Manas Taijasi: Teosofia e Eubiose – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Set 20 2010 

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Manas-Taijasa (Manas Taijasi) (sânscrito) – Literalmente, o “Manas Radiante”; um estado do Ego Superior, que só os maiores metafísicos são capazes de conceber e compreender. É a Alma Humana (Manas) iluminada pela emanação de Budhi. – Helena Petrovna Blavatsky in Glossário Teosófico.

Budhi-Taijasi (sânscrito) – Literalmente, “Budhi Radiante”; é termo altamente místico e significa a união Budhi-Manas ou Atmã-Budhi-Manas com a consequente iluminação de Manas, o Mental, que se torna radiante na tonalidade amarelo dourado, iluminado, e se diz altamente espiritualizado. é a condição de um Adepto, de um Bodhi-Satva e o objecto de toda a Alta Iniciação nos Mistérios Maiores. Budhi-Taijasi é a Alma Humana iluminada pela irradiação da Alma Divina; a Razão Humana iluminada pela Luz do Espírito ou a própria Consciência Divina. Daí o dito: “Eu e meu Pai somos UM”, no seu verdadeiro sentido. – Carlos Lucas de Souza in O Raiar de um Novo Mundo.

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Henrique José de Souza (S. Salvador, 15.9.1883 – S. Paulo, 9.9.1963) é um daqueles Seres Superiores que engrandece o século em que se manifesta. A sua vasta Obra pública e privada fala por ele mesmo às gerações presentes, e certamente também falará às futuras. Pedagogo, conhecedor profundo da natureza humana, Mestre nas fainas do Espírito sobre o que deixou páginas inéditas de brilhantismo ímpar, sem dúvida deu continuidade à Obra magistral de Helena Petrovna Blavatsky que além de a ter aumentado incomensuravelmente, rectificou em inúmeros aspectos desvelando facetas até então impensáveis da Sabedoria Iniciática das Idades.

A fim de inaugurar o Ciclo do Ocidente substituindo aquele do Oriente, o Professor Henrique José de Souza fundou no Brasil, em Niterói, na Rua Santa Rosa, n.º 426, no domingo de 10 de Agosto de 1924 o instituto teosófico Dhâranâ – Sociedade Mental Espiritualista, que evocava o Oriente em homenagem aos Grandes Mestres pela construção do EX OCCIDENS LUX! Constava dos seus Estatutos ser «um Núcleo Independente e Autónomo, criado com o fim de preparar o terreno onde se fará o aparecimento da Sétima Sub-Raça do Ciclo Ário, ou Raça Dourada».

O termo sânscrito Dhâranâ significa “o perfeito controle do pensamento”. Esse instituto mudou o seu nome para Sociedade Teosófica Brasileira no dia 8 de Maio de 1928, por estar mais em conformidade ao Ciclo Teosófico do Ocidente e também como homenagem a Helena Petrovna Blavatsky (H.P.B.), fundadora da Theosophical Society em Nova Iorque, E.U.A., em 1875, cuja missão foi a (re)espiritualização do Ocidente então dominado pelo bravio “materialismo dialéctico” em expansão a partir da Europa, e pelo “imperialismo psíquico” das religiões devocionais.

A Sociedade Teosófica Brasileira teve o propósito principal de defender e preservar a Ciência Divina de que Blavatsky foi no Ocidente a anunciadora: a Teosofia, a Eterna Sabedoria Primordial, guardada através dos séculos nos Colégios Iniciáticos. É ainda essa excelsa Mestra quem preconiza a vinda dum Ser Superior que daria continuidade à Obra iniciada por ela, como está escrito na Introdução da sua Doutrina Secreta: «No século XX um discípulo mais evoluído e mais autorizado será enviado pelos Mestres de Sabedoria, para dar as provas finais e irrefutáveis de que existe uma Ciência Secreta chamada Gupta-Vidya, fonte de todas as religiões e filosofias».

Actualmente, no dealbar do século XXI, só a pessoa do Professor Henrique José de Souza (H.J.S. que se torna J.H.S. ou “Avatara da Divindade”, ademais sendo o H letra neutra característica da natureza de Mercúrio que lhe é afim) encaixa na perfeição na profecia de H.P.B., corroborando, aprofundando e expandindo-lhe a Obra com revelações apropriadas ao estado de consciência a ser alcançado pela Humanidade deste III Milénio.

Durante todo o período da sua existência a S.T.B. cumpriu fielmente os três objectivos da Sociedade Teosófica fundada por Helena Blavatsky, que são:

1.º) Formar um núcleo de Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor.

2.º) Fomentar o estudo comparado das religiões, literaturas e ciências dos povos ocidentais e orientais.

3.º) Investigar as leis inexplicadas da Natureza e os poderes psíquicos latentes no Homem.

Só a uma parte dos membros mais evoluídos psicomentalmente da S. T. se destinou o 3.º objectivo, e para isso H.P.B. fundou a sua “Escola Esotérica” dentro da Sociedade, tal qual H.J.S. fundaria os Graus de Ensino e Iniciação cujas explicações cabíveis a cada um deles eram desenvolvidas em “Reuniões Esotéricas” dentro da S.T.B. A adesão ao 1.º desses objectivos era indispensável ao ingresso efectivo na Sociedade Teosófica, onde o candidato carece de dois padrinhos ou testemunhas, tal qual acontece ainda hoje na Maçonaria. A nenhum dos aspirantes são feitas perguntas a respeito das suas opiniões religiosas ou políticas; porém, em troca, exige-se de todos, antes da sua admissão, o juramento formal de respeitar as crenças dos demais membros e sobretudo de fidelidade à S. T., mantendo silêncio ou discrição sobre tudo quanto ela lhes confiar.

Tudo o dito conforma-se ao que o próprio Professor Henrique José de Souza escreveu no seu livro A Verdadeira Iniciação:

«Estes são os princípios que, desde a fundação da nossa Obra e antes de quaisquer outros, figuram nos seus Estatutos.

«No nosso “Colégio Iniciático” (a S.T.B.), desde o seu início, foi exigido o precioso embora muito pouco conhecido lema: Um por Todos, Todos por Um, que vem sendo escrupulosamente mantido entre os mais avançados ou da Série Interna, ou ainda “Irmãos Maiores”.

«A “instrução gradativa” dos discípulos exigia, antigamente, três Séries, ou Séries A, B e C, como que para simbolizar os 3 Caminhos da Vedanta – Jnana, Bhakti e Karma –, os 3 Graus que a própria Maçonaria copiou das Iniciações egípcias: Aprendiz, Companheiro e Mestre, e quantas formas ternárias com que o Esoterismo simboliza a manifestação da Divindade, na razão dos 3 Mundos, Gunas ou “qualidades da matéria”. Hoje, o nosso Colégio Iniciático adopta 4 Graus porque assim lhe exigiu a sua própria evolução, inclusive em relação com os antigos Graus no Budismo (Anagamin, Sartagamin, Sakkurtagamin e Arhat). Por outro lado (esoterismo adoptado na Ordem do Santo Graal), vem ter ao que exige a verdadeira Política, em relação ao Legislativo, Executivo, Judiciário e Moderativo, e para nós outros, nos Quatro Senhores da Evolução Humana: Manu (como Legislador), Yama (como Executor), Karma ou Karuna (como Julgador) e finalmente Astaroth (nome desconhecido para os próprios ocultistas e que serve não de Moderador, mas de Coordenador daqueles 3 primeiros “Senhores da Evolução Humana”), porquanto o Moderador está oculto… como Quinto.

«Outras especificações dignas de nota, quanto ao nosso Colégio Iniciático: a proibição de demonstrações de poderes psíquicos (onde entra a mediunidade provocada), dogmatismos religiosos, manifestações de ordem política, por seu espírito dissolvente, etc. E quanto ao que diz respeito à formação racial, como principal razão da sua existência: “o combate intensivo ao analfabetismo, aos vícios e maus costumes sociais, à superstição, à mentira e ao erro onde quer que se manifestem”.»

Delta Teúrgico

Ao corpo teosófico de ensino e formação dos membros da S.T.B. e da própria Humanidade através dos órgãos informativos daquela, o Professor Henrique José de Souza chamou de Eubiose, a “Ciência do Futuro” que ele assim define (in Conselhos úteis – Que é Eubiose e o mistério dos ciclos. Revista O Luzeiro, Ano I – N.º 5, Outubro – 1952):

«EUBIOSE é a Ciência da Vida. E como tal, é aquela que ensina os meios de se viver em harmonia com as leis da Natureza, e consequentemente, com as leis universais, das quais as primeiras se derivam. Pelo que se vê, nenhuma diferença existe entre EUBIOSE e TEOSOFIA, porque esta, como CIÊNCIA ou Sabedoria Divina, se propõe a mesma coisa, como “Tronco donde se originam as ciências, religiões, filosofias, línguas e tudo o mais quanto já existe e há-de existir no mundo”. Desse modo, não apenas os “Adeptos da Boa Lei” mas também todos os Iluminados que a este mundo vieram, pautaram a sua vida eubiótica ou teosoficamente, ensinando aos demais a que agissem do mesmo modo. E isto, de acordo com a evolução natural da época dos seus vários aparecimentos.

«Desse modo, a SOCIEDADE TEOSÓFICA BRASILEIRA não podia deixar de se servir de semelhante CIÊNCIA, como detentora do Movimento Cultural-Espiritualista que, “por força de Lei”, lhe coube no presente momento da Humanidade. E isto, já se vê, em amplitude muito maior do que tudo e todos que A antecederam, pois que a Evolução caminha sempre para diante. E muito mais, em pleno interregno de um ciclo para outro, como prova o seu próprio lema: SPES MESSIS IN SEMINE, isto é, “a esperança da colheita reside na SEMENTE”.»

De facto, o termo Eubiose foi criado pelo Professor Henrique José de Souza, pois que no Dicionário de Língua Portuguesa só existe a palavra grega “eubiótica”, geralmente aplicada na ciência médica. Também a palavra Eubiose é termo de origem grega, cujo prefixo eu significa “bem, bom, belo” e, também, “verdadeiro”, pois para o génio estético da Grécia clássica a harmonia da forma, do sentimento e do pensamento eram atributos da Verdade, vale dizer, manifestações da Divindade no Homem. A raiz biós quer dizer “vida”; e osis significa “acção, actividade”. Portanto, Eubiose é acção, actividade por uma vida boa, útil, equilibrada e bela, numa palavra, verdadeira. Ou por outra: viver de acordo com os princípios da Natureza, integrando-nos no contexto cósmico que é harmonia e equilíbrio. Um homem equilibrado é um deus em potencial, trilhando o caminho da sua auto-realização até ao retorno à Casa do Pai, porém experiente, consciente, como insinua a parábola evangélica do “filho pródigo”, cujo sentido profundo refere a descensão da Mónada Divina ao Mundo Sombrio da Matéria e desta a ascensão da Mónada Humana ao seio espiritual do Divino Logos Solar.

A Evolução do Género Humano Hora Presente caracteriza-se pelo desabrochar da Luz do Mental, pelo estudo das leis da Vida e a sua prática esclarecida. A isso os latinos chamavam de Mens Sana, “Mente Sã”, e os orientais chamam Manas Taijasi. Esta designação sânscrita significa “Mental (Manas) Iluminado (Taijasi)”, e liga-se a dois outros termos profundamente místicos que o Professor Henrique José de Souza divulgou: Budhi Taijasi e Atmã ou Nivri Taijasi, todos os três a ver com a criação do Homem Verdadeiro que é a Tríade Espiritual em formação na criatura humana, posto esta ser composta de sete sétimos ou partes, estando 4/7 formados (Mental, Emocional, Vital, Físico) e 3/7 em formação (Espiritual, Intuicional, Causal), o que tem a ver com a personalidade transitória e a Individualidade imperecível.

Se Linga Taijasi vem a ser o Corpore Sano graças à Mens Sana, ou seja, o Corpo físico iluminado pela Alma desperta que é Manas Taijasi como o mesmo “Mental Iluminado” pela Luz Crística ou Búdhica do Espírito manifestado como Budhi Taijasi, literalmente “Budhi radiante”, este termo profundamente místico vem a significar a união de Budhi-Manas (Bimânica), ou melhor, de Atmã-Budhi-Manas (Atabimânica) como a Mónada Integral manifestada na Mente por ela Iluminada  (Manas Taijasi), por sua vez Iluminadora do princípio psicofísico, irradiando a tonalidade amarela dourada (Satva) da Sabedoria Divina característica dos Seres altamente espiritualizados integrados ao seu 7.º Princípio Átmico, Nirvânico ou Espiritual. É a condição de um Adepto Perfeito, de um Bodhi-Satva e a meta suprema da Iniciação nos Mistérios Maiores da Tríade Divina em tudo e em todos. Budhi Taijasi acaba sendo a Alma Humana iluminada pela irradiação do Espírito Divino; Manas Taijasi vem a ser a Razão iluminada pela luz da Consciência Interna e Eterna. Daí o dito de Jesus Cristo: «Eu e o meu Pai somos UM!», no seu verdadeiro sentido.

A Intuição, Inteligência Espiritual ou Budhi é, segundo a teoria dos “dois intelectos” de S. Tomás de Aquino, o “intelecto agente” ou inteligênca em potência, e o “intelecto possível” ou actuante. Como “tudo está em tudo”, Manas, o Mental, quando polarizado reproduz esses dois aspectos nos seus respectivos Planos: o Ternário Abstracto ou Superior e o Quaternário Concreto ou Inferior. É, pois, Manas quem liga/desliga a Mónada Imortal do Homem mortal.

Para a realização integral da Eubiose torna-se indispensável as correctas relações humanas fora e dentro do Grupo Esotérico, tanto individual como colectivamente, com demonstrações de verdadeira honestidade humana e franqueza espiritual do ser ante a sociedade, portanto, vibrando no diapasão da Harmonia Universal que o caracterizará como um ser harmonioso assim demonstrando que a sua evolução verdadeira está acima da “média”. Neste sentido e para conectar a OBRA DO ETERNO (TEURGIA) às inter-relações individuais, grupais e universais que não deixam de ser uma espécie de “Tulkuísmo”, um nosso Irmão congénere brasileiro, Marcelo José Wolf, compôs um feliz esquema, onde em certas partes do mesmo tive que fazer algumas rectificações ligeiras, relativo às relações e objectivos da nossa INSTITUIÇÃO E OBRA ante o Individual, o Colectivo e o Universal nas, repito, inter-relações humanas e espirituais e suas finalidades. Pela clareza que o dota, reproduzo aqui esse mesmo esquema:

Esse quadro leva ao considerando de Munindra. Mas, o que é um Munindra? O que é um Jiva? O que é um Jivatmã? Serão realmente Munindras todos os da Série Interna actual da antiga Sociedade Teosófica Brasileira? É óbvio que não, a não ser de título, e assim não passa de simbolismo titular incompreendido e até travestido de vaidade e ignorância. De maneira que, para esclarecimento geral, convém clarificar o que é realmente um Munindra.

MUNINDRA é o “Pequeno Muni” ou MUNI DE INDRA, o Fogo Akáshico ou Etérico que ilumina mas não queima, por o possuidor efectivo desse título real participar conscientemente das Glórias do Mundo Celeste, ou seja, do Mundo Intermediário ou Segundo Trono (Logos), equivalente à participação na Omnisciência do CRISTO UNIVERSAL. De modo mais restrito, os MUNINDRAS reais são os verdadeiros Discípulos de JHS, antes, de AKBEL, que os revestiu de matéria sátvica (espiritual) e rajásica (psicomental) para agirem como Seres Superiores no Plano da Matéria a favor da Lei que é o Pensamento de Deus. Por esta razão, as cores das faixas templárias dos Munindras são amarelas-azuis. Tais Munindras REAIS, repito, são as encarnações dos antigos discípulos dos Bhante-Jauls ou Adeptos Perfeitos, todos dirigidos por AKBEL. Depois vieram do Oriente para o Ocidente, acompanhando a marcha cíclica do Sol de acordo com a Evolução Planetária, até chegarem ao Extremo-Ocidente do Mundo, o Brasil. Logo se congregaram à volta do mesmo AKBEL então manifestado no corpo físico de Henrique José de Souza. Fizeram Obra de monta à escala interplanetária que modificou o panorama cultural-espiritualista do mundo, a ponto do mesmo JHS, já acamado no Hospital de São Lucas, em São Paulo, à beira do fim proferir: «Fiz numa só vida o trabalho de uma Ronda inteira».

Ficou o título Munindra. Em princípio, tal condição dispõe-no acima do estado vulgar ou ordinário de homem, de Jiva, “Vida-Energia” individualizada, cuja verticalidade mental estonteia-o, fá-lo baquear e até cair, pelo que o seu estado de consciência normal é a horizontalidade mental, onde até o Espiritual é assim concebido. Mas aos poucos, na Escola da Vida onde as lições não raros são as mais dolorosas e trágicas, esse Jiva vai se acercando dos interesses religiosos e espirituais, vai adentrando-os e por eles aprimorando o seu carácter, a sua condição de pura “Vida-Energia” (Jiva). É assim que começa a rectificação, a depuração e apuração da personalidade formada abrindo passagem ao influxo da Individualidade em formação, que sobretudo é Espírito (Atmã). É quando acontece efectivamente a TRANSFORMAÇÃO DA VIDA-ENERGIA EM VIDA-CONSCIÊNCIA, ou seja, do JIVA EM JIVATMÃ, isto é, Jiva+Atmã que é a “Vida-Consciência”, meta última da condição Humana a caminho do Adeptado, do mesmo estado Jivatmã, Jivamukta, Mahatma, etc., sendo o estado Sobre-Humano ou Super-Humano das Almas Superadas, consequentemente, integradas ao Quinto Reino Espiritual (simbolizado no mito do “V Império”) ou “Angélico” que na Terra tem por expressão máxima o próprio Mundo de AGHARTA, já que SHAMBALLAH expressa a Morada do Divino (Logos Planetário), projectada do Mundo Celeste no Seio da mesma Terra. Por isso, certas tradições secretas dizem que Deus tem a Cabeça e o Pescoço no Céu, o Tórax e os Braços na Face da Terra e o Ventre e as Pernas no Inferno ou Interior do Mundo.

Posto assim, por estarem em diapasões conscienciais absolutamente diversos, mesmo antagónicos, é lógico concluir-se que entre o Adepto Real (Jivatmã) e o homem comum (Jiva) a empatia é nenhuma. Por isso Aquele age encoberto ou oculto impelindo a este ao Caminho da Evolução, mas sem se aproximar e interferir no livre arbítrio individual e colectivo. A ligação entre Jiva e Jivatmã só se estreita à medida que um evolui para o outro e este começa a sentir que aquele está começando a vibrar no seu diapasão ou Plano de Consciência, cujo nível mais baixo de vivência é o Mental Superior. Por isso se diz: QUANDO O DISCÍPULO (Personalidade) ESTÁ PRONTO (rectificado, alinhado, superado, etc.) O MESTRE (Individualidade) APARECE (manifesta-se).

Todo(a) aquele(a) que penetra o recinto do Templo para iniciar acto sagrado, divino, obviamente que deve elevar a sua consciência ordinária (Jiva) uma “oitava acima” dela, ou seja, à consciência espiritual da melhor maneira que saiba e possa, e isto é conectar-se com o seu Deus Interior, Jivatmã, para puder conectar-se com o Eterno Atmã Universal. Isto é básico e não tem especulação metafísica alguma, a não ser para quem nada saiba e tudo ignore do que diz e faz.

Com efeito, para dar consecução física ao aspecto Metástase versus Templo, o insigne Mestre JHS fundou a já referida Ordem do Santo Graal, como aspecto esotérico ou interno da então Sociedade Teosófica Brasileira. Firmada a Taça do Santo Graal em 24 de Fevereiro de 1949, posta no Templo de Maitreya (em São Lourenço – MG), sobre a Pedra Dhara, rósea e branca sobre a qual o próprio Bodhisattva Jeffersus ajoelhou no Horto das Oliveiras, em Jerusalém, consagrado o Livro do Graal em 24 de Junho de 1950, já em 31 de Março do mesmo ano deliberou-se fundar a Guarda do Santo Graal, composta de 32 Membros seleccionados por JHS e aprovados por Rigden-Djyepo, o “Rei dos Jivas”, ou seja, o Rei do Mundo. Assim, em 28 de Dezembro de 1951 procedeu-se à fundação esotérica da ORDEM DO SANTO GRAAL, e fundação da ORDEM DAS FILHAS DE ALLAMIRAH, pelo Venerável Mestre JHS (Professor Henrique José de Souza) e o Quinto Bodhisattva Jeffersus, que por seu intermédio falou sobre as funções espirituais e humanas da ORDEM DO SANTO GRAAL.

A ORDEM DO SANTO GRAAL surgiu para prosseguir a Obra de JHS após a sua partida deste mundo, e assim manter a parte esotérica ou mística da Instituição iniciada por Ele. Isso é cumprido até hoje no Brasil e em Portugal, no que toca à COMUNIDADE TEÚRGICA PORTUGUESA. Desde a primeira hora que o ingresso a ela é feito por convite, é facto, mas ela é para todos e não para uns muitos «protegidos» inválidos e outros poucos «protectores» todo prepotentes soberanos de nada. Não foi isso que o Professor Henrique ensinou e estipulou em tempo algum. Onde está escrita ou gravada tal absurdidade? Quem tem acesso ao Templo do Graal e contempla Este fisicamente, lógica e consequentemente tem os mesmos direitos que os outros, e assim usufrui da influência espiritual na mesma medida que qualquer outro. O que é diferente, ou melhor, o que difere são as funções templárias, mas não, repito, as benesses espirituais. Que ideia bizarra a de alguns plagiadores da nossa Obra, todos com o sinete da traição gravado nas frontes, em afirmarem o contrário, pré-rebaixando, limitando a priori os seus candidatos a seguidores para que eles saibam, antes de tudo o mais, “pôr-se no devido lugar, ouvirem, não serem respondões, logo nunca discordarem” e só “com direito a evolução maior se os dirigentes permitirem”! Que coisa estranha, ainda assim tão descarada na sinceridade das confissões feitas inadvertidamente… já que “é mais fácil apanhar um mentiroso do que um coxo”.

O Professor Henrique José de Souza também fundou a ORDEM DOS TRIBUTÁRIOS em 23 de Outubro de 1954, espécie de “Maçonaria” que tem o cargo espiritual e social de “cobrir” ou manter a Instituição por ele fundada e à sua própria Família (APTA), a humana e também a espiritual. Como certas pessoas nunca pertenceram à O. T., logo, nunca participaram dum Ritual da mesma e do que se faz nele e nela, torna-se extemporânea a sua auto-afirmação de “Tributários”, ridícula mesmo assim à guisa de gemido lúgubre do cortejo funesto do número dos plagiadores, mentirosos, até ladrões e sobretudo traidores, sim, para com a OBRA DO ETERNO traindo os seus JURAMENTOS DOS GRAUS, sobretudo o JURAMENTO DE ADMISSÃO À SÉRIE INTERNA da mesma C.T.P., esse o mais grave e solene de todos, irrevogável para toda a vida (como igualmente os anteriores…).

Finalmente, tenho a dizer que há muitos séculos não existe Maçonaria Operativa, e quem fala e diz-se da «Maçonaria Operativa» demonstra apenas uma confusão constrangedora que qualquer ocultista de alguma filiação tradicional, em que parte do mundo estiver, ao deparar-se com tamanha incongruência apenas poderá lamentar o notável estado de pobreza interior de quem profere tais e óbvios erros. Para esclarecimento geral, porque conheço por dentro a Maçonaria há muitos anos, desde a sua primeira hora no mundo ela desenvolveu-se historicamente em três fases distintas:

1) Maçonaria Primitiva (terminada com os Collegia Fabrorum)

2) Maçonaria Operativa (terminada em 1523)

3) Maçonaria Especulativa (iniciada em 1717)

Nessa última há, com efeito, Graus Herméticos e Alquímicos, o que se poderá chamar de “Maçonaria Hermética”, mas não mais que isso. Portanto, tudo mais não passa de fantasia e especulação de quem aprendeu e apreendeu mal as lições recebidas e agora vem especular efabulações irreais, ainda por cima confundindo um estado de ser profano com o pretenso do querer espiritual.

Em Portugal, na ORDEM DO SANTO GRAAL anualmente realizam-se em Templo 3 Grandes Rituais Eucarísticos e Nobres – o primeiro na Lua Cheia do Carneiro, correspondendo à Páscoa. Na celebração do Santo Ritual está presente o Pão e o Vinho. O segundo na Lua Cheia do Touro, correspondendo a Wesak. Na celebração do Santo Ritual está presente a Água. Quem a consagra é o Sacerdote e quem a distribui é a Sacerdotisa. O terceiro na Lua Cheia de Gémeos, correspondendo a Asala. Na celebração do Santo Ritual está presente a Palavra, o Salmo de Cobertura ao Sol do Novíssimo Mundo, que termina assim: «A Hora pede a Realização do CARÁCTER SACERDOTAL e da CULTURA ou REVELAÇÃO das Coisas do Céu». Este Salmo é da época do Mestre JHS e era pronunciado em Templo nas datas apropriadas.

Em Portugal, na ORDEM DO SANTO GRAAL anualmente realizam-se em Templo 3 Grandes Rituais Eucarísticos e Nobres – o primeiro na Lua Cheia do Carneiro, correspondendo à Páscoa. Na celebração do Santo Ritual está presente o Pão e o Vinho. O segundo na Lua Cheia do Touro, correspondendo a Wesak. Na celebração do Santo Ritual está presente a Água. Quem a consagra é o Sacerdote e quem a distribui é a Sacerdotisa. O terceiro na Lua Cheia de Gémeos, correspondendo a Asala. Na celebração do Santo Ritual está presente a Palavra, o Salmo de Cobertura ao Sol do Novíssimo Mundo, que termina assim: «A Hora pede a Realização do CARÁCTER SACERDOTAL e da CULTURA ou REVELAÇÃO das Coisas do Céu». Este Salmo é da época do Mestre JHS e era pronunciado em Templo nas datas apropriadas.

Pelo que se tem:

WESAK – PAI – BUDHA = ÁGUA SAGRADA, “Sangue da Terra” – ADI em ANUPADAKA

PESAH (Páscoa) – FILHO – BODHISATTVA = VINHO / PÃO, “Alimento Espiritual” – ATMÃ e BUDHI

ASALA (Humanidade, Corpo de Deus) – ESPÍRITO SANTO – MAHACHOAN = PALAVRA, SALMO – MANAS

Com efeito, a Excelsa Fraternidade Branca leva a consumação 3 Cerimoniais de grandeza planetária em três Plenilúnios distintos:

FESTA DO WESACK, do BUDHA ou de SHAMBALLAH-AGHARTA = O Rei do Mundo abençoa a este através do Budha Planetário Gotama.

Significado: Ligação de Shamballah a Agharta.

LUA CHEIA DO TOURO – 1.º LOGOS – PAI (BRAHMA)

FESTA DA PÁSCOA, do BODHISATTVA ou de CRISTO = O Cristo (Bodhisattva) em Agharta abençoa a Hierarquia Planetária.

Significado: Ligação de Agharta ao Duat.

LUA CHEIA DO CARNEIRO – 2.º LOGOS – FILHO (VISHNU)

FESTA DE ASALA, do  MAHACHOAN ou da HUMANIDADE = O Mahachoan abençoa a Humanidade (Corpus Dei, o “Corpo de Deus”) através da Hierarquia Planetária.

Significado: Ligação do Duat à Face da Terra, perpassando Badagas.

LUA CHEIA DE GÉMEOS – 3.º LOGOS – ESPÍRITO SANTO (SHIVA)

Portanto, de forma resumida, tem-se:

WESACK – BUDHA – SHAMBALLAH

PÁSCOA – BODHISATTVA – HIERARQUIA

ASALA – MAHACHOAN – HUMANIDADE

Respeitante aos Salmos (150 do Quinto Senhor e 5 do Sexto), eles vêm a encerrar toda a magia teúrgica, como disse Venerável Mestre JHS, sobre o que já tive possibilidade responder sobre eles, o que reproduzo aqui parcialmente acabando por retroceder à questão “Munindra”:

– São, de facto, muito interessantes as suas ilações acerca do sentido do versículo 13 do Salmo 91 (que é o 90 na tradução bíblica do padre António Pereira de Figueiredo, versão aceite pelo Professor Henrique José de Souza). Antes de tudo o mais, devo afirmar o que reitero há já muitos anos: a TEOSOFIA de JHS, ou seja, o que este ensinou de inédito da mesma, praticamente desde o elementar até ao mais intrincado não tem absolutamente nada a ver com o Teosofismo dito «popular», antes rectifica-o e supera-o larga e magistralmente. Até onde a insigne H. P. Blavatsky foi, H. J. Souza prosseguiu depois, inclusive clareando muitos pontos deixados obscuros (quiçá propositadamente…) pela distinta autora. Quem vem para o nosso meio com a ideia feita pensando que vai encontrar pontos comuns com outras correntezas de pensamento, mesmo que acaso os encontre aqui e ali de maneira ténue e esparsa, acaba por deparar-se com uma DES-ILUSÃO, isto é, as ilusões, as mayas são desfeitas de maneira implacável porque o que aqui se ensina é absolutamente diferente e diverso do chamado religiosismo teosofista e até mesmo do mais conspícuo ocultismo. Sim, tudo é diferente, tudo é mais profundo, tudo é mais elevado… inclusive o vector TEMPLO, para assim este efectivar a METÁSTASE… AVATÁRICA, ou seja, do Eu Superior ao inferior e deste, personalidade, àquele, Individualidade. Só assim se terá o Vasus Insignis, o Vaso Insigne de Eleição, o verdadeiro Corpo Eucarístico que é o nosso MANASAPUTRA, o mesmo Veículo Imortal no qual habitaremos um dia, e que um dia, durante a 3.ª Raça-Mãe Lemuriana, foi criado flogisticamente pelos KUMARAS ou Senhores da Mente para servir de veículo físico (etérico) aos MUNINDRAS de ARABEL (o 5.º Senhor) em número de 777. Logo, há 777 MANASAPUTRAS (Filhos da Mente Universal – MAHAT). Eles serão os Corpos Imortais dos Munindras na próxima 5.º Cadeia Planetária de Vénus, a qual já começou a vibrar nesta mesma presente 5.ª Raça-Mãe Ariana. Será quando o Homem (JIVA) se tornará ANDRÓGINO, com os 777 MUNINDRAS à dianteira integrados no domínio da sua Consciência Divina de MAKARAS. Isto já se faz hoje, logo, trazendo o Futuro subjectivo ao Presente objectivo.

Esse mesmo estado ANDRÓGINO ou luni-solar como masculino (Mercúrio, Hermes) e feminino (Vénus, Afrodite), donde HERMAFRODITA (expressivo do mesmo ANDRÓGINO ou ADEPTO PERFEITO, assinalado no Arcano 9, “O Ermitão”), vem a ser indicado logo ao início da abertura do Ritual na Ordem do Santo Graal, onde a destra configura o mudra (“gesto místico e cabalístico”, antes, teúrgico como verdadeira Magia Sacerdotal) SOLAR (evocando FOHAT, a Luz Celeste da Energia ELÉCTRICA Cósmica) e a sinistra descreve o mudra LUNAR (evocando KUNDALINI, o Fogo Terrestre da Força ELECTROMAGNÉTICA Planetária), juntas, unidas na boa disposição do Templário assim assumindo a priori o estado ANDRÓGINO.

Sobre isso escreveu o Professor Henrique José de Souza na sua Homenagem à Maçonaria, quando Mr. RALPH MOORE, o “Velho Escocês”, o reconheceu como MESTRE SUPREMO DA MAÇONARIA UNIVERSAL (EL RIKE, ALLAH RISHI, MAHA-RISHI…) no dia 11 de Junho de 1949:

«Com a destra voltada para o Céu, e o polegar invertido para a Terra – contrariamente a quantas saudações caóticas foram instituídas pelas decadentes ideologias deste ciclo em franco declínio – maiores Homenagens devemos prestar ao mais Digno e Excelso de Todos os Construtores: O SUPREMO ARQUITECTO!»

No dia 6 de Abril de 1957 o nosso Venerável Mestre JHS viu materializado para si o LIVRO ÍNDICE DOS SALMOS, enviado pelo Excelso Daniel (AKGORGE) que o assinou com tinta azul, e em cuja página 49 vem a fotografia (a preto e branco) do Templo do Meka-Tulan (quadrado por fora, circular por dentro), da sua entrada engastada na rocha viva. Meka-Tulan é a Capital do Mundo de BADAGAS (bem físico denso, e etérico também). No momento dessa materialização pararam 3 relógios: o de JHS (de bolso), o da sala da Vila Helena, em São Lourenço, e o da Sede da Sociedade Teosófica Brasileira, no Rio de Janeiro. Depois disso, o relógio da sala passou a dar um estalido de minuto a minuto… como que preanunciando o DIA DO EQUILÍBRIO, do RENASCIMENTO DE AKBEL (14 de Abril de 1957).

Pois bem, no LIVRO ÍNDICE DOS SALMOS é dado o significado seguinte ao SALMO 90 (91 noutras versões bíblicas): “90. Aquele que se torna firme com a assistência do Altíssimo… – Esforço para ganhar os verdadeiros dons ocultos por meio das boas acções e da Ciência Sagrada. Atracção para o Belo, a Perfeição e a Majestade Divina”.

No versículo 13 do mesmo está escrito: Sobre o áspide, e basilisco, andarás e pisarás o leão e o dragão.

Áspide é a “serpente venenosa”, e basilisco é o mitológico “lagarto enorme de olhar mortal”. Ambos os símbolos zoomórficos foram adoptados pela iconologia alquímica. A áspide é de cor verde e significa o domínio do Ar (VAYU, de cor verde), enquanto o basilisco é avermelhado e representa o domínio (donde os verbos “sobre” e “pisarás” no versículo saltérico) do Fogo (TEJAS, de cor vermelha). Trata-se do senhorio sobre a natureza PSICOMENTAL. Já o leão, aqui, vem a ser o «aspecto superior» da áspide ou a sua configuração cósmica como FOHAT, o Fogo Solar ou Cósmico, enquanto o dragão é igualmente o «aspecto superior» do basilisco como conformação cósmica de KUNDALINI, o Fogo Terrestre ou Planetário. Ambas as Forças são o molinete da Evolução Universal, individual e colectiva, levando à TRANSFORMAÇÃO DA VIDA-ENERGIA (JIVA) EM VIDA-CONSCIÊNCIA (JIVATMÃ), nas palavras magistrais do Excelso KOOT-HOOMI LAL SING. Assim, o versículo não deixa de correlacionar-se de certa forma ao sentido no Arcano 13, “A Morte”, mas aqui como a mesma TRANSFORMAÇÃO, que é sempre uma RESSURREIÇÃO duma condição velha para um estado novo, indo à absorção na GRANDE MÃE, na ALMA ou MENTE UNIVERSAL (MAHAT).

Por essa razão temos em França, na fachada dianteira da Catedral de Chartres (primitivo santuário ísiaco romano-celta) o CRISTO PANTOCRATOR (“Omnipotente”, “Criador de Tudo”) expressando o Logos Criador em seu 2.º Aspecto ou Hipóstase AMOR-SABEDORIA dominando as energias universais e as naturezas terrenais, por ser o Mundo Celeste, Médio ou Intermediário onde o Pai (1.º Logos Divino) e a Mãe (3.º Logos Terrestre) se encontram na OMNISCIÊNCIA do Filho (2.º Logos Celeste), e daí os Três fazerem-se UM SÓ como PANTOCRATOR, para não dizer, THEOTRIM ou “Deus Trino em Acção”. Essa mesma configuração na Catedral de Chartres encontra-se ainda noutras, inclusive na fachada dianteira da Catedral de Santiago de Compostela, no Pórtico da Glória defronte para a Praça do Obradoiro (sim, a OBRA DO OIRO, a CRISOPEIA, para não dizer, a EPOPEIA CRÍSTICA…).

Deve também ater-se ao sentido moral e religioso, não iniciático, do versículo em questão do Salmo 90 (ou 91), onde o “áspide e basilisco” expressam os hereges e o “dragão e leão” as heresias, as infidelidades para as 3 religiões do Livro (judaica, cristã, islâmica), sim, por se aterem e só à “letra que mata” ignorando o resto: … “sob a qual se vela o Espírito que vivifica”, ou seja, “a Ciência Sagrada que leva à Perfeição e à Majestade Divina” (PANTOCRATOR).

Sobre a natureza sacerdotal e a eficácia do Ritual Eucarístico, também já respondi numa carta privada. Após informar que a mecânica ritualística da O.S.G. em Portugal diferir bastante da efectuada pela mesma no Brasil, adiantei que a Arte Sacerdotal não permite nem consente qualquer tipo de exercício alheio à vivência espiritual e ao exercício de comunhão divina de que todo o sacerdote é testemunha efectiva. A não ser que se brinque com as palavras, que soam bem, e aí tem-se os «sacerdotes» de todos os tipos e cores numa paródia a cargo distinto de tão alta responsabilidade e importância, onde o primeiro a sofrer as consequências de pressuposta queda é o próprio oficiante ao Sagrado Ofício, Sacrum Officium, Sacerdocium, Sacerdócio… Quem é que investe quem hoje em dia? Qual a Regra a que o sacerdote está sujeito? Qual a Celebração Eucarística sob que Mandato e Rito? O de Melkitsedek… Qual Melkitsedek? Porque o Rito difere, tradicionalmente, entre Mestre presente e Mestre ausente? Estas são questões técnicas que todo o sacerdote eucaristificado ou consagrado deve saber de antemão. Sobre que assenta a legitimidade da Sucessão Apostólica, ou por outra, onde está a legitimidade da Sucessão Sacerdotal e respectivas Regra e Estatuto da Ordem… que sem as mesmas se perverte desordem? Ademais, brincar “às missas” resulta sempre funesto.

Se a pessoa alcançou um estado de Consciência Espiritual, obviamente que na celebração da Eucaristia ou EU-CRÍSTICO comungará directamente com o 7.º Princípio Átmico, e vibrará em uníssono com o MUNDO DOS IMORTAIS, o DUAT, tornando-se um “Cidadão Duatino” (em consciência e vibração) na Face da Terra. Isto por estar objectivamente ligado ao seu Corpo Imortal, MATRADITZ ou MATRA-DEVA vibrando em Duat, e que é o mesmo “Vaso Insignis” da liturgia católica, sempre evocando-o mas sem saber da profundidade sacratíssima do que evoca.

Como raros são aqueles que detêm esse elevado estado de Consciência, o acto eucarístico fica-se pelo mero simbolismo, que mesmo assim não é negativo. A Alma sempre usufrui alguma coisa do Eu Espiritual cuja irradiação é mais facilmente recepcionada através da mecânica ritualística, e assim dá-se vida ao símbolo inerte… Mas se a pessoa permanece inerte, passiva mental e coracionalmente, sem viver o acto transcendental de que participa e julgar que basta participar para estar salva sem mais e qualquer esforço de aprimoramento pessoal e colectivo, então o  simbolismo ritualístico permanece morto e é assim que, mal terminado o acto sagrado, logo recomeçam as brigas e intrigas entre confrades, o que é deveras constrangedor. Falta a todos absolutamente tomar posse do sentido último e supremo do termo Eucaristia, como a define JHS na Carta-Revelação de 19.01.1956: «Eucaristia significa: “O encontro ou união com o Eu Imortal” ou tornar-se, portanto, Eucarístico, com o Sétimo Princípio ou estado de Consciência».

 Também o Licor Eucarístico absolutamente nada tem a ver com alucinogénios e afins. Sendo o Licor de SOMA (LUA) o mesmo que Licor de SHUKRA (VÉNUS), passa a ter este nome quando é vazado na Taça do SANTO GRAAL e os seus elementos químicos constituídos de plantas de características venusianas como, por exemplo, a veluria theandria, conforme consta no Livro Síntese de JHS. Para os Alquimistas, trata-se da Panaceia Universal, do Elixir da Imortalidade ou do LICOR DA QUINTESSÊNCIA (o mesmo MASH-MASK dos antigos Iniciados atlantes), pois que é composto da quintessência de determinados elementos naturais e o qual ajuda a revigorar o corpo físico do Adepto quando em Missão na Face da Terra, dando-lhe uma sensação de vigor e lucidez invulgares mas jamais o arremessando para a alucinação e a dependência química, pois que o próprio Elixir ou Licor tem uma textura rarefeita, quase etérea. O Mestre JHS chegou a prová-lo algumas vezes em que caiu doente e o seu corpo era necessário para realizar a sua Missão no Plano Físico. Não sei se chegou a fabricá-lo mas sei, pelo Livro de Revelações citado por último, que deixou a sua fórmula, e também sei que era o DHYANI BUDHA ANTÓNIO (José Brasil de Souza) quem lho trazia, e outras vezes o próprio DHYANI KUMARA MIKAEL, este que um dia lhe abriu a porta da Sede da Sociedade no Rio de Janeiro o próprio Sebastião Vieira Vidal, atónito e varado pela presença do Adepto que logo se recolheu na Secretaria em conferência privada com JHS.

Mas o sentido supremo do Licor Eucarístico está além de toda e qualquer fórmula química. O sacerdote investido, em Nome do seu Mestre que é o Espírito da Ordem, abençoa a água ou o vinho e com tal magnetiza-as indo provocar uma transubstanciação espiritual do líquido, podendo até alterar a sua cor se for intensa a corrente monádica vinda de seu Ser, em Nome do Raio Divino que anima a Egrégora da Ordem, e isto implica que o Licor de SOMA expressa a ALMA e o de SHUKRA ao ESPÍRITO, e que os participantes ao acto, a começar pelo sacerdote, poderão, mesmo que só seja momentaneamente, elevar na escala vibratória o tom normal da sua Alma e com isso haver uma aproximação, por exaltação mística ou samadhi momentâneo, ao Espírito Santo ou Santo Atmã em si como Partícula do Todo que é o Mestre. Este é o supremo significado de todo o Ritual Eucarístico, onde VÉNUS, como alter-ego da Terra, manifesta o ESPÍRITO.

Dentro de um Ashram ou Santuário, um Mestre Espiritual ou Asheka (Ser Vivente participando da Quintessência Universal, consequente da Quinta Iniciação Maior em que se torna efectivamente Super-Homem, Adepto Perfeito, Mestre Real ou Jivamukta) é formado da quintessência dos esforços de 7 Discípulos Maiores ou Arhats (da categoria dos Yokanans ou Druvas), que já são semi-Mestres. Um Choan (Cisne das Águas da Beatitude, possuído da 6.ª Iniciação Real como Senhor de Raio expressando-se através de 7 Adeptos… donde os 7 Moryas, os 7 São Germanos, etc., que dão nome às respectivas Linhas ou Raios)  constitui-se de 7 Ashekas. 7 Choans ou Dhyanis-Jivas constituem um Dhyani-Budha (Ser que atingiu o Budhado na Terra depois dos seus esforços como Jivatmã ou Adepto Perfeito). 7 Dhyanis-Budhas constituem um Bodhisattva (da mesma categoria dum Manu ou dum Mahachoan). 7 Bodhisattvas, um Budha Nivri-Kalpa-Samadhi ou de Perfeição Absoluta. 7 Budhas Perfeitos, um Planetário ou Kumara (que de Ronda em Ronda faz as vezes de Rei do Mundo, Chakravarti ou Melkitsedek, sendo como que a “personalidade” da “individualidade” Logos Planetário). 7 Kumaras, um Luzeiro ou Ishvara (Dhyan-Choan). 7 Ishvaras (Logos Planetários), um Logos Solar (Maha-Ishvara). E assim por diante…

Tem-se no poema de Fernando Pessoa, Cavaleiro Monge (datado de 1932, e que vem a ser parte doutros poemas místicos feitos na mesma época pelo autor, nomeadamente À sombra do Monte Abiegno), posto em realce a necessidade da ritualística como meio de realização individual e, também, grupal, pois se a evolução é feita exclusivamente pelo próprio, contudo o trabalho em grupo é uma ajuda preciosa imprescindível onde uma parte comata as acaso necessidades mentais, emocionais ou físicas da outra, e assim tudo acaba ficando em pé de igualdade, para que em Templo UM E TODOS sejam mental, emocional e fisicamente UMA SÓ UNIDADE!

Mesmo assim, repito, a evolução pessoal só à pessoa pertence, e evoluindo pessoalmente vai afectar positivamente a evolução do grupo. É o UM POR TODOS E TODOS POR UM! Isto é que é a Verdadeira Iniciação, onde os processos exteriores vêm a reflectir as transformações interiores. Na realidade, o Santo Ritual, com toda a sua panóplia de SÍMBOLOS feitos VIVOS pelo(s) interveniente(s), é a expressão externa das realidades interiores a ver exclusivamente com o Mundo Espiritual de que participa o ritualístico segundo a característica que a doutrina ou ensinamento lhe dá. Por isso o Ensinamento Teúrgico sobre o Caminho Iniciático é diferente do de outras correntezas de pensamento místico, pois que cada um afiniza-se com o Mundo Espiritual conforme o tom natural das suas apetências psicomentais.

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Ainda assim, há quem diga que o Ritual é prescindível e basta a interiorização mística da consciência imediata. Poderá ser… mas é falha e muito. Pois o RITUAL expressa canonicamente o RITMO da Matéria e só por ele se alcança a VIBRAÇÃO do Espírito. Sem Ritual a comunhão e comunicação com o Espiritual inexiste, pois não há outra maneira de estabelecer a ligação entre RITMO e VIBRAÇÃO para que, canónica e regularmente, das fusão das duas haja a divina HARMONIA. Sem Ritual não se entende nem se comunga directamente do Espiritual, não no sentido INDIVIDUAL mas no UNIVERSAL. O Espírito no Homem participa directamente, por via do Santo Ritual, do Espírito Universal de quem é parcela. Por isso se fala em ATMÃ PARCIAL e ATMÃ UNIVERSAL.

Fernando Pessoa, nesse poema citado, retrata o Iniciado como TEMPLÁRIO, o “Cavaleiro Monge”, vem a realçar a necessidade do Ritual como meio de evolução pessoal e grupal, repito. Pois bem, a Iniciação Menor ou Humana está expressa no “Vale”: é a realização da personalidade psicomental. A Iniciação Maior ou Espiritual está expressa na “Montanha”: é a realização da Individualidade Atabimânica ou da Tríade Superior, Espiritual. Esta representa-se no próprio Cavaleiro; aquela, no cavalo. Ambos “por penhascos pretos, atrás e defronte, caminhais secretos”, isto é, enfrentando os seus próprios “demónios”, as suas nidanas ou vicissitudes fatais porque impeditivas da evolução verdadeira da Consciência, avançam “secretos”, anónimos, numa batalha só sua, onde o cavalo deve finalmente ser dócil ao cavaleiro, ou seja, a personalidade alinhada, integrada à Individualidade.

Estando o poema constituído de 5 septetos, no final da cada um está a resposta:

1) Caminhais aliados (interligados)

2) Caminhais secretos (interiorizados)

3) Caminhais libertos (independentes)

4) Caminhais sozinhos (distintos)

5) CAMINHAIS EM MIM!

Isto é, “fazeis parte de Mim”, no sentido de Eu, Consciência Imortal, que sendo UNA (Individualidade) como Espírito carece da MULTIPLICIDADE (Personalidade) para se manifestar objectivamente. Realmente, feita como está a composição não deixa de ser um «cavalo secreto», isto é, uma CÁBALA GEMÁTRICA ou Fonética, tal qual a “Fala dos Pássaros” de que fala o Alcorão, ou seja, a VOZ ANGÉLICA ou da INTUIÇÃO DIVINA (Budhi Taijasi).

O TEMPLÁRIO na sua dupla função, é CAVALEIRO ou GUERREIRO (TRIBUTÁRIO) que faz “Guerra Santa” (Al-Fatah) sobretudo a si mesmo, à sua poderosa e predominante parte mortal. Aqui se enquadra o LABORA. Também é MONGE ou TEMPLÁRIO demandando o Saint Vaisel, o SANTO GRAAL na sua parte imortal em formação. Nisto entra o ORAORA ET LABORA é o LABORATORIUM onde se realizam as mais finas especializações espirituais no acto permanente de TRANSFORMAÇÃO da consciência mortal na Inconsciência imortal até então adormecida ou latente, em semente “mais pequena que a cabeça dum alfinete”, mas que com a “alimentação que o Cavaleiro” lhe dá acabará por tornar-se Pleniconsciência Divina, imposta à imediata consciência mortal, porque passageira, transitória entre encarnações.

No plano cosmogénico, vem a ser também a descida da Mónada à Matéria (Pravritti-Marga), onde de VIRGINAL ou POTENCIAL se torna MATURA ou PATENCIAL, dando-se a subida da Mónada da Matéria ao Espírito (Nivritti-Marga).

Com tudo isso tema ver aquela estrofe do Mantram do Quinto Sistema, composto pelo Venerável Mestre JHS:

Bate, bate, esforçado Obreiro. (MONGE, TEMPLÁRIO)

Luta, luta, valoroso Guerreiro. (CAVALEIRO, TRIBUTÁRIO)

Cada vez cavar mais fundo (TRABALHAR COM MAIOR INTENSIDADE)

Para servir ao Rei do Mundo… (MELKITSEDEK, CHAKRAVARTI, etc.)

Onde está o Rei do Mundo? No “Monte” de que fala o poema: “Da montanha ao monte”, isto é, pela Iniciação Maior ou Real se demanda e alcança o escrínio precioso do Monte Santo onde vive e vibra o Soberano do Mundo, o Santo dos Santos (AT-HA-KADOSH) com o qual finalmente se integrará e será UM! Que “monte” é esse? É a Montanha Branca da Iniciação (com o mesmo valor iniciático do Obelisco e da Pirâmide) a quem o poeta chama “Monte Abiegno”. Se bem que literalmente Abiegno signifique tanto “begónia” como “abeto”, o significado será bem outro e mais esotérico por se tratar dum poema iniciático. Assim, ter-se-á de recorrer à CÁBALA FONÉTICA, à “Fala dos Pássaros” (SENZAR) para encontrar o verdadeiro sentido de ABIEGNO, que anagramaticamente dá ABEGINO, isto é, AB, “Pai”, em árabe, e GINO, GIN, DJIN ou JINA. Logo, ABIEGNO ou ABEGINO é o MONTE SANTO do “PAI DOS JINAS”, do “DEUS DOS GÉNIOS OU ADEPTOS PERFEITOS MENTORES DA HUMANIDADE”. Para este Lugar Sacrossanto ou Centro Primordial, Fernando Pessoa canalizou todas as suas forças e intenções secretas ou veladas, coisa que já revelara a Ofélia Queiróz: «A minha vida pertence a Mestres que não permitem»…

Ora o “Pai dos Jinas” vem a ser o próprio Rei do Mundo na cúspide do Governo Oculto do mesmo. E o mesmo “Abiegno”, sendo o poeta português e com relações íntimas à ORDEM ESPIRITUAL PORTUGUESA (M.Z.), só poderá ser… SINTRA. Esta a “Mansão do Rei do Mundo”, de cujo seio lapidar comanda os destinos do mesmo como “ARA DE LUZ” ou ARABEL por ser o LUZEIRO DE VÉNUS a ver com a HORA PRESENTE E FUTURA por estar, ademais, encravado, entronizado no QUINTO Posto Representativo da OBRA DO ETERNO NA TERRA. Sintra o Quinto Posto Representativo – assinalado pela Estrela Flamejante ou TETRAGRAMATON de que fala o Adepto Fra Diávolo – a ver com a presente Quinta Raça-Mãe Ariana onde já se “cava fundo”, labora com intensidade na construção causal da futura Quinta Ronda da Terra e consequente Quinta Cadeia e até Quinto Universo, sob a égide de VÉNUS ou SHUKRA, a ver com o CÁLICE DO ESPLENDOR sem algum amargor!… Eis aqui o FUTURO NO PRESENTE e o PRESENTE NA OBRA DO FUTURO, assim garantindo, dando solução pela matemática divina, à Marcha da Evolução avante.

Se estamos na 5.ª Raça-Mãe, significa, logicamente, que na Terra já evoluíram 4 Raças-Mães (cada uma composta de 7 Sub-Raças; cada Sub-Raça composta de 7 Ramos; cada Ramo composto de 7 Clãs e cada Clã de 7 Famílias, sendo cada Família um conjunto de 7 pessoas: avô, avó, pai, mãe, filho, filha e… primo(a), como elo de ligação com outras famílias), como sejam:

1.ª Raça-Mãe: POLAR ou ADÂMICA

Continente: Jambu Dwipa (Calota do Pólo Norte).

Era Geológica: Primitiva.

Sistema ou Período Geológico: Arqueano e Algonquiano.

Estado de consciência interior: Espiritual ou Atmã.

Veículo de manifestação exterior: Astro-Etérico (composto dos dois éteres superiores dos 4 que se compõe o Corpo Etérico).

Elemento natural (Tatva): Akasha (Éter).

Sentido físico: Audição.

2.ª Raça-Mãe: HIPERBÓREA ou HIPERBOREANA.

Continente: Plaksha Dwipa (Calota do Pólo Sul, e depois evoluindo para os actuais países nórdicos: Groenlândia, Suécia, Noruega, etc.).

Era Geológica: Primária.

Sistema ou Período Geológico: Cambriano e Seluriano.

Estado de consciência interior: Intuicional ou Búdhico.

Veículo de manifestação exterior: Físico-Etérico (composto dos dois éteres inferiores dos 4 de que se compõe o Corpo Etérico).

Elemento natural (Tatva): Vayu (Ar).

Sentido físico: Olfacto.

3.ª Raça-Mãe: LEMURIANA

Continente: Shalmali Dwipa (Gondwana, Continente Austral e África).

Era Geológica: Primária, Secundária e início da Terciária.

Sistema ou Período Geológico: Devoniano, Carbonífero, Permeano, Triássico (apogeu), Jurássico, Cretáceo.

Estado de consciência interior: Mental Superior ou Manas Arrupa.

Veículo de manifestação exterior: Físico denso (o Homem aparece como um ser concreto, visível e tangível).

Elemento natural (Tatva): Tejas (Fogo).

Sentido físico: Visão.

4.ª Raça-Mãe: ATLANTE

Continente: Kusha Dwipa (parte da Europa, incluindo Portugal, da América do Sul, incluindo o Brasil, e toda a região mediterrânea chegando à Ásia).

Era Geológica: Secundária, Terciária e início da Quaternária.

Sistema ou Período Geológico: Triássico (apogeu da Lemúria, pois quando aparece uma nova raça a anterior ainda está em funções), Jurássico, Cretáceo, Paleoceno, Eoceno (apogeu da Atlântida), Oligoceno, Mioceno (1.º Cataclismo Atlante, dos 4 que fizeram o continente submergir), Plioceno.

Estado de consciência interior: Psicomental ou Kama-Manas (ligação do corpo Astral ou Emocional com o Mental Inferior ou Manas Rupa).

Veículo de manifestação exterior: Emocional, Astral ou Kamásico.

Elemento natural (Tatva): Apas (Água).

Sentido físico: Paladar.

5.ª Raça-Mãe: ARIANA ou ÁRIA.

Continente: Kraunka Dwipa (surge no Norte da Índia, Planalto do Pamir, junto ao Himalaia, e depois se esprai pelo Globo habitável).

Era Geológica: Quaternária.

Sistema ou Período Geológico: Pleistoceno e o actual Antropoceno.

Estado de consciência interior: Mental Superior ou Manas Arrupa.

Veículo de manifestação exterior: Mental Inferior ou Kama Rupa (“rupa” é termo sânscrito significando “com forma”, “concreto”, e arrupa, “sem forma”, “abstracto”).

Elemento natural (Tatva): Pritivi (Terra).

Sentido físico: Tacto.

Nesta presente 5.ª Raça-Mãe já se desenvolve o 5.º Elemento ou Quintessência, Éter ou Akasha, e com isso, mercê do 5.º Corpo Mental Superior, o sentido da audição à sua potência máxima, acompanhado do Olfacto também em supra-desenvolvimento, pelo que um dia tal como hoje os homens ouvem sinfonias musicais, “ouvirão” sinfonias de aromas…

“Cada vez cavar mais fundo para servir ao Rei do Mundo”… aprofunde-se, pois, o pensamento na contemplação da Árvore do Paraíso, ela mesma como VIDA mas cujos frutos ou pomos dão a SABEDORIA, portanto, ÁRVORE DA VIDA E DA SABEDORIA. Nela se enroscam duas serpentes, uma negra e outra branca, aquela SAMAEL e esta LILITH, ou sejam, o Chefe dos TODES e a sua Excelsa Contraparte montando guarda à Árvore Proibida no centro do Jardim do Paraíso Terreal, tal qual Mikael guarda o Portal do mesmo. Isto é, a OTZ CHAIM hebraica é a mesma ÁRVORE GENEALÓGICA DOS KUMARAS (KUMA-MARA) que há 18 milhões e meio de anos os Senhores da Cadeia de Vénus plantaram na Terra, durante a Iniciação Grupal do Género Humano, separando a Humanidade em dois sexos, ficando o princípio activo ou masculino para o MENTAL ou SABEDORIA (o que corresponde a ADAM ou Adão), e o princípio passivo ou feminino para o SEXO (Geração) ou VIDA (o que corresponde a HEVE ou Eva). É quando o Homem deixa de ser hermafrodita e passa a possuir sexos distintos mercê do mental individualizado… Começa aí a evolução do indivíduo no singular, por seus próprios esforços e méritos, nasce verdadeiramente o JIVA, isto é, a “Vida Energia individualizada”. A Bíblia descreve esse facto como a expulsão de Adam-Heve do Paraíso para irem povoar a Terra com a sua descendência. Ou seja, MIKAEL ou AKBEL obriga SAMAEL ou ALUZBEL a acompanhar a Evolução Humana através da Geração até à Integração final do mesmo Homem na Divindade latente em si, esta mesma Humanidade liderada pelos GÉMEOS ESPIRITUAIS em SEPARADO, que é a manifestação na Terra do SEGUNDO TRONO ou ADAM-KADMON como GÉMEOS ESPIRITUAIS UNIDOS, isto é, o ANDRÓGINO DIVINO, PRIMORDIAL aí nesse Lugar Celeste, sendo ZAIN-ZIONE em aghartino, ou seja, DEUS PAI-MÃE CÓSMICO que na manifestação planetária tem por aspectos AKBEL (MERCÚRIO) e ALLAMIRAH (VÉNUS), HERMES-AFRODITE, ou seja, o mesmo HERMAFRODITA Divino.

As “serpentes negra e branca” da “Árvore da Vida” vieram a ser figuradas na geografia anatómica do Homem, conhecimento muito prezado pelos cabalistas judeus, ainda que duvide e muito que eles possuam hoje estes conhecimentos. É assim que a “Árvore da Vida” vem a ser a própria coluna espinhal (astro-etérica) por onde discorre a energia andrógina dourada que, em medicina alopática, liga-se por inteiro ao líquido raquidiano. É o canal SUSHUMNA. Laterais, “a serpente negra”, antes, vermelha ou solar (masculina) PINGALA (sistema nevro-sanguíneo), e a “serpente branca”, antes, verde ou lunar (feminina) IDA (sistema nevro-passivo). Na base da coluna, A semente de KUNDA ou KUNDALINI (a ver com a glândula activadora da actividade sexual ou procriativa, portanto, a ver com a geração), logo, em relação com PARVATI ou GIRIJA, podendo ser a HEVE bíblica, por analogia figurativa. Representa a própria Árvore, como VIDA. No topo da coluna, acima do “monte de Atlas” que separa o crânio dos ombros, está a cabeça por onde KUNDALINI impulsiona electromagneticamente a actividade cerebral, transformando-a em espiritual, logo, em SABEDORIA, esta que é o atributo primaz do ESPÍRITO SANTO ou SHIVA. Sim, o ESPÍRITO SANTO, seja SHIVA-PARVATI, ADAM-HEVE, SAMAEL-LILITH, ÉSTER-ABRAHAM, CRISTO-MARIA, ALLAH-ALLATAH, etc., é sempre o TERCEIRO LOGOS CRIADOR promanado do SEGUNDO LOGOS ORIGINADOR.

Adentro assim a questão sobre o mesmo PAI-MÃE CÓSMICO revestido de FOGO e ÁGUA, ou seja, o FOGO DA INTELIGÊNCIA e a ÁGUA DA GERAÇÃO. O Pandita (Instrutor, Professor de Teosofia ou Gupta-Vidya, “Sabedoria Secreta, Iniciática”) Hutuktu que viveu a Leste “numa estrela”, como conta Ferdinand Ossendowsky na sua obra Animais, Homens e Deuses, significa tão-só que vivia na sua Consciência Divina que brilhava como uma estrela e, como Iniciado que era, desceu ao Coração Ígneo do Mundo (AG-HARTA, “Coração Flamejante da Terra”) para se integrar a Deus incarnado em seu Corpo, esta mesma Terra ou Bhumi. “Sol e Lua à sua frente”, como canta a Exaltação ao Graal, também vale aqui o SOL para o Seio da Terra, o Lugar Iluminado dos Deuses, e a LUA para a Face da Terra, o Lugar Sombrio dos Homens. Eis aí os Fogos subterrâneos equilibrando com as Águas oceânicas.

Da fusão da água com o fogo nasce a humidade que originará os fungos, raiz da matéria ou terra. Animando a água está o ar, o oxigénio carregado de éter ou energia vital. Assim, este é a quintessência da Natureza. Como as gentes JINAS de Badagas vivem mais da terra impregnada directamente pelo éter, vê-se que no Submundo predomina o OZONO, donde as tonalidades azuláceas que aí se vêm, enquanto as gentes JIVAS vivem mais de ar impregnando directamente o fogo, a água e a terra, logo, a sua vida depende do OXIGÉNIO. Eis aqui um tema a desenvolver mas que por enquanto não o farei…

Também não deixa de haver relação astrológica com os elementos dos vários Mundos da Terra que se apresentam como aquele jogo das bolas chinesas, onde uma esconde outra e assim sucessivamente até chegar à última, que é o início dum novo jogo… ou Esquema de Evolução.

Face da Terra – Lua (Caranguejo e Terra) – Físico = Terra (Pritivi)

Badagas – Marte (Escorpião e Carneiro) – Etérico = Água (Apas)

Duat – Vénus (Balança e Touro) – Astral = Fogo (Tejas)

Agharta – Mercúrio (Virgem e Gémeos) – Mental = Ar (Vayu)

Shamballah – Júpiter (Sagitário e Peixes) – Espiritual = Éter (Akasha)

Shamballah, o Sol Oculto da Terra, é chamada “Laboratório do Espírito Santo” por ser a Morada do Terceiro Logos. É assim que Ela na Terra é o prolongamento físico (etérico) do Segundo Logos, do Mundo Celeste. Por isso o Centro do Mundo é o Céu na Terra, é o Paraíso Original para onde já reencaminham as Almas Salvas, os Eleitos por seus próprios e digníssimos esforços.

Em tudo isso vem a estar presente o fenómeno do Tulkuísmo, como lhe chamam os tibetanos. O Tulku é a projecção, emanação física da Consciência dum Ser Superior que o dirige. Por exemplo, um discípulo que tenha acompanhado o seu Mestre ao longo de muitas vidas acaba sendo uma representação viva do mesmo, e mesmo que o Mestre já tenha partido fisicamente continua a ser projecção, prolongamento da sua pessoa e pensamento, cujas ordens vai executando à medida que as recebe. É assim que 7 Tulkus constituem um Hutuktu, isto é, os esforços de 7 Discípulos formam um Mestre. Como estiveram muito tempo relacionados ao Ser dirigente, acontece que os dirigidos até fisicamente se aparentam com ele, e com toda a facilidade têm a capacidade de receber e projectar os seus pensamentos, emoções e acções. Isto é Tulkuísmo. No Tibete, os sucessores de uma linhagem de Tulkus dum Mestre Vivo, por exemplo, os Kut-Hampas para Kut-Humi, têm o nome de Ku-Kang-Ma.

Tudo na Natureza é tulku de algo deífico ou superior, logo, do que se acha imediatamente acima. Por exemplo, o Homem Jiva é tulku do Homem Jina, do Génio, do Iluminado; o animal é tulku do homem, principalmente quando ambos pertencem ao mesmo Raio Planetário, portanto, estão em sintonia simpática, acontecendo o mesmo para o mineral tulku da planta ou vegetal, tais como os elementos naturais são tulkus dos minerais. É assim que cada talismã ou anel tributário (safira para o Norte e topázio para o Sul) é mantido por um elemento tulku, tornando-o anel mágico, o mesmo acontecendo com as espadas e baguetas dos Tributários(as).

Segundo a definição do Venerável Mestre JHS, o Tulku é uma forma, no caso humana, criada pelos processos mágicos, antes teúrgicos da Iniciação Real, sempre com origem em Agharta e recorrendo aos Poderes Kundalínicos de Kriya-Shakti, o Poder Criador da Mente Universal. É assim que a personalidade humana deverá ser Tulku da Individualidade Espiritual, tal qual o Homem Henrique expressava ao Deus Baal-Bey, e tal qual os Planetários (Kumaras) vêm as ser os Tulkus Verticais dos Luzeiros (Ishvaras), enquanto os Tulkus Horizontais são os Dhyanis-Budhas em acção na Face da Terra aparelhados com os seus aspectos superiores, os Dhyanis-Kumaras, também em acção no  mesmo Plano.

Pois bem, 7 Seres distintos com as suas respectivas contrapartes, todos de origem aghartina e evolução Monádica superior, serviram de Tulkus a JHS, a quem acompanhavam de vida em vida desde os dias da Atlântida. O nosso grande Revelador, AKBEL (a Mónada Divina para a Tríade espiritual BAAL-BEY e esta para o Quaternário material HENRIQUE), falou de alguns dos nomes desses mesmos TULKUS DE JHS. Esses Seres muito influíram na dinamização e inculcação em solo brasileiro da OBRA DO ETERNO, já que a sua difusão internacional ficou a cargo dos 7 ARAUTOS ou YOKANÃS DE JHS, também uma espécie de “Tulkus” seus.

O desenrolar do movimento iniciático de Henrique José de Souza começa nos seus 16 anos de idade no ano 1899, altura em que não saiu de casa para ir ao Norte da Índia, nada disso: fugiu de casa dos familiares com uma jovem da mesma idade, Helena Iracy Gonçalves da Silva Neves, adolescentes apaixonados vindos para Lisboa, onde era para ficarem de vez. A decisão de prosseguir a viagem para o Norte da Índia veio muito depois, e por decisão dos Adeptos Independentes que haviam acolhido os jovens na capital portuguesa. Entretanto no Oriente Sua Santidade Kjerib Hap Bogdo-Gheghen Hutuktu de Narabanchi Kuri, 31.º Buda Vivo da Mongólia – tendo por Colunas o 13.º Dalai-Lama e o Ser de nome esotérico Takura Bey ou Trachi-Lama, Supremo Dirigente da Confraria Branca dos Bhante-Jauls – e avatara do Luzeiro de Vénus, em 7 de Abril de 1930 terminou o seu ciclo humano e passou a Chefia da Obra do Eterno no Oriente ao 32.º e 1.º Buda-Vivo do Ocidente, Sua Santidade  Baal-Bey Hap Bogdo-Tulan Hutuktu Tulan de Manth Kira, avatara do Luzeiro de Mercúrio, assim tomando as rédeas espirituais da Chefia do Oriente e do Ocidente, portanto, do Mundo inteiro. Mas em todo o Mundo desde a primeira hora que Henrique José de Souza era o chefe universal incontestável do Movimento por ele mesmo fundado. Portanto, não percebo porque alguns ultimamente afirmam que só em 1931 é que ele passou a ser dirigente universal do Movimento Cultural-Espiritualista por si mesmo iniciado oficialmente em 1916, fundando Loja Teosófica sob o nome Samyama – Comunhão de Pensamento, na altura aprovada e reconhecida pela Presidência da Sociedade Teosófica do Brasil, Rama Nacional de Adyar, Índia, a qual  Sociedade fora fundada em Nova Iorque em 7 de Setembro de 1875 por Helena Petrovna Blavatsky e Henry Stell Olcott. Já antes, 1912, o Professor fundara a 1.ª Loja Teosófica do Brasil com o nome de Alcione. Ademais, HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA – EL RIKE – BAAL BEY são uma e mesma pessoa coexistindo em simultâneo em três planos distintos: Face da Terra – Duat – Agharta.

Essas afirmativas espúrias, absolutamente descontextualizadas do esquema geral desta Obra Divina e até pior do que isso em notórias demonstrações de impuberdade psicofísica, obrigam-me a falar do simbolismo do animal afim a essa natureza que é o porco, por em larga medida colar com alguns aspectos da mediocridade humana. Por ser animal sabujo, de pocilga, em breve o simbolismo tradicional associou o PORCO ao PROFANO. Foi assim que Jesus o Cristo decretou: MARGARITAS ANTE PORCOS! “Não atireis pérolas aos porcos”. Cuja frase completa, é: “Não deis aos cães o que é santo, nem atireis as vossas pérolas aos porcos” (Mateus 7:6). A primeira parte da frase refere-se aos despreparados consciencialmente para receberem tudo quanto seja santo e sagrado, e que são sempre os primeiros a alinhar no morticínio moral e até físico de quem se revela superior a eles; a segunda parte, recomenda a prudência de não dar as pérolas da Sabedoria aos profanos, pois que logo a seguir, e como é natural ao seu parco estado de consciência, as irão conspurcar, profanar na pocilga da vulgaridade. Logo após, ainda segundo o relato evangélico, Jesus encadeou uma série de almas possessas ou de baixíssima evolução a uma vara de porcos que, enlouquecidos, atiraram-se de um precipício. Isto quer dizer que Ele os separou e reservou à sua condição bestial em que caíram como irrecuperáveis kármicos, pelo menos nessa e nas próximas vidas. Ao encontro disso vem aquela outra frase de Jesus dirigida ao jovem impúbere que queria ir ao enterro dum familiar, isto é, queria continuar ligado aos cultos animistas em que militava, mesmo pressentindo já a Verdade do Mestre: “Deixa os mortos enterrarem os seus mortos e segue-Me!” Tanto valendo por: deixa os mortos fisicamente ser adorados pelos mortos espiritualmente, e SEGUE-ME, a MIM, o EU SUPERIOR, DIVINO, verdadeiramente IMORTAL. Obviamente o rapaz não teve coragem – nem evolução interior – para tanto…

Razão porque, por exemplo, o Venerável Mestre JHS desaconselhava severamente o “espiritismo” no seio da Instituição e da Obra, mormente na parte Ritualística, sobretudo no ODISSONAI: «Devemos evitar espiritismo em nosso meio, a fim de não prejudicar a Yoga em nosso ambiente» (Carta-Revelação de 6.05.1952). Aliás, todas as religiões tradicionais e todas as Ordens Iniciáticas desaconselham severa e vivamente as práticas animistas, vulgo “espiritismo”, que são coisas «porcas», isto é, PROFANAS.

O mesmo sentido filológico de PROFANO ou PROFANUS, em latim o que está “ante o Templo”, isto é, “fora dele”, consequentemente dos Mistérios Sagrados que o Templo representa e reserva em seu escrínio, tem o termo sânscrito PRETA, para designar as pessoas e almas de precaríssima evolução consciencial ou espiritual.

Esse é o sentido primordial, esotérico ou iniciático, por que as principais religiões do mundo desaconselham o uso de carne de porco, por considerarem este como impregnado de miasmas astrais negativíssimos. No sentido mais prático, objectivo, o Islão, por exemplo, proíbe a ingestão de carne de porco pela razão imediata de que por ser uma carne gordurosa  ingerida num ambiente ensolarado, quente como é o africano, inevitavelmente só irá provocar doenças nos comensais. Fora isso, e ainda que não seja a carne mais aconselhável, por motivos profilácticos, igualmente deixa-se ao cuidado de cada um e cada qual o preterir ou preferir a gastronomia da carne de porco. Sim, fica ao cuidado do(a) próprio(a), sem qualquer espécie de fanatismo proibicionista tão típico no vulgar puritanismo religioso, a ou não ingestão dessa carne, atendendo e sempre a que “não é o que entra mas o que sai pela boca que pode perder o homem”…

Realmente o puritanismo acaba andando de braços dados com o facilitismo e a ingenuidade, tríade dominante nas correntezas neo-espiritualistas actuais em todos os países. O Professor Henrique José de Souza ensinou aos discípulos a ser maduros mentalmente, logo, espiritualmente. Ensinou a desenvolver Manas Taijasi, a caminho de Budhi e Atmã Taijasi. Por isso mesmo, a Teosofia que Ele ensinou contraria em quase toda a linha os conceitos correntes praticados noutras organizações, e como uma lógica tal que até hoje nenhuma delas o conseguiu contradizer. Por isso, e incrivelmente (ou talvez não, pois “santos da casa não fazem milagres”) no Brasil é onde Ele é mais odiado e, ao mesmo tempo tamanha a contradição, mais admirado pelos mesmos que O odeiam. Geralmente pelas razões que o autor português  António Tavares, de organização similar da nossa Obra, exemplifica com notável clareza:

Quando, hoje em dia, muitos Discípulos são questionados sobre problemas do nosso tempo, a sequência de respostas é quase sempre a mesma. O Discípulo tosse um pouco, gagueja ainda mais e inicia um discurso que se vai revelando perfeitamente incongruente, quase que alienígena, e que, invariavelmente, termina com algo do estilo: “O Universo inteiro é Paz e Amor” ou “Das profundezas do Espaço a Energia Cósmica descerá sobre nós”, o que, não deixando de ser verdade, de pouco ou nada serve para aqueles que, junto de nós, buscam uma orientação para aspectos bem concretos da sua existência.

Colocado perante questões como:

– “O que pensa do fim do Comunismo na União Soviética?”;

– “O que é para si uma política educativa espiritualmente positiva?”;

– “Como poderemos resolver o conflito entre o Capital e o Trabalho?”;

– “O que pensa do aborto? E da homossexualidade?”,

a reacção do Discípulo é sempre de fuga e de autodefesa, sinais evidentes de que há aspectos do seu conhecimento iniciático que ainda não se encontram suficientemente elaborados.

É a esta situação que urge pôr fim, é sobre estes (e outros mais) problemas que se torna necessário lançar alguma luz.

Essa luz a COMUNIDADE TEÚRGICA PORTUGUESA a vem fazendo através do vector ESCOLA (e igualmente do TEATRO e TEMPLO), dando o seu contributo sinárquico ao dealbar de uma Nova Civilização que, de vez e para sempre, resolva o magno problema que sempre tem afligido o Homem: o da sua própria FELICIDADE.

Eis aí a ESCOLA: INSTRUÇÃO. Eis aí o TEATRO: FORMAÇÃO. Eis aí o TEMPLO: INTEGRAÇÃO. Sim, pela INSTRUÇÃO chega-se à TRANSFORMAÇÃO; pela FORMAÇÃO opera-se a SUPERAÇÃO; pela INTEGRAÇÃO consegue-se a METÁSTASE!

Para atingir esses objectivos individuais e colectivos, nunca em tempo algum tanto a antiga Sociedade Teosófica Brasileira assim como a Comunidade Teúrgica Portuguesa funcionou, funciona ou funcionará no molde exasperante de “escola esotérica versus fábrica de avataras”, a começar pelo exemplo do seu líder supremo, Professor Henrique José de Souza, que sempre recusou esse título público de “Grande Avatara” que só o iria cobrir de ridículo e comprometer seriamente a sobrevivência da Organização, sendo isto válido para todos os membros. Como se não bastasse, a própria orgânica funcional do Instituto acaba invalidando tal pretensão.

Vem a revelar-se em quase todos, senão todos, os casos de “profetas, gurus, messias, iluminados, etc.”, que nenhuma missão transcendente têm na vida se não a de queimarem o seu próprio karma, os sintomas declarados de esquizofrenia paranóide. Esta é uma doença psiquiatricamente vista como uma significativa perda do contacto vital com a realidade, através do relaxamento das formas usuais de associação de ideias, e que toma forma (ou aspecto) de paranóia, vista, por sua vez, como um aparecimento de ambições desmedidas (suspeitas) que evoluem, geralmente, para a mania de grandeza (megalomania) aliada a delírios persecutórios. É interessante reparar que apesar de se observar o relaxamento das formas usuais de associação de ideias (característico da esquizofrenia), os sentimentos de perseguição e megalomania são, frequentemente, estruturados sobre base lógica.

No geral, a esquizofrenia é uma das mais devastadoras dentre as desordens mentais conhecidas, fazendo com que o doente perca (parcial ou totalmente) o contacto com a realidade objectiva. Os pacientes com essa modalidade de desordem psíquica costumam ver, ouvir e/ou sentir sensações que realmente não existem na realidade objectiva e concreta, de que as pessoas supostamente “normais” partilham; e tais sensações percebidas pelo esquizofrénico – que não pertencem à realidade objectiva das pessoas consideradas “normais” – são denominadas “alucinações”, o que os médicos hindus chamam “mayas”, ou seja, ilusões. Com isto, parece notório que a maioria dos profetas “de fins de tempos”, onde agora começa a surgir o boato apocalíptico de “Sintra versus 2012”, vem a estar completamente mergulhada numa grande ilusão vítima da sua própria ignorância, a maioria por pretensa auto-suficiência mas que vem a ser preguiça e desmazelo do estudo criterioso e sério das Leis da Vida, de preferência auxiliado por um Colégio de Tradição Iniciática para que efectivamente hoja ORDEM E REGRA ao avesso da DESORDEM E DESREGRA que campeia nos falsos profetas e messias mancos hoje em dia!

Em tempos escrevi sobre a adulação ou idolatria às pedras e animais em detrimento da realidade única, a da adoração verdadeira a Deus Vivo e Verdadeiro em um e todos. Critiquei a idolatria supersticiosa, ignorante às formas dos Reinos Subhumanos, mas não recuso que nesses mesmos Reinos hajam expressões monádicas minerais, vegetais e animais com mais ou menos vibração que as restantes, de acordo com a mais ou menos evolução colectiva das respectivas espécies. Neste sentido, tem-se a vibração mais intensa de certas pedras comummente consideradas preciosas, e que são os corpos densos das Mónadas mais adiantadas do Reino Mineral. O mesmo para o Vegetal e para o Animal… e até para o Humano, onde os CHOANS DE RAIOS (dirigentes dos mesmos) são o melhor (monadicamente) que a Espécie Humana tem.

É por isso que os Sete Dhyanis-Budhas do Novo Pramantha têm as suas pedras preciosas específicas, também perfumes e vegetais e igualmente animais, todos esses expressando as espécies mais evoluídas dos respectivos Reinos, estando sob a tónica vibratória dos 7 Planetas tradicionais por onde se expressam os Ishvaras (Logos) através dos Kumaras (Planetários), pelo que a sua vibração é mais intensa e pura que a de outras espécies do respectivos Reinos. Mas tal não implica que se passe a idolatrar pedras, plantas e animais, tão-só a manejar as suas propriedades ocultas como simples instrumentos que a Natureza oferece, portanto, como meio e não como finalidade, ao contrário do que muitos fazem hoje em dia supersticiosamente. Deste modo, tem-se:

SOL – DOMINGO – LARANJA

CHAVE ALQUÍMICA

CARBÚNCULO (ou OURO)

SÂNDALO

SIRIEMA

DHYANI-JIVA (CHOAN) SERAPIS

DHYANI-BUDHA ANTÓNIO

LUA – SEGUNDA-FEIRA – VIOLETA

CHAVE GEOMÉTRICA

AMETISTA (ou PRATA)

JASMIM

LOBO

DHYANI-JIVA (CHOAN) KUTHUMI

DHYANI-BUDHA BENTO

MARTE – TERÇA-FEIRA – VERMELHO

CHAVE METAFÍSICA

RUBI

VERBENA

SERPENTE

DHYANI-JIVA (CHOAN) MORYA

DHYANI-BUDHA CARLOS

MERCÚRIO – QUARTA-FEIRA – AMARELO

CHAVE MATEMÁTICA

TOPÁZIO

CRAVO

CERVO (VEADO)

DHYANI-JIVA (CHOAN) HILARIÃO

DHYANI-BUDHA DANIEL

JÚPITER – QUINTA-FEIRA – PÚRPURA

CHAVE HISTÓRICA

RUBINA

AÇAFRÃO

RAPOSA

DHYANI-JIVA (CHOAN) SÃO GERMANO

DHYANI-BUDHA EDUARDO

VÉNUS – SEXTA-FEIRA – AZUL

CHAVE ASTROLÓGICA

SAFIRA

MIRRA

JAGUAR (ou TIGRE)

DHYANI-JIVA (CHOAN) NAGIB

DHYANI-BUDHA FRANCISCO

SATURNO – SÁBADO – VERDE

CHAVE BIOLÓGICA

ESMERALDA

ALECRIM

ANTA

DHYANI-JIVA (CHOAN) AB-ALLAH

DHYANI-BUDHA GODOFREDO

Acerca dos malefícios de certas espécies animais e vegetais, de facto o Professor Henrique José de Souza chamou a atenção para os “malefícios da samambaia”, cuja natureza centrípeta atrai a si as energias psico-etéricas do meio arredor, tendo assim um comportamento “vampírico” ou usurpador da vitalidade alheia. Também o gato, animal lunar profundamente psíquico (mais clarividente do que ele só a galinha, ave considerada “estúpida” por parecer estar noutro mundo, isto é, a sua consciência grupal é toda psíquica ou astral estando nesse Plano apesar do corpo físico manifestado, e talvez por isto os nauseabundos cultos psíquicos afro-lemurianos que hoje invadem as grandes urbes, sirvam-se de galinhas para os seus cultos mais que prejudiciais à Evolução Humana), atrai à sua aura magnética as energias psico-etéricas em volta, e logo se o vê lamber ou limpar os pêlos do seu corpo como que para expurgar essas mesmas energias naturalmente atraídas. O gato é um catalisador psíquico, o que faz parte da sua natureza anímica ou animal. Não é bom nem é mau, é naturalmente assim… Talvez por isso muitos ocultistas tenham um gato por companheiro, e outros mais sacrifiquem aos soturnos deuses lunares gatos para encadear, através do magnetismo concentrado nos mesmos, os elementais inferiores e comandá-los à sua vontade. Também isto fez parte dos cultos afro-lemurianos que se arrastam qual almas penadas até hoje.

O gato é um bom companheiro, discreto e afável, e não tem nada de mal em si mesmo (tal qual como a galinha, pois a verdade é que a sua carne branca é das mais consumidas no mundo). Contudo, por sua aura magnética, nos casos de crianças débeis e idosos fragilizados deve evitar-se a companhia nocturna dos mesmos (dormir na mesma cama, por exemplo), pois pode acontecer que as energias vitais humanas sejam atraídas para a aura vital do animal. Fora isso, não vejo mal nenhum em ter um gato por companhia, e até poderá ser muito útil a presença do mesmo junto dum taumaturgo retirando a moléstia ao doente humano e projectando o devata no animal que logo o devorará, isto é, dissipará por meio das eficientes lambidelas da sua língua áspera, própria para triturar miasmas psíquicos.

O Professor Henrique José de Souza também falou nos malefícios dos pardais, e logo muitos passaram a considerar o pardal uma ave nociva, sem o mínimo arromo de raciocínio. Considerou-o ave nociva por ser propensa a portar doenças, e não que em si mesma seja negativa. Ademais, sem respeito e amor pelos nossos irmãos menores, os animais, quase ou mesmo impossivelmente o Homem evoluirá verdadeiramente. Os fanatismos extremistas são deprimentes… Aceito muito bem que as senhoras, por exemplo, por sua natureza essencialmente psíquica possam antipatizar com a idêntica natureza psíquica do gato (oposto do cão, que é centrífugo e solar), mas isso não significa que seja um animal maléfico (como não o é a galinha e, em última instância, a própria samambaia), tão-só as naturezas dessas espécies, por seu magnetismo natural afim à sua própria evolução colectiva, poderão ser favoráveis ou desfavoráveis à condição humana. Repare-se só: o Mestre Kuthumi tem no seu Retiro Privado dois gatos, um siamês e outro egípcio, e nunca se queixou dos seus malefícios. Por seu lado, Morya tem um tigre domesticado (evolução anterior ao gato) na sua Morada, e também nunca se ouviu que andasse a queixar-se do animal… Quero com isto dizer que toda a Criação é Divina, logo, todas as criaturas são essencialmente divinas, e só quem vibra em padrões psicomentais inferiores se apoquenta com ídolos anímicos em detrimento do Deus Vivo que palpita em um e todos, até mesmo na samambaia…

Por fim, direi algumas palavras sobre os vectores inter-relacionados Ensinamento Iniciático – Trabalho Iniciático. Já tive oportunidade de informar que o Ensinamento Iniciático dado aqui na Europa, em Portugal pela Comunidade Teúrgica Portuguesa, na essência é o mesmo que é dado pela actual Sociedade Brasileira de Eubiose, no Brasil. Disse “na essência”, isto é, nos princípios temáticos e logo na linguagem, mas quanto ao desenvolvimento dos mesmos as diferenças são muitas e notórias, tanto em Cosmogénese, como em Antropogénese, como em Teodiceia. É no desenvolvimento dos temas que tudo muda, e, sem querer “puxar a brasa à minha sardinha”, considero que para melhor, sem deixar lugar a espaço vazios e descontextualizados ante os temas anteriores e posteriores, dando lógica, sequência e explicação humana, mesmo sendo assunto transcendente, a assuntos tais como os Dhyanis do Novo Pramantha ou a controversa questão Henrique e “Helenas”, por exemplo. Tudo isso é facultado ao membro(a) através de monografias (apostilas) temáticas pertinentes a cada Grau. Obviamente que o Trabalho Iniciático levado a efeito pela C.T.P. relaciona-se com Portugal e a Europa, e, sobretudo, trazer a Europa a Portugal e este projectá-la (espiritualmente falando, é claro) no Brasil, Pátria do Futuro para o Género Humano. Portanto, todo o compósito teúrgico assenta na Teosofia do Professor Henrique José de Souza, nas suas Revelações, das mais simples às mais profundas, e é assim, como Ele destinou aos Portugueses, que vai se criando a teia da “aranha d´ouro” (no dizer de Baal-Bey) que unirá Portugal e Brasil como Pátria Única do Buda Gémeo do Novo Ciclo, ou seja, MITRA-DEVA (Portugal) e APAVANA-DEVA (Brasil), Dois em Um como MAITREYA, o Cristo Universal de Aquarius.

Cada Grau tem o seu Ritual ou Meditação Iniciática conforme o Venerável Mestre JHS (Prof. HJS) deixou prescrito para os mesmos, pois pela prática regular das Yogas dos Graus estes dão possibilidade a que o iniciado simbólico possa vir a ser efectivamente INICIADO REAL, “não do pé para a mão” mas paulatinamente, mercê dos seus próprios esforços utilizando os métodos espirituais legados pelo Excelso Mestre, tendo assim a possibilidade de um dia ver confirmada nele mesmo aquela parte do Evangelho que diz: «O que Eu faço, vós também podereis (um dia) fazer».

Como a energia segue o pensamento, todos os Irmãos da Obra do Eterno em qualquer parte do mundo que estejam, pela comunhão de pensamento (Dhâranâ) firmam entre si a UNIDADE de Obreiros da Nova Era (como diz o Mantram de Mato Grosso), e sentem-se unidos apesar das eventuais distâncias que os separem fisicamente. Por exemplo, a Meditação de Lua Cheia que os Munindras realizam individualmente em seus lares, e como o espaço/tempo no Plano Kama-Manásico ou Astro-Mental não é o mesmo que no Plano Físico, acontece que o pensamento comum vem a UNIR a todos em volta do mesmo propósito. O mesmo acontece quando colectivamente se visualiza o Globo Azul com o Pax dourado.

Neste III Milénio dois Países acabarão por destacar-se no mapa sócio-político do Mundo, seja de que maneira for e leve o tempo que levar: Brasil e Portugal, ambos ligados por laços sociais e culturais praticamente desde o século XVI. Já para não falar dos espirituais que são tudo!… Portugal espelha economicamente a crise que hoje atravessa a Europa e o Mundo, não pode nos próximos decénios tomar a dianteira económica da Humanidade, mas o Brasil pode, tem todas as propriedades e possibilidades de se tornar a maior potência sócio-económica do Mundo, e nisto contará com o País Irmão para o ajudar na Cultura e ele auxiliar na Economia, ambos os factores imprescindíveis para a criação à escala planetária de uma sociedade próspera e culta. Creio, pois, que os laços Portugal-Brasil irão se estreitar ainda mais nos próximos tempos, pois quem mais manda é o 5.º SENHOR com um olho no Brasil (Roncador) e outro em Portugal (Sintra) na construção do V IMPÉRIO UNIVERSAL, este que só será Português na língua mas geograficamente toda a Humanidade.

Esotericamente, o Brasil dará o Poder Temporal a Portugal (MITRA-DEVA) e Portugal o Poder Espiritual ao Brasil (APAVANA-DEVA). Juntos constituirão o Reinado de MAITREYA, o CRISTO UNIVERSAL, e para isso, desde 1900 e particularmente desde 1948 quando o Professor Henrique José de Souza estabeleceu as primeiras ligações oficiais da SOCIEDADE TEOSÓFICA BRASILEIRA com os Teósofos portugueses, concorre à acção da OBRA DO ETERNO neste velhinho PORTO-GRAAL, como já lhe chamava Afonso Henriques. Tal propósito vai ao encontro do que deixou escrito o próprio Venerável Mestre JHS em carta de 1957 destinada aos Portugueses:

«A Teosofia, no Brasil e em Portugal, corresponde a duas Ramas da mesma Árvore, que devem desenvolver-se em harmónico equilíbrio como os braços de uma Balança, na qual o fiel é a Grande Fraternidade Branca vibrando no peito do Monarca Universal, de cujo centro mesmo irradiam para as quatro direcções os Quatro Animais da Esfinge, expressão Ideoplástica da Suprema Hierarquia Assúrica». «Eu estou em Verdade e Espírito nessas plagas (Portugal), origem da Obra, porque aí sou exaltado com fé e amor. Eu sempre estou onde Me amam e com aqueles que crêem em Mim…»

A Teosofia portuguesa e brasileira vem a constituir as duas Ramas da mesma Árvore (Genealógica dos Kumaras ou Deuses). Se o Brasil se perfilha no horizonte como a futura Capital Espiritual do Mundo, só o virá a ser na medida em que a acção catalisadora, a gesta dos Portugueses promova e irradie o V Império, para que o Quinto Reino do Espírito Santo, o do Monarca Universal, Melkitsedek, o seja. No escrínio do porvir, por determinação do plano do Logos, se firma o duplo privilégio de que o jovem Brasil (o Filho) e o velho Portugal (o Pai) formem a lateralidade da acção obreira universal, que assim é igualmente literalidade. Brasil e Portugal como a Balança Mística da Nova Era, em que vem beijar a Terra feliz o Segundo Logos na pessoa avatárica de MAITREYA.

MANAS TAIJASI É A TÓNICA DA NOVA ERA NA HORA PRESENTE!

GLÓRIA AO JIVATMÃ HUMANO!

BUDHI TAIJASI É A TÓNICA DO NOVO CÉU NA TERRA ACTUAL!

GLÓRIA AO JIVATMÃ SIDERAL!

ATMÃ TAIJASI É A TÓNICA DO NOVO CICLO NA HORA DO AVATARA!

GLÓRIA A MAITREYA, LUZ DOS TRÊS MUNDOS MANIFESTADOS

NAS MENTES E PEITOS DE UM E TODOS!

BIJAM

 

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Bretanha mágica (deuses, druidas, templários, mitos e lendas) – Por Vitor Manuel Adrião Sábado, Set 18 2010 

Bretanha mágica

 

A Bretanha é a “terra da deusa Dana”, a mesma Danu dos primitivos Tuatha de Danand, povo mítico antecessor do celta que preenche a mitologia bretã, irlandesa e escocesa do qual diz-se ter vindo do Oriente, da Ásia Central, e por isso alguns orientalistas também lhe chamam Duat de Ananda, ou seja, o “Povo do Paraíso Terreal”. Apareceu tão subitamente como desapareceu de repente, diz-se, nas entranhas cavernosas da Terra. Mas deixou os sinais da sua passagem civilizadora aqui: os monumentos megalíticos, os deuses e a religião dos celtas posteriores, ou seja, as bases teológicas do druidismo, e até mesmo se lhes atribui a invenção das carroças, isto é, a divulgação da roda, inspirada no formato do disco solar de quem diziam ser morada da sua divindade suprema, indistintamente chamada Dagda ou Lug, consorte da mesma Danu.

O culto do deus Dagda, Lug, Lugus ou Lux sobreviveu através dos ligures, dos celtas e até se durante a romanização da Gália, período no qual os galos pós-celtas não deixaram de cultuar esse deus mágico, terapeuta, músico, alquimista e metalúrgico, afim ao início da era dos metais, que o Cristianismo veio a incorporar no seu santoral adaptando-o à hagiografia de um São Lucas ou de um São Lourenço, por exemplo, personagens com nomes de raiz “luz” em conformidade às suas vidas santificadas pelo pautado de vivências solares ou claramente espirituais, na demanda do mais elevado Deus do Universo.

Assim é o mesmo Lug, considerado próprio Deus do Sol que armado da sua lança mágica expulsou da Bretanha os maus demónios após uma batalha terrível em que conjurou os poderes celestes para levar à vitória o seu povo Tuatha de Danand, como contam as antigas sagas celtas. Mais tarde, durante a cristianização bretã, a lança mágica de Lug seria associada à espada de fogo do Arcanjo São Miguel e este mesmo, por sua primazia celeste e luminosa junto do Trono de Deus, vindo a ser identificado à pessoa solar e primordial do panteão céltico que era o deus Lug. Foi assim que este reapareceu no culto cristão sob a forma de Mikael ou Miguel, por ambos deterem o poderio divino junto dos homens.

A deusa Dana ou Danu, por sua vez, era reconhecida a divindade da Terra, da Vida e da Morte, sendo tão relevante que o seu grupo humano de semi-deuses é comummente apelidado “Povo de Dana ou Danu”, donde Thuat de Danand. A sua importância terá sido tão grande que deu o seu nome ao País de Dinan ou Danu, hoje sendo a bretã Côtes-d´Armor. Após a cristianização da Bretanha, a deusa Dana, iconografada como uma sereia ou mulher sobrenatural vinda de “Além-Mar”, o Ultramar designativo simbólico do “outro lado do Mundo”, ou melhor, do “Outro Mundo”, veio a ser incorporada à figura da Padroeira da Bretanha, Santana, mãe da Virgem Maria, adaptação feita para substituir o forte culto celta à deusa Lusina, a mesma Danu primitiva. No século XIV Jean d´Arras adaptou a figura de Lusina à sereia sobrenatural Melusina, personagem central do seu romance a qual se diz ter dado origem às Armas de Lusignan.

Uma outra santa caríssima ao Cristianismo é Brígida, mas também esta é uma “segunda versão” adaptada da primitiva deusa Brigite dos Tuatha de Danand e dos celtas. As sagas bretãs dizem que ela era filha do deus Dagda e que veio a ser a Musa da inspiração dos bardos, por possuir o Som que vibra no Universo, e também aquela que conduz as almas ao Awen, que era o Céu para esses povos antigos. Além disso, como grande druidisa ou sábia sabia das propriedades mágicas e medicinais das plantas, pelo que também a consideravam deusa curandeira. Ora a Brígida cristã veio a ser reconhecida como santa intercessora junto do Céu, curadora dos corpos e almas aflitos e é tradicionalmente associada à Luz, tal qual Brigite a filha de Lug.

Os Tuatha de Danand, a quem o rio Danúbio e mesmo o rio Guadiana em Portugal devem o seu nome, apareceram em três vagas distintas na Europa inaugurando uma nova era de civilização: 1.ª) vindos do Oriente em era incerta, desembarcaram na costa oeste da Irlanda por volta do 1.º de Maio, dizem as crónicas, que é a data do festival de Beltane ou comemoração da Primavera; 2.ª) da Irlanda ou Erin passaram à Escócia, onde impuseram a cultura e o culto do deus Lug, depressa alastrando ao restante território da actual Grã-Bretanha; 3.º) no ano 1000 a. C., data da aparição do alinhamento megalítico de Carnac e do santuário de Stonehenge, Sul de Inglaterra, vindos da Península Ibérica (Galiza, Norte e Centro de Portugal) os Tuatha de Danand instalam-se na Bretanha e Grã-Bretanha, ficando conhecidos como Milesianos. É a estes que se deve a maioria dos monumentos megalíticos da Idade do Bronze encontrados nesta parte do Norte de França. Estas três vagas civilizacionais ficaram conhecidas nas crónicas ogâmicas que falam deste povo mítico, como “as três guerras travadas pelos Tuatha de Danand contra os Fir Bolg, povos decadentes substituídos pela civilização daqueles”.

Aos Milesianos ou Mile Espaine se uniriam depois os Celtas gahélicos fundadores da actual Gália. Depois da conquista desta pelos Romanos, a Bretanha passou a fazer parte da Armórica (Aremoricae, “quie está defronte ao mar”). Cerca do ano 500 d. C. os Bretões da Ilha Grande Bretanha sendo atacados pelos Anglo-saxões emigraram para aqui, a Pequena Bretanha, trazendo os seus costumes e língua, cedo incorporando-se nos dos autóctones que nas Côtes-du-Nord eram o País de Dinan, o “Povo da deusa Dana”.

A presença céltica, substituta primitiva da Tuatha de Danand, é dominante na Bretanha, nomeadamente nas artes plásticas, na música e na religião. Nesta, é possível reconhecer na cruz celta símbolos druídicos coincidindo com o simbolismo cristão. A correspondência quaternária da cruz ilustra a repartição dos quatro elementos: ar, fogo, água e terra, e de suas qualidades tradicionais: frio, quente, húmido e seco. Ela coincide com a divisão medieval da região bretã em três reinos (Domnonée, Cornualha e Bro Waroch) incorporado ao quarto que era o próprio Ducado da Bretanha, independente do reino de França até 1532. Actualmente coincide com os cinco departamentos regionais criados a partir de 1790: Côtes-d´Armor, Finistère, Ille-et-Vilaine, Morbihan e finalmente o quinto ao centro da cruz, Loire-Atlantique, que é onde fica Nantes, capital da Bretanha.

Sobressaindo os braços da cruz celta, popularmente chamada “cruz solar”, de um círculo central que os irradia para fora, havendo outro círculo ao centro, os eixos vertical e horizontal formados pelos braços do cruzeiro lembram a passagem do tempo, os pontos cardeais do espaço, enquanto o círculo mantém a memória perene dos ciclos de manifestação da Vida Universal. Mas o centro, no qual não há mais nem tempo nem mudança de nenhuma espécie, é o sítio de passagem ou comunicação entre este e o Outro Mundo, que para celtas e cristãos corresponde ao Paraíso. É, pois, um ônfalo, um ponto de ruptura do tempo e do espaço que propício à passagem para outras dimensões espirituais que muitos druidas e até religiosos cristãos procuraram adentrar, e talvez alguns tenham conseguido, em suas vidas corporais procurando a respectiva imortalidade incorporal.

A estreita correspondência das antigas concepções celtas e de dados esotéricos cristãos, permite considerar que a cruz inscrita no círculo, propagada na Bretanha a partir do século VII, tenha representado, quiçá ainda represente, a síntese íntima e perfeita do cristianismo e da tradição celta que até hoje é imagem de marca característica da Bretanha mágica.

A Bretanha (Breizh, em bretão, Bretagne, em francês) ficou composta, em termos históricos, por duas áreas linguísticas: a Baixa Bretanha ou Breizh Izel, a Oeste (Finistére, Morbihan e a parte ocidental de Côtes d´Armor), onde se fala a língua céltica do grupo britânico (aparentado ao galês e ao cornualho) designada como bretão (ou bretão armórico); e a Alta Bretanha ou Breizh Uhel, a Leste (Ille-et-Vilaine, Côtes d´Armor e Loire-Atlantique), onde se falam dialectos românicos (langues d´oïl) conhecidos como “Gallo”.

Os nomes realmente bretões só aparecem nos últimos séculos da Idade Média, período no qual a língua bretã falava-se a oeste de uma linha indo de Saint-Brieuc a Saint-Nazaire, passando por Loudeac e Ploermel. Portanto, o limite entre os nomes bretões e os nomes franceses não era muito claro, porque numerosas migrações tiveram lugar no decurso dos séculos entre os dois lados dessa linha. Pode-se então estimar que os nomes mais antigos de famílias bretãs remontam ao século XI.

É nesse século que aparecem os nomes ditos “solenes”, ou seja, muito próximos ou mesmo ligados às lendas de Cavalaria, particularmente à do rei Artur e seus cavaleiros da Távola Redonda tendo por conselheiro o druida Merlim, saga essa que se diz ter transcorrido na “floresta mágica” de Brocéliand, aqui mesmo na Bretanha, onde cavaleiros andantes e magos druidas conviveram e deixaram fama envolta em halo de mistério. Então aparece um nome como o do cavaleiro Gwenole, nome bretão oriundo de gwenn, “branco”, e uual, “valoroso”. Pode-se igualmente citar Catuun, “o homem de combate”, formado de cat, “combate”, e de uun, “o homem”.

Mais alguns exemplos de nomes bretões correntes: Legoff (“ferreiro”), Prigent (provindo de prit, “bela”, e gent, “raça”), etc. Alguns prefixos podem ajudar a reconhecer um nome bretão: ab e ap na raiz de mab ou map, “filho de”, ou então ker, significando “o domínio”, “a cidade”, “o lugar”.

Nas diversas expressões das artes plásticas, e nomeadamente na música, ainda hoje a influência ancestral do espírito celta consegue a “anular” a presença cristã que veio com a romanização nos séculos V-VI. Ao nível musical, a música de dança cantada (kan ha diskan, ou canto e contra-canto) é interpretada com dois instrumentos tradicionais da Bretanha herdados, assim como as danças, da cultura celta: o biniou (espécie de gaita de foles, também chamada “cornemuse bretã”) e a bombarda (espécie de oboé), que são muito tocados tanto na Alta como na Baixa Bretanha. Os bailarinos juntam-se nas chamadas fest-noz (festas nocturnas) ou nas fest-deiz (festas diurnas), como primitivamente faziam as populações celtas para celebrarem alegremente o amor e a vida, ora à volta das fogueiras, ora em campos trigais celebrando a abundância e prosperidade.

 

Mistério iniciático dos 7 Santos fundadores da Bretanha

 

Os 7 Santos fundadores da Bretanha (cristã) parecem ser uma cópia fiel dos originais 7 druidas que assistiam à cabeça da religião celta na mesma Bretanha. As suas vidas quase improváveis deram-se nos séculos V e VI na época da emigração bretã na Armórica, e a sua história é aquela da passagem da Gália Armórica à Bretanha. Supondo-se que esses religiosos tenham pertencido à aristocracia britto-romana, por serem portadores de nomes latinos gentílicos, como por exemplo Paulus Aurelianus (Saint Pol Aurélien), vieram a instalar-se em sete lugares distintos que já eram espaços de peregrinação e culto celta, tendo aí fundado as suas dioceses, e depois de mortos esses religiosos foram proclamados “santos” pelo povo devido aos milagres que ocorriam junto às suas sepulturas.

 Tendo os sete santos fundado sete cidades episcopais, o itinerário de peregrinação a todos eles corresponde ao que a Tradição Iniciática das Idades apelida de Caminho da Iniciação, demarcado por sete etapas distintas onde em cada uma se adquire novo e mais amplo estado de consciência, correspondendo a determinado elemento da Natureza, rumo à Perfeição Divina assinalada pelo Centro Primordial, tanto no Homem como na Terra (o supremo estado interior simbolizado tradicionalmente pelo “túmulo milagroso” de algum santo falecido, ou então pela gruta ou a cripta simbólica do ônfalo, literalmente “umbigo”, indicativo do mesmo Centro Primordial).

Sendo o itinerário da peregrinação católica aos túmulos dos sete santos possível adaptação de igual roteiro sagrado pelos celtas, para todos os efeitos modalidade dinâmica ou móvel de encontro entre as duas tradições, as ditas cidades episcopais bretãs podem assim ser transpostas para os sete estados que demarcam o Caminho da Verdadeira Iniciação, que é sempre, seja sob que modalidade for, o da transformação da Vida Energia em Vida Consciência, tanto na Natureza como na sua partícula individualizada, o Homem.

 

1.ª Etapa – Quimper, fundada por Saint Corentin

Atributo: Peixe

Significado: Firmação da Fé

Estado e Elemento: Físico e Terra

 

2.ª Etapa – Vannes, fundada por Saint Patern

Atributo: Igreja

Significado: Afirmação da Fé

Estado e Elemento: Vital e Água

 

3.ª Etapa – Dol, fundada por Saint Samson

Atributo: Serpente

Significado: Vencer a heresia

Estado e Elemento: Emocional e Fogo

 

4.ª Etapa – Saint-Malo, fundada por Saint Malo (Melaine)

Atributo: Barca

Significado: Evangelização

Estado e Elemento: Mental Concreto e Ar

 

5.ª Etapa – Saint-Brieuc, fundada por Saint Brieuc

Atributo: Lobo

Significado: Dons dos sacramentos

Estado e Elemento: Mental Superior e Éter

 

6.ª Etapa – Tréguier, fundada por Saint Tugdual

Atributo: Pomba e pergaminho

Significado: Sabedoria da Palavra

Estado e Elemento: Intuicional e Subatómico

 

7.ª Etapa – Saint-Pol-de-Léon, fundada por Saint Pol Aurélien

Atributo: Dragão

Significado: Posse da Sabedoria

Estado e Elemento: Espiritual e Atómico

 

A fama dos sete santos originou a criação do Tro-Breizh, a “peregrinação aos Sete Santos”, devido aos numerosos milagres produzidos em torno dos seus túmulos, o que veio a popularizar este primitivo itinerário iniciático contribuindo fortemente para a identidade religiosa bretã.

Esta tradição dos “Sete Santos fundadores da Bretanha” tem origem nessas outras bizantina e muçulmana referentes aos “Sete Adormecidos de Éfeso” e aos “Sete Adormecidos da Caverna”. Na versão cristã, os “sete Adormecidos” eram sete nobres cristãos (Maximiano, Malchus, Marciano, Dinis, João, Serapião e Constantino) que escapando às perseguições de Décio, o imperador romano, refugiaram-se numa caverna da montanha próxima da cidade de Éfeso, e aí Deus adormeceu-os por tempo indeterminado. Na versão muçulmana, esses mesmos “Sete Adormecidos de Éfeso” são chamados Ahl-a-Kahf ou Ashâb-al-Kahf, literalmente, “as gentes da caverna ou a gruta”, citadas na 18.ª surata do Al Corão.

Será na tradição transhimalaia referente aos Sete Rishis ou “Reis Divinos” que desde o Mundo Subterrâneo de Agharta dirigem os destinos da Humanidade, que os cristãos e árabes terão recolhido e adaptado às suas doutrina o conceito dos “Sete Sábios e Santos Adormecidos na Caverna”, ideia também explanada por Platão, tendo a gruta secreta o significado de “oculta e inviolável”. O sentido de “adormecer” equivale ao estado de “inactivo”, o que, pegando ainda na tradição transhimalaia, significa que está “acordado” ou “activo” um determinado Rei Divino durante determinado ciclo, enquanto os outros “dormem”. No Final dos Tempos ou do Ciclo de Manifestação Universal, todos os Sete Reis estarão despertos e implantarão a Concórdia Universal sobre a Terra, tal é a mensagem derradeira desta mesma tradição espiritual comum às religiões cristã e islâmica. Nesta, é ainda um cão, chamado Qitmir, quem guia os peregrinos até à entrada da Caverna de acesso ao Paraíso Perdido onde estão os “Sete Adormecidos”. Posto assim e vendo que Saint Brieuc tem por atributo um lobo ou um cão, assim como Saint Malo a barca alusiva da mesma Agharta, ou até mesmo Saint Samson e Saint Pol tendo por atributos a serpente cuja expressão superior é o dragão, mas ambos expressivos do Fogo da Sabedoria oculta no seio da Terra, acaso não é tudo isto por demais significativo?

 

Monte Saint-Michel, um Centro Cósmico na Terra

 

O Monte de Saint-Michel é sem dúvida a expressão de um Centro Cósmico no mapa gnoseológico de França para os estudiosos da Tradição Primordial, os quais chegam a situar aí a “cabeça” espiritual de França, dispondo o seu “coração” em Paris, a “cidade-luz”, e o “ventre” em Lyon, a cidade eleita pelos ocultistas dos últimos três séculos para fundarem e propagarem os seus movimentos e ideias esotéricas para toda a França, Europa e até o Mundo, como foi o caso da famosa Maçonaria Egípcia de Cagliostro (século XVIII), iniciada nessa cidade no sul do país.

Fazendo fronteira da Normandia com a Bretanha, na embocadura do rio Couesnon, no departamento da Mancha, desde muito cedo (século IV-V) esta ilhota rochosa foi consagrada a Saint-Michel e Notre-Dame Sous-Terra, “debaixo da Terra”, portanto, subterrânea. Inicialmente habitada por druidas ou sacerdotes da religião céltica que chamaram ao local Monte Tombe, da palavra celta tun, significando “elevação”, mas que depois os eremitas cristãos usando do latim converteriam em tumba, ou seja, a “tumba ou sepulcro”, contudo prevalecendo até hoje a raiz do filólogo original celta por que se conhece esta ilha de Tombelaine ou o Monte Dol, a ver com dólmen, o “jazigo funerário” dos antigos celtas.

No princípio do século VIII o Arcanjo São Miguel apareceu em sonhos a Aubert, bispo de Avranches, cidade próxima do Monte, e ordenou-lhe que construísse um mosteiro nessa ilhota granítica. Ele assim fez, depois das provas de veracidade que pediu ao Ser divino e este lhe deu, desde tocar com o seu dedo o crânio do religioso incrédulo, significando que lhe transmitiu a iluminação espiritual, até descobrir-se um touro roubado no alto da ilhota, como lhe predissera o Arcanjo, mas que é alegoria de uma nova religião, cristã, substituir a primitiva celta representada no touro “roubado”, animal totémico dessa primitiva sociedade agrária. Após, em 16 de Outubro de 708 consagrou ao Arcanjo de Deus o recém fundado mosteiro beneditino no Monte da sua evocação, originalmente chamado “Monte Saint-Michel em perigo do mar” (Mons Sancti Michaeli in periculo mari), epíteto dando a entender que seria sobretudo evocado por alguma confraria piscatória local.

Esse mosteiro recebeu reformas românicas nos séculos XI-XII e em sua volta nasceu uma pequena cidade fortificada, a que se dá o nome convencional de “bastide”, e no século XIII recebeu a influência magnífica do gótico a ponto de até ao presente chamar-se a esta construção a “Maravilha”.

No cimo do pináculo mais elevado do mosteiro, cerca de 80 metros de altura, destaca-se a estátua dourada do Arcanjo São Miguel elevando na destra a espada e tendo aos pés o dragão, aparentemente representativo da heresia, realmente expressivo do tellos-draconis latino ou wouifre em celta, que é dizer, as energia telúricas correndo no seio da Terra mantendo a vida nesta, tal qual as veias no corpo humano são os condutos do sangue vital à sobrevivência orgânica.

O Arcanjo Miguel ou Mikael vem a ser Metraton, “a medida (meta, metra) perpendicular da Terra ao Sol (Aton)”, pelo que é o intermediário entre o próprio Eterno e a Humanidade mortal. Este facto regista-se em alguns pormenores da estátua alada do Ser sobrenatural: a sua espada erguida em perpendicular ao corpo; a ponta bainha da arma tocando a cauda do dragão, designando a função intermediária ou psicopompa; finalmente a rodela céltica apontando para baixo, simbólica do Sol que alumia a Terra, justificação reforçada pela cor dourada ou solar do conjunto com o Arcanjo dardejando raios de luz de sua cabeça, auréola esta decerto inspirada na primitiva iconografia mitraica, a do deus solar Mitra que o igualmente solar Cristo substituiu pela adopção católica dos primitivos símbolos daquele.

Se Mikael ou Miguel é quem liga a Terra ao Céu, essa assinala-se neste lugar na cripta românica de Nossa Senhora Subterrânea, ligada aos primitivos cultos ctónicos dos celtas e primeiros cristãos eremitas daqui, a qual é consignada na Cabala judaica Shekinah, a “Presença Real de Deus” na Terra, tradicionalmente assumida como aspecto feminino da Divindade, e é assim que se liga às águas, à mulher, à Mãe Divina associada ao próprio Espírito Santo. Já Miguel representa o aspecto masculino da Divindade, a terra, o homem, o Pai Eterno. Terra e água são, com efeito, os elementos predominantes que dão o dom de “Maravilha” a este Mons Saint-Michaeli.

Vários indícios apontam este mosteiro beneditino como importante centro espiritual, talvez o mais importante de toda a França medieval dos primeiros tempos do cristianismo europeu. É aqui que entra a doutrina oculta da Shekinah para os hebreus, ou Sakinah para os árabes, tendo o seu principal ponto de referência no Antigo Testamento, nas passagens onde se trata da instituição de um centro religioso e espiritual: a construção do Tabernáculo, a edificação dos Templos de Salomão e de Zorobabel. Tal centro, constituído em condições regularmente definidas, devia ser efectivamente o lugar da Manifestação Divina, da “Presença Real de Deus”, Shekinah, sempre representada como “Luz” tornando o lugar da sua implementação verdadeiro Centro Cósmico na Terra, “cabeça” original da Fé que vai expandir-se a outras partes. Foi precisamente isso que aconteceu aqui no Monte Saint-Michel, em cuja Shekinah está a causa da Influência Espiritual presidindo a todas as modalidades de Iniciação e Iluminação. Ainda que a Igreja Cristã lhe chame Bênção, o sentido exacto é Influência Espiritual, como se traduz no termo hebraico original, berakoth, e no árabe barakah.

 Tão importante era este centro religioso e espiritual que ficaram célebres as peregrinationes michaelis para ele durante a Idade Média: os peregrinos proviam-se de um bordão de madeira com um nó no centro e um cajado curvo no extremo, carregavam um alforge de couro, vestiam uma capa vermelha chamada pelerina, e por alguma das cinco rotas principais chegavam ao Monte. Seguiam pelos montais ou “caminhos do Paraíso”. Chegado à meta, diante de São Miguel no altar-mor da igreja, quase sempre o peregrino fazia-lhe uma oferta: uma concha de molusco ou uma insígnia de peregrinação; estes objectos de pano ou estanho coziam-se na roupa e representavam o Arcanjo.

 

Saint Melaine e o Rei sagrado (Saint-Pierre de Rennes)

 

No frontão da igreja de Saint-Pierre de Rennes, capital da Bretanha, está um grupo escultórico cujo simbolismo e significado liga-se inteiramente à saga mítica de Saint Melaine e à própria fundação da monarquia cristã pelo rei merovíngio Clóvis (cerca de 466 – 27.11.511), neste território cedo alastrando a todo o espaço da actual França.

Saint Melaine, considerado o Padroeiro da Bretanha, nasceu em data incerta em Plaz no Cérebro, perto de Redon, e morreu em data igualmente incerta, talvez 6 de Novembro de 535, ou 572 ou mais provavelmente 530, sendo enterrado sobre a colina do Campo de Repouso onde foi construída a pró-catedral de Notre-Dame em Saint Melaine de Rennes.

No frontão em causa tem-se ao centro um globo com três flores-de-lis encimado por uma coroa real suportada por dois anjos laterais apontando abaixo a Cruz com a Pomba do Espírito Santo. Expressivo das Armas da Monarquia francesa inaugurada pelo rei Clóvis que teve por conselheiro Melaine, diz-se que a mesma foi fundada por obra e graça do Espírito Santo, acontecimento centralizado na pessoa do santo padroeiro da Bretanha encabeçando um tipo peculiar de iniciação senhorial ou mariana. O seu próprio nome Melaine, em latim Melanius ou Mellanus, é o derivado do antigo bretão Mael, que quer dizer “príncipe” e vem a revelar a sua origem nobre galo-romana, cuja casa familiar ainda jovem transformou num mosteiro, ou seja, da sua descendência consanguínea sairia a ascendência espiritual dum colégio mestral, sob a sua chefia humana e o Orago sobre-humano de Santa Maria e o Espírito Santo, por certo destinado à constituição de uma realeza bretã independente do jugo político do império romano, o que só conseguiria pela conversão ao Cristianismo da soberania gallo-romana vigente.

Sucedendo a Saint Amand como bispo de Rennes no século VI, Melaine privou com o soberano Clóvis, e como seu conselheiro secular decerto influenciou a este e a sua mulher Clotilde que no ano 496 viu aparecer-lhe um Anjo que lhe ofereceu um lírio, reprodução hagiográfica do episódio primaz ocorrido com a Virgem Maria quando lhe apareceu Gabriel, o Anjo da Natividade trazendo o lírio e assinalando-a como portadora da semente que frutificaria como Realeza Divina. Com efeito, aqui será Clotilde a primeira a converte-se ao Cristianismo pela possível afiliação ao colégio de Melaine, e depois o marido, de quem se diz que foi ungido rei cristão com o santo óleo trazido do Céu no bico de uma Pomba que era o próprio Espírito Santo, facto que neste frontão se assinala na Pomba no centro da Cruz de Malta ou dos Hospitalários, também conhecida por Cruz de São João, o mesmo que baptizou Cristo e lhe reconheceu a legitimidade Divina, facto que transposto para este quadro bretão significa o reconhecimento cristão de Clóvis, cujo reinado colocou sob o padroado do Espírito Santo assinalado nas três flores-de-lis em triângulo invertido, simbólico da vulva feminina dando à luz um novo estado psicossocial, aqui a monarquia cristã cuja fundação se atribuiu à própria Santa Maria incarnação do Espírito Santo, desta maneira cabeça da Santíssima Trindade, regime esse que viria a submeter a população galo-romana da Bretanha.

A unção divina como rito de passagem confirmando que além de rei temporal se é também rei espiritual ou ungido, a ministração dos óleos poderá ser feita por um pontífice homem, mas para todos os efeitos quem os traz é a mulher, neste caso de Clóvis, o Espírito Santo.

Os galo-romanos bretãos daqui eram os Redones (donde Rennes herda o seu nome, a latina Civitas Redonum na Gália romana, mas que antes chamava-se Condat em celta), nome da tribo gaulesa que povoou esta parte da Armórica no século II a. C., dizendo-se que esta igreja de Saint-Pierre está construída sobre um antigo santuário do povo Redone, raiz do termo celta red, “ir a cavalo” ou “ir em carro”, possível alusão às primitivas peregrinações que sairiam daqui rumo ao Monte de Saint-Michel, cujo símbolo do Arcanjo lanceando o dragão também está aqui assinalado num medalhão, entre o globo real e a Cruz de Malta, esta que parece conter um enigma relacionado com esse facto.

A Cruz mostra-se cortada muito propositadamente por duas linhas cruzadas e segundo vários autores parece tratar-se de uma cabala gemátrica ou jogo criptado de letras, onde aparecem o E e o S que se cruzam para formar as palavras Esse e Sees de dois lugares muito conhecidos: Esse, perto de Rennes, para o célebre dólmen da Rocha das Fadas (Roche aux Fées), e Sees, na Normandia, para a roda medieval da sua catedral gótica. O conjunto codifica as latitude e longitude dum lugar celebérrimo: o Monte Saint-Michel! O “rei Sol”, Luís XIV, foi Grão-Mestre da Ordem de Saint-Michel, fundada por Luís XI. E neste frontão aparece, também muito significativamente, a divisa do “rei Sol”: Nec pluribus impar, “a nenhum outro comparável”, encimada pela cabeça humana que representa o Astro-Rei.

A vida de Saint Melaine está recheada de factos extraordinários que atestam a sua envergadura de personagem civilizador e político. Contudo a sua popularidade deve-se sobretudo aos milagres que se produziram após a sua morte, enquanto o seu corpo era transportado de barca sobre a Vilaine até Rennes. O mais espectacular deles é bastante espantoso: ele libertou vários prisioneiros doentes encerrados numa torre, na qual se abriu uma brecha à passagem da barca enquanto os prisioneiros viam as suas cadeias cair. O sentido desta lenda é claramente político: refere-se à libertação do povo galo-romano do jugo do império latino.

A viagem marítima, neste caso fluvial, depois de morto, ainda assim fazendo milagres e conduzindo sobrenaturalmente a nau ou barca, converte o santo em nauta, ou seja, em hábil nas artes sagradas do mar que se confunde com o Além, o Mundo dos Imortais, o que significa na linguagem esotérica que em vida alcançou o grau elevado do Mestrado transcendente. Dirigir a barca e operar milagres sobre as águas, equivale a ter alcançado o domínio absoluto das forças desconhecidas da Natureza, que só pode ser alcançado por aquele que, mediante o processo iniciático, se identifique com ela.

Em Rennes actualmente Saint Melaine tem três dias de festa em sua memória: 6 de Novembro (morte), 6 de Janeiro (enterro) e 11 de Outubro (transladação).

 

Saint-Thélo e o cervo de Daoulas (Finistére)

 

Num recanto da igreja da abadia de Santa Maria de Daoulas, em Finistére, vê-se uma curiosa imagem dum bispo com báculo e mitra montando um veado, tudo em madeira policromada do século XIII, o que tem suscitado as mais variadas interrogações sobre quem seja e o que significa.

Trata-se de Saint-Thélo, um dos santos bretões mais ou menos míticos cuja santidade não é reconhecida oficialmente pela Igreja Católica. Thélo ou Théliau foi bispo de Landaff, no País de Gales, sendo filho de Ensic e de sua mulher, Guenhaff. Nasceu perto do ano 485 na parte meridional de Inglaterra, perto da cidade de Monmouth, e acostou a Dol (Ille-et-Vilaine), na Bretanha, onde foi acolhido cerca de 549 pelo bispo Samson. A sua morte é comummente fixada nos anos 560 ou 565. De notar ainda que fora sagrado bispo de Landaff para substituir o seu mestre entretanto falecido, Saint Dubrice, no ano 520, e depois quando se retirou substituiu-o o seu sobrinho, Saint Oudocée.

O nome deste santo anda associado ao sentido da cidade de Saint-Thélo, comuna francesa da região administrativa da Bretanha Norte, no departamento Côtes-d´Armor, nascida do desmembramento da paróquia primitiva de Cadelac, por causa da redução ou detrimento da floresta de Loudéac, onde os celtas tinham importante santuário dedicado ao deus Cernunnos, representado com cabeça de veado.

É por essa razão que alguns vêem em Saint-Thélo, como em Saint Edern, o deus celta Cernunnos cristianizado. Com isso, deu-se o mais elevado significado ao próprio cervo, animal associado a Thélo que vem a ser um derivado hipocorístico de Eliud (to-eliud) significando “Ungido de Deus”, ou seja, o próprio Cristo. É assim que o cervo ou veado aparece na iconografia medieval relacionada ao tema dos “santos caçadores”, por norma reis, com uma cruz brilhante entre as suas hastes, indicativo de animal sagrado perseguido em montarias reais que depois se deixa imolar e após ressuscita, tal qual a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.

Portador do Lenho Sagrado na sua cornadura, o cervo é assim sinal de renovação cíclica e, precisamente por isso, intermediário entre o Homem e a sua Transcendência (tal qual o Cristo é intermédio entre Deus Pai e a Humanidade); conhecedor das plantas, tanto medicinais como místicas, e divindade em si mesma entre os celtas, que o representavam em Cernunnos e o dignificavam como portador de abundâncias e de agilidade, tanto física como espiritual.

O facto de Thélo montar (donde “montaria”, que é uma modalidade da Iniciação obtida após demanda ou peregrinação, portanto, Iniciação activa ou “guerreira” (kshatriya, em sânscrito) própria para reis e cavaleiros, donde as artes venatórias da falcoaria e montaria serem exclusivas da nobreza e por isso chamadas iniciação real, igualmente iniciação senhorial ou mariana, por ser Santa Maria quem assiste ao cavaleiro de demanda cuja profissão de armas dá-lhe como vizinha constante a morte, donde ele evocar constantemente: “Ave Maria, orai por nós na hora da nossa morte”…) o cervo, tem o duplo significado dele ter-se unido com Cristo, passando também a ser “Ungido de Deus”, um Ser Crístico, e igualmente a passagem cíclica da religião celta à cristã, o que se representa nesse santo bretão sobre o animal.

Sendo o cervo animal de abundância e agilidade para os celtas, sinal de exteriorização das próprias e divinizadas forças telúricas animando a Terra, só as poderia “montar” um Hommo-Teluricus, isto é, o próprio Thélo ou Thelos, nova versão cristianizada do primitivo deus da abundância Cernunnos, agora celebrado anualmente a 9 de Fevereiro, disposto assim no calendário litúrgico muito apropriadamente para não se confundir com o Imbolc ou Oilmec, que a cultura celta celebrava a 2 de Fevereiro como uma das suas principais festividades agrárias, celebrando a recuperação da terra do Inverno e o Sol fortalecendo-se para a Primavera. Era a época de início do processo de aragem da terra e do plantio, processo cujo êxito punham sob a protecção da deusa Brígida (Brigith ou Briga), que era quem abençoava as semeaduras para que frutificassem e dessem boas colheitas.

Igualmente não deixa de ser significativo o facto dos antigos cavaleiros da Ordem do Templo terem uma especial veneração por Saint-Thélo, inclusive aparecendo o nome deste (Saint Theliaut) numa acta de 1182 enumerando os bens dos Templários na Bretanha, particularmente em Saint-Thélo cujo primitivo mosteiro de Daoulas, fundado no século VI, foi substituída pela abadia de Santa Maria cerca de 1167-1173, dos cónegos regulares de Santo Agostinho. Esta casa religiosa esteve sob a protecção directa do Templo, podendo até aventar-se a hipótese da imagem de Saint-Thélo e o Cervo serem produção templária.

Assim como Saint-Thélo aparece iconografado junto ao cervo divino, igualmente aparecem outros santos, como São Conrado, São Eustáquio, Santa Genoveva, São Frutuoso de Braga, São Mamede e Santo Huberto, este o mais famoso dos santos “reis caçadores”, mas que também em Portugal se retrata na lenda templária do sítio da Nazaré, onde o almirante-mor da frota templária, D. Fuas Roupinho, ao perseguir um cervo, foi salvo de cair num precipício pela própria Virgem Maria que lhe apareceu fazendo o cavalo estacar.

 

A milagrosa Virgem Negra de Folgoet

 

A devoção à milagrosa Virgem Negra de Folgoet datará do século XIV, época da cristianização desta Deusa Mãe por via da propaganda milagrosa de uma estranha lenda relacionada com Ela e um tal de Salaün que na floresta próxima descobrira a sua imagem enegrecida pela terra onde estivera enterrada durante séculos.

Conta a lenda que um eremita chamado Salaün, a quem o povo alcunhava de “For ar Coat” (Louco do Bosque), vivia junto de uma fonte encantada na floresta próxima de Lesneven (consumida por um incêndio em 1427). Este Salaün era devotadíssimo da Virgem Maria e tinha uma imagem da mesma, que dizia ter descoberto enterrada junto a essa fonte. Pouco depois da sua morte em 1358, com a idade de 48 anos, descobriu-se que uma flor-de-lis tinha criado raízes na sua boca e que sobre a mesma escrava escrito em letras de ouro: Ave-Maria. A devoção ao santo eremita e à santa imagem milagrosa cresceu rapidamente e em breve trecho deu-se início à construção da basílica de Folgoet.

Salaün será sobretudo a conversão em eremita cristão do “espírito da floresta” para os antigos celtas, o deus Cernenus, que os latinos chamaram Silvano (do latim silva, “floresta”) e era a divindade dos povos pastoris. A floresta ou bosque é a forma adoptada para exprimir a própria Natureza Mãe origem da vida e dos seres, inclusive dos deuses menores do gallo-romano, e que veio a tomar a cor negra por sua condição de Divindade Primordial. O próprio topónimo Folgoet reforça esse sentido mágico-florestal, pois provém do latim folum, “folhagem”, e do bretão coat, “árvore”.

A flor-de-lis que saía da boca de Salaün, Silvano ou Cernenus como estilização da flor do lírio, assinalava a passagem definitiva do culto ancestral ao cristão por via da devoção mariana que constituía uma espécie de nascimento religioso pré-anunciado pela aparição milagrosa da imagem da Virgem, sendo que tradicionalmente o lírio é a flor da anunciação.

Mesmo anunciando a nova forma cultual da Mãe Divina, esta mantém a sua cor negra original de Deusa Mãe Primordial, herança iconográfica dos cultos ancestrais dos celtas relacionados com a Mãe Terra, o Útero Gerador, a Deusa da Fertilidade e Fecundidade. Quando é fértil está manifestada, tem a cor branca. Quando é fecunda encerra a semente ocultada, tem a cor negra. Portanto o atributo de fecundidade está primeiro que o de fertilidade, pois nada é fértil sem ser primeiro fecundado.

Com esse atributo de fecundidade vem a ser a Matéria-Prima, a Primordial Negra ou ante-Manifestação dos alquimistas, em conformidade à prerrogativa bíblica de que “antes da Luz (branca, dia) havia a Treva (negra, noite)”. Isto mesmo é corroborado pelo enigmático Jean-Julien Champagne (1839 – 1953) que usou o pseudónimo Fulcanelli, alquimista francês contemporâneo autor de duas magníficas obras de Alquimia: O Mistério das Catedrais (1926) e As Mansões Filosofais (1930).

Famosa pelo seu grande poder de realizar milagres sempre a ver com a vida e a morte e tornando os lugares da sua aparição pólos de peregrinação intensa e de grande poder, no contexto da sociedade rural medieval a Virgem Negra era sobretudo uma deusa agrícola por cuja imagem se manifestavam os atributos benéficos da Grande Deus Mãe Primordial, cujo culto original tinha honras maiores que ao Deus Filho, por ser Ela a origem da Fé, e assim mesmo da Natureza fecunda de que dependiam os povos. Dizer-se que esteve muito tempo escondida na terra, é o mesmo que a consignar Deusa Oculta, Negra, o que se assinala na Lua expressiva do Útero, da Matriz da Criação cujas fases regulam os períodos agrários de semeadura e colheita, e também o da gestação dos seres.

Por isso a cor negra da Virgem é a mesma primordial apontando o Grande Útero da Vida gerada nele e a ele, no final da existência, a mesma Vida se recolhe. Com isso, a Grande Mãe, com o seu potencial de gestação e geração, possibilita todas as manifestações, transformações e evoluções da Vida, a qual recolhe a si no final de cada manifestação, seja ela a de um homem ou a de um mundo. Razão porque personifica a Magna Dea, a Grande Deusa, Maha-Shakti para o Oriente, a Força Vital que gera, mantém, anima e unifica, que sendo Ela o Oceano da Vida conduz aos seres imersos nas suas correntes através dos movimentos das suas Águas da Vida, donde ser apelidada da Conceição ou Concepção, sobreposta à Lua crescente que, como astro da noite ou do negro, representativo do Caos ou Noite Cósmica, o mesmo Pralaya do Oriente, assiste aos ciclos de vida e morte de todos os seres. O período de existência destes vem a ser o Cosmos ou Dia Cósmico, Manvantara para os orientais, marcado pela cor branca e a Lua Cheia, para todos os efeitos, antecedido pelo negro primordial.

Por essa razão a Virgem Negra simboliza a Terra Virgem, ainda não fecundada ou povoada, pelo que vem a valorizar o elemento passivo do estado virginal. O escurecimento das imagens das Virgens, enaltecido na Europa ocidental no final da Idade Média, também se deveu à cor sombria dos ícones orientais da religião bizantina, nessa época exercendo grande influência na arte religiosa latina.

Por outro lado, no período medieval coincidente com a aparição de qualquer Virgem Negra, houve sempre uma reactivação social, artística e cultural no seio da sociedade pela aproximação do Ocidente ao Oriente, e assim mesmo uma irrupção do elemento feminino, não só com o culto mariano mas também de forma idealizada no amor cortês, apesar das grandes discussões dos teóricos escolásticos sobre a Natureza, a carne e o pecado, a alma e a virtude, semeando uma improdutiva disfunção entre o Espírito e a Matéria que chegou aos nossos dias.

Finalmente, para o Islão a virgindade de Deus como Mulher é a Luz inviolada que ilumina os Eleitos; a esse título, é chamada de Virgem-Mãe a hora da vida que é a primeira. Mas é também a última. É Ela que abre o caminho da Iluminação e leva a termo o místico caminhar. A Virgem de Luz revela ao Eleito a forma espiritual que nele é o Novo Homem, tornando-se seu Guia e conduzindo-o em direcção às Alturas da Cidade Celeste que aqui, no Folgoet, estaria representada na floresta encantada onde morou Salaün e morreu com a Ave- Maria na boca.

 

O Graal de Saint-Michel-en-Grève

 

Saint-Michel-en-Grève é lugar bretão testemunho flagrante da substituição quase abrupta do culto primitivo às divindades ancestrais por outras novas cristianizadas possuídas de atributos idênticos aos daquelas. É assim que aparece aqui São Miguel ocupando o lugar original do deus celta Lug herdeiro da tradição de Dagda ou Daga Devos, o “deus bom”, dos Tutha-de-Danand.

Na igreja de Saint-Michel-en-Grève suspeita-se que o beatíssimo São Miguel vencendo aos pés o Demónio emblemático da heresia e das crenças heréticas, como se vê no seu altar, poderá muito bem ser a imagem substituta do primitivo deus Lug, e que o Demónio vencido possa ser a figuração diabolizada pelas forças dominantes do império latino da primitiva religião celta.

Essa transformação cultual de Lug em Miguel representa-se na águia esculpida no altar a qual significativamente foi um dos símbolos desse deus da primitiva religião solar celta, sendo ela mesma símbolo eminentemente solar, emula da ave Fénix que ressuscita das suas próprias cinzas ao calor do Sol. Sendo subsidiariamente símbolo imperial, e nos santos sinal de adscrição a uma concreta mística activa capaz de superar todos os embaraços que possa antepor-lhe o mundo profano. O seu domínio é o do ar, ou seja, o dos céus que conquista nos quais carece de rivais. A águia é a excelsa mensageira de Deus, e considera-se mensageiro de Deus quem a tem como atributo ou sinal, como Mikael ou Lug.

Na base da arcada dentro da igreja de Saint-Michel-en-Gréve, aparece o relevo do Cálice Eucarístico, de forma súbita um tanto inusitada. Objecto litúrgico cristão expressa aqui a memória dum outro similar ancestral: o caldeirão de Dagda. Tal caldeirão tinha propriedades “mágicas”, isto é, terapêuticas e espirituais. Terapêuticas por os Tuatha-de-Danand possivelmente servirem-se dele para fabricar medicamentos herbários; e espirituais pelo significado transcendente do objecto pomo central da função sacerdotal assegurada pelo deus Dagda, justamente até aparecer na forma de Lug entre os celtas bretãos. O “caldeirão mágico” de Dagda é reproduzido fielmente no mito do Saint Vaisel, o “Santo Vaso” que os Cavaleiros da Távola Redonda demandaram incansavelmente nas florestas encantadas da Bretanha, chamando-lhe Santo Graal.

É aí que o Graal assume duplo sentido interligado: como Graal-Consciência ou estado de consciência espiritual, e como Graal-Objecto, representativo dessa mesma condição consciencial demandada cuja revelação ou meta final corresponde sempre à aparição da Virgem Maria ou até mesmo a do Espírito Santo, quando não pelo próprio São Miguel.

Graal tem afinidade filológica com o grego Krater, literalmente, “copo, vaso ou vasilha grande”, onde se misturava o vinho com a água e depois era despejado nos copos dos comensais, pelo que também tem a vez com a raiz Kera, “misturar”. Mas esta mistura também tem um sentido alquímico que a liturgia lhe impôs: o vinho dionisíaco ou crístico junto à água mercurial opera a transformação corporal do Homem, ou seja da Matéria, o que é representado pela Virgem revelada. É assim que Graal, Krater e Kera originam as expressões provençais Graalz e Grazale, “prato”, que pela afinidade com o latino Gradalis deu “gradual”, isto é, gradualmente servido ou transmitido, sobretudo na sua função iniciática. Por transformação e adaptação filológica em conformidade a conter algum líquido ou seiva vital que com o Cristianismo se identificou como o Sangue de Cristo, em breve o Saint Vaisel é chamado de Sang Real ou San Greal (Saint Graal), para todos os efeitos significando “vaso”, como o caldeirão de Dagda, o vaso alquímico e até mesmo o útero iniciático da Mulher, microcosmo do maior da Mãe-Terra.

Alguns trovadores medievais (Robert de Boron, Chrétien de Troyes e Wolfram d´Eschenbach) também interpretaram o Graal como uma pedra, chamando-lhe Garal, literalmente, “Pedra de Deus”, assim dando igualmente sentido graálico ao altar da liturgia, como “pedra ou mesa do sacrifício divino”. Vai neste sentido a versão mais esotérica de tendência cristã relativa aos elementos célticos da narrativa do Santo Graal onde se mostra o sentido baptismal, eucarístico e pentecostal da água hermética ou mercurial transformada em vinho da Salvação, símbolo gnóstico da própria Sabedoria Divina que, desfeche a mesma tradição, é quem revela o Graal em Glória junto a Galaaz, epíteto arturiano do próprio Cristo.

A pedra santa é aqui, nesta paróquia de Saint-Michel-en-Grève, igualmente alusiva ao culto primitivo às pedras, algumas talhadas em forma antropomórfica, pela população celta da Bretanha, o que foi severamente condenado, com posterior perseguição feroz mas pouco eficaz, nos concílios toledanos dos anos 681 e 682, e no concílio de Rouen em 698, tornando proscritos os veneratores lapidum, “adoradores das pedras”, através do anatema sit veneratoribus lapidum, “anátema aos veneradores das pedras”.

As primitivas lendas cristãs da Bretanha dão José de Arimateia como o portador do “Evangelho do Graal” aí, ou seja, da sua Tradição que disseminou em pouco por toda esta região mágica cedo alastrando à Europa inteira e até chegando ao Novo Mundo, a América, seguindo um itinerário secreto por sete catedrais cristãs desde cedo ligadas ao mesmo Saint Vaisel, como sejam: 1.ª) Abadia de Westminster, Londres, Inglaterra; 2.ª) Santa Maria Maggiore, Roma, Itália; 3.ª) Catedral do Precioso Sangue, Bruges, Bélgica; 4.ª) Catedral de Santa Maria Maior (Sé Patriarcal), Lisboa, Portugal; 5.ª) Catedral de S. Pedro e S. Paulo, Washington, E.U.A.; 6.ª) Catedral da Cidade do México, México; 7.ª) Basílica do Salvador, S. Salvador da Bahia, Brasil.

A paróquia de Saint-Michel-en-Grève era a Locmikel en Haye, possuindo a raiz loc o significado comum de “lugar”, mas com a especificidade religiosa de “lugar consagrado”, assim se identificando ao temo hindustânico loka, que significa o mesmo. Loc como “lugar” associa-se a Lug-ara, “altar de Lug” ou “lugar do deus Lug”, como o seria aqui. A verdade é que o culto a Saint-Michel propaga-se na Bretanha entre o final do século X e a primeira metade do século XII, destinado a suceder às antigas divindades pagãs ou campesinas às quais os altares druidas estavam consagrados, sobretudo a Lug, o supremo deus “Luminoso” do panteão gallo-celta. É exactamente a partir dessa época que em torno do “lugar consagrado” (Locmikel) fixou-se população fundando paróquia. É também na mesma época que os nomes em loc foram estabelecidos na Bretanha.

 

A Capela do Graal em Tréhorenteuc

 

A Lenda Áurea de Jacobo Voragine e os chamados Evangelhos Apócrifos, particularmente os Evangelhos de Filipe, Maria Madalena e José de Arimateia os quais a Igreja não reconhece no seu dogma oficial, falam unanimemente que após a Paixão do Senhor diversos Apóstolos vieram para a Europa, dentre eles Maria Madalena e José de Arimateia, uma trazendo o Vaso do Bálsamo com que ungiu o divino Mestre e que desembarcou no Sul de França, e o outro carregando o Cálice Sagrado que recolheu o Sangue do Salvador e que desembarcou no Norte de França, na Bretanha. Daqui incansável peregrinou até ao Sul do País pregando a Palavra e fundando igrejas. Depois desapareceu, dizem uns que voltou ao Norte e daí passou para a Grã-Bretanha, e outros afirmam que está sepultado na catedral de Nicósia, em Chipre, onde é venerado como São Trófimo.

O facto é que a lenda da Linhagem Sagrada dos Apóstolos tem por finalidade retratar a primitiva diáspora apostólica ao Ocidente europeu para nele implantar e expandir o Cristianismo, facto que aqui na Bretanha se revestiu de mitos maravilhados por sua união à religião original dos celtas. Foi assim que o Caldeirão de Dagda dos sábios druidas se transformou no Santo Graal dos bardos cristãos, cuja prova mais flagrante tem-se nesta igreja de Sainte Onenne de Tréhorenteuc, mais conhecida por Capela do Graal.

A decoração e imobiliário da mesma transmite a mensagem da passagem do celticismo ao cristianismo através do mito do rei Artur e do mago Merlim, este representando o sacerdócio druida e aquele a cavalaria cristã, assegurada por paladinos em número igual aos 12 Apóstolos de Cristo, tendo fundado a Ordem da Távola Redonda em cujo centro se colocava a Taça do Graal, símbolo da sua demanda mística cujo fim era o seu encontro com Deus Espírito Santo representado no mesmo Saint Vaisel, o qual lhes concederia a luz da imortalidade espiritual a quem chamavam “Santo Amor” ou “Suma Caridade”. Interessante que Tréhorenteuc significa em bretão “País da Caridade”, e está próximo da floresta mágica de Brocéliand palco da demanda do Santo Graal pelos druidas e cavaleiros deste mais célebre e misterioso de todos os mitos medievais.

Nesta igreja de Sainte Onenne, os seus símbolos celtas estão convertidos em iconologia cristã, mas sem lhes retirar o halo mágico que envolve todo o espaço sagrado, cuja riqueza encontra-se nas diferentes ilustrações evocando as lendas arturianas confundidas com as celtas através dos seus vitrais e pinturas, onde num quadro vê-se a aparição do Santo Graal aos cavaleiros da Távola Redonda que, dizem alguns, era feita de carvalho e de freixo. Ora este último nome, freixo ou onn, em celta, veio a dar One, Onnen e Onenne, afinal o nome da santa eremita do lugar.

Num mosaico, vê-se o cerf volant aureolado com o colar crucífero no pescoço, tendo em sua volta quatro leões aureolados. Representam Cristo e os quatro Evangelistas, ou seja, é alegoria da cristianização do povo da floresta de Brocéliand vista atrás do cervo, o qual seguia os seus druidas cujo maior de todos, Merlim, dizem estar aí sepultado e cuja pedra de sepultura aparece entre os leões da pintura.

Numa pintura em vitral, os Anjos seguram o Santo Graal para onde Jesus Cristo verte o Seu Sangue, alanceado no peito pela lança do centurião romano Longino, lança essa identificada aqui à outra lança mágica de Lug, deus supremo do panteão celta. Toda essa cena paira sobre o rei Artur e seus pares que à mesa ou távola comungam da ceia de pão e vinho, prerrogativa celta da Eucaristia cristã.

Num outro quadro, apresenta-se uma cena de amor cortês: num banquete com o rei Artur à cabeça de uma mesa repleta de iguarias, vêem-se donzelas e trovadores tendo à frente de todos Sainte Onenne segurando o bastão de freixo com uma mão e com a outra abraçando um bouquet de rosas, flores do Amor cuja filosofia os trovadores, como fiéis do mesmo, divulgaram por toda a Europa junto das cortes e do povo.

Há ainda a pintura alegórica do lugar próximo do Vale sem Retorno, lugar das últimas predições de Merlim quanto ao desaparecimento da religião celta até então a única que havia, e também o lugar onde a fada Morgana aprisionou os seus amantes infiéis dentro de uma muralha de fogo guardada por um gigante barbudo armado de uma maça, fogo esse saído de dois dragões que vomitam chamas um ao outro: o dragão branco do Bem, e o dragão vermelho do Mal. Por fim, aparece na cena Lancelot du Lac, o “melhor cavaleiro do mundo”, que vence as provas colocadas sobre o seu caminho e liberta os prisioneiros.

Esta igreja única no seu género, não deixando adivinhar exteriormente a sua riqueza interior, emana uma permanente mensagem de tolerância aos seus visitantes. Foi para esta pequena comuna que em 1942 veio desterrado o abade Gillard, porque contrariava o clero com as suas ideias heterodoxas que raiavam a «heresia» do mundo esotérico ou iniciático, muito particularmente quanto à Linhagem Sagrada dos Apóstolos em que acreditava. Ele decidiu reconstruir esta igreja românica, e o primeiro vitral chamado da “Távola Redonda” foi realizado e posto em 1943 por um pintor de Nantes, Henri Uzureau. A partir de 1945, o abade foi ajudado por dois prisioneiros de guerra alemães, o ebanista Peter Wissdorf, que fabricou os bancos e a abóbada de madeira, e o artista pintor Karl Rezabeck, que realizou quatro quadros representando o mundo celta, a lenda arturiana e o cristianismo. Os vitrais, os quadros e o mosaico do “Cervo branco com colar de ouro” criado por um artista contemporâneo, Jean Delpech, representam os vários elementos desses três mundos, unificados harmoniosamente pelo abade. Para isso, ele encontrou um elo comum entre eles: o Santo Graal. Este é frequentemente representado, e por isso esta igreja também tem o nome de capela do Graal. Actualmente, o abade falecido está sepultado sob a igreja.

 

“Deploração do Cristo” em Chapelle-de-Brain

 

Na igreja paroquial de Chapelle-de-Brain consagrada a Saint Melaine, está um grupo escultórico de cerâmica policromada retratando a “Deploração do Cristo”. Retrata a passagem sacrificial em que após retirado da Cruz o corpo inerte de Jesus jaz no regaço de sua Mãe dolorosa amparada por Maria Madalena ajoelhada a seus pés, e por João Evangelista atrás dela confortando-a. Ladeando a cena trágica, está à direita Nicodemus portando a caixa dos bálsamos destinados a perfumar o corpo de Cristo, e à esquerda José de Arimateia apresentando o sudário com que se envolveria o mesmo corpo inerte.

Esta cena clássica do Cristianismo parecendo nada ter de heterodoxa e estar dentro dos cânones ortodoxos da doutrina católica, contudo oculta uma mensagem que é das mais importantes apesar de todas as controvérsias à sua volta: a da “linhagem sagrada” pressupostamente iniciada por Jesus Cristo e Maria Madalena.

Escusando penetrar o terreno movediço das efabulações fantasistas e cingindo à linguagem viva dos símbolos tradicionais, antes de tudo o mais impõe-se indicar que o episódio da Mater Dolorosa foi propagado a partir do século XIII pelos Franciscanos, interpretando-o como o “sacrifício do inocente Cordeiro de Deus”, mensagem de entrega incondicional desses Espirituais às dores do mundo e que veio a ser concretizada como Misericórdias ou casas religiosas de socorro social, e sobretudo como promessa de Ressurreição, base da Fé cristã e justificativa do Segundo Advento do Senhor.

José de Arimateia (celebrado a 17 de Março) é uma das primeiras figuras da lenda e tradição do Santo Graal, pois terá sido ele quem recolheu o Sangue de Cristo no Cálice da Última Ceia, após a morte do Mestre no Calvário, e depois o terá trazido para o Ocidente. Envolver o corpo santo no sudário e depois depô-lo na cripta fúnebre, é sinal de sabedoria secreta entretanto cessada de revelar-se directamente por o corpo do seu emissor, Jesus, estar desfalecido. Recolhendo-se o Sangue Real ou Sang Greal no Cálice Sagrado, como a mais pura essência vital que o Homem tem, significa a manutenção da tradição secreta ou esotérica do Cristo, já não como Revelação directa pelo Próprio mas como Culto permanente da celebração de promessa de Ressurreição e Advento ou Parúsia Universal, realização a consumar-se quando um dia Homem e Deus serão um só: Humanidade divinizada. Esta é a mensagem carregada pela figura de José de Arimateia com o sudário, tendo encabeçado a diáspora dos Apóstolos ao Ocidente europeu como “linhagem sagrada”, segundo a lenda áurea, e tendo na cabeça o barrete frígio ou “livre” o mesmo aponta-o simbolicamente como Adepto Perfeito ou Iniciado na Tradição Secreta revelada por Jesus Cristo, a mesma de que falam por metáforas os quatro evangelhos canónicos e abertamente o número vultuoso dos ditos evangelhos apócrifos, termo grego que quer dizer “secreto”, não reconhecidos oficialmente mas que eram estudados no movimento dos gnósticos ou “filhos da Sabedoria” (teósofos) dos primeiros tempos do Cristianismo.

Nicodemus (celebrado a 3 de Agosto) segundo o relato no Evangelho de João fazia parte do sinédrio judaico e opôs-se à condenação de Cristo, de quem era considerado o Seu “discípulo secreto”. Iconograficamente figura nos Descimentos da Cruz e nos Enterros de Cristo, junto aos pés de Jesus. Lavar e perfumar com bálsamos o corpo inerte, tem o sentido simbólico de reconhecer Cristo como Santo verdadeiro em vida e assim reconhecendo a santidade do cadáver, prestando veneração a esse que, por algum motivo transcendente, mantém os valores espirituais muito além da sua própria putrefacção. Com a unção fúnebre, Nicodemus reconhece no corpo desfalecido que fora animado efectivamente pelo Ungido de Deus, o Cristo. Essa extrema-unção perpetua-se até hoje como derradeiro sacramento da Igreja Católica.

A presença de João Evangelista na “Deploração de Cristo” e por se lhe atribuir o livro do Apocalipse que refere o Advento de Cristo e da Jerusalém Celeste sobre a Terra, representa o “discípulo amado” ou o conservador da doutrina do Amor, sentido dada à mesma Gnose como conhecimento da natureza de Deus e crença de salvação pela sabedoria espiritual. Esta salvação pressupõe a ressurreição corporal. Ciente disso, conforta a Mater Dolorosa, expressiva da própria Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria por momentos separada do seu Princípio Espiritual assinalado no Cristo imolado, e por isso chora e geme sendo confortada também por Maria Madalena, esta e João espiritualmente “Filhos de Viúva”. Maria Madalena é quem encerra a promessa de ressurreição e eternidade do Cristo, e por isso ao terceiro dia da Morte do Salvador é ela a primeira a vê-lo ressuscitado.

Não é importante que acaso Maria Madalena e Jesus de Nazaré tenham casado e dado geração. Se aconteceu, é muito natural que assim fosse porque era de lei judaica que os rabinos, e Jesus era rabino, casassem. O importante é que Maria Madalena, ainda segundo a lenda áurea, veio para a Europa, para França e deu início ao seu apostolado que marcou decisivamente a presença da Mulher na Igreja, como Apóstola da Palavra e como Profeta de Advento.

É muito significativo que esta “Deploração de Cristo” (transferida para aqui em 1886 dum oratório situado no cemitério local que a tradição oral diz ter sido oferecida pelo cardeal Richelieu (1585-1642) a uma família de Brain, que o canónico Guillotin de Corson diz ter vivido neste lugar em 1781 e atribui a feitura da peça ao escultor Tavau Pierre-Jean) esteja precisamente aqui, na antiga Plaz berço natal de Saint Melaine e que é hoje Brain, termo proveniente do bretão bren ou brenno, significando “pinhal extenso” que havia aqui no século XII. Nesta época o culto céltico ainda não se desvanecera completamente, pelo que a Cruz do Senhor era então uma mistura de elementos decorativos da arte celta o que vinha a distingui-la notavelmente doutros formatos de cruz.

A cruz celta inscrevesse num círculo que as suas extremidades ultrapassam, de modo que ela conjugue o simbolismo da cruz e do círculo. Pode-se acrescentar ainda o elemento central, a pequena esfera no centro geométrico da cruz e no meio dos braços. No primeiro período da arte celta as cruzes eram completamente inscritas no círculo e sem qualquer decoração. Depois os braços passaram a ultrapassar ligeiramente o círculo. Finalmente, as cruzes são feitas maiores, cobertas e rendilhadas. É possível reconhecer neste tipo de cruz símbolos celtas coincidindo com o simbolismo cristão.

Por essa via poderá ser que a “Deploração de Cristo” também seja referência à tradição celto-cristã, que sem a presença maior dos Apóstolos talvez nunca conseguisse estabelecer-se na França druida e vencer a tarasca, o dragão mítico simbólico da “heresia”, isto é, da primitiva religião celta aos olhos da nova cristã.

 

Os Templários na Bretanha

 

A Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, vulgo Ordem dos Templários (aprovada pelo Papa Honório II em 1128 e abolida pelo Papa Clemente V em 1314), foi o primeiro instituto de monges cavaleiros que o mundo ocidental conheceu. Conhecidos por sua valentia nas batalhas em que eram quase invencíveis, assim como pelas suas riquezas que todos lhes confiavam, ricos e pobres, por os considerarem de honestidade imaculada, e também conhecidos pelas manobras político diplomáticas que mantinham com todo o mundo civilizado, mormente com o Oriente islâmico, o que mais distinguiu os Templários foi sobretudo a fama de que possuiriam conhecimentos esotéricos ou iniciáticos heterodoxos muito superiores à comum ortodoxia da religião católica convencional. Esta fama veio a ser a causa principal da sua ensombração e abolição no século XIV.

Apesar da Ordem dos Templários ter sido fundada na Terra Santa, em Jerusalém, a sua organização jurídica e militar aconteceu na Europa, em França donde era originário o seu 1.º Mestre Hugo de Payens (1070-1136). Durante o século XII os Templários expandiram-se rapidamente por toda Bretanha, indo edificar castelos, palácios e igrejas graças às numerosas doações de terrenos que a nobreza e o eclesiástico bretão lhes fez. Em 1217 o duque Pierre Mauclerc e Alix de Bretagne, sua mulher, confirmaram aos cavaleiros do Templo todas as doações feitas pelos seus predecessores: Conan III e Conan IV, Alain Le Noir, conde de Penthièvre, Hoël, conde de Nantes, o que Geoffroy III e a duquesa Constance. Eles acrescentaram a oferta de uma terra em Messac que se tornou do Templo da Coëffrie, e alguns direitos nas vilas de Châteaulin, Châteauneuf, Lannion, Morlaix… No mesmo ano, Pierre Mauclerc isentou os Templários de pagarem direitos de passagem nos territórios ducais da Bretanha.

Quando os cavaleiros Templários foram acusados de heresias por Filipe o Belo, rei de França, presos, torturados, condenados às galés ou executados, como aconteceu a Jacques de Molay, último Mestre Geral do Templo queimado vivo na ilha dos Judeus, em Paris, em 14 de Março de 1314, ninguém acreditou na culpa apontada aos Templários pelo rei francês que todos sabiam estar muito endividado com o Templo e cobiçava as suas riquezas, enquanto o papa Clemente V, que o monarca colocara no trono de S. Pedro, não passava de um luxurioso fraco manipulado à-vontade por Filipe IV.

Na Bretanha não se encontrou o menor indício a respeito dos crimes monstruosos atribuídos aos Templários, que começaram a ser detidos em toda a França em 13 de Outubro de 1307. Os habitantes do Templo de Carentoir dizem até que os cavaleiros que aí viviam, após serem presos foram massacrados junto a um carvalho que ainda existe não longe da sua residência. Quando os comissários de Filipe o Belo foram a Nantes, em 10 de Agosto de 1308, para apresarem os bens dos Templários em nome do rei, o povo sublevou-se contra eles e expulsou-os da cidade.

É na Bretanha que se tem o melhor testemunho da proximidade da Ordem do Templo à cultura druida dos celtas, mormente na inter-relação Homem, Natureza e Cosmos, que era parte vital da mundivivência de uma sociedade agrária tradicional, cultura que os Templários herdam daqueles, nomeadamente:

– As bases geométricas da arquitectura, como se repara, por exemplo, na composição dos cromeleques “quadrados” com o menir fálico, da pujança viril, cravado ao centro, que viriam a estar na inspiração geométrica do “quadrado da terra” e do “padrão” ou mundus da arquitectura românica nascida dos colegium fabrorum ou de artífices da Roma Antiga. Há mesmo casos repetidos de antas primitivas terem sido posteriormente adaptadas a ermidas e capelas cristãs, como também o do aproveitamento do espaço de antigos cromeleques para sobre eles se assentarem as bases de igrejas e castelos, e assim igualmente o aproveitamento de muitas mamoas para “mães d’água”.

– O conhecimento geomântico exacto do movimento das linhas telúricas da Terra e os pontos de encontro de várias delas como nódulos telúricos, assim sabendo onde estavam as terras e águas boas para semeadura e consumo, como igualmente o lugar preciso para plantar um edifício, sacro ou não, que ficasse isolado das correntes hidro-telúricas negativas afectando o espaço ambiental e meteorológico, e assim aos temperamentos humanos e dos restantes seres vivos (animais, vegetais e minerais).

– O conhecimento exacto das propriedades medicinais das plantas e minerais, ou seja, a farmacognosia, aplicada como farmacologia natural sendo claramente um saber taumatúrgico ou terapêutico herdado dos celtas. Foram os médicos da Ordem do Templo quem descobriram a causa da lepra negra (assim chamada por deixar os corpos enegrecidos, em putrefacção ainda vivos, contaminando de imediato outros): estaria no centeio (com que se fazia o pão) plantado em zonas pantanosas próximas do mar, contaminado pelo salitre e os insectos.

Esses são exemplos da recolha feita do saber celta pelos mais doutos do Templo, e que tanto a arte, como a religião e a medicina populares, do conhecimento dos mais antigos, ainda preserva.

Tendo os Templários existindo numa sociedade sobretudo rural, foi assim que herdaram os conhecimentos celtas relativos ao entendimento geomântico da Terra como um Ente vivo, cujas veias sanguíneas no ser humano têm o seu equivalente nos veios telúricos por onde discorre a energia vital do Globo. Esses conhecimentos tradicionais foram chamados de leys. Na Idade Média e durante a Renascença, as leys consistiam em padrões ou alinhamentos de faixas ou linhas invisíveis cuja potência teoriza, demarca e liga entre si determinados espaços sagrados e naturais como lugares mágicos. Hoje essa teoria antiga geomântica já perdeu o seu foro de ciência tradicional e é apresentada pelas hodiernas crenças neo-espiritualistas que a popularizam como radiestesia, energia psíquica, mística, cósmica, etc., que vale o que vale como crença urbana desconhecida da Tradição Primordial.

 

Santo Sudário dos Templários (Sainte-Marie du Menez Home)

 

Na região de Plomodiern (Finistére), a algumas centenas de metros da capela templária de Sainte-Marie du Menez-Hom, encontra-se o lugar chamado “Croas Rhu” ou “Campo da Cruz Vermelha” (alusão à cor vermelha tradicional da Cruz Templária), onde pode ver-se um calvário muito estranho que indica, segundo a tradição popular, o sítio dum tesouro oculto pelos Templários antes da sua detenção entre 1307 e 1314 no reinado de Filipe IV, o Belo.

Esse calvário templário está no meio de vegetação abundante e é só conhecido do povo local, que o mostrou a François Gazay, em Setembro de 2001, investigando a pista já mencionada em 1997 no livro Les Sites Templiers de France, editado pelas Editions Ouest-France. O curioso monumento está à beira dum pequeno caminho que leva à capela de Sainte-Marie du Menez-Hom, cuja sacristia leva o curioso nome “Câmara dos Monges Vermelhos”, evocando a presença dos Templários na região.

Para facilitar a visita ao lugar do calvário e não se perder no caminho, o visitante deve obrigatoriamente informar-se junto da Associação dos Amigos de Sainte-Marie du Menez Hom.

O calvário templário dizem uns que é anterior a 1307, e outros contrapõem que data de 1544, ainda que nesta altura só tenha recebido beneficiamentos, mormente na coluna e cruz mas não na imagem que a ilustra, que essa é anterior e templária, como se nota na diferença entre materiais utilizados. O mesmo vale para a capela templária, reconstruída em 1570 e enriquecida a partir de 1663.

No calvário vê-se a figura de um Anjo mostrando o Santo Sudário com o rosto de Cristo, e é nisto que se liga ao sentido profundo da Bandeira Templária cujo significado transcendente, afinal de contas, vem a ser o pressuposto “tesouro templário” escondido debaixo do monumento.

O emblema de Advento para a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão era a sua própria bandeira, a Balsa ou Balsão com o signo da Cristandade ao centro – a cruz pátea vermelha sobre campo axadrezado branco e negro. Ela ia adiante no itinerário cíclico da Ordem no Oriente e no Ocidente, tanto no exercício das Armas como no culto da Fé.

Os Templários tinham também uma bandeira secundária ou Gonfalão, com uma cruz negra sobre campo branco. Cada comando tinha a sua bandeira própria (e ainda uma segunda, de reserva, que era desenrolada e desfraldada no caso da primeira se perder na refrega da batalha). Em marcha, a Balsa era levada pelo escudeiro da Ordem, e não pelo gonfaloneiro. Em combate também não era levado pelo gonfaloneiro. Esse porta-bandeira oficial, balsão ou signífero, comandava dez cavaleiros que defendiam a Balsa – empunhada por um cavaleiro de reconhecida valentia. Quem perdesse a Balsa em batalha era irremediavelmente expulso da Ordem. Compreende-se essa medida drástica pelo facto de, por regra, ser o Balsão dos Templários o último a abandonar o campo de batalha em caso de derrota.

Tanto pela importância militar da Balsa quanto e principalmente pelo seu sentido sagrado, tal importância viria a ser posta em pé de igualdade com o famoso Sudário de Cristo que diz-se ter pertencido aos Templários que o recolheram em Bizâncio e levaram para França, juntamente com outras relíquias sagradas. Com efeito, segundo Ian Wilson  o Santo Sudário parece ter estado durante algum tempo na posse dos Templários, e seria uma peça dobrada de maneira a só apresentar o Rosto ensanguentado de Cristo e que teria sido enviada para Edessa (actual Urfa, na Turquia), ainda em vida dos Apóstolos, como um retrato do Senhor destinado à devoção dum rei local. De Edessa, após várias vicissitudes, teria passado para Constantinopla (Bizâncio) em 944 d. C., e aí foi recebido como a mais importante relíquia no mundo religioso conhecido, já nessa altura conhecida por Mandylion. Permaneceu entre os bizantinos durante vários séculos e desapareceu da catedral de Boucoleon (Balsão?) durante o saque de Constantinopla pelos cruzados (da 4.ª Cruzada) em 12 de Abril de 1204.

Posteriormente o Mandylion apareceu na posse dos Templários, cerca de 1208, através dos religiosos do Mosteiro de Santa Maria de Blachernes, e era exposto aos fiéis todas as Sextas-Feiras Santas. Tendo sido desdobrado o pano santo, após mais de mil anos, ficou a descoberto (ou redescoberto) a sua forma actual, mostrando a dupla imagem do corpo de Cristo (frente e costas) conforme Ele jazia no seu túmulo.

A preciosa relíquia passou para a família do Mestre do Templo na Normandia, Geoffroy de Charnay, que morreu com Jacques de Molay na fogueira ateada em Paris por ordem do rei Filipe IV. Tempos depois (1357) a família de Charnay através do seu representante, o outro conde Geoffroy de Charney, apresentou à veneração dos fiéis em França a relíquia já como Santo Sudário (primeiro em Lirey, diocese de Troyes, e depois em Montfort, mais precisamente em Saint-Hipolyte-sur-Doubs). Nos meados do século XV (1452) Margarida de Charney, herdeira do espólio da família, cedeu a relíquia a Ana de Lusignan, esposa do duque Luís de Sabóia, em troca do usufruto do castelo e das terras de Mirabel. O Santo Sudário ficou assim na posse da Casa de Sabóia e, eventualmente, é exposto em vários locais, estando desde 1613 em Turim, Itália, onde é venerado e exposto ao culto até hoje. Tecnicamente propriedade da Casa de Sabóia, acabou sendo legado à catedral de Turim pelo rei de Itália, Umberto II de Sabóia e Lorena.

Reza a lenda dourada pertencente ao ciclo literário do Graal, que Santa Verónica enxugou o suor (donde sudor e sudário) e o sangue do rosto de Cristo enquanto carregava o madeiro pesado a caminho do Calvário, e que nesse tecido de linho ficou impressa, a modo de “negativo” de fotografia, a Santa Face. Depois, após a descida da Cruz, o morto do Senhor foi envolvido com essa mesma mortalha por José de Arimateia e Nicodemus, e todo o corpo suado e sangrento também ficou impresso no pano.

Apesar dos recentes testes químicos com “carbono 14” provarem que o Sudário de Turim não é anterior ao século XII, contudo a mesma lenda dourada mantém ter sido o próprio José de Arimateia a trazer o Santo Sudário ou a Santa Verónica para o Ocidente, muito antes de para Edessa indo primeiro para o País de Gales, precisamente para Glastoubury, onde se perdeu a sua pista até ser reachada já na mesma Edessa.

Quanto a Verónica de Edessa, de Jerusalém e de Soulac (4 de Fevereiro), é uma santa fictícia identificada muitas vezes com a mulher que sofria de fluxo de sangue e que se curou tocando na orla das vestes de Cristo. Aparece, episodicamente, limpando com um pano a face ensanguentada de Cristo, a caminho do Calvário. Miraculosamente, a Santa Face de Jesus ficou impressa nesse panejamento. Segundo a lenda áurea, terá casado com Santo Amador e vindo para a Gália, passando da Grande para a Pequena Bretanha. É representada tendo nas mãos um panejamento com a vera Efígie de Cristo.

Tal como a Bandeira Templária representa com a sua Cruz o Espírito de Cristo e a cabeça espiritual da Ordem, também o Sudário com o rosto do Senhor expressa a santidade mental representando a cabeça da Igreja, de que afinal a Ordem era guardiã. Por isso a associação entre Cruz e Cristo, porque aquela era considerada a verdadeira da Salvação, tal como a “Verónica” com o retrato directo de Cristo estampado era considera a Verdade (donde Vera e Verónica) testemunhal da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Nisto, os Templários tinham o vermelho da Cruz para a Paixão, o negro da Bandeira para a Morte, e o branco da mesma Bandeira para a Ressurreição, a Vida Eterna. Vera e Crux vem a dar Verdadeira Cruz, o mesmo que Cristo Verdadeiro incarnado no espírito da Regra de Vida da Ordem dos Templários.

Fica subentendido que o Santo Sudário, como arquétipo, teria o protótipo drapejante na que seria a Bandeira Templária, a Balsa ou Beaucéant, cujo significado em francês expressa isso mesmo: “beleza interior” (beau+céans) ou “o mais belo espiritual”, verdadeiro tesouro de riqueza celeste, o próprio Cristo, representado neste calvário ignorado do enclave templário de Sainte-Marie du Menez-Home.

 

Raridades de Notre-Dame du Temple (Pléboulle)

 

Pléboulle é um dos mais notáveis enclaves templários da Bretanha Norte onde ainda subsistem muitos vestígios da antiga presença da Ordem dos Cavaleiros Templários, a começar pela capela da Santa Cruz do Templo, que a partir da metade do século XVII passou a ser conhecida como capela de Nossa Senhora do Templo.

A origem desta capela templária recua ao século XII, sendo datada de 1150 a parte Este do edifício edificado poucos anos após o Papa Inocêncio II, em 1139, ter concedido aos Templários o direito de construir capelas para seu próprio uso nas quais, em princípio, o povo não era admitido aos ofícios, o que tem a explicação imediata de tratar-se de uma Ordem Militar em cujo espaço reservado a sociedade civil não era admitida.

Com as perseguições à Ordem do Templo e ficando ao abandono as suas possessões, em 1312 o nome Pierre du Guesclin, senhor de Montbran e Plancoët, tomou posse da propriedade e cerca de 1350 a família du Guesclin restaurou e ampliou a antiga capela templária. O brasão de Pierre du Guesclin está por cima do pórtico de entrada na capela e consta de uma águia bicéfala sobre um escudo. Segundo a lenda, este nobre foi associado aos Templários e até considerado Grão-Mestre dos mesmos depois de abolida a Ordem, o que parece um exagero óbvio da sua simpatia por eles.

A capela abriga as estátuas em madeira policromada da Virgem (século XVI) e da Virgem e o Menino (século XVIII), esta que é considerada milagrosa até se dizendo ser uma cópia fiel da primitiva dos Templários. No antigo cemitério dos leprosos anexo à capela, está uma cruz de data desconhecida que recebeu melhoramentos no século XVII mas cuja origem também é atribuída aos Templários.

Mercê da inclemência temporal, entretanto desapareceram outros testemunhos da presença Templária em Pléboulle, como foi o caso da capela de São João Baptista, demolida. O portal dessa acha-se no presbitério de Hénanbihen. Houve também uma esmolaria que pertenceu aos Templários, cujos responsáveis pela Ordem aqui foram: Henry du Vergier (em 1261), Pierre de Banhol (em 1286), Barthelemy Morlet (de 1302 a 1303), Sergent Hélio Raynald (de 1307 a 1308). O mosteiro da Santa Cruz de Montbran (assim denominado em 1201) foi igualmente uma possessão da Ordem do Templo.

Desse mosteiro da Santa Cruz ainda resta a torre dos Templários em Montbran, datada do século XII mas que foi alcunhada no século XVIII de “torre sarracena”, pretendendo a tradição popular que junto a ela os antigos cavaleiros-monges enterraram um tesouro. Octogonal por fora e circular por dentro, esta torre ergue-se no promontório que domina o vale de Frémur, próxima da antiga via romana ligando Aleth (Saint-Servan) a Carhaix. Coberta de vegetação e havendo o risco permanente de cair uma pedra, a visita a esta ruína é livre e gratuita apesar de estar numa propriedade privada.

Os Templários tiveram Santa Maria como o seu “maior Tesouro” por “estar presente no princípio e no fim da nossa Religião”, como consta da sua Regra, procurando a ressurreição espiritual pela Graça da Mãe Divina. É por isto que a lenda local diz que os Templários instalaram-se no alto lugar de Pléboulle e Montbran esperando com isso facilitar a sua ressurreição por estarem mais próximos do céu.

Sendo igualmente sinónima de Sabedoria fosse sob que forma cultual tivesse (Dana, Lusina, Cibele, etc.), Maria expressava a reunião de todos os saberes antigos e novos num tellos loci ou “lugar telúrico”, desde os tempos imemoriais assinalado pólo de atracção e concentração das várias correntes religiosas e espirituais do saber por que se buscava a Luz da Alma Universal assinalada na mesma Mãe Divina, sob que nome tivesse. Entra nisto Pléboulle (do latim Plebes Pauli, “Paróquia de Paul”), primitivo enclave mágico depois tomado e tornado enclave templário.

Tais enclaves como pontos nevrálgicos no mapa da Tradição Primordial onde a conquista espiritual era facilitada por maior “afrouxamento” da fronteira entre a Terra e o Céu, caracterizam-se como lugares de cultos remotos, encruzilhadas de pontos seculares de crenças, sítios mágicos para o comum das gentes, todos foram as metas secretas da Milícia Templária. Nesses enclaves que continha a mensagem da Sabedoria Ancestral, não reconheciam fronteiras territoriais, com a mesma não as tem.

O facto inúmeras vezes repetido de ser precisamente nesse tipo de lugares – pobres, agrestes, de acesso difícil – que se encontram os restos mais valiosos do Passado remoto, subentende que tais restos não correspondem tanto ao facto de neles se haver desenrolado noutros tempos a vida comunal, mas sobretudo por terem sido núcleos culturais, deliberadamente afastados dos centros populacionais pelo seu próprio carácter sagrado.

O sagrado acha-se intimamente ligado ao secreto. Isto porque o sentido da transcendência para o qual converge toda a crença religiosa e espiritual representa, para o ser humano comum, um mistério total intransponível. A crença originou o temor, ou melhor, é uma fonte desse temor: o medo último da morte e do que se possa encontrar por detrás dela. E esse mesmo medo visceral criou a dependência do homem comum em relação àqueles que tiveram – ou aparentaram ter – conhecimento certo do chamado Além, ou por outra, dos Mistérios da Vida, como foi o caso de vários Templários que além de ilustrados eram iluminados.

Esses Templários sabiam que existe uma realidade que nada tem a ver com o bem supremo nem com o mal mais abominável, embora seja atribuída a um ou outro segundo a circunstância imperante. O fundo dessa realidade é o conhecimento, um conhecimento sagrado em que o homem penetra muitas vezes e, quando o fez, vê-se inevitavelmente classificado de santo ou demónio, sem que chegue a ser uma coisa nem outra, mas um ser essencialmente humano que ousar levantar o “Véu de Ísis” em algum enclave cultural consignado pela Tradição.

Todos esses enclaves típicos das manifestações religiosas e espirituais ancestrais, significativamente estão representados nas áreas onde houve Mestrado Templário de um modo ainda mais específico, restrito e vivo. Observa-se isso na Bretanha Templária, cujos enclaves reclamados, desejados, exigidos pelo Templo, quase sempre duramente, custosamente conquistados, encontram-se sempre nas proximidades ou em contacto íntimo com esses lugares sagrados, com esses núcleos de magia milenar cuja intensidade é mais forte e se sente em toda a Pléboulle.

 

Capela Templária do Mestre Jacques (Saint-Alban)

 

Os “monges vermelhos” encontram-se um pouco por toda a parte na Bretanha. Eles são malditos. Envoltos em mortalhas e montados em esqueletos de cavalos, galopam à noite ao acaso nos bosques e a maldição abate-se sobre aquele que, por desgraça, cruze o seu caminho. Esses fantasmas maléficos são, nas crenças populares, aqueles dos antigos Templários.

Diz-se que a memória colectiva bretã atribui-lhes os crimes mais atrozes, e isto depois dos agentes de Filipe IV terem envenenado o povo com as maiores mentiras sobre a Ordem do Templo, cujas riquezas e poder esse rei francês ambicionava. Dessa má fama também não escapa a capela templária de Saint-Jacques em Saint-Alban, Bretanha Norte.

A construção deste templo de Saint-Jacques le Majeur é efectivamente atribuída aos Templários, donos da comenda de Saint-Alban de Verulam (mártir inglês do século III decapitado em Verulamium, na Grã-Bretanha) que é um desmembramento da paróquia primitiva de Pléneuf. A carta de aforamento de 1182 refere a aldeia próxima daqui, Hôtellerie, como propriedade do Templo, e a carta de aforamento de 1256 cita explicitamente esta capela e lugar como pertencendo à mesma Ordem.

Plantada sobre um antigo espaço cultual celta, esta capela foi utilizada pelos Templários como albergue dos peregrinos a Saint-Jacques de Compostelle que tinham de passar por este caminho gallo-romano de Aleth a Carhaix, já secularizado no tempo de Saint-Guillaume Volpiano ou de Cluny, que por volta do ano 1000 recebeu a hospitalidade em Saint-Alban do senhor de Coron. Por esta razão a capela foi consagrada a Saint-Jacques le Majeur.

Este templo românico gótico ainda conserva testemunhos artísticos cuja feitura se atribui aos próprios Templários: no interior, tem-se debaixo das arcadas uma escultura representando um javali perseguido por cães. Na sociedade tradicional celta o javali representava a autoridade espiritual detida pelo druida, o sacerdote dessa religião, pelo que os cães retratados dentro da capela serão os domini-cannes, os “cães do Senhor” como guardiões da própria Igreja, simbólicos dos próprios monges templários que perseguiam e asseguravam a legitimidade a autoridade espiritual daquela. No exterior, tem-se o grupo esculpido da “Virgem e do Menino” protegendo um peregrino compostelano, datado do início do século XIV.

Este caminho gallo-romano de Saint-Alban e Saint-Jacques e até mesmo a capela, diz a vox populi que aquele era percorrido por fadas e esta feita pelas mesmas. Depois de terem percorrido durante muito tempo outras partes do mundo, as fadas passaram a percorrer o caminho de Saint-Alban procurando um lugar para descansar eternamente. Como eram fadas cristãs, diz a lenda, começaram a construir uma capela para si. Mas uma manhã, enquanto procuravam materiais para a edificação do templo, encontraram no caminho uma pega morta, de patas para o ar. Procuraram uma mulher velha, sábia, e perguntaram-lhe o que significava aquilo. Ela respondeu-lhes que a eternidade terrena não existe ao contrário do que acreditavam. Então as fadas deixaram este lugar abandonando a sua obra. Desde esse dia nunca mais ninguém de Saint-Alban as viu e a capela de Saint-Jacques permaneceu inacabada.

As fadas como entes sobrenaturais que povoam a Natureza etérica, são uma maneira simples e até poética de exprimir a condição sobrenatural ou fora do comum que dotava a natureza dos peregrinos que passavam por Saint-Alban a caminho de Compostela, muito longe daí, na Galiza hispânica, cuja firmeza de vontade em chegar à meta era realmente sobre-humana. Por outro lado, refere-se aos conhecimentos avançados dos Templários sobre arquitectura e a maneira perfeita de construírem os seus edifícios, facto atribuído pelo homem vulgar a “forças sobrenaturais”. O facto da capela ter ficado inacabada tem uma explicação muito óbvia:

Até hoje há quem não saiba bem se esta capela de Saint-Alban era consagrada ao Apóstolo Saint-Jacques ou ao Mestre Jacques de Molay, que foi o último a ocupar o Mestrado Geral da Ordem do Templo. Isto porque no início do século XIV Jacques de Molay começou as obras de construção de uma torre dianteira da capela, mas que foram subitamente interrompidas com a prisão do Mestre e dos Templários em 13 de Outubro de 1307, por ordem de Filipe IV, e este domínio do Templo reverteu de imediato, quase instantaneamente, para o duque da Bretanha, Jean III. Este realizou algumas obras na capela, mas a torre ficou para sempre inacabada, possivelmente por os conhecimentos arquitectónicos dos Templários terem morrido com estes e o seu último Mestre.

Sem dúvida que se perdeu a chave do sentido real das lendas sobre o Templo na Bretanha, mas através das mesmas pode reter-se que os Bretões, herdeiros dos Celtas, vieram a associar na sua alma colectiva o vermelho, cor do fogo, aos próprios Templários, adeptos do Espírito Santo. A presença desses “monges vermelhos” (assim apelidados por causa da cruz vermelha que traziam estampada nos seus mantos e capas) é reencontrada essencialmente junto às suas antigas comendas outrora edificadas sobre lugares celtas, por vezes nas proximidades de menires e de dolmens, indo constituir além de enclaves sagrados igualmente mágicos.

Mais espantoso ainda: os Bretões atribuem frequentemente aos Templários santuários construídos muito depois da sua desaparição, ocorrida em 1312 com a abolição da Ordem pelo papa Clemente V. Neste caso, a origem do edifício é sempre misteriosa ou pelo menos obscura, e o lugar onde está é frequentado e venerado desde os tempos mais remotos. Isto significa que, apesar da desaparição da Ordem do Templo, poderá muito bem ter sobrevivido alguma facção operativa sua, ou então formada dentro dela tendo saído antes da abolição papal, possuída dos pressupostos saberes secretos ou esotéricos dos Templários sobre a arte arquitectónica, por exemplo, como foi o caso dos Monges-Construtores, a maioria beneditinos e clunienses a que pertenceu Saint-Bernard de Claraval, inspirador espiritual da Milícia de Cavaleiros-Monges.

 

O misterioso templo de Lanleff

 

Em Lanleff existe um monumento muito antigo que tem intrigado os estudiosos que não encontram uma resposta definitiva sobre quem o edificou e o que terá sido, mas sendo muitas as teorias e algumas delas bastante extravagantes.

Trata-se de uma construção circular formada por uma cintura dupla de muralhas, uma exterior e outra interior; aquela ocupa um espaço de trinta pés de diâmetro e a outra, construída a nove pés da precedente, é concêntrica. O muro interior desta é aberto por doze arcadas, cada uma com a largura de cinco pés e a altura de nove; cada arcada forma uma abóbada completa e é sustida lateralmente por pilastras de três pés, e cada um dos seus lados está decorado por numa coluna adossada de cinco polegadas. No muro exterior vêem-se doze aberturas de janelas que correspondem às doze arcadas do muro interior. Estas janelas são de tamanho e grandeza diferentes que minguam à medida que se avança para o fundo, sendo o espaço que as separa também decorado de colunas. Este monumento foi construído com bastante solidez e a pedra utilizada, o granito róseo, foi da melhor qualidade e beleza.

Está-se perante um edifício em labirinto, que hoje talvez servisse de vestíbulo à igreja sucursal. Realmente labiríntica e enigmática tem sido a sua presença até hoje.

Diz-se que foi construído pelos primitivos celtas bretãos para celebrarem os solstícios e equinócios durante os quais faziam a circunvalação ritual para o centro, ou então pelos gallo-romanos, ou ainda como um baptistério merovíngio. Poderia ser alguma dessas teorias, mas o facto é que o edifício não é tão velho quanto isso, logo, essas teorias ficam sem efeito. Também se diz que foi edificado pelos “monges vermelhos”, isto é, os cavaleiros templários, mas não há documento algum atestando casas da Ordem do Templo aqui, e logo outros dizem que não foram templários mas cavaleiros da Ordem de São João do Hospital quem de facto estiveram aqui, mas igualmente não há provas de tal… Em que se fica?

Este monumento de traça bizantina misturada à românica, constitui-se da rotunda de uma antiga igreja circular beneditina dedicada à Virgem Maria, como atesta uma carta de 1148 informando de uma doação feita à igreja de Santa Maria de Lanlem (o Lem é o antigo nome do rio Leff) dos monges beneditinos. Os especialistas pensam que ela foi construída nos finais do século XI ou no início do XII à imitação do Santo Sepulcro de Jerusalém, aceitando como prova a carta de do duque Conan IV que é a única a referir os templários como tendo em 1160 vários bens nesta parte do bispado de Tréguier, os quais terão andado de ligações com os beneditinos e lhes comunicado os conhecimentos orientais cuja arquitectura que veio a caracterizar este monumento que, de facto, é a réplica exacta da rotunda do Santo Sepulcro, em Jerusalém.

Igualmente a ciência etimológica dá Lanleff como fundada por eremitas cristãos, os quais foram os beneditinos dos primeiros séculos do cristianismo na Europa, pois que caracterizou-se então por um tipo eremita e anacoreta. Com efeito, Lanleff provém do antigo bretão lann, “eremitério”, passando a ser citado pelo nome actual nas cartas da abadia de Beauport a partir do século XIII.

O formato labiríntico do edifício vem a expressar o caminho cristocêntrico que caracterizou a vida monástica dos beneditinos medievais, ou seja, percorrerem interiormente o caminho tortuoso da sua condição humana, o que se representava no labirinto, até alcançarem o Grande Centro, ou seja, a derradeira União Mística com Cristo em suas consciências espirituais. O labirinto era uma combinação de dois motivos: o da espiral e o da trança, e exprimia uma vontade muito evidente de representar o Infinito sob os dois aspectos de que ele se reveste na concepção humana, isto é, o Infinito eternamente na mutação da espiral, pelo menos teoricamente, pelo que pode ser pensado como sem fim, e o Infinito do eterno retorno figurado pela trança, mas aqui pelo Sepulcro vazio do Salvador que entretanto ressuscitou e a humanidade dos fiéis procura o encontro final com Ele. Quanto mais difícil é a viagem pelo labirinto, quanto mais numerosos e árduos são os obstáculos, mais o adepto se transforma e, no decurso desta iniciação itinerante, adquire um novo ser.

É assim que o labirinto expressa o caminho que conduz o homem ao interior de si mesmo, a uma espécie de santuário interno ou escondido, no qual reside o mais misterioso e santo da pessoa humana, o seu Espírito Imortal. Pensa-se aqui em Mens Sana, “Mente Sã”, o Templo do Espírito Santo na alma em estado de graça. A chegada ao centro do labirinto, como ponto final de uma iniciação, introduz o iniciado numa “cripta ou cela invisível”, representação simbólica do seu próprio Ser Espiritual com quem se une marcando o final do caminho cristocêntrico, como testemunham estas misteriosas ruínas do templo-labirinto de Lanleff.

O apelo beneditino a uma vida desprendida da cobiça material e que fazia parte da sua catequese humanista junto do povo simples deu lugar à lenda da “troca com o Diabo”, que ainda hoje corre em Lanleff e conta assim:

Uma pobre e infeliz mulher fez uma troca com o Diabo: o seu filho em troco de moedas de ouro. Lúcifer aceitou de imediato o negócio e depositou um punhado de moedas na borda da fonte próximo do templo de Lanleff, pois que desejava a criança para si. Quando a mãe indigna foi recolher o dinheiro, ela queimou-se gravemente: das moedas saíam as chamas do Inferno. Com gritos de dor ela afastou-se abandonando as moedas de ouro que se incrustaram para sempre no granito da borda. Quem desde então passa por Lanleff e vai à fonte, se molhar a sua borda pode ser que as 14 moedas de ouro apareçam. Mas deve reflectir bem antes de as ver e as tocar…

 

O “Lapidário” de Marbod de Rennes

 

A catedral de Rennes, capital da Bretanha, ainda hoje evoca aí a presença de um dos mais famosos hagiógrafos da Antiguidade que à cultura megalítica pré e proto-histórica bretã substituiu por um singular Lapidário judaico-cristão que foi dos mais famosos da Idade Média: Marbod, Marbodus ou Merboldus (Angers, 1035 – Rennes, 1123).

Este famoso teólogo beneditino Marbod de Rennes, em cuja catedral foi bispo em 1096 nomeado pelo Papa Urbano II (1088-1099), pouco antes dessa data redigiu aí o seu Lapidário (Liber Lapidum) depressa traduzido para outras línguas, incluindo a hebraica, e a sua enorme celebridade tornou-o o modelo obrigatório dos tratados ulteriores sobre minerais.

O Liber Lapidum ou Lapidibus, importante Lapidário hexamétrico escrito em latim, trata das virtudes e propriedades terapêuticas das pedras preciosas ou gemas, sendo composto de um prólogo, 60 estrofes consagradas cada uma a uma pedra, e um epílogo onde justifica o seu termo latino Lapidum para designar o seu tratado, que hoje a Biblioteca de Geociências da Universidade de Rennes possui uma cópia da tradução do mesmo.

As virtudes terapêuticas das gemas preciosas, atribuindo-lhes até propriedades miraculosas, são descritas pelo bispo Marbod nos seguintes e literais exemplos:

A ágata é boa para a vista;

O jaspe é soberano contra a febre;

A safira rejuvenesce o corpo, tranquiliza as almas receosas e alivia as cóleras do céu;

A esmeralda é útil aos advogados e devolve a razão aos insensatos;

O berilo é utilizado contra perturbações do fígado e para evitar rompantes intempestivos;

A ametista evita a ebriedade.

Esses são exemplos da enorme quantidade de propriedades terapêuticas das pedras preciosas catalogas por Marbod, o primeiro a sistematizar a gemologia ou ciência que estuda as gemas minerais, mas aí acrescida do sentido taumatúrgico característico da mentalidade mágica medieval, muito mais no ambiente bretão da época ainda trescalando por toda a parte a presença da religiosidade céltica dos druidas, para quem os minerais e vegetais possuíam sempre propriedades sobrenaturais associadas aos deuses do seu panteão, que eram quem as atribuía.

Em geral, distinguem-se três tipos de lapidários: os lapidários mágicos ou astrológicos, que Marbod expõe recorrendo à heterodoxia das crenças astrolátricas celta e judaica; os lapidários simbólicos cristãos, que ele sistematiza associando as virtudes de cada gema a cada um dos Apóstolos de Cristo, ficando o ouro para Este mesmo, tomando por fonte de inspiração as pedras preciosas de que se compõe a Jerusalém Celeste descrita no Apocalipse (21:18-22); os lapidários científicos, e nisto ele pretendeu dar sistematização científica à gemologia, no que terá tido êxito por a sua obra ser a mais popular da literatura científica medieval.

Neste seu Lapidário Marbod de Rennes estabelece a relação entre o Cristianismo e o Judaísmo ao interpretar as doze gemas do peitoral do Sumo-Sacerdote do Templo de Jerusalém e a relação das mesmas com as 12 tribos de Israel, dando consecução literária ao que era usual na liturgia católica medieval, ou seja, costumava-se colocar ao lado do racional estufado um peitoral de metal imitado directamente do “Peitoral do Julgamento” do Sumo-Sacerdote (Kohen Gadol), ordenado canonicamente conforme está descrito no Antigo Testamento, em Êxodo 28: 15-29.

O Sumo-Sacerdote da religião judaica tinha como insígnia maior da sua função de supremo testemunho da vida e julgador da morte ou destino das 12 tribos de Israel, o peitoral, que era uma bolsa de 22 cm2 feita de material formosamente tecido. Na frente do peitoral foram firmadas as doze pedras preciosas em quatro filas de três, e em cada uma destas pedras foi gravado o nome de uma das tribos de Israel:

Primeira fileira: Rubi – Ruben; Esmeralda – Simeão; Topázio – Levi.

Segunda fileira: Carbúnculo – Judá; Safira – Isaac; Diamante – Zebulão.

Terceira fileira: Jacinto – Dan; Ágata – Naftali; Ametista – Gad.

Quarta fileira: Crisólito – Asher; Ónix – José; Jaspe – Benjamim.

No Cristianismo, a racional ou peitoral era uma peça ornamental que caiu em desuso; consistia em duas peças rectangulares ornamentadas, uma sobre o peito e outra sobre as costas, ligadas por ombreiras circulares, ou em gola; gozou de popularidade na Alemanha a partir do século XII. Este paramento era um tanto semelhante a uma peça de indumentária usada pelos sumos sacerdotes judeus dos tempos bíblicos. A racional era um paramento característico dos arcebispos de Reims, considerados como os sucessores dos sumos sacerdotes de Israel, devido ao privilégio de sagração dos reis franceses. Também era usada pelos bispos de Liége e de Toul.

Dispondo-se o peitoral ao lado da racional na primitiva liturgia católica, significava que assim eram unidas simbolicamente as Escrituras Velha e Nova, os Profetas e os Apóstolos, respectivamente representados por Jacob, “pai” de Israel e da Jerusalém Terrestre, e por Cristo, “pai” da Palavra e da Jerusalém Celeste, aos quais os antigos davam o atributo do Sol e do ouro, ficando os Apóstolos relacionados a signos astrológicos em simpatia com as doze gemas preciosas descritas. O peitoral cristão no altar vinha a descrever:

Primeira fileira: Carneiro – Pedro; Touro – Lucas; Gémeos – Tomé e Judas Tadeu.

Segunda fileira: Caranguejo – Judas Iscariotes; Leão – Marcos; Virgem – Simão Cananeu.

Terceira fileira: Balança – Bartolomeu; Escorpião – Mateus; Sagitário – Filipe e André.

Quarta fileira: Capricórnio – Paulo; Aquário – João; Peixes – Tiago Maior e Tiago Menor.

As pedras preciosas acabam sendo o símbolo da transmutação do opaco em translúcido, e num sentido espiritual, das trevas em luz, da imperfeição em perfeição. É assim que a Nova Jerusalém é toda revestida de pedrarias, significando que dentro desse universo novo todas as condições e todos os níveis de existência terão passado por uma transmutação radical no sentido de uma perfeição sem igual na Terra de hoje e de natureza toda luminosa ou espiritual.

Essa foi a mensagem de Advento que Marbod de Rennes, o implacável acusador público das consciências pecaminosas do seu tempo, pretendeu transmitir no seu Lapidário. E em certa medida conseguiu.