificada sobre água, os meus muros são de fogo”. Trata-se dos famosos canais de água construídos possivelmente por técnicos hidráulicos persas chegados com as tropas árabes durante a conquista muçulmana. Madrid era então rica em riachos subterrâneos e a sua famosa muralha ainda sobrevive nas caves das casas da Cava Baja, Don Pedro e Plaza de la Paja.

Esse mesmo itinerário subterrâneo é muito rico em passagens secretas, possivelmente construídas entre os séculos XV e XIX. Por exemplo, a que unia o Palácio Real com o Mosteiro da Encarnação, e foram encontradas mais outras duas com destino ou origem no palácio desenhado por Sabatini. Uma, com múltiplas bifurcações, leva ao Teatro Espanhol, construído para ampliar-se o antigo curral do Príncipe sobre os terrenos que ocupou o Mosteiro de Santa Ana, mandado derrubar por José Bonaparte. Há quem afirme ter seguido o rastro de portas que estão fechadas há séculos para passagens, entaipadas nos finais dos anos 70 do século passado, que ligam com outros mosteiros do Bairro das Letras. Outra, dizendo-se que possui dimensões para a passagem de carruagens de cavalos, conecta o Palácio Real com a Plaza de la Paja. Alguns tramos, como se pressupõe, passam debaixo do Palácio de Anglona, na Calle Segovia a um passo do antigo cenário dos autos-de-fé inquisitoriais.

Na zona centro tem-se os túneis da Plaza Mayor, que comunicam com várias zonas de Madrid e que um dos mais famosos bandidos do Foro, Luis Candelas (1804-1837), utilizava para fugir depois dos seus ataques e roubos. Era o típico ladrão que roubava aos ricos para dar aos pobres, levando uma vida dupla com nomes distintos. Evadia-se à justiça por essas passagens subterrâneas e uma das entradas para elas, que era o seu antigo esconderijo, encontra-se na Calle Cuchilleros, n.º 1, chamando-se em honra deste célebre “Zorro” ou “Robin Hood”, de Covas de Luis Candelas.

 Todo o centro histórico de Madrid, com vértices na Puerta del Sol, Puerta Cerrada, Palácio Real e as Descalzas Reales, comunica-se pelo subsolo. Todos os funcionários municipais que trabalharam na Plaza de la Villa sabem, por exemplo, que os edifícios do Ayuntamiento entre Sacramento, Cañete e Mayor, sem ir mais longe, comunicam-se por debaixo de terra e têm ramais que não se sabe muito bem, apesar de se suspeitar, onde conduzem.

“Entrar nestas galerias de modo aventureiro é um perigo absoluto. O próprio poço de acesso carece de escadas ou elementos para a descida e em toda a rede de túneis falta o oxigénio”, afirmou Tomás García, inspector-chefe da Unidade de Subsolo da Polícia Nacional. Uma advertência válida, de qualquer forma, aos mais ousados exploradores do subsolo labiríntico de Madrid.

 

A FONTE DE LÚCIFER, O ANJO CAÍDO

 

O Monumento ou Fonte do Anjo Caído encontra-se nos Jardins do Bom Retiro em Madrid e é a primeira estátua do mundo dedicada a Lúcifer, o Anjo Maldito que sonegou a Vontade de Deus e ficou condenado por toda a Eternidade.

Esta obra feita em 1877 pelo escultor madrileno Ricardo Bellver (escultura principal) e Francisco Jareño (pedestal), tem no conjunto as dimensões aproximadas de 10 metros de largura, 10 de comprimento e 7 de altura, medindo a escultura de Bellver 2,65 metros de altura. A sua criação inspirou-se nas terceira e quarta estrofes do Canto I de O Paraíso Perdido, de John Milton: “Por seu orgulho cai arrojado do céu com toda a sua hoste de anjos rebeldes para nunca mais voltar a ele. Lança em redor o seu olhar, e blasfemo o fixa no empíreo, reflectindo-se nele a dor mais profunda, a consternação mais grande, a soberba mais funesta e o ódio mais obstinado”.

Porque Lúcifer o mais belo e amado dos Anjos por Deus Todo-Poderoso, acabou sendo escorraçado do Trono Celeste e caído na Terra, deserdado pelo próprio Eterno que enviou o seu Arcanjo São Miguel liderando as Hostes dos Anjos bons a precipitá-lo e aos Anjos maus no abismo, no limbo da matéria em que a criatura humana se agita e evolui através da geração e do pensamento, isto é, pelo sexo e pelo mental? Precisamente porque Luzbel sonegou a ordem de Deus em criar um ser material, o próprio Homem, e norteá-lo na sua evolução, o que considerava um acto inferior indigno da sua elevada e destacada posição divina entre as Hostes de Deus.

Essa é a explicação teológica do Catolicismo para a Queda de Lúcifer ou Luzbel e os Anjos revoltados, associando-os ao próprio Diabo origem de todo o Mal, o que não está de todo correcto mas foi motivo suficiente para toda a Madrid católica se escandalizar quando a estátua herética do Anjo Caído foi inaugurada, muito mais ainda quando se sob que a Glorieta do mesmo encontra-se à altitude topográfica oficial de 666 metros acima do nível do mar em Alicante, facto absolutamente raro em Madrid, pois a altura média da capital espanhola é de 665 metros sobre a mencionada referência. Como o Apocalipse de São João afirma que o 666 é o número da Besta, imagine-se agora qual não terá sido o puritano horror católico…

Mas 666 é o número da Geração, do Homem na Natureza, que nasce após um ciclo de 9 meses, precisamente a soma e redução desse algarismo apocalíptico, enquanto a Queda de Luzbel corresponde à manifestação na Terra do Luzeiro de Vénus, alter-ego desta, trazendo a Luz do Mental à Humanidade e impulsionando a evolução física desta a caminho da iluminação espiritual. É aqui que entra o simbolismo da serpente que enlaça o Anjo Caído da estátua, pois que designa a Sabedoria como é afirmado pelo Apóstolos Mateus (10:16): “Mansos como a pomba e sábios como a serpente”.

É Lúcifer ou Prometeu quem dá a Luz ao Mundo, mesmo estando agrilhoado ou encadeado aos destinos deste nas rochas (servindo de base à estátua) do Cáucaso ou “cárcere carnal”.

Por tudo isso, Lúcifer (do latim Lux fero, “portador da Luz” em hebraico, Heilel Ben-Shachar, “o que Brilha”, em grego, na Septuaginta, Heosphoros, “o que leva a Luz”) representa a Estrela da Manhã (a Stella Matutina) e a Estrela da Tarde (a Stella Vespertina), o planeta Vénus (chamado em hebreu Heilel) que é o último a desaparecer antes da alva e o primeiro a aparecer no crepúsculo como a estrela mais luminosa dos céus, sendo também o nome dado ao Anjo Caído da ordem dos Querubins ou Anjos da Sabedoria, o mais distinto dentre todos eles, como descreve o texto bíblico do Livro de Ezequiel em 28:14.

Na tradução bíblica do Padre António Figueiredo, verte Isaías 14:12: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?”

O substantivo Lúcifer ocorre seis vezes na Vulgata ou versão latina da Bíblia, sempre para referir a Estrela da Manhã. Por exemplo, é dito em 2 Pedro 1:19: “E temos ainda mais firme a palavra profética à qual bem fazeis em estar atentos, como uma candeia que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça e a Estrela da Alva (Lúcifer), surja em vossos corações”.

Aqui Lúcifer é Cristo. Por esta razão, ocorre o nome Lúcifer entre os primeiros cristãos, por exemplo, São Lúcifer (Lúcifer Calaritano), bispo da Sardenha, que morreu entre os anos 370 e 371 e a Igreja Católica na Sardenha celebra todos os 20 de Maio, vindo demonstrar que, pelo menos no século IV, de maneira alguma Lúcifer era o mesmo que Satan (do hebraico Shai´tan, “Adversário”), vulgarmente chamado o Diabo (caluniador, acusador), considerado o Senhor do Mal depois associado a Lúcifer, tão-só por o domínio da Sabedoria deste Senhor, iluminando raros Iniciados na Sabedoria Divina, trespassar largamente a teologia comum da religião estatal, passando assim a ver em Lúcifer um adversário temível e a associá-lo ao Mal, o que levou os povos simples ao esquecimento do seu sentido original.  

Ademais, a confusão entre Lúcifer e Satan não vai mais longe que a metade do século XIX, quando apareceram movimentos marginais dotados de espiritualismo duvidoso que se intitulavam indistintamente luciferinos e satanistas, não compreendendo o que realmente significavam tais nomes mas semeando de vez a confusão que perdura até hoje.

Melhor que apedrejar por palavras e actos o Anjo Caído, seria entender o seu sentido último e supremo: o de Revoltado celeste por ter perdido o estatuto divino para seguir e perder-se nas pisadas da humana evolução, acabando por levar avante a mesma até às Alturas sublimes do Trono de Deus.

 

O DESCONHECIDO DA CONHECIDA FONTE DE CIBELES

 

A Fonte de Cibeles é certamente a mais conhecida de Madrid, assim mesmo a mais desconhecida no significado dos seus símbolos arrancados à mitologia greco-romana. Afinal, quem é Cibeles?

Cibeles, Cibele ou Cíbele era uma deusa originária da Frígia. Designada como Mãe dos Deuses ou Deusa Mãe, simboliza a fertilidade da Natureza. O seu culto iniciou-se na Ásia Menor e espalhou-se pela Grécia Antiga sob o título Potnia Theron, a “Senhora dos Animais”. O seu culto chegou a Roma cerca do ano 204 a. C. e foi assumida a divindade do ciclo da vida-morte-renascimento ligada à ressurreição do seu filho Átis, um semi-deus pressuposto amante da deusa ligado aos cultos necroláticos e aos sacrifícios rituais dos taurobólios, isto é, a execução da celebração sangrenta de touros simbólicos da Natureza fecunda, como se fosse a “Divindade sacrificada às mãos do Homem”, rito ancestral vulgarizado nas actuais touradas.

Segundo os antigos gregos, esta deusa seria uma encarnação de Ghea ou Mater Rhea, a Mãe Terra, a Natureza manifestada, e era representada, frequentemente, com uma coroa de muralhas com leões por perto ou num carro puxado por esses animais. O seu culto original era uma restrita celebração da fertilidade, que depois se degradou em algumas manifestações orgíacas.

É assim que Cibeles, a deusa da Terra, filha do Céu, esposa de Saturno, mãe de Júpiter, de Neptuno (de quem chegou a haver uma fonte defronte a esta que dá nome à praça, e que entretanto foi desmontada) e de Plutão, simboliza a Energia Vital encerrada na Terra. Ela engendrou os deuses dos quatro elementos naturais (ar, fogo, água, terra), pelo que é a fonte primordial, ctónica ou subterrânea de toda a fecundidade.

O seu carro ou velocino solar é puxado por leões, o que significa que ela domina, ordena e dirige a potência vital. Por vezes aparece coroada de muralhas (assinalando o genius loci ou “espírito do lugar”, culto instituído pelos romanos), ou com uma estrela de sete pontas ou ainda um crescente lunar, sinais do seu poder sobre a evolução biológica terrestre. O símbolo lunar também vem a associar Cibeles ao astro nocturno a quem se liga o urso, patente na heráldica madrilena e que esteve figurado nesta fonte monumental até 1895, quando a mesma recebeu reformas profundas que lhe alteraram a feição original obra do arquitecto espanhol Ventura Rodríguez que realizou o seu projecto entre 1777 e 1782. Segundo a mitologia grega, a divindade lunar adoptava frequentemente a forma de urso, antes, ursa nas suas aparições nos ritos ctónicos, hidro-telúricos celebrando a fecundidade da Mãe Terra graças às sinuosas correntes telúricas desta, o que era representado pela serpente reproduzida nesta mesma fonte, magnetizando os lençóis de água subterrânea que tinham na rã o seu símbolo, igualmente reproduzido nesta fonte.

A transformação de Cibeles em urso ou ursa significa que a deusa é a mãe soberana de todos os poderes materiais do mundo, é a pedra angular do mesmo, e por isso os romanos originalmente cultuavam-na sob a forma de uma pedra negra quadrada, que mais tarde evoluiu para um carro, carré ou quadrado móvel, isto é, com rodas, vindo a assinalar a própria evolução ou marcha avante da Mãe Terra.

A ver com a pedra negra e o carro solar (o leão é símbolo do Sol) talvez também tenha a ver a Pedra Negra Kaaba do Islão e a Merkabah ou “Carro” da Tradição do Judaísmo, e até mesmo a Pedra Angular nos templos da Cristandade indicativos de Cristo como assento da Fé.

Na estátua original madrilena de Cibeles também apareciam grifos de pedra (que tal como os ursos estão hoje recolhidos e expostos no Museu das Origens). A presença dessa ave fabulosa, com bico e asas de águia e corpo de leão, expressa a duplicidade da natureza humana e divina de Cibeles, como mãe da Terra e filha do Céu. Quando se compara a simbologia própria da águia e do leão, pode-se dizer que o grifo liga o poder terrestre do leão à energia celeste da águia. Deste modo, inscreve-se na simbólica geral das forças de salvação, pelo que igualmente evoca a dupla qualidade divina de Força e Sabedoria, aliás, expressas nesta fonte pelo ceptro e a chave que Cibeles carrega em suas mãos.

Era aqui, antes de 1862, que os aguadeiros galegos e asturianos recolhiam a água de dois canos rústicos e levavam-na até às casas das pessoas da cidade que alugavam os seus serviços por não quererem ou não poderem deslocar-se aí. A sua canalização datava da Idade Média, da época em que Madrid era muçulmana, e ainda hoje jaze sob a fonte um volumoso lençol de água.

Desde sempre esta Fonte de Cibeles foi o ex-libris de todo o povo de Madrid, que ali ia dessedentar-se, e tamanha foi e é a sua fama que originou que a música lhe dedicasse uma canção: “Agua de la fuentecilla, la mejor que bebe Madrid…”

 

A VIRGEM NEGRA DA ALMUDENA

 

Padroeira de Madrid, celebrada a 9 de Novembro, a imagem de Santa Maria a Maior, depois aclamada Santa Maria a Real da Almudena, tem uma história muito pouco conhecida envolta em mistérios e lendas que a colocam nos primeiros tempos do Cristianismo peninsular e que foi da devoção maior dos moçárabes madrilenos sob o domínio árabe.

Antes do mais, esta imagem retrata a Senhora da Conceição e é uma Virgem Negra cópia da primitiva original, que parece ter ardido no incêndio na igreja de Santa Maria durante o reinado de Filipe II, pois esta actual do gótico tardio é dos finais do século XVI, ainda que a cabeça da Virgem e as suas mãos, assim como a cabeça do Menino, possam ser da imagem anterior.

Diz uma lenda antiquíssima que esta imagem da Mãe Divina foi trazida para Madrid por San Calocero, um dos doze discípulos do Apóstolo Santiago Maior, no ano 38 da nossa Era. Depois, no ano 712, com a derrota do rei godo D. Rodrigo na batalha de Guadalete e a tomada da pequena vila de Madrid pelos árabes chefiados por Múcia e Tarique, os cristãos madrilenos esconderam a imagem da Virgem dentro dum buraco na muralha da mudayana ou almudena, que quer dizer “cidadela”. Em breve esqueceram-se onde a tinham escondido, até que séculos depois a Virgem apareceu ao cavaleiro cristão El Cid e pediu-lhe que tomasse a fortaleza de Madrid. Ele assim fez. No momento em que as suas tropas se aproximavam da almudena, desprendeu-se o fragmento da muralha onde estava a imagem milagrosa, e foi por aí que puderam entrar e tomar a cidadela para a Cristandade, corria o ano 1085. Logo o rei Alfonso VI de Castela ordenou que a imagem da Virgem fosse colocada no altar-mor da igreja de Santa Maria de Almudena, reconvertida de mesquita em sede cristã, cujo culto os Templários manteriam do século XII ao início do XIV em Madrid, dando-lhe a fama maior da Padroeira da mesma.

Porém, lendas aparte, a verdade é que o culto mariano durante o domínio árabe foi sempre respeitado por este, por igualmente venerar a Mãe de Deus mas na figura de Fátima, quinta filha do Profeta Maomé, sem deixar de respeitar Maria como Mãe do Profeta Isa, isto é, Jesus. É assim que o próprio nome Almudena chega a ser interpretado por alguns autores, como Vera Tassis, como sinónimo da própria Virgem, através de um jogo com a palavra: Al = Alma (Virgem, em hebreu), Mu = Mulher, De = Dei, Na = Natus (nascido), ou seja, Virgem e Mulher ou Mãe de Deus nascido.

O “Deus nascido” é a criança divina que nasce sem a intervenção do homem, conforme o mistério cristão, nesse aspecto coincidindo justamente com outros mitos da Antiguidade que igualmente representam o nascimento milagroso do herói e do santo.

Sendo a Senhora da Conceição uma Virgem Negra, no contexto da sociedade rural medieval era uma deusa agrícola expressiva da Grande Deus Mãe Primordial, cujo culto tinha honras maiores que ao Deus Filho, por ser Ela a origem da Fé, e assim mesmo da Natureza fecunda de que dependiam os povos, e neste sentido o termo almudena encontra derivação do árabe almudín, “depósito de trigo”, aludindo aos trigais em volta da cidade de que dependiam os seus habitantes. Dizer-se que esteve muito tempo escondida numa muralha da almudena, significa que era uma Deusa Oculta, Negra, o que é representado na Lua aos seus pés como Matriz da Criação cujas fases regulavam os períodos agrários de semeadura e colheita.

A cor negra da Virgem é a mesma primordial apontando o Grande Útero da Vida gerada nele e a ele, no final da existência, a mesma Vida se recolhe. Por isso a Grande Mãe, com o seu potencial de gestação e geração, possibilita todas as manifestações, transformações e evoluções da Vida, a qual recolhe a si no final de cada manifestação, seja ela a de um homem ou a de um mundo. Razão porque personifica a Magna Dea, a Grande Deusa, Maha-Shakti para o Oriente, a Força Vital que gera, mantém, anima e unifica, que sendo Ela o Oceano da Vida conduz aos seres imersos nas suas correntes através dos movimentos das suas Águas da Vida, donde ser apelidada da Conceição ou Concepção, sobreposta à Lua crescente que, como astro da noite ou do negro, representativo do Caos ou Noite Cósmica, o mesmo Pralaya do Oriente, assiste aos ciclos de vida e morte de todos os seres. O período de existência destes vem a ser o Cosmos ou Dia Cósmico, Manvantara para os orientais, marcado pela cor branca e a Lua Cheia, para todos os efeitos, antecedido pelo negro primordial.

Por essa razão a Virgem Negra simboliza a Terra Virgem, ainda não fecundada ou povoada, pelo que vem a valorizar o elemento passivo do estado virginal. O escurecimento das imagens das Virgens foi enaltecido na Europa ocidental no final da Idade Média, devido à cor sombria dos ícones orientais da religião bizantina que nessa época exerceu grande influência na arte religiosa latina.

Outro aspecto a destacar na Virgem Negra são os seus milagres, em momentos históricos precisos. Tais milagres têm sempre a ver com a vida e a morte, como o que aconteceu no momento da reaparição da imagem da Senhora da Almudena, reportando para a transformação, individualização, libertação e despertar num ciclo novo, marcado pela passagem da Madrid islâmica à cristã.

Por outro lado, no período medieval coincidente com a aparição de qualquer Virgem Negra, houve sempre uma reactivação social, artística e cultural no seio da sociedade pela aproximação do Ocidente ao Oriente, e assim mesmo uma irrupção do elemento feminino, não só com o culto mariano mas também de forma idealizada no amor cortês, apesar das grandes discussões dos teóricos escolásticos sobre a Natureza, a carne e o pecado, a alma e a virtude, semeando uma improdutiva disfunção entre o Espírito e a Matéria que chegou aos nossos dias.

Para o Islão, a virgindade de Deus como Mulher é a Luz inviolada que ilumina os Eleitos; a esse título, é chamada de “Virgem-Mãe” a hora da vida que é a primeira. Mas é também a última. É Ela que abre o caminho da Iluminação e leva a termo o místico caminhar. A Virgem de Luz revela ao Eleito a forma espiritual que nele é o Novo Homem, tornando-se seu Guia e conduzindo-o em direcção às Alturas, à Almudena ou Cidade Celeste.

 

MIRACULOSA SANTA MARIA DE LA CABEZA

 

A meio da Ponte de Toledo, sobre o Rio Manzanares, está num nicho a escultura da miraculosa Santa Maria de la Cabeza, viúva de Santo Isidro, patrono de Madrid.

A presença aí dessa santa moçárabe converte simbolicamente a ponte numa passagem entre os Mundo Humano e Espiritual, o que remete ao termo latino pontifex, “construtor de ponte”, donde pontífice como intermediário entre dois Mundos, pelo que deverá sempre estar postado no meio. Esta ponte construída entre 1718 e 1732 pelo arquitecto Pedro de Ribeira, deve a inspiração a antigo episódio lendário acontecido com a própria Santa Maria e Santo Isidro, o Lavrador:

Em Torrelaguna, onde conheceu Santo Isidro que estava fugindo da conquista almorávida, Maria sonhava todas as noites com a Virgem Divina que conseguia cruzar o Rio Jarama estendendo o seu puríssimo manto sobre as águas. Em memória do ocorrido, construiu-se depois esta Ponte de Toledo madrilena.

Não fica por aí a relação miraculosa de Maria Santa Maria de la Cabeza com as águas, expressivas tanto da Mulher como da Mãe como fonte de vida e reservatório de Saber ocultado, astrolaticamente assinalada no astro nocturno, a Lua, e fisiologicamente no ventre feminino. Maria e Isidro tiveram um só filho, e um dos milagres mais conhecidos deste santo, realizado por pedido da santa, aconteceu quando o menino caiu num poço muito fundo. Santa Maria rogou ao marido que o salvasse e nesse instante a água do poço subiu milagrosamente até à borda, trazendo o menino intacto sobre as suas águas. Este poço encontra-se na que foi a casa de Iván Vargas, amo de Isidro, actual Museu das Origens, chamado até 2007 Museu de Santo Isidro, um edifício reconstruído modernamente.

Santa Maria de la Cabeza na Ponte de Toledo

Santa Maria de la Cabeza chamava-se Maria Toribia, nasceu no século XII em Uceda, Guadalajara, e viveu em Torrelaguna, na província de Madrid, perto da província de Guadalajara. Morreu entre 1175 e 1180. Levou uma vida abnegada, piedosa e pródiga no exercício da caridade, tendo passado vários períodos da sua vida como anacoreta, facto posteriormente distorcido em ter sido camponesa inculta, o que a sua proximidade à Ordem dos Templários desmente. Terá postulado nesta juntamente com o marido e encetado estudos religiosos que a nobilitaram como “cabeça iluminada” singularmente esclarecida na religião e particularmente no culto à Mãe de Deus, por quem os Templários nutriam especial devoção.

A Idade Média não foi o período dum mundo exclusivamente masculino. No século XII a vida conventual proporcionava uma grande vitalidade intelectual, como o demonstra Hildegarda de Bilgen, monja estudiosa e mística, ou também a contemplativa Juliana de Norwich. No âmbito secular o papel das mulheres era, sobretudo, o de esposas que colaboravam com os seus maridos ou de viúvas que tinham uma existência mais independente. Esta foi a situação da madrilena universal Santa Maria de la Cabeza, viúva de Santo Isidro e mãe de Santo Illán.

Com a sua morte, foi enterrada na ermida visigótica de Santa Maria que ela visitava frequentemente em vida, situada perto do Rio Jarama, nas proximidades de Torrelaguna, domínio Templário. Portanto, essa ermida pertencia à Ordem do Templo que foi sua dona até ao ano 1311. Aí se depositou a cabeça de Santa Maria num relicário, sobre o altar-mor do oratório. Com a extinção da Ordem do Templo, a cabeça e o corpo da santa foram trasladados para o convento franciscano de Nossa Senhora da Piedade de Torrelaguna, e depositados na sacristia numa arca de marfim. Ali estiveram até serem traslados novamente, desta vez para Madrid em 1645. Do oratório das Casas Consistoriais passaram, em 1769, ao retábulo da Colegiada de Santo Isidro, onde actualmente se veneram junto a seu esposo.

De “cabeça iluminada ou esclarecida”, em breve a crença popular atribuiu à relíquia do crânio de Santa Maria a fama de eficaz contra as dores de cabeça, e tão grande era a popularidade da sua eficácia que em 1511 o Cardeal Cisneros renovou o relicário que guardava o crânio santo, expressivo do lugar mais alto e nobre do corpo humano reservatório de segredos e saberes.

Todas essas circunstâncias, examinadas por juízes apostólicos, fizeram com que o Papa Inocêncio XII confirma-se e aprova-se o culto imemorial dado à serva de Deus, pela bula Apostolicae servitutis officium de 11 de Agosto de 1697, inscrevendo o seu nome no santoral como Santa Maria de la Cabeza e celebrada a 9 de Setembro. Em 15 de Abril de 1752, por decreto de Benedito XIV, concede-se em sua honra o Ofício e Missa de Santa Maria de la Cabeza. Na bula de canonização do padroeiro de Madrid, Rationi congruit, o Papa conclui com a referência à esposa de Santo Isidro:

Hoy sus restos se veneran en Madrid. Muchos aseguran que hace incontables milagros, principalmente curaciones repentinas de dolores de cabeza. Todas esas circunstancias, examinadas por jueces apostólicos, hicieron que Inocencio XII aprobara su culto inmemorial y que últimamente Benedicto XIV le concediera Misa y Oficio propio, asignando la fiesta para un día de mayo en Madrid y en toda la diócesis toledana.

Santa Maria de la Cabeza constitui o paradigma das mulheres esclarecidas da Idade Média que souberam unir a Fé e o Saber numa vivência independente e até se sobrepor à sociedade dos homens que, rendidos, a aclamaram santa.

 

O SINO MILAGROSO DA IGREJA DE SAN PEDRO EL VIEJO

 

A torre mudéjar da igreja de San Pedro el Viejo, pouco conhecida dos madrilenos, integra o património insólito da Madrid oculta por causa do seu sino enorme que ninguém soube como foi posto aí, surgindo então a lenda dos sinos astrais ou sobrenaturais desta cidade.

Como os cidadãos madrilenos do século XVI não sabiam explicar como fora um sino tão grande deposto no alto do campanário, tendo aparecido aí da noite para o dia, os vizinhos do lugar começaram a falar de uma estranha lenda medieval segundo a qual os operários que estavam encarregados de elevar o sino ao alto do campanário, não sabendo como o fazer por ser enorme, deixaram-no no chão e foram para casa pensar como o poderiam subir.

A surpresa veio quando na manhã seguinte ouviu-se o repicar de uns sinos, que evidentemente eram os do campanário da igreja de San Pedro el Viejo. Ninguém sabia explicar como pôde subir o grande sino ao alto da torre, nem quem ou quais foram os artífices dessa façanha.

A utilidade que se dava a esse grande sino era o de fazê-lo tocar para evitar a chuva ou atraí-la. A população ficava aterrada cada vez que o sino tocava, por causa do grande estrondo que provocava, exclamando apavorada: “Fujamos, que tocam o sino de San Pedro”. Isto durou até ao ano 1565, quando o sino se partiu para alívio de boa parte dos madrilenos. Acabou por ser retirado da torre e o sino que hoje pode ver-se aí é mais pequeno e data de 1801.

Contudo a tradição do sino gigante de San Pedro el Viejo não se perdeu e continua a ser mantida aí, na evocação ao Cristo das Chuvas ou Jesus o Pobre cuja imagem encontra-se dentro da igreja e tem a propriedade miraculosa de atrair a chuva em tempo de seca ou de afastar as tempestades e tormentas.

A imagem impressionante do Cristo das Chuvas, figura talhada em corpo inteiro, costuma sair em procissão na Quinta Feira Santa, no período da Páscoa, e apresenta uma expressão que muda conforme varia o ponto de vista: de um orgulhoso califa islâmico a um Cristo de uma suave tristeza.

Cristo das Chuvas ou Jesus o Pobre

Esta igreja de San Pedro el Viejo, chamando a atenção pela sua pobreza, apesar da sua antiguidade e história miraculosa, encontra-se no cruzamento das ruas do Núncio e da Costanilla de San Pedro. É das mais antigas de Madrid, se não a mais antiga, havendo referências datando-a da Idade Média. Aparece citada no Foral de 1202, em referência a uma antiga edificação moçárabe existente na actual Praça da Porta Cerrada. No século XIV, o rei Alfonso XI, em memória da vitória obtida contra os mouros na batalha de Algeciras em 1345, mandou-a construir sobre a antiga mesquita árabe, reutilizando o minarete desta para levantar a torre mudéjar, o principal elemento de interesse.

A formosa torre mourisca de forma esbelta, toda ela em ladrilho, mostra nas aberturas do campanário uma linha de dentes cerrados e mais abaixo uma curiosa e bela janela arábigo-bizantina. Os primitivos Monges-Construtores medievais terão a construído com dois propósitos interligados: o de atalaia vigiando os campos em volta e fazendo soar o sino que era enorme para que todos o ouvissem, quando o inimigo se aproximava, recolhendo-se a população campesina ao interior do burgo, pois eram os camponeses quem pagavam aos frades por tangerem o sino alertando-os do perigo, ao mesmo tempo que asseguravam a bênção da Igreja. Além de atalaia também seria uma espécie de zigurate caldaico, isto é, um observatório astronómico, facto que, a breve trecho, a população inculta interpretou atribuindo poderes sobrenaturais ao sino de San Pedro el Viejo sobre a meteorologia, o que se mantém até hoje na imagem milagrosa do Cristo das Chuvas, por entretanto o sino gigante ter desaparecido.

Na torre podem-se observar também diversos brasões reais, um deles com data anterior ao período dos Reis Católicos, Fernando e Isabel (século XV). Chama-se ainda San Pedro el Viejo por ter sido uma das mais antigas das paróquias de Madrid, coeva dos árabes como paroquial moçarábica, ou seja, “como que árabe”, o cristão sujeito aos usos e costumes árabes, menos na religião, e possivelmente sob o Orago do moçárabe Santo Isidro, Patrono de Madrid, pois só passou definitivamente a cristã no século XIV.

No século XVII o templo sofreu uma reconstrução ao gosto da época, de que só se salvaram alguns elementos da edificação medieval, dentre eles a torre e a nave central, com a sua cabeceira gótica nervada do século XV. Era inicialmente conhecida como San Pedro el Real, porém perdeu esta denominação em 1891, quando deixou de ser paróquia a favor da igreja da Paloma. Esta última igreja passou então a chamar-se San Pedro el Real e, para evitar confusões, popularmente se baptizou o edifício da Rua do Núncio como San Pedro el Viejo. Confusão que, na prática, nunca existiu, já que os madrilenos designam a igreja da Paloma com este nome e não com a sua denominação oficial.

 

O SANTO SANGUE DE PANTALEÃO

 

Todos os anos milhares de madrilenos acorrem no dia 26 de Julho à igreja da Encarnação para venerar o prodígio da liquefacção do sangue de São Pantaleão, e, como é habitual, surge a mesma incógnita: se produzirá de novo?

Se não acontecer, é sinal de mau agouro e de próximos acontecimentos funestos para Madrid e até para o Mundo. Então, cerca dos quatro horas da tarde, com a igreja cheia de gente para observar o fenómeno, o relicário que supostamente encerra o sangue de São Pantaleão numa ampola, sofre uma metamorfose inexplicável: durante 48 horas a substância, que ao longo do ano pode ver-se com uma cor vermelha e completamente seca, começa a converter-se, pouco a pouco, num líquido de tonalidade brilhante. Assim permanece até ao dia seguinte, 27 de Julho, dedicado a São Pantaleão, quando o sangue volta a secar.

As freiras agostinhas recoletas do Real Convento da Encarnação, são quem anunciam o início do fenómeno e a sua conclusão, para gáudio de toda a Madrid e do Mundo assim poupados de próximas calamidades, crença propagada pelas mesmas religiosas que afirmam ser esse milagre “um presente de Deus”.

A hagiografia de Pantaleão, nome significando “em tudo semelhante ao Leão”, segundo as Actas dos Santos iniciadas no século XVIII pelo jesuíta belga Jean Bolland, diz que era filho de Eustorgio e Eucuba e nasceu no século III d. C. em Nicodemia, a actual cidade de Izmit, na Turquia. Tal como o seu pai, foi um médico mas também filósofo destacado da nobreza e corte turca. Porém, a sua vida mudou radicalmente quando se converteu ao Cristianismo professado pela sua mãe. Depois de ser perseguido e preso, o imperador Galério Maximino condenou-o à morte. Foi decapitado publicamente em 27 de Julho do ano 305. A tradição religiosa conta que os cristãos de Nicodemia recolheram o seu sangue com pequenos algodões e guardaram-nos em ampolas de vidro, que depois foram distribuídas como meio de propagação do seu culto em Itália, França e Espanha, sobretudo aqui, em Madrid.

A fama do sangue miraculoso de São Pantaleão aumentou no Península Ibérica no século XVII, quando em 1611 Mariana de San José, filha do vice-rei Juan de Zuniga, fundou o Real Mosteiro da Encarnação trazendo para aqui a relíquia do sangue deste santo. As suas curas milagrosas e as transformações do estado sólido a líquido e vice-versa, levaram as autoridades eclesiásticas a intervirem ante o auge dos sucessos portentosos, e nunca o Santo Ofício conseguiu concluir se a origem desses acontecimentos sobrenaturais era celestial ou diabólica.

Pantaleão inscreve-se na linha dos primitivos Iniciados cristãos, detentores da Sabedoria Gnóstica ou Hermética, nome este provindo daquele deus grego Hermes que inspiraria dar-se o nome de Hermolao ao sacerdote cristão iniciador de Pantaleão, o qual também tinha dois discípulos com nomes significativos: Hermipo e Hermócrates. Todos os quatro foram decapitados, sendo Pantaleão amarrado a uma oliveira fora da cidade e, antes de ser decapitado, teve tempo por enrubescer as espadas dos seus algozes. Quando a sua cabeça rolou pelo chão, o sangue que banhou a oliveira fez que a árvore florescesse e desse frutos imediatamente. Sendo a oliveira a árvore simbólica da Boa-Nova ou o Evangelho, e igualmente da Paz, significa esse episódio o florescimento da Pax Ecclesia em terras turcas como consequência da evangelização e martírio de São Pantaleão, o mais heterodoxo pensador do Evangelho do seu tempo, interpretando o “espírito ou mensagem oculta sob as letras da catequese vulgar”.

Conta-se que a mãe deste santo morreu prematuramente, não tendo oportunidade de influir doutrinalmente sobre o seu filho, o que equivale a falar dum ensinamento latente que não lhe pôde vir por herança, mas sim pelo ensinamento de um mestre que, significativamente, recebeu o nome de Hermelao. Este detalhe recorda precisamente o deus Hermes, encarregado de transmitir magistralmente os ensinamentos isíacos ou da deusa Ísis, ou seja, da Deusa-Mãe que delegava nele as funções docentes aos iniciados.

Iniciado era Pantaleão, e adepto – do Cristianismo já triunfante, quando a sua história se divulgava – dedicado de corpo e alma a uma sabedoria que se reflectia na taumaturgia dos seus actos médicos prodigiosos, vencendo primeiro a serpente – guardiã de conhecimentos secretos – e devolvendo posteriormente a visão a um cego – cego ignorante, incapaz de ver – que era o seu próprio pai.

Na história hagiográfica deste santo, também aparece a sucessão de uma série de martírios que Pantaleão superou com a coragem de um leão, as quais têm a aparência inconfundível de um processo iniciático superior em que intervêm os quatro elementos naturais (ar, fogo, água, terra) que ele indiscutivelmente superou. A presença de três Hermes – ou de Hermes Trismegisto – na sua cela de prisioneiro, vem a ser como que a iluminação que recebe o sábio depois de haver superado as difíceis provas a que foi submetido para alcançar o Mestrado. E logo depois deu-se a consumação do seu martírio, preso a uma oliveira – árvore sagrada no contexto religioso mediterrâneo – e relevando-se essencialmente glorioso, fazendo este Mestre com que a sua quintessência da vida que é o sangue, fizesse florescer a árvore e dar frutos, ou seja, permitindo a renovação da Fé tal qual o Sangue Real de Jesus Cristo renovou no Calvário a Aliança de Deus com a Humanidade.

Se a ampola com o sangue de São Pantaleão reveste-se de características que a integram na tradição Graálica Ocidental, por meio dos poderes atribuídos ao líquido milagroso que contém, resulta duplamente significativo comprovar que o lugar de onde procede a relíquia é também um enclave com características mágicas tradicionais: trata-se do Vale de Losa, no nordeste da Castela burgalesa, constituindo o centro desse enclave a igreja românica de São Pantaleão. Em volta deste centro sagrado surgem outros nomes com evidente significado graálico: um pouco ao norte está a aldeia de Criales – Griales ou Grial, em castelhano – e, no limite imediato com Euskadi, a Sierra Salvada, cujo paralelismo com o Montsalvat do poema Parzival de Wolfram von Eschenbach (c. 1170 – c. 1220), é absolutamente óbvio.

A origem da história de Pantaleão surge inteiramente, pois, como uma conjunção dissimulada de elementos mistéricos e ocultos pelo seu carácter de proibidos pela ortodoxia religiosa da Igreja. Todos esses elementos, unidos à lenda da vida do santo e à sua advocação (ele é o padroeiro dos médicos e das crianças enfermas), levam à conclusão iniludível de que São Pantaleão é um símbolo hagiográfico da Tradição Iniciática que fundou o Cristianismo Primitivo mas que depois foi passado convenientemente pelos filtros da ortodoxia eclesiástica, que aceita como milagre o que configura uma insuspeita mensagem hermética, só conhecida, ao longo dos séculos, por iniciados que souberam secretamente o verdadeiro significado deste santo, e que ia muito além do que publicamente era permitido dizer.

  

LEON V, REI DE MADRID E NETO DE FADA

 

São muito poucos os madrilenos que estando na Calle de Leon V da Arménia, próxima à Calle Via Carpetana, sabem da história desse rei fabuloso que um dia fez de Madrid a capital da Arménia. Como esse episódio esquecido faz parte da história da Madrid insólita e secreta, torna-se obrigatório que o contemos aqui recuando a um tempo em que fadas, deuses e cavaleiros conviviam num mesmo espaço mágico.

Leo Levon V (ocasionalmente, Leon VI, 1342 – 29.11.1393), da Casa de Lusignan, era filho de João de Lusignan e de Soldane, filha de George V da Geórgia. Foi o último rei do Reino Arménio da Cilícia, que governou de 1374 a 1375. Este reinado foi curto porque o seu irmão Constantino V intentou matá-lo e a todos os pretendentes ao trono arménio, pelo que Leon V fugiu para Chipre escapando ao assassínio, tendo antes sido feito cavaleiro da Ordem de Cavalaria da Espada, em 1360, e titular Senescal de Jerusalém, em 17 de Outubro de 1372. Em Chipre casou com Marguerite de Soissons e foram coroados em Sis em 1374, de acordo com os ritos latino e arménio. Depois de várias batalhas contra as poderosas forças mamelucas foi feito prisioneiro no castelo cipriota de Kapan e levado com a sua família para o Cairo, Egipto, onde ficaria vários anos sob a vigilância do sultão egípcio, entretanto falecendo a sua mulher no cativeiro, entre 1379 e 4.7.1381.

Foi um padre franciscano francês, Jean Dardel, que em peregrinação a Jerusalém apercebeu-se da situação do rei aprisionado e interviu junto de D. João I de Castela e Leão para que ele fosse libertado. Depois do monarca leonês pagar um rico resgate ao sultão do Cairo, Leon V foi libertado tendo chegado doente e pobre a Medina del Campo em 1383, numa altura em que o rei de D. João I se encontrava em Badajoz por motivo da sua boda com a princesa D. Beatriz de Portugal. Ele cumulou o rei arménio de grandes honrarias e privilegiou-o com a doação do seu domínio madrileno enquanto ele vivesse, só voltando à Coroa espanhola após a sua morte. Foi assim que Leon V da Arménia se tornou Leon I de Madrid.

Leon de Lusignan governou com justiça e equidade o seu reino madrileno, sempre estimado e admirado por todos. Tendo reconstruído as torres do Real Alcázar e mantido nos seus cargos a todos quantos possuíam algum, tanto real como municipal, e até absolvendo previamente de toda a pena os que o desobedeciam, foi realmente um monarca querido dos madrilenos e de toda a Península Ibérica. De estatura anormal, quase gigante a rondar os dois metros de altura, as crónicas antigas dizem dele: “Ele era um benevolente, homem ingénuo sem rancor por ninguém, que tomou o seu refúgio em Deus e guiou o seu principado em consequência. Foi um brilhante homem sábio, um hábil cavaleiro, valente de coração na batalha, com a atenção à caridade divina e humana, enérgico e alegre de rosto”.

Por morte do seu protector D. João I em 1390, Leon de Lusigan deixou Castela e foi para França, tendo morrido em Paris em 29 de Novembro de 1393, não sem antes ter tentado conciliar as cortes francesa e inglesa e promover uma nova Cruzada a fim de recuperar os seus domínios legítimos, o que não conseguiu. Foi sepultado no Convento dos Celestinos, na capital parisiense, e mais tarde trasladado para a Basílica Real de Saint-Denis, onde hoje está o seu túmulo.

Túmulo de Leon V em Paris

Leon V era neto da fada Melusine, origem da estirpe Lusignan, que casara com um cavaleiro francês do Poitou, o nobre Remondin, por vezes interpretado como Roi du Monde, isto é, Rei do Mundo, por Melusine associar-se simbolicamente, nas lendas corteses medievais, tanto à bíblica Magdalene quanto à céltica Lusine. Esta lenda cortês, propagada por Jehan d´Arras cerca de 1382-1394, conta:

Elinas, o rei da Albânia (um eufemismo poético para a Escócia, a “Terra Branca”), certo dia saiu para caçar e deparou-se com uma bela dama na floresta. Ela era Presina, mãe de Melusina. O rei persuadiu-a a casar-se com ele, e ela só concordou sob a condição – pois há sempre uma condição dura e fatal vinculada a qualquer união entre fada e mortal – dele não entrar na alcova quando ela desse à luz ou banhasse os seus filhos. Ele concordou com a interdição. Casaram e Presina deu à luz trigémeas. Quando ele violou a proibição iniciática, a fada rainha deixou o reino e foi com as três filhas para a ilha perdida de Avalon, depois associada à atlante ilha de San Brandon, e mesmo ao reino subterrâneo de Agharta.

As três meninas – Melusina, Melhor e Palatina (ou Palestina) – cresceram em Avalon. No seu décimo quinto aniversário, Melusina, a mais velha, perguntou à mãe porque elas haviam sido levadas para Avalon. Ao ouvir sobre a promessa quebrada pelo pai, Melusina jurou vingança. Ela e as suas irmãs prenderam Elinas e aprisionaram-no, com as suas riquezas, no interior subterrâneo de uma montanha. Presina enfureceu-se quando tomou conhecimento do que as filhas haviam feito, e puniu-as por terem desrespeitado o pai. Melusina foi condenada a tomar a forma de uma serpente da cintura para baixo, todo o sábado.

Desterrada para uma floresta encantada do Poitou, vivendo junto à fonte encantada de Sée, foi assim que o cavaleiro Raimondin, durante uma caçada ao javali, a encontrou banhando-se à luz do luar, se apaixonou por ela e logo lhe propôs casamento. Tal como havia feito sua mãe, Melusina fixou uma condição, a dele nunca dever entrar no quarto dela aos sábados, que ficava na torre mais alta e afastada do castelo de Lusignan que depois construíram para sua morada e da sua progénie. Ele concordou, mas logo quebrou a promessa e viu-a banhando-se nua com a forma de meia-mulher, meia-serpente. Ela perdoou-o mas nada havia a fazer, e então, chegando ao parapeito da janela depois de lhe dar dois anéis mágicos, Melusina com um grito estridente de dor incontida, lançou-se no espaço tomando a forma de um dragão alado, desaparecendo nos ares para sempre.

A fada Melusina era avó de Leon de Lusignan, o rei da Arménia e de Madrid, segundo a lenda nobiliárquica. E não tardou a identificar-se o catalão Mosteiro de Montserrat como o lugar onde estaria sepultado Remondin, esta a fórmula de expressar a presença de lugares mágicos herdeiros da Tradição Primordial, pois que em Portugal, na Serra de Sintra também há Monserrate e a Regaleira com referências míticas à deusa fada Melusina, cujo descendente foi um dia benévolo rei de Madrid.

 

SÃO JOSÉ E OS FANTASMAS MADRILENOS

 

A igreja de São José de Madrid, situada na Rua de Alcalá, 43, é porventura a mais procurada pelos “caçadores de fantasmas” que dizem infestar a cidade e particularmente este lugar religioso. Chegam até a apontar locais onde pontualmente os fantasmas aparecem e são imensas as histórias das aparições fantasmagóricas aqui, em São José.

A primeira das histórias que se contam aconteceu no século XIX, pouco depois da expulsão em 1836 das Carmelitas Descalças de São Hermenegildo que desde 1586 habitavam o convento ao qual a igreja de São José pertencia, ficando os edifícios vazios e sem uso, assombrados pela memória dos fantasmas dos antigos moradores, e foi quando aconteceu o estranho caso seguinte:

Havia um jovem galante que após cear com a sua família em Nochevieja, foi a um dos vários bailes que se realizavam nos palácios dos nobres de Madrid. Após passar o tempo vendo o ir e vir dos convidados, justamente às três da madrugada entrou na sala a rapariga mais formosa que ele alguma vez vira. Apressou-se a saudá-la e passaram a noite dançando. Já amanhecia quando a jovem disse-lhe que tinha de voltar a casa. Caminharam de mãos dadas pelas ruas de Madrid até que chegaram à igreja de São José. “Eu fico aqui”, disse ela. O galã pensou que estava enganada, porém ao ver da insistência dela achou que o estava enganando e foi-se aborrecido. No dia seguinte, ao meio-dia, o jovem voltou a passar diante da igreja e apercebeu que estava se celebrando um funeral. Curioso, entrou no templo e aproximou-se do féretro para ver quem morrera. Qual não foi o seu espanto ao ver que no ataúde estava a jovem com quem havia dançado toda a noite anterior. Quase a desmaiar com a surpresa, saiu correndo da igreja quando ouviu que alguém o seguia. Era outra jovem. Perguntou-lhe o que se passava. Quando o galã contou-lhe o que havia acontecido, ela disse-lhe: “Essa rapariga era minha prima. Sempre esteve enamorada de ti, porém era demasiado tímida para acercar-se e dizer-te algo. Ontem, às três da madrugada, morreu…”

Há uma outra versão desta lenda urbana de verdadeira “Gata Borralheira” sobrenatural que dá os nomes dos personagens intervenientes: ele chamava-se John e era inglês, e ela chamava-se Elena de Mendoza, sendo de família nobre espanhola; haviam se encontrado num baile de máscaras durante as festividades carnavalescas madrilenas, na noite de 12 de Fevereiro de 1853.

Além dessa lenda ponto de partida para todas as outras que se seguiram, conta-se também que nas proximidades da igreja de São José igualmente acontecem aparições sobrenaturais, como na sua vizinha Casa das Sete Chaminés que fala do seu belo fantasma: uma dama vestida com um vaporoso vestido branco e que resplandece a ponto de cegar os olhos.

Ambos os edifícios não estão muito longe da Praça de Cibeles, lugar encantado por excelência, e onde mais adiante (após deixar para trás os fantasmas sem cabeça da igreja de São Ginés, da Real Casa dos Correios e do Palácio de Linares, actual Casa da América) tem-se hoje o Hotel Paris, que um dia foi o hospital da Corte e igreja do Bom Sucesso em cujo torre do relógio Lúcifer escondeu um capitão francês das derrotadas tropas napoleónicas, para que pudesse escapar à fúria da multidão. Esta igreja era a única da cidade em que se dizia missa às duas horas da tarde, e é este apontamento que servirá para explicar em parte o mistério da aparição dos fantasmas madrilenos.

São Miguel, Guardião das Almas, na igreja de São José

Se bem que a paróquia de São José e a Praça de Cibeles sejam zonas onde fluem três correntes de águas subterrâneas, onde o telurismo ou energia electromagnética terrestre é mais intensa e susceptível de provocar fenómenos paranormais por alteração dos sentidos humanos, facto que o insigne dr. Mário Roso de Luna chamaria “aparições Jinas” (donde Ginés…) ou sobrenaturais, porventura a explicação poderá ser mais plausível: a da celebração da Adoração Nocturna, instituída pelas Confrarias do Santíssimo Sacramento agregadas às de Santa Maria, e que na noite de 3 de Novembro de 1877 um grupo de sete católicos distintos iniciou em Madrid, celebrando a sua primeira Vigília na igreja do hoje extinto Convento dos Capuchinhos do Prado, defronte ao actual edifício do Congresso de Deputados.

A instituição da Adoração Nocturna surgiu pouco depois de ser abolido o tenebroso Tribunal do Sacro Ofício em Espanha (5 de Julho de 1834) e as liberdades intelectuais, artísticas e religiosas terem se libertado em Madrid deixando à solta os fantasmas pesarosos do passado. As lendas urbanas das almas do outro mundo acaso surgirão da estranheza geral de realizar-se vigílias religiosas em horas mortas onde os corpos repousam e as almas andam à solta.

É por isso que não poucos madrilenos ainda se assustam com formas espectrais e sons funestos, vindas dos lados de São José e de Cibeles, levando-os de olhos esbugalhados e encolhidos debaixo das mantas protectoras da cama, a balbuciar aterrados: Quem anda aí?…

 

O TEMÍVEL FAUSTO DO CEMITÉRIO DE ALMUDENA

 

Quem visita o cemitério de Almudena, o maior campo santo da Europa, à entrada vê de imediato a capela mortuária cuja cúpula é coroada pela estátua de um Anjo, que os madrilenos chamam de Fausto. Carrega no regaço uma trombeta apocalíptica, tema principal da lenda fatídica que faz toda a Madrid temer este Fausto.

Esse singular Anjo apocalíptico tem uma história muito curiosa ligada à própria inauguração do cemitério de Nossa Senhora de la Almudena, Padroeira de Madrid, que aconteceu um ano antes (15 de Junho de 1884) do que estava previsto, devido a um surto de cólera na cidade, decidindo-se habilitar um cemitério provisional chamado das “epidemias”, dessa data em diante passando a ter o novo nome oficial que perdura. Porém Fausto só chegou ao seu actual lugar no ano em que devia ser inaugurado o cemitério. Ele representa o Anjo Anunciador do Juízo Final, avisando com a sua trombeta a chegada do dia em que mortos volverão à vida.

Devido à sua condição de anunciador de tal notícia, Fausto assustava a população de Madrid, que de imediato começou a contar a história de em certas noites ouvir-se a sua trombeta, e até alguns aventureiros intrépidos afirmaram ter visto passear um ou outro defunto por entre as quadras lúgubres do cemitério, depois do Anjo ter soado a trombeta. Ademais, desgraçado de todo aquele mortal que a ouvisse, porque era sinal certo de que iria morrer em breve e ficar ali para sempre.

Tamanho era o terror que infundia a imagem que se decidiu alterar a sua forma original. O Anjo original também estava sentado, reflectindo o aguardo do Dia do Juízo Final, porém a trombeta que agora sustém no regaço, tinha-a na mão direita e levantada até à altura da cabeça. Com essa restauração acreditou-se que o malefício ficava rompido, mesmo assim continuando a temer-se o Fausto de Almudena.

Não se sabe a data certa da restauração do Anjo, sendo certo que quando a capela mortuária, estilo modernista, foi construída em 1924 pelo arquitecto municipal García Nava, o Fausto já aparecia com a forma que hoje se vê.

O Fausto

O termo latino Fausto dado ao Anjo Anunciador, significa Auspicioso, e tem um sentido absolutamente contrário àquele temível que a população lhe dá, por considerá-lo Anjo da Morte. Ao contrário do catecismo popular, mais fácil de apreender pelas mentes simples, o Dia do Juízo Final de maneira alguma expressa o “Fim do Mundo” e sim o “Fim dos Tempos”, ou seja, o final de um ciclo para o início de outro no esquema da Evolução Universal onde tudo e todos evoluem, e certamente um ciclo mais amplo em consciência e boa vivência no fausto feliz entre as criaturas. Portanto, mesmo sendo Anjo da Morte esta é entendida como falecimento de tudo quanto é velho, podre e gasto pelo renascimento auspicioso de algo novo, humana e espiritualmente mais perfeito que antes, em todos os sentidos. Esta é a feliz e suprema mensagem oculta do Fausto madrileno.

Se o Anjo apocalíptico é o Anunciador, quem configura a Consumação do espesso em subtil, da matéria em espírito é a própria Virgem de Almudena, cujo culto tem origem em Madrid. O seu nome árabe, Al Mudayna, significa a “cidadela”, sendo diminutivo de Madina, “cidade”. Em Madrid a Almudena era a antiga medina muçulmana situada junto à ribeira do Rio Manzanares na zona onde hoje se encontram o Palácio Real, a Praça do Oriente e a Catedral.

Há também quem interprete Almudena como “castelo”, nisto sendo o “Castelo ou Torre da Fé”, o que reporta ao termo Râbita ou “Templo-Fortaleza”, como lugar de culto e fortificação espiritual tradicionalmente centrado numa deusa feminina, preferencialmente a própria Grande Deusa Mãe, a Mãe Divina que é quem intervém junto do Eterno pela salvação de todas as almas. Razão da ladainha mariana evocar: “Rogai por nós na hora da nossa morte”… Também por isso, na língua galaica, Almudena significa tanto “Luz da Vida” como “o Caminho a seguir” e “todos os caminhos”.

Nisso, todos os caminhos de Madrid vão dar ao cemitério de Nossa Senhora de Almudena, a cuja entrada está o Anjo Anunciador da salvação espiritual dos justos e perfeitos graças à omnipresença da sempiterna e madrilena Mãe de Deus, cujo culto a 9 de Novembro é uma espécie de juízo sentencial uma semana após a Comemoração dos Fiéis Defuntos, vulgo, Dia dos Mortos ou Defuntos, quando as almas purificadas são elevadas a Deus ao som da trombeta de Fausto, o Anjo do Final.

 

CEMITÉRIO DE ALMUDENA DO ESTE – ORIENTE ETERNO DA MAÇONARIA

 

Ao Este de Madrid encontra-se o Cemitério de Nossa Senhora da Almudena, que por esta razão também é conhecido por Cemitério do Este ou Cemitério Civil, tendo sido criado em 1884 sob o governo da Primeira República com a finalidade de enterrar a suicidas amancebados, meninos não baptizados, hereges e pessoas não pertencentes à religião católica.

Neste cemitério abundam as lápides funerárias com os símbolos característicos das diversas religiões e ideologias. Passando a entrada principal entra-se na rua central do cemitério onde do lado direito chamam a atenção os túmulos monumentais de vários maçons célebres, sendo de destacar os seguintes:

Túmulo de Antonio Rodríguez García-Vao (Manzanares, Ciudad Real, 1862 – Madrid, 19 de Dezembro de 1886), jornalista, poeta e escritor republicano. Militou na no Grande Oriente Espanhol, Rito Escocês Antigo e Aceite, e foi apunhalado por um desconhecido na noite de sábado de 18.12.1886, tendo falecido horas depois. O seu enterro foi presidido por Nicolás Salmerón, tendo comparecido às exéquias número vultuoso de maçons, republicanos, intelectuais e artistas da época, e subscrição pública erigiu-se um mausoléu sobre o seu túmulo, que é o primeiro à direita após cruzar a porta principal do cemitério. O mausoléu tem formato de obelisco e ostente na frente a efígie do falecido. O simbolismo do obelisco, na Maçonaria, corresponde à “pedra pontiaguda” ou “pedra de perfeição” do Mestre Maçom. Insculpido no túmulo vê-se um triângulo trespassado por um compasso, símbolo do Grande Arquitecto no Oriente Eterno para onde volveu a alma do falecido maçom.

O túmulo de Nicolás Salmerón Alonso (Alhama de Almeria, Almeria, 10.4.1838 – Pau, França, 28.9.1908), terceiro Presidente republicano espanhol e conhecido e reconhecido Mestre Maçom, impressiona pela sua composição distinta: duas colunas adiante dum triângulo, tudo em pedra reflectindo a ideia das duas principais Colunas à entrada do Templo de Salomão onde Deus como Unidade e Trindade se manifestava à assembleia dos fiéis da primitiva Israel. Levantado em 1915, este monumento fúnebre tem inscrito o seguinte epitáfio elogioso da memória do falecido: “Pela elevação do seu pensamento, pela rectidão inflexível do seu espírito, pela nobre dignidade de sua vida, Nicolás Salmerón deu honra e glória ao seu País e à Humanidade”.

Também não passa despercebido o túmulo de Ramon Chies, morto em Madrid em 1894, que foi director das Dominicais do Livre-Pensamento, órgão literário de informação maçónica e republicana em cujas correntes o autor militou. O cenotáfio apresenta em cada uma das quatro faces um triângulo invertido, representando a morte maçónica, e na parte superior os três pontos maçónicos representativos tanto da Maçonaria Simbólica (Aprendiz – Companheiro – Mestre) como da Divindade Suprema a quem chamam Grande Arquitecto Do Universo.

Um pouco mais adiante levanta-se outro túmulo, também de porte imponente, que é o mausoléu dedicado a Pí y Margall (20.4.1824 – 29.11.1901), Presidente do Poder Executivo da I República Espanhola e Maçom distinto. Sobre o pórtico de entrada no mausoléu está a cabeça dum anjo alado que vem a representa a Liberdade e o Livre-Pensamento, em que o finado autor militou e se bateu nos dias da sua vida.

Túmulo maçónico no cemitério de Almudena

Há ainda outros túmulos de personagens que tiveram uma relação directa com a Maçonaria onde militaram. Túmulos esquecidos, abandonados mas não menos importantes que os anteriores. Deles destacam-se os seguintes:

A famosa Coluna Partida com a inscultura do esquadro e do compasso entralaçados, insígnia universal da Maçonaria, e por baixo um laço feito na forma chamada “laço de amor”, isto é, “Amor Partido para o Oriente Eterno” é a mensagem deste túmulo anónimo, talvez o mais significativo do cemitério.

O túmulo da família Serna Alonso Saz San Miguel mandado fazer pelo maçom Francisco Sanz que aí repousa, tem na dianteira o triângulo maçónico onde se lê o epitáfio: “Sonreideme, que voy a donde estais vosotros, los de siempre”.

Na sepultura discreta de D. Antonia Rubio, maçona do Rito Feminino, aparecem na pedra de cabeceira o esquadro e o compasso entrelaçados ladeados por folhas de acácia, planta esta que no simbolismo maçónico representa a Iniciação e a Imortalidade.

Neste cemitério podem ainda contemplar-se os mausoléus tumulares de outros políticos, intelectuais e maçons famosos de Madrid e de toda a Espanha: o de Julián Sanz del Río (falecido em 1869), o de Fernando de Castro (falecido em 1874), o de Pablo Iglesias (falecido em 1925) e o de Julián Besteiro (falecido em 1940), dentre outros impossíveis de enumerar por seu vultuoso número mas que contribuíram para transformar este almudeno Cemitério do Este num verdadeiro Oriente Eterno na terra madrilena, posterior em pouco mais de século e meio à aparição em 1728 da primeira Loja maçónica em Espanha, constituída em Madrid por Philippe Duque de Wharton, ex-Grão Mestre da Grande Loja de Inglaterra.

 

A MAÇONARIA EM MADRID

 

A presença histórica da Maçonaria em Madrid recua a 15 de Fevereiro de 1728, quando o Duque de Wharton, em companhia de um número reduzido de ingleses, fundou nesta cidade a Loja French Arms, que só foi reconhecida pela Grande Loja de Inglaterra em 1729. Teve a sua sede na Calle San Bernardo, e era também chamada de Las Tres Flores de Lys por causa do hotel francês que lhe ficava próximo, ficando conhecida pelo sobrenome de Matritense, tendo cessado as suas actividades antes de 1768.

Em 1772, o oficial de guerra holandês Wulff, originário da cidade de Gante, ao lado dum outro oficial de nome Collin, membros dos Guardas Walones de sua Majestade, com outros súbditos originários dos Países Baixos levantaram colunas ou fundaram uma Loja em Madrid, por mediação de La Discrète Impériale de Alost, dentro do Palácio Real. Nenhum deles era espanhol.

Com a chegada das tropas napoleónicas a Madrid, no princípio do século XIX, a Maçonaria saiu da discrição em que se achava, forçada pelas circunstâncias. É quando aparece a chamada Maçonaria Bonapartista e passam a conhecer-se dois tipos de Lojas: as compostas maioritariamente por franceses, dependentes do Grande Oriente de França, e as dos espanhóis afrancesados, que abundaram sobremaneira em Madrid, como a Beneficencia de Josefina, San José, Napoleón el Grande, Santa Julia ou a Filadelfos, só para citar as mais relevantes que se reuniram a fim de instituir-se na Grande Loja Nacional de Espanha. Foi um momento histórico para a implantação definitiva e expansão da Ordem Maçónica a partir de Madrid. O próprio rei José foi Grão-Mestre e influiu poderosamente na primeira etapa expansiva da Maçonaria Bonapartista em território espanhol.

Com a saída dos franceses de Espanha e o regresso de Fernando VII, a Inquisição foi reimplantada, passando a Maçonaria espanhola a ser perseguida duramente. Com o decreto real de 24 de Maio de 1814 pretendeu-se erradicar todo o tipo de círculos clandestinos, e em 2 de Janeiro de 1815 Francisco Mier, Inquisidor Geral do Reino, publicou um édito onde se condenava e proibia taxativamente a Maçonaria, forçando muitos maçons a procurar o exílio em países amigos. No entanto e apesar das perseguições implacáveis, durante o Triénio Liberal, nome por que ficou conhecida a Guerra Civil espanhola de 1822-1823, destacou-se a acção da Loja madrilena Los Amigos reunidos de la Virtud, dependente do Grande Oriente de França. Em 1821 havia-se fundado em Madrid La Sociedad de Caballeros Comuneros, com a intenção de reformar a Maçonaria espanhola que acusavam de depender excessivamente das organizações maçónicas estrangeiras. Nesse mesmo ano, criou-se também em Madrid outra sociedade secreta, Los Carbonarios, integrada pelos liberais exaltados que acabaram colaborando com Los Comuneros, ainda que cada uma delas mantivesse os seus próprios ritos.

Há cinco Oficinas maçónicas em Madrid que se destacaram pelo seu grande vigor e actividade contra a tirania e repressão tanto da Monarquia fernandina como da República franquista: as Lojas Comuneros de Castilla, La Razón, Fraternidad Ibérica, e os Capítulos Esperanza e Juan de Padilla.

Destacadíssimas personalidades da Política, como Rafael de Riego ou Nicolás de Salmerón, do Exército, como o general Serrano, da Academia ou da Economia, surgiram na arena nacional a partir das Lojas. Com a República a Maçonaria alcançou o seu esplendor, e sob o Franquismo sofreu o ocaso parcial, quando milhares de maçons foram fuzilados pelo simples facto de o serem, ou só por terem parentes na Maçonaria.

Em 6 de Novembro de 1982 a Maçonaria é legalizada com o agrupamento de centenas de maçons em redor da Grande Loja de Espanha, a única Obediência Regular no País. Actualmente são mais de quatro mil os obreiros da Arte Real que trabalham nos Orientes de Espanha, estando activas em Madrid as Lojas Hermes Tolerancia, Concordia IV, Arte Real, Leb y Amanecer, todas elas dependentes da Grande Loja Simbólica Espanola. Paralelamente a esta Maçonaria Liberal, em que se inscreve a dita Obediência, trabalham hoje em Madrid igualmente as Lojas Caballeros del Templo, Luz Fraterna, Lautaro, Hermes, Matritense, Comenio, Fraternidad Universal, Phoenix, Hermes Amistad, Emulation, Caballeros de la Rosa y Maestros Instalados de Castilla, por sua vez integradas na Grande Loja de Espanha. Isto sem contar com as Oficinas pertencentes a outras Grandes Lojas minoritárias.

A Maçonaria, como Sociedade Iniciática e Secreta, além de pautar o combate cultural ao analfabetismo, à superstição e à tirania, flagelos sociais, afirma-se herdeira da tradição espiritual e do saber operativo dos antigos monges-construtores das grandes catedrais românicas e góticas, cuja origem recuará aos Collegia Fabrorum dos primitivos artífices romanos, o que dispõe a Maçonaria em três fases históricas distintas:

1.ª) Maçonaria Primitiva (terminada com os Collegia Fabrorum).

2.ª) Maçonaria Operativa (terminada em 1523).

3.ª) Maçonaria Especulativa (iniciada em 1717).

A presença do saber tradicional da Maçonaria em Madrid revela-se em vários dos seus monumentos, de que sobressaem os seguintes:

Estátua de Emilio Castelar (Glorieta de Emilio Castelar). Três figuras femininas coroam a cúspide e representam a Sabedoria, a Força e a Beleza, as três grandes virtudes maçónicas. Benlliure, autor desta estátua, realizou outras obras carregadas de grande simbolismo que se erigiram em honra de outros maçons ilustres.

A Capela da Bolsa (restaurante). Antiga sede da Bolsa de Madrid, que na altura albergou uma Loja maçónica, e hoje é um conhecido restaurante.

Porta do Sul (Parque Enrique Tierno Galván). Estrutura com imensos elementos simbólicos, onde se destaca uma rampa com as cores tradicionais da Maçonaria, branco e negro, uma grande construção geométrica calculada para que o primeiro raio de Sol nos Solstícios se projecte num lugar específico, uma chaminé metálica composta por 5 corpos com 49 metros de altura em cuja parte superior podem-se observar as iniciais ALGADU (“Al Gran Arquitecto Del Universo”), separadas pelos três pontos maçónicos clássicos, além de um tabuleiro semelhante ao empregado para o pavimento das Lojas maçónicas.

Passeio das Acácias. Esta flor é considerada a da Iniciação e Imortalidade na Maçonaria. Diversos alcaides de Madrid pertencentes à Ordem Maçónica promoveram a plantação de acácias nas ruas madrilenas, por ser a flor de eleição da própria Maçonaria.

Pasillo Verde Ferroviário. Aparece o monumento com os chamados cinco sólidos platónicos numa praça com escadarias sucedendo-se na sequência de três, cinco e sete degraus, números que coincidem com as idades simbólicas do Aprendiz, Companheiro e Mestre da Maçonaria.

Destacam-se também as fachadas de diversos edifícios que receberam influência maçónica, como a Escola de Engenheiros ou o Ministério da Agricultura, este tanto por fora como por dentro, e ainda os frescos no tecto do Salão dos Actos do Ateneo, centro tradicional de reuniões maçónicas ao longo da sua existência que abrilhanta toda a Madrid.

 

SIMBOLOGIA MAÇÓNICA NO MINISTÉRIO DA AGRICULTURA

 

Este edifício onde actualmente funciona o Ministério da Agricultura, Pesca e Alimentação, foi traçado em planta rectangular pelo arquitecto Ricardo Velázques Bosco (1843-1923) e finalizado em 1897, destinando-se a sede do Ministério do Fomento. São abundantes as referências maçónicas na sua fachada principal que sugere o portal dum templo grego, e isto não é de estranhar quando se sabe que o referido arquitecto era maçom e tinha relações privilegiadas com a Grande Loja Nacional de Espanha.

Dos lados da entrada apresentam-se duas gigantescas e imponentes Cariátides, nome que os gregos deram às colunas com a forma de estátuas de mulheres que suportavam na cabeça todo o peso do entablamento e da cobertura do templo designado de erectéion (“erecção, eregimento”). Na arquitectura grega eram utilizadas para substituírem às vezes as colunas de sustentação convencionais, e vinham a ilustrar a harmonia arquitectónica, aqui a harmonia maçónica como arte operativa de talhar a pedra e esculpir a madeira, alcançada pela arte grega nos seus padrões arquitectónicos, transmitindo logo à entrada o espírito da harmonia reinante no interior do templo.

As Cariátides guardiãs do portal deste Ministério, representam o Comércio e a Indústria, cujo sentido ajusta-se perfeitamente à função reguladora socioeconómica do original Ministério do Fomento. A que representa o Comércio apresenta-se com o maço ou malhete, insígnia do Venerável Mestre e com isso representando a Autoridade, e com o esquadro, símbolo da Rectidão maçónica. A outra, representando a Indústria, mostra-se com a roda dentada, símbolo do Progresso, permeio a espigas de trigo que tanto simbolizam a Abundância como o trigo ou pão da vida cujas espigas ou “experiências vivenciais” a roda vital tritura com o fim certo da boa ou má morte de acordo como se viveu. Este significado justifica-se por um outro objecto que carrega: o caduceu de Mercúrio, cujas serpentes branca e negra enroladas no mesmo significam a Vida e a Morte, aquela para a Ciência Superior do Espírito Humano e esta para o Progresso igualmente Superior do Homem a caminho de uma terceira realidade: a Imortalidade. Ciência e Progresso, ao nível social imediato, igualmente valem por uma sociedade culta e progressista.

Acima, na planta intermédia, está o terraço com oito colunas coríntias aos pares, que dispostas assim são a representação do Equilíbrio e da Força. Equilíbrio como símbolo da união entre as duas Colunas do Templo (Jakim e Bohaz) simbólicas do Céu e a Terra, o Sol e a Lua, a Luz e o Fogo, o Criador e a Criação, o que é sustido pela Força do Grande Arquitecto do Universo ou Deus que assiste a tudo e a todos.

No simbolismo maçónico, há três tipos de colunas cujos estilos são identificados pelos maçons tanto às Três Pessoas da Santíssima Trindade quanto aos 3 Dignitários mais elevados de uma Loja maçónica, como sejam: Dórico – Pai – Venerável Mestre; Jónica – Mãe – Primeiro Vigilante; Coríntio – Filho – Segundo Vigilante. A Trindade em conjunto é representada pelo Triângulo ou Delta Luminoso com o Olho da Divina Providência no centro.

Finalmente, tem-se o mais chamativo no topo coroado pelo grupo escultórico A Glória e os Pégasos, uma alegoria ao Progresso Universal encomendada ao escultor catalão Agustí Querol i Subirats (Tortosa, 17.5.1860 – Madrid, 14.12.1909), igualmente maçom de alto grau. Nesse tema, A Glória oferece palmas e lauréis à Arte e à Ciência. Dos seus lados dois grupos de Pégasos ou cavalos alados em bronze, guiados pelos Génios da Agricultura e da Indústria (esquerda) e da Filosofia e das Letras (direita), rematam tão peculiar fachada.

As três figuras do grupo escultórico central, são alusões referenciais à Grande Loja Nacional de Espanha que, no mundo maçónico espanhol, é a única e legitima a poder assumir-se regular possuidora das 3 Colunas Sapienciais da Maçonaria, como sejam: Sabedoria, Força e Beleza, incarnadas pelas 3 Luzes Morais da mesma Maçonaria: o Livro da Lei (Bíblia, Alcorão, Vedas, etc., dependendo do Rito e do País), o Esquadro e o Compasso. O Livro porta a Sabedoria que é a Glória do Mestre Maçom. O Esquadro é a Força da Arte do Companheiro Maçom, transformando-se e transformando a Natureza como a mais digna e elevada das Artes, e por isso a Maçonaria também é chamada justamente Arte Real. O Compasso indica a Beleza contida na Ciência que gradualmente vai aprendendo o Aprendiz Maçom.

Agustí Querol compôs este conjunto escultórico em 1905 baseando-se em elementos da Mitologia Clássica greco-romana, sobretudo grega, para reflectir a visão global do Progresso (a ideia alegórica fundamental), tanto na sua vertente material e social como na mental e espiritual. O valor três, número caríssimo à Maçonaria, está presente no conjunto inteiro que se reparte em três partes, por sua vez em grupos de três figuras alegóricas cada um, cuja união cria um significado particular.

Tomando como referência as posições dos ditos grupos coroando o edifício do Ministério, o que está à esquerda de A Glória representa o Progresso material, socioeconómico. Uma figura feminina (a Agricultura) porta um arado na mão direita enquanto com a outra segura as rédeas do Pégaso (símbolo da velocidade ou rapidez em progredir) apoiado sobre as patas traseiras prestes a alçar voo. Nele está montada uma figura masculina (a Indústria) que estende o seu braço esquerdo exibindo um caduceu (atributo próprio do deus grego Hermes como o mesmo Mercúrio, o deus romano associado ao Comércio). Sob o cavalo alado vê-se um molhe de espigas de trigo e duas rodas dentadas, sendo as alusões respectivas da Agricultura e da Indústria.

No outro extremo e seguindo uma estrutura análoga à anterior, encontra-se a alegoria do Progresso espiritual, intelectual e literário. Também aqui é uma figura feminina (as Letras) a que está de pé junto a Pégaso (que também é símbolo da Poesia e da Inspiração mental) pelo lado exterior. Na sua mão sustém uma lira, objecto representativo da Poesia e do Canto. Sobre o cavalo que se apresenta numa postura semelhante ao do lado oposto, uma figura masculina (a Filosofia) alça o braço direito empunhando um ramo de louros, planta sagrada e solar do mesmo deus solar Apolo, a tradicional divindade da Sabedoria e da Luz ou Iluminação.

O terceiro grupo central já referido, é A Glória situada entre os dois Pégasos laterais. As três figuras que o integram são todas femininas, e isto vai bem com o significado cabalístico de Glória, que é um dos títulos dados à Grande Deusa Mãe a quem os judeus cabalistas chamam Shekinah e os cristãos identificam à Pessoa do Divino Espírito Santo. A figura central é a que dá o nome a todo o escultórico, adoptando a forma arquetípica da Vitória Alada, pois outorga os símbolos do triunfo às duas alegorias que a ladeiam: a Arte (direita) e a Ciência (esquerda). Os ditos símbolos são uma coroa de louros e um ramo de palma, que se entregavam aos vencedores dos Jogos Píticos de Delfos, na Grécia Antiga, em honra de Apolo. A Arte leva uma paleta de pintor na mão esquerda (alusão à Pintura) ao mesmo tempo que apoia o braço sobre um capitel coríntio (representação da Arquitectura), mostrando na mão direita uma estatueta (Escultura). A Ciência carrega na mão direita uma tocha acesa (emblema da luz do Conhecimento) e está apoiada num Globo Terrestre.

Agustí Querol parece ter recorrido às sete artes liberais, chamadas trivium e quadrivium, que marcaram a Idade Média e a Renascença, para a composição deste seu conjunto monumental no topo do Ministério, pois nele se apresenta a aritmética, a geometria e a harmonia das formas (trivium), vistas como teoria do número e aplicação da teoria do número, teoria da forma e aplicação da teoria da forma ao espaço (quadrivium).

 

AS ESCULTURAS MAÇÓNICAS DE MANUEL AYLLÓN

 

Como é sabido, o Pasillo Verde Ferroviário de Madrid foi construído entre 1989 e 1996. Ao longo dele, assim como nas praças e intersecções das ruas, aparecem vários símbolos esculturais idealizados pelo arquitecto e maçom Manuel Ayllón (Madrid, 1952) que relacionam a Arquitectura à Maçonaria.

Esses símbolos esculturais foram três obeliscos Lau-Deo, “Louvor a Deus”, situados no Parque de Santa Maria la Real de Nieva, na Praça de Ortega y Munilla e no cruzamento da Rua do Ferrocarril com o Passeio das Delícias. Foram realizados com aço oxidável, daí o seu aspecto oxidado. Parece terem sido dispostos de maneira estratégica na planta da cidade para configurarem um triângulo entre si, simbólico da Santíssima Trindade cuja Sabedoria, Força e Beleza é evocada na Terra pelo próprio obelisco, que na Maçonaria representa o Grande Oriente Eterno e assim mesmo o Sol Espiritual, razão porque era motivo de culto pelos povos antigos, particularmente pelos egípcios vendo nele o elo ligação com o Deus Sol a quem chamavam Per-Amen-Ra e assim o louvavam.

Outros símbolos esculturais foram cinco esculturas que representam os cinco sólidos platónicos ou os cinco elementos naturais que presidiram à Criação do Universo, segundo a antiga Filosofia Tradicional: hexaedro, associado pelos antigos platónicos e neoplatónicos ao Sol fixado no solo ou elemento Terra, estando esta escultura na Praça de Francisco Morano; icosaedro, relacionado à Lua e ao elemento Água, e que está no Parque das Peñuelas; tetraedro, em vibração simpática com Marte e o elemento Fogo, escultura que está na Praça de Ortega y Munilla; octaedro, em afinidade com Saturno e o Ar, estando a sua escultura na Praça de Santa Maria de la Cabeza; finalmente o dodecaedro, em empatia vibratória com Vénus e o elemento Éter, a quintessência da Natureza, postado no Passeio dos Melancólicos no cruzamento de Santa Maria la Real de Nueva e Jemenuño.

A relação dos cinco sólidos platónicos com os cinco elementos naturais – que a tradição hindu chama Tatvas com os respectivos nomes de Pritivi, Apas, Tejas, Vayu e Akasha – é estabelecida através do significado que os antigos filósofos e hermetistas davam aos contornos das figuras. Com efeito, os seis lados do hexaedro figurando o cubo, acabou representando a própria Terra, o elemento mais denso. As vinte faces do icosaedro marcado por esse número binário ou feminino, vieram a prefigurar o elemento Água, que desde Platão até ao início da Idade Moderna foi considerado como matriz de todos os metais, por estes se tornarem líquidos ao serem aquecidos. Ao tetraedro com quatro faces, a forma mais simples e “pura”, foi-lhe atribuído o elemento purificador por excelência, o Fogo. Às oito faces do octaedro, o Ar, por ser uma “oitava coisa” geradora de Vida, pois não se vive sem ar. Por fim, o dodecaedro com doze faces, inicialmente associado a um quinto elemento, o Éter, que os antigos chamavam o “Todo”.

Há duas formas de Éter presente no Ar (éter e névoa), três formas de Fogo (luz, chama e brasa), duas de Água (líquido e sólida, gelada) e uma de Terra. Como o icosaedro, o tetraedro e o octaedro têm todos faces triangulares, as partículas de fogo podem transformar-se em água e ar, e vice-versa, por recombinação das faces (mas a terra, de faces quadradas, e o quinto elemento, são imunes à transformação noutros elementos, antes servem de vasos e matriz aos mesmos).

Em termos da teoria dos elementos naturais, a característica de Platão está principalmente na forma como ele os hierarquiza. Se para Empédocles eles eram iguais em valor, agora formam uma escala que vai do instinto grosseiro ao espírito puro. Essa escala de quatro e cinco graus repete-se em tudo: elementos, indivíduos, formas de conhecimento, deuses, etc.

 Também chamados sólidos perfeitos, estes elementos platónicos são interpretados na filosofia maçónica como etapas iniciáticas destinadas a transformar o profano num Iniciado, o Aprendiz maçom num perfeito Mestre maçom, o que equivale a “sair da Treva para a Luz”, tal qual o Cosmo saiu do Caos, o Dia da Noite, e, neste particular de Madrid, parece que o escultor destas peças quis deixar o subentendido da própria cidade ter sido criada a partir destes cinco elementos universais, matriz de tudo e de todos.

Também da autoria de Manuel Ayllón, havia uma sucessão de colunas salomónicas que assinalavam os pontos quilométricos do Pasillo Verde Ferroviário, debaixo do qual passam os comboios. Inicialmente pensou-se fazê-las em mármore verde, porém, dado o seu custo elevado foram feitas em pedra artificial. Todas elas foram destruídas por actos de vandalismo e os seus restos levados para os armazéns municipais. Achavam-se no Parque de Atenas, no Passeio dos Melancólicos, na Praça de Francisco Moreno e nos cruzamentos da Rua Doutor Vallejo Nájera com as de Toledo, Arganda e Peñuelas.

Além de estarem postadas a guisa de assinalar uma ou várias linhas telúricas da rede geovital que mantém a vida urbana de Madrid, e que são representadas tradicionalmente pela cor verde, as colunas salomónicas retorcidas indicam essas duas tradicionais de bronze que estavam no portal de entrada no antigo Templo de Salomão, com os nomes hebraicos de Jakin e Bohaz, com os respectivos significados de “ele estabelecerá” e “na força”. As duas palavras reunidas significam: Deus estabelecerá na força, solidamente, o templo e a religião de que Ele é o centro.

Tradicionalmente, a coluna Jakin estava à direita do portal do Templo e simbolizava o Sol, sendo a sua cor negra ou vermelha, enquanto a coluna Bohaz postava-se à esquerda e indicava a Lua, sendo a sua cor tradicional branca ou verde. Na tradição hindu, Jakin e Bohaz aparecem como Jnana e Bhakti, ou seja, “Sabedoria” e “Amor” ou Devoção. Portanto, o Amor-Sabedoria que caracteriza os Grandes Iluminados, no Oriente chamados Bhante-Jauls, “Irmãos de Pureza”, não raro aparecendo nos seus nomes essas duas iniciais J. B., como, por exemplo, João Baptista, ou então Jesus Cristo nascendo e morrendo em dois lugares portadores das mesmas iniciais: Belém e Jerusalém.

As colunas tradicionais assinalam os limites do Mundo criado, os limites do mundo profano ou “fora do Templo” e do mundo sagrado ou “dentro do Templo, de que a Vida e a Morte são a antinomia extrema que tende para um equilíbrio final após o atrito ou conflito existencial que marca a vida de todos os seres vivos. Uma coluna não existe sem a outra, tal qual o calor sem o frio, a luz sem as trevas, etc., o que indica a acção das forças construtivas da Natureza em paralelo com as destrutivas, num perpétuo construens et destruens, ou seja, transformar as formas velhas e gastas em novas e mais perfeitas. Isto se vê em todo o ser vivo, constantemente num estado de equilíbrio instável, formado pela criação de células novas e a eliminação de células mortas. Igualmente, no plano social, as novas gerações não podem afirmar-se senão à medida que as antigas lhes cedem lugar.

Por esse sentido de trânsito dado às colunas, o escultor madrileno das mesmas teve a feliz intuição de postá-las junto à linha ferroviária, que é por onde transitam os comboios levando as pessoas de um para outro destinos, em transição permanente, tal qual o significado último desses pilares salomónicos.

 

ATENEO – CULTURA E ESOTERISMO

 

O Ateneo Científico, Literário e Artístico de Madrid é uma sociedade cultural privada inaugurada em 1884 por Antonio Cánovas del Castillo com o fim de estabelecer um movimento liberal em Espanha e assim defender a liberdade de pensamento e de expressão.

Essas pretensões estavam de acordo com a ideologia da Teosofia e da Maçonaria a quem pertencia a maioria do grupo fundador do Ateneo, tendo deixado provas dessa sua filiação um pouco por todo este edifício que, mesmo não sendo maçónico e igualmente o Ateneo, albergou distintos maçons que contribuíram para a História de Espanha, e particularmente de Madrid.

Até à Guerra Civil (1936-1939) o Ateneo exibia nas suas paredes quadros e pinturas com alegorias e símbolos alusivas à Teosofia e à Maçonaria, cuja maior parte foi eliminada após a Guerra devido à aversão do regime franquista por tudo quanto se relacionasse com aquelas. Mas outras foram poupadas após devidamente camufladas, como provam os trabalhos de restauração no edifício que vêm trazendo à luz várias dessas alegorias e símbolos, especialmente na zona da Galeria de Retratos, destacando-se a singular pintura que mostra a paleta de pintor com os instrumentos maçónicos do esquadro e maço.

Camufladas são também as portas secretas no edifício que à primeira vista iludem por parecerem parte da decoração, mas que levam a corredores secretos desembocando nos pontos mais imprevisíveis do Ateneo, que por isso é considerado “Casa Mistério” e “Labirinto dos Sábios” (Ateneístas), o que está assinalado na estátua da Vitória junto à escadaria que leva ao piso superior do edifício, obra de Agustín Querol apresentando o deus Mercúrio ou Hermes tendo na mão esquerda uma espada quebrada (significando a razão mental impondo-se à coação física) e na direita erguendo vitoriosa deusa Minerva ou Atena (donde Ateneo), padroeira da Sabedoria.

Os motivos herméticos repetem-se na pintura enorme do tecto do Salão dos Actos, onde se vê Hermes e Afrodite, simbólicos do Saber e da Moral, ladeando um Santo aureolado que poderá ser a fusão de ambos como Andrógino Perfeito. À volta desses personagens, vêem-se doze pinturas fechadas em círculo alegóricas tanto dos doze trabalhos de Hércules como dos doze signos do Zodíaco. No conjunto a pintura é muito perfeita e harmónicas nas cores e traços, assinalando com grande raridade e perfeição a união da doutrina teosófica com a simbologia maçónica.

Menos sorte teve a estrela de cinco pontas maçónica da mesa onde se celebravam os actos mais relevantes, as da escadaria, as da lâmpada mais significativa do edifício e as de outras menores que reproduziam em sua forma ogival ao logótipo do Ateneo, tendo sido destruídas durante os anos sessenta, como denunciou o diário ABC.

Além das pinturas de Mélida e de Karel Petrus Cornelius de Bazel (1869-1923), maçom e membro da Sociedade Teosófica Holandesa, no Salão dos Actos e no Salão Inglês, os próprios respaldares das cadeiras desta instituição, com estrelas de cinco pontas, recordam a filiação maçónica dos seus fundadores originais. Já a fachada do edifício apresentava a lâmpada da Sabedoria e as estrelas que posteriormente foram retalhadas para convertê-las em flores.

A sede desta Douta Casa madrilena no número 21 da Calle del Prado, obra dos arquitectos Enrique Fort e Luis Landecho, por sua relação estreita àquelas Sociedades Esotéricas e Iniciáticas, deu-lhe o sobrenome de Ateneo Teosófico (e Maçónico) de Madrid, sobretudo graças à acção profícua do grande polígrafo e teósofo dr. Mário Roso de Luna, sócio destacado do Ateneo, e de Manuel Azaña, maçom e político que foi Presidente da II República Espanhola.

A instituição contou também com um destacado círculo de teósofos dos quais alguns eram igualmente maçons de tendências progressistas, como Augusto Barcia, Prat, Fernando de los Ríos, Viriato Díaz-Pérez, Tomás Doreste ou o pintor Rafael Monleón Moret, que realizou, precisamente, algumas das pinturas que decoram o interior do edifício. Figura também o famoso maçom Doutor Simorra, médico alienista, de quem diziam que dava alta aos seus pacientes para ingressá-los no Ateneo, rumor que originou um sem fim de histórias curiosas e coloridas sobre a fauna ateneísta. Nesta figurava o teósofo e bibliotecário Rafael Urbano, especialista no Demónio, a quem Cansinos na memorável Novela de un literato descreve como “minúsculo, cetrino como um índio, com traza de fakir”, cujo velório se celebrou no Ateneo.

Hoje, o Ateneo é cenário habitual de reuniões, conferências e apresentações organizadas por distintas Lojas maçónicas, conservando o seu ar particular evocativo dos tempos em que os símbolos maçónicos e teosóficos saltavam claramente à vista.

O maior tesouro do Ateneo é a sua biblioteca. Conta, sobretudo, com obras do século XIX e princípios do século XX sobre todo o tipo de temas e em vários idiomas. Para entrar é preciso ser membro do Ateneo. Em casos especiais, pode conseguir-se um passe para um ou três dias.

 

O TEMPLO INICIÁTICO DE DEBOD

 

O Templo de Debod integra o conjunto monumental da Madrid insólita. Veio directamente do Egipto para Espanha, desmontado e remontado aqui, sendo inaugurado em 20 de Julho de 1972.

Com efeito, aquando da construção da barragem de Assuan, Egipto, e para salvar os templos da Núbia ameaçados de ficar submersos nas águas, em 1960 instituiu-se em Espanha o Comité Espanhol dirigido pelo professor e arqueólogo Martín Almagro Basch, que se encarregou de proceder à salvação, desmontagem e transladação para a ilha de Elefantina, junto a Assuan, do Templo de Debod. Em 1960 o Governo egípcio ofereceu ao Governo espanhol esse monumento, mas tendo os blocos de pedras ficado ainda em Elefantina até Abril de 1970, quando viajaram novamente, dessa feita rumo a Alexandria. No dia 6 de Junho desse ano, as caixas embaladas com os blocos foram embarcadas no navio Benisa e chegaram ao porto de Valência no dia 18 do mesmo mês, e daí foram transportadas em camiões até Madrid, onde ficaram armazenadas no edifício do Quartel da Montanha, donde depois foram trazidas para o Parque do Oeste onde hoje está.

O Templo de Debod possui sinalética arquitectónica e ilustrativa ou plástica que o integra na Tradição Iniciática ou Espiritual do Ocidente, facto que a Maçonaria espanhola reconheceu desde o primeiro momento identificando, por exemplo, as suas pinturas onde se vêem deuses e faraós dando as mãos como sendo a “cadeia de união”, rito que os maçons herdaram e representa a Fraternidade Maçónica, ou o espírito de entreajuda dos maçons. As colunas do Templo, dois pares, são igualmente associadas ao simbolismo da Força e do Equilíbrio como propõe a Grande Loja de Espanha. Igualmente correlaciona o Olho Alado do Deus Horus que está no santuário deste Templo, ao Olho da Divina Providência do Grande Arquitecto do Universo, e assim também os três corpos do imóvel aos 3 Graus Simbólicos da Maçonaria: Mestre, Companheiro, Aprendiz.

Tudo isso também porque a Maçonaria considera como a sua origem histórica o próprio Egipto ante e pós Dilúvio Universal, dando como data da sua fundação o ano 1370 a. C. quando o Faraó Amenophis IV ou Kunaton, juntamente com a Rainha Nepher-Tit, e os seus dois Ministros ou Colunas Vivas, Mirtaba e Morira, fundaram o culto solar ao Deus Amon-Ra, que tem o nome genérico, em termos actuais, de Rosacruz dos Andróginos (o mesmo casal solar ou iluminado), dizendo a Tradição Iniciática que foi fundada no interior da Grande Pirâmide de Keophs, no Vale dos Reis, onde houve a grande cidade de Heliopólis.

Por isso a Maçonaria considera o Antigo Egipto como Berço da Tradição Iniciática do Ocidente e considera muito bem instalado este Templo egípcio no lugar onde está: o supradito Parque do Oeste. Além disso, reforça o facto o etimólogo Maçonaria ter significado luminoso ou solar quando se o decompõe em Maha-Sun, “Grande Luz”. Também é facto que este Templo egípcio em Madrid vindo de Debod, pequena meseta da Baixa Núbia situada na margem oeste do Rio Nilo, mandado erigir no início do Século II a. C. pelo faraó Ptolomeu IV Filopator e depois mandado decorar pelo rei núbio Adijalamani de Meroe cerca de 200-180 a. C., era consagrado à Deusa Lunar Ísis, e ao Deus Solar Amon-Ra, igualmente identificado a Osíris, ou seja na Trindade Egípcia, a Mãe (Ísis) e o Pai (Osíris), os quais eram representados na Terra por Kunaton e Nepher-Tit. Horus (o Filho) também era cultuado neste Templo, possivelmente incarnado na figura divinizada de Im-Hotep que ocupa um lugar destacado no acesso ao santuário e cujas salmodias inscritas nas paredes são dirigidas a ele, tal qual ainda se vê nesta se reconstrução em Madrid.

Im-Hotep , o célebre arquitecto e médico de capacidades taumatúrgicas que viveu durante a III Dinastia do Egipto (até 2667-2684 a.C.), sendo até associado ao deus Thot que era o da Sabedoria, durante a época greco-romana foi identificado ao deus grego da Medicina, Asclépios. Neste Templo de Debod pode-se vê-lo hoje no registo inferior da parede norte na parte central do Templo, estando atrás do deus Thot no acto de purificar com a água vertida de uma vasilha kebeh o oficiante (faraó ou sacerdote) que entra no santuário, o que é comprovado pela inscrição anexa em hieróglifos egípcios:

“O sacerdote ritualista chefe, o escriba real, Im-Hotep, o grande. Palavras ditas por Thot, dando a volta a da uma das Duas Terras [Alto e Baixo Egipto]: Ele é quem vem àquele que o chama em todos os lugares.”

Os vários indícios presentes sugerem que neste Templo além das práticas ritualísticas teria havido as escolásticas ou de ensinamentos relativos àquelas, e isso se destinaria a elites ou eleitos naturalmente vocacionados para a vida espiritual. No Templo egípcio o povo só tinha acesso a determinadas partes do mesmo, ficando interdito o acesso ao santuário exclusivo dos sacerdotes.

O santuário era a expressão simbólica do Cosmos vivo, uma espécie de imago mundi destinada a reproduzir o momento criador do primeiro dia e a proporcionar, pela celebração dos ritos prescritos, a permanência e a renovação da criação original da vida, dos deuses, dos homens e de tudo quanto existe no Céu e na Terra. Por tais motivos a edificação dum templo egípcio nunca tinha o acabamento final, era com o Universo vivente objecto de uma constante ampliação, reedificação e modificação, que acrescentava constantemente ao núcleo central novas contingências, corredores, escadas e passagens numa espécie de ampliação e renovação semelhante à que experimentava o Mundo vivo que era a sua primeira referência.

O templo egípcio também era, naturalmente, o lugar onde residia a Divindade. Por esta razão, no seu interior havia todo o necessário para que o seu santuário fosse o lugar habitado pela manifestação do Princípio Divino que regia o Mundo e garantia com a sua presença permanente a ordem do Cosmos.

Por essa razão, em 1991 os investigadores deste Templo de Debod consideraram a possibilidade do seu santuário ter sido um mammisi, palavra de origem copta significando “lugar de nascimento”. É alusão ao lugar onde a Deusa Ísis venerada no Templo dava à luz, celebrando-se no dito santuário o “mistério do nascimento divino” do seu Filho Horus, simbolizado pelo Sol Levante a Oriente.

O Templo de Debod em Madrid está cercado um lago artificial, e também nisto os seus artífices madrilenos foram felizes. Com efeito, todos os templos egípcios incluíam, dentro dos seus recintos, uma alberca ou lago sagrado, normalmente alimentado pelas águas de infiltração do rio Nilo através das camadas freáticas. Este lago representava a existência das águas primordiais antes da Criação do Mundo e nele realizavam-se, além das abluções ou purificações rituais pelos sacerdotes, diversas cerimónias relacionadas com festas religiosas marcadas no calendário litúrgico dos antigos egípcios, uma delas a chamada Festa da Vitória, em referência à vitória do Deus Horus Vingador de seu Pai (Horendotes) sobre o Deus do Mal, Seth, que havia assassinado e esquartejado em 14 pedaços (que Ísis recolheu pacientemente) o Deus do Bem, Osíris.

O Templo de Debod é o maior do mundo que existe fora do Egipto, e o ser declarado “Bem de Interesse Cultural”, em Abril de 2008, alenta novas esperanças no tocante à sua conservação, esta que se tem mostrado débil e frágil ante a inclemência do tempo e dos homens.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Os Mundos Subterrâneos e a Profecia do Rei do Mundo – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Jun 17 2010 

PRIMEIRA PARTE

 

O termo Mundos Internos é uma expressão frequente na Sabedoria Iniciática das Idades. Utiliza-se, contudo, na maioria das escolas tradicionalistas que facultam uma preparação básica, para designar certos graus de interiorização da consciência alcançáveis especialmente através de práticas de meditação ou outras afins que levem ao mesmo resultado. No entanto, em algumas dessas mesmas escolas, nos seus graus mais avançados, o discípulo é instruído de modo a identificar e conotar a expressão de forma diversa. Conhecem-se indícios e afirmações que o demonstram sem que, todavia, se lhes dê dimensão e divulgação suficientes que permitam o seu inter-relacionamento e levem, só por si, à pesquisa e aprofundamento deste tema pelos que não se encontrem nos graus estipulados para o estudo dessas realidades.

Antanho e hoje, os discípulos integrados nos graus mais avançados de alguma das Confrarias Iniciáticas a que se afiliavam, à medida que se interiorizavam nos seus Mundos Internos da Alma, através de práticas espirituais estipuladas para o efeito, iam estabelecendo, por analogia simbiótica, um contacto mais íntimo e directo com as realidades interiores da Mãe-Terra, isto por o Sol Espiritual Interior (Atmã) do discípulo ser parcela individualizada (Jiva) do Grande Sol Espiritual que palpita no Centro do Globo, qual seja o Criador Único ante a criatura diversa.

Mas os “Mistérios da Terra Oca” eram uma inviolável da Sabedoria Iniciática das Idades, intransmissível a todos menos ao que a “lesse”, isto é, penetrasse a sua realidade pela Iniciação e consequente Iluminação, dando a morte antecipada a quem tivesse a ousadia de os divulgar prematura e publicamente, logo os profanando, não tendo nenhuma autoridade autorizada para tanto. Esta regra mantêm-se hoje mesmo, e por muito e impensável que aqui venha a escrever para o público geral, não tendo eu morrido, então é mais que prova cabal de estar autorizado a tanto!…

Autoridade concedida aos seus mais próximos pela maior eminência do assunto, ou seja, o Professor Henrique José de Souza, o principal promotor das verdades da “Terra Oca” e da realidade da mesma a quem a queira integrar ingressando o Caminho da Verdadeira Iniciação, o qual é, no fim de conta, o da transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência.

Todavia e apesar do silêncio cerrado envolvendo o assunto, o que é absolutamente compreensível atendendo a quanto está em jogo, um estudo atento da história das religiões e dos cultos através dos tempos, dá a perceber que sempre houve uma interrelação estreita entre a Humanidade aparente e uma outra ausente, melhor dita, oculta, escondida. É assim que se fala em homens misteriosos vivendo em não menos misteriosos castelos ou mansões plenas de enigmas (quase sempre de localização imprecisa), ou então em torres labirínticas em lugar incerto ou em grutas profundas de difícil ou impossível acesso, etc., etc., variando as narrativas de tradição para tradição local, mas todas de acordo quanto a situar esses Retiros Privados no interior de concavidades sitas num Norte mais magnético que geográfico!…

É assim que os textos sagrados hindus, o Mahabharata e o Ramayana, por exemplo, falam da “Guerra nos Céus” entre “os Filhos da Lua e os do Sol”, os Chendra-Barishads e os Surya-Agnisvattas, adiantando a tradição literária conservada nessa Biblioteca verdadeiramente planetária que é o chamado Mundo de Duat, como Alma da Terra, que isso tem sobretudo a ver com o estado andrógino do Homem Perfeito mas que era comum ao estado primordial da Humanidade, e que agora o comum homem imperfeito guerreia ou demanda no ciclo infindável da “Roda das Reencarnações”, ora como mulher (Lua), ora como homem (Sol), na meta fixa, primeiro inconsciente e depois consciente, de unir em perfeito equilíbrio as duas polaridades.

Ainda abordando as escrituras hindus, estas também referem a aparição de misteriosos engenhos voadores em diversas ocasiões, especialmente aquando das grandes bodas (místicas, sobretudo) dos maiores Reis e Condutores da Índia, a primitiva Ariavartha. Pode ler-se no Ramayana e no Drona Parva:

«As máquinas voadoras vimanas tinham a forma de uma esfera e navegavam no espaço devido ao mercúrio, que provocava um grande vento propulsor. Desta forma, os homens alojados nos vimanas podiam percorrer enormes distâncias num tempo maravilhosamente limitado. Os vimanas eram conduzidos segundo a vontade do piloto, voando de cima para baixo, para a frente e para trás, segundo a disposição do motor e a sua inclinação.»

Convém não esquecer que os textos védicos datam de 3.000 a 10.000 anos e que, como todos sabem, a aviação só começou a tomar forma definida ao início do século XX…

Mas em muitas outras obras ancestrais se depara com um sem-número de referências àquilo que os hindus apelidam de vimanas, os chineses poeticamente de dragões de fogo, e os mongóis de vaidorges. O Popul-Voh dos queshuas e as obras tibetanas Tantjua e Kantjua, não esquecendo a própria Bíblia, também se referem ao assunto, que deve ser encarado não da maneira fenoménica usual no “espiritualismo sensacionalista” mas com as bases que a Ciência Iniciática propicia, pois, em contrário, “é pisar um ninho de vespas”…

Aparição de vimana em antigo mural relevado de pagode hindu

O Tibete também possui o seu historial acerca dos Mundos Subterrâneos, dizendo-se que é aí, em vales maravilhosos acessíveis unicamente por passagens subterrâneas, que vive boa parte dos Mestres Ocultos da Humanidade, e ser daí que promanam as suas directrizes para a governação do Mundo. A extraordinária Helena Petrovna Fadeev Von Blavatsky fala disso, apesar dum tanto nebulosamente, nos seus fascinantes livros Pelas Grutas e Selvas do Hindustão e O País das Montanhas Azuis, e mesmo ao longo dos volumes de Ísis Sem Véu e A Doutrina Secreta são vastas as referências aos Mahatmas e Lamas Perfeitos da Índia e do Tibete, como também às guptas lokas, isto é, “criptas secretas” que levam ao País de Shamballah, esta cuja existência é a base doutrinal do Kala-Chakra Tantra, obra antiquíssima do Budismo Tibetano.

Desenho de H. P. Blavatsky mostrando um templo subterrâneo

Posteriormente Charles Webster Leadbeater, o famoso teósofo, também referiu o interior da Terra e ao seu Centro como Laboratório do Espírito Santo, e igualmente as Bibliotecas ocultas no interior de vastas cavernas, nos seus livros Os Chakras e Os Mestres e o Caminho.

O grande viajante e ocultista russo, Ferdinand Ossendowsky, do início do século XX, no seu livro Animais, Homens e Deuses fornece um importante relato da ligação dos dignitários superiores do Clero Lamaísta com o Rei do Mundo e o Reino de Agharta, vindo confirmar o que dissera antes, no século XIX, o Marquês Saint-Yves d’Alveydre na sua Missão da Índia na Europa, sobre o “Colégio de Agharta” e os “Templários de Agharta”.

Precioso testemunho igualmente o dá esse outro explorador russo do começo do século XX, Nicholas Roerich, no seu valoroso tomo Shamballah, a Resplandecente.

N. Rerich no Tibete com a Bandeira ou Tanka de Shamballah

René Guénon, baseado nos testemunhos de Saint-Yves e de Ossendowsky, escreveu a meio do século passado uma obra tanto interessante como importante levando de título O Rei do Mundo, mas temendo dar forma viva ao símbolo estático em repúdio aberto à Teosofia, esquecendo ou ignorando que os autores em que se baseou eram… teósofos, um ligado a Loja inglesa e outro a Loja russa. Seja como for é obra que merece ser consultada, tanto que o próprio Professor Henrique José de Souza a traduziu da língua francesa com comentários seus.

Também a meio da centúria transacta aparece um Mestre Tibetano, Djwal Khul Mavalankar, ditando informações a uma sua condiscípula, Alice Ann Bailey, fundadora da Escola Arcana, com bases claramente teosóficas de cuja Sociedade ela saíra, falando ele dum modo discreto mas claro de comunidades subterrâneas, principalmente nas obras, assinadas pela autora, Iniciação, Humana e Solar, Tratado sobre Magia Branca e Tratado sobre o Fogo Cósmico.

Já referi os testemunhos de H. P. Blavatsky, de Ossendowsky, de Saint-Yves d´Alveydre (iniciado em 1885 por um “misterioso emissário” que dizia ser príncipe afegão e chamar-se Hadji Scharipf), de Roerich, de Leadbeater, de Guénon e de D. K. – A. Bailey. Poderei ainda apontar as referências aos Mundos Subterrâneos pelo Mestre Koot Hoomi Lal Sing na obra Cartas dos Mahatmas, Carta IV, e pelo ocultista Papus no seu Tratado Elementar de Ocultismo. Já o grande Ateneísta ibérico Mário Roso de Luna, com a sua eloquente intuição e clarividência, desvela páginas maravilhosas do Mundo Jina em seu Libro que Mata a la Muerte o El Libro de los Jinas, este que era o seu livro de cabeceira onde “encontrava sempre coisas novas”, como confessava ao seu Mestre Henrique José de SouzaEl Cabrero (o Caprino ou Kumara), como o apelidava respeitosa e reconhecidamente, tanto mais que sabia ser o seu 7.º Filho Espiritual e Membro N.º 7 da Sociedade Teosófica Brasileira.

Também o rosacruciano Raymond Bernard fala dos seus encontros com os Mestres Soberanos do Mundo em lugares secretos ou criptas ferratas da Europa, inclusive em Lisboa e arredores, nos seus livros Encontros Insólitos e As Mansões Secretas da Rosacruz. Igualmente o esoterista Omraam Mikhael Aivanhov falou em diversas palestras suas do Reino de Agharta, segundo indicou a sua discípula Agnés Lejbowicz. E Peter Deunov, fundador da organização espiritualista “Fraternidade Branca Universal”, na Bulgária, também se referiu a esse Mundo Interdito em vários livros seus: O Mestre Fala e A Palavra da Augusta Fraternidade Universal, onde alude à Irmandade Secreta dos Senhores do Sol.

Nos círculos adiantados da Maçonaria Especulativa, oficialmente fundada em 1717, há um Grau que merece particular atenção por ter a ver com este tema: trata-se do 30.º Grau do “Ilustre Chefe Grande Comendador da Águia Branca e Negra, Grande Eleito Kadosh”. Este Grau relaciona-se com a “Pedra Cúbica” Kah´Bah disposta ao Norte da Loja dos Soberanos Kadosh, o que indica o trabalho directo com as Forças Primordiais ou Polares da Terra, e por Pólo se subentende a Agharta Primordial, na linguagem cifrada dos hermetistas ocidentais. Mais ainda: este Grau é auspiciado por Júpiter e por Saturno, o que dá a conjunção planetária Asga-Laxa, donde os Kadosh ou Sabaoth herdam o nome e a “Escada d´Ouro” a Oeste da Loja, necessária para descer (hoje tão-só de maneira figurada e, vale dizer, não raro desfigurada) ao mundo ctónico de Saturno e realizar o Shabattai ou Sabat, a “Festa da Luz” promanada do mesmo Júpiter a Saturno, seu aspecto inferior ou interior.

Com efeito, a águia bicéfala, simbólica deste Grau, era atribuída pela Antiguidade clássica a Júpiter pelos romanos e a Vishnu pelos hindus. A “Escada d´Ouro” do Kadosh (do hebreu, “consagrado”) está adiante de Tsedek (em hebreu, “Justo” e “Júpiter”), sendo, pois, o lugar ocidental por onde se desce, e sendo a descida ao mesmo tempo uma subida, sim, desce o corpo de consciência subida, elevada, e para tanto serve a “Escada d’ Ouro”, metal do Sol, designativa da verdadeira Iluminação. Por isto, os Kadosh são os Príncipes Sabaoth ou os Principais expressivos da Divindade no Seio mesma da Mãe-Terra. Muito mais poderia ainda dizer, mas creio que o que aí está já basta, principalmente para quem, hoje em dia, se apregoando muito maçom, em boa verdade de Maçonaria raramente sabe coisa alguma…

Júpiter tem ainda a ver com Portugal e essa misteriosa Plêiade Jina no Passado agregando-se em São Lourenço dos Ansiães, Trás-os-Montes, como Milícia Secreta ou de Sigilo sob o nome Ordem de Mariz, os mesmos “Barões Assinalados” por Camões em Os Lusíadas.

Já na tradição alquímica medieval o seu maior mistério é aquele ocultado na fórmula VITRIOL (cuja sete iniciais são as da frase latina Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem – “Visita o Interior da Terra, rectificando descobrirás a Pedra oculta”), adoptada como sigla para santo-e-senha pela Maçonaria do século XVIII.

Paracelso denominava o Vitriol de “Panaceia Universal” e Basílio Valentim associava-o ao terceiro princípio, o “Sal Rectificado” ou passado pelo lume brando do athanor ou forno filosófico. É a Matéria Purificada pelo Fogo do Sol Central da Terra, esse mesmo “Laboratório do Espírito Santo” da Tradição Iniciática das Idades. Aliás, Henrich Kunrath, no seu Amphitheatrum Sapientiae Aeternae, ilustra em doze figuras que o Vitriol só será realizado quando o candidato transpuser a Mina da Vida (Vitae Mina, donde “Vitamina”), deixando para trás o medo e a dúvida, e chegar finalmente à “Cidadela da Alquimia”, ela mesma soerguida no ventre lapidar da Mater-Rhea ou Mãe-Terra como Matéria, como corporificação do Terceiro Logos ou Espírito Santo.

Consequentemente, ao contrário do que hoje muitos julgam, a “descida maçónica” ao “Interior da Terra” não é somente o confronto psicológico com o subconsciente, pois tal é uma condição puramente profana e até exterior, o que desdiz tanto a Tradição Iniciática quanto o sentido original que lhe conferiram os próprios progenitores da Maçonaria Especulativa, sob a direcção invisível dos seus Superiores Incógnitos.

Esse Vitriol alquímico identificado ao Azoto ou “Mercúrio” dos Filósofos, é a Luz Astral dos Magos, o Fluído Etérico dos Ocultistas, a Luz Akáshica dos Orientais, o Vril referido pelo Rosacruciano Bulwer Lytton no seu livro consagrado aos Mundos Subterrâneos, A Raça Futura, como o mesmo Mash-Mask dos Atlantes. É esta Energia Vital a “Alavanca de Arquimedes” que faz mover o Universo e… os vimanas dos Mundos Interiores. É esta Energia, direccionada pelo Pensamento (Vril+Manas…), quem abre o Portal do Mundo Jina ao selecto Peregrino da Vida. Sem ela, sem a sua justa conquista e controle interno-externo, afirmo que é infrutiferamente tempo perdido e mais que isso, perigosamente gasto!

Enfim, são muitos os testemunhos da realidade dos Mundos Subterrâneos que a Tradição Iniciática das Idades reconhece e logo dá avalo (por haver meios para o fazer…), mesmo que a Ciência oficial, ou seja, a Academia intelectualmente preconceituosa, teime na pretensão de conhecer melhor a crosta lunar, cadáver psíquico da Terra, que o Globo em que todos vivemos, indo limitar-se a teorizar, por vezes usando de experimentalismo sobre experimentalismo logo à partida viciado por teorias preconcebidas, geralmente redundando em erros sobre desenganos, assim cometendo as maiores “barbaridades” que vulgariza por meio dos manuais de carteira, e para as quais não faltam exemplos, como o de não saber destrinçar correctamente a ambiguidade da duplicidade magnética/geográfica das calotas polares, situando com exactidão a sua posição, como ainda não saber explicar o que têm a ver as auroras boreais com os pólos magnéticos, as embocaduras que se abrem periodicamente nos pólos geográficos por influência da cintura magnética do subsolo e do núcleo central da Terra, coisas que não sabe explicar devidamente… como também não sabe ou não quer saber ou, pior ainda, não deixa saber um número infindável de outros factos capazes de darem um entendimento mais exacto do Mundo em vivemos. Mesmo assim, a Ciência Iniciática nunca deixou de apelar à sua ensurdecida e desavinda filha, a Ciência Académica, demonstrando hoje e sempre que, afinal, nos “absurdos” preconceituosos do racionalismo dialéctico está, como sempre esteve, a solução, a luz.

Foto feita pela NASA mostrando a dilatação da calota polar

Com tudo, ainda assim abundam por todo o Mundo alusões a uma misteriosa Civilização Intraterrena. Se toda a tradição asiática faz referência à Asgardi dos tibetanos, como o mesmo Asgard dos Edas dos povos eslavos, e à Ermedi dos mongóis, se nos Vedas hindus se menciona Hemâdri, a Montanha de Ouro, se as escrituras persas a citam como sendo a Alberdi ou Aryana-Vaejo e os hebreus como a Canaan, igualmente os povos do Novo Continente faziam referências frequentes à Cidade Sagrada, oculta, morada original donde dimanavam ciclicamente os Grandes Iluminados e Renovadores da Humanidade, os Manco-Capacs, os Bochicqs, os Quetzal-Coatls, os Viracochas, os Sumés, os Osíris, os Budas, os Cristos, os Lao-Tseus, os Zoroastros, enfim, os Supremos Instrutores de todas as raças e em todos os tempos. Os aztecas referenciavam-na como a Tulân, os mayas como a Maya-Pan, a cidade que os conquistadores espanhóis, mais tarde, procuraram freneticamente na miragem do ouro, o El-Dorado, que os autóctones chamavam de Manoa, a cidade dos tectos de prata cujo rei usava vestes de ouro.

Ela é o País de Tertres, a pátria de Lug, o Iniciador de face resplandecente dos Celtas e Lusitanos e Herói dos Tuatha de Danand, estes que um dia, tão subitamente como tinha vindo da Ibéria à Hibérnia, a Irlanda ou verde Terra de Erim, abandonaram esta de regresso a Duat, à região misteriosa. É tanto a Cidade dos Doze Ases dos Edas escandinavos quanto a Ilha de São Brandão dos argonautas lusitanos, como a Shamballah transhimalaia ou a mesma Walhallah germânica, em quem Richard Wagner se inspirou para compor as figuras de Parcifal e Lohengrin, heróis cuja Pátria inacessível era o Mons Salvat, em cujo pico estava o templo guardião do precioso cálice, o Santo Graal, algures nos confins do Ocidente, junto ao mar oceano, portanto, nos confins da Ibéria…

E é assim que em todo o ciclo literário da Bretanha, ou Arturiano, perpassa o sentimento de nostalgia pela Belovedye, a Bela Aurora, Pátria dos Galaazes imortais e aspiração suprema na demanda do Santo Vaso.

«Adeus, Belovedye, parto para a terra onde não cai granizo, onde não chove, onde não existe a doença nem a morte, para o país da eterna juventude.» – diz o Rei Artur, despedindo-se de um dos Cavaleiros da Távola Redonda.

Na tradição cristã, são inúmeras as referências a Agharta, palavra páli significando “Terra da Suprema Bem-Aventurança”. Quem não se recordará das famosas epístolas de São Paulo, conforme o texto grego: Agharta-al-Ephesim, Agharta-al-Galatim, Agharta-al-Romin, isto é, de Agharta aos Efésios, de Agharta aos Gálatas e de Agharta aos Romanos…

Sempre a misteriosa Mansão dos Eleitos cuja memória ou inconsciente colectivo da Raça retém como exigência primordial e necessária, postulada à sobrevivência do seu próprio ser. Daí a permanência do Mito em toda a Europa face ao lendário Reino do Pai ou Preste João, já que frequentemente considerado na sua dupla função de Rei e Sacerdote, como símbolo e realidade, mas jamais surpreendido em seu enigma profundo, fugidio, pois está localizado no seio mesmo do Terra, no Sanctum-Sanctorum da mesma, como Aquele a quem Abraão tributou o seu dízimo e rendeu culto celebrado com vinho e pão – Melki-Tsedek, o Ancião dos Dias, sem genealogia terrena.

Pintura grega antiga mostrando uma cidade subterrânea

Mas foi sem dúvida a insigne figura magistral do Professor Henrique José de Souza quem mais e melhor aprofundou e desvelou o tema dos Mundos Subterrâneos, em seu livro A Verdadeira Iniciação, em inúmeros artigos publicados na revista Dhâranâ – órgão oficial da Sociedade Teosófica Brasileira – e, sobretudo, no material reservado que compendiou em forma de Livros de Revelações para os membros mais adiantados do seu Colégio e os da Ordem do Santo Graal, que ele (re)fundou no dia 28 de Dezembro de 1951 como o Grande-Ocidente Ibero-Ameríndio.

Segundo a tese de Henrique José de Souza, de resto confirmada pela antiquíssima tradição inserta, por exemplo, no Vishnu-Purana, através do diálogo metafórico entre Parasava e Maitri, o Globo terrestre divide-se em três zonas diferenciadas e dispostas concentricamente, ainda que se deva compreender esta distinção mais quanto ao nível relativo à evolução da consciência do que ao aspecto geológico propriamente dito.

Verifica-se uma dada correlação entre os diversos estratos nos quais se situam os vários universos hominais e os seus níveis de evolução respectivos. Há como que uma convergência que vai do mais externo para o mais interno. Quanto mais o mundo está interiorizado, mais elevado se apresenta o seu padrão evolucional, mais privilegiado o nível das suas instituições culturais, sociais, científicas e tecnológicas. Por isso, a Humanidade evoluindo à face da Terra constitui o núcleo menos civilizado.

Um pouco por todo o planeta, entre o mundo exterior e o mundo interior, indo até 60-90 km de profundidade, situa-se o Mundo de Badagas: é uma zona intermediária que tem o nome de um povo Sedote o qual, como os Todes, Xavantes, Jívaros e outras tribos, guarda as Embocaduras para os Mundos Interiores.

Badagas é um Mundo já muito superior ao da superfície caracterizando-se, contudo, pela tónica do desenvolvimento tecnológico, o que mais surpreende o visitante vindo de cima.

De Badagas, onde estão instalados os Retiros Privados dos Adeptos Perfeitos da Humanidade e as verdadeiras Moradas físicas das 7+1 Ordens Iniciáticas secretamente dirigindo o Mundo, dentre elas a de Mariz, no todo perfazendo a Grande Fraternidade Branca reunida na Capital deste mesmo Mundo Subterrâneo, Meka-Tulan, dizia, de Badagas tem-se acesso ao Mundo de Duat onde se encontram Seres ainda mais espiritualizados, parte dos quais possui fisiologia semelhante à do homem da superfície. E se o visitante da superfície tiver o privilégio de deslocar-se a Duat, primeiro terá de passar um período de treino e preparação de cerca de três meses em Badagas, para que o seu veículo de consciência não sofra perturbações irremediáveis.

Faço agora um pequeno interregno para demonstrar o mais que óbvio: a descida ao Mundo dos Deuses não é coisa fácil nem acessível a qualquer um por muito douto e instruído em espiritualidade que acaso seja, e muitíssimo menos é comparável às facilidades de viajar de metropolitano, seja física, seja emocional, seja mentalmente! Não. Tal implica Iniciação Real e, em boa verdade, só um Chrestus, um Arhat se poderá vangloriar de tal… Quanto ao resto, tampouco comento, e só voto que os meus eternos plagiadores não venham a induzir outros menos avisados em maus e perigosos caminhos a que fantasia desregrada, ausente de conhecimento verdadeiro, leva. Posto isto, resta-me prosseguir a descrição geral e genérica do Mundo Jina, por motivo exclusivamente didáctico e reservando-me de enunciar outros pormenores de teor mais reservado.

Em Duat existem imensas Bibliotecas e Museus impressionantes, contendo todo o tesouro literário e artístico dos ciclos anteriores. Essas Bibliotecas subterrâneas são acessíveis apenas a certos Iniciados, e somente Senhor do Mundo e os seus principais Acessores (Rigden-Djyepo e Polidorus Isurenus – Mama Sahib) detêm a chave total do catálogo dessa Biblioteca verdadeiramente Planetária. É aqui que se encontram os Devas-Lipikas, os Senhores do Karma Planetário, que como Excelsos Escribas (Lipika quer dizer isto mesmo em sânscrito, “Escriba”) registam todos os actos, pensamentos e palavras no Livro das Vidas, o Kamapa, conforme os ensinamentos do Venerável Mestre JHS. Os registos daqueles que se encontram na Corrente Iniciática são conservados no Livro das Consciências, o Manapa, em posse dos Divinos Maharajas, os Senhores do Karma Universal.

O Mundo de Duat é constituído por sete enormes anfractuosidades subterrâneas que se ligam a uma oitava central por enormes galerias. Nessa última encontra-se a sua Capital e Templo Supremo de nome Caijah, frequentado por Cavaleiros trajando de dourado e Damas de azul. Caijah, ligado directamente em linha vertical ao Templo de Maitreya, em S. Lourenço, representa em Duat o Oitavo Princípio ou Atmã Universal.

Mais interiorizado ainda está o Mundo de Agharta com as suas sete Cidades chamadas Dwipas, governadas pelos Santíssimos Sete Reis de Edom ou do Éden, que é ela mesma. Como se fora um Oitavo Chakra, a sua Oitava Cidade e Capital é Shamballah, governada pelo Rei e Senhor do Mundo, o Soberano, o Eterno Jovem das 16 Primaveras – Sanat Kumara, apoiado lateralmente por seus dois Ministros da Pax e da Lex. Esse é o Mundo do Silêncio Móvel, onde só aquele que por direito próprio tem assento no Conselho do Rei, pode morar. Daí o dizer-se que é a Morada dos Deuses, o Reino dos Imortais.

Três dos Dwipas de Agharta relacionam-se com a evolução passada do Homem, outros três com a sua evolução futura, e um quarto com o seu actual desenvolvimento, e é por isto que Agharta é o “Celeiro das Civilizações e das Mónadas, ou Civilizações Monádicas”, no dizer de JHS. De maneira que no momento em que o Iluminado da superfície se une aos seus Princípios Superiores, de imediato se liga aos Princípios Superiores do Logos Planetário e se transporta ao Mundo de Agharta, na qual esses mesmos Princípios Divinos estavam como “Sementes em sono paranispânico, paranirvânico ou monádico” no seio mesmo do Divino Logos, e daí os ir “resgatar” para manifestá-los à superfície como Iluminado Perfeito, para sempre e ininterruptamente mantendo a sua Consciência Imortal ligada à mesma Agharta. Este é o estado puro de Jina, de Génio divino. Donde o paradoxo aparente da descida ser simultaneamente uma subida… consciencial.

Nos subúrbios de Agharta existem cinco milhões de Dwijas e Yoguis, Sábios e Místicos montando guarda ao Reino possuidores dos 8 Poderes Místicos e Mágicos, antes, Teúrgicos da Yoga, com os quais soerguem uma muralha intransponível de forças cósmicas que só os Eleitos no mesmo diapasão vibratório conseguem transpor. Seguem-se os cinco mil Pundits, Panditas ou Pandavan, o Corpo de Instrutores, correspondentes ao número de raízes herméticas da Língua Védica, ou melhor, Devanagari. Depois destes e mais para centro estão os 365 Bagawandas, Cardeais, representando os Génios dos dias do ano. Os 12 Membros do Círculo Supremo, os Goros, relacionam-se, entre outras coisas, com as 12 Hierarquias Universais representadas pelos signos do Zodíaco. 

Muito mais haveria para dizer, mas creio já ter dito o suficiente… tanto mais que o Mistério ao Silêncio obriga. Só por Iniciação a Revelação completa é conferida.

Todavia, o conhecimento e divulgação dos Mundos Subterrâneos é indispensável, pois, no contexto da crise mundial hoje em dia varrendo todos os continentes, os Seres interiorizados têm um papel fundamental a desempenhar, os Discípulos de Aquarius têm de os expressar, trabalhando em grupo harmonicamente coeso, a fim de que se cumpra o Desígnio Divino na face da Terra. Como tal, é de suma importância que sejam lançadas sementes de forma a criar novas ideias, capacitando-nos para acções e modos de encarar os problemas de forma diversa da usual, profana, comprovadamente falível e falida em todos os sectores da vida humana, a começar pelo educacional.

Tanto mais que a Nova Vinda do Cristo, o Avatara de Aquarius, MAITREYA, está intrinsecamente ligada a este tão sublime quão sibilino tema onde, à face da Terra, Portugal e Brasil jogam papel preponderante na realização da Sinarquia Universal, que é dizer, a Concórdia Universal da Humanidade.

Só unida a Humanidade vencerá nesta derradeira Batalha de Tomada do Facho da Luz, do Tosão de Ouro, enfim, do Santo Graal.

Spes messis in semine (a esperança da colheita reside na semente).

Lance-se, pois, as sementes em solo bem adubado, a fim de que floresça plena a Nova Era e o Reino do Pai se dissemine por todo o Orbe.

ADVENIAT REGNUM TUUM

AT NIAT NIATAT

 

SEGUNDA PARTE

 

Passo a transcrever o capítulo “O Mistério dos Mistérios – O Rei do Mundo” do livro Animais, Homens e Deuses, de Ferdinand Ossendowsky, narrativa da vivência do autor, em fuga ao bolchevismo soviético em 1920-1922, na Mongólia e no Tibete junto das mais altas dignidades do seu clero, estando o texto devidamente anotado e comentado no final por mim. Repare-se que o que o Rei do Mundo profetizou há mais de 100 anos está se cumprindo integralmente nos dias d´hoje. Isso traz-me à memória uma outra Profecia do Rei do Mundo, feita em 1962, referente a Portugal e Espanha, que diz em termos bem fatais: «PORTUGAL e ESPANHA, por si sós, já de há muito foram condenados, por sua responsabilidade como Países da origem da Nova Civilização, principalmente, para nós, PORTUGAL. A ameaça para este pode chegar até a uma convulsão cósmica, por meio de um TERRAMOTO em Lisboa, como já o teve há muito anos»…

Essa Profecia fatídica do Rei do Mundo (Melki-Tsedek) respeitante a Portugal, cumpriu-se como sismo geológico e político. Com efeito, em 1968 chuvas torrenciais inundaram o País causando milhares de mortos, feridos e desalojados, o que a propaganda política, censora, centrípeta ou tamásica de Salazar noticiou como caso de “somenos importância”, mas que foi consequência kármica da proibição pelo ditador da divulgação e expansão da Obra de JHS em Portugal, perseguindo os seus membros, chegando a prender vários deles, de maneira que esse caudal fatal foi o eco inverso, catastrófico ou destrutivo do construtivo da Montanha Aquosa (APAVANA-DEVA – Fohat = Akasha – Apas) de Itaparica, em 1899. Logo no ano seguinte, 1969, um fortíssimo tremor de terra, quase redundando em terramoto, abalou o País de Norte a Sul, causando inúmeros estragos e vítimas, e que foi o eco inverso, catastrófico ou destrutivo do construtivo da Montanha Rochosa (MITRA-DEVA – Kundalini = Tejas – Pritivi) de São Lourenço, em 1921. A queda do regime político repressivo salazarista, a consequente abertura do País ao Mundo e a divulgação e expansão livre da nossa Obra em Portugal, a partir de 25 de Abril de 1974, o que tudo redunda em acção sátvica ou centrífuga (VAYU em acção, como PRANA expansivo, numa fusão harmónica ou equilibrada de Fohat – Kundalini) permanentemente alimentada por toda a nossa acção Cultural-Espiritualista no País, veio a afectar positivamente no ano imediato de 1975 a vizinha Espanha do regime ditatorial de Franco, que viu a sua queda e extinção, vindo assim permitir que a Profecia do Rei do Mundo ainda não se realizasse em proporções maiores, dantescas. E, causalidade das causalidades, esta mesma página escrita às 5 horas da madrugada de 29 de Dezembro de 2005, agora mesmo a terra acaba de tremer em Portugal, ainda que por escassos segundos mas de maneira bastante sensível. Mais uma prova incontestável de que não há fantasia ou quimera nas palavras proféticas do Rei do Mundo. O Munindra que medite…

 

O REINO SUBTERRÂNEO

 

– Parem! – murmurou o meu guia mongol num dia que estávamos atravessando a planície perto de Tangan Luk. – Parem!

Deixou-se cair do lombo do camelo; este logo se deitou sem que fosse necessário dar-lhe ordem.

O mongol levantou as mãos à altura do rosto em sinal de oração e começou a repetir a frase sagrada:

– Om Mani Padme Hum (1).

Outros mongóis também desceram de seus camelos e começaram a rezar.

“Que será que aconteceu?” – perguntava a mim mesmo enquanto observava em minha volta o verde brilhante do capim que se estendia até ao horizonte, onde um céu sem nuvens recebia os últimos raios do sol.

Os mongóis rezaram durante algum tempo, conversaram entre si, e depois de apertar os arreios dos seus camelos, prosseguiram a viagem.

– Você notou como os camelos remexiam as orelhas de medo – perguntou-me o mongol – e como a manada de cavalos na planície ficou imóvel? Você viu que até os carneiros e outro gado se deitaram no chão? Você notou que as aves pararam de voar, as marmotas pararam de correr e os cães emudeceram? O ar vibrava suavemente e trazia, de longe, as notas de uma canção que penetravam no coração dos homens, dos animais e das aves. O céu e a terra não se movem, o vento não sopra e o sol pára a sua trajectória; num momento como esse, o lobo, que se está aproximando sorrateiramente dos carneiros, não continua no seu propósito de rapina, o rebanho de antílopes apavorados pára a sua fuga precipitada; a faca cai da mão do pastor que está para sacrificar a ovelha, e o voraz arminho deixa de perseguir a confiante perdiz salga. Todos os seres vivos ficam assustados e rezam, esperando que se cumpra o seu destino. Foi o que aconteceu agora. É o que acontece toda a vez que o Rei do Mundo, em seu palácio subterrâneo, reza procurando saber o destino dos povos da Terra.

Assim falou o velho mongol, que era um simples pastor sem cultura.

A Mongólia, com as suas montanhas terríveis e nuas, as suas planícies imensas cobertas pelas ossadas esparsas dos seus antepassados, é o berço de um mistério. O seu povo, apavorado pelas tempestuosas manifestações da Natureza ou acalentado pela sua quietude de morte, sente a profundeza desse mistério. Os Lamas amarelos o conservam e o celebram poeticamente, os Pontífices de Lhassa e de Urga conhecem a sua explicação.

Durante a minha viagem pela Ásia Central tomei conhecimento disso, pela primeira vez, o que não posso chamar de outra forma: o Mistério dos Mistérios. No início não prestei realmente muita atenção, porém percebi em seguida o quanto era importante quando comparei e analisei alguns testemunhos esporádicos, que algumas vezes estavam sujeitos a controvérsias.

Os anciãos das margens do Amyl contaram-me uma lenda antiga a respeito de uma tribo mongol que, querendo fugir das exigências de Gengis Khan, foi esconder-se num país subterrâneo. Mais tarde, um soyote dos arredores do lago de Nogan Kul mostrou-me a porta, envolta em neblina, pela qual se vai ao Reino de Agharta. Por essa porta um caçador penetrou outrora no Reino, e quando voltou contou tudo o que viu. Os Lamas cortaram a sua língua para que nunca mais falasse do Mistério dos Mistérios. Quando ficou velho voltou à entrada da caverna e desapareceu no Reino Subterrâneo, cuja memória tinha alegrado imenso o seu coração de nómada.

Recebi informações mais minuciosas pela boca do Hutuktu Lelyp Djamarap de Narabanchi Kure. Ele contou-me a história da chegada do Rei do Mundo quando saiu do seu Reino Subterrâneo, a sua aparição, os seus milagres e as suas profecias. Compreendi então, pela primeira vez, que detrás dessa lenda, dessa hipnose, dessa visão colectiva, da forma como ela seja interpretada, ocultava-se não somente um mistério, mas uma força real e soberana que tinha a capacidade de influenciar a vida política da Ásia. Foi a partir desse instante que comecei a fazer as minhas pesquisas.

Pintura tibetana mostrando o Rei do Mundo em Shamballah

O Lama Gelung, favorito do príncipe Chultun-Beyli, e o próprio príncipe descreveram-me o Reino Subterrâneo.

– Neste mundo – disse-me Gelung – tudo está em perene estado de transição e mudança: os povos, as religiões, as leis e os costumes. Quantos impérios, quantas brilhantes civilizações já desapareceram! Só não desaparece o Mal, instrumento dos maus espíritos. Já faz mais de seis mil anos que um santo homem desapareceu com toda uma tribo no interior da Terra e nunca mais reapareceram na superfície. Depois disso, porém, muitas pessoas já visitaram esse Reino. Sakia Muni, Undur Gheghen, Paspa, Baber e muitos outros estiveram lá. Ninguém sabe onde realmente ele se encontra. Alguns dizem que é no Afeganistão, e outros que na Índia. Todos os homens daquela região estão protegidos do Mal, e o crime não existe no interior de suas fronteiras. A Ciência conseguiu desenvolver-se ali com inteira tranquilidade, não havendo ameaça alguma de destruição. O povo subterrâneo alcançou os mais altos graus da Ciência. Agora é já um grande Reino que tem milhões de súbditos governados pelo Rei do Mundo. Ele conhece todas as forças da Natureza, lê em todas as almas humanas e no grande Livro do Destino. Ele reina, invisível, e mais de oitocentos milhões de homens estão prontos a executar as suas ordens.

O príncipe Chultun Beyli continuou a explicação: – Esse Reino chama-se Agharta, e estende-se por todas as passagens subterrâneas do mundo inteiro. Eu ouvi quando um sábio Lama chinês disse ao Bogdo Khan que todas as cavernas da América são habitadas pelo antigo povo que desapareceu debaixo da Terra. Existem ainda vestígios seus na superfície. Esse povo e esse domínio subterrâneo são governados por chefes que reconhecem a soberania do Rei do Mundo. Nisso não há nada de extraordinário. Você sabe que nos dois maiores oceanos do Leste e do Oeste haviam noutros tempos dois continentes (2). Eles foram engolidos pelas águas, mas os seus habitantes foram levados para o Reino Subterrâneo. Aquelas cavernas profundas são iluminadas por uma luz especial que permite o crescimento dos cereais e dos vegetais e proporciona aos seus habitantes uma vida longa e sem doenças. Estão lá muitos povos, muitas tribos. Um velho Brahmane budista do Nepal estava cumprindo a vontade dos Deuses, viajando para o antigo reino de Gengis Khan, o Sião, quando encontrou um pescador que lhe pediu que entrasse no seu barco e remou para o mar. No terceiro dia chegaram a uma ilha onde viviam homens que tinham duas línguas e podiam falar, separadamente, dois idiomas diferentes. Mostraram-lhe animais curiosos: tartarugas com dezasseis patas e um só olho (3), enormes cobras que tinham a carne muito saborosa, aves que tinham dentes e que apanhavam no mar os peixes que depois levavam aos seus amos. Esses homens disseram-lhe que tinham vindo do Reino Subterrâneo e descreveram algumas das suas regiões.

O Lama Turgut que me acompanhou durante a viagem de Urga a Pequim, deu-me mais informações.

– A capital de Agharta é contornada de cidades onde moram os grandes Sacerdotes e os Sábios. Ela se parece com Lhassa, onde o palácio do Dalai-Lama, o Potala, se encontra no topo de uma montanha toda coberta de templos e mosteiros. O Reino do Rei do Mundo está cercado por dois milhões de deuses encarnados. Eles são os Santos Panditas (4). O próprio palácio está cercado pelos palácios dos Goros (5) que possuem todas as forças visíveis e invisíveis do Inferno, da Terra e do Céu, e que tudo podem fazer pela vida e pela morte dos homens. Se a nossa Humanidade tresloucada quisesse uma guerra contra eles, eles seriam capazes de fazer explodir a superfície do nosso planeta, e reduzi-lo a um deserto. Eles podem ressecar os mares, transformar os continentes em oceanos ou reduzir montanhas a areias do deserto. Eles podem criar as árvores, os canaviais e fazer com que a relva brote; sabem transformar em moços viris homens velhos e fracos, e até conseguem ressuscitar os mortos. Sem que saibamos e vejamos, eles transportam-se, em estranhos e velocíssimos veículos, através dos estreitos corredores do interior do nosso planeta. Alguns Brahmanes da Índia e vários Dalai-Lamas do Tibete chegaram a escalar cumes de montanhas jamais pisados por pés humanos, e encontraram inscrições gravadas nas rochas, restos de passos na neve ou as marcas deixadas pelos rodados de viaturas. O Bem-Aventurado Sakya Muni encontrou no topo de uma montanha estelas de pedra com palavras inscritas que não conseguiu decifrar senão quando já tinha uma idade avançada, tendo em seguida penetrado no Reino de Agharta, de onde voltou trazendo algumas migalhas da Ciência Sagrada que a sua memória conseguira reter. Aí, em maravilhosos palácios de cristal moram os Chefes Invisíveis dos fiéis, o Rei do Mundo Brahytma (6), que pode falar com Deus como estou falando consigo, e os seus dois Auxiliares, Mahytma (7), que conhece os lances do futuro, e Mahynga (8), que conhece as causas dos eventos.

Os santos Panditas estudam o mundo e suas forças. Ocasionalmente os mais sábios dentre eles se reúnem, e enviam delegados a um lugar que os olhos humanos jamais viram. Isso foi descrito pelo Tashi-Lama que viveu há oitocentos e cinquenta anos atrás. Os mais altos Panditas, pondo uma mão sobre os olhos e outra sobre a nuca dos sacerdotes mais jovens, adormecem-nos profundamente, lavam os seus corpos com uma infusão de ervas tornando-os imunes à dor, endurecendo-os como pedras, e após tê-los envolvido em faixas mágicas, oram a Deus. Os moços, deitados e petrificados, mas de olhos e ouvidos alerta vêem, ouvem, entendem e observam todo o passado, todo o presente, todo o futuro. Seguidamente um Goro aproxima-se e fita-os longamente. Os seus corpos astrais soltam-se da carne desaparecendo em seguida. Mas o Goro fica sentado, junto dos corpos inertes, de olhar fixo no ponto para onde os enviou. Por fios invisíveis eles ficam subordinados à sua vontade; alguns deles viajam como estrelas, observando acontecimentos e povos desconhecidos, suas vidas e suas leis. Por lá eles ouvem as conversas, lêem os livros, conhecem a sorte e a miséria, a santidade e o pecado, a piedade e o vício. Alguns misturam-se às chamas e conhecem a criatura do fogo, viva e voraz, e encetam labuta incessante fundindo e martelando os metais nas profundezas do planeta, fazendo ferver as águas dos “geysers” e das nascentes térmicas. Fundem as rochas e enviam as massas em fusão à superfície da Terra pelas bocas dos vulcões. Outros, ainda, juntam-se às criaturas do ar, infinitamente pequenas, evanescentes e transparentes, e estudam o mistério e a razão de sua existência. Outros mais deslizam até aos abismos do mar observando e estudando o reino das sábias criaturas das águas, as quais transportam e disseminam o alento vital por toda a Terra, fazendo mover os ventos, as ondas e as tempestades (9). Noutros tempos, viveu no mosteiro de Erdeni Dzu o Pandita Hutuktu que veio de Agharta. Quando estava para morrer, falou do tempo em que, pela vontade de um Goro, ele viveu numa estrela vermelha a Leste, onde flutuou sobre um oceano coberto de gelo e voou entre os fogos acesos no interior da Terra (10).

Ouvi essas histórias nas “yurtas” dos príncipes e nos mosteiros lamaístas. Pela maneira como elas me foram contadas, não tive a possibilidade de deixar transparecer a menor dúvida.

Mistérios…

 

O REI DO MUNDO PERANTE DEUS

 

Durante a minha estadia em Urga esforcei-me por encontrar uma explicação para a lenda do Rei do Mundo. Por muitas razões a pessoa mais indicada para me dar qualquer informação nesse sentido era o Buda Encarnado, e procurei interrogá-lo sobre o assunto. Durante uma conversa, citei o nome do Rei do Mundo. O velho Pontífice virou bruscamente a cabeça para o meu lado e fixou-me com os seus olhos sem vida. Mantive-me calado contra a minha própria vontade. O silêncio foi-se prolongando e o Pontífice voltou a falar de uma tal maneira que percebi não desejar abordar o assunto. Pude ver nos rostos das outras pessoas presentes, especialmente no bibliotecário do Bogdo Khan, uma expressão de admiração e medo. É, portanto, bem compreensível como esse incidente só contribuiu para aumentar a minha impaciência e a vontade de obter maiores informações.

Quando estava saindo do gabinete de trabalho do Bogdo Khan encontrei o bibliotecário que saíra antes de mim, e perguntei-lhe se me daria autorização de visitar a biblioteca do Buda Encarnado. Utilizei uma táctica muito simples.

– Sabe, caro Lama – disse-lhe – um dia estava eu numa planície, na hora em que o Rei do Mundo falava com Deus, e fiquei impressionado com a majestosa solenidade daquele momento.

Foi enorme a minha surpresa quando o velho Lama me respondeu calmamente:

– Não acho certo que o Budismo e o Lamaísmo o ocultem. O reconhecimento do mais Santo e Poderoso dos Homens, do Bem-Aventurado Reino, do Grande Templo da Santa Ciência, é de tamanho conforto para os nossos corações de pecadores e para as nossas vidas corruptas, que escondê-lo é uma lástima.

Ouça – continuou ele – durante o ano inteiro o Rei do Mundo dirige as tarefas dos Panditas e dos Goros de Agharta. Só em momentos determinados Ele penetra na cripta do Templo onde repousa o corpo embalsamado de seu predecessor, num ataúde de pedra negra. A cripta está sempre sombria, mas quando o Rei do Mundo penetra nela as suas paredes ficam rajadas de fogo, e da tampa do ataúde irrompem longas chamas. O decano dos Goros fica erecto à sua frente, com a cabeça e o rosto cobertos e as mãos cruzadas sobre o peito. O Goro também nunca retira o capuz ensombrando a sua face, por sua cabeça ser uma caveira nua com olhos purpúreos e uma língua que fala, comunicando-se com as almas daqueles que já se foram (11).

O Rei do Mundo fala longamente e em seguida aproxima-se do ataúde e estende a destra. As chamas resplandecem então com maior vivacidade; as rajadas de fogo nas paredes aumentam e crepitam, entrelaçando-se e formando as letras misteriosas do alfabeto “Vatanã” (12). Do ataúde irrompem espirais transparentes de luz quase invisíveis: são os pensamentos de seu predecessor. Logo o Rei do Mundo fica envolto nessa aura luminosa e as letras de fogo escrevem, escrevem sem cessar sobre a pedra críptica o desejo e a vontade de Deus. Nesse momento o Rei do Mundo comunica-se com todos aqueles que dirigem os destinos da Humanidade: os reis, os czares, os khans, os chefes guerreiros, os grandes sacerdotes, os sábios e os homens poderosos. Ele conhece todas as intenções e ideias deles. Se elas agradarem a Deus, Ele favorecerá a sua realização com o seu auxílio invisível; mas se elas desagradarem a Deus, o Rei do Mundo providenciará o seu fracasso. É a Ciência misteriosa do Om que dá esse poder a Agharta, e é com essa palavra que iniciamos as nossas orações. Om é o nome de um antigo Santo, do primeiro Goro, o qual viveu há trezentos mil anos. Ele foi o primeiro Homem que conheceu a Deus, o primeiro que ensinou à Humanidade a acreditar, a esperar, a lutar contra o Mal; então Deus deu-lhe o poder de dominar todas as forças do mundo visível (13).

Após conversar com o predecessor, o Rei do Mundo reúne o Grande Conselho de Deus e julga as acções e os pensamentos dos grandes homens, e ora os auxilia ou aniquila. Mahytma e Mahynga encontram o lugar dessas acções e desses pensamentos entre as causas que governam o mundo. Finalmente, o Rei do Mundo entra no Grande Templo e reza na sua solidão. O fogo irrompe sobre o altar e comunica-se aos altares próximos (14), e na chama ardente desenha-se o Rosto de Deus. Respeitosamente o Rei do Mundo anuncia a Deus as decisões do Conselho, e o Todo-Poderoso lhe comunica os Seus Mandamentos. Quando sai do Templo, o Rei do Mundo irradia a Luz Divina (15).

 

REALIDADE OU FICÇÃO MÍSTICA?

 

– Alguém já viu o Rei do Mundo? – perguntei.

– Sim – respondeu o Lama –, o Rei do Mundo apareceu por cinco vezes consecutivas durante os períodos dos festejos do Budismo Antigo no Sião e na Índia. Ele vinha instalado num esplêndido carro puxado por elefantes brancos, enfeitados de ouro, pedras preciosas e seda; trajava uma túnica branca e coroava-lhe a cabeça uma tiara púrpura, da qual pendiam franjas de diamantes ocultando-lhe o rosto. Abençoava o povo com uma maçã de ouro encimada por um cordeiro (16). Os cegos voltaram a ver, os surdos voltaram a ouvir, os paralíticos voltaram a andar e os mortos ressuscitaram em todos os lugares por onde o Rei do Mundo passou. Faz cento e quarenta anos que Ele apareceu em Erdeni Dzu, tendo depois também visitado os mosteiros de Sakia e Narabanchi Kure.

Um dos nossos Budas Encarnados e o Tashi-Lama receberam Dele uma mensagem escrita em letras desconhecidas sobre estelas de ouro. Ninguém sabia decifrar a escrita. O Tashi-Lama entrou no templo, colocou as estelas sobre a sua cabeça e começou a orar. Por intermédio da oração, os pensamentos do Rei do Mundo penetraram no seu cérebro e ele conseguiu compreender e executar a mensagem do Rei do Mundo, apesar de antes não ter compreendido aquelas letras.

– Quantas pessoas conseguiram chegar a Agharta? – perguntei-lhe.

– Muita gente já lá foi. – disse-me o Lama – Todos, porém, mantiveram segredo sobre as coisas que viram. Quando os Olets destruíram Lhassa, um dos seus destacamentos que estava nas montanhas a sudoeste, chegou até onde começa a Agharta. Eles aprenderam algumas coisas das ciências misteriosas e trouxeram esse conhecimento para a superfície da Terra.

Isso explica porque os Olets e os Calmucos são bons magos e profetas. Algumas tribos escuras do Leste também conseguiram chegar a Agharta e lá viveram alguns séculos. Mais tarde, porém, foram escorraçadas do Reino e voltaram à face da Terra, mas trouxeram consigo a ciência misteriosa de prever o futuro nas cartas, nas ervas e nas linhas das mãos. Estou falando dos ciganos (17). Em determinada região, ao Norte da Ásia, existe uma tribo em vias de extinção e que veio das cavernas de Agharta. Os membros dessa tribo sabem invocar as almas dos mortos que povoam o espaço (18).

O Lama ficou calado durante algum tempo. Mas voltou a falar como se adivinhasse os meus pensamentos.

– Em Agharta, os sábios Panditas escrevem sobre estelas de pedra toda a Ciência do nosso planeta e dos outros mundos. A sua Ciência é a mais elevada e pura. Em cada século cem Sábios da China reúnem-se num lugar secreto, à beira-mar, e cem tartarugas imortais saem das profundezas do oceano. Sobre as suas carapaças, os Sábios escrevem as conclusões a que chegou a Ciência nesse século.

Lembro-me, a esse respeito, de uma história que me foi contada por um Bonzo chinês no Templo do Céu, em Pequim: disse que as tartarugas vivem mais de três mil anos, sem ar e sem alimento, e que por essa razão todas as colunas azuis do Templo estavam apoiadas em tartarugas vivas, e dessa forma a madeira jamais apodrecia (19).

– Muitas vezes os pontífices de Lhassa e de Urga enviaram mensageiros ao Rei do Mundo – disse o Lama bibliotecário – mas nunca O conseguiram encontrar. Um dia um chefe tibetano, depois de combater contra os Olets, encontrou a caverna que leva a inscrição: “Esta porta conduz a Agharta”. Um homem de bela aparência saiu da embocadura e ofereceu-lhe uma estela de ouro com uma escrita misteriosa, dizendo: “O Rei do Mundo aparecerá a todos os homens quando chegar o tempo de conduzir os homens bons na guerra contra os homens maus. O tempo, porém, ainda não chegou. Os piores da Humanidade ainda não nasceram”.

O “chiang-chun” Barão Ungern enviou o jovem príncipe ao Rei do Mundo com uma mensagem, mas ele regressou com uma carta do Dalai-Lama. O Barão voltou a enviá-lo, e o jovem príncipe não mais voltou.

 

A PROFECIA DO REI DO MUNDO – EM 1890

 

Quando visitei o mosteiro de Narabanchi, no começo de 1921, o Hutuktu contou-me o seguinte:

– Quando o Rei do Mundo apareceu, aqui no mosteiro, aos Lamas favoritos de Deus – e já se passaram trinta anos – Ele fez uma profecia respeitante aos tempos futuros. Eis o que Ele disse:

«Os homens, cada vez mais, esquecerão as suas almas para se ocuparem apenas dos seus corpos. A maior corrupção irá reinar sobre a Terra. Os homens assemelhar-se-ão a animais ferozes, sedentos do sangue de seus irmãos. O Crescente apagar-se-á, caindo os seus adeptos na guerra perpétua. Cairão sobre eles as maiores desgraças e acabarão por degladiar-se entre si. As coroas dos reis, grandes e pequenos, cairão: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito… Eclodirá uma guerra terrível entre todos os povos. Os oceanos rugirão… A terra e o fundo dos mares cobrir-se-ão de ossadas… desaparecerão reinos, morrerão povos inteiros… haverá a fome, a doença, crimes não previstos pelas leis, nem vistos nem sonhados ainda pelos homens. Virão, então, os inimigos de Deus e do Espírito Divino, os quais jazem nos próprios homens. Aqueles que levantarem a mão sobre outro também perecerão. Os esquecidos, os perseguidos, erguer-se-ão depois e atrairão a atenção do mundo inteiro. Haverá nevoeiros espessos, tempestades horríveis. Montanhas até então escalvadas se cobrirão de florestas. A Terra inteira tremerá… Milhões de homens trocarão as correntes da escravidão e das humilhações pela fome, a peste e a morte. As estradas se encherão de multidões de pessoas caminhando ao acaso de um lado para o outro. As maiores, as mais belas cidades desaparecerão pelo fogo… uma, duas, três… O pai erguer-se-á contra o filho, o irmão contra o irmão, a mãe contra a filha. O vício, o crime, a destruição dos corpos e das almas seguir-se-ão a tantas calamidades. As famílias serão dispersas… A fidelidade e o amor desaparecerão… Por cada dez mil homens sobreviverá um, o qual ficará nu, destituído de todo o entendimento, sem forças para construir a sua habitação ou procurar alimentos. E estes homens sobreviventes uivarão como lobos ferozes, devorarão cadáveres e, mordendo a sua própria carne, desafiarão Deus para combate. A Terra inteira ficará deserta e até Deus fugirá dela. Sobre a Terra vazia a noite e a morte. Então Eu enviarei um Povo, desconhecido até agora, o qual, com mão forte, arrancará as ervas daninhas da loucura e do vício, e conduzirá aos poucos que restarem fiéis ao Espírito no Homem na batalha contra o Mal. Fundarão uma Nova Vida sobre a Terra purificada pela morte das nações. Dentro dos cinquenta anos que se seguem, somente três grandes reinos brilharão, vivendo felizes durante setenta e um anos. Em seguida, haverá dezoito anos de guerra e destruição. Então os Povos de Agharta sairão das suas cavernas e aparecerão à face da Terra.»

Mais tarde, quando em viagem para Pequim, eu perguntava frequentemente a mim mesmo:

– Que aconteceria se realmente povos inteiros, raças, religiões, tribos diferentes começassem a emigrar para Oeste?

Agora, enquanto escrevo estas últimas linhas, os meus olhos viram-se involuntariamente na direcção do coração infinito da Ásia, por onde tanto andei em minhas peregrinações. Vejo, através de um torvelinho de neve ou de uma tempestade de areia no Gobi, o rosto do Hutuktu de Narabanchi quando, em voz pausada e a mão apontando o horizonte, me revelava o segredo dos seus pensamentos mais íntimos.

Vejo, nas margens do Ubsa-Nof, os imensos campos coloridos, as manadas de cavalos e de gado, as “yurtas” azuis dos chefes. Acima delas vejo as bandeiras de Gengis Khan, dos reis do Tibete, do Sião, do Afeganistão e dos príncipes indianos; os emblemas sagrados dos pontífices lamaístas; os brasões dos Khans e dos Olets, e os pendões mais simples das tribos mongóis do Norte. Não ouço o burburinho das multidões agitadas. Os cantores já não cantam as melodias nostálgicas das montanhas, das planícies e do deserto. Os jovens cavaleiros já não galopam velozmente as suas briosas montadas… Há somente multidões infindáveis de velhos, mulheres e crianças, e, mais além, para Norte e para Leste, até onde os meus olhos alcançam, o céu é vermelho como fogo, ouvindo-se o rugido crepitante do incêndio e o eco da batalha onde os guerreiros, sob um céu vermelháceo, derramam o seu próprio sangue e o dos outros! Quem conduz essas multidões de desgraçados desamparados? Vejo uma ordem austera, uma compreensão profunda do ideal, da paciência e da tenacidade; uma nova emigração dos povos, a última marcha dos mongóis (20).

Talvez o Karma tenha aberto uma nova página na História.

Que sucederá se o Rei do Mundo estiver com eles?

Mas, contudo, o maior Mistério de todos os Mistérios continua sem resposta.

 

NOTAS (V.M.A.)

 

1) O mantram-oração principal do Budismo Tibetano que sintetiza toda a doutrina lamaísta, tanto a exotérica (pública) como a esotérica (privada). Om Mani Padme Hum, significa: “Salve, ó Jóia do Lótus Sagrado”, sendo a Jóia o Buda Místico na Morada do Coração (o Lótus); daí também possuir o significado de: “Ó Deus que estais em Mim”. Este mantram, consagrado ao Dhyani-Buda Avalokitesvara, designa o Atmã ou Espírito Universal, e com isso o Caminho da Universalidade.

Om Mani Padme Hum

2) Respectivamente, o continente da Lemúria a Leste, onde floresceu a 3.ª Raça-Raiz, e o continente da Atlântida a Oeste, berço da 4.ª Raça-Raiz, progenitora da actual 5.ª, a Ariana.

3) Ou o autor “fumou e pirou”, ou então, e é o mais provável, trata-se de uma alegoria carregada de forte simbolismo, junta à alusão a espécimes animais acaso sobreviventes à última Era Glaciar, possivelmente ainda subsistindo restos esparsos nas profundezas de certas cavernas sitas no que se consideram regiões badagas. Como símbolo esotérico, a tartaruga é a imagem zoomórfica perfeita do Universo com o único e só “Olho que tudo Vê” (Olho de Druva) no seu centro, designando o Sol Central. As “16 patas” é referência velada ao Arcano 16 do Tarot, o Arcano dos Atlantes, e que cosmogonicamente expressa “A Queda do Espírito na Matéria”, ou seja, a manifestação objectiva do Universo, a sua “encarnação” como Espaço Com Limites.

4) Ossendowsky fala em “dois milhões de deuses encarnados” montando guarda ao Reino do Senhor do Mundo. Creio haver aqui uma imprecisão numérica, pois tanto o Professor Henrique José de Souza quanto a referência de Saint-Yves d´Alveydre, na sua Missão da Índia na Europa, que o autor certamente conheceu e consultou, indicam o número preciso de Dwijas, Yoguis e Pandavans como de cinco milhões e cinco mil, isto é, repartidos em dois milhões e meio de Dwijas (“Nascidos duas vezes”, isto é, pelo Corpo ou Maternidade e pelo Espírito ou Iniciação), dois milhões e meio de Yoguis (“Unidos com Deus”, pela mais elevada Mística) e cinco mil Pandavans ou Panditas (“Instrutores” na Sabedoria dos Deuses, tanto valendo por Teosofia).

5) Goros, “Sacerdotes de Deus”. O Palácio do Rei do Mundo, em que está o seu trono onde resplandece um Sol de 32 raios, sendo Ele próprio o 33.º sintético, é um 13.º cercado em Shamballah (antes, à sua volta) por 12 outros, cada qual assessorado por um Goro relacionado a determinada Hierarquia Criadora do Universo encarnada num signo zodiacal específico.

6) Ou Brahmatmã, “O Apoio dos Espíritos no Espírito de Deus” – o Rei do Mundo em sua dupla função de Monarca e Pontífice Universal, indo corresponder ao Chakra-Varti védico e ao Melki-Tsedek bíblico. É Sua Majestade Rigden-Dyepo, isto é, “Rei dos Jivas”, que está para o seu sucessor Akdorge. Dirige o Governo Oculto Espiritual e Temporal do Mundo.

7) Ou Mahanga, “A Expressão de toda a Organização Material do Cosmos” – o Poder Temporal ou Real identificado ao Adonay-Tsedek hebraico. É o Excelso Polidorus Isurenus, em ligação directa ao seu sucessor Kadir. Dirige o Governo Oculto Temporal do Mundo.

oito) Ou Mahinga, ou ainda Mahima e Mahatma, “O Representante da Alma Universal” – a Autoridade Espiritual ou Sacerdotal relacionada ao Kohen-Tsedek hebreu. É a Excelsa Mama-Sahib ligada ao seu sucessor Akadir. Dirige o Governo Oculto Espiritual do Mundo.

9) Esta Iniciação Real feita de Escola – Teatro – Templo e conferida pelos Panditas aos instruendos, possibilita o conhecimento e domínio perfeitos dos quatros elementos naturais e respectivas essências ou “espíritos”, a partir do quinto, com isso podendo dirigir a massa energética da Terra e do Universo cuja quintessência é o próprio Akasha ou Éter sob o domínio da Força Mental, logo sendo também o Pater Aether Omnipotens.

10) Referência velada à “Estrela Baal” e aos seus mistérios fatídicos que agora revelo parcialmente: quando há milhões de anos atrás a parte salina ou cristalizada da Terra foi separada de si, dela nasceu a Lua que principiou uma órbita muito diferente da actual em torno da progenitora, fragmentando-se em duas que vieram a iluminar as noites da Lemúria e da Atlântida. Uma das Luas, a existente ainda hoje, estabeleceu a sua rotação sazonal nos meados da terceira Raça; a outra, mais pequena, passou a orbitar em torno da maior, fragmentando-se lentamente até acabar por desprender-se dela um gigantesco fragmento incandescente que precipitou-se sobre a Terra, na região do Yukatan (que quer dizer precisamente “pedaço lunar”), alterando fatalmente o metabolismo desta e com isso provocando a extinção de grande parte da sua vida hominal, animal e vegetal. Isto nos finais da Lemúria, o que coincidiu com a morte dos dinossauros e o início da Era Glaciar provocada pela queda da “Estrela Baal”, esse mesmo fragmento selenita. Por fim, já perto do final da Raça Atlante, despenhou-se no mar oceano (que assim ficou salitrificado…) da Terra um outro fragmento da mesma Lua (o retorno da “Estrela Baal”…), tendo então se desintegrado por completo. Esse fragmento foi a “mola” impulsionadora dos cataclismos que destruíram por completo o Continente Vermelho (chamado assim por causa da cor epidérmica dos seus naturais).

11) Os abnegados e heróicos Antepassados, os Progenitores ou Pitris, os Santos Jinas baluartes imortais da Ciência Iniciática das Idades como Padres, Pais, Mentores ou Manus dirigentes da mesma Humanidade.

12) Ou Vatan, a Língua dos Dwijas, órgão simbolicamente bifurcado nestes por falarem simultaneamente a Linguagem do Céu e a da Terra. O Vatan é também conhecido como Senzar, a Fala Búdhica, a do Silêncio (de Shamballah…), do Coração ou Intuicional vibrando em toda a Natureza. Um dia, a dar-se a ressurreição à face da Terra dos Povos de Agharta, ela decerto será o idioma universal por que se entenderão todos os povos como som e objecto perfeitamente unidos numa exteriorização vocal proveniente do Mundo da Pura Intuição. Sim, é como se canta no Mantram Búdhico: “Senzar é minha vida, vive em meu coração”… Raciocine-se sobre o fenómeno da linguagem, pense-se um pouco sobre o fenómeno da palavra. Alguém tem uma ideia, uma imagem vem-lhe ao cérebro, os órgãos vocais são movimentados e pronuncia-se um som convencional. A vibração transmite-se pelo ar, atinge o ouvido de outra pessoa, dá-se uma série de fenómenos ainda não bem explicados pela ciência académica e aquela vibração, aquele som é interpretado pela outra pessoa com a mesma ideia que havia surgido no cérebro da primeira. Assim nas línguas sagradas, nas línguas primevas, havia uma correlação directa entre os sons e os objectos, isto é, os sons eram a expressão sonora dos objectos ou dos pensamentos. As línguas foram-se deturpando, corrompendo e, hoje em dia, raros idiomas ainda mantêm essa ligação. O Tupi, o Latim, o Luso-Galaico e o Hebraico são alguns dos que ainda detêm algo desse poder. Daí a razão da Kaballah, do estudo das letras do idioma hebraico. Combinam-se as letras hebraicas como se combinam os símbolos da Química e obtêm-se sentidos e ideias. Todos estes idiomas são oriundos do Aghartino, da Linguagem Universal de Agharta. Segundo a Tradição, esta é a futura Linguagem que será ouvida e compreendida por todos os homens por exprimir directamente as ideias. Logicamente, cada qual terá a impressão de que está a ouvir o seu próprio idioma natal.

13) OM escreve-se por extenso AUM. Como sílaba sagrada é o Nome do próprio Logos Planetário, da Divindade “em quem todos somos e temos o nosso ser”, parafraseando Santo Agostinho. Quanto à definição de mantram, é a seguinte: composição em que harmonia, melodia e ritmo estão combinados de acordo com as leis da Natureza.

14) Agni, o Fogo Sagrado, “ardendo em chamas brilhantes sobre o Altar… A Alma Gloriosa do Sol”.

15) No seu livro Missão da Índia na Europa, Saint-Yves d´Alveydre fala do Ritual do Brahmatmã actual (ou seja, o Planetário da Ronda vigente, a 4.ª) sobre a tumba (isto é, Shamballah, o Mundo do Silêncio Móvel, Morada dos Adormecidos passados e futuros) do anterior Rei do Mundo (ou da 3.ª Ronda Lunar), usando de uma terminologia profundamente simbólica, que não interpretarei aqui, a qual se aproxima muitíssimo da descrição feita por Ferdinand Ossendowsky. Passo a citar:

– O traje cerimonial do Brahmatmã resume todos os símbolos da Organização Aghartina e a Síntese Mágica, fundada no Verbo Eterno, de quem é a Imagem Viva.

E assim, as suas sucessivas roupagens até à cintura levam os grupos de todas as letras que são os elementos do Grande Aum.

Sobre o seu peito, brilha o racional com todos os fogos das pedras simbólicas consagradas às celestes Inteligências zodiacais, podendo o Pontífice renovar à-vontade o prodígio de acender espontaneamente a Chama Sagrada do Altar, como Aarão e seus sucessores.

A sua tiara de sete coroas, rematada pelos santos hieróglifos, expressa os sete graus de descenso e ascenso das Almas através desses Esplendores divinos que os Kabalistas chamam Sefirots.

Porém este Alto Sacerdote parece-me ainda mais elevado quando, despojado das suas insígnias, entra sozinha na Cripta sagrada onde jaze o seu predecessor e, longe da pompa cerimonial, de todo o adorno, de todo o metal, se oferece ao Anjo da Morte com a mais absoluta humildade.

Terrível e bem estranho Mistério Teúrgico!

Ali, sobre a tumba do Brahmatmã, há um catafalco cujas franjas indicam o número de séculos e de Pontífices que se sucederam.

A esta ara fúnebre, sobre a qual repousam certas alfaias da Magia Sagrada, sobe lentamente o Brahmatmã com as rezas e gestos de seu antigo ritual.

É um Ancião, descendente da belíssima Raça Etíope, de tipo caucásico, Raça que depois da Vermelha e antes da Branca susteve o Ceptro do Governo Central da Terra, e levantou em todas as montanhas essas cidades e esses edifícios prodigiosos que encontramos em toda a parte, desde o Egipto e a Índia até ao Cáucaso.

Nesta cripta fúnebre em que ninguém senão Ele penetra, está o Brahmatmã completamente desadornado, desnudo da cabeça até à cintura; e esta humilde desnudez é o sinal mágico da Morte.

Ainda que ascético, o seu corpo é elegante e com uma musculatura forte.

No extremo superior do seu braço, chamam a atenção três delgadas argolas simbólicas.

Por cima do rosário e da capa branca ressaltando sobre o negro de sua pele e que cai dos ombros até aos joelhos, ergue-se uma cabeça de notável dignidade.

Os seus traços são muito finos.

A boca, apesar dos dentes apertados pelo hábito da concentração intelectual e da vontade, mostra uns lábios bondosos nos quais flutua a luz interior de uma inalterável caridade.

A barba é pequena, porém bastante saliente para indicar uma grande energia, confirmada pelo nariz aquilino.

As sobrancelhas deixam antever uns olhos bem delineados, fixos e tão profundos quanto bondosos.

Essas últimas, que geralmente costumam endurecer qualquer fisionomia, deixam intactas nesse rosto uma grande doçura unida a uma inabalável força.

A fronte é enorme, e o crânio desguarnecido em parte.

No conjunto, este Mago-Pontífice representa uma tipologia absolutamente fora do comum.

É certamente o Emblema Vivo do cume de uma Hierarquia por sua vez Sacerdotal e Universitária, unindo nela de modo indivisível a Religião e a Ciência.

Quando, concentrado na santidade do seu acto interior e da sua vontade, o Pontífice une as suas mãos, notáveis por sua pequenez, na base do catafalco, o ataúde de seu predecessor corre por um encaixe e sai por si mesmo.

À medida que o Brahmatmã prossegue as suas orações mágicas, a Alma que evoca age desde o alto dos Céus através de sete lâminas, ou melhor, sete condutores metálicos que, partindo do cadáver embalsamado, reúnem-se ante o Pontífice dos Magos em dois tubos verticais.

Um é de ouro, o outro é de prata, e correspondem, o primeiro ao Sol, a Cristo e ao Arcanjo Mikael, e o segundo à Lua, a Maomé e ao Arcanjo Gabriel.

Ante o Soberano Pontífice, porém a certa distância, estão colocadas as suas varas mágicas e dois objectos simbólicos: um é uma Romã de ouro, símbolo do Judaico-Cristianismo; o outro, um Crescente lunar, símbolo do Islamismo.

Pois a oração, em Agharta, reúne num mesmo Amor e numa mesma Sabedoria todas as Religiões que preparam na Humanidade as condições do retorno cíclico à Lei Divina de sua Organização.

Quando o Brahmatmã reza pela União, coloca a Romã sobre o Crescente e evoca juntamente o Arcanjo Solar, Mikael, e o Arcanjo Lunar, Gabriel.

À medida que a evocação misteriosa do Brahmatmã prossegue, as Potências vão aparecendo ante os seus olhos.

Sente ou ouve a Alma a quem clama, sendo esta atraída espiritualmente por suas evocações e magicamente pelo corpo que abandonou e por sua armadura metálica que corresponde à escala diatónica dos sete Céus.

Então, na Língua Universal de que falei, estabelece-se um diálogo teúrgico entre o Soberano Pontífice evocador e os Arcanjos que trazem até Ele, desde o cume dos Céus, as respostas às suas perguntas.

Os signos sagrados desenham no ar as letras absolutas do Verbo.

Enquanto se desenrolam estes Mistérios, enquanto se ouve a Música das Esferas celestes, um fenómeno surpreendente, ainda que semi-físico, sucede na tumba.

Do corpo embalsamado sobe lentamente para o Brahmatmã que está orando uma espécie de bruma perfumada, em que se podem ver numerosos filamentos e arborescências estranhas, semi-fluidicas e semi-tangíveis.

É o sinal que indica que, desde o longínquo Mundo que habita, a Alma do Pontífice anterior lança, através da Hierarquia dos Céus e de suas Potências celestes, os raios concentrados de todas as suas memórias sobre a Cripta sagrada onde repousa o seu corpo.

Assim se confirma, ainda hoje, tudo quanto Ram predisse sobre a animação sucessiva que dele receberiam os seus sucessores que conservassem santa e sabiamente a Tradição do Ciclo do Cordeiro e a Sinarquia do Carneiro.

Assim é em Agharta, assim foi nas pirâmides do Egipto, em Creta, na Trácia e até no templo druídico de Ísis na própria Paris, onde agora se eleva Notre-Dame, o Mistério Supremo do Culto dos Antepassados.

16) Símbolo andrógino por excelência do Sexto Luzeiro de Mercúrio, o Senhor dos “Fogos de São João” como Agnus Castu e Agni Dei resplandecente. Além de assinalar a ressurreição da Igreja Secreta de João, assinala igualmente a união do Trono (Poder Temporal – Pomo d’Ouro) com o Altar (Autoridade Espiritual – Cordeiro Pascal).

17) Os Ciganos, a cuja casta pertencem o que resta das 12 tribos de Israel e algumas tribos shivaítas idólatras e feiticistas da Índia, são os Bohami, “apartados de Mim” (o Manu), donde Boémios. A sua origem obscura remonta há cinco mil anos, ao Mundo de Badagas donde foram expulsos por desrespeito às ordens do mesmo Legislador Supremo. Como Kara-Maras, em aghartino, são o Povo que negou a Eleição divina para se condenar a errar pela face da Terra qual “Édipo de pés inchados”, enfim, qual “Judeu errante”…

18) Refere-se aos Badagas e Todes da Nilguíria e do Ceilão, apontados por H. P. Blavatsky no seu livro O País das Montanhas Azuis. Alguns Todes são de compleição semi-humana, mas, para todos os efeitos, tanto uns como outros são na face da Terra guardiões de Embocaduras para os Retiros Privados dos Adeptos Independentes. Quando os lugares onde se acham essas Embocaduras se tornam públicos, do conhecimento geral, já antes os seus guardiões se recolheram fechando atrás de si “as portas a sete chaves”, tornando-as completamente imperceptíveis, somente deixando para trás a tradição mítica e esotérica do lugar, que o vulgo se encarregará de cobrir de lenda e superstição. Só o raríssimo Iniciado saberá flanquear depois, se méritos e préstimos tiver para tanto, o umbral de tão encantada e decantada porta… E não será por excitação anímica e fantasias fantasmagóricas auto-criadas e auto-induzidas, mais ou menos conscientemente para cobrir um eventual “vazio existencial”, que se chegará a lado algum de mais-valia. Ademais, só quando o discípulo está pronto o Mestre aparece!

Aprofundando mais o tema do Mundo Jina e dos Seres Viventes nele, fazendo uso da Linguagem de Akbel que é a das Revelações do Futuro, tive ocasião de proferir numa carta privada de que respigo o seguinte trecho que ofereço ao respeitável leitor, muito especialmente aos condiscípulos da Obra de JHS em Portugal e no Brasil, indo demonstrar que este tema nada tem de afim com as especulações oníricas e fantásticas do propagado “espiritualismo sensacionalista”… auto-suficiente na pobreza da sua ignorância cega:

Já falei sobre os Mundos Subterrâneos de sobejo, e inclusive no meu livro Os Mestres e a Iniciação, no capítulo “Sinais de Shamballah”, descrevo em traços gerais a fisionomia dos habitantes do Mundo de Badagas. Mais não é possível por diversas razões, uma delas a do juramento de silêncio. Ainda assim, e como as duas classes TODES E MUNIS são constantemente evocadas pela nossa Obra em sua mecânica interna, posso adiante que tanto os Munis como os Todes são SERES ETÉRICOS de uma Evolução paralela: saíram do Reino Elemental para adentrar o Angélica ou Barishad sob a direcção directa dos Kumaras. Eles são as Forças Marutas da Natureza que desde os Mundos de Duat e Badagas actuam sobre a Face da Terra e nesta, nos lugares altos ou baixos próximos a Embocaduras, sendo dirigidos pelos Sete Reis de Edom ou Agharta que são os mesmos Kumaras. Quando actuam na Face da Terra a sua Consciência pode tomar o corpo físico de alguém, vivo ou morto (cujo corpo não esteja corrompido pela putrefacção), e assim agir «fantasticamente» junto dos chamados «vivos». Isto chegou a acontecer com o Roberto Lucíola (mas não só…) e com o próprio Professor Henrique José de Souza que  nos anos 30-40 do século XX andou de intimidades com o “Eremita do Parque das Águas” de São Lourenço (MG), com o seu nome profano ocultando o verdadeiro de RABI-MUNI! Não vale a pena perguntar-me desse nome profano do PAI JOÃO que deve permanecer na ignorância do vulgo… e por isso ninguém soube responder-me sobre o mesmo. Eu só queria ver até onde ia o conhecimento iniciático de certas e destacadas pessoas… mas tal resultou infrutífero.

V.M.A. no Horto Florestal de São Lourenço (MG), próximo dum Retiro Jina

Os MUNIS são Seres de compleição branca aloirada, de aparência «angélica» (FOHAT) e estão sob a direcção de RABI-MUNI e TARA-MUNI, pelos quais se manifesta a Consciência Cósmica de AKBEL e ALLAMIRAH ou AKBELINA (6.ª Sistema, 6.ª Cadeia, 6.ª Ronda). São os Guardiões do “Cone do Sol” e das Embocaduras Sagradas. Representam o Prémio da Evolução das Almas Salvas… por seus próprios esforços e méritos. Os TODES são Seres de compleição morena ruiva, de aparência «diáblica» (KUNDALINI) e estão sob a direcção de SAMAEL e LILITH, pelos quais se manifesta a Consciência Cósmica de ARABEL e ALGOL ou ARABELINA (5.º Sistema, 5.ª Cadeia, 5.ª Ronda). São os Guardiões do “Cone da Lua” e das Talas Sinistras que para aí levam. Representam o Castigo da Involução das Almas Perdidas… por seus próprios ócios e deméritos.

Numa escala inter-relacional acontece que o MUNI age através do TODE e este pelo BADAGA, portanto, o BADAGA é a “personalidade” do TODE ou SEDOTE que, como “individualidade”, expressa a Mónada Divina assinalada no MUNI.

A mitologia mexicana chama aos “Homens-Serpentes”, isto é, Iluminados Perfeitos, de SEDOTES, que são os mesmos BADAGAS da cultura religiosa na Nilguíria e Ceilão. São Seres físicos densos e também etéricos, por o Plano Físico Denso e Etérico se interpenetrar tal qual acontece com a Face da Terra interpenetrar o Submundo até 60-90 kms de profundidade, entremesclando-se os dois níveis do Plano Físico. Assim, temos:

PLANO FÍSICO

DENSO – MUNDO DA FACE DA TERRA (JIVAS) – MARTE

ETÉRICO – SUBMUNDO DE BADAGAS (JINAS, SEDOTES… TODES E MUNIS) – LUA

PLANO ASTRAL

MUNDO INTERMÉDIO DE DUAT (HADES, AMENTI… MUNINDRAS) – VÉNUS

PLANO MENTAL

SUPRAMUNDO DE AGHARTA (ASGARDI, CANAÃ… MAHATMAS) – MERCÚRIO

PLANO ESPIRITUAL

CENTRO DIVINO DO MUNDO (SHAMBALLAH, WALHALLAH ou SALÉM… MANASAPUTRAS e MATRADEVAS) – JÚPITER

Mais ainda, sendo os TODES de natureza KUNDALINI e os MUNIS de natureza FOHAT, tal qual os MANASA-PUTRAS (Anjos Terrestres cor de fogo e ruivos) e os MATRA-DEVAS (Anjos Celestes cor de branco e louros), representantes respectivos dos 3.º Trono ou Logos (Terra) e 2.º Trono ou Logos (Céu), e sendo por isso SHAMBALLAH o Mundo Divino plantado na Terra, ela acaba sendo na mesma o próprio Mundo Celeste do 2.º Trono como “extensão” Dele, temos:

SEGUNDO TRONO

FOHAT

AKBEL

MAITREYA

777 MATRA-DEVAS

RABI-MUNI

777 MUNIS

777 LOKAS  (7 Físicas, 7 Astrais, 7 Mentais)

TERCEIRO TRONO

KUNDALINI

ARABEL

MALIAK

777 MANASA-PUTRAS

SAMAEL

777 TODES

777 TALAS (7 Físicas, 7 Astrais, 7 Mentais)

As TALAS são as Sombras das LOKAS Luminosas. Razão de um Livro Jina da Biblioteca de Duat dizer a dado passo: “Sobre as cavernas tenebrosas riam e confabulavam os Deuses”…

19) Novamente o símbolo da tartaruga como insígnia dos “cem misteriosos Sábios chineses”: os Traixus-Marutas, cuja Maçonaria Universal Construtiva dos Três Mundos monta guarda aos 22 Templos Luni-Solares de Agharta. A parte superior que cobre a tartaruga corresponde ao Céu, por sua forma arredondada; a parte inferior que a suporta corresponde à Terra, por sua forma achatada. A concha é, portanto, uma imagem do Universo, e entre as suas partes o próprio animal representa, naturalmente, a parte mediana da Tríade Humana: a Alma, tendo “acima” o Espírito e “abaixo” o Corpo.

20) Trata-se de uma alusão à transferência dos valores espirituais do ORIENTE PARA O OCIDENTE, desde 1899, acelerando a decadência do que ainda resta do “podre e gasto” Ciclo de Piscis, para que cada vez mais brilhe e floresça o de Aquarius.

O Governo Oculto do Mundo, agindo de Agharta, sempre necessitou de uma representação na face da Terra, de um elo de ligação. Este elo estabeleceu-se nos últimos séculos por intermédio de um Governo Trino existente no Tibete. No ponto mais elevado desse Governo estava o Bogdo-Gheghen, o Buda-Vivo da Mongólia, tendo como Colunas-Vivas um Chefe Temporal, o Dalai-Lama, e um Chefe Espiritual, o Trachi-Lama. Esta Tríade representou, até 1921, o Governo Oculto do Mundo. Dali irradiavam as energias espirituais que, através de determinadas Organizações, controlavam a evolução da Humanidade. Dizem as Revelações que em 1921 “o Dragão voltou a cauda do Ocidente para o Oriente e a cabeça do Oriente para o Ocidente”. Isto quer dizer que se iniciou o Ciclo do Ocidente, EX OCCIDENS LUX, de acordo com outras profecias anteriores as quais afirmavam que com o 31.º Buda-Vivo da Mongólia terminava o Ciclo do Oriente. Ora, nesse mesmo ano o 31.º Buda-Vivo deixou de viver… passando o seu Espírito a animar o 32.º Buda-Vivo Baal-Bey, destarte nascido no Ocidente, em plagas virgens brasileiras fecundadas pelo nobre sangue real lusitano.

E assim, de seu Templo Subterrâneo, o Rei do Mundo, incansável e vigilante no silêncio do Mistério, do Coração de Shamballah continua a fazer girar a Roda do tear da Evolução, como Centro de todas as coisas sem que contudo comparticipe delas, possibilitando a todos os seres viventes percepções cada vez mais amplas, vivências cada vez mais rarefeitas no rumo à Grande Unidade Universal, onde se é Um com Todos e Todos com Um, o que vale por, na língua sagrada de Agharta, AT NIAT NIATAT.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

1.ª Parte: A Ordem de Mariz (Portugal e o Futuro), por Vitor Manuel Adrião. Editorial Angelorum, Lda, Carcavelos, Maio de 2006.

2.ª Parte: Bestas, Homens e Deuses (O enigma do Rei do Mundo), por Ferdinand Ossendowski. Hemus – Livraria Editora Ltda, São Paulo, 1978.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Teatro Nacional D. Maria II (o Palco Divino) – Por Hugo M. D. Martins Quarta-feira, Jun 2 2010 

Introdução

 

O Teatro Nacional D. Maria II, símbolo da vitória do Romantismo e do Liberalismo vigentes no século XIX, do qual o sectarismo da burguesia deste período permitiu arquitectar acções de desenvolvimento da Cultura Portuguesa, pobre até esse momento.

Manuel da Silva Passos (5.1.1801 para uns, 1805 para outros – 16.1.1862), o principal obreiro da Revolução de Setembro e eternizado com a sua célebre declaração de princípios – A Rainha é o chefe da nação toda. E antes de eu ser de esquerda já era da Pátria. A Pátria é a minha política. – seria um dos responsáveis pelo nascimento deste centro cultural que destinou-se a “iluminar” o povo português.

No entanto, o responsável directo pela sua construção foi o então deputado e homem de letras, Almeida Garrett. Após a vitória e subida ao Governo de Silva Passos em 1836, este encarregou, e com clara pressa, o deputado de ser o homem da fundação e organização do novo Teatro. Em 1842, dar-se-ia o início das obras do imóvel exactamente no topo norte da Praça do Rossio, onde antes da tragédia de 1755 se situava o Palácio da Inquisição, mas que também foi o Paço dos Estaus e por fim o Palácio da Regência, como se pode contemplar num quadro a óleo do tempo das invasões napoleónicas, pertencente à família dos Viscondes de Benagazil.

Na noite de 13 de Abril de 1846, exactamente consagrada aos anos da Rainha D. Maria II (cumpridos no dia 4), (1) veria a luz da inauguração este belo imóvel arquitectado pelo italiano Fortunato Lodi, sendo modelada e esculpida toda a fachada e frontão pelo insigne discípulo de Machado de Castro, Francisco Assis Rodrigues, este em colaboração com António Manuel da Fonseca, ambos professores da Academia de Belas Artes.

A fachada principal do edifício sugere um templo grego, sendo guarnecida dum nobre peristilo classicizante sustentado por seis grandes colunas jónicas que haviam pertencido à fachada da desaparecida igreja de S. Francisco da Cidade, e o seu frontão que ostentava o Escudo Real foi substituído depois pelo grupo Apolo (ou Zeus) e as Musas, e encimado com as estátuas de Gil Vicente, de Tália e de Melpomene. O conjunto é equilibrado, harmonioso na sua elegância simples e fecha o Rossio com um fundo de romântica claridade, na luz marinha da manhã lisboeta.

Teatro, sofredor de dois incêndios em 1964 e 1978, com uma linguagem caracteristicamente neoclássica, influência vigente na intelectualidade desse período Oitocentista, com uma estrutura de templo romano, uma divisão tripartida e uso de silharia de junta fendida. Apresenta várias figuras da Mitologia greco-romana, terminando no frontão da fachada a estátua do “pai” do Teatro Português, Gil Vicente (1465? – 1536?).

Inaugurado levando a cena a peça Álvaro Gonçalves, o Magriço, ou os Doze de Inglaterra, da autoria de Jacinto Heliodoro de Faria Aguiar de Loureiro, desde que abriu portas o Teatro identificou-se com a oposição anticlerical que já vinha do Período Iluminista marcado pela regência de D. José I e o carisma forte do seu Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal. No entanto e aparte as contingências políticas da época, esta Casa Mãe do Teatro Nacional não está isenta de uma arquitectura sagrada, que vem completar harmoniosamente todo o quadro hermético, geo-gnóstico, portanto, sagrado, da Lisboa reconstruída após 1755.

A arquitectura neoclássica da fachada deste Teatro, para a maioria dos estudiosos e observadores reduz-se única e exclusivamente a um mero sentido estético próprio do “iluminismo esclarecido” do tempo, pelo que não passará de mera recreação lúdica dos seus autores!… Contudo, essas assertivas são desmentidas pelo notório da imagética mítica e mitológica que a fachada contém, toda ela encerrando uma linguagem simbólica embebida de vasto e profundo significado que se compreende pela variada iconografia esculpida, assumindo-se numa projecção global totalmente integrada.

O Período Iluminista foi bastante influenciado pelo Revivalismo Clássico que se expressou largamente pelos estudos das religiões dessa época (2). Tal facto parece não ter sido esquecido na reconstrução de Lisboa e, mais tarde, na construção do Teatro D. Maria II.

O culto aos Deuses no Período Clássico animou ou revigorou o impulsor psicossocial, com destaque para as Artes, sendo uma delas o Teatro. Contudo e a despeito dos acidentes político-sociais que percorreram quase todo o século XIX, surpreendentemente esse factor não foi esquecido neste imóvel, onde a transposição da Mitologia e dos Deuses cultuados remete-nos aos Mistérios Eleusinos do Período Helénico, mais concretamente ao Orfismo, de cunho altamente iniciático.

 

Orfeu e o Orfismo

 

Ao falarmos de Orfeu, o mito e a realidade desta personagem confundem-se constantemente, sendo difícil saber-se ao certo o que é verdade e o que é fictício justificando o cepticismo com que tem sido abordada, contrariamente ao que as recentes descobertas têm apurado.

A personagem de Orfeu é relatada pela primeira vez pelo lírico coral grego Íbico (grego Ibykos), no século VI a.C. mencionando-o como “o célebre Orfeu” e descrevendo-o como o principal poeta e músico da Época Heróica, ficando ao lado de Homero e Hesíodo (3). 

Contudo, já no século V a.C. o grego Onomácrito (compilador de oráculos) tinha compilado e interpretado versos atribuídos a Orfeu, reconhecendo aí um Movimento espiritualista inspirado nessa sua figura (4).

No entanto, seria através de Platão que se encontraria fortes indícios dessa Corrente espiritual, na sua obra magna República, entendendo tal facto como algo influenciador do pensamento clássico do mundo grego, e posteriormente, com os neoplatónicos, do mundo cristão. Todavia, parece que a maior influência que esta Corrente exerceu terá sido exactamente durante o Período Helénico, como está descrito no rolo de papiro (datado do século V a.C.) descoberto em 1962 em Dervani, região perto de Tessalónica (localizada na periferia da Macedónia Central, Grécia).

Debruçando-nos sobre a personagem, o relato que nos chega descreve Orfeu como um poeta e um músico magnífico, filho da Musa Calíope e de Oeagro (de acordo com outra versão, filho do próprio Apolo), a quem todos os poetas e músicos celebravam a sua cítara e lira de três cordas (tricórdio), esta que inclusive teria sido alterada pelo próprio Orfeu no número de cordas, de três para sete e depois para nove, diz-se que em homenagem às Musas de Zeus ou Apolo: Clio, Erato, Euterpe, Melpomene, Polímnia, Tália, Terpsícore, Urânia e Calíope, mãe de Orfeu. As notas saídas desse instrumento produziam maravilhas tanto nos homens como animais, transformando-os do mais feroz e atroz no mais calmo e pacífico dos seres.

No fundo, Orfeu era um Deus e Guia Educador da Humanidade, então desorientada numa civilização desvairada em declínio. Viajado, teria completado os seus estudos religiosos no Oriente e no Médio Oriente, e no seu retorno do Egipto trouxera consigo para a Grécia os Mistérios do Culto de Dionísio (Baco), por ele reformados e que deram lugar aos Mistérios Órficos. Respondeu ao apelo de Jasão, fazendo parte da tripulação da nau Argos que navegou ao Mar das Hespérides em demanda do Velo de Ouro, destacando-se um elemento bastante significativo durante essa viagem marítima ocorrido com ele: com o toque divino da sua lira permitiu acalmar os desentendimentos entre os Argonautas; dava a cadência musical aos remadores; entorpecia o Dragão da Cólquida, guardião do Tosão de Ouro; e superiorizava com a sua música o canto maléfico das sereias que levavam os marinheiros à morte. Após a expedição Argonauta, casou com a ninfa Eurídice, o seu grande amor que acabou por lhe dar tormentos e amarguras. Segundo o mito, Aristeu (filho de Apolo com a ninfa Cirene e que foi, segundo a Mitologia Grega, um pastor) tenta seduzir Eurídice, no entanto, esta não cede e inicia a sua fuga. Cirene, mãe de Aristeu, que assistia a tudo transmuta-se numa serpente e morde Eurídice, acabando por leva-la à morte. Amargurado com tal facto, Orfeu deixa de tocar e cantar velando-se num silêncio soturno. Resolve, então, descer ao Submundo para pedir a Hades que lhe devolva a sua Musa ao mundo dos vivos. Nesta descida, com o seu canto e lira encanta por completo o Submundo, conseguindo passar pelas dificuldades e perigos deste. Convenceu o barqueiro Caronte a levá-lo ao rio Estige, adormeceu Cérbero que vigiava os portões do Hades, encantou os vários monstros e aliviou os tormentos dos condenados. No final, chega ao trono de Hades, comovendo-o com a sua música. Desta forma, Hades e Perséfone concedem-lhe o seu desejo, porém, impondo-lhe uma condição: a de que não deveria de olhar para trás, para a sua amada, até que chegassem na face da Terra. Orfeu assim fez, subindo continuamente na companhia da sua música e cânticos até à luz que se avizinhava no fim do túnel. Já no final do trajecto, de forma a certificar-se que Eurídice estava atrás de si e saía segura das trevas, Orfeu olha uma única vez para trás. Ao dar-se esta acção, o que havia prometido acaba traído, acabando por ver a sua amada perder-se na escuridão para sempre. Orfeu tornou-se, após a segunda perda da mesma amada, um homem amargurado e frio não olhando mais para outra mulher. Mais tarde, o seu fim seria traçado com a sua morte tecida pelas Ménades (seguidoras de Dionísio ou Baco, que ficaram conhecidas como bacantes), esquartejando-o aos pedaços e lançando-os ao Rio Hebro. Ao longo deste a sua cabeça viria ao de cima, continuando a cantar eternamente, no movimento das águas, o nome de sua amada: “Eurídice”! A razão desta morte varia consoante as diferentes versões apresentadas do mito, contudo, em todas elas justifica-se pelo ciúme criado a Orfeu após a sua vinda do Submundo1 (5).

Contudo, para além do mito e doutrina órfica, convém analisar a situação religiosa antes de esta ganhar relevo no seio da sociedade grega. Anteriores ao aparecimento do culto de Dionísio na Grécia, as duas grandes religiões influentes eram a de Apolo e a de Deméter. Enquanto a primeira exprimia um carácter cívico, a segunda tinha uma essência iniciática, devocionada à Grande Mãe com os seus Mistérios Maiores e Menores.

Hoje, através dos testemunhos de Platão e do próprio Virgílio, podemos analisar a influência rica que este culto teve, nomeadamente nas fontes dionisíacas, pitagóricas, apolíneas e orientais, tornando-o num movimento religioso complexo.

O aparecimento do culto de Dionísio, viria trazer uma nova forma ritual influenciando as duas religiões existentes. Sendo a religião de Deméter apenas para alguns indivíduos, pois obrigava a uma iniciação, a religião oficial em grande parte da Grécia era a de Apolo. Assim, este novo culto báquico, de espírito selvagem ou belicoso, entrou naturalmente em conflito com a serenidade olímpica de Apolo.

Segundo o próprio mito de Orfeu, o culto de Dionísio teria sido trazido por este na sua viagem por terras do Egipto (6), no entanto outros autores defendem a sua origem proveniente da Trácia (2). Para além disso, Orfeu também está ligado mitologicamente a Apolo, pois havia ganho deste a sua lira. Neste sentido, e anterior ao culto de Dionísio, antes, de Baco, aspecto inferior daquele superior, a leitura que eventualmente se pode fazer baseia-se na crença que Orfeu havia sido um devoto ou sacerdote de Apolo, adoptando posteriormente a religião de Dionísio com o fim de renovar a religião oficial, resultando daí a associação de duas correntes de pensamento divergentes, a qual se nomeou de Orfismo.

No entanto, o Dionisismo, antes, Baquismo numa fase inicial caracterizava-se por práticas bárbaras e selvagens, acabando por civilizar-se (7). Com o nascimento do Orfismo, as suas diferenças acabaram por surgir. Enquanto no Baquismo o contacto com a Divindade seria através do consumo da carne crua e do vinho em abundância, o Orfismo defendia coisa totalmente diferente, entendendo o contacto com a Divindade exterior como desnecessário, visto entender o Homem como Ser cujo interior transporta a própria Centelha Divina. Este facto fica claro com a análise das lamelas que apresentam a inscrição “eimi Bakkos”, ou seja, “eu sou Baco” (8), justificando a diferença ritual entre ambas as correntes.

Como vimos, a teologia Órfica assumia a Divindade de Baco, no entanto opunha-se firmemente aos ritos selvagens do consumo imediato da carne e do sangue, transpostos para o tráfico sexual e a luxúria báquica, praticados pelos seguidores degenerados do mesmo Deus Baco. O Orfismo assumia o consumo da carne e do vinho como destinados exclusivamente aos homens, e não aos deuses, justificando o seu discurso com largas referências aos sacrifícios rituais sem excessos de carne e vinho como estavam expostos no panteão da Mitologia Grega, assim demarcando a superioridade dos deuses naturais sobre os homens recorrendo a artifícios inaturais. Este aspecto também justificava a prática vegetariana no seio da comunidade dos Órficos, como um dos meios de afastamento da condição humana e aproximação ao Divino. Além deste aspecto escatológico e soteriológico, o Orfismo opunham-se também ao colectivismo extasiado ou sensorialmente alterado dos ritos da religião de Baco, diferenciando-se desta através de um princípio individual e consciente, inalterado. Socialmente, a doutrina rejeitava todo o sistema religioso e político ditatoriais, tal como o mundo e a visão dominante do mesmo, opressora e conformista, nesse período (4).

A nova religião, o Orfismo, abraça a Catarsis apolínea (obtenção da Purificação). Contudo, não é com um sentido de purificação homicida, mas sim de purificação desta e da outra vida, ou seja, visando quebrar os ciclos das existências humanas, que o mesmo é dizer superar o ciclo das reencarnações, que os orientais chamam “Roda de Samsara”. Enquanto a religião apolínea ou solar tratava do “Bem Viver”, EUBIOTIKUS, a órfica ou mercuriana tratava do “Bem Morrer”, EUTANATOS (9).

A sua metapsicose ou metempsicose (transmigração da alma) assumia, dentro de uma visão dualista, a imortalidade da alma do homem presa num corpo reflector das culpas cometidas em vidas passadas. Portanto, o Orfismo assumia já a reencarnação, onde a morte física libertaria a alma imortal sendo reconduzida a um novo ciclo de vida superior, caso o indivíduo tivesse praticado toda a iniciação e purificação necessárias na vida passada. Neste sentido, a Filosofia Órfica distanciava-se bastante da religião oficial, mas aproximava-se muitíssimo do Pitagorismo (contudo, menos elitista), que também visava uma aproximação do homem ao Divino focando a importância da sua alma, e não apenas do corpo (4).

O corpus magisterial do Orfismo caracterizou-se pelo secreto, reservado apenas aos iniciados através dos Orfeotelestaí, os Sacerdotes que detinham os segredos órficos e viviam de forma marginal e mendicante. Era composto de uma moral, uma mística, uma liturgia e uma ascese. Era proibido o assassinato, a alimentação da carne, não podiam ser sepultados com vestes de lã, não podiam entrar em contacto com cadáveres ou em contacto com o “mundo da morte”, e eram obrigados a vestir-se de branco. Incluía não só a participação nos ritos e cerimónias, mas também penitências, jejuns e preces com vista a uma prática moral ascética (4).

No entanto, nesse período da História da Grécia o Movimento Órfico foi considerado pouco mais que uma seita, pelo seu carácter e carisma original de síntese das duas correntes opostas do pensamento religioso helénico, no que foi a maior influência na sua Arte, Filosofia e Literatura, e assim entraria no mundo helénico como a Religião dos Mistérios, a principal característica deste período. Além disso, na sua teogonia estabeleceu-se como um culto monoteísta, em tudo diferente dos mitos olímpicos vigentes, reformando o sistema religioso com a crença em um só Deus. Facto comprovado num papiro encontrado em 1962, afirmando o seguinte: “Zeus é o começo, o meio e o fim de todas as coisas”. A sua escatologia (ciência dos fins últimos do Homem) assume-se inalterável na aceitação da vida após a morte, simbolizada pela descida ao Hades (ou Amenti, Duat, etc., a que se chega após transpor o Rio Letes, que em Portugal é o Lima…) definindo a imortalidade da alma e a sua grandeza crescente pela evolução cíclica exigindo reencarnações, reforçada pela purificação do próprio corpo (9).

Os Mistérios Órficos não morreriam na Grécia Antiga, mas seriam perpetuados com novas reinterpretações teológicas tanto por judeus como por cristãos, fundando as novas fés monoteístas. Disso temos as evidências nos frescos das catacumbas romanas, representando Orfeu e Cristo; nos mosaicos do mausoléu de Gala Placídia, em Ravena; na própria Bíblia, o pecado original de Adão e Eva representam uma alegoria flagrante do crime primordial dos Titãs ou Raça rebelada contra Deus a quem sacrificam nessa Parelha Original do Género Humano; a consumação do Corpo de Cristo, na Eucaristia, associa-se simbolicamente à ideia do culto de Baco (donde Kristus-Baal); e tal como Cristo é o Filho de Deus, Apolo é o Filho de Zeus, é o próprio Zeus, etc. (9)

Posto tudo isso, cabe agora analisarmos por esse prisma helenístico a iconografia predisposta no Teatro Nacional D. Maria II, identificando a relação existente entre as diversas figuras mitológicas e percebendo o seu significado.

 

O Palco dos Deuses

 

A análise e compreensão deste Teatro tem partida numa base dualista que se exprime na conjugação dos opostos, e progressivamente toma a direcção da estrutura tripartida em que foi arquitectado o imóvel.

Quando olhamos para o frontão da fachada apresentam-se duas esculturas, da autoria de Francisco Assis Rodrigues, baseadas nas pinturas de António Manuel da Fonseca, o magnifico pintor do tecto inicial do Teatro (tendo também quadros expostos no Convento de Mafra) e que posteriormente, em 1894, Columbano Bordalo Pinheiro substituiu. Estas são representações de duas Musas de Apolo ou Zeus, Melpomene e Tália (10), caracterizando no conjunto significados opostos mas que no fim completam-se numa dicotomia harmonizada pela figura de Gil Vicente, como veremos mais à frente.

Melpomene apresenta-se como a Tragédia, e Tália como a Comédia, duas expressões fundamentais do Teatro, opostas na sua essência e representação. A Tragédia, em termos iconográficos, normalmente é acompanhada de uma faca, uma coroa de cipreste, coturnos e uma máscara trágica ou um tirso. É também a Deusa do Canto, como inicialmente foi cultuada, sendo a própria etimologia grega notória de tal: melpô ou melpomai, “celebrar com a dança e o canto”. No entanto, no caso em estudo, apresenta-se sem a dita máscara tendo no seu lugar uma taça. O interessante é esta máscara trágica encontrar-se no lugar contrário ao que seria suposto, ou seja, na mão da Comédia, Tália. Desta forma, verificamos que está aqui patente um significado e uma relação sub-reptícia entre as duas Musas. Do lado contrário, a Musa Tália – sendo também uma das três Graças seguidoras de Vénus (Aglaia, Tália e Eufrosina) – representa, como foi afirmado anteriormente, a Comédia, apresentando na sua iconografia uma máscara cómica (mas não sendo este o caso) e uma grinalda de hera.

No entanto, esse dualismo não está apenas nas duas esculturas mas também nos relevos da fachada, que estão maravilhosamente impregnados de mitologia clássica, e mais do que isso: têm o mesmo padrão relacional, ou seja, uma dicotomia que se completa na apreensão da globalidade iconográfica dos Deuses do Teatro. Além disso, os Deuses não estão isolados uns dos outros e o dualismo imposto não é o término do método de análise, mas sim o princípio da relação íntima e associativa entre todos eles, completando por fim a unidade de representação como um verdadeiro Palco dos Deuses. Analisemos.

 

A relação dos Deuses

 

As quatro figuras representadas na fachada do Teatro personificam a Noite e o Dia (10). Da esquerda para a direita, temos uma figura feminina com asas de morcego retendo no seu leito uma criança; na segunda, uma figura masculina também com o mesmo tipo de asas na companhia de um pequeno morcego pousado entre os dedos da sua mão direita. Todas as figuras têm algo em comum: ou estão a dormir ou possuem asas de morcego. Mesmo recorrendo à iconografia mitológica greco-romana, não é fácil identificar que figuras são essas aí representadas, no entanto, tudo leva a supor que a Noite, as Trevas ou o Submundo é algo com que temos de abordar em tal iconografia. Por um lado, a figura feminina na Mitologia Grega pode-se associar com Nyx, a Deusa da Noite, a qual teve vários rebentos, dentre eles Urano (Deus dos Céus). Quanto à figura masculina, podemos associá-la simplesmente ao Deus do Submundo, Hades, ou à figura de Thanatos (Deus da Morte), irmão de Hipno (Deus do Sono), justificando o facto de todas as personagens estarem a dormir, como também a Érebo (Deus das Trevas Primordiais), pai tanto de Thanatos como de Hipno.

Contudo, e independentemente das figuras mitológicas serem estas ou não, podemos concluir que todos estes elementos iconográficos frisam bem a Noite, no sentido do morcego ser um animal nocturno e a função de dormir surgir predominantemente neste período do tempo.

Do lado oposto, da direita para a esquerda, temos uma figura feminina com uma tocha na sua mão direita e na oposta acompanhada de uma caixa. Entre estas duas um arranjo serpenteante de flores. Além disso, a figura é acompanhada de um conjunto de asas de borboleta, prolongando-se estas com um rodopiar de vento e sobre a sua cabeça uma estrela de oito pontas. Por outro lado, a figura masculina detém na mão direita um par de setas, e na contrária um conjunto de flores. Apresenta um par de asas de anjo e a sua face direcciona-se para o lado da figura feminina.

Essas duas figuras transpõem o mito de Eros2 (esquerda) e Psikê3 (direita). Segundo a Mitologia, Psikê havia ficado destinada, pelo Oráculo de Apolo, a casar com um ser monstruoso, oposto à sua magnífica beleza. O Oráculo, que tinha sido influenciado por Eros, enviou Psikê a um belo palácio através dos ventos de Zéfiro (justificando o vento prolongado nas asas de borboleta) no qual estaria o seu futuro esposo. No entanto, coberto para não deixar revelar a sua aparência, o desconhecido esposo, Eros, mostrar-lhe-ia as maravilhas do amor dando-lhe prazeres incalculáveis, contudo, impunha-lhe a promessa de nunca lhe retirar o capuz que escondia a sua identidade. Mas a inveja humana cedo se revelaria no seio da relação, e ganharia ímpeto quando da visita das irmãs de Psikê ao seu palácio. Constatando a felicidade da sua irmã e o belo local em que vivia, começaram a conjurar sobre a aparência de seu esposo estimulando-a a querer saber a verdade. Isso levou esta a quebrar o seu pacto com Eros, onde durante uma noite, acompanhada de uma lanterna (simbolizada pela tocha) e de uma faca, para iluminar o seu rosto e em caso de ser um monstro o matar, acabou por ser surpreendida pela sua infinita beleza. Nesse momento e acordando de surpresa, Eros, irado pela traição que a sua amada acabava de fazer, vocifera repetidamente: O amor não sobrevive sem confiança! E afastando-se pelos ares da desilusão com um bater violento das suas asas de anjo, deixa Psikê na solidão e desespero do erro cometido.

É nesse momento que se inicia a demanda de Psikê na reconquista do amor perdido, Eros, a qual o artista transpõe, e muito bem, na fachada deste Teatro Nacional. O elemento iconográfico que elucida o início da traição é exactamente a tocha que iluminou o rosto de Eros, contudo a dita demanda só é transposta através da caixa que Psikê contém na sua mão esquerda. Na continuação da sua história mitológica, o desespero levou-a a pedir ajuda à Deusa do Amor, Vénus ou Afrodite, mãe de Eros, contudo, antes a beleza da mortal rivalizando com a sua imortal, enciumada dita-lhe quatro trabalhos que supostamente Psikê não teria sucesso em realizá-los, sendo esta uma malícia da Deusa com o intuito de a desgastar e apagar a sua beleza. No entanto, os Deuses ajudariam a mortal na sua reconquista, levando Vénus a ficar cada vez mais furiosa com tais sucessos, e tentou por cobro à pobre alma numa última tarefa: buscar a beleza de Perséfone (Rainha do Submundo) e trazê-la numa caixa.

Portanto, todo o conjunto Noite – Dia transpõe a lei do dualismo universal mas que no fundo apresentam uma relação mitológica que os unifica e dinamiza como opostos. Inclusivamente, as duas figuras femininas parecem ser o elo de ligação de tal relação, pois Nyx (Deusa da Noite) unida ao seu filho num sono tranquilo, exterioriza uma sensação de pureza divina e intocável, acabando por encobrir uma alegoria à alma humana adormecida, e que por fim se manifesta livre e imortal no romper de um novo dia, como o bater das asas da borboleta que se liberta do casulo na chegada de uma nova Primavera.

Relacionando ainda com os Mitos Órficos, não deixa de ser interessante que o seu culto apresentava exactamente os hinos de afirmação de Úrano (Deus dos Céus) como filho de Nyx, completando e relacionando-se mais uma vez aos Mistérios Helénicos de descensão e ascensão da alma, que a mitologia transpôs tanto em Orfeu como Dionísio ou Perséfone, e neste caso especifico, na própria Psikê, que após a sua descensão e cumprimento das tarefas é levada por Mercúrio (ou Hermes) à Assembleia Celestial onde é consagrada imortal.

Mas existirá alguma relação entre as quatro figuras que personificam a Noite e o Dia com Melpomene e Tália?

Sem dúvida que sim, pois Melpomene (Tragédia) com a sua faca simboliza a Morte, tanto física como simbólica, e está intimamente associada às Trevas, ao Obscuro, aos Infernos, ao Oculto, logo, à Noite, tornando-se a síntese de todo esse percurso interior, onde a Morte está sempre presente, como símbolo vivo ou realidade, no sentido de desprendimento ou falecimento de algo anterior já desnecessário, e portanto, morto para o interesse imediato. Pelo contrário, Tália (Comédia) está do mesmo lado que Eros e Psikê. Sendo esta última a detentora da tocha acesa, da luz, adquire um significado próprio, pois representa a Luz que o indivíduo penetra com o renascimento ou ressurreição do seu Ser após a morte corporal, encontrando a sua verdadeira Individualidade, a sua Alma até então adormecida (simbolizada pelo bebé a dormir). Desta forma, justifica a iconografia que a escultura da Tália detém: uma máscara na mão esquerda (sendo a máscara que retirou da face) e uma grinalda de hera (símbolo da vitória) na mão direita.

A imagem escultórica da Tragédia está muito bem relacionada com aquilo que Aristóteles, na sua Poética,  denominava de katharsis trágica, ou seja, a “purificação” ou “purgação” das emoções do espectador através da experiência de piedade e terror. No entanto, esta haveria sido já preconizada por uma katharsis ritual de carácter comunitário, com o sentido de “purificar” os venenos do ano anterior, pertencendo aos Mistérios do Deus Touro desmembrado de Dionísio que se tornaria o mesmo Mitra, cujo Mito é o mesmo de Cristo (11). Neste sentido, associando esta escultura ao culto de Baco ela não é apenas única e exclusivamente a Tragédia personificada, mas também, e principalmente, a katharsis trágica da purificação do corpo, da capa ou até da máscara que desvela a essência vital do sujeito. Incluindo o facto que esta está do lado da Noite, o seu significado vai de encontro aos Mistérios Helénicos cujos de rituais iniciáticos eram celebrados à meia-noite pelos discípulos de Orfeu na Grécia Antiga:

Meu tempo passou, o de servo: eu sou agora Iniciado de Júpiter Ideu. Onde os zagreus (ou devotos de Baco) da meia-noite erram, eu errei. Eu suportei o seu grito tempestuoso; frequentei os seus festins rubros e sangrentos; segurei a chama da montanha da Grande Mãe. Eu sou Liberto e chamado pelo nome “Um Baco” pelos Poderosos Sacerdotes. (12)

A questão que neste momento se coloca, prende-se com o facto de perceber que relação estas duas esculturas estabelecem na dinâmica da arte teatral e que significado filosófico resumem. Nesse sentido, passo a citar Joseph Campell e a sua magnífica meditação sobre tal:

Comparadas a isso, nossas pequeninas histórias de realização se afiguram dignas de pena. Conhecemos bem demais o amargor do fracasso, da perda, da desilusão e da não-realização irónica que corre até mesmo nas veias daqueles que o mundo inveja! Daí por que não estamos dispostos a atribuir à comédia o alto posto da tragédia. A comédia como sátira é aceitável. (11)

Debruçando nessas palavras, passamos a perceber a relação conceptual desta tríade de figuras e como estão relacionadas entre si. As figuras da Tragédia e da Comédia constituem termos de uma única realidade e experiência mitológica, apesar de opostas e antagónicas.  No fundo, são a queda e a ascensão (kathodos e anodos) que juntas constituem a revelação que é a Vida (11). Neste sentido, a figura de Gil Vicente é o meio-termo, o terceiro elemento moderador das duas realidades extremas e opostas, impondo-se no alto como a revelação de tal relação, sendo a sua magnífica Sátira o método de tal casamento.

Além disso, o génio que foi Gil Vicente na Cultura Portuguesa parece estar aqui transposto pelas obras que o imortalizaram e que também partilham desta visão tripartida, pois escreveu uma das mais famosas trilogias nacionais retratando exactamente as questões do Inferno, Purgatório e Paraíso. Refiro-me aos Autos da Barca do Inferno, Barca do Purgatório e Barca da Glória. No fim, tudo completa-se:

Por conseguinte, todas as figuras levam-nos à representação do Culto de Dionísio (Baco) que se encontra nas origens do desenvolvimento do Teatro Grego, sendo Melpomene os Coros (filologicamente, como vimos, Melpomene significa “coro”), Tália o Actor ou discípulo de Baco e Gil Vicente o Sátiro (companheiro de Baco). Nesta representação clássica do culto, todos os actores dispunham de máscaras colocadas nas suas faces, simbolizando a perda de individualidade, como também no coro, que canta em uníssono reforçando a mesma ideia de colectivo simplesmente como uma parte insignificante do todo, sem vontade individualizada. A individualidade só é atingida quando o Deus Baco assim o deseja (13), sendo esta vontade disposta nos elementos iconográficos que as figuras apresentam. Melpomene, com a faca e o copo, Tália, com a máscara retirada e a grinalda de Hera. A taça e a faca, interpretamos como o líquido de Baco (vinho) que adormece os sentidos para se mergulhar nas trevas interiores, na morte, para o encontro com a verdadeira Individualidade, alcançando-se a Luz (retirada da máscara da face) de forma vitoriosa (grinalda de hera), eliminando definitivamente a máscara profana e aparente. Gil Vicente é no fundo a síntese deste processo, caracterizando-se como Ser Iluminado e Divino que resulta de tal produto.

No entanto, sobra-nos ainda as restantes figuras que se completam e interligam com as anteriormente descritas. No conjunto das oito figuras que se encontram no interior do triângulo da fachada, a figura que se situa no centro é, sem sombra para dúvidas, o Deus Apolo, acompanhado do ícone que o caracteriza, a Lira, assumindo-se assim o Filho de Zeus, Deus dos Deuses, Deus Sol e Deus da Música.

A questão seguinte prende-se com a identificação das sete figuras femininas, segundo a sua iconografia particular. No entanto, a anterior descrição das figuras femininas Melpomene e Tália leva-nos a alguma elucidação. Sendo essas duas figuras mitológicas como duas das Musas de Zeus, percebemos que o conjunto de todas as figuras femininas constitui o número total das Musas protectoras das Artes e Ciências, regidas harmonicamente pelo Deus Apolo. Todo este quadro ganha vida na fachada.

As 9 Musas de Zeus ou Apolo, e Mnemósines (protectoras das Artes e Ciências) com as suas representações iconográficas, são:

Clio (“A proclamadora”, História) – Pergaminho parcialmente aberto.

Erato (“A amável”, Poesia Lírica) – Pequena Lira.

Euterpe (“A doadora de prazeres”, Música) – Flauta.

Melpomene (“A poetisa”, Tragédia) – Máscara trágica, uma grinalda e uma clava.

Polímnia (“A de muitos Hinos”, Música Cerimonial, Sacra) – Figura velada.

Tália (“A que faz brotar flores”, Comédia) – Máscara cómica e coroa de hera ou um bastão.

Terpsícore (“A rodopiante”, Dança) – Lira e plectro.

Urânia (“A celestial”, Astronomia) – Globo celestial e compasso.

Calíope (“Bela voz”, Eloquência) – Tabuleta e buril.

O problema da identificação é o facto da iconografia não ser sempre a mesma do ponto de vista escultórico ou artístico, variando de artista para artista, o que por sua vez limita a nossa aferição das figuras. Seja como for, se o observador ficar única e exclusivamente “agarrado” à descrição e identificação delas, poderá não “ver” ou compreender o que pretendem retratar ou transmitir, “silenciosamente”. A chave para tal está no Deus Apolo, pois sendo este o Deus da Música, o “véu” começa a levantar-se, conduzindo-nos à Matemática maravilhosa de que a Música é detentora.

Se o caro leitor olhar atentamente para um teclado de piano, verificará que este detém várias teclas brancas e negras, estabelecendo-se sob uma determinada ordem ao longo do espaço. Respectivamente, estas teclas são designadas de naturais (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si) e de acidente (Dó #, Ré #, Fá #, Sol # e Lá # e Ré b, Mi b, Sol b, Lá b e Si b), e constituem os tons4 e os meio-tons (sustenidos, #, e bemóis, b,) da escala musical. No entanto, se repararmos na escala verificamos que existe uma falha entre um tom e um meio-tom, nomeadamente entre nas notas Mi e Fá, fazendo a ordem estabelecida ficar com uma “ligeira imperfeição”. Qual a razão misteriosa que leva a escala musical a não possuir um meio-tom? Independentemente do mistério, o que realmente interessa neste momento analisar é o conjunto escultórico e a sua relação com a escala musical. Há no fundo uma correspondência entre as Musas de Zeus e as notas da escala musical.

Quando contamos da direita para a esquerda (ou o contrário, analisando em espelho), temos 3 Musas, correspondendo às três primeiras notas antes da ausência do meio-tom, ou seja, Dó, Ré e Mi, e após o Deus Apolo quatro Musas como o Fá, Sol, Lá, Si. Por fim, o Deus Apolo constitui a própria oitava como síntese de todas as Musas ou notas. Revela-se assim, através da pedra branca, uma verdadeira “música silenciosa” audível (antes, visível) apenas às almas mais atentas.

E porque ser a Música a forma de Revelação? Para essa resposta faço uso das palavras de Beethoven:

A Música é uma Revelação muito mais sublime do que toda a Sabedoria ou Filosofia. Ela é a única introdução incorpórea no Mundo Superior do Saber, esse Mundo que rodeia o Homem, cujo significado interior não se percebe por conceitos reais; a parte formal daquela é simplesmente o veículo necessário que revela, por meio dos nossos sentidos, a vida espiritual. (14)

Assim, mais uma vez, as peças de todo o imóvel interligam-se e ficamos a perceber a razão do autor escolher as sete Musas em conjunto com o Deus Apolo representando a Música como a síntese de todas as Artes e Ciências, revelando-se como a Sabedoria Suprema na condução sublime do indivíduo aos estados superiores de Consciência.

Contudo, não esquecendo que Apolo também é o Filho de Zeus, o Absoluto cujo Primogénito é esse Deus Sol, este conjunto está inevitavelmente associado ao espectro da luz e às suas sete cores constituintes. Estas assumem-se primeiro como uma tríade, amarela, vermelho e azul, e posteriormente como um séptuplo com mais quatro cores: laranja, verde, índigo e violeta. Portanto, temos no geral um duplo significado que se assume tanto cromaticamente como musicalmente. Além disso, a relação luz e som é evidente no próprio termo – escala cromática – utilizado tanto nas referências à cor como nas doze cores do círculo cromático, definindo assim cores frias e quentes, como na soma das sete teclas naturais com as cinco acidentais.

 

Teatro e o Acto do(s) Deus(es)

 

Toda esta relação é dada pela origem da palavra Teatro, derivada do grego theaomai, que significa “olhar com atenção, perceber, contemplar” (15), e não ver apenas no sentido superficial e comum, mas sim como uma experiência intensa, envolvente, meditativa, inquiridora com o fim de descobrir o significado mais profundo do objecto ou cena que se observa.

Inclusivamente, sendo no Teatro a plateia o espaço atribuído ao espectador, a sua relação com o palco e o acto constituem uma dinâmica entre o representado e o imaginado, sob outras formas, pelo espectador, acabando por se exprimir sob uma tríade teatralquem vê, o que se vê, e que se imagina (16). Neste sentido, ganha ímpeto a tríade anteriormente referenciada com a Tragédia, a Comédia e a Sátira, expressivas das origens litúrgicas dionisíacas do Teatro.

A música e a representação de palco são a união perfeita no reforço de toda a intensidade do acto transposto ao espectador. Neste palco de pedra, neste frontão acaba-se por unificar os actos divinos dos Deuses oriundos dos Mistérios Helénicos, nomeadamente Baco e Apolo, sendo a sua síntese o próprio Deus Orfeu, o Deus dos Mistérios do “Sol da Meia-Noite”, ou seja, o Sol Mercuriano que assiste desde o Centro do Mundo a toda a Criação. Orfeu é o próprio Deus Mercúrio (a quem, de certa forma, é consagrada a Sé Patriarcal de Lisboa). No entanto, esta síntese transpõe um acto único conciliador de todo o imóvel e de todos os Deuses numa síntese perfeita de alegorias mitológicas, materializando-se aos olhos do observador a Omnipresença, a Omnisciência e a Omnipotência de Deus, ou antes, o ACTO DE DEUS, sob os conjuntos do TEATRO, a TRÍADE TEATRAL (TRAGÉDIA/SÁTIRA/COMÉDIA), e as SETE MUSAS&APOLO, reflectindo-se assim através do número cabalístico 137 (que lido anagramaticamente como letras, dá a palavra LEI). Podemos analisar da seguinte forma:

Reflectindo um pouco sobre este número, verificamos que toda a Lisboa, especificamente a Baixa Pombalina, está construída numa disposição concreta em que nada foi posto ao acaso. Na minha humilde e simples opinião, o Teatro Nacional D. Maria II está relacionado geo-gnosiologicamente com as Praças do Rossio, Figueira, Terreiro do Paço e as Ruas da Baixa Pombalina.

O número cabalístico de Deus, segundo a Tradição Judaica, pode ser analisado perfeitamente através do candelabro de 7 luzes, mais conhecido por Menorah. Esta simboliza o ideal da Iluminação Universal, transpondo mais uma vez a noção de Luz e Iluminação à cidade de Lisboa, não só fisicamente mas também gnosiologicamente, para que o símbolo valha como expressivo de realidade viva, e não coisa morta à mercê mil e mais interpretações segunda entenda cada um e cada qual. Quando olhamos de perto para o candelabro verificamos um (1) pé com três (3) braços, cada um terminando com um luzeiro, perfazendo no total sete (7) luzeiros, completando assim o 137.

A relação existente entre as Praças e a Menorah, baseia-se na figura geométrica estabelecida entre as Praças do Rossio e da Figueira, unidas no cumprimento maçónico esculpido na esquina da Rua do Amparo, com o Cais da Colunas Tágides, no Terreiro do Paço indo dar um triângulo invertido, o qual interliga com um triângulo vertido no mesmo Terreiro cujos ângulos estão nos dois Torreões laterais e na rosácea no topo interno do Arco da Rua Augusta. O conjunto esquissa exactamente o Hexagrama (17). Ora, este símbolo representa a união dos opostos, o Celeste com o Terrestre, o Espírito com a Matéria, o Activo com o Passivo, etc. No fundo, traduz a grande “deixa” hermética – O que está em cima é como o que está em baixo – de Hermes Trimesgisto, para que se cumpra o milagre da unidade, ou seja, a união do Homem com o Divino, expressando a sua Iluminação Interior após se transformar de Vida-Energia em Vida-Consciência, tornando-se assim num Indivíduo mais Justo e Perfeito, um verdadeiro Actor sem máscara no palco cénico da Vida Universal.

Na complementaridade do hexagrama formado no Terreiro do Paço e do simbolismo do candelabro, transpostos às alegorias mitológicas na fachada do Teatro D. Maria II, temos no plano intermédio as ruas da Baixa Pombalina. Estas, na sua disposição tipicamente medieval (18), estando os ofícios cruzados com os santos, em sete ruas horizontais e verticais demarca através das Ruas Augusta, do Ouro e da Prata um símbolo, a que Olímpio Neves na sua Lisboa à luz dos seus Arcanos, revelou tratar-se de um caduceu. Tradicionalmente, este apresenta-se com duas serpentes, branca e negra (Sol e Lua, Ouro e Prata), entrelaçadas ascensionalmente ao longo de um bastão (o bastão de Hermes), terminando viradas uma para outra em sentido oposto e com duas asas de anjos no seu topo. Este signo mercuriano representa o Deus Hermes da Grécia Antiga, o Mensageiro dos Deuses, o Portador do Verbo, o Anjo da Palavra com que liga (e desliga) o Céu e a Terra, sendo a referência mais importante da linguagem hermética e que inclusive caracterizou a aparição da figura do Patrono da Alquimia, já anteriormente referido, Hermes Trimesgisto, o “três vezes Grande”.

Assim, no conjunto temos o Deus Hermes unido à Menorah acabando por guiar, sob o silêncio místico da pedra, as almas no regresso à sua Mónada Divina, que é a Divina Morada Final de um, de todos e de tudo. Desta forma, todo este quadro é um verdadeiro Symbolicarum Quaestionum, obra do século XVI a qual assume o Deus Hermes como Harpócrates (Deus do Silêncio), assim o retratando como Mistagogo, “aquele que inicia o neófito no propósito dos Mistérios”, neste caso, nos Mistérios da cidade de Lisboa. E de facto toda a Lisboa é um Corpus Hermeticum que se manifesta numa verdadeira Arte Real, que labora sob a retorta silenciosa da pedra branca, culminando na transmutação metálica que completa o magistério da Opus Magnum Olisiponense, em todo o seu esplendor universal de Caput Mundi, a “Cabeça do Mundo”, a Cara da Europa, a Capital do Quinto Império.

 

Os Mestres da Obra

 

O caro leitor neste momento estará a questionar de que forma é que toda esta iconografia e significado implicado no imóvel estarão relacionados com a Tradição Cabalística judaica?

Nesse sentido, a resposta pode orientar-se hipoteticamente para a Sociedade Tradicional, com enorme influência na Sociedade Portuguesa no decorrer do século XIX, designada de Maçonaria. Esta, de espírito tradicional e fraterno, cuja simbólica é sempre e só de fundo cabalístico e alquímico, com base na Sabedoria Iniciática das Idades aplicada como Teurgia (Theos+Ergon, em grego, “Obra de Deus”) e ministrada como Teosofia (Theos+Sophia, em grego, “Sabedoria Divina”), aplica-a para o exercício espiritual com o intuito de levar o adepto à transformação da sua “pedra bruta” em “pedra cúbica pontiaguda”, designando-a assim de Arte Real. Desta forma, a simbólica cabalística em si permite-nos compreender o porquê da sua existência, e neste caso específico, a sua presença no Teatro D. Maria II.

Analisando os personagens que foram os responsáveis pela motivação e construção do imóvel, verificamos que as suas assumidas ligações à Maçonaria, e tal facto possibilita-nos a suposição da influência do espírito tradicional desta que eles transpuseram na ornamentação arquitectónica e escultural do edifício. Inclusivamente, a ligação de membros maçónicos às Artes já é pública e conhecida, principalmente nesse século XIX, tendo como exemplos Eça de Queiroz e Rafael Bordalo Pinheiro, este o impulsionador do Teatro da Trindade (ver o meu estudo já publicado na Lusophia: Um Rito Oculto numa Colina Sagrada).

O setembrista Manuel da Silva Passos, homem formado em Direito na Universidade de Coimbra, político de reputação esquerdista e combatente a favor da regência de D. Pedro IV, toma a Pasta do Reino em 1836 em consequência da sua liderança na Revolução de Setembro, durante a qual estabelece uma reforma abundante em termos legislativos e educacionais, terminando o seu cargo em 1837. No entanto, foi também iniciado na Maçonaria, numa Loja de Coimbra, sob o nome simbólico Howard, iniciando aí um percurso que o levaria a Grão-Mestre no Norte, no Porto, entre 1834 e 1852 (19).

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (Porto, 4.2.1799 – Lisboa, 9.12.1854), escritor afamado, político e orador, distinguiu-se sobretudo pela primazia no Teatro dramático em Portugal. É o “pai” ou promotor do Teatro dramático português. Liberal perseguido pelos absolutistas, tornou-se deputado em 1851-52, chegando a Ministro dos Negócios Estrangeiros em 1852. Foi, de facto, iniciado na Maçonaria (Rito Escocês Antigo e Aceito) nos fins de 1817 ou inícios de 1818, possivelmente na Loja coimbrã Sapiência, com o nome simbólico de Múcio Cévola. Em 3 de Fevereiro de 1821 funda em Coimbra a Loja Keporática ou Sociedade dos Jardineiros, do REAA mas com ligações à Carbonária. Contudo, mais tarde, Almeida Garrett ter-se-á afastado da prática maçónica, adoptando um ponto de vista bastante crítico sobre ela (20).

Francisco de Assis Rodrigues (1801-1877), filho de Faustino José Rodrigues e D. Febronia Rosa do Carmo, teria um talento nato para as Artes, o que levou aos 11 anos de idade ser matriculado em Lisboa como discípulo na Aula e Laboratório de Escultura, na altura adicionada à Repartição de Obras Públicas, no Convento dos Caetanos. Nesta formação, viria a conhecer o insigne Joaquim Machado de Castro, substituto de seu pai naquele período. Completaria os seus estudos de Desenho e Escultura, como também de Línguas Francesa e Italiana, aos 22 anos de idade, passando a 30 de Dezembro de 1823 a ajudante da referida Aula. Tornar-se-ia professor proprietário da Academia de Belas Artes, em 25 de Outubro de 1836, por decreto-lei da fundação da instituição, e em 7 de Maio de 1845 seria elevado a Director Geral da Academia, por falecimento do doutor Francisco de Sousa Loureiro (21).

Acabaria por nutrir uma excelente admiração por Machado Castro, a ponto de escrever em 17 de Novembro de 1842 uma breve biografia (22) do mestre na famosa Revista Universal Lisbonense, dirigida pelo seu amigo António Feliciano Castilho. Semanário generalista no qual figuras ilustres da sociedade portuguesa deixaram o seu registo, como Camilo Castelo Branco (Maçom), Alexandre Herculano (Maçom), José da Silva Mendes Leal (Maçom?), Bulhão Pato (Maçom), e também Almeida Garrett (Maçom). Por conseguinte, o interessante e curioso foca-se na data de início das obras do Teatro, 1842, sendo o ano de edição do primeiro volume da revista, 1841, portanto, bastante próximos um do outro, levando à dedução de como essa edição poderia constituir um importante ponto de encontro, do ponto de vista cultural e intelectual, inclusivamente em 1842 a revista disponibilizando aos seus assinantes, gratuitamente, uma sala de leitura, onde se encontravam “todos os jornaes portuguezes, e grande numero de inglezes, francezes, hespanhoes, e allemães, entre os quaes muitos litterarios e scientificos” (23). Portanto seria, sem sombra de dúvida, foco cultural importante para a camada intelectual do século XIX lisboeta, apesar da sua ideologia ser a da abstenção total em assuntos políticos (partidários e governamentais).

Relativamente ao seu trabalho no Teatro D. Maria II, as estátuas da Tragédia, Comédia, as quatro fases do Dia e Noite, Apolo e as Musas são do seu modelo e direcção, baseadas nos desenhos de António Manuel da Fonseca. Esta escolha do pintor é justificada, em parte, pelo facto da Pintura Portuguesa estar já marcada por várias correntes estéticas, levando ao abandono progressivo de temas relacionados com a religião e a mitologia, abordando temáticas como a Revolução Francesa, associada ao Liberalismo e Laicismo, partindo para outras sensibilidades estéticas, demarcando assim ainda mais a importância das suas obras (24). A estátua de Gil Vicente, seria a única e exclusiva de sua invenção e composição.

As evidências encontradas relativamente à ligação entre os principais intervenientes do Teatro Nacional D. Maria II, mostra-nos como a influência da Tradição Cabalística judaica apresenta um senso e uma lógica de existir em termos simbólicos e artísticos. Assim, todo o imóvel teve o sincretismo perfeito para ser concebido de tal modo, aliado à capacidade de liderança e poder politico de Manuel Passos, ao excelente génio e culto das Artes e Letras de Garrett, que foi quem propôs a edificação deste Teatro Nacional, que em seu tempo era o Teatro Normal, associados à arquitectura italiana de Fortunato Lodi e aos homens orquestradores da Pintura, António Manuel da Fonseca, e da Escultura portuguesas, Francisco de Assis Rodrigues, resultando por fim um “palco” teatral comandado pelos Deuses transpostos num só acto silencioso de pedra.

 

NOTAS

 

1 Uma das versões descreve que após perder Eurídice, Orfeu desinteressa-se por mulheres e volta-se para a homossexualidade (aspecto mitológico explorado dramaticamente pelas interpretações psicanalistas, indiscriminadoras inveteradas da profundidade e significado da própria Tradição de quem são anti-tradicionais e contra-iniciáticas), as Ménades enciumadas, para se vingarem assassinam-no. Outra versão, afirma que esta tragédia dá-se porque após a sua vinda do Submundo Orfeu revolta-se contra Boco/Dionísio, recaindo novamente no culto de Apolo. O deus do vinho e das bacanais, enciumado com essa transgressão, incita as bacantes a assassiná-lo. A verdade é que os Mistérios Órficos são ritos solares e o que Orfeu fez foi rectificar o Culto Dionísico fazendo-o volver à pureza original, e com ele restituir a pureza e sabedoria às suas apolíneas virgens sacerdotisas que entretanto se fizeram feiticeiras decadentes apóstolas da “prostituição sagrada”. O culto bacante revoltou-se contra o culto solar e assassinou o seu líder, Orfeu, fundador da Escola dos Mistérios Órficos.

2 Eros, em grego significa “Amor”, “Espírito”. Segundo a Mitologia Grega, era o Deus do Amor que mais tarde ficou transposto pelos Romanos para Cupido, mantendo o tanto elemento iconográfico da seta como das asas, sendo adicionado o arco.

3 Psikê, em grego, significa “Alma”, mas também “Borboleta”. Transpondo o conjunto, a imortalidade da Alma alcançada após a “morte”, igualando-se à borboleta que após uma vida rastejante como lagarta liberta-se na fluidez dos ventos anunciadores da Primavera.

4 Tom: corresponde à diferença de altura entre duas teclas brancas do piano quando há uma tecla preta entre elas ou ainda entre duas teclas pretas.

 

BIBLIOGRAFIA

 

(1) História do Teatro Nacional D. Maria II / Gustavo de Matos Sequeira. Lisboa [s.n.], 1955.

(2) Von Glasenapp, Helmuth (1978), Religiões não-cristãs. Tradução Mariano Marques e Sebastião Ayres. Editora Meridiano.

(3) Lourenço, Frederico; vários. Poesia grega – de Álcman a Teócrito. Lisboa, Ed. Cotovia, 2006.

(4) Oliveira, A. C. (2004), Orfismo, uma nova dimensão do homem grego. Revista Ágora Filosófica. Ano 4 • n. 2 • Jul./Dez.

(5) Joël Schmidt; trad. João Domingos; rev. José Ribeiro Ferreira (1994). Dicionário de mitologia grega e romana. Lisboa, Edições 70.

(6) Rogério Sousa (2009), Iniciação e Mistério no Antigo Egipto. Ésquilo Edições e Multimédia Lda.

(7) Jean-Pierre Vernant, Mito e religião na Grécia Antiga, p. 82. Trad. de Constança Marcondes César. Campinas, Ed. Papirus, 1992.

(8) Jacyntho José Lins Brandão, O orfismo no mundo helenístico. In Carvalho, Silvia Maria S. (org.), Orfeu, orfismo e viagens a mundos paralelos. São Paulo, Ed. Universidade Estadual Paulista, 1990.

(9) Brandão, Junito de Souza (1987), Mitologia Grega, 3 vols., Ed. Vozes, Petropólis.

(10) Laborde Ferreira e V. M. Lopes Vieira, Estatuária de Lisboa. Ed. Língua Portuguesa, 1985.

 (11) Joseph Campell, Herói das Mil Faces. Pantheon Books, Princeton University Press, 1949.

(12) Eurípides, The Cretans, frag. 475, apud Porfírio, De abstinentia, IV, 19, tradução de Gilbert Murray.

(13) Larry Alderink, Creation and Salvation in Ancient Orphism. American Classical Studies 8, Scholars Press, 1981.

(14) Vitor Manuel Adrião, Portugal, os Mestres e a Iniciação. Via Occidentalis Editora Ltda, Lisboa, 2008.

(15) Enciclopédia Britannica, 1990, vol. 28:515.

(16) Robson Camargo, O Espetáculo do Melodrama. ECA/USP 2005, tese de doutorado, 2005.

(17) Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta (Capital do Quinto Império). Via Occidentalis Editora Ltda, Lisboa, 2007.

(18) Dejanirah Couto, História de Lisboa. Ed. Gótica, Lisboa, 2008.

(19) Maria Fátima Bonifácio, “Passos, Manuel da Silva (1801-1862)”, in Dicionário Biográfico Parlamentar 1834-1910; Maria Filomena Mónica (coord.), Volume 3, Imprensa de Ciências Sociais, Assembleia da República, Lisboa, 2006, pp. 184-187.

(20)  A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, I, p. 632. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

(21) Diccionario bibliographico portuguez. Estudos de Innocencio Francisco da Silva, aplicaveis a Portugal e ao Brazil. Lisboa, Imprensa Nacional, 1858-1923. A Imprensa Nacional – Casa da Moeda publicou em 2000-2005 uma edição fac-similada da princeps.

(22) Commemoração, ou breve biographia do insigne professor Joaquim Machado de Castro. Inserta na Rev. Universal Lisbonense, n.º 9 de 17 de Novembro de 1842.

(23) Rita Correia, Revista Universal Lisbonense. Câmara Municipal de Lisboa, 2006.

(24) Tiago Alexandre & Asseiceira Moita, O Mistério do Natal na Pintura Portuguesa. Editora Paulus, 2009.

 

Créditos fotográficos: Hugo M. D. Martins.