Fala-se hoje, com ênfase, que o Catolicismo está praticamente morto psicossocialmente e assim haverá de desaparecer para dar lugar ao “Cristianismo Esotérico”. Esta teoria, de todo errada, provém de certas seitas auto-intituladas «rosacrucianas» que vêm a dedicar-se à propaganda de um evangelismo protestante muito bem «embrulhado» numa amálgama esdrúxula de excertos teosóficos, os quais, direi de passagem, parecem-me completamente incompreendidos e assim absolutamente mal enquadrados no contexto geral do tema.

E errada por quê? Pois bem, analise-se.

1.º – Essas seitas pseudo-«rosacrucianas» se fossem realmente Rosacrucianas, seriam as primeiras a saber que a verdadeira Ordem Rosa+Cruz, até ao meado do século XVII e como descendente directa da Ordem dos Monges-Construtores medievais, era um Grau Operativo de Iniciados católicos ocultados no seio da própria Igreja, mesmo com esta pouco sabendo da presença dos mesmos nela, e tudo desconhecendo sobre a sua acção psicossocial dirigida a toda o universo humano a partir do mesmo meio eclesial. Tais Cristãos “esoteristas”, diz a Tradição, quando viram o seu plano de reforma moral e social da Europa ser gorado pelo exacerbado Dominicanismo que descambou no Luteranismo (Martinho Lutero era dominicano), recolheram-se ao Oriente, diz-se ao Tibete profundo. O facto é que a partir do século XVII recrudesce a presença cristã no Extremo Oriente, mormente no Tibete com o Padre Estêvão Cacela, jesuíta português, de quem as crónicas falam da sua visita a… Shamballah.

2.º – Católico, do grego cattôllikòs, significa “universal, universalista”. Não há dois Cristianismos! Há, sim, duas maneiras diferentes de encarar o Cristianismo, conformadas à apetência pessoal e respectiva evolução interior, mental, do professante: seja só pela exclusiva visão imediata da “letra” das Escrituras (exotérica), seja pelo entendimento aprofundado das “letras” ocultando o “espírito” das mesmas Escrituras (esotérico). Ora, tanto uma como outra compreensões do Cristianismo andam “pari-passu”, e por isso a Igreja possui o seu aspecto exotérico (público, desvelado) e possui o aspecto esotérico (privado, velado), adoptado e propagado na Idade Média por várias Ordens Cristãs de carácter nitidamente gnóstico ou teosófico, como foi o caso dos citados Monges-Construtores, e até mesmo de vasta parcela dos Templários e finalmente dos Rosa+Cruzes (séculos XIV-XVII).

3.º – O Catolicismo (onde indistingo tanto o Oriental como o Ocidental por ser um só) possui uma poderosa Egrégora ou “Alma Sinergética Colectiva” perpetuada ao presente através dos Sacramentos confirmados pela Sucessão Apostólica, isto independentemente da mais ou menos valia do esoterismo ou do exoterismo, pois que se deve exclusivamente à passagem confirmada do mando espiritual da Igreja. A Confirmação Apostólica manifesta-se através das Celebrações Eucarísticas ou as Missas que lhe são afins, dando vida e força acrescentada aos Sacramentos. Nisto, as seitas dissidentes da Religião Católica perdem completamente, pelo facto de não possuírem esse mesmo Poder Sinergético, pelo que não passam de seitas ou “fragmentos” sectários, independentemente do mais ou menos carisma que possuam junto do povo mas não junto da Cristandade como é ela.

A Sucessão Apostólica iniciou-se com o Apóstolo São Pedro, eleito e confirmado pelo próprio Jesus Cristo, e estruturou-se com os primitivos Padres Apostólicos, discípulos directos dos 12 Apóstolos. De então para cá, a Igreja (Romana e Bizantina) discorre numa linhagem eclesiástica oriunda de Pedro, Petrus ou Petra, a “Pedra Angular” da Casa do Senhor, 1.º Bispo de Roma, o que lhe confirma a legitimidade tradicional do Apostolado.

No Oriente bizantino o chefe supremo é o Patriarca, de hierarquia equivalente às funções do antigo Hierofante. No Ocidente romano o sumo pontífice é o Papa, o “grande pai” espiritual dos católicos, título honorífico tardio (séculos IV-V) criado para se distinguir do bispo comum, função e nome vulgarizados nos séculos III-IV por Santo Atanázio e outros Padres Apostólicos. Este termo bispo provém do hebraico barishid, sendo transposto para o greco-latino basileus, ou seja, o hierofante como o “chefe dos sacerdotes”, padres ou popes, “pais” (espirituais) dos que exercem canónica e legitimamente o ritual do sacrifício santo, devidamente pré-consagrados no Magistério (Padre) e Instrução (Pastor) das Sagradas Escrituras.

A Igreja Católica celebra sete Sacramentos, que são: Baptismo, Confirmação (ou Crisma), Eucaristia, Reconciliação (ou Penitência), Unção dos enfermos, Ordem e Matrimónio. Segundo São Tomás de Aquino, “todos os Sacramentos estão ordenados para a Eucaristia, como para o seu fim”. Na Eucaristia renova-se o Mistério Pascal de Cristo, actualizando e renovando assim a salvação espiritual da Humanidade cristã, segundo o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica.

O sacramento católico é um acto ritual destinado aos fiéis, para receberem a Graça de Deus, e destinado também a conferir sacralidade a certos momentos e situações da vida cristã. Segundo o mesmo Compêndio do Catecismo da Igreja, eles foram instituídos por Jesus Cristo como “sinais sensíveis e eficazes da Graça (…) mediante os quais nos é concedida a Vida Divina” ou Salvação. Através desses sinais ou gestos divinos, “Cristo age e comunica a Graça, independentemente da santidade pessoal do ministro”, embora “os frutos dos Sacramentos dependam também das disposições de quem os recebe”.

É assim que os sete Sacramentos marcam as várias fases importantes da vida cristã do crente, podendo ser repartidos em três categorias:

a) Sacramentos da iniciação cristã (Baptismo, Confirmação e Eucaristia) que “lançam os alicerces da vida cristã: os fiéis, renascidos pelo Baptismo, são fortalecidos pela Confirmação e alimentados pela Eucaristia”;

b) Sacramentos da cura (Penitência e Unção dos enfermos);

c) Sacramentos ao serviço da comunhão e da missão (Ordem e Matrimónio).

Estes Sacramentos podem ser agrupados em apenas duas categorias:

1.ª) Os que imprimem permanentemente carácter e deixam uma marca indelével em quem os recebe, e que por isso só podem ser ministrados uma vez a cada crente, sendo eles o Baptismo, o Crisma, o Matrimónio e a Ordem;

2.ª) Os que podem ser reiteradamente.

Os Sacramentos são então gestos de Deus na vida de cada crente, expressando-se simbólica, humana e espiritualmente, por conseguinte, eles são considerados:

1) Sinais sagrados, porque exprimem uma realidade sagrada, espiritual;

2) Sinais eficazes, porque além de simbolizarem um certo efeito, produzem-no realmente;

3) Sinais da Graça, porque transmitem os diversos Dons da Graça Divina;

4) Sinais da Fé, não somente porque supõem a Fé em que os recebe, mas porque nutrem, robustecem e exprimem a sua fé.

De maneira que a legitimidade e consequente poder espiritual da Igreja manifesta-se pela ordem seguinte:

CRISTO → PEDRO → SUCESSÃO APOSTÓLICA.

CONFIRMAÇÃO APOSTÓLICA → CELEBRAÇÕES → SACRAMENTOS.

É o Espírito Santo, o Terceiro Logos Criador do Mundo, quem assiste ao ministério dos Sacramentos, que faz a sua efusão ao sacerdote canonicamente ordenado ou conforme a ORDEM e a REGRA. Representando ao Divino, o seu ministro prepara a assembleia para a recepção dos Sacramentos por meio da Palavra de Deus (Segundo Logos Criador do Universo) e da Fé que acolhe a Palavra ou Verbo nos corações bem-dispostos. De maneira que os Sacramentos fortalecem e exprimem a Fé em Deus Pai (Primeiro Logos Criador do Filho e do Espírito Santo nos quais é UM, ou a Essência Única dos Mesmos). O fruto da vida sacramental é ao mesmo tempo pessoal e eclesial. Por um lado, este fruto é para cada crente um vida para Deus em Cristo; por outro, é para a Igreja o seu contínuo crescimento na Caridade ou Amor e na sua missão de testemunho.

Esse último parágrafo traz-me de imediato à memória o facto das «curas milagrosas» operadas por Obra e Graça do Espírito Santo em certas seitas carismáticas assim mesmo à margem da Sucessão e Confirmação Apostólicas. Primando pela quantidade do séquito, tal é muito natural porque no mundo profano ninguém dá ou segue coisa alguma se não tive um lucro, uma compensação imediata. Jurando curar todos os males da alma e do corpo, principalmente os financeiros, acontecem nesses meios verdadeiros prodígios que ofuscam a razão e lucidez até das mentes mais formadas, porque, aqui sim, «o mundo místico acaba sempre sendo o da lógica da irracionalidade». Gente neurasténica, esquizofrénica, histérica e hipocondríaca, portanto, psico-fisicamente débil, encontra na egrégora criada pelo espectáculo «religioso» o atenuamento emocional das suas pressões interiores, o que é uma catarse colectiva muito semelhante ao fenómeno psicológico igualmente colectivo dos festejos do carnaval.

Verdade seja dita que as curas psicossomáticas de maneira alguma se devem ao Espírito Santo, mas às próprias pessoas que, levadas pela auto-mesmerização inflamada pela efervescência emocional do colectivo exaltado, encontram na catarse a cura ou alívio temporário dos seus males. Com efeito, toda a cura psíquica é temporária, portanto, sendo mais alívio que propriamente cura, e ela só durará enquanto houver ligação anímica ao ambiente «curador». Rompidos os laços, o mal poderá voltar a manifestar-se e com mais intensa gravidade, por causa do acúmulo de energias enfermas no corpo mental que até então o emocional ou astral barrou, não permitindo a cura integral, pois que a mesma envolve esforço pessoal que no caso se prescinde, pagando a outros para isso e assim ficando na ignorância da crença, das aparências e só.

A imposição das mãos, na Missa do Espírito Santo, pelos sacerdotes católicos, é legitimada pela Sucessão e Confirmação Apostólicas, o que os legitima como veículos credenciados do Espírito Santo, ou melhor, do Reservatório Espiritual do Cristo, cuja Energia de Vida fluem sobre os afligidos, já antes doutrinados a sobretudo procurarem em si o que impossivelmente encontrarão fora, como Jesus Cristo ministrou (“O Reino dos Céus está em vós”), pois em contrário não passará dum culto psíquico da personalidade pela personalidade. Por isso é dever do verdadeiro sacerdote ante o crente, primeiro doutrinar-lhe a mente na Sabedoria para que se abra emocionalmente ao Amor de Cristo, a fim da cura espiritual ser humanamente possível, facto confirmado pela imposição magnética ou mesmérica das mãos.

A verdadeira cura é a mental como expressão directa do Espiritual, é a que provém do próprio Deus Espírito Santo, o Consolador na criatura humana receptiva à Sua influência Divina que desce até ao corpo físico, após atravessar, purificar, curar a alma, onde a moléstia tem a sua origem psicomental.

Posto tudo, posso rematar não existir nem “Cristianismo Esotérico” nem “Cristianismo Popular”, mas tão-só duas modalidades diferentes de encarar uma mesma realidade, não subsistindo uma sem a outra, isto que vem justificar o facto de não raro alguns Iniciados verdadeiros terem pertencido a uma religião tradicional ao mesmo tempo que postulavam numa Ordem Iniciática.

Quanto muito, devido à estagnação espiritual da Igreja por ter ficado despossuída daqueles que a poderiam levar a uma compreensão e vivência superior do Cristianismo, o que implicaria elevar-se do catecismo popular à teologia universal, ela pode auto-inactivar-se pela perda da compreensão íntima e consciência sacramental, gradualmente falindo até desaparecer pela sucessão de uma Nova Igreja, a da Religião-Sabedoria. Ao que se vê hoje em dia, com a crise acentuada de vocação sacerdotal e o esvaziamento das assembleias, parece ser isso mesmo que está acontecendo.

Como disse, a Sucessão Apostólica vem desde Pedro e Paulo através dos Padres Apostólicos que foram os primitivos dirigentes da Igreja, investidos pelos próprios Apóstolos de Cristo. É a indispensável passagem substancial ao cada vez maior poder eclesial, grau a grau ao par da respectiva dilatação da consciência do confirmado, e é assim que um bispo detém maiores poderes que um padre, e este muitos mais que um diácono.

O Cristianismo possuía originalmente sete graus hierárquicos, dos quais somente três eram do domínio comum ou popular. Os três graus inferiores constituíam respectivamente os Ouvintes, os Companheiros e os Fiéis, e os quatro graus superiores eram formados pelos Sacerdotes investidos pela Graça e Poder do Espírito Santo.

O Clero ordenava-se hierarquicamente nesses sete graus canónicos relacionados com as Cartas Paulistas às Sete Igrejas do Apocalipse (ou “Revelação Secreta”). O cristão comum alcançava no máximo o terceiro grau (Fiel). Daí para diante distanciava-se do povo e vivência comum ou ordinária e vinha a tornar-se, após contracção de votos perpétuos, um dos condutores ou pastores espirituais do mesmo povo. Esses quatros graus superiores eram os de Subdiácono, Diácono, Sacerdote e Bispo ou Vigilante.

A constituição da hierarquia eclesiástica não deixou de ser uma corruptela da hierarquia original da Ordem do Santo Graal, refundada por Jesus Cristo e que era a mesmíssima Igreja de Melkitsedek ou Grande Fraternidade Branca exteriorizada sobre a Terra por esse Divino Avatara do Ciclo de Peixes, destinada a consolidar a Sinarquia Universal tomando Roma por centro do Mundo conhecido.

Com efeito, no ano zero da nossa Era deu-se a manifestação do Espírito de Verdade através da Missão do Quinto Bodhisattva ou Deus de Compaixão, conhecido como Jesus o Cristo. Naquela época Roma dominava e avassalava os povos da Terra, estendendo os seus domínios até ao Médio Oriente onde, na Galileia, nascera o Menino-Deus envolto nos Mistérios da Igreja de Melkitsedek, o Rei do Mundo. Na realidade, foram dois os Seres surgidos com a Missão de restaurar o Império Sinárquico iniciado por Ram na face da Terra. Ambos descendiam genealogicamente do rei David: um seria o Príncipe da Linha de Salomão até José (segundo São Mateus), o Rei de Israel, Senhor da Espada, Imperador detendo o Poder Temporal do Governo Político do Mundo – Jesus ou, no original, Jeoshua Ben Pandira, outro seria o Príncipe da Linha de Nathan até José (segundo São Lucas), o Messias de Israel, o Senhor do Báculo, Pontífice Eterno de Melkitsedek – Cristo o próprio Avatara Universal veiculando a consciência e forma humana de Jesus.

Vêem-se aí mais uma vez em evidência aqueles dois Poderes. O objectivo era fazer de Roma o Centro do Império Sinárquico (Poder Temporal) e formar o Sistema Geográfico da Palestina (Autoridade Espiritual), constituído pelas Sete Igrejas do Oriente assinaladas nas Epístolas de São Paulo. Seria, portanto, restabelecida na face da Terra a Ordem de Melkitsedek, com o Rei trazendo sobre a cabeça a suprema coroa imperial, e o Pontífice trazendo sobre a fronte o triregnum ou a tríplice tiara pontifical, como Sacerdote do Eterno, realizando juntos a Concórdia Universal ou o Governo Sinárquico do Mundo.

Triregnum

Infelizmente aquele plano traçado antecipadamente com o nome de “Missão Roma”, não se realizou, devido à crucificação criminosa, sob pretexto político, do que deveria ser o legítimo Rei de Israel, descendente directo de David e Salomão, Jeoshua Ben Pandira, deixando assim de haver condições físicas para se manter sobre a Terra o Avatara do Cristo Universal, forçado a volver aos Mundos Interiores do Globo. Logo a Augusta Ordem do Santo Graal também se interiorizou, no sentido de intervenção directa sobre a Humanidade, passando os seus preclaros membros à clandestinidade e só restando no Mundo o seu resquício kármico que sobreviveu à tragédia do Gólgota graças aos posteriores e contínuos pactos políticos e sedução religiosa dos césares: a própria Igreja de Roma.

João de Patmos, o Evangelista, e Saulo ou Paulo de Tarso ainda quiseram prosseguir os propósitos originais de Jesus o Cristo, mas havia se ido o Espírito… era tarde demais. As próprias Colunas Vivas de Jesus, Nicodemus e José de Arimateia, igualmente haviam se afastado… para o Ocidente, na direcção de SINTRA, o Quinto Centro Biovital do Mundo, acompanhando por cima a marcha subterrânea do Cristo.

Ainda sobre o binómio Autoridade – Poder, são aspectos de uma expressão única ou derivados da mesma Causa que inclusive originou o conceito de Templo com as suas duas Colunas, ou do Ser Central (Andrógino) e seus dois Ministros, cuja expressão máxima encontra-se no Rei do Mundo e seus dois Assessores como “desdobramentos” Dele mesmo: o Brahmatmã e Mahima e Mahanga, conhecidos nas escrituras judaico-cristãs como Melki-Tsedek e Kohen-Tsedek e Adonai-Tsedek.

Melkitsedek é, enfim, o Manu Primordial permanente, Chakravarti ou o Planetário da Ronda, ora manifestando-se com os dois Poderes juntos (Brahmatmã), ora agindo com Justiça (Mahanga), ou, por outra, como a Fala da Sabedoria, a Voz do Anjo da Palavra (Mahima), etc. Por sua vez, os chefes políticos das nações do mundo inteiro assim como os líderes religiosos, representantes das expressões humanas e espirituais dos povos, deveriam realmente ser sub-aspectos de Melkitsedek, na complementação da sua mais que excelsa Missão. Quando há divergência entre estes dois Poderes, há o desequilíbrio, a desordem, conflitos de toda a espécie, por não mais poderem orientar a evolução sócio-espiritual dos seres. E o resultado de tudo isso é o consequente desvio da Humanidade de Dharma (a Lei Justa e Perfeita) e a imediata queda em Adharma (o contrário daquela) e em Avidya (ignorância das coisas divinas): este é o retrato fiel do mundo actual, que a Igreja de Roma deveria contrariar devolvendo à sua catequese o significado verdadeiro das duas chaves de Pedro, ou seja, as chaves das leis universais do Karma e Reencarnação, assim levando os seus crentes a terem uma responsabilização verdadeiramente universal dos seus actos presentes decisivos do seu futuro.

Indo às causas ocultas, originais, só assim se podendo compreender o seu fundamento e razão, volte-se à hierarquia eclesiástica e a sua relação (se ainda existe…) com o “Reservatório Espiritual do Bodhisattva”, o Cristo Universal de quem Jesus foi humanamente o Vaso de Eleição. O caudal do afluxo Crístico aumenta, e com ele os poderes, à medida que se eleva na hierarquia legitimada, pelo que, como já disse, um bispo tem mais poder que um sacerdote, e este mais que um diácono. Descreverei, pois, as três ordens superiores que representam graus definidos, separados entre si por ordenações conferindo diferentes atribuições: diácono, sacerdote e bispo.

O religioso é ordenado primeiramente como diácono que significa, na prática, uma espécie de aprendiz ou assistente de sacerdote, como o seu próprio nome grego indica “ministro, ajudante”. Possui o primeiro grau do Sacramento na Ordem, sendo ordenado não para o sacerdócio mas para o serviço da Caridade e da pregação da Palavra de Deus e da Liturgia. Não tem ainda o poder de administrar o Sacramento, abençoar a Assembleia ou perdoar-lhe os pecados; além de fazer homílias e pregações pode, contudo, realizar, sob a orientação de um sacerdote, algumas celebrações religiosas, como abençoar casamentos e baptizar crianças, o que ao leigo também é permitido em caso de emergência. Após sete anos no diaconato e concluídos os seus estudos clericais, é ordenado sacerdote, sendo este segundo estágio que lhe confere o poder de auferir do Reservatório do Cristo (a mesma Egrégora da Igreja) e assim ministrar os Sacramentos canonicamente investido a poder realizar efectivamente o Mistério da Transubstanciação do Homem em Deus, da Partícula corporal transformada Corpo Divino, Deus Espírito Santo omnipresente na Igreja. É o único que pode consagrar a Hóstia e o Vinho e aplicar os vários Sacramentos com toda a eficácia, como o de dar a Bênção aos fiéis em Nome de Cristo e proferir a absolvição dos pecados. Além de todos estes poderes sacramentais, ao bispo é conferido o de ordenar novos sacerdotes, para que prossigam a Sucessão Apostólica. Só a ele compete o direito de administrar o Rito da Confirmação e o consagrar uma igreja, vale dizer, destiná-la ao serviço de Deus.

Pode-se, igualmente correlacionar os três graus superiores da Igreja com os seguintes princípios afins aos mesmos:

Tal como o Homem possui no seu todo sete expressões ou corpos (repartidos em Espírito, Alma e Corpo), interpenetrados e todavia distintos em consciência e energia, igualmente, como já foi dito, são sete os Sacramentos e sete as finalidades de cada um deles. Usando uma linguagem simplificada, a relação da Trindade Divina e da trindade eclesial com os corpos do Homem é a seguinte:

Posto isso, poder-se-á entender melhor o lado oculto dos Sacramentos ao adiantar-se um pouco mais sobre o seu mecanismo e influência efectiva no crente.

Sendo o coração apontado como o lugar espiritual da Morada do Cristo Interno, ele é no Homem o centro latente da Tríade Superior: Espírito, Intuição, Mente Superior ou Causal. Uma tentativa para estimular o centro vital cardíaco é feita pela Igreja Cristã aquando da leitura do Evangelho. O sinal da Cruz é feito com o dedo polegar sobre o coração, bem como sobre as sobrancelhas e a garganta. Este uso do polegar (correspondendo a Vénus e ao elemento Éter ou Akasha) corresponde a um passe pugnal do mesmerismo, sendo empregado sempre que uma pequena mas poderosa corrente de força se torna necessária, como seja a da abertura dos chakras ou “centros vitais” superiores, que é dizer, do coração ao topo do crânio.

Quanto à finalidade do Sacramento do Baptismo, a sua função oculta é deveras interessante. Ela visa auxiliar a redução ao mínimo das “sementes” do mal trazidas pela criança em seu átomo-semente causal da reencarnação anterior, facto que a Igreja chama, sem que o compreenda, “pecado original”.

Para esse efeito emprega-se água magnetizada ou “benta”, que é dizer, benzida, abençoada. Por meio dela o sacerdote põe em vibração activa a matéria etérica do corpo da criança, a fim de estimular o seu sistema pituitário e, através dele, afectar o veículo emocional (o astral de Paracelso) ou psíquico que, por sua vez, irá afectar o mental inferior. A força utilizada corre de baixo para cima várias vezes, como se fosse água, até alcançar e estabilizar no seu próprio nível, correspondente à evolução espiritual já alcançada pelo baptizado.

O “exorcismo” então realizado pelo sacerdote, tem por objectivo neutralizar as sementes do mal em sua condição presente e evitar que sejam alimentadas ou encorajadas, seja de que maneira for, até que finalmente se atrofiem e se desprendam.

Além disso, na cerimónia, o sacerdote fazendo verticalmente o sinal da Cruz em toda a extensão da frente e costas da criança, constrói uma forma-pensamento ou elemental artificial (origem da ideia do “anjo da guarda baptismal”) que está repleta de Força Divina, a qual é também animada por um tipo superior de “espírito da natureza”, conhecido como silfo. A forma-pensamento é uma espécie de couraça de luz branca na frente e costas da criança, repleta da energia mental despendida pelo oficiante.

Mesmo que acaso a criança morra de imediato, o Baptismo pode ser de grande valor para ela do outro lado da Vida, pois é muito possível que as sementes do mal fossem estimuladas para a actividade no Mundo Astral, pelo que a forma-pensamento baptismal ajuda muito a evitar esse facto.

Assim, no Baptismo não só certos centros vitais ou chakras do infante são activados e canalizados à recepção Espiritual, como também as ojas negativas ou sementes do mal são reprimidas até certo ponto, recebendo ele nova e poderosa influência para o Bem, o que é praticamente um “Anjo da Guarda”.

Posso adiantar que a cruz traçada sobre a testa da criança com o óleo santo consagrado ou magnetizado pelo sacerdote, ficará visível no seu corpo vital ou etérico durante toda a vida. É o sinal do cristão, precisamente como o ponto tilaka ou marca de casta é, para o hindu, o sinal de Shiva, marcado pelo Seu tridente.

Acerca do Sacramento da Confirmação, na Igreja tem por finalidade ampliar e fortalecer o elo entre a Individualidade e a Personalidade. Depois do alargamento preliminar desse canal (o chamado antahkarana ou “ponte de luz”), o Poder Divino transmite-se do Espírito do bispo ao Mental Superior do candidato ao sacerdócio. A fazer o sinal da Cruz, o Poder Divino sobe ao princípio Intuicional e depois ao Espiritual do investido. O efeito sobre o Espírito reflecte-se no corpo etérico ou físico superior, e o que se realiza no Intuicional é reproduzido no veículo emocional, enquanto o do Mental Superior é identicamente reflectido no mental inferior. Este resultado não é apenas temporário, já que a abertura das conexões forma um vasto canal através do qual um fluxo permanente do Poder Divino (Prana Solar) pode circular. O efeito geral, como se disse, é tornar mais fácil a acção do Espírito através dos seus veículos.

Os vários corpos do Homem, vistos “de baixo” por clarividência, dão a impressão de estarem uns por cima dos outros, embora realmente não estejam separados no espaço mas interpenetrados e unidos por inumeráveis fios ou condutos de força etérea, os chamados nadhis ou filamentos etéricos por onde circula a Energia Vital (Prana), tendo a sua contraparte imediata na rede de veias por onde circula o sangue físico. Toda a actividade que seja contra-Evolução impõe tensão desigual sobre os condutos, retorcendo-os e embaraçando-os, estando nisto a origem de todas as doenças, originadas na mente, plasmadas no emocional e projectadas no físico. Quando uma criatura humana insiste desmesuradamente no erro, seja de que maneira for, a ligação entre os corpos superiores e inferiores é gravemente prejudicada, podendo mesmo ser quebrada. Neste caso extremo, infelizmente não raro hoje, deixa de existir o Eu Verdadeiro e só o lado inferior do seu carácter pode manifestar-se completamente, tornando-se assim a pessoa um verdadeiro “demónio” em carne e osso… sem Espírito.

Os cultos psíquicos e demais medianímicos que também estão presentes em certas «igrejas carismáticas», diga-se de passagem, contribuem grandemente para o estado extremo e fatal de arremessar a Mónada Humana para fora da Corrente de Evolução, por acúmulo de energias nocivas no antahkarana que ao quebrar rompe com todas as formas de manifestação e fica sem meio de puder evoluir normalmente como fazem os seres normais. Já dizia Jesus: Deixai os mortos enterrar os seus mortos. Que é dizer, deixai os mortos fisicamente serem venerados pelos mortos espiritualmente! Por isso a Igreja (como toda e qualquer Religião Tradicional, e muitíssimo mais toda e qualquer Ordem Iniciática) condena e desaconselha vivamente os cultos necromânticos ditos “espiritistas” que, a fechar, tão-só são cultos do materialismo subtil ou psíquico, absolutamente nada tendo a ver com o Espírito Imortal, a Essência ou Partícula Divina no Homem. Ademais, as próprias almas humanas jamais voltam do dito “Além”, excepto as mais viciadas nas energias grosseiras da matéria tamásica, e mesmo estas só muito raramente. O que sucede nesses cultos involucionais, por serem denodadamente passivos lunares e logo astrais, invés dos activos solares ou mentais que são evolucionais, dizia, não passam de manifestações das forças inferiores ou primárias da Natureza.

O animismo a par do suicídio, vêm a ser as duas colunas funestas desse portal proibido pela Lei de Evolução Universal, pois que abre para o próprio Inferno ou Astral mais baixo.

A Igreja Católica oferece um método para ajudar o Homem a reaver mais rapidamente a uniformidade, porque um dos poderes especialmente conferidos ao sacerdote, aquando da sua ordenação, é o de alinhar aquela confusão na matéria subtil (mental inferior, emocional e etérica) do crente. Essa é a verdade que está na “absolvição”; a cooperação do crente é obtida antes, mediante a “confissão”.

Um dos métodos que os crentes utilizam para o estado de concentração é o da “oração repetida”, assim sendo um mantram. Repetido ritmicamente, muitas e muitas vezes, sincroniza as vibrações dos veículos numa unidade. Mantram é, pois, a forma mecânica de controlar as vibrações presentes e induzir novas vibrações desejadas. A sua eficácia depende da que é conhecida como vibração simpática. Quanto mais repetido for o mantram, mais potente o seu resultado. Daí o valor da repetição nas fórmulas da Igreja, e do rosário, que capacita a consciência a ficar inteiramente concentrada no que está sendo dito e pensado, sem se distrair com a preocupação de contar o número de vezes.

Os Anjos comunicam com a Ecclesia, “comunidade, congregação”, através desses mantrans e igualmente da essência etérica do incenso (pelo que deve ser rigorosamente do tipo prescrito para o cânone da Missa), irradiando formosas e poderosas formas-pensamento que gradualmente vão tomando o formato do templo (por isto os templos obedecem a cânones geométricos muito específicos, o que hoje em dia, nas ditas “igrejas novas” ou de estilos modernistas, não se faz, resultando na debilitação e mesmo impossibilidade da actuação plena da Hierarquia Angélica na Ecclesia), alcançando a apoteose com a elevação da Hóstia, momento supremo da Divina Eucaristia.

São chamados Anjos Apostólicos ou Mensageiros os que respondem ao chamado do Prefácio da Eucaristia e se encarregam da distribuição da Força e Presença Divina. Na missa rezada, o Anjo dirigente responde primeiro ao apelo do sacerdote e só depois reúne os demais. Na missa solene, ou missa cantada, a melodia antiga atrai a atenção de todos os Anjos logo que se inicia a liturgia, dispondo-se prontamente a atender.

Sete Linhas de Anjos, de Evolução paralela à Humana, estão para os Sete Raios de Luz Divina:

1 – Anjos do Poder ou do Cerimonial – Sol

2 – Anjos da Maternidade ou da Forma – Lua

3 – Anjos da Arte ou da Beleza – Marte

4 – Anjos da Cura ou Hospitalares – Mercúrio

5 – Anjos da Natureza ou dos Elementos – Júpiter

6 – Anjos da Música ou da Voz Divina – Vénus

7 – Anjos do Lar ou Domésticos – Saturno

Os Anjos evocados nos serviços cristãos estão muito acima dos homens em desenvolvimento espiritual, sendo o serviço que prestam de muitas variedades, ainda que só uma minoria da classe Angélica se ponha em contacto com a classe Humana, principalmente através dos rituais e cerimónias iniciáticas e religiosas.

A forma-pensamento ou Templo etéreo construído nos Planos subtis durante a celebração da Eucaristia, difere completamente das formas-pensamento comuns, embora tenha muito em comum com as formas-pensamento criadas pela Música erudita. Consiste numa estrutura de materiais fornecidos pelo sacerdote e a congregação, durante a parte inicial da missa, nos níveis Etérico, Astral e Mental, sendo depois introduzida, na parte seguinte da mesma missa, matéria de níveis ainda mais elevados, fornecida pela Hoste Angélica.

O Templo Mental pode ser comparado ao condensador de uma instalação para destilar água. O vapor é resfriado e convertido em líquido na câmara de condensação. Da mesma maneira, o Templo Eucarístico fornece um veículo para recolher e condensar o material propiciado pelos fiéis, e no qual um fluxo especial da Força Divina, vindo dos níveis mais elevados, pode descer, permitindo assim que os Anjos Auxiliares usem essa Força para fins definidos no Mundo Físico.

Talvez o exemplo supremo de uma forma-pensamento eucarística seja aquele conhecido na Igreja como o Anjo da Presença. Não se trata de um membro do Reino Angélico, mas de uma forma-pensamento do próprio Cristo, usando a Sua aparência e sendo a extensão da Sua Consciência. É por meio do Anjo da Presença que se faz a mudança nos elementos, conhecida como Transubstanciação.

Tal como existe uma conexão íntima entre o Espírito e o Corpo, entre a Mente Superior e a Inferior, igualmente existe entre os veículos Intuicional (Crístico) e Emocional.

Um exemplo desse relacionamento íntimo entre os corpos dos respectivos Planos Emocional e Intuicional, é também encontrado na Missa. No momento da consagração da Hóstia desce uma Força, a mais elevada do Plano Espiritual, impregnando poderosamente os Planos Intuicional e Mental Superior; além disso, a sua actividade é marcada nos níveis superiores do Emocional ou Astral, embora tal possa ser um reflexo do Mental Inferior por efeito de vibração simpática. O efeito pode ser sentido por pessoas mesmo distanciadas do templo em celebração, passando uma grande onda de Paz Espiritual e Força Divina por toda a região, embora muitos jamais relacionem tal facto com a missa que está sendo celebrada.

Além do que ficou dito, outro efeito é produzido como resultado da intensidade do sentimento de devoção consciente de cada crente durante a celebração, e na proporção correspondente a isso: um raio como que de Fogo Divino despende-se da Hóstia erguida, fazendo com que a parte superior do corpo Emocional cintile intensamente. Através do corpo Emocional, e dada a sua relação íntima com ele, o veículo Intuicional também é fortemente afectado. Deste modo, ambos os corpos reagem intensamente um sobre o outro. Efeito similar ocorre quando a Bênção é dada com o Santíssimo Sacramento exposto na luneta do ostensório, ou seja a Hóstia Magna, significando “a vítima que será sacrificada”, todos podendo vê-la na hora da elevação após a consagração.

Como toda a Missa se desenvolve em torno do Cálice Sagrado ou Santo Vaso (como não podia deixar de ser, por ser memória póstuma simbólica de um outro e mais vivo Saint Vaisel, o Santo Graal onde vasa a origem da Igreja Católica Apostólica), que como Objecto representa Divino Espírito Santo e como estado de Consciência o Mental Superior, que é o do mesmo Espírito Santo ou Terceiro Logos Criador, tem-se em relação com ele os seguintes elementos correlacionados a respectivos princípios de Vida e Consciência patentes no próprio Homem, partícula individualizada da Natureza Universal:

ELEMENTOS SAGRADOS

PRINCÍPIOS HUMANOS

1) HÓSTIA

1) DIVINO (PAI)

2) PÁTENA

2) MONÁDICO – ESPIRITUAL – INTUICIONAL (FILHO)

3)CÁLICE

3) MENTAL SUPERIOR (ESPÍRITO SANTO)

4) VINHO

4) MENTAL INFERIOR – EMOCIONAL

5) ÁGUA

5) FÍSICO ETÉRICO E DENSO

A Pala (cobertura quadrangular para o Cálice) representa o Véu do Akasha ou Éter Celeste protector envolvente do Santo Vaso, enquanto o Corporal (pano quadrangular de linho com uma cruz no centro; sobre ele é colocado o Cálice, a Pátena e a Âmbula com o Corpo de Cristo para a consagração) é o mesmo Akasha corporificando na Terra o ponto central do Sacrifício e Comunhão da Igreja com Deus.

Segundo Charles W. Leadbeater (in La Science des Sacrements. Les Édituions Saint-Alban, Paris, 1926) e Arthur E. Powell (in O Corpo Mental. The Theosophical Publishing House, Londres, 1967), que consultei e desde já informo que rectifiquei em algumas partes no respeitante à simbologia eclesial e ao seu significado, são os seguintes os aspectos principais das ordens menores do Catolicismo e a sua influência no desenvolvimento espiritual do professante:

E das ordens maiores:

Fica assim apresentado o lado oculto das funções eclesiásticas e o que realmente representam. Voto na mais-valia que este estudo venha a ter para o leitorado cristão, particularmente o católico, e para terminar apenas me acodem à memória as excelsas Palavras do Deus AKBEL:

Eu sou a Verdade do Mestre, o Caminho do Discípulo e a Vida da Escola!

 

Obra de referência:

Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria, por Vitor Manuel Adrião. Editora Dinapress, Lisboa, Setembro de 2002.

 

 

 

 

 

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