Se és maçom sou muito mais que maçom – eu sou templário!

Fernando Pessoa, poema São João

Quando se fala em Maçonaria actualmente, o mundo profano, leigo e laico, pensa de imediato numa agremiação semi-secreta de politólogos e intelectuais quase exclusivamente preocupados e inconformados com algum e todo o sistema sócio-económico que não seja exclusivamente o seu. Na perspectiva restrita da visão profana, aliás sendo a única dos inimigos da Ordem Maçónica, inclusive por parte de certos sectores religiosos, ainda assim isso é relativamente verdade, e verdade porque:

a) A Maçonaria ao deixar de ser Operativa, a partir dos inícios do século XVIII (24.06.1717) foi invadida por elementos humanos aburguesados cuja maioria não possuía a mínima qualificação espiritual, verdadeiramente iniciática, que a viriam a transformar numa sociedade especulativa, teórica e simbólica.

b) Isso aumentou no século XIX e cimentou-se no século XX, razão porque hoje poucos maçons, sendo os muitos uma “casca sem fruto”, sabem realmente o que seja a Maçonaria Iniciática e qual foi o seu Passado glorioso cujas Luzes a esse iluminaram.

Nisso se baseiam os inimigos, abertos ou velados, da Maçonaria, obviamente nada sabendo do que ela seja realmente, sendo facto incontestável que a maioria dos detractores nunca pisou o chão de uma Loja maçónica, consequentemente, nada sabe do seja efectivamente o Espírito Tradicional Maçónico, com o seu complexo sistema de símbolos e emblemas repartidos ao longo de 33 Graus (no Rito Escocês Antigo e Aceite) e que vem a constituir o seu corpus doutrinário efectivo, interpretado segundo a capacidade moral e intelectual de cada maçom.

As raízes iniciáticas da Maçonaria valem infinitamente mais que as suas aparências mundanas d´hoje e perpassam a toda a linha todo e qualquer conceito e preconceito dela ser mera «agremiação de políticos ambiciosos e intelectuais especuladores, sem mais e nenhuma valia tradicional ou espiritual». Essas raízes assentam nos primitivos Templos do Egipto e da Índia, chegando mesmo aos tempos da longínqua Atlântida. Nessas épocas de fausto espiritual houveram verdadeiras Confrarias Iniciáticas cujos participes conheciam os segredos do Espírito e da Matéria, e, como grandes construtores, a eles se devem os sumptuosos templos, palácios e castelos moldados segundo os arquétipos da Beleza Universal, os quais se espalham pelo mundo recuando a veneranda Antiguidade perdendo-se na poeira dos tempos.

Os homens e mulheres iniciados operáticos constituíam sempre, em toda e qualquer Confraria verdadeiramente Iniciática, a facção operativa do Trabalho da Matéria, detendo os segredos da Arquitectura Sagrada, Arte Real herdada dos primitivos Rishis ou Reis Divinos da fadada Atlântida, esta que no mapa antropológico preencheu o Terciário e boa parte do Quaternário. Essa facção operática possuía os seus símbolos, sinais de reconhecimento e palavras de passe, para os membros efectivos se reconhecerem entre si e saberem quem era dos seus e quem não passava de estranho no seu meio, assim descartando o risco de eventualmente os segredos d´Arte caírem na posse de profanos despreparados. Esta é a origem e finalidade exotérica da simbologia visual, gestual e verbal da Maçonaria. A finalidade esotérica aplica-se ao desenvolvimento da consciência através desses mesmos símbolos correspondendo a realidades de ordem espiritual e a estados afins de realização consciencial.

A facção operativa no plano imediato, portanto, MAÇÓNICA, constituía-se na vertente avançada defensiva ou TRIBUTÁRIA daquela outra interna que era a TEMPLÁRIA, destinada à Obra subjectiva no Plano do Espírito, sendo a verdadeira Matriz dos construtores livres cujos conhecimentos provinham directamente do Templo.

Posto assim, a MAÇONARIA estava para o Plano da Matéria (Prakriti, assinalado pelo esquadro) e o TEMPLARISMO para o Plano do Espírito (Purusha, indicado pelo compasso). Dessa maneira vê-se, na Idade Média, a Igreja ao lado dos monges-construtores – herdeiros dos conhecimentos dos antigos Collegia Fabrorum romanos – tendo como Patrono São João Baptista, vindo a nascer dessas agremiações operativas medievais as Lojas de São João, na época chamadas Confrarias que, mesmo sendo maioritariamente eclesiais, não deixavam de abrigar liberi muratori, isto é, construtores livres. Tal facto ainda hoje está assinalado simbolicamente na chamada Maçonaria Azul, composta dos primeiros três Graus fundamentais, que no Passado eram os únicos: MestreCompanheiro Aprendiz.

Esses três títulos eram inicialmente os designativos do Ofício de Construtor (em inglês, freemason, “pedreiro livre”; em francês, maçon, “pedreiro”; em grego, tekton, “construtor”, ou arke tekton, “arquitecto”. São José, pressuposto “pai” de Jesus, era um arke tekton, mas que os tradutores da Escritura do grego para o latino interpretaram como “carpinteiro”, invés de “arquitecto”. Mesmo assim pode-se interpretar como sendo aquele que levanta traves sobre as pedras do Templo do Supremo Arquitecto), e ainda hoje são utilizados na construção civil: OficialServenteAprendiz.

Convento de Cristo, Tomar – Vestígio da primitiva Maçonaria Operativa

Maçonaria é, pois, a Bela Arte de fazer cantar a pedra e soerguer madeiros no alevantamento do Templo do Eterno Deus Vivo, Único e Verdadeiro, reflexo do Templo de Luz ou Jerusalém Celeste que é a Alma aprimorada de cada Obreiro, e tal vai ao encontro do próprio significado etimológico de Maçonaria que, em sua essência última, é Maha-Sun, a Grande Luz.

A função psicossocial da Maçonaria Especulativa, motivo principal da sua fundação no século XVIII, era a de laborar pela regeneração mental e moral do Género Humano ensinando-o a lapidar a pedra bruta da sua personalidade mortal na pedra cúbica da sua individualidade imortal, indo assim lançar as sementes no terreno social capazes de frutificarem como uma Sociedade Humana mais Justa e Perfeita que a actual. Isso em conformidade aos ensinamentos promanados da Igreja, ou melhor, do Templo, dessa maneira tendo o Poder Temporal vassalando a Autoridade Espiritual, sendo essa a razão objectiva da Maçonaria também ser designada Arte Real antes de 27.12.1774, quando o Grande Oriente de França lhe alterou o nome para Franco-Maçonaria.

É a própria Helena Petrovna Blavatsky (in As origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria) a corroborar quanto venho dizendo:

«Ainda que não se possa reportar ao testemunho da História, é no entanto um facto histórico – pois um grande número de factos relatados pelos antigos escritores o corrobora – ter o Ritual da Igreja e da Franco-Maçonaria brotado da mesma fonte e se desenvolvido de mãos dadas…

«A Maçonaria era simplesmente, em sua origem, um Gnosticismo arcaico ou um Cristianismo esotérico primitivo.»

Ora a Cristandade medieval possuía como depositária do seu Espírito Tradicional a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, vulgo Ordem dos Templários (1118-1312), que apadrinhou e protegeu a Maçonaria Operativa dos Monges-Construtores (a maioria da Ordem de São Bernardo de Claraval), estes que deixaram à posteridade o seu legado espiritual talhado na pedra muda e esfíngica das grandes catedrais românicas e góticas. Dos Monges-Construtores saíram os Mestres-Canteiros e mesmo os Rosa+Cruzes no início do século XIV, os quais perduraram brilhantemente até ao final do século XVII, surgindo no segundo decénio da centúria seguinte (1717), já devidamente organizada, a Maçonaria Especulativa, cujas bases filosóficas originais eram sobretudo teúrgicas e alquímicas, gnósticas e cabalísticas, como se irá verificar mais adiante, sendo essa a herança tradicional das suas antecessoras.

Ainda este ano (2010) tive oportunidade de responder numa carta pessoal o seguinte que vem ao encontro deste tema:

«Os primitivos Monges-Construtores tendo recolhido nas fontes gregas neo-pitagóricas os saberes tradicionais da geometria e aritmética que aplicaram na geomância indo resultar na chamada arquitectura sagrada que caracteriza a feitura e disposição canónica dos grandes monumentos do românico e do gótico, assim como a orientação de palácios e castelos e a própria disposição geomântica dos burgos medievais o que se acha conformado aos princípios geomânticos das leys, estabelecendo as normas para a inter-relação entre o Visível e o Invisível, o Mundo Humano e o Espiritual, dizia, todos esses conhecimentos teóricos e práticos faziam parte do corpus primitivo da chamada Maçonaria Operática dos ditos Monges-Construtores, que não se chamava “Maçonaria” (termo francês tardio exportado para o inglês) mas “Arte Real”, sobretudo por esses religiosos eruditos estarem aos serviço das Coroas, apesar de isentados da chancela das mesmas que se limitavam a proteger política e juridicamente esses vassalos do Papa chefe supremo da Igreja a que pertenciam. Isto como facto objectivo indesmentível, mas que não é a única explicação. Arte Real é também nome dado à Alquimia como Suprema Arte cuja realeza estava em saber marear os elementos e fazer cantar a pedra com que se ergueram templos e castelos a partir da fundamental…

«Primeiro PEDRA BRUTA ou TOSCA, que ficava a cargo do aprendiz da Arte encarregue de a desbastar, para depois ser PEDRA POLIDA ou CÚBICA pelo servente do oficial ou mestre pedreiro que a dispunha no lugar certo, tudo em volta da PEDRA ANGULAR “nó górgio” de todo o edifício. Esses Monges-Construtores, imbuídos das ideias gnósticas exportadas da bacia mediterrânica, sobretudo da Grécia, para a restante Europa, cedo aliaram o aspecto teologal ao sapiencial do Hermetismo, implantando formas grotescas do bestiário medieval em lugares estratégicos dos monumentos, acrescentando ao sentido imediato de catequese o substrato de gnose. É assim que aparecem em muitos templos e castelos símbolos e emblemas retratando a ideia de Paraergon (Alquimia) e Ergon (Teurgia), mas também podendo ser lidos pelo vulgo como simples objectos de catequese ou, então, nem isso, o não passar de recreação lúdica dos sentidos como formas decorativas. Realmente nem todos os símbolos que aparecem nos monumentos medievais e renascentistas são de cariz hermético/alquímico. Fazem parte do bestiário sem outro sentido. Mas também aparece simbologia notadamente hermética/alquímica herdada dos saberes alexandrinos exportados da Grécia. Resta saber distinguir entre uns e outros pela posse do conhecimento exacto dos símbolos e seus significados. Senão há o risco de ver simbologia hermética em tudo quanto transcorra do bestiário sobrenatural e das formações plásticas do santoral e catequese.

Mosteiro da Batalha – o Mestre-Construtor no canto angular

«Essa simbologia medieval dos Monges-Construtores, assim como a renascentista dos Mestres-Canteiros, vazou parcialmente na Maçonaria Especulativa e Simbólica do século XVIII, nomeadamente a simbologia das 3 Pedras, assim consideradas:

Pedra Bruta = Aprendiz (a largura, a base ou solo)

Pedra Cúbica = Companheiro (o comprimento, a nave)

Pedra Pontiaguda = Mestre (a altura, o zimbório)

«Essa última expressa a “quintessência mineral”, assinalada pelo azoth alquímico que é a “quintessência natural” como éter, simbolizada na Pedra Cúbica Pontiaguda ou Piramidal, que na Maçonaria corresponde ao Mestre-Perfeito. Os chamados graus filosóficos ou alquímicos da Maçonaria Hermética, e que era a original dos seus Fundadores, os Superiores Incógnitos ou Príncipes Kadosh, os Mestres Reais Justos e Perfeitos da Humanidade constituintes da Grande Loja Oculta do Mundo, descrevem a Pedra Pontiaguda da seguinte maneira, segundo Joaquim Gervásio de Figueiredo no seu Dicionário de Maçonaria:

«É um cubo com uma pirâmide sobreposta, cujo simbolismo se acrescenta ao primeiro. Com outras novas superfícies, reúne em si a perfeição do cubo e a ascensão harmónica da pirâmide de base quadrangular. Abrindo o cubo e a pirâmide, estendendo os seus braços e sobrepondo os da segunda aos do primeiro, obtém-se a união das duas cruzes como símbolo duplo de Matéria e Espírito, Forma e Vida, Natureza e Divindade. A primeira é formada pelos cinco quadrados ou superfícies inferiores do cubo, e a segunda pelos quatro triângulos da pirâmide. A cruz engendrada do cubo, de braços quadriláteros, é a da Natureza Física, que comummente se admite como decomponível em cinco elementos: terra, água, fogo, ar e éter; e a derivada da pirâmide, de braços triangulares ou ternários emanando de um ponto central (o vértice da pirâmide), é a Cruz Filosófica ou Espiritual, expressão tretágona da Divindade Trina «crucificada» na Matéria, para, por Seu «sacrifício», dominá-la, espiritualizá-la e contê-la num veículo perfeito da Vida Una e Divina, o Espírito.»

«Tudo isso leva à Purificação, Iluminação e Perfeição, as três etapas do progresso místico reconhecidas pela primitiva Igreja Cristã, as quais correspondem aos três primeiros graus simbólicos da Maçonaria: Aprendiz, Companheiro e Mestre, apesar de actualmente o Cristianismo parecer adoptar apenas a primeira etapa, a da Purificação, pois considera a sua maior glória a formação de santos, ainda que não pensassem assim os primitivos Padres Apostólicos, pois uma virtude não poderá existir isoladamente das restantes duas. O objectivo essencial da primeira etapa é o domínio das paixões. Após haver dado prova nesse sentido, o Aprendiz passa para a segunda etapa, a do conhecimento ou instrução, e vencida esta, o Companheiro galga a terceira etapa, a de Mestre Maçom ou dos Perfeitos a que alude S. Paulo (I Coríntios, 2;6 e 3:10): “Entretanto falamos Sabedoria entre os Perfeitos, porém, não a sabedoria deste mundo”. Sabedoria ou Sophia é a mesma Gnose grega adoptada por S. Paulo e que vem a ser, na época, a Theo-Sophia, isto é, TEOSOFIA. E ainda, para terminar: “Lancei o fundamento como Sábio Construtor”. Construtor do Templo Espiritual onde a Alma Universal haverá de reinar… e esta deve ser a última e suprema meta da actual Maçonaria: a da realização mística dos seus membros pela aplicação dos seus símbolos feitos vivos no exercício que lhes dão no ritual interno expresso no externo, cada vez mais intensamente no gradual dos seus 33 passos, rumo à realização final da Jerusalém Celeste ou o estado da tríplice Mónada (Nous) em formação em um e todos. Esta é que é a verdadeira Maçonaria Hermética ou Alquímica, e é esta a sua finalidade: a de levar o Aprendiz a ser um dia Mestre Justo e Perfeito, verdadeiro Superior Incógnito, divino Encoberto dirigindo os humanos destinos.»

Os antigos Templários vinham a ser, na sua ala joanina mais interna ou reservada, uma exteriorização da acção global da Excelsa Fraternidade Branca ou Grande Loja Oculta, que alguns raros conhecem na Europa como Ordem de Mariz, Ordem dos Cavaleiros do Espírito Santo ou ainda Cruzeiro Mágico a Luzir, e sobre isto recorro novamente a H. P. Blavatsky (in Ísis Sem Véu, tomo IV):

«A Ordem do Templo foi a última sociedade secreta que possuiu colect6ivamente alguns dos Mistérios Orientais, ainda que tanto no século passado (Setecentos) como nos nossos dias (Oitocentos) houvesse, e talvez ainda hajam, “irmãos” isolados que fiel e secretamente trabalharam sob a direcção das Fraternidades Orientais e que ao filiarem-se a alguma associação maçónica da Europa a instruíssem em tudo o que de importante têm sabido os maçons, o que explica a analogia entre os Mistérios da Antiguidade e os Graus Superiores da Maçonaria. Estes misteriosos irmãos jamais desvelaram, nem mesmo entre si, os segredos da associação a que se filiavam, pois eram muito mais sigilosos que os próprios maçons, e quando consideravam algum destes digno da sua confiança iniciavam-no secretamente nos Mistérios Orientais, sem que os outros suspeitassem de uma só palavra mais do que sabiam.

«A Ordem do Templo foi instituída no ano de 1118 por Hugo de Payens e Godofredo de Saint-Omer com o propósito aparente de proteger os peregrinos a Jerusalém, porém, com o verdadeiro objectivo de restaurar o primitivo Culto Secreto. Teocletes, sumo-sacerdote dos nazarenos joanitas, instruiu Hugo de Payens na verdadeira história de Jesus e do Cristianismo primitivo, e posteriormente outros dignitários da mesma Confraria iniciaram-no nos seus Mistérios. O seu desígnio oculto era libertar o Pensamento e restaurar a Religião Única e Universal. Por princípio faziam votos de pobreza, castidade e obediência, de modo que foram os verdadeiros discípulos do Baptista. Tal é a verdadeira e tradicional versão cabalística.

«É um erro crer que a Ordem dos Templários não se declarou contra o dogma católico até aos seus últimos tempos, pois desde o princípio foi herética no sentido que a Igreja dá a esta palavra. A cruz vermelha sobre o manto branco simbolizava, como entre os Iniciados dos demais países, os quatro pontos cardeais do Universo. Quando mais tarde a Ordem tomou o carácter de Loja e começaram as perseguições, os Templários tiveram de reunir-se muito secretamente nas Salas Capitulares, e para maior segurança nas grutas situadas nos bosques, com a finalidade de praticar as cerimónias próprias da sua Instituição, enquanto nas capelas públicas celebravam o culto católico.

«Quanto aos modernos cavaleiros templários e às Lojas maçónicas que pretendem descender directamente da antiga Ordem do Templo, não possuem nem nunca possuíram nenhum segredo perigoso para a Igreja, cuja perseguição contra eles teve desde o início aparências de farsa, pois, segundo disse Findel, os graus escoceses, ou seja, a ordenação templária, datam tão-só dos anos de 1735 a 1740, e seguindo as suas tendências católicas, estabeleceram a sua residência principal no colégio dos jesuítas de Clermont, em Paris, pelo que se lhe denominou rito de Clermont.»

Já disse que primitivamente MAÇONARIA E TEMPLARISMO (não confundir com o Templismo paródico a que se refere H.P.B., pois que o Templarismo iniciático era assumido pela ala joanina da Igreja, por raro mas distinto escol de Iniciados nos Mistérios da Tradição Primordial) era uma só e mesma coisa. Antanho, Loja e Templo eram sinónimos e destinavam-se ao Culto do Deus Único como Supremo Arquitecto manifestado na Mãe-Natureza. Havia a Harmonia da Sabedoria Divina manifesta para tudo e todos onde houvesse um Templo ou Loja, no louvor ritual à Maior Glória do Criador, da Criação e da Criatura.

É novamente H. P. Blavatsky (in As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria) a reforçar quanto venho dizendo:

«Prestemos alguns momentos de atenção às assembleias dos “Construtores do Templo Superior” nos primeiros tempos do Cristianismo. Ragon mostrou-nos plenamente a origem dos seguintes termos:

«a) A palavra “Missa” vem do latim Messis – “colheita”, donde o nome do Messias, aquele que faz amadurecer as colheitas – “Cristo-Sol”.

«b) A palavra “Loja”, da qual se servem os maçons, fracos sucessores dos Iniciados, toma a sua raiz em loga (loka, em sânscrito), uma localidade e um mundo; e do grego logos – a palavra, um discurso, cujo pleno significado é: – um lugar onde certas coisas são discutidas.

«c) As reuniões dos logos dos Maçons, primitivos Iniciados, acabaram sendo chamadas synaxis, “assembleias” de Irmãos, com o fim de rezar e celebrar a Ceia, onde eram utilizadas somente as oferendas não manchadas de sangue, tais como os frutos e cereais. Logo depois essas oferendas foram chamadas hostiae, ou hóstias puras e sagradas, em contraste com os sacrifícios impuros, e porque as oferendas consistiam de frutos da colheita, as primícias de messis.

«A palavra synaxis tinha o seu equivalente entre os gregos na palavra agyrmos (reunião de homens, assembleia). Referia-se à Iniciação nos Mistérios. As duas palavras synaxis e agyrmos caíram em desuso, e a palavra missa prevaleceu e ficou.»

Se a Índia é o berço lunar da Tradição Oriental, o Egipto é o berço solar da Tradição Ocidental, e era aí que primitivamente, para ser iniciado nos Mistérios Sagrados, o neófito era submetido a uma série de provações destinadas a experimentar o quilate do seu carácter e a vontade em se tornar real e definitivamente um Iniciado (Epoptae). Essas provas correspondiam aos diversos elementos da Natureza em correspondência com aqueles do candidato, sendo de uma dureza tal que não raro se perdia a vida no seu decurso. As simulações efectuadas no decorrer das actuais iniciações maçónicas, têm a sua inspiração nas provas reais realizadas outrora nos subterrâneos da Grande Pirâmide de Kheops, no vale de Gizeh. Sobre isso, fala o Insigne Adepto Koot Hoomi Lal Sing em carta datada de 1884 (in Lettres des Mahatmas, obra por mim já traduzida para a língua portuguesa):

«Nas Lojas Maçónicas de outrora o neófito era submetido a uma série de provas dolorosas de constância, de coragem e de presença de espírito. Com a ajuda de impressões psicológicas reforçadas por meios mecânicos e químicos, faziam-no acreditar que caía nem precipícios, que era esmagado por rochas, que atravessava pontos aracnídeos suspensos nos ares, que passava através do fogo, que se afogava e era atacado por bestas selvagens. Essa era uma reminiscência dos Mistérios Egípcios a qual tomaram de empréstimo para o seu programa. Tendo o Ocidente perdido os segredos do Oriente, foi obrigado a recorrer ao artifício. Mas, nos nossos dias, a vulgarização da Ciência fez cair essas provas infantis em desuso. Os únicos assaltos que agora atingem o aspirante são os assaltos psicológicos. A série de provas que ele sofre – na Europa e na Índia – é aquela provocada pela Raja-Yoga; ela tem por resultado desenvolver todas as sementes, boas e más, que haja nele, em seu temperamento. A Regra é inflexível e ninguém lhe escapa. Tal como a onda não pode fazer o rochedo frutificar, igualmente o ensinamento oculto não produz efeito num mental não-receptivo; e tal como a água desenvolve o calor na cal, o ensinamento leva ao máximo de actividade cada potencialidade latente insuspeita para o aspirante.»

É facto incontestável que hoje em dia muitas Lojas da Maçonaria Especulativa restringem-se a actividades «laicas e republicanas» (!!!) com primor para a política social e económica, valências soltas dum mais amplo propósito Sinárquico que parece esquecido, e desprimor do seu Espírito Tradicional, verdadeiramente Espiritual, o que tem arrastado à perda quase por completo do seu sentido original iniciático e divinizador, a ponto de para largo número de maçons toda a sua vasta e riquíssima simbologia e falerística patentes nas alfaias d´Obra significar tão-só “objectos de decoro conformado ao costume”, este que é o pior inimigo da Tradição, pois que é o hábito enraizado vazio de transcendente conformado ao simples ao acto mecânico. É assim que observo em certas Lojas chegar-se ao extremo ateísta de pôr em dúvida a existência da Divindade Suprema – o G.rande A.rquitecto D.o U.niverso (GADU), que os inimigos viscerais da Maçonaria vêm interpretando como gado, ou seja, um animal diabólico adorado por ela no segredo das suas reuniões.

Essa e outras teorias fantásticas, mentiras injuriosas nascidas do ódio jesuítico à Tradição que manda haver liberdade de pensamento para o Homem, merece ser aqui esclarecida pela boa Teosofia. O GADU ou Boi nada mais é senão Vach, a Vaca nutridora, isto é, o Verbo Divino que “se fez Carne”, manifestou-se como Logos Criador na forma de Vach ou Bhumi, a própria Mãe-Terra criada pelo mesmo Supremo Arquitecto (VISVANKARMAN) deste 4.º Sistema de Evolução Universal tendo por centro de actividade o Globo em que todos vivemos e temos o Ser. Ademais, na presente 4.ª Ronda da 4.ª Cadeia o Totem Planetário é precisamente o Boi, antes, o Touro, símbolos zoomórficos do Trabalho e da Fecundidade do Deus Único e Verdadeiro tão bem representado pela letra gótica G.

A despeito das «ratas» cometidas por demasiados maçons e não-maçons, a verdade é que a Maçonaria Especulativa herda o vasto património do sistema de símbolos e alegorias cuja finalidade, segundo Foster Bailey in L´Esprit de la Maçonnerie, é transmitir:

«a) A Revelação do Desígnio subjacente do Grande Arquitecto do Universo, porque, quando o Templo do Senhor é construído, a Sua Sabedoria, a Sua Força e a Sua Beleza podem brilhar em todas as direcções e a Glória de Deus ser revelada.

«b) A Inspiração ao indivíduo. Quando o homem procura proceder correctamente e com bem em suas tarefas e na sua vida, a Maçonaria torna-se um meio pelo qual ele pode participar do colectivo, em defesa de seus irmãos maçons, do enriquecimento da Loja e do embelezamento desse Centro da Grande Loja do Mundo na qual cada maçom tem a sua função a exercer, pela adesão aos princípios maçónicos, a sua ilustração da tradição maçónica e a sua perseverante preparação para o episódio final no qual faz face à morte e alcança a ressurreição pela sua fé em Deus, pela sua paciência na aflição e pelo seu conhecimento das leis governativas do trabalho maçónico.

«c) A Informação Profética. Detrás de todo o trabalho maçónico e subjacente a todos os rituais e ao seu simbolismo, alguém pode encontrar (aquele que procura e tem “olhos de ver”) uma forma da Verdade que resume o Passado da Humanidade, mostra o Presente e garante profeticamente o Futuro. Isto é de menor importância em comparação com a aplicação prática imediata da Maçonaria, mas tem a sua utilidade e o seu objectivo porque permite aos maçons avançarem com coragem e optimismo.»

Voto sinceramente na boa valia destas linhas para quantos maçons e não-maçons venham a lê-las, desvelando parte do lado oculto, mas que é o mais real, da Maçonaria e da Igreja, porque, em boa verdade e usando das palavras do Insigne Adepto que se oculta no pseudónimo Fra Diávolo, sem Teurgia e Teosofia nada são!

A Maçonaria e a Igreja jamais foram filhas desavindas da Tradição Iniciática das Idades, a não ser nas acções parcas de carácter e cultura de alguns, tanto despreparados para a vivência sacerdotal quanto desqualificados para a vivência mestreal, mesmo que só simbólica, facto acentuado no século XVIII com a aparição da filha do mecanicismo seiscentista: o racionalismo dialéctico, primeira versão do materialismo «científico», má inculcação dada aos ensinamentos promanados do Colégio dos Invisíveis que se exteriorizou, no século XVII, como Sociedade Real de Londres, matriz da Academia contemporânea, sob a qual se abrigaram enciclopedistas e positivistas que deram às ciências experimentais ou empíricas o traço dominante exclusivo de positivismo ateu, factor muito recente completamente estranho a todas as formas e fórmulas tradicionais de fazer ciência que nada recusa a priori, antes, investiga desapaixonadamente, sabendo-se que toda a negação pressupõe a existência do negado.

Na sequência do sentido esotérico dos símbolos e alegorias, igualmente os instrumentos fundamentais do Trabalho Maçónico para a edificação do Homem Superior (o Jivatmã como “Vida-Consciência”), com os seus respectivos significados místicos, são doze, como os descreve Jorge Adoum (in Grau do Companheiro e seus Mistérios):

«O MALHETE é A Fortaleza.

O CINZEL é a Determinação.

A RÉGUA é o Equilíbrio.

O COMPASSO é a Harmonia dos Pólos.

A ALAVANCA é a Potência e a Resistência.

O ESQUADRO é o TAU, é a Experiência e o Acerto.

O PRUMO é o Ideal realizador para o Mundo.

O NÍVEL é o Esforço, a Superação e o Equilíbrio.

A TROLHA (colher de pedreiro) é o Serviço e a Caridade.

A ESPADA é o Poder do Verbo Criador.

A PRANCHA é o Saber.

A CORDA COM NÓS é o Laço de União com o Deus Íntimo.»

Todas essas alfaias provêm dos primitivos construtores que, ao mesmo tempo que erguiam pedra a pedra a catedral exterior, levantavam virtude a virtude a catedral interior, afinal, o Templo Vivo de Deus Íntimo.

Os primitivos maçons operativos criaram uma série de princípios-limites, os chamados antigos Landmarks, pelos quais se nortearam, sendo depois adaptados e versados ao sistema moral da Maçonaria Moderna e que constituem a sua Regra. São princípios universais que inspiraram desde a criação da Carta Magna dos Estados Unidos da América do Norte à Carta dos Direitos Humanos e até aos princípios humanitários da Cruz Vermelha e do Escotismo. São eles:

1. A crença em Deus como Grande Arquitecto do Universo.

2. A crença que Deus se exprime no seu Universo como Sabedoria, Força e Beleza, os “3 Pilares” da Maçonaria.

3. A crença maçónica na Imortalidade.

4. A lenda de Hiram Abiff expressa para o 3.º Grau de Mestre.

5. Os 3 Graus da Loja Azul (Maçonaria Simbólica).

6. Todos os variados modos de reconhecimento.

7. As grandes “3 Luzes” sobre o Altar: um Livro Sagrado (Bíblia, Alcorão, Bhagavad-Gïta, etc.), o Esquadro e o Compasso.

8. Todos os homens são iguais, em sua divindade.

9. Sete Maçons constituem uma Loja Maçónica.

10. Preservação dos segredos da Maçonaria.

11. Cada Loja deve ter um telhado, para que esteja “coberta e telhada”.

12. A governação da Fraternidade Maçónica por um Grande Mestre, e da Loja por um Venerável Mestre.

13. A necessidade para os Maçons de trabalhar em grupo nas Lojas.

14. Nenhum destes Landmarks vez alguma poderá ser mudado.

Em 1750 a Maçonaria Lusitana fez circular por todo o País e por toda a Espanha os seguintes Landmarks ou Artigos de Fé Maçónica, em que definia a actuação da Maçonaria Universal junto da Sociedade Humana:

1. Crê em Deus, G.rande A.rquitecto D.o U.niverso, Ser Único Absoluto, que existe por si; Ser Único completo, que reúne em si toda a Essência, toda a Perfeição da Essência, e origem de tudo quanto existe.

2. Crê na imortalidade da Alma, Cintilância de Deus, Essência perceptível até chegar ao seu término, que é o Bem Absoluto.

3. Respeita todas as práticas religiosas, que a moral consente, porque quer que seja respeitada a que estime oportuna em consciência.

4. Respeita e acata os poderes constituídos, quaisquer que estes sejam, e proíbe toda a insurreição, por entender que assim encontrará a base do progresso e do bem-estar social.

5. Crê que a caridade há-de ser a norma dos seus associados, e o amor a Deus e ao próximo o termo final de todos os seus trabalhos.

6. Deseja igualdade de direito e de deveres em todo o Género Humano, posto que todos descendemos de Origem idêntica.

7. Deseja que todos, absolutamente todos, os indivíduos, desfrutem de liberdade para pensar e trabalhar dentro da lei moral.

8. Aspira a que seja um facto a Fraternidade Universal, por crer que sem ela é impossível a paz, o progresso e a perfeição.

9. Aspira a que a pena de morte seja apagada dos códigos penais, pois ninguém tem o direito de tirar o que dar não pode.

10. Deseja que a educação se difunda por todas as classes sociais, a fim de que todos compreendam os seus deveres e direitos.

11. Deseja que todos os homens sejam livres, benéficos, desinteressados, sociáveis, dignos e humildes.

12. Deseja que a educação moral dos povos seja uma verdade, a fim de evitar diferenças de posição, nacionalidade, classes e raças.

13. Deseja uma educação liberal para a mulher, a fim de constituir a base fundamental de uma sociedade digna do seu Criador.

14. Estas são, em resumo, as crenças e aspirações da Maçonaria, e para se conseguir o seu estabelecimento se dirigem todos os seus trabalhos.

O inimigo declarado da Franco-Maçonaria, Eduardo Comin Colomer, na sua obra La Masoneria en España (Apuntes para una interpretación masonica de la Historia Patria), Editora Nacional, Madrid, 1944, atacando a ela sem dó nem piedade acaba revelando qual era o Credo Maçónico postulado na Península Ibérica desde 1750, devendo ter sabido dele através dos espiões de Franco e Salazar:

I. Creio em um só Deus, Todo-Poderoso, nosso PAI e Criador, Supremo Arquitecto do Universo. Primeiro Grão-Mestre de toda a Maçonaria, Sábio, Justo, Princípio e Fim dos homens e de todas as coisas. Em Deus FILHO, que alguns pensam ser a personificação das Obras do Ser Supremo. Em Deus ESPÍRITO SANTO, que o é pelo Amor que tem às suas criaturas.

II. Creio em Jesus Cristo, não como Deus e Homem, mas sim como simplesmente Homem, ainda que não vulgar, pois em meu conceito foi Maçom e muito avançado, posto que regenerou a Maçonaria levantando-a ao mais alto grau até então conhecido; porque se a nossa Instituição se albergava nos Templos dos Sacerdotes antigos, é preciso convir que estava muito abatida, a julgar pela corrupção do Sacerdócio, e Jesus Cristo, vendo isso, procurou e achou a verdadeira Maçonaria, quase perdida de todo. O que já se suspeita no objectivo do Grau 18, pois tem a Cruz, símbolo dos sofrimentos de Jesus Cristo.

III. Creio na Igreja Católica, não a romana, nem a protestante, nem nenhuma dessas, e sim na Universal, oculta na Maçonaria, e revelada em numerosos sinais, toques, palavras, etc., não se devendo ver em sua superfície e sim em seu mistério e explicação. Bendito o Maçom que estuda e aprofunda.

IV. Creio na Comunhão dos Santos, não como se define vulgarmente e sim a designada pelo seu verdadeiro nome, isto é, Fraternidade Universal, que há-de chegar a ser comum a todos os homens, os quais terão de ser um dia Justos. Esta é a Comunhão ou União Comum dos Santos de que falo.

V. Creio no perdão dos pecados, não só pelo sangue derramado dos nossos Irmãos que morreram pelo Mestre Jesus Cristo, mas também pela tolerância e esquecimento total das ofensas a mim e aos meus Irmãos, nas quais entra também o Grão-Mestre Universal, o G.rande A.rquitecto D.o U.niverso.

VI. Creio na ressurreição da carne, não a do nosso corpo mortal, morto para a nossa alma, e sim na Perfeição a que todos teremos de chegar na Ordem Maçónica, ou seja, a ressurreição moral.

VII. Creio na vida perdurável, isto é, na nossa Eternidade e na do G.rande A.rquitecto D.o U.niverso, pois não pode convir que acabamos onde morremos, nem que teremos de permanecer eternamente nesta morte para a Verdade em que jaze tristemente o Género Humano.

Todos esses princípios são nobilíssimos aplicáveis a todos os povos, vindo provar possuir a Maçonaria em seu escrínio muitíssima mais Nobreza e Perfeição do que as presumidas por certos «maçons agnósticos e laicos» (!!!), que muito melhor fariam desquitar-se definitivamente da Ordem do que continuar manchando-a com as suas palavras e acções que enchem de gáudio feroz os anti e contra Maçonaria, por norma sequazes católicos romanos armados da política social da sua Igreja, mas em cujo rol também se incluem comunistas cujo partido é autêntica «sociedade secreta», seja trotskista anarquista, seja leninista sindicalista, para todos os efeitos, fábricas de ditaduras psicossociais matando toda a noção de Divino e ficando só o que quer que seja. Mas toda a sociedade humana ausente de Divino é uma sociedade perdida, pois o seu tecido humano apodrece cedo em seus limites estreitos, desprovido de esperança e solução de futuro espiritual, como é notório, por exemplo, no comportamento social de todos os povos do Mar das Antilhas, do Golfo do México ou de vários países asiáticos e africanos.

A Ordem Maçónica desde a primeira hora que está confirmada e reconhecida pela Grande Loja Oculta ou Excelsa Fraternidade Branca, pois é uma Corrente Tradicional afiliada em todas as agremiações operativas do Passado cuja memória chega ao Presente. Alguns Adeptos Vivos da mesma Excelsa Fraternidade afirmam que a Linha Maçónica está sob o auspício do 7.º Raio de Luz (Svaraj) promanado do Logos Solar agindo pelo Logos Planetário da Terra, cujas energias encadeadas, manipuladas e distribuídas ordenadamente pelo Globo pelos SERAPIS em simpatia com esse mesmo Raio ou Linha de Força dentre as Sete que caracterizam a Manifestação da Divindade na Natureza Universal.

7.º RAIO DA ORDEM CERIMONIAL

Expressão superior: SOL

Expressão inferior: SATURNO

Linha de Adeptos: SERAPIS

Escola: Maçonaria

Religião: Iluminismo

Expressão superior: Teurgia e Taumaturgia

Expressão inferior: Crenças e práticas animistas

Essa última expressão revela a condição animista da religião-crença, jamais devendo ser confundida com religião-sabedoria que é a primeira a induzir o aforismo iniciático que afirma: O TEMPLO É LUGAR DE REALIZAÇÃO E NÃO DE RELIGIÃO… no sentido de beatismo ignorante que é com que se cozinha a intolerância fanática, mãe de todas as guerras e injustiças que a Humanidade tem conhecido.

Os Serapis ou Ser-Ápis, “Seres Divinos”, que em Portugal tiveram um importante santuário em Panóias, perto de Vila Real de Trás-os-Montes (dentro do aro mágico de São Lourenço de Ansiães, antiga comenda da misteriosa Ordem de Mariz), são os Obreiros do Centro da Terra «cada vez cavando mais fundo para servir ao Rei do Mundo», conforme a letra do Mantram do Quinto Sistema, sendo Eles mesmos quem accionam a Cruzeta Flogística ou o Pramantha Luminoso moendo ou movendo sobre si mesmo este 4.ª Globo da 4.ª Ronda Terrestre. Os Serapis são, pois, os Intermediários entre a Acção na Face da Terra e a Actividade no Interior da Terra, ritualizada ou ritmada sob a forma MAÇONARIA ANDRÓGINA CONSTRUTIVA DOS TRÊS MUNDOS que é a mesma IGREJA UNIVERSAL DE MELKITSEDEK ou a GRANDE LOJA BRANCA de AGHARTA-SHAMBALLAH. Servindo de Tulkus ou “Veículos da Consciência” dos Serapis aghartinos sobre a Terra, há os Velsungos e Valquírias aclamados na própria letra do Mantram dos Serapis:

Viemos de Shamballah

Velsungos somos nós.

Do Reino dos Serapis

Não podíamos vir sós.

E assim, com as nossas Damas,

Em formas duais,

Ao Mundo apresentamo-las,

Valquírias sem iguais…

Dos Reinos da Agharta,

Bem longe do Thermodonte…

Mais forte que as de Esparta,

Surgimos de um outro “Monte”.

Por sua ligação aos SERAPIS é que a Maçonaria Simbólica apresenta características mais TRIBUTÁRIAS que TEMPLÁRIAS, o que vai muito bem com aquela parte descrita do Mantram do Quinto Sistema, pois que ela é uma afirmação genuinamente Tributária dirigida à fundação de uma Sociedade Humana Justa e Perfeita.

Panóias, Vila Real – Santuário do deus Serapis

Os maçons devem realizar na Loja uma acção espiritual de carácter ritualístico semelhante, o mais idêntico possível, à que os Preclaros Membros da Grande Loja Branca realizam no escrínio velado dos seus Templos. Sete é o número mínimo exigido de Oficiais exigido para que uma Loja seja perfeita na sua regularidade constitutiva. Sobre o Oficialato, diz Charles Leadbeater (in Vida Oculta na Maçonaria):

«Cada Oficial de uma Loja Maçónica, além dos seus deveres no Plano Físico, tem a missão de representar um dos sete Planos (do Universo) e de servir de foco às suas Energias peculiares. Os fundadores da Maçonaria dispuseram as coisas de modo que a enumeração dos Oficiais e a declaração dos seus lugares (feitas segundo o ritual) servissem de evocação aos Devas ou Anjos pertencentes aos respectivos Planos e neles operantes.»

A seguir, apresenta o seguinte esquema elucidativo apurado por mim:

Cabe ao Venerável Mestre dar a instrução aos Mestres; ao 1.º Vigilante dar a instrução aos Companheiros, e, por último, ao 2.º Vigilante instruir os Aprendizes. Isto por a um nível superior o Venerável Mestre representar o Mundo das Causas (1.º Logos), o 1.º Vigilante o Mundo das Leis (2.º Logos), e o 2.º Vigilante o Mundo dos Efeitos (3.º Logos).

Como já disse em conformidade com a tradição oral e escrita dos Mestres Reais da Humanidade, os verdadeiros Mahatmas da mesma, a Maçonaria Simbólica foi reconhecida e credenciada pela Grande Loja Branca através do Choan do 3.º Raio do Pramantha, São Germano, apoiado por seu Irmão Espiritual, Cagliostro, como a depositária legítima da Tradição Iniciática para o Ocidente, e é por isso que os seus três primeiros (e originalmente os únicos) Graus estão em harmonia sincrónica com as Iniciações Reais do Caminho do Discipulado. Senão, veja-se:

Dentro do corpus desta herdeira iniciática dos Antigos Mistérios, outrora conhecidos como Arte Real e hoje como Maçonaria Simbólica, o Aprendiz corresponde à etapa do Discípulo no estágio Probatório, o qual deve praticar as três qualidades de discernimento, ausência de desejo e boa conduta ou auto-controle (em sânscrito, viveka, vairâgya e shatsampatti). O discernimento que lhe dará poder mental; a ausência de desejo que lhe trará poder emocional, e o auto-controle a força de vontade.

Segundo Arthur E. Powell (in O Corpo Mental), o discernimento capacita o candidato a passar incólume pelas regiões inferiores do Mundo Astral, Psíquico ou Emocional, facto representado na Maçonaria pela primeira Viagem Simbólica.

A ausência de desejo capacita-o a passar através das seduções do Mundo Astral médio, representado pela segunda Viagem Simbólica.

A boa conduta capacita-o a dominar a parte superior do Mundo Astral, mesmo na fronteira com o Mental Celeste, Mental ou do Pensamento, o que é representado pela terceira Viagem Simbólica.

No 1.º Grau da Maçonaria, o Mestre indica a necessidade de dominar a natureza do desejo.

O efeito geral do 1.º Grau é alargar de certa forma o canal de conexão entre o Espírito e a Personalidade do candidato. O Aprendiz maçom corresponde ao Subdiácono católico.

Conhecedor mas não afiliado em Oriente algum da Maçonaria, assim também para as valências bizantina e romana do Catolicismo, mesmo tendo acesso franco a ambos os Institutos por razões representativas do Culto de Melkitsedek e quanto tal significa no quadro geral da Evolução, descomprometido posso adiantar que no cobrimento os sinais de reconhecimento do Aprendiz são de duas espécies. Antes de tudo, o sinal de ordem: a mão direita espalmada sobre a garganta, os quatro dedos reunidos e o polegar levantado em esquadro. O sinal de reconhecimento, propriamente dito, é mais complexo: à despedida, o Aprendiz acha-se na mesma posição, com a mão direita em esquadro sobre a garganta. Em seguida, imitando o gesto de apertar a garganta, desloca a mão horizontalmente para o seu ombro direito deixando-a cair docemente perpendicular ao corpo, assim descrevendo no ar um esquadro.

No Rito Francês, o Aprendiz tem a palavra de passe (o “santo e senha”) do Grau no qual terá de completar três anos: Tubalcaim. Deve pronunciá-la quando se lhe pergunta. A palavra sagrada é a dos nomes das Colunas do Templo de Salomão, mas varia segundo os Ritos. No Rito Francês, a palavra sagrada é Jakin; no Rito Inglês ou Escocês (como é feito em Portugal), a palavra sagrada é Bohaz.

Entre o 1.º e 2.º Graus, o toque de parar indica a necessidade de dominar o enredamento peculiar da mente inferior nas malhas do desejo, o que teosoficamente é conhecido como kama-manas, a consciência psicomental.

No 2.º Grau, a ideia de Iluminação é colocada diante do candidato; o objectivo principal é o desenvolvimento das faculdades artísticas, psíquicas e intelectuais, com o controle da mente inferior. O efeito do Grau é um alargamento mais decisivo do vínculo entre o Espírito e a Personalidade.

O toque do 2.º Grau de Companheiro indica a necessidade de completo controle da mente inferior. Este 2.º Grau corresponde ao Diaconato da Igreja Católica, porque assim como o Companheiro se está preparando para o trabalho de Mestre Maçom, durante cinco anos, o Diácono se está preparando para o Sacerdócio.

Os sinais do Grau de Companheiro, são: primeiramente, a mão direita colocada sobre o coração com os dedos curvados, em sinal de amor fraterno para com todos os iniciados. Deve depois elevar a mão esquerda à altura da cabeça, com os dedos estendidos e fechados, com o polegar junto ao corpo, descrevendo um esquadro. Nesta  posição, tirar a mão direita horizontalmente atravessando o peito e deixá-la cair sobre a coxa direita, ao mesmo tempo que a mão esquerda desce novamente sobre a coxa esquerda. A palavra de passe que se transmite nos Ritos Francês e Escocês é a hebraica Schibboleth. A palavra sagrada no Rito Francês é Bohaz, e no Rito Escocês é Jakin.

Entre o 2.º e 3.º Graus, o toque de paragem indica a necessidade de ganhar algum domínio sobre aquele estranho espaço intermediário chamado kama-manas.

No 3.º Grau, com a idade de sete anos, o trabalho faz-se principalmente no Plano Mental Superior, correspondendo o Mestre Maçom ao Sacerdote da Igreja Católica.

O ramo de acácia, símbolo do Mestre Maçom, cabe-lhe por natureza e direito por designar a Imortalidade e a Iniciação. A palavra de passe deste Grau no Rito Francês é Mack Benah, a Coluna Central do Templo, a da Beleza, e onde o “esquadro está unido ao compasso”, afinal a insígnia do Mestre. Mas no Rito Escocês a palavra de passe (que no mesmo não existe para o Aprendiz) é Tubalcaim, e a palavra sagrada é Mohabon.

Há três sinais do Mestre Maçom: o sinal ordinário, o sinal de horror e o sinal de angústia ou de socorro.

O sinal ordinário consiste em levar ao coração (outros, ao umbigo) a mão direita aberta, com o polegar apoiado sobre o flanco esquerdo e separado dos outros dedos que estão horizontalmente estendidos e separados dele. No Rito Francês, o sinal é feito retirando-se a mão e deixando-a cair para formar o esquadro. No Rito Escocês, ele é combinado com o sinal de horror.

O sinal de horror é feito levantando-se as duas mãos enlaçadas com as palmas voltadas para cima e os dedos separados. No Rito Escocês, exclama-se ao fazer esse sinal: “Oh! Senhor, meu Deus!” Em seguida deixam-se cair as duas mãos sobre o avental, em sinal de admiração.

O sinal de angústia consiste em colocar sobre a cabeça ou à altura da testa as duas mãos enlaçadas com as palmas voltadas para cima, exclamando: “A mim, Filhos da Viúva!” Fazendo esse gesto, forma-se um triângulo cuja base é constituída pelos ombros. Sendo interrogado sobre o que é, o Mestre responde: “A acácia me é conhecida”.

Há uma variante desse sinal que pode ser executado com uma só mão colocada, fechada, sobre a cabeça, abrindo-se depois, dedo por dedo, enquanto se pronuncia: “Japhet! Ham! Seth!”

Em 2007 compus os três esquemas seguintes para uso dos maçons de Ritos variados em Obediências diversas cujos Veneráveis me haviam solicitado que descrevesse a mecânica oculta processado com os iniciados dos três primeiros Graus, os quais deixo aqui ao cuidado e meditação do respeitável leitor, adiantando desde já que o cobrimento sinalético desses Graus não está completo porque não devo revelar o mecanismo interno da Ordem Maçónica, por respeito à mesma, e o que fiz foi tão-só para demonstrar que os mesmos são verdadeiros mudras e mantrans, “gestos” e “palavras” de sentido místico, cuja finalidade suprema é despertar a consciência daqueles que estão creditados pelo Espírito da Ordem, pois em contrário tais “gestos” e “palavras” nenhum efeito surtem em quem os exerce, tal como, por exemplo, o “sinal da Cruz” feito por um maometano, ou o “Illah Allah” pronunciado por um cristão.

Sobretudo quero, isso sim, demonstrar que a MAÇONARIA É UMA CONFRARIA ESPIRITUALISTA em seu Espírito Tradicional, uma Via de realização individual e colectiva para quem a percorre, e nunca, jamais, alguma espécie de “clube de conjurados” ou coisa do género que alguns vêm se esforçando por demonstrar à luz dos seus preceitos e preconceitos pessoais, assim mesmo provando desconhecer inteiramente o lado interno da Vida, particularmente da Vida da Maçonaria e até da Igreja. Que este estudo, escrito por quem já provou da Iniciação Verdadeira, possa servir para abrir-lhes a consciência para estados mais amplos da existência, nem que seja inicialmente só como mera hipótese teórica que se queira descartar a seguir. A negação de algo que não existe torna o mesmo existente, por ser objectivo positivo apesar de negado… Ademais, é bom que se saiba, os desvarios cometidos pela Personalidade humana raramente afectam a Individualidade espiritual. Podem gerar, e geram, Karma, mas só para a Personalidade, assim enleada na constante dolorosa das vidas sucessivas. A Iniciação Verdadeira, vivida em permanência mental, coracional e física, ou seja, com cultura, com carácter ou moral e com firme vontade, é que liberta o homem dos grilhões da matéria e faz dele um verdadeiro Iniciado investido do Poder do Supremo Arquitecto.

No 1.º Grau de Aprendiz estimula-se Ida, o canal feminino de energia ou força etérica, tornando assim mais fácil para o iniciado controlar a emoção e a paixão. Ida começa na base da espinha, do lado esquerdo no homem e inverso na mulher, findando na medula oblonga.

No 2.º Grau de Companheiro acentua-se Pingala, o canal masculino de força etérica, facilitando assim o controle da mente. Pingala começa na base da espinha, à direita no homem e o contrário na mulher, findando na medula oblonga.

No 3.º Grau de Mestre desperta-se Sushumna, o próprio canal etérico central ou andrógino, deste modo abrindo caminho para a influência do Espírito Divino.

O Aprendiz, como uma Personalidade, deve organizar a sua vida física para uso mais elevado; como Espírito, deve usar a Acção Criadora assinalada na Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o ESPÍRITO SANTO para nós ocidentais, e SHIVA para os orientais. A Actividade Inteligente de Shiva reflectida por sua Contraparte Feminina (Shakti) voltada para o exterior (a Deusa PARVATI ou GIRIJA), é que dá o auto-controle e abençoa o corpo físico, tornando sagrados os seus poderes.

O Companheiro, como uma Personalidade, deve organizar a sua vida emocional; como Espírito, deve desenvolver o Amor Divino em seu corpo Intuicional ou Búdhico. Isso ele pode fazer com a Sabedoria Iluminadora da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Amor-Sabedoria do FILHO ou VISHNU através de LAKSHAMI, que realiza os desejos e torna a vida rica e plena, santificando a prosperidade material e transmutando as paixões do corpo astral no mais sublime Amor Espiritual.

O Mestre Maçom, como uma Personalidade, deve organizar a sua vida mental; como Espírito, deve fortalecer a sua Vontade Espiritual, a qual corresponde ao estado Nirvânico ou Átmico. Para dominar o mental insubmisso, ele deve utilizar o “Poder do Pensamento” (Kriyashakti) que é o Poder Divino da Primeira Pessoa da Santíssima Trindade ou Trimurti, o PAI ou BRAHMA reflectido por SARASVATI, a Deusa da Sabedoria Eterna.

Simultaneamente, o Aprendiz deve estar aprendendo a controlar as suas emoções; o Companheiro deve estar dominando a sua mente, e o Mestre Maçom deve estar se desenvolvendo em Planos Superiores.

Para conveniência do respeitável leitor, a maioria dos factos acima, e mais alguns, estão expostos na seguinte tabela de analogias:

Hoje as vergônteas kármicas acompanham a decadência acelerada do final do Ciclo de Peixes apodrecido e gasto, processo já vindo desde 1924 com a transladação dos valores humanos e espirituais do Oriente para o Ocidente, a fim de no começo do Ciclo do Aquário (2005) a Nova Luz fosse plenamente assumida pelo GRANDE OCIDENTE IBERO-AMERÍNDIO incarnado na que hoje possui os iniciáticos tesouros que fizeram a Arte Real brilhar no Passado: a Augusta e Soberana ORDEM DO SANTO GRAAL, assumida exteriorização sobre a Terra da Igreja Apostólica de Melkitsedek ou Maçonaria Universal Construtiva dos Três Mundos.

Isso traz-me à memória determinado trecho de uma monografia interna da Comunidade Teúrgica Portuguesa:

«Não existe razão alguma, presentemente, para proclamar o Oriente findado quer mística, quer sócio-economicamente, cada vez mais dependente do Ocidente em todos os sectores sociais e espirituais. Há que trazer o Oriente findado ao Ocidente nascente como legítimo herdeiro da Tradição Iniciática, devido à mudança de Ciclo e correspondente inversão gradual de Pólos, pelo que o Sol deverá, futuramente, começar a nascer a Oeste ao contrário do até aqui, a Leste. O nosso Venerável Mestre JHS alerta inúmeras vezes em seus Ensinamentos os Discípulos para esta realidade actualizadíssima, afirmando vivamente que o Ocidente está para Aquarius como este para aquele, e que fora desta verdade a Teurgia e Teosofia não têm razão de existir.

«O Tesouro da Sabedoria Oriental veio para o Ocidente e neste se está fundindo, cumprindo-se assim a Profecia de Sintra: … “As Águas do Indo, do Ganges fundindo-se nas do Tejo”…»

Contudo, o mesmo Professor Henrique José de Souza não deixou de pronunciar-se sobre o assunto no seu estudo sobre A Ordem do Santo Graal, datado de 1956:

«Entre o Grande Oriente e o Grande Ocidente não há nenhuma diferença, como possam julgar os não iniciados nos Grandes Mistérios, inclusive o dos vários Ciclos em que é repartida a Vida Universal e, consequentemente, a manifestação dos Avataras.

«Sim, os Dois caminharão juntos sob a égide do Supremo Arquitecto. Pelicano e Pomba do Espírito Santo, mais que nunca, são avis raris in Terris… O Grande Oriente mantém a Tradição do Passado. O Grande Ocidente mantém a do Presente, projectando-se no Futuro.»

Conhecendo-se o Passado, trabalhe-se conscientemente no Presente para construir o Futuro!

Henrique José de Souza (1883-1963) teve papel determinante na fundação do GRANDE OCIDENTE e na consequente rectificação do Rito Maçónico. Chegou a inspirar a fundação de quatro Lojas Maçónicas e o reerguimento de outras tantas que estavam “adormecidas” ou paralisadas. Destas há a destacar a Loja Ypiranga, do Rito Escocês Antigo e Aceite, fundada no Rio de Janeiro em 15 de Junho de 1847 na qual foi iniciado o imperador do Brasil, D. Pedro I. Tendo sido declarada adormecida em 13.4.1935 no Acto n.º 1351 do Grande Oriente Brasileiro, foi reerguida em 21 de Abril de 1977 e passou a trabalhar sob a égide do Ex Occidens Lux e da Maçonaria Universal.

Por todas essas razões, e outras mais que não vêm ao caso apontar mas relacionadas com a Obra do Eterno na Face da Terra, no dia 11 de Junho de 1949 o Presidente da Sociedade Teosófica Brasileira, Professor Henrique José de Souza, na sede da Entidade, no Rio de Janeiro, recebeu uma comitiva norte-americana pertencente ao Rito de York, chefiada pelo “Velho Escocês”, o Adepto Ralph Moore, que o saudou como seu Chefe Secreto. Posteriormente, por volta de 1960, o Sr. Rubens Monteiro de Barros, Venerável Mestre da Loja Simbólica “Rui Barbosa”, do Rito Escocês Antigo e Aceite, fundada em 15 de Abril de 1954 em São Lourenço, Sul de Minas Gerais, saudou e reconheceu o Professor HJS como Mestre Supremo da Maçonaria Universal.

Foi quando o Venerável Mestre JHS retomou as palavras já escritas por si numa antiga e grandieloquente prancha (discurso) e serviu-se delas como resposta à Saudação recebida, de que transcrevo o início e a parte final da mesma com que desfecho o presente estudo:

Maçons do Brasil! Maçons de toda a parte do Globo!

Quem vos dirige a palavra é hoje o Fundador da Sociedade Teosófica brasileira – o Grande Ocidente – para vos dizer que Hiram, o “Filho da Viúva”, ressuscitou e traz consigo o mais precioso de todos os símbolos, que é o excelso Tetragramaton, como expressão ideoplástica do Homem Cósmico, que é Jehovah.

O termo “Pontífice”, por sua vez, significando “construtor de ponte”, pois através de tal “ponte” (um verdadeiro traço de união ou ligação entre o Mundo Terreno e o Divino), vão sendo conduzidas ou salvas as almas que se acham sob a protecção ou guarda de Alguém ou alguma Coisa. Ao “arco-íris” se dava o nome “fio de navalha”, cuja finura ou estreiteza tornava difícil a passagem das almas a caminho do Divino ou da “Salvação”. E isto, ainda, porque a sua forma semi-circular é uma alegoria à abóbada celeste… No Egipto já existiam os “Pontífices-pyronis”, que, idênticos aos Maha-Choans das teogonias orientais, representam – através de uma série numeral cabalística – Seres de uma categoria superior ou divina. Foi desse termo e do seu sentido, que a Igreja copiou o de “Sumo Pontífice” para os seus Papas. “Construtores de pontes, obreiros, pedreiros do Edifício Humano”, foram sempre os Maçons, embora os seus símbolos e iniciações, herdados do antigo Egipto, e cujo verdadeiro Patrono foi Amenófis IV, ou KUNATON, não sejam mais interpretados como outrora. Essa verdade, além do mais, está implicitamente apontada no termo “Filhos da Viúva”, porque, nas referidas tradições egípcias, Osíris (o Pai, o Sol) morre, e Ísis (a Mãe, a Lua), ficando “viúva”, começa a procurar os “14 pedaços do esposo desaparecido” (as doze conhecidas e mais duas ocultas “casas solares” ou signos zodiacais, Hierarquias Ocultas, Avataras, etc.), sendo que o último (o “sexual”) foi encontrado no bucho de um peixe pescado no Rio Nilo. E isto porque “Piscis” ou “Peixes” é um signo positivamente “sexual”, como prova o facto de quando apresentaram a Jesus (Is, Iess, Jess, etc.) a mulher adúltera, que a plebe queria apedrejar, ter ele traçado no solo um “peixe” e dito: “Aquele que estiver isento DESTE PECADO (e não “de pecado”, como querem muitos) que atire a primeira pedra”… O termo “pescador” também pode ser aplicado a tais Guias ou Condutores espirituais; do mesmo modo que “atirar a rede (pela Palavra, ou seja, o Verbo Divino, Luz que Moisés “contemplou face a face”) para apanhar as almas (ou “peixes”, já agora noutro sentido) que devem ser salvas”.

Não é demais apontar ainda o nome do fundador da Rosacruz alemã, CHRISTIAN ROSENKREUTZ, pois do primeiro termo sobressai o de “Cristo” (Cristiano, Cristão) e do segundo, a ROSA e a    CRUZ, respectivamente, alegoria do AMOR UNIVERSAL – pois que a ROSA (vermelha, ígnea, etc.) se transforma em CORAÇÃO – e SÍMBOLO CÓSMICO (Cruzeiro do Sul, etc.). De tal símbolo apropriou-se a Igreja para a imagem do “Coração de Jesus”, sendo que “as sete espadas (ou dores) da Virgem Maria”, atravessadas no seu coração, representam as Sete Raças Cósmicas, estados de Consciência, e até as Sete Plêiades.

Quanto ao nome de Maria, convém dizer que provém de Mare, o mar, as águas, além de tudo para fazer jus também ao signo de Aquarius (≈), francamente feminino. Daí as “águas do parto”, etc. Isto pode ser comprovado verificando-se as pias baptismais das catedrais mais famosas do mundo, nas quais se acham dois MM entrelaçados, que o vulgo julga ser apenas o nome de Maria, mas que é a antiga maneira de se firmar o signo de Aquarius. E isto porque todas essas catedrais foram construídas por verdadeiros Mestres ou Maçons daquela famosa “Ordem dos Monges Construtores”, da qual surgiu a própria ROSACRUZ…

Com o “compasso e o esquadro” – principais ferramentas dos Pedreiros ou Maçons – e desde que entrelaçados e invertidos, forma-se o Hexágono, símbolo precioso do Macrocosmos e do Microcosmos. Colocados nas direcções horizontal e vertical, apresentam claramente a Rosa e a Cruz, desde que no centro se firme a FOLHA DE ACÁCIA.

Eis aí, pela primeira vez demonstrado, o símbolo geral da antiga Rosacruz e que hoje os seus não iniciados sucessores desconhecem por completo, como desconhecem que as 4 letras secretas, que finalizam o alfabeto Devanagari, colocadas nas 4 direcções cósmicas, ou pontos cardeais, dão a mesma Rosa e a Cruz

Hiram, Kunaton, CHRISTIAN ROSENKREUTZ, SÃO GERMANO! Pouco importa o nome, pois que “Ele já veio e vós não O reconhecestes”… mas, em breve, Ele voltará à sua Santa Morada, para fazer jus à antiga palavra franco-maçónica VITRIOL – composta de sete letras – com a qual era formada a frase mais secreta que se conhece, verdadeira “palavra de passe”, cujo sentido real até hoje não foi decifrado, senão por Aqueles que têm o direito de penetrar no mais sublime de todos os Tabernáculos: VISITA INTERIORA (ou INFERIORA, se o quiserdes) TERRAE RECTIFICANDO INVENIES OMNIA LAPIDEM.

Hoje não mais conheceis a “palavra de passe” egípcia, que era pronunciada à entrada do Templo. Substitui-a, pois, aquela outra latina, que prova “estar Justo e em Perfeito Equilíbrio com o Templo o obreiro ou construtor do Edifício Humano”.

Sim, JUSTUS ET PERFECTUS. A mão direita e o pé do mesmo lado firmavam na Terra o Compasso e o Esquadro, além do mais, para dignificar o “Quaternário Terreno”. Este está representado – na Tragédia do Gólgota – nas 4 letras J.N.R.J., que não quer dizer apenas JESUS NAZARENUS REX JUDEORUM (leia-se NAZAREUS, por ser Jesus da seita dos “Nazar”, ou os que traziam os cabelos rentes aos ombros), enquanto o indeformável Triângulo, que figura no Templo maçónico, está no mesmo “Corpo Eucarístico” (Eucrístico) de Jesus, representado pelas 3 letras: J.H.S. Entre os dois Ladrões (que não têm a interpretação que se lhes dá, mas outra bem diversa…) era ELE o Grão-Mestre ladeado pelas Duas Colunas (Vivas) Jakim e Bohaz, cujas iniciais (J e B) também figuravam nas duas cidades onde o mesmo Jesus nasceu e morreu: Belém e Jerusalém. São ainda as mesmas iniciais de João Baptista (o seu Arauto, Anunciador ou JOKANAN), que o baptizou no Rio Jordão, momento em que “desceu sobre Jesus o Fogo do Espírito Santo”, muito bem simbolizado na Ave ou Pomba. Jesus, como todos os Grandes Iniciados, foi verdadeira AVIS RARIS IN TERRIS.

Quanto ao termo “João Baptista” – hoje com significado mais misterioso que outrora, e relacionado com o Culto de Melquisedeque, ou MAÇONARIA UNIVERSAL (Grande Fraternidade Branca), cumpre esclarecer que se acha estreitamente ligado ao Rito ADONHIRAMITA (Adam, Hiram e Ita, Mita ou Mitra).

Isso transparece, além de outras razões ocultas, nos seus sinais, inclusive o que deve ser feito na “garganta”, para indicar a maneira pela qual foi o “Arauto de Jesus” sacrificado, porque, em verdade, quando se põe em suas mãos um cordeiro, é para provar que tanto o Anunciador como o Anunciado merecem a famosa frase latina: AGNUS DEI QUI TOLLIS PECCATA MUNDI – MISERERE NOBIS (“Cordeiro de Deus que tirais os pecados do Mundo, tende misericórdia de nós”). Todos esses Arautos têm o nome Iokanãs ou Jokanãs, que quer dizer: Aquele que conduz, anuncia alguém ou alguma coisa pelo “Itinerário de Io ou Ísis”, ou seja, “o Caminho Real por onde tem de passar uma nova Família, Clã, Raça”, como acontece com as SEMENTES arregimentadas pela mesma Sociedade Teosófica Brasileira. Donde, o seu conhecido lema: SPES MESSIS IN SEMINE (“A Esperança da Colheita está na SEMENTE”). E tal a razão de ser dado ao lugar onde foi construído o seu Templo, o nome VILA CANAÃ.

A palavra NITERÓI, onde foi fundada (com o nome Dhâranâ) materialmente a detentora desse Movimento, provém de três outras palavras, extraídas de antiga língua sagrada, NISH-TAO-RAM, que quer dizer: “o Caminho Iluminado pelo Sol” (Espiritual, evidentemente). A prova é que o ano da sua fundação foi 1924, dirigido pelo Sol, e o mês o de Agosto (dia 10), ainda sob essa égide. E, finalmente, num domingo, como dia também do Sol. Três Sóis (como a própria Manifestação Divina) que, desde então, “começavam a Iluminar o Caminho da Evolução Humana”!

Como outrora no Egipto: MISRAIM – MENFIS – MAISIM!

(Os 3 termos Misraim Menfis Maisim eram assinalados entre as Colunas do Templo maçónico por 3 MMM que, por sua vez, tinham outras interpretações de imenso valor nos ritos egípcios.)

E com isto, aceitai – velhos Irmãos e Amigos – as Homenagens de quem até hoje vos respeita e admira, mas que também pede que Homenagens, por sua vez, sejam prestadas Àqueles que já se foram, e sobre cujos respeitáveis Túmulos não devemos permitir que seque ou desapareça a simbólica e sagrada Flor da Acácia.

Com a destra voltada para o Céu, e o polegar invertido para a Terra – contrariamente a quantas saudações caóticas foram instituídas pelas decadentes ideologias deste ciclo em franco declínio – maiores Homenagens devemos prestar ao mais Digno e Excelso de todos os Construtores:

O SUPREMO ARQUITECTO!

 

Obra de referência:

Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria, por Vitor Manuel Adrião. Editora Dinapress, Lisboa, Setembro de 2002.

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