Por apadrinhamento baptismal sou descendente de D. Paio Peres Correia, tendo sido meus paraninfos nesse sacramento José António Correia e sua irmã, Teresa Correia, na igreja de São Mamede, Lisboa.

Esta família Correia, de vastas posses, possuía palácio na Capital, junto ao Jardim da Estrela (onde passei alguns anos de minha infância), e senhoreava a Quinta da Piedade, indo da Charneca da Caparica até quase à Vila da Costa da Caparica, no concelho de Almada.

Com a crise do Golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 e o vendaval revolucionário que se seguiu, a família viu-se forçada a vender os citados imóveis, a desfazer-se do consórcio luso-alemão da firma automobilística “Mercedes Benz”, cuja marca introduzira em Portugal, e a refugiar-se na sua propriedade de Paderne, no Algarve: a Quinta do Correia, cujas dimensões abarcam boa parte deste lugar de Paderne (terra natal de meu pai) e de Boliqueime, por um lado, e de Ferreiras e de Albufeira, por outro lado, logo, englobando o Castelo padernense junto a cujas muralhas e intra-muralhas brinquei e passeei boa parte de minha infância e adolescência.

O castelo de Paderne, a 100 m de altitude, edificado a 100 metros de altitude no topo de um monte constituído por formações do Jurássico Superior, encontra-se assinalado na Carta Militar Portuguesa n.º 596 de 1951, com as coordenadas X-194.1 e Y-21.3, marcando bem a sua presença na paisagem. As encostas adjacentes à muralha do castelo apresentam inclinações de valor superior a 30%, correspondendo a um meandro fortemente demarcado relativamente à Ribeira de Quarteira. Situa-se numa espécie de península formada pela Ribeira de Quarteira e o Barrocal, estando entre duas importantes cidades do barlavento e sotavento algarvio: Silves e Loulé. Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1971 (Decreto N.º 516/71 de 22-11), hoje este imóvel encontra-se em Zona Especial de Protecção – Portaria n.º 978/99 de 14 de Setembro publicada em Diário da República (2.ª Série) – com vista a ser salvaguardado e valorizado.

É do «meu» Castelo – como me é referido em tom de gracejo por alguns dos muitos e bons amigos – que irei falar aqui. Mas primeiro terei de evocar em breve sinopse genealógica a pessoa de D. Paio Peres Correia.

Terá ele nascido em Monte Fralães, Barcelos, cerca do ano 1205, e ainda adolescente ingressou na Ordem Militar de Santiago e nela acabou subindo ao Grão-Mestrado em Castela e Portugal, onde foi o 14.º Mestre Geral (1243-1275), tendo-se distinguido por reconquistar ao Islão toda a Estremadura, Alentejo, Algarve e Andaluz, facto que lhe deu invejável prestígio em toda a Europa e mesmo no Magrebe. Faleceu em 1275 na localidade de Tentudia, Mérida, e no século XVIII os seus restos mortais foram trasladados para Tavira, Algarve, sendo depostos na igreja de Santa Maria do Castelo.

D. Paio Peres (ou Pires ou Piris) Correia (ou Côxe, em árabe) pertencia a uma das mais antigas famílias portuguesas (1), cujo apelido começou em D. Sueiro Pais Correia, filho de D. Paio Ramires, rico-homem do rei D. Afonso VI, o qual, embora fosse português, assistiu sempre na corte desse soberano leonês. D. Sueiro Pais recebeu-se com D. Urraca Soares, filha de Sueiro Guedes e neta de D. Gueda o “Velho”, e teve três filhos pelos quais se propagou o apelido. O solar inicial da família Correia foi o couto de Fralães, no extremo sul do concelho de Barcelos.

Manuel de Sousa Silva cantou esta família nos versos que se seguem:

Farrelães e o solar

Que aos Correias deu o ser

E Dom Payo veio a ter

O qual fez o sol parar

Para os mouros vencer.

A Crónica Geral de Espanha de 1344 narra as suas façanhas militares num misto de apoteótico e lendário, realçando o grande capitão que foi D. Paio Peres Correia:

(…) o meestre dom Paae Correa e os outros ricos homees que com el estavon da outra parte do ryo, segundo ja ouvistes, cavalgarom sobre Golles e cõbaterõna e entrarõna per força e mataron todollos mouros que dentro acharom e levarõ muy grande algo que hy acharom. E, em se tornando per Tyriana, sayiu a elles gram cavalarya de mouros e muitos peõoes com elles e ouverõ com elles gram batalha. E foron os mouros vencidos e mortos muytos delles e os cristãaos tornarõsse muy hõrados pera seu arreal.

Uma enciclopédia espanhola, citada por António Pires Nunes (2), refere-se a D. Paio Peres Correia nestes termos:

Fantasías aparte, es innegable que su nombradía se asienta en una vida militar llena de gloriosos hechos, como lo demuestra el que se le confiase el mando de el ejército español en aquel período verdaderamente heroico de la Reconquista. Fue Gran Maestre de la Orden de Santiago y tanto los monarcas portugueses como los castellanos, se disputaran el honor de tenerle à su servicio.

As Armas dos Correia, são: de ouro, fretado de vermelho, de seis peças. Timbre: dois braços armados de prata, recamados de ouro, com as mãos de carnação espalmadas, os pulsos passados em aspa e atados de vermelho (3).

Talvez por influência Santiaguista dos Correia e da Cátara dos Costa (ou Costo, oriunda genealogicamente de Santa Catarina do Monte Sinai), de quem também tenho “costela”, afectando o meu ser pessoal, me tenha tornado peregrino de Sant’Yago por várias vezes e na Galiza sentir-me como “en mi caza”.

Mas falarei antes do Castelo e da sua povoação de Paderne. Em antropologia social, sabe-se que um povoado para poder firmar-se e prosperar necessita estar junto a caudal d´água abundante e a terrenos férteis. Também necessita estar instalado em lugar estratégico que o proteja de eventuais incursões inimigas, e igualmente de um centro local para satisfação religiosa. Pois bem, esta fortaleza situa-se no cume agreste de monte elevado em cujo sopé corre o Rio Algibre, vulgo Ribeira de Quarteira (pois corre para esta antiga povoação piscatóriaindo desaguar no mar), onde até meados do século XVI circulavam embarcações de porte. Os campos em volta mostram-se férteis à agricultura e pastorícia (ainda hoje é basta a cultura frutífera, graças às nascentes de águas doce da campina arredor), e para defender tanto a população como a estrada fluvial para Quarteira e o antigo caminho terrestre fenício-romano-árabe para Loulé, aí estava a guarnição militar do castelo, cuja igreja consagrava-se a Santa Maria da Assunção (isto em pleno período de Cristandade pós-Reconquista), tendo como Orago secundário ou lateral São Domingos de Gusmão, aí popularizado após as catástrofes naturais de Seiscentos.

Foi em torno deste Monte do Castelo que Paderne nasceu. Com as convulsões geológicas dos séculos XV e XVI, rematadas pelo terrível terramoto de 1755, a praça-forte e a sua igreja ruíram, o povoado desfez-se e o que sobrou o povo levou; os leitos da ribeira alteraram-se, as culturas fluviais e agrícolas desapareceram e as gentes tiveram que procurar novo sítio para viver, deixando para sempre essa parte do lugar, hoje apenas fragmentos dispersos por muitos quilómetros arredor da fortaleza já pouco mais que ruínas!… Face à desgraça a devoção popular voltou-se para os favores do Céu, na pessoa do Beato São Domingos, protector contra as tempestades de fogo e a lepra maligna. Nasce, da necessidade imposta pela miséria, o culto tardio a esse personagem do Santoral cristão, e mesmo com a igreja do castelo arruinada o povo habituou-se a ir lá em romaria, desde os meados do século XVI até aos meados do século XX, pois hoje as romarias ficam-se pelos piqueniques esporádicos.

Mas não foram, de maneira alguma, os dominicanos de Faro e sim os franciscanos de Loulé quem orientaram o povo padernense levando-o a fixar-se mais a noroeste, na campina e subida de encosta onde nasceu a segunda Paderne, a actual, cujo principal foco de desenvolvimento não vai mais longe que 1734-1780, apesar de haver registos esparsos indicando a existência de uns casebres aí já no começo de Quinhentos, altura da construção da igreja paroquial (1506) pelos locais, orientados pela Ordem Terceira de São Francisco com sede em Loulé, logo consagrada como templo mariano, e depois (1556-57, altura da finalização das obras da sua construção) depositada ao lado do seu altar maior – consagrado à Senhora da Esperança – a imagem sagrada de Santa Maria do Castelo, esta já seiscentista, por a primitiva, medieval, ter desaparecido, talvez vítima da degradação temporal imposta pelos séculos (4), cuja celebração era feita a 25 de Março e 15 de Agosto, quando o povo ia em romaria ao castelo mesmo com a imagem da Senhora já não estando lá.

As restantes imagens de barro e terracota, algumas de tamanho natural, que adornavam a primitiva igreja do castelo tendo sobrevivido ao terramoto de 1755 mas bastante danificadas, estão hoje esquecidas num recanto do eirado da quinta de meus familiares, em Paderne. Foram ainda mais danificadas pelos golpes de navalhas e machados desferidos, como facilmente se pode verificar, por uns quaisquer energúmenos excitados pela sanha revolucionária que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, tendo assaltado e ocupado a propriedade, só saindo, contrariados pelas forças da ordem, após espoliarem os proprietários dos seus bens. E o que não levaram, destruíram. Enfim, águas passadas que não movem os moinhos do progresso…

Paderne é lugarejo de génese muito anterior à Reconquista cristã. Há vestígios romanos em sua volta (desde Quarteira a Albufeira e Alte), e à romanização deverá o seu nome: Paterni. Este vocábulo latino assenta em Paternus (“paterno”, “paternal”, “pai”) e decompor-se-á em pater, petra e pedra, “pedra forte”, no sentido de “monte elevado”, e ernus ou neron, “homem forte primogénito” (identificado minerologicamente à “pedra-raio” ou “corisco”, que a há no Monte do Castelo). Constata-se assim que o topónimo português Paderne mergulha as suas raízes lexicais na expressão baixo-latina Patraneron, donde Paternus e Paterni, significativa de “Pedra do Homem Forte”, “do Gigante” ou, por elevação semântica, “Pedra do Altíssimo”.

Esse “Altíssimo poderá ser Paterus (donde Pátara e Patareu), sobrenome de Apolo, o deus do Sol, equivalente ao Surya védico. A haver um lugar de culto helíaco só poderia ser a primitiva fenício-romana Carteia, depois Cartara, a “Cidade Santa” cantada no poema de Rufo Festo Avieno e inserida na sua obra Ora Marítima (“Orla Marítima”), escrita no 4º século da nossa Era. Aí faz referência a uma ilha existente na foz do rio Guadalquivir, chamada Cartara. O povo que então habitava essa ilha chamava-se Cempsos, tendo sido expulso de Cartara pelos Tartésios. Na sua fuga para Oeste atingiram o território do Algarve onde se estabeleceram. A Cartara algarvia, devido ao apêndice labial u próprio da glótica latina, transformou-se na luso-romana Quartara, posteriormente prosodiada Quarteira (5).

Reza a tradição mítica que na primitiva Cartara havia um templo fenício consagrado ao deus Melkart Baal Berith, “Rei da Cidade Santa e Deus da Aliança” (de função mediadora e psicopompa idêntica à de Hermes ou Mercúrio e até do Arcanjo Mikael, iconografado com espada e balança, cujas prerrogativas de Lex et Pax são as mesmas de Melki-Tsedek, “Rei e Sacerdote de Salém”), que posteriormente os romanos terão consagrado a Apolo.

Ora os Paterni Milites, “Soldados do Pai” ou “Guerreiros do Senhor” instalados no Monte do Castelo deveriam, eventualmente, proteger a rota dos peregrinos que iam ou vinham de Cartara – a “Cidade Santa” – nascida não junto à praia mas no Cerro da Vila (como atestam os achados arqueológicos aí postos a descoberto).

Mais: no sopé de Mons Paterni, ligando as duas margens do Rio Algibre (termo arábico herdado da raiz ligure alg, “branca, argêntea”, referente à “Branca Deusa Mãe Virgem”, a Lua relacionada às águas geradoras de vida, assim também se podendo traduzir literalmente Algibre como “ribeira longa”, a que está sob a influência longa da Noite, do feminil Astro Lunar subido nos céus que o Cristianismo retrataria como Senhora da Assunção), ainda se mantém aí a velhinha ponte romana de três arcos (posteriormente, por volta de 1757-58, mandada reconstruir pelo pároco de Paderne, Fr. António Telles Gil, da Ordem de Avis, pois que sofrera muito com o terramoto de dois anos antes) que conduzia a Loulé, esta cidade matricial, sendo Quarteira vila patricial pelo que não deixa de estar sob a evocação cristã de São Sebastião, personagem tradicionalmente reconhecido como incarnando em si o Sacerdócio e a Realeza, em conformidade ao ideário sinárquico afim à tradição que descreve o Paraíso Terreal como a hindustânica Agharta (6).

A presença dominante do castelo de Paderne como atalaia estratégica junto às estradas principais do sotavento algarvio no Período Histórico, decerto foi fundamental ao desenvolvimento mítico-religioso, político-militar e sócio-económico dos locais e vizinhos. Com isso, a evocação apolínea de “Pedra do Altíssimo” (Patraneron) seria muitos séculos depois recuperada pelos espirituais franciscanos (difusores do Marialis Cultus no Algarve e do afim culto ao Divino Espírito Santo – não raro associado por eles à função de Metraton ou “Intermediário entre a Terra e o Céu”, como se vê em silhar de azulejos na igreja da Graça de Loulé, onde foi baptizada a minha irmã), pois que a deixaram figurada em enigma na igreja paroquial de Paderne. O Patraneron terá sido associado por eles ao próprio Espírito Santo, a Terceira Hipóstase Divina como Actividade Inteligente, que antes era representada em Melkart Baal Berith, passando à versão judaico-cristã como Melki-Tsedek. Tanto assim é que reconheço este figurado, um tanto veladamente, num busto de cuja fronte irrompe um círculo raiado (pormenor no intradorso do arco cruzeiro da paroquial), entrevendo-o como Melki (“Rei”) ou Poder Temporal. E logo no pormenor do intradorso no lado oposto, vejo-o suportado por uma cabeça d´anjo, tendo acima um delfim engolindo um peixe. É Tsedek (“Sacerdote”) como Autoridade Espiritual, Delfim de Deus Espírito Santo e Regente do Ciclo de Piscis marcado pelo Cristianismo que lhe cabe «engolir», ou seja, governar.

Esta igreja, mandada restaurar nos anos 60 do século passado pelo meu padrinho, António Correia, grande benfeitor da terra (a ele se deve a construção da “Casa do Povo”, da Praça do Mercado e os melhoramentos do Cemitério), apresenta na sua feitura os dois estilos manuelino e renascentista que, embora pese a rudeza da execução, lembram o modelo utilizado no Colégio da Graça, em Coimbra (7).

Após o Período Romano e passando o Visigótico ou Páleo-Cristão, segue-se o Árabe. Desta época encontro referências ao castelo almóada de Paderne como “guarda-avançada” de Loulé, bonita cidade que tão bem conheço em cuja campina vivi junto da família de minha mãe adoptiva.

Praticamente desde o início da conquista árabe do Al-Garb (“Onde o Sol se põe”, o “Lugar do Ocidente”) ou, numa expressão figurativa, Allah-Garden (“Jardim de Deus” – Algarve), que Loulé foi centro de estudos corânico-mesquitais que essa quinta dinastia moura do movimento religioso almóada ou “unitarista”, incentivou e propagou.

O mais notável místico arábigo de Loulé foi Abul Abas, ou Abul Jáfar Oriani, o primeiro mestre de Ibne Arabí (8). Al-Oriani foi o continuador do Sufismo de Ibne Cací, de Silves, que teve escola em Cacela (topónimo que lhe herda o nome), doutrina que ficou conhecida como Muridismo, de que foi continuador Abu Imrane, de Mértola. Assim, Al-Oriani e Abu Imrane situam-se na continuação do misticismo filosófico de Ibne Cací que, por sua vez, prolongou no Al-Garb a filosofia mística de Ibne Massara, de Córdova (9).

O Sufismo lusitano de Cací e dos seus continuadores orientava-se para a União (Tauh’id) com a Vontade Divina (Tauwacol),de maneira a obter a Iluminação Perfeita (Taçawwuh).Os dois aspectos de relevo da actuação doutrinária de Cací possuíam carácter messiânico: por um afirmava a visão restauracionista das origens, e por outro propunha os frutos futuros da teleologia, da parúsia e da escatologia (10).

Al-Oriani foi contemporâneo de D. Sancho I e terá caído prisioneiro dos Templários que com o rei efectuaram a Expedição do Algarve de 1189, altura em que se apoderaram de Silves, Alvor, Lagos e Sagres (11).

Não é de excluir, pois, a aproximação dos pensamentos eclesial-mesquital por via do ideário Sufi, tão bem conhecido dos Templários ultramarinos em Cruzada contra a Crescentada no Médio-Oriente, ambas numa “Guerra Santa” (Al-Fatah) pela posse de Jerusalém e os lugares santos da Tradição cujo simbolismo se traduz numa forma dinâmica de Iluminação. Esse Sufismo como Filosofia do Amor era muito bem aceite, apesar de forma velada, por muitos da Cavalaria cristã. Tanto assim foi que o cativeiro de Oriani mais pareceu uma digressão de mestre-escola!…

Ainda acerca da “Guerra Santa”, o significado primaz desta não era ignorado do Infante Henrique de Sagres, 8.º Grão-Mestre e Governador Geral da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois diz claramente numa carta dirigida ao seu sobrinho D. Afonso V (12):

«Contra quem se moverá (em guerra)?

«A isto respondo: contra infiéis, porque todas as coisas que fazemos devem ser por outrem ou por nós; deve fazer tal guerra por Deus, de quem é servidor, posto em ofício de Rei, defensor e punidor por sua lei, e deve desejar muito fazer-lhe serviço; as outras guerras dos cristãos poucas são em serviço de Deus.

«E por si (própria se vê) que tal guerra é (a) mais honrosa de todas, e na qual Deus mais o deve ajudar.»

O Sufismo, tendo brilhado nestas partes ocidentais através do Moçarabismo, é anterior ao Movimento Ashashin, pois que data dos meados do século VIII e terá influenciado esse último surgido em 1090. Os Sufis usavam um manto de lã, de modo igual aos ascetas cristãos, e, como pregadores, eram completamente opostos à Via Ascética (Azuhd); praticavam o Dhikr, repetição de palavras ou sentenças corânicas em louvor de Deus, e prescreviam três princípios universais: Faqr (pobreza absoluta), Twakkul (entrega confiante a Deus), Tauh’id (união com Deus), idênticos àqueles dos cristãos: Fé, Esperança e Caridade, unidos na Obediência da Regra donde sairá o Estatuto. No seu caminho para Deus, o Sufi passava por diversos estados místicos (Ah’wâl) e estações (Maqâmât). A União com Deus é fruto da Sabedoria de Deus (Ma’rifa). Sobre esta última não será desinteressante indicar que o termo Çûfi (Sufi), pelo valor das letras que o compõe equivale numericamente a el-hikmah-el-ilahiyah, que é dizer a “Sabedoria Divina”, afinal, a Teosofia.

Há um misticismo ortodoxo, Sunita, e um outro heterodoxo, Xiita ou livre. Foi este o mais frequente e expressivo, inclusive em Portugal (Bortuqal, em arábigo). O outro está documentado, por exemplo, no filósofo Algazel. As ideias de Algazel e da Confraria dos Irmãos de Pureza, sediada em Saleh, Egipto, comunicaram-se depois ao Ocidente por intermédio de Ibne Massara, que as trouxe para o Al-Garb.

A Abul Abas, nado em Loulé, liga-se o episódio de aparição de Kadir ou Akadir. Conforme o testemunho de Ibne Arabí, foi durante uma polémica em que se atrevera a contradizer o seu mestre Oriani, que lhe apareceu pela primeira vez a figura do Kadir (haveria de aparecer-lhe muitas outras vezes durante a sua vida, na Tunísia e noutros países do Médio-Oriente, mas essa foi a primeira), o que remete para o messianismo sufi e para os sinais místicos de Ibne Cací.

O Kadir é identificado pelos muçulmanos como um dos companheiros de Moisés e dão-lhe o nome de Beliah Ibne Fáligue ou Ibne Nuh (Noé), incarnando um esoterismo islâmico em que se compreendem ou sintetizam tradições hebraica e cristã relativas a Elias (Elion) e São Jorge (Akdorge). Segundo a lenda, Kadir terá descoberto a Fonte da Vida Eterna e bebido dela, pelo que não morreu e ainda é vivo, estando em parte incógnita tal qual o Iman Madhi da dinastia Al-Sabah que equivale ao sebástico Encoberto da tradição dos Lusos.

Kadir será a herança hagiográfica do aguadeiro Akadir que salvou de morrer afogado o menino que viria a ser o rei Sargon da Assíria(13).Apontado como Mestre Supremo da Fraternidade Jina de Kaleb,situada no Deserto da Líbia com jurisdição espiritual sobre todo o Médio-Oriente, detentor de outros mais títulos e interventor em outros mais episódios, inclusive aquele do Evangelho retratando o Mistério da Crucificação, terá tido uma manifestação deífica na pessoa do próprio Al-Oriani, Raio Espiritual de Marte, que como tal difundiu a doutrina messiânica da Guerra Santa (Al’Fattah) no Al-Garb e no Al-Andalus. Akadir o aguadeiro salvador do delfim, passou à hagiografia do santoral cristão na figura tradicional de São Cristóvão, que transportou o Menino Deus de uma margem para outra através dum caudal violento.

Quanto se conhece do pensamento de Oriani deve-se a Ibne Arabí, na Risalat al Quds (“Epístola da Santidade”) e no Futuhat (“Revelações”). Segundo José Garcia Domingues (14), Abul Abas terá nascido entre 1125 e 1150, sabendo-se pelo Futuhat que de facto era louletano: «Al-Oriani era de Uliâ (Loulé), no Ocidente do Ândalus».

Ainda de volta à primeira aparição do Kadir a Ibne Arabí, nada desindícia que não tenha acontecido exactamente em Loulé, que a essa divindade sufi poderá ter sido consagrada, conforme atesta o seu topónimo estudado pelo professor Batalha Gouveia (15): diz-se que D. Paio Peres Correia, Grão-Mestre da Ordem de Santiago, aquando da conquista de Loulé ao Islão tomou posições num outeiro fronteiro à cidade, que por tal motivo passou a ser conhecido como “Outeiro do Mestre”. Só que este outeiro já tinha o nome de “Mestre”, aqui entendido como Senhor. O nome deste cabeço está, pois, na origem do topónimo anatólico Ulu-Ah, “Outeiro ou Altar de Deus”. A Ulu-Ah foi anteposto o artigo árabe al, advindo desta forma as variantes diacrónicas e dialectais árabes Alulieh, Alolié e Alolé, tendo esta última, por aférese do a, passado à forma actual Loulé.

Curioso os árabes pronunciarem ainda hoje o “Outeiro do Altíssimo” nas variantes Djebel, Kjebel, Kjabal e Kadal, donde… Kadir. Este, por sua expressão real e guerreira, não deixa de ser equiparado no Islão ao Monarca Universal do judaico-cristianismo: Adonai-Tsedek, “Senhor das Nações”, prefiguração de Deus Espírito Santo.

É também no Período Árabe que se vê Paderne ligada a uma imagem matricial: Batirna, “Senhora das Águas” ou “do Poço”, o primeiro significado ligado ao selenita de Algibre, e o segundo à abundante nascente d’água subterrânea que parte do cabeço do castelo (onde ainda lá estão o poço e a mina entulhados de lama que, mesmo assim, não raro aparecem alagados), indo até Alte onde toma o nome de Fonte Santa, ligada a poética lenda arábiga que insere este castelo padernense no imobiliário algarvio das ditas, em termos arqueológicos, “peças de mouras encantadas”, que constituem formoso roteiro mourisco envolvendo o Alentejo e Algarve.

O inestimável Amigo Adolfo da Silva Cavaco, de Boliqueime, transferiu-me «em bruto» a Lenda do Castelo, recolhida oralmente por ele junto dos locais, pelo que é um inédito que nem Ataíde Oliveira possui no seu livro dedicado ao tema (16). Limitando-me eu a apurar ortográfica e linguisticamente o texto, é a seguinte A Lenda do Castelo:

Diz a lenda muito antiga, sussurrada em geração em geração,

que aos entardeceres solarengos de Verão,

uma jovem e bela princesa moura se vê subir por um desses carreiros,

pendendo ninguém sabe de qual das encostas,

que leva lá acima, ao castelo solitário, já sem pendão.

Fugindo aos humanos olhares, fugaz e encantada,

mesmo assim houve quem a visse, sentada,

em doce repouso à sombra amena de árvore frondosa,

penteando os seus longos e negros cabelos espraiando-se pelas costas,

como se fosse toda a África numa mulher,

a quem o encanto prende, a quem o encantador quer…

Vai e vem o pente, em meia-lua e de prata,

no gesto repetido e dolente,

de tão bela princesa moura cujo espelho é o rosto mostrando a saudade,

o desterro da liberdade ausente.

Quem a viu andar,

com pés pequenos, de gazela, leve e ligeira,

terá percebido nos seus passos nervosos a solidão a inquietar,

inquietação de quem espera,

espera que o tempo acabe

e chegue a hora de acabar desditosa encantação.

Quem atrás dela correu,

em alguma curva do carreiro a perdeu,

ainda assim insistindo a encontrá-la,

com grande serpente se surpreendeu.

Contam os velhos ainda vivos

o que lhes contavam os antepassados antigos:

numa tarde, talvez de São João,

um grupo audacioso entrou num túnel do castelo

e foi dar a salas mudas, mudas de solidão;

logo viram em sala mais além,

réstia de luz safar-se por porta entreaberta,

como quem espera por alguém,

entraram e viram a bela princesa a um menino

em berço deitado, embalar,

em gesto de mãe a sossegar o filho também encantado.

Ao seu lado um touro estava deitado,

E também uma serpente deitada,

perto do berço, vigiando estava enroscada.

Logo o terror nos valentes entrou,

muito mais quando a luz se apagou,

e tantos a fugir não se sabe qual o primeiro que correu,

qual o primeiro que escapou.

Na fuga precipitada em todos se apagou a memória da entrada,

e é assim que esta história pelos velhos é contada,

terminando em sermão ao jeito do rei Salomão:

– A quem quiser o castelo consertar a vontade se lhe haverá de quebrar,

ou uma voz lhe soará que morrerá se não parar,

pois o que o castelo tem debaixo só ele sabe quando deve mostrar.

“A Moura e a Serpente” são elementos comuns nas rotas das Mouras Encantadas. A primeira simboliza a Lua, e a segunda o Geotelurismo. O encadeamento diáblico da Alma lunar à Energia serpenteante no seio da Terra, alude sempre à Virgem (tradicionalmente iconografada sobre a meia-lua com a serpente aos pés), à Conceição ou Concepção, portanto, ao Feminino, ao Oculto, ao Subterrâneo, desde logo, à sacralidade matricial da coisa ou coisas geradas e paridas de dentro para fora, aqui figurado pelo castelo plantado sobre nódulo telúrico, e em cujo “palácio” subterrâneo a Virgem Mãe encantada ou encadeada à Terra por meio das “cadeias” ou anéis da telúrica serpens ou cola (como é uso chamá-la no Baixo Alentejo e mesmo em certas partes do Algarve), embala o seu menino, quiçá, em “berço d´oiro”, verdadeiro vaso canópico, presépio infernal, inferior, interior ou subterrâneo cujo infante é assim o Delfim Divino nos Infernos, guardado pelo venusto touro, símbolo da força solar ou activa da Terra, e pela serpente, designativa da força lunar ou passiva da mesma Terra, retratada em Paderne ou, como quer Ataíde de Oliveira, Paderna, feminino do Altíssimo Paternus, o Sol ou Apolo, neste caso, Apolónia ou Pátara.

Havendo uma mistura de elementos de religiões diversas na lenda exposta, creio-a assim de origem moçárabe, “cristã arabizada” ou “como que árabe” – o Cristianismo sob jugo Islâmico. Mas aqui invertendo as “regras do jogo”: o Islão “encantado” ou submetido à Cristandade, remetido aos infernos onde, apesar de tudo, continua a reinar e a dominar, como se fosse Lúcifer, o “Anjo Caído”… mas não submetido.

Ulu-Ah e Batirna aparecem referenciadas na Adh-Dhakhyra as-Sanyya, “Crónica Anónima dos Merínidas”, editada pela primeira vez em Argel em 1921, e referenciada pelo dr. José Garcia Domingues. Na página 76, lê-se: «Entregou Ibne Mahfot aos cristãos a cidade de Tavira e Loulé e Silves e Ajaz e Alcazana e Marsuxa e Paderne e Alfora».

Batirna nada mais é que a Paderne muçulmana, sendo herança toponímica da lácia Paterni, raiz genética do vocábulo actual.

Sendo posto-avançado de Loulé e fortificação quase inexpugnável, contudo o castelo de Paderne não resistiu ao ímpeto dos cavaleiros de Santiago comandados por D. Paio Peres Correia, tendo sido conquistado nesse ano distante de 1248, sobre o que diz a Crónica da Conquista do Algarve (17):

[Cap. X] Como o Mestre se lançou sobre Sylues em quamto seu rey Almafon era fora e como pelejou com ele e (lhe) tomou o lugar.

Per esta gujsa que aveis ouvido (a)prouue e Deos de dar a vila de Taujra em poder (aos Christaos) e d(e)spojs que a leixou (o Mestre) segura de todo o que lhe compria foy a Selir e tomou por força (e) entam foy çerquar Paderna (que he hum) castelo forte (e) muy boom de gran[de] comarqua em deredor antre Albufeyra e a serrae estando sobre ele mamdou gente[s] ao teermo de Sylues que fosem tomar a Tore destombar (que dante(s) fora sua) e foram la e ouueramna outra vez e quando Almofão seu Rey deles que estaua em Silues soube como aquela(s) campanha(s) aly erom sayo a eles do lugar com a majs campanha (que pode) porque lhe diserom que estaua aly o Mestre com todo seu poder e o Mestre como soube que era fora alçouse logo de sobre Paderna e veyose lançar sobre Silues. Almofon jndo pera (a)Tore destombar achou novas que nao era (al)y o Mestre e que nao (estaua aly) majs gemte que aquela que tomara a Tore e a defendyon porem qjs la chegar e (loguo muy) apresa se tornou pera a vila e loguo se temeo do que era e o Mestre lamçoulhe hua çilada (que) lhe tnha ja tomado as portas e as gemtes repartidas por elas e elRey Almofon chamom da Zoya porque era lugar desembargado encomtrouse aly com ho Mestre que tinha a guarda dela e elRey Mouro vinha com todolos seus jumtos e aly se vyo o Mestre com gramde trabalho com eles e foi a peleja (com eles) em hum campo se fora junto com a vila omde hora esta hua jgrei(j)a que se chama Samta Maria do marteres e os Moros fizerom muyto por cobrar a porta e se meterom sob(re) a Tore da Zoya que he bem saida e marcos pera fora majs esto nao lhe(s) prestou nada porque (os) Christãos andauom em volta com eles e asy entrarom com eles pela porta (da vila) e aly foy a peleja tao gramde em guysa que mais Christãos morerom aly que en outro lugar que se no Algarue tomase e elRey Mouro andou pela vila em deredor e qujserase acolher pelo postiguo da treição a hum alcaçar em que ele moraua e achou o postiguo foy pera se acolher per otra porta da vila e achoua e emtão de desesperação deu [d]as esporas ao cavalo e fogio e pasando por hum pego afogouse aly e o acharom de(s)pojs morto e (ag)ora chamom aquele lugar o pego de Almofom; dos Mourros que ficarom se acolherom ao alcaçar e (o) trabalharom de defender [em]quamto podiom e o Mestre (n)ao os qujs combater que segurouos que vj[v]esem (a vila) se quyjesem e aproueytasem suas herdades e lhe conheçesem (aquele) senhorjo que conheçyão ao Rey Mourro e asy [o] fez aos outros lugares que tomou e não combatiom os alcaçares em que se os Mourros se recolhyon mas segurauaos a que vivesem na(s) terras por serem aquelas (a)proveitadas e de(s)pojs foi aly hua jgreja catedral e foy feyta [a] çidade então se tornou o Mestre a Paderna que ante(s) tivera çercada e tomou a vila e o castelo por força e não (se) preytejarão com eles matando os Mourros por dous cavalejros Frejres que (a)hy matarom esta vila de Paderna se mudou (n)aquele lugar que agora chamom Albufeyra po(rem) ainda a otra esta murada e corrigida com seu castelo e hua cisterna muy boa dentro .

Perdida a Praça de Paderne, logo Ibne Mahfot perde a fortíssima Loulé em 1249, e aos poucos foi perdendo todo o Algarve até à Reconquista definitiva pelos Portugueses.

No século XIV, o Padroado de Loulé e Paderne passou da Ordem Militar de Santiago para a Ordem Militar de São Bento de Avis, por doação do rei D. Dinis ao Mestre D. Lourenço Annes, conforme atesta a carta régia de concessão datada de 1 de Janeiro de 1305, «aforando as terras de Loulé e Paderne à Ordem de Avis» (18).

Hoje, do castelo de Paderne nada mais resta que fragmentos de muralhas, uma porta ogival, uma torre quase reduzida aos alicerces e as ruínas esqueléticas da igreja. Nada se parece ao que foi… A Câmara Municipal de Albufeira pareceu interessada em recuperar o imóvel e devolver a dignidade possível ao que ainda resta, como soube em primeira mão pelo estimado amigo de longa data, Adolfo Cavaco, e em segunda mão através de Carlos Pinto Coelho, apresentador do programa televisivo “Acontece”, Canal 2 da RTP. Para acontecer, deve retirar-se as terras que se foram entulhando dentro e arredor da fortaleza nos últimos duzentos anos e decerto ficará à vista boa parte da estrutura interna daquele que foi o poderoso castelo almóada de Paderne. Sendo este estudo datado de 1996, posteriormente a ele a C.M.A. já lançou mãos à empresa, removeu os terrenos e procedeu a levantamento arqueológico no local (19).

Conclui-se, pela descrição feita em 1716 no Santuário Mariano, que este era «um castelo sem rival» (20), não só pela robusta factura das suas paredes feitas de formigão mais duro que as muralhas, como também pelo alcantilado do monte onde assenta.

É em forma de quadrado este edifício mourisco que ocupa toda a cumeada do imponente serro, em precipício sobre a ribeira. Paradigma da arquitectura militar de taipa em Portugal, este hisn ou fortificação rural almóada era cercado de valente cinta de muralhas e torres construídas com o mesmo cuidado e materiais. Duas dessas torres defendiam a porta principal, que ficava voltada a Este. No meio do recinto estão os restos da igreja de Nossa Senhora da Assunção, dita vulgarmente – Senhora do Castelo. Este templo (onde ainda se apercebe a traça inicial gótica, e que também possuía alguma coisa do manuelino) serviu de matriz à povoação, quando passou da posse do Crescente para a da Cruz (21).

Ter-se-á constituído então, em Duzentos, na igreja do castelo já não de Batirna mas de Paterna, vocábulo arrancado à glose gótica cristianizado como nome próprio de mulher, que por corruptela deu em Paderna e finalmente Paderne (22), uma albergaria para viajantes, a qual ainda funcionava em 1898 sob a administração do pároco da igreja actual, tendo de rendimento anual 16 alqueires de trigo e 4.800 réis em dinheiro. Mas 1858 é a data dada oficialmente como desactivação da fortaleza e começo do seu abandono praticamente até ao final do século XX.

Sobre o imóvel em causa, tive oportunidade de dizer ao caríssimo Adolfo Cavaco, em carta datada de 22.01.2002:

«Tudo quanto até ao momento escrevi sobre o “Algarve Mítico ou Sagrado”, direi assim, está disperso por capítulos de livros e artigos de revistas. Portanto, posso rematar que nunca escrevi um livro tratando única e exclusivamente do Allah-Garden, sim, “Jardim de Deus” neste continente plantado no seu mais ocidental rincão à beira do “Fim do Mundo”, do Finis-Terrae… onde começa o Mar Oceano de todos os Mistérios, que é onde a Vida e a Morte se fundem num só princípio: a Imortalidade. Sim, tanto para o Povo como para a Província onde o mesmo coabita.

«Grande foi a Honra e Glória de Paderne, tanto que D. Afonso III, concluindo a conquista do Algarve, adicionou às Armas de Portugal sete castelos de ouro em campo de sangue. Estes castelos, representando os principais tomados aos árabes no Algarve, são: Estombar, Paderne, Aljezur, Albufeira, Cacela, Sagres (Vila do Bispo) e Castro Marim. À medida que ia conquistando à moirama as suas praças, ia aumentando o número de castelos, tendo chegado a ser dezanove, até que com D. João I foram reformuladas as Armas do Reino. Honra-se, pois, Paderne do seu castelo figurar nas Armas de Portugal.

«É assim que me remeto às ditas e pressupostas “12 Tribos Iniciáticas do Algarve” (sic), que antes devera ser iniciatórias de um ciclo racial, pois que nada mais seriam que os celtas do Sul, antes dito, cinetes, os famosos cónios, cúneos ou cuneus pós-atlantes, portanto, dos finais da Proto-História, indo abrir a História por meio da «invenção» da escrita. Vieram habitar esta parte extrema do continente provindos das bandas da antiga Fenícia, afinal, os cananeus ou caneios a que pertencia o próprio Hiram I de Tiro e o grão arquitecto do Templo de Salomão, Hiram Abiff.

«Esses Tuatha De Danand originais, esses ligures (de li-guru, “mestre de mar” ou “de marear”) navegando ao longo do Mediterrâneo (e os fenícios foram os maiores navegadores da Proto-História), trouxeram consigo as ciências, as artes, inclusive a bélica, e artefactos, além dos cultos zoo e antropomórficos aos deuses primordiais, com destaque para o touro (aí, próxima a Boliqueime, existe a povoação de toponímia Tor), o carneiro e a divindade lunisolar Baal-Astarté, Baalina ou Belina.

«Em breve terrenos férteis, de boas águas e óptima posição defensiva, além de coordenadas geocelestes exactas propiciatórias a cultos determinados, como a astro-arqueologia pode comprovar, viram florescer povoados fortificados em volta de templos cuneus ou cananeus, por todo o espaço da actual Província algarvia, então a Novis Phoenicia ou “Terra Vermelha”, para não dizer “Púrpura”, cor sacramental cuja invenção se deve aos fenícios/cananeus (consultar o Livro dos Reis constante da Bíblia), chegando a haver várias “fábricas de púrpura” no presente solo português, elemento esse que se extrai do molusco “murex”, uma delas julgo que na Quarteira, como prolongamento fluvial de… Paderne.

«Pois bem, essas “12 Tribos” originais dispunham-se nos seguintes lugares do espaço algarvio: Sagres, Castro Marim, Cacela, Aljezur, Estombar, Albufeira, Portimão, Lagos, Faro, Quarteira, Tavira, Paderne. Ateste-se que em todos os lugares citados há referências fenícias, melhor dito, cónias… que subindo para Norte, vieram a fundar Cola e Colos, no Alentejo, mas destacando-se sempre a famosíssima Conímbriga, no actual Distrito de Coimbra, aí já mesclados com a recente presença romana.

«O castelo medieval de Paderne, de que só existe o excerto humilde e bastante alterado entre os séculos XVI-XVIII, por sua importância estratégica no contexto militar e também socioeconómica, o que lhe valeu menção destacada em quase todas as crónicas antigas, deveria ser não o humilde excerto hoje visível, e em certas partes com “um quê” de muito recente limitando a noção “de antigo”, facto devendo-se à albergaria que foi até finais do século XIX, um imóvel imponente que estenderia o seu lanço de muralhas muito para além do actual avistado, possivelmente até ao Castelo Velho, topónimo assaz sugestivo. Já o termo Formigão, que também é topónimo, significa aqui “mistura” de elementos diversos, decerto de ordem mineral.»

Hoje, quem contempla essas magníficas ruínas sente confranger-se-lhe o coração pela decadência de certos portugueses que, para em tudo demonstrarem o quanto se abastardaram, nem sequer prestam ao Passado um simples preito de veneração.

Que os ventos de mudança soprem rijo e sejam as autoridades competentes as primeiras a dar o exemplo de não vergonha do Passado que fez Portugal, o Bortuqal arábigo, mas antes motivo de orgulho em ser Português e tendo como máxima que “nem só de pão vive o homem”; ademais, ninguém gosta de ver perder-se inutilmente o seu Passado e assim as suas referências históricas igualmente sendo as familiares, estes ramos vitais da grande Patrologia Lusitana.

Com este voto último, tenho dito.

NOTAS

1) Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do Autor subsidiada pelo Município de Loures, 1994.

2) António Lopes Pires Nunes, Dicionário de Arquitectura Militar. Caleidoscópio, Casal de Cambra, 2005.

3) Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica), p. 176. Lisboa, 1961.

4) José Víctor Adragão, Algarve, p. 138. Editorial Presença, Lda, Lisboa, 1985.

5) Batalha Gouveia, O topónimo Quarteira. Lisboa, 27.9.1983.

6) Juan Atienza, Santoral Diabólico, p. 441. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

7) José E. Horta Correia, A Arquitectura Religiosa do Algarve de 1520 a 1600, p. 34. Publicações Ciência e Vida, Lda, Lisboa, 1987.

oito) Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa, p. 218. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

9) José Garcia Domingues, Portugal e o Al-Andaluz, p. 218. Hugin-Editores, Lda, Lisboa, 1997.

10) Pinharanda Gomes, ob. cit.

11) Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Setembro 2007.

12) Conselho do Infante Dom Henrique a seu sobrinho El-Rei Dom Afonso V. Edição limitada, numerada e rubricada, de e por Ângelo Pereira. Exemplar N.º 67. Lisboa, MCMLVIII (1958).

13) Henrique José de Souza, Ocultismo e Teosofia, p. 124. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1983. E do mesmo Autor, Preâmbulo. In revista “Dhâranâ”, Ano XII, Nº 103, 1940.

14) José Garcia Domingues, ob. cit.

15) Batalha Gouveia, O topónimo Loulé. Lisboa, 8.12.1981.

16) Francisco Xavier D’Ataíde Oliveira, As Mouras Encantadas. Edição “Notícias de Loulé”, Janeiro 1996.

17) Crónica da Conquista do Algarve. Texto restituído pelo professor Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, volume XXXVIII. “Boletim de Trabalhos Históricos”, 1987.

18) Livro III de El-Rei D. Dinis, de Forais e Doações – fl. 36. Registo do Arquivo Real, Torre do Tombo, Lisboa.

19) Tendo eu enviado à Câmara Municipal de Albufeira uma cópia integral do texto deste estudo em Junho de 1998, em representação da mesma C. M. A., o Exm.º Sr. Vereador do Pelouro da Cultura, José Geraldes Simões, dirigiu-me uma carta, datada de 22 de Junho de 1998, de que extraio o seguinte excerto:

«A Câmara Municipal de Albufeira apresenta a V. Ex.ª os seus melhores cumprimentos, acusa a recepção e agradece a carta de 10/6/98.

«Relativamente ao assunto citado em epígrafe, tenho a informar V. Ex.ª que a partir de meados do próximo mês de Julho irão decorrer no local os seguintes trabalhos: (1) desentulho em alguns locais, no interior do recinto fortificado; (2) prospecção arqueológica pelo Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra. No sentido de assegurar a manutenção do imóvel, na sua relação privilegiada com o meio envolvente, foi fixada uma Zona Especial de Protecção por despacho de Sua Excelência o Ministro da Cultura, a 19 de Março de 1998. Desta forma a área abrangida por esta Zona Especial ficará sujeita às disposições legais em vigor (…).

«Mais se informa V. Ex.ª que toda a zona envolvente à Ribeira de Quarteira está em vias de ser classificada pelo ICN como Área de Paisagem protegida, integrando os Bens Culturais e Naturais. Por outro lado é pretensão desta Autarquia promover acções que proporcionem o desenvolvimento de uma Galeria Rípicola nesta ribeira, enriquecendo as suas margens com uma maior diversidade de espécies animais e vegetais características da zona em questão.

«Esperamos desta forma proporcionar ao público um local aprazível, onde, em contacto directo com o espaço natural, possa aumentar a sua sensibilização para os problemas de conservação da natureza, defesa do ambiente e protecção do Património que constitui o testemunho das diversas formas de relacionamento do Homem com o Meio ao longo do tempo.»

Segue rubrica e assinatura: José Geraldes Simões.

Se tudo isso é para cumprir, levar à consecução, e hoje parece que parte já foi cumprido, ao inverso das costumeiras vãs promessas políticas, só me resta aplaudir: Muito bem! Bravo!

20) O Domingo Illustrado (Archivo de Historia Patria), 2.º volume, n.º 83, Junho – 1898.

21) Helena Catarino, O Castelo de Paderne (Albufeira): Resultados da Primeira Intervenção Arqueológica. In Arqueologia Medieval, n.º 3, Afrontamento, Porto, 1994.

22) Ataíde Oliveira, Monografia de Paderna ou Paderne. Porto, 1910. Reedição em 1989 por “Algarve em Foco Editora”, Faro.

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