O menir de Pedralbes

 

Há mais de 7000 anos, no Neolítico, os povos antigos construíam “caixas” (arcas) para realizar os enterros e erigiam, com grandes pedras, dólmens que serviam depositar dentro deles, individual ou colectivamente, os seus mortos. Estes primitivos monumentos líticos serviam dessa maneira para cultos mágicos de natureza necrolática, e quando próximos de menires ou enormes pedras erectas reflectindo falo masculino, destinavam-se a captar as energias telúricas e utilizá-las em seu próprio benefício, geralmente com finalidades agrárias ou a ver com as semeaduras e colheitas em solo fecundo. Com a passagem do tempo e a evolução da sociedade humana, muitas das primitivas “arcas” sepulcrais acabaram dando nome às zonas onde estavam instaladas, como se repara no caso do bairro barcelonês do Camp de l´Arpa, “Campo da Arca”, referido no documento de 1037 do Cartório de Sant Cugat del Vallés, com a forma ad ipsa archa, onde se utilizava este monumento funerário para definir os limites territoriais.

Com efeito, de todas as cidades catalãs a de Barcelona seria a mais rica em dólmens, menires e outras estruturas megalíticas, apesar da maioria delas se ter perdido com o tempo, excepto o menir de Pedralbes que foi enterrado e só se vê a ponta extrema, sendo motivo de espanto e interrogação sobre o que será essa estranha pedra.

Na Idade Média, o mosteiro de Pedralbes estava cercado por uma forte e espessa muralha da qual, actualmente, só se conservam duas torres de vigia e duas das portas de acesso, uma a este e outra a oeste. Precisamente no meio da porta oeste da desaparecida muralha há uma pedra que será um dos vestígios mais antigos de Barcelona: trata-se do Menir do Anjo. Possivelmente os mestres-de-obras que levantaram o mosteiro respeitaram e integraram este antigo lugar sagrado poupando o menir, assim servindo de referência para a energia concentrada dentro do edifício religioso. A lenda diz que quem der uma forte cabeçada nessa pedra ouvirá dentro dela os anjos a cantar. Se é verdade ou não, fica a certeza ao cuidado de quem experimentar…

Dentre outros significados, o menir parece ter desempenhado um papel de guardião de sepultura, e geralmente era colocado ao lado ou abaixo “arca” mortuária. A pedra tem o atributo de proteger contra os animais, os ladrões e, sobretudo, a morte, pois nos mesmos moldes de incorruptibilidade da pedra, a alma do defunto devia subsistir indefinidamente sem se dispersar. O eventual simbolismo fálico das pedras pré-históricas confirma esse sentido, por o falo ser símbolo masculino da existência, da força e da duração, e desta maneira, postado junto da “arca”, igualmente de protecção e vigilância.

Para Júlio César, os menires eram simulacros do deus Mercúrio, tal como as colunas quadradas eram do deus Hermes, ambos os deuses intermediários ou psicopompos entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Nas tradições celtas, esses cenotáfios ou estelas funerárias eram adornadas em honra dos grandes druidas no limite da terra dos vivos, diante da planície feliz onde sobrevivem os mortos. Essa aparição da pedra, litofania, evocava a permanência incorruptível de um poder superior e de uma vida intemporal. Nisto, a pedra aparenta-se ao simbolismo da árvore da vida e ao eixo do mundo por sua condição de inalteráveis.

Regista-se também estátuas-menires masculinas e femininas, ornamentadas, cujo sentido tradicional é o de fogo e fecundidade, encontrando-se também nisso o binómio morte-vida, ou seja, o fogo que consome e a fecundidade que gera. Portanto, o significado geral do menir será o de guardião da sepultura e da vida.

Além do Menir do Anjo, sobrevivem referências históricas a outros monumentos megalíticos em Barcelona, apesar de desaparecidos com o tempo. Junto ao Rio Besós, diz-se que existiu um dólmen que estava junto da igreja paroquial de Sant Martí Provençals, sobre o qual se erigiu esse precioso templo românico. Também muito próximo do actual jardim botânico de Montjuic encontrava-se um outro dólmen. Este megalito ainda estava poderosamente levantado na segunda metade do século XIX, junto ao caminho que subia para a enorme fortaleza que coroa a montanha, perto das ruínas da ermida de Sant Antoni, e foi destruído nas últimas décadas desse século. Diz-se que no centro da pedra estava gravada uma cruz, provavelmente obra feita a posteriori por algum religioso da época.

Onde hoje está a estátua de Santa Eulália, na Plaza del Pradó (“Padrão”), existiu um menir de proporções consideráveis, que os romanos conservaram com o propósito de utilizá-lo para delimitar a Via Augusta que unia a capital imperial com Tarraco, e que passaria pelas actuais ruas de Pere IV, Hospital, Mistral e Creucoberta.

Um outro menir estaria situado nas imediações das Ramblas, no pátio interior dum edifício próximo à fonte de Canaletas. O lugar era conhecido como o “Pati del Carall” (pela forma fálica do menir) e foi famoso até aos inícios do século XX. Actualmente desconhece-se o seu paradeiro, apesar do famoso folclorista catalão Joan Amades, no seu livro Histories i Llegendes de Barcelona, situá-lo no número 11 da famosa rua Tallers, com o nome de “Pati de Sant Sever”, descrevendo-o como “um lugar de vício e de bebida, centro de reunião de estudantes e de soldados”. Afirma que no centro do pátio, ao lado da taberna, alçava-se uma pedra a modo de fonte. Não é de descartar que essa pedra fosse resquício do tão procurado monumento megalítico. Actualmente, no número 11 da rua Tallers está instalado um famoso cabeleireiro.

Diz a lenda que António Gaudí começou a sua obra magna da catedral da Sagrada Família num enclave marcado pelas forças telúricas da Mãe Natureza, em sua época não cristã. Uma marca situava o lugar exacto, e esta marca era um dos poucos dólmens que restavam na Barcelona do século XIX. Actualmente é a cripta onde está sepultado Gaudí, o místico que foi o grande génio da arquitectura catalã.

 

O túmulo iniciático de Batló

 

O jazigo da família Batló está no cemitério de Montjuic e atrai as atenções pela imponência das suas formas e decoração. Certamente causará estranheza a muita gente as figuras insólitas deste jazigo inspiradas nos símbolos da Tradição Antiga e que parecem transmitir um mundo revelações ocultas.

No topo do jazigo tem-se sobre um pedestal o Anjo da Morte, tendo na sinistra a foice na sinistra e com a destra levanta a taça. Representa o Guardião das Almas que é igualmente o Guia das mesmas na derradeira viagem da Terra ao Céu, da morte corporal à imortalidade espiritual, sendo a foice, semelhante ao signo astrológico de Saturno, indicativa da dor prostrada (por isso está declinada, assinalando o corpo prostrado, colhido ou de vida falecida, finada), enquanto o cálice, fazendo as vezes de ampulheta, indica a saudade, sentimento de amor perdurando no tempo nas gerações descendentes dos finados.

A iconologia do Anjo soberano sobre o jazigo remete para o simbolismo grego do deus Cronos ou o Saturno dos romanos, que na tradição religiosa órfica aparece livre das suas cadeias reconciliado com Zeus ou Deus, o Supremo Eterno, representado por Júpiter, no topo do panteão dos deuses paradisíacos de quem os mesmos descendem. Cronos, o Tempo, habita com Zeus, o Intemporal, na Ilha dos Bem-Aventurados, o Olimpo ou Campos Elísios que no Cristianismo é identificado ao Paraíso Divino, e no Judaísmo à Jerusalém Celeste. Por isto Cronos, depois de todos os seus suplícios mortais reflectidos pelas atribulações da vida de todo o ser humano, passou a ser considerado um deus bom e o primeiro a reinar sobre a Terra e o Céu, fundando a Arcádia ou Idade de Ouro, como sendo a primeira manifestação divina do Criador, enquanto a última do Final dos Tempos será a do regresso da mesma Idade de Ouro mas presidida por Júpiter, tendo imediatamente abaixo Saturno que, astrologicamente, é considerado o aspecto inferior daquele planeta, chamando-se à conjunção dos dois esplendor celeste.

Com isso se relacionará a atribuição tradicional do etimólogo catalão Montjuic, ou seja, “Monte dos Judeus”, motivada pela existência, confirmada pelos documentos e a arqueologia, de um cemitério judeu nesta montanha que, na Idade Média, fez parte dos domínios da Ordem do Templo. Igualmente contempla-se a possibilidade deste topónimo recuar ao período romano e advir da forma latina Mons Iovis, ou seja, Monte de Júpiter, nome mencionado por Pomponio Mela na sua Corografia.

Ladeando a entrada no jazigo, têm-se sobre colunas dois Anjos, o da esquerda, de quem olha de frente, com o círio representativo da ressurreição espiritual. É assim que as velas que ardem nos quatro cantos angulares junto a um defunto (devendo haver mais três sobre o altar, representando a Santíssima Trindade) simbolizam a luz da alma em sua força ascensional, a pureza da chama espiritual que sobe para o Céu, a perenidade da vida pessoal que chega ao seu zénite. A aura circundando a cabeça deste Anjo masculino forma a letra grega ómega, que quer dizer “fim”, e dentro dela desenham-se sete estrelas, representando os Sete Espíritos diante do Trono de Deus (Mikael, Gabriel, Samael, Rafael, Sakiel, Anael, Kassiel perante o Eterno), ou sejam os Sete Arcanjos emissários de Deus junto da Humanidade que os evoca para que Deus interceda através deles beneficiando-a de quanto necessita mental, emocional e fisicamente, pois que Deus e a Sua corte de deuses tudo podem tanto na vida, como na morte e na imortalidade do Homem, conforme descrevem as escrituras sagradas judaicas e cristãs, e também islâmicas, para não falar nas milenares tradições religiosas do Extremo Oriente.

À direita, de quem olha de frente, tem-se o Anjo feminino com uma palma florida circular, repetindo-se o tema da ressurreição da alma. As palmas de Ramos, equivalendo ao buxo europeu, prefiguram a Ressurreição de Cristo após a tragédia do Gólgota; a palma dos mártires tem o mesmo significado e assim ficando a tradição de depor palmas de flores junto aos corpos falecidos. Tem-se assim que o pé de buxo significa a certeza da imortalidade da alma e da ressurreição espiritual dos mortos.

Aos pés dos Anjos, estão mochos, estas as aves da noite áugures do mistério do advir, sendo igualmente simbólicas da prudência e da sabedoria. A prudência representada pelo Anjo feminino, que equivale ao silêncio dos fiéis; a sabedoria assinalada no Anjo masculino, prerrogativa da luz dos sábios.

Sobre a porta do jazigo, a guisa de listel, vêem-se duas asas abertas de águia tendo ao centro, inscrito num círculo, o Crisma ou iniciais gregas do nome de Cristo. Assinala a presença do Espírito de Cristo como Segunda Pessoa ou Hipóstase do Logos Eterno acolhendo em Si quantos transpõem este portal da morte para aí terem a última morada e repouso eterno na paz dos justos.

Sobre a família Batló, sem dúvida que o membro mais destacado foi o seu patriarca José Batló Casanovas, importante industrial têxtil barcelonês no final do século XIX e inícios do seguinte. Relacionou-se com o arquitecto Antoni Gaudí (1852-1926) que foi o representante máximo do modernismo catalão, próximo da arte neogótica em que também foi mestre e a qual se distingue pela forte carga simbólica religiosa, como se vê neste jazigo fúnebre que não sendo neogótico todavia impressiona pelo modernismo dos seus símbolos eternos, cuja arquitectura revela uma simbiose perfeita entre Tradição e Inovação na mais singular ou original solução e cuja mensagem final subentendida revela-se eterna aos vivos defrontando-se com este jazigo enigmático.

 

A igreja “mitraica” de Saint Just i Pastor

 

A igreja dos santos Justo e Pastor é das mais antigas de Barcelona e possivelmente a melhor conservada. Foi o primeiro templo barcelonês consagrado ao Deus Verdadeiro do Cristianismo, como reza a tradição local fazendo recuar a sua origem ao século IV, apesar de só estar documentado desde o ano 801, quando o rei franco Luís o Piedoso impulsionou a sua reconstrução, e a advocação actual está testemunhada desde o século X.

Este templo foi cedido pelos esmoleiros de Mir, no ano 985, na catedral da cidade com todos os bens, dízimos, primícias e direitos paroquiais. A sua construção, como se pode ver actualmente, começou a 1 de Fevereiro de 1342 e prolongou-se até 1574. Foi o último dos grandes templos góticos de Barcelona, e em 1948 o Papa Pio XII outorgou-lhe o título de basílica menor.

O que distingue esta igreja das outras é o facto de estar assente sobre um primitivo mitreo ou templo mitraico romano, onde se cultuava o deus solar Mitra que depois os cristãos identificaram a Cristo, resgatando para este todos os atributos e símbolos daquele, inclusiva a mitra que os bispos levam na cabeça. O antigo mitreo subterrâneo passou a ser, desde cerca do ano 65 d. C., um hipogeo onde os cristãos perseguidos pelas autoridades romanas se escondiam para celebrar os Mistérios Sagrados e receber os Santos Sacramentos. É assim que a crença popular indica que sob o recinto da actual igreja existe um labirinto subterrâneo onde os primeiros cristãos se reuniam em segredo. Eles iam ali recolher o sangue e as cabeças dos mártires imolados, num anfiteatro romano que ficava próximo desta igreja, com o fim de rezar pelas almas dos mortos. Essa cripta foi fechada em 1723, quando se construiu a sepultura comum para depositar os cadáveres dos beneficiados de São Justo, segundo a descrição do reitor D. Francisco Gloria y Bosch. O pavimento da cripta era em mosaico de pedras brancas e azuis.

Cabe explicar que a perseguição e a morte dos cristãos terminou no ano 324 com a conversão do Imperador Constantino, baptizado pelo Papa São Silvestre, e desde então pôde começar-se a construir às claras igrejas nos lugares onde antes os fregueses ou “filhos da Igreja” se reuniam em segredo.

Esta igreja dos santos Justo e Pastor erigiu-se sobre o antigo templo românico onde havia a capela de São Celónio. Este Celónio quer dizer Sol, Ser Solar, e nisto identifica-se plenamente ao significado de Mitra, o Deus Solar, cuja celebração foi a mais importante da Antiguidade mediterrânica e os seus Mistérios eram em tudo idênticos aos de Cristo, desde ter nascido de uma Virgem, predicado o culto da Pureza e Sabedoria até ser morto e ressuscitar três dias após a sua Paixão.

Advirá desses tempos antigos o culto prestado à Virgem Negra que hoje aqui se celebra, como Nossa Senhora de Montserrat, desde quer no século XII os beneditinos e templários o promoveram em Barcelona. Essa imagem milagrosa pode muito bem ser a versão cristã da Virgem Imaculada Mãe de Mitra, ou seja, Anihata ou Anahita, e igualmente da Deusa-Mãe Ísis, a Virgem Negra simbólica da Sabedoria Divina cujo culto os romanos herdaram do Egipto e trouxeram para a Europa, mormente para a Península Ibérica. Montserrat será assim o “Monte Cerrado”, espécie de cripta ou hipogeo onde se celebram os mistérios iniciáticos da Mãe Divina. Por isso Ela é negra, cor do ausente ou escondido.

Os santos Justo e Pastor, também conhecidos como os Santos Meninos, segundo o hagiológio nasceram em Tielmes (Madrid) e foram os mártires hispano-romanos executados no ano 304 em Alcalá de Henares por ordem do governador Daciano, durante a perseguição do imperador Diocleciano. Justo e Pastor, que contavam com 7 e 9 anos de idade, respectivamente, haviam se negado a abjurar ao Cristianismo. Também este santos poderão ser a adaptação greco-romana dos dióscuros ou “gémeos divinos” Pólux e Castor, isto é, Justus e Pastor. Esses dióscuros eram filhos de Zeus ou Deus, que agraciou Pólux com o dom da imortalidade. Por serem inseparáveis, quando Castor morreu Pólux recusou a imortalidade enquanto permanecesse separado do seu irmão. Então ficou decidido que os dois irmãos passariam metade do ano juntos no Mundo Subterrâneo da Terra e a outra metade no Céu, onde Zeus transformou e dispôs Castor e Pólux na constelação de Gémeos.

Esse posicionamento alternado no Mundo Subterrâneo e no Céu, igualmente enquadra os santos na dupla categoria simbólica de irmãos e meninos. Como meninos irmãos, além de abundarem na iconografia helénica da dupla figura dos supracitados meninos Castor e Pólux, são também representados entre os latinos como Rómulo e Rémulo amamentados pela Loba Itálica, lenda esta reportando à transmissão da sabedoria ancestral representada pela amamentação de crianças gémeos pela Loba ou Lupe, ou seja, a “Noite”, indicativa do que está oculto, cerrado como Ísis por detrás dos seus véus. No Cristianismo, Jesus chama de irmão a João, já no Calvário, e repete-se a tradição dos “gémeos divinos”, que depois se repetirá mais uma vez em Justo e Pastor. Os gémeos são sempre representados como realizadores de gestas sobre-humanas, heróis mareantes aparecendo não se sabe donde e agindo como uma espécie de guias ou manus, iniciadores de civilizações e fundadores de cidades: Rómulo e Rémulo fundam Roma; Castor e Pólux iniciam a civilização helénica; os dióscuros galos, Momoros e Atepomaros, fundam Lugdunum (Lyon); Justo e Pastor morrem antes de terem crescido, porém são a origem da grandeza de Complutum (Alcalá de Henares), e sob a sua advocação é fundado o outro Compludo do Bierzo.

Resta ainda outra circunstância a considerar. Na mitologia celta irlandesa existem irmãos “de leite”, gémeos não genéticos e sim de educação comum, numa espécie de irmandade eleita ou de iniciação compartilhada, com um fim determinado. São aqueles que, iguais a dois cabalistas, haverão de alcançar o grau mais elevado do conhecimento trabalhando unidos na interpretação do mistério da semântica sagrada, tornando-se capacitados para aceder aos mistérios mais elevados da Tradição Sagrada graças à união dos seus esforços conjuntos. O diálogo entre os dois meninos mártires, Justo e Pastor, narrado nas actas e que Santo Ildefonso reproduz, não é mais do que uma versão – ao cristão e ortodoxo – dessa força redobrada: “Com gosto te farei companhia no martírio, para alcançar contigo a glória desse combate”, responde pressurosamente Pastor aos ânimos que lhe dá Justo. A consequência só poderá ser, necessariamente, o prodígio, traduzido aqui no reconhecido poder sobre a Natureza, reconhecendo-se nesta igreja da Virgem Negra e dos Santos Meninos o testemunho incontestável da energia de ordem sobrenatural capaz de actual directamente sobre a matéria e originar os maiores prodígios que o povo chama de miraculosas intervenções divinas.

Conclui-se que a hagiografia de Pólux e Castor é essencialmente a mesma da dos santos Justo e Pastor, nas suas linhas gerais. Diversos autores afirmam que o mito dos santos Justo e Pastor não é outra coisa que a cristianização do culto a Pólux e Castor, irmãos que se queriam mutuamente por um grande amor fraternal, tal como os meninos santos Justo e Pastor. E tal como Castor morreu primeiro, assim também aconteceu com Pastor. Posto no céu por Zeus, segundo a mitologia, Castor é realmente um conjunto de 13 astros. Pois bem, nesta igreja de Santo Justo e Pastor vê-se no seu tecto 13 escudos com águas simbólicas, e curiosamente, ao unir-se esses 13 escudos entre si, de forma imaginária, aparece a constelação de Gémeos – Pólux e Castor.

 

Santa Maria do Mar, a catedral dos grémios

 

A basílica de Santa Maria do Mar é o mais notável exemplar espanhol da arquitectura sagrada deixada pelos monges-construtores medievais que constituíram, por assim dizer, a primitiva Maçonaria Operativa.

Edificada sobre um antigo anfiteatro ou arena romana entre 1329 e 1383, esta igreja gótica catalã, situada no bairro da Ribeira, foi obra dos mestres construtores Berenguer de Montagut (o desenhista principal do edifício) e Ramón Despuig, tendo em 1929 recebido o título de basílica menor outorgado pelo Papa Pio XI.

Parece que na construção desta basílica menor de Santa Maria do Mar participou activamente toda a população da Ribeira, especialmente os descarregadores do cais, chamados calafates da Ribeira ou bastaixos, os quais carregavam as enormes pedras destinadas à construção da igreja desde a pedreira real de Montjuic e desde as praias onde estavam os barcos que as traziam para Barcelona, até à mesmíssima Praça do Borne, carregando-as às costas uma a uma. A porta principal da igreja homenageia os bastaixos que ajudaram na sua construção, a partir da primitiva capela de Santa Maria das Areias que se desenvolveu até tornar-se nesta majestosa e impressionante catedral catalã.

De acordo com a geografia sagrada barcelonesa, esta basílica de Santa Maria do Mar é um dos vértices do triângulo equilátero formado pela disposição estratégica de três templos emblemáticos de Barcelona: este mesmo templo mariano, a catedral da cidade e a desaparecida igreja gótica do convento de Santa Catarina, e foi por isto que até recentemente Barcelona era conhecida como “a cidade das três catedrais”, estas apontando uma espécie de geografia sagrada no mapa da cidade sob a égide da Deusa Mãe, por os três templos terem por oragos santas representativas, no hagiológio ou santoral, do próprio Eterno Feminino assinalado no topónimo aramaico Bargala, latinizado Barcala, donde se originaria Barcelona, ou seja, a “Filha (bar) do Monte Sagrado (callus)”, muito possivelmente apontado por Montjuic, onde se reuniram as primeiras populações barcelonesas.

A catedral de Santa Maria do Mar não tem par em toda a Europa, pela igualdade das suas naves e a separação de 15 metros entre os pilares, inclinando-se para a ideia de espaço único apesar de constituir-se de três naves. Segundo o historiador de Arte, José Bracons, a unidade de medida básica utilizada em Santa Maria del Mar era o pé medieval de 33 centímetros. Medidas dessa maneira, as capelas laterais da catedral têm 10 pés de comprimento, enquanto a largura dos corredores laterais são o seu dobro, apesar do corredor central ser quatro vezes mais comprido que as capelas, ou seja, ter 40 pés. A largura total da igreja é assim 100 pés medievais, que também é igual à altura máxima do edifício.

Este templo revela-se uma maravilha gótica e um prodígio da matemática e geometria sagradas herdadas pelos grémios medievais da ciência pitagórica em voga na ocasião; toda a igreja constitui-se num jogo numérico perfeito em que toda a sua simbologia está calculada até ao mínimo detalhe. Cada peça encaixa com perfeição formando um puzzle perfeito em que se desenha um quadrado onde se pode inscrever uma circunferência, vindo a constituir a quadratura do círculo, teoria geométrica cuja ideia é a de envolver o quadrado da terra pelo círculo do céu, ou seja, o espaço humano dos fiéis pelo intemporal da presença Divina.

É por isso que o estilo arquitectónico desta basílica plasma perfeitamente a ideia de que “Deus é Infinito e Eterno” (Omnipotente, Omnisciente e Omnipresente), e daí encontrar-se nas suas portas o Cronocrator ou Cosmocrator, termo grego utilizado na liturgia bizantina para definir o “Criador e Governador do Universo”, Aquele que está acima de todo o Tempo e de todo o Espaço. Esse sentido cósmico dado pela planta do templo, é reforçado pela presença dos símbolos zodiacais gravados nas vigas das portas, transmitindo a ideia de passagem do mundo humano limitado ao espaço ilimitado repleto de estrelas e constelações criadas pelo Cosmocrator.

Também chamada “catedral dos grémios”, Santa Maria do Mar conta com quatro portas que simbolizam os quatro tempos do ano litúrgico: ciclo do Natal (celebração do Nascimento de Cristo), ciclo da Páscoa (celebração da Morte e Ressurreição de Cristo), ciclo comum (celebração dos Mistérios de Cristo) e ciclo santoral (celebração dos santos da Igreja).

Falando de portas, as duas laterais são chamadas Puerta de los Sombreros e Puerta de los Morereros, sendo aquela a mais antiga, e a mais nova é a Puerta de Born. Esta última conta com várias esculturas de carregadores (bastaixos), e que é uma clara homenagem dos canteiros àqueles que transportaram as pedras da pedreira de Montjuic. Uma tradição gremial, conta que a construção da igreja de Santa Maria do Mar durou tantos dias quantas pedras tem. A cada manhã, os canteiros lavravam uma pedra nas faldas de Montjuic e os bastaixos carregavam-na até ao lugar da obra, e aí os mestres pedreiros colocavam-na no lugar correspondente.

Santa Maria herda o título de Senhora do Mar porque desde o primeiro momento os marinheiros e pescadores de Barcelona se encomendam a Ela e Nela buscam refúgio seguro nas horas de aflição no mar revolto. Prerrogativa carmelita herdada do episódio bíblico ocorrido com o profeta Elias que invocou as “águas celestes” para caírem sobre Jerusalém num tempo de grande seca, no que foi atendido pela Misericórdia Divina a quem apodou de Stella Maris, “Estrela-do-Mar”, esta apontada como sendo Vénus, planeta “feminino” por excelência, como o reconhece a Tradição Espiritual; Santa Maria (Mariae, Maris, Mareum) acaba equivalendo ao Oceano da Vida sobre o qual sopra o Espírito Santo ou da Santidade trescalando da própria pessoa da Mãe Divina, assumida como as Águas Primordiais, o Mar da Criação.

Por essa razão, os antigos escritores judeus afirmam claramente que o Mar é uma criação de Deus (Génesis, 1, 10), que Ele pode ser submetê-lo (Jeremias, 31, 35), que Ele pode secá-lo para que a humanidade dos fiéis passa atravessá-lo com segurança (Êxodo, 14, 15 s.), e suscitar ou acalmar as suas tempestades (Jonas, 1, 4; Mateus, 8, 23-27). O Mar foi assim feito símbolo da Criação, onde se acreditava o Criador nele ou sendo o homem dominado por ele.

Entre os místicos cristãos, o Mar simboliza o mundo e o coração humano, enquanto lugar de paixões revoltas contra a serenidade do sentimento de Amor. “Eu escapei do naufrágio da vida”, escreveu São Gregório Magno no ano 575, a propósito da sua entrada para vida monástica (Morais sobre Job, Carta dedicatória). Segundo Aelred de Riévaulx (século XII), o Mar situa-se entre Deus e o Homem, e designa o tempo presente. Uns se afogam, outros o transpõem. Para atravessar o mar, é necessário um navio, e nisto o casamento corporal é como um navio frágil, enquanto a vivência espiritual é comparável a um navio sólido. Para que haja só navio forte em ambos os casos, tem-se como Barca de Salvação a própria Virgem Maria, que também foi esposa e religiosa, Mãe do Salvador sendo Mãe da Humanidade, e aqui está nesta catedral, muito significativamente, com a barca ou galeão aos pés.

 

A Ordem dos Templários em Barcelona

 

A Comenda de Barcelona da antiga Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, vulgo Templários, foi das mais importantes e ricas de Espanha, posto que sobretudo dominava o importante porto marítimo barcelonês que era o mais utilizado pelos templários catalães nas suas relações com a Terra Santa e outras províncias mediterrâneas.

Ainda hoje sobrevivem vestígios arquitectónicos da presença da Ordem dos Templários (1118 – 1312) em Barcelona, nomeadamente ao fundo da calle Timó, número 3, onde se vê a porta entaipada que ligava a Casa dos Templários à muralha permitindo o acesso à Porta de Regomir. Essa passagem, mandada abrir por Jaime I, é o único vestígio sobrevivente do desaparecido convento templário demolido em 1859. Ele ocupava um perímetro aproximado de 450 metros, dos quais uns 200 pertenciam ao tramo de muralha a que se uniram as primeiras casas. Constava de um pátio central com acesso directo à capela, edifícios anexos à mesma e outros que foram se construindo aproveitando o contexto da muralha romana.

Também ficou de pé a capela templária, edificada entre 1246 e 1248 pelo comendador Pere Gil, após o bispo e o capítulo de Barcelona terem permitido à Ordem que edificasse a sua capela e cemitério nesta cidade, como consta na carta de doação de 1246 à Ordem do Templo:Quod Magister et Domus milicie templi ad honorem Dei et gloriose virginis matris sue Ecclessiam in ciutate predicta in domo sua construant et altaria erigent. Actualmente está integrada na igreja de Nossa Senhora da Vitória que é assistida pelos jesuítas, e tem a sua entrada pela calle Ataulf, número 4, a escassos metros da calle Templers, por sua vez colidindo com a calle Palau, nomes que dão o valor referencial da existência e delimitação do que foi a Comenda.

Esta capela templária consagrada à Virgem Mãe é um edifício de uma só nave orientada a sudoeste, facto que contradiz a norma medieval de situá-la para levante, mas por certo assinalando secreta e canonicamente terem o centro do seu culto não no Oriente mas no Ocidente, na Península Ibérica, atravessando esta numa linha sudoeste que desemboca em Tomar, Portugal, no outro extremo peninsular. Os muros desta capela têm uma grossura de 1,5 metros e a planta mede 25 metros de largura por 10,65 de comprimento. Interiormente, a nave está dividida em seis tramos por cinco arcos ligeiramente pontiagudos, de altura igual à do comprimento, ficando ao nível da luz. A abside é semi-hexagonal, ainda que o mais importante a destacar é a utilização da estrutura em arcos de diafragma para cobrir a igreja. Também é importante a decisão de preferir-se uma planta tradicional em frente da radial, reproduzindo a planta octogonal da rotunda do primitivo Templo de Salomão, em Jerusalém, como os templários usaram em outras comendas suas (Paris, Londres ou Tomar).

Segundo a lenda, quando o Papa Clemente V decretou a abolição da Ordem do Templo em 1312, fenderam-se os campanários de todas as igrejas dos templários, excepto esta da capela do Palau. Quiçá tenha algo a ver com a inscrição que está na porta da capela: Domus Dei et Porta Coelis, ou seja, Casa de Deus e Porta do Céu, esta com o significado de lugar de reclusão do mundo profano e inclusão no mundo divino, onde os monges templários procuravam obter a iluminação de Deus.

Lenda aparte, o facto é que perto da antiga torre romana conhecida como Torre Galiffa, cresceu uma pequena cidade dentro da Barcelona medieval, onde vivia gente de todo o tipo, sobretudo, numa magnífica residência, os cavaleiros templários. Posteriormente, após a abolição da Milícia desses cavaleiros-monges, o edifício para a posse da realeza, indo converter-se no Palau Reial Menor (Palácio Real Menor, demolido em 1847 para se construir casas para a burguesia), anexo ao palácio onde se encontra a capela real que primitivamente fora a capela do convento dos templários.

A Ordem do Templo na Catalunha começou a receber doações de terras do Vallés desde o primeiro momento que estabeleceu contactos com os condes catalães. A primeira doação, datada de 1131, foi uma propriedade em Sant Pere de Vilamajor. No ano de 1134, os nobres catalães reuniram-se para constituir numa assembleia a base sobre a qual se firmaram os direitos e deveres do estabelecimento da Ordem do Templo no então país. Uma semana depois foi documentada a doação à Ordem de umas casas e torres em Barcelona. Foi assim que ela adquiriu propriedades perto do castelo de Regomir. Com o passar do tempo, o lugar converteu-se no convento de Barcelona.

Ao mesmo tempo que a Ordem recebia essas doações em Barcelona, começaram de forma paralela as doações no Vallés, tendo sido a primeira uma casa em Santa Perpetua de la Mogoda, no ano 1150. Parece que, no princípio, a casa templária de Barcelona não era um convento, porém com o passar do tempo, e sobretudo por causa dos negócios que o comendador do Vallés tinha com os oficiais reais, acabou por sê-lo. Diversos autores situam esta passagem no ano 1282.

No ano 1253, os templários conseguiram licença para fechar em Barcelona a calle dels Banys Nous, que logo passaria a fazer parte do Call Judío. Ao fechar essa rua, ficaram com espaço para poder alojar ao lado do palácio uma pequena horta, mas também, sobretudo, para terem um maior «policiamento» sobre o bairro judeu não permitindo que os conhecimentos esotéricos da Torah extravasassem para fora da sua jurisdição espiritual.

Na cidade de Barcelona, as principais doações depois daquelas primeiras, concentraram-se na montanha de Montjuïc. Com a chegada do século XIII, nos arredores da muralha romana da cidade foram aparecendo satélites populacionais tendo como eixos os caminhos que saíram do burgo em todas as direcções. A acção da Ordem desenrolava-se, pois, sob os muros da sua fortaleza, promovendo o desenvolvimento espiritual e socioeconómico de Barcelona, internacionalizando a sua importância capital através do Mediterrâneo.

 

Templários e maçons na catedral de St.ª Eulália

 

A Catedral da Santa Cruz e de Santa Eulália (também chamada, invés de catedral, Seo ou Seu em catalão) é a sede do Arcebispado de Barcelona, esta como cidade tendo por patrona a mesma Santa Eulália, enquanto a diocese barcelonesa está sob o padroado da Virgen de la Merced).

Este templo gótico começou ser construído no século XIII (1 de Maio de 1298, reinando D. Jaime II e pontificando o bispo Bernardo Pelegrí) e só no século XV se deu por concluído. Foi edificado sobre a primitiva catedral românica que, por sua vez, se erguera a partir dum templo paleocristão da época visigótica. Com efeito, já no ano 599, durante o concílio de Barcelona, se denominava este templo de Sanctae Crucis. Só mais tarde (século IX) foi acrescentado o padroado de Santa Eulália, que se venera desde o achado prodigioso das suas relíquias em Santa Maria das Areias ou do Mar, no ano 877.

Esta catedral majestosa é testemunha medieval da presença directa dos templários e dos monges-construtores, os maçons primitivos, nela. Aos templários se deve a promulgação do culto da Santa Cruz, a qual ficou até hoje como signo heráldico desta Sede Apostólica: em campo de goles vermelho, está imposta a cruz pátea prateada, que é a mesma da antiga Ordem do Templo. Também se deve a esta a divulgação do culto a Santa Eulália e a sua hagiografia mais que lendária, perfeitamente simbólica ou esotérica.

Santa Eulália, exaltada no Hino III do Peristephanon de Aurélio Prudêncio (348 d. C. – c. 410), constitui um dos primeiros motivos da devoção cristã na Península Ibérica. Informa o poeta hispano-latino que Eulália viveu perto de Barcino (actual Barcelona) nos tempos do imperador Diocleciano (248-305), durante o século III ou IV, sendo papa Marcelino. Recusando renegar à fé cristã, Eulália sofreu o martírio das torturas até que a cravaram desnuda numa cruz aspada ou em X, mas para preservar a sua intimidade os cabelos cresceram-lhe subitamente cobrindo-a, e começou a nevar. No final da sua oração pedindo ao Senhor que a resgatasse para o seu Reino, os carrascos viram voar para o céu da sua boca uma pomba branca. Sadismos aparte, esses ritos supliciais faziam parte das iniciações psicofísicas dos povos primitivos peninsulares enquadrados em culturas mágicas, e desta maneira o que começou sendo um arremedo das arcanas iniciações tradicionais, terminou convertendo-se em manifestação graálica, que também é iniciação cuja realização final opera-se sempre por um prodígio, aqui, o de Santa Eulália prestes a expirar.

Os restos mortais da santa foram localizados no ano 878 pelo bispo Frodoino, que os trasladou solenemente para esta catedral e os depôs na cripta, e onde num dos claustros góticos vivem treze gansas brancas, por se dizer que Eulália foi martirizada com treze anos de idade e era pastora de gansos em Sarrià, onde vivia, perto da cidade. A gansa ou oca pôs um ovo, segundo a tradição, e sendo essa a ave simbólica dos monges-construtores seguindo um caminho de segredos relativos à arte arquitectónica toda ela baseada nos princípios da geometría sagrada, o resultado final só pode ser – após realizado o tortuoso caminho iniciático marcado pelo simbólico caminho do “jogo da oca”, que aqui é o percurso da demanda de sabedoria, de entendimento da fé para, finalmente, haver a conquista da iluminação espiritual, nisto se resumindo o percurso devocional e a mensagem velada da catedral inteira –  o prodígio do “ovo” que, representando o princípio ou semente original da Criação, ainda hoje é motivo de típica e secular tradição: na fonte do claustro desta catedral, durante a festividade do Corpus Christi, pode-se ver L´ou com balla (o ovo como baila), que consiste em pôr um ovo sobre o repuxo de água da fonte que fica bailando sobre ele, desta maneira simbolizando as Águas da Vida saídas do Ovo ou Substância Original da Criação, facto que os teósofos orientais chamam de Hiranyagharba, isto é, o “radiante, o áureo `Ovo´ ou Matriz da Criação Universal”. Substância Absoluta gerada de si mesma, implica afirmar que “do ovo nasceu a galinha e não o contrário”, por essa ser produto e aquele substância. Essa metáfora ovina representa o Demiurgo ou Grande Arquitecto do Universo que sai do estado informal para o formal para originar a Criação de tudo e todos.

Certamente sabiam disso, à sua maneira conformada à mentalidade da época, os monges-construtores que corporificavam a primitiva Maçonaria Operativa e deixaram os sinais da sua presença aqui, como se observa na parede externa da catedral numa marca de canteiro exibindo os três pontos tradicionais do sistema maçónico que foram feitos por um grémio operativo medieval, o da Hermandad de los Esteves.

Tendo a ver com as origens iniciáticas desta catedral repleta de mistérios, Xavier Barral i Altet narra algumas das numerosas lendas e costumes insólitos correndo nela. Segundo a crença popular, dava má sorte chocalhar duas ou mais chaves às sextas-feiras; quando se tinha que fechar a catedral, anunciava-se precisamente com o chocalhar das chaves menos às sextas-feiras, quando se fazia soar uma campainha e os meninos do coro levavam as chaves, uma em cada mão.

Diz-se que a morte dos cónegos era anunciada três dias antes por São Bento com três golpes de maça na abóbada, para que ressoasse por todo o templo, e se se tratasse do bispo fazia soar no campanário o sino Tomasa, também três vezes.

Quando saía a procissão do Corpus Christi, os canhões do castelo de Montjuic anunciavam-na com tiros e cerravam-se todas as portas da muralha da cidade, até que a Custódia voltasse a entrar na catedral.

Debaixo do órgão estava pendurada a carassa (caraça), uma cabeça de turco (aí colocada depois da Batalha de Lepanto, em 7 de Outubro de 1571) de cartão, que no dia dos Santos Inocentes, quando o organista tocava uma nota mais grave, abria a boca e lançava guloseimas por ela. Desde 1970 que se encontra no trifório da catedral, ou seja, por cima da arcada da nave lateral.

Era crença popular que as esculturas da fachada gótica antes de ser feita, já haviam sido esculpidas e escondidas debaixo de terra, sob a escadaria de entrada na catedral, ficando à espera da construção da mesma. Quando no século XIX levaram-se a efeito as obras da fachada principal, muita gente acorreu para ver a extracção das esculturas, e ao não ser assim, inventaram-se novos falatórios sobre o seu destino.

 

Maçons em Portaferrissa

 

Indo em direcção ao mar e parando em Portaferrissa, pode-se ver na fachada, sobre a porta n.º 11, um conjunto escultórico de dois meninos tendo no meio deles um triângulo em cima de uns tijolos. O menino da direita segura com a destra o triângulo e tem na sinistra duas réguas ou tábuas; o menino da esquerda está apoiado nos bloco de tijolos a que encosta uma colher de pedreiro, enquanto com a mão direita exibe um compasso. Está-se diante de um escultórico de inspiração claramente maçónica.

No Arquivo Histórico de Barcelona, há um expediente datado de 1867 com uma licença para obras projectadas neste edifício pelo arquitecto Domingo Stijas. Mas nesses planos originais não aparece o grupo escultórico dos dois meninos, certamente para não despertar as suspeitas das autoridades e do clero, pois a Maçonaria nunca foi benquista pela ortodoxia dogmática da Igreja por causa das suas ideias heterodoxas simpáticas à liberdade de pensamento e à democratização social.

Fundada em 1717, a Maçonaria assumiu-se sempre como uma Ordem Iniciática Secreta de carácter filantrópico e filosófico. Os seus membros, tanto os homens como as mulheres (maçons e maçonas), afirmam que a Maçonaria tem como objectivo a busca da Verdade e fomentar o desenvolvimento intelectual e moral do ser humano, procurando criar uma Sociedade Humana mais justa e perfeita.

É essa a mensagem encriptada deste grupo escultórico de Portaferrissa, cujo prédio n.º 11 possivelmente teria albergado no século XIX, e talvez até aos inícios do século XX, uma Loja maçónica, ou lugar destinado aos maçons reunirem-se secretamente por medo das represálias, atendendo que em 1829 os membros de uma Loja de Barcelona foram presos e condenados, um a pena de morte e os outros a cadeia perpétua. O seu Venerável Mestre, o Tenente-Coronel Gálvez, foi enforcado. Realmente, a Espanha catolicíssima nunca tolerou a Maçonaria e sempre reprimiu-a dura e violentamente, contudo, ainda hoje Barcelona é a cidade espanhola onde existe maior número de maçons, mais de 1500.

Os dois meninos do escultórico representam o duplo atributo de inocência e pureza. O bloco de tijolos encimado pelo triângulo alude à edificação do Homem Novo e da Nova Sociedade iluminados pela presença divina da Santíssima Trindade, que na hierarquia maçónica é representada pelos três graus fundamentais de Mestre, Companheiro e Aprendiz, em correlação com os princípios teológicos de Pai, Filho e Espírito Santo. Deus Pai transmite a Sabedoria ao Mestre Maçom; Deus Filho outorga a Força ao Companheiro Maçom; Deus Espírito Santo inspira a Beleza ao Aprendiz Maçom.

O menino à direita representa o Mestre de Carpintaria, e o menino à esquerda indica o Mestre de Pedraria. Tem-se o carpinteiro e o pedreiro que, tábua a tábua e pedra a pedra, edificam o Templo Ideal do Homem Novo que a Maçonaria ou Arte dos “Pedreiros Livres” cria mental e moralmente sobre a Terra.

No simbolismo maçónico, a régua é o antigo símbolo de rectidão, método e lei, os três princípios corroborados simbolicamente pelos vértices do triângulo. No Antigo Egipto, representava-se o deus Ptah tendo na mão a régua com que ele media as enchentes do rio Nilo. A régua de 24 polegadas figura nas Lojas simbólicas da Maçonaria como instrumento de trabalho e medida do tempo, no sentido de que não se deve malgastar as 24 horas diárias na ociosidade e no egoísmo, mas oito delas na meditação e estudo, outras oito no trabalho, e as oito horas restantes no recreio e repouso, porém, todas aplicadas no serviço da Humanidade.

A trolha ou colher de pedreiro, espécie de pá achatada de forma triangular que o pedreiro utiliza para aplicar a argamassa, na Maçonaria é o símbolo da benevolência, da conciliação e do silêncio. A sua presença ensina que se deve propagar os sentimentos de facto e bondade que unem a todos os maçons, sendo o amor fraternal o único cimento que os obreiros podem empregar para a edificação na Terra do Templo da Nova Jerusalém Celeste ou Oriente Eterno, o mesmo Templo da Solidariedade Humana cimentado no carácter altruísta, benevolente e esclarecido de um e de todos.

O compasso, como um dos principais símbolos maçónicos, é emblema de medida e justiça. A primeira figura geométrica que se pode traçar com a ajuda do compasso, é o círculo centrado pelo ponto. Tomado por excelência como símbolo solar, ali se combina o círculo (o infinito) com o ponto (início de toda a manifestação ou evolução). O relativo e o absoluto se acham, pois, representados pela acção do compasso, o qual, por sua vez, figura a dualidade (hastes) e a união (a sua junção). Por esta razão, a Maçonaria adopta o compasso como um dos seus grandes símbolos, e coloca-o sobre o Altar da Loja, enlaçado com o esquadro para simbolizar o Macrocosmo e o Microcosmo e ficando por cima do Livro Sagrado (Bíblia, Alcorão, Vedas, etc., que varia por depender da religião do país onde a Maçonaria esteja instalada), este que significa a Sabedoria que ilumina e dirige tanto o Macrocosmo quanto o Microcosmo, neste particular, a Ordem Maçónica.

 

O mago da Calle Estruc

 

Quase em frente do “Corte Inglês” na Praça Catalunha, esta pequena calle (“rua”) chama-se Astruc, nome medieval de judeu famoso em Barcelona, correlacionada à palavra catalã astrugança, que quer dizer “sorte”. Astruc (com as suas variantes struch, estruch e estruc) é também uma erva curativa e um termo que na Idade Média se aplicava aos bruxos e curandeiros. Talvez por tudo isto tenha sido colocada no fim da calle, no prédio número 14, uma placa comemorativa evocando a Magia, posta aí em honra e memória do mago Astruc Sacanera, que viveu no século XV, famoso por vender um pó especial e uma pedra que permitiam curar picadas de insectos e répteis, incluindo os mais venenosos.

A placa foi posta aí nos últimos anos do século XX pelo ocultista catalão Ricardo Bru, muito conhecido nos meios esotéricos de Barcelona, o qual colocou na lápide, em cima e em baixo, dois medalhões que são talismãs mágicos com sinais cabalísticos e palavras mágicas hebraicas, possivelmente destinados a invocar a protecção dos poderes invisíveis para esta calle e a própria lápide, que contém a inscrição seguinte:

A primeros del s. XV la gente llamaba a este calle Astruc Sacanera, o sea del astrólogo o bujo de Sacanera. Astruces es una hierba curativa y un palabra antigua aplicada a astrólogos o brujos. Aquí se vendia la “pedra escurçonera”, poseedora de virtudes contra la rabia y las picaduras.

Precisamente no número 22 da mesma calle há outra placa indicando que era ali que se vendia a dita pedra. Aí aparece um outro talismã mágico tendo ao centro uma serpente, relacionada ao sentido do remédio milagroso, e alguns nomes hebraicos invocativos do próprio Poder de Deus Altíssimo (Tetragramaton Jehovah) e do Anjo do Messias Salvador (Jelah Emmanuel). Pois bem, tal remédio aparece ao longo da História com nomes diversos mas sendo sempre o mesmo. Plínio, o Velho, faz referência na sua História Natural ao Ovum anguinum, espécie de segregação das serpentes que se solidificava como uma pedra e era utilizada pelos druidas da Gália como remédio curativo contra as picadas venenosas. Parece que neste caso a pedra escurçonera correspondia a um osso da cabeça da serpente. Seja qual for a sua origem ou composição, esta tinha que aplicar-se sobre a ferida de tal maneira que aderia ou se fixava imediatamente na mesma até absorver todo o veneno, momento em que se soltava de forma misteriosa. Ainda hoje continua a ser utilizada em vários lugares do mundo, onde é conhecida como pedra negra ou pedra belga.

Também se repara na lápide que os números das portas dos prédios são colocados dentro dela, permeio a símbolos cabalísticos, possivelmente com a intenção de proteger os vizinhos. Esses símbolos cabalísticos são na realidade selos mágicos comuns na prática da Magia pelos rabinos esotéricos medievais, e para os compor inspiravam-se na obra, igualmente medieval, Clavículas de Salomão, composta de 36 talismãs formados por nomes sagrados do Judaísmo, nomes de Anjos Arcanjos e signos astrológicos.

A Kaballah é, pois, a Tradição Esotérica de Israel, que além de ser teórica ou exclusivamente dedicada ao aprofundamento do estudo das escrituras sagradas, também é prática, como se vê aqui, implicando as práticas dos conhecimentos de medicina e alquimia, além do exercício da magia operativa que consiste na invocação e comunicação directa com os seres dos mundos invisíveis. Estas práticas, aos olhos do povo ignorante e supersticioso, davam aos magos cabalistas um halo sobrenatural e demoníaco de bruxos e feiticeiros, ou seja, o de criaturas amancebadas aos poderes do inferno, verdadeiros demónios vivos ao serviço de Belzebu que lhes dava esses poderes sobre-humanos… de curar os seus próximos de moléstias incuráveis.

Curar o veneno da serpente com a sua própria saliva, tem a equivalência moral de destruir o mal com o que este considera mau, ou por outra, nahash, em hebraico a “concupiscência”, representada pela serpente, é vencida por uma vida virtuosa, benigna ao serviço do seu próximo em Humanidade. Assim, além de ser símbolo de perecimento a serpente também é de regeneramento, como se lê na Bíblia, em Números, em que embora as serpentes terrestres enviadas por Deus tenham feito perecer muita gente em Israel, contudo o povo eleito reencontra a vida através da própria serpente, de acordo com as instruções que o Eterno dá a Moisés: Então Deus enviou contra o povo serpentes abrasadoras, cuja mordida fez perecer muita gente em Israel. Veio o povo dizer a Moisés: “Pecámos ao falar contra Jehovah e contra ti. Intercede junto a Jehovah para que afaste de nós estas serpentes”. Moisés intercedeu pelo povo e Jehovah respondeu-lhe: “Faz uma serpente abrasadora e coloca-a numa haste. Todo aquele que for mordido e a contemplar viverá”. Moisés, portanto, fez uma serpente de bronze e colocou-a numa haste; se alguém fosse mordido por uma serpente, contemplava a serpente de bronze e vivia (Números, 21, 6-9).

Foi assim que a serpente cravada numa cruz tau tornou-se o símbolo da própria Kaballah, e a cura da sua mordedura equivalia ao domínio da “serpente abrasadora”, à própria iluminação espiritual pelo despertar da Luz Interior, como aconteceu com Moisés envolto em luz quando desceu do Monte Sinai após o seu encontro com o Eterno, Jehovah. Aos Iluminados Espirituais os hebreus chamavam Nahas, equivalentes aos Nagas hindus, ambos os termos com o significado de “serpente”, neste caso, a Serpente da Sabedoria que cura, ilumina e dá a imortalidade a quem a contempla e se absorve nela como Theo-Ophis, isto é, “Serpentário” Divino cuja venena bibas acaba sendo a própria Theo-Sophia, a Sabedoria Divina.

Até aos finais do século XX, a Calle Estruc contava com uma livraria e loja de artefactos antropológicos que pertenceu sempre à família Estruch, na qual se vendia todo o tipo de objectos estranhíssimos, que o seu dono recolhia nas suas inúmeras viagens pelo mundo. Por fim, essa livraria singular cerrou portas e com ela desapareceu o último vestígio mágico dessa família judia. Mas ficou a lápide a lembrar in aeternum que aqui viveu o cabalista de Barcelona.

 

Fogueiras da morte na Plaza del Rey

 

Na Plaza del Rey, entre a capela de Santa Ágata e o Museu de História de Barcelona, há uma porta de vidro que dá para um pequeno compartimento que antigamente era a casa do verdugo da Santa Inquisição o qual, como não podia viver dentro nem fora da cidade, vivia num habitáculo na muralha.

Esta Plaza del Rey, apesar de ser o ponto central mais concorrido de Barcelona antiga, contudo é também o lugar de memória maldita da cidade. Era aqui que na Idade Média e até quase aos fins do século XIX eram supliciados os réus condenados à morte. A última execução pública em Barcelona ocorreu em 15 de Junho de 1897, na Plaza Folchi i Torres, onde um ladrão de carteiras sofreu a pena pública do garrote.

Na Idade Média, nesta Plaza del Rey eram acesas as fogueiras da Santa Inquisição para que os réus acusados de heresia e bruxaria sofressem o suplício corporal do fogo eterno. Esses acontecimentos ocorriam constantemente num contraste entre o dramático clamoroso dos condenados e a crueldade do ar festivo dado pelo povo ao espectáculo dantesco, dessa maneira talvez escondendo os seus temores, pois ninguém sabia quem era o próximo a subir ao patíbulo. Podia acontecer a qualquer um, bastava uma simples denúncia dum vizinho com quem tivesse más relações.

Era muito dura e ninguém queria exercer a profissão de carrasco, pessoa que não podia ser tocada por ninguém porque dizia-se que as suas mãos tinham poderes mágicos que podiam destruir qualquer um. Durante algum tempo, houve o costume de deixar numa esquina na praça um saquinho com dinheiro e as ferramentas da execução, costumando aparecer algum voluntário anónimo que levantava a encomenda às escondidas e comparecia no dia seguinte para executar a sua tarefa maldita. Houveram ocasiões em que não aparecia ninguém, pois ser carrasco era objecto de desprezo. Foi quando se nomearam os carniceiros de carrascos oficiais, por serem experientes no manejo das ferramentas necessárias para a execução. Mas muitos deles suicidaram-se por não quererem exercer essa função malquista, e desistiu-se de obrigá-los a ser carrascos. Finalmente, criou-se um posto oficial para esta personagem sombria, que trabalharia como funcionário real e com alguns benefícios adicionais, dentre eles, uma casinha adjunta à capela de Santa Ágata e despojos das pessoas executadas, que posteriormente podiam vender. Neste sentido, eram muito apreciados os sapatos dos executados, pois dizia-se que pondo-os na entrada protegiam a casa dos maus espíritos.

A Plaza del Rey tornou-se famosa em 1492, quando um camponês ou payés (em catalão) feriu com um punhal o rei D. Fernando, o Católico. O suplício desse homem, Joan de Canyamars, teve requintes de malvadez e sadismo. Passearam-no semi-desnudo num carro, junto ao carrasco: na Plaza del Blat, cortaram-lhe uma mão, e na de Born a outra; na Plaza Sant Jaume cortaram-lhe o nariz, arrancaram-lhe um olho e deceparam-lhe uma perna, morrendo sagrando à vista de todos. Na Plaza Santa Ana arrancaram-lhe o outro olho e deceparam-lhe a outra perna, e finalmente esquartejaram o que sobrou do desgraçado, levando os restos para fora da cidade onde foram queimados no Canyet.

Como a antiga prisão se encontrava na Plaza del Rey, quando um réu ia ser justiçado colocava-se-lhe no colo um cartão escrito denunciando os seus crimes. Noutras ocasiões também lhe prendiam uma cinta vermelha à cintura presa aos objectos ou utensílios que tivesse utilizado para cometer o seu crime. Depois de passearem o condenado pelas ruas da cidade para que todos o vissem e apupassem, o cortejo voltava a esta Plaza onde já esperava preparada a fogueira ou o patíbulo, cuidando os juízes que ele chegasse vivo para sofrer as dores do suplício e por isso o condenado era sempre acompanhado dum cirurgião.

Os cúmplices de qualquer tipo de delito eram açoitados e obrigados a presenciar o enforcamento ou o suplício do fogo. Os nobres e clérigos eram garrotados, por vezes degolados ou decapitados, e o mesmo para os militares (só depois passaram a ser fuzilados). Os homossexuais e os hereges eram queimados vivos. E a plebe acusada de crimes, era enforcada. As mulheres que houvessem cometido alguma malfeitoria (salvo nos casos de heresia, em que eram queimadas), eram postas nuas em cima dum burro e passeadas pela cidade, para que a população as visse e apupasse cobrindo-as de vergonha. Ainda para os hereges, a Inquisição utilizava o chamado “juízo de Deus mediante a aguadilha” (aguadija), esta palavra com o sentido de humor, por certo sádico: na Plaza del Rey colocava-se uma balança enorme e num dos seus pratos punha-se uma Bíblia e no outro ou suposto herege. Se pessoa pesasse menos que a Bíblia, ficava demonstrada a sua inocência.

Não é de estranhar que os barceloneses tivessem pânico de tudo que se relacionasse com bruxarias e outras heresias afins, perante esses rituais macabros tão ao gosto sádico dos dominicanos, sobretudo. É assim que nas portas da igreja de Sant Martí de Provençals, na Plaza Ignasi Puyol, ainda hoje podem ver-se ferraduras de boa sorte ou símbolos que serviam para afugentar os encantadores e os encantamentos.

Como dados curiosos, no número 1 da Plaza del Pi pode apreciar-se o Escudo da Arquiconfraria do Puríssimo Sangue de Cristo, existente no século XIV e que dava auxílio espiritual aos condenados da Plaza del Rey. Também no Passeio do Born a Inquisição torturou e queimou hereges. Acreditava-se que o espírito do condenado, uma vez abandonado o corpo, ia possuir alguma das gárgulas da Catedral de Barcelona. Falando desta, a Avenida da Catedral foi conhecida como o Passeio do Inferno, já que se acreditava que aí havia uma entrada para as famosas Caldeiras de Pedro Botelho.

 

História trágica da Plaza de San Felipe Neri

 

A Praça de São Felipe Neri é um lugar impossível de Barcelona. Escondido em pleno Bairro Gótico na Cidade Velha, logo após passar o Palácio Episcopal, poucos o conhecem como oásis de tranquilidade e silêncio só interrompido durante o dia pelo canto dos pássaros, e à noite pelo murmúrio das águas da fonte que a embeleza. Nesta cidade com mais de um milhão e meio de habitantes agitando-se no bulício do dia-a-dia por entre passos e falas agitadas e ruídos frenéticos vindos de toda a parte, tudo isso desvanece-se ao entrar nesta praça, deixando-se de ouvir os barulhos dos carros e as vozes das gentes que o vento não traz para não perturbar a tranquilidade deste espaço de conto de fadas. Realmente, a Praça de São Felipe Neri é um lugar impossível de Barcelona que transcende o espaço terreno e se detém no tempo, encerrando séculos de histórias inexoráveis.

Mas esta Praça de São Felipe Neri também é um lugar trágico, em contraste aflitivo com a sua condição de oásis escondido da cidade. Na Idade Média esta praça foi o cemitério de Montjuic del Bisbe, anexo da catedral de Barcelona, o qual ficou sepultado sob as construções novas feitas nela no século XVI, várias delas destinadas a grémios de ofícios cujos edifícios sobreviveram aos acidentes do tempo e hoje são espaços museológicos muito bem organizados de interesse inquestionável para quem queira conhecer os antigos ofícios dos barceloneses, alguns deles herdeiros das primitivas corporações medievais de mesteres operati, ou sejam, de mestres de ofícios constituídos em formas de iniciação profissional reunidas em confrarias ou grémios operários, como os dos carpinteiros, pedreiros, caldeiros, sapateiros, etc.

Nesta Praça de São Felipe Neri encontram-se as casas gremiais dos antigos caldeireiros e sapateiros, que estavam dispersos pela cidade e que foram reunidos aqui já no século XX, quando se deram reformas no tecido urbano barcelonês, fazendo desaparecer umas ruas e abrindo outras. Essa sede dos caldeireiros recua ao século XVI, quando eles adquiriram de uma família rica da cidade essa casa que adaptaram à sua nova função. O grémio dos sapateiros data de 1565, apreciando-se na sua fachada o sapato que era o símbolo dessa confraria, e actualmente alberga o Museu del Calçat Antic, onde o visitante poderá ver sapatos desde o século XVI ao XX.

A praça recebe o nome de São Felipe Neri (predicador jesuíta, Florença, 1515 – Roma, 1595) a quem é dedicada a igreja situada neste lugar, construída em estilo barroco entre 1748 e 1752. Esta igreja tem uma história muito triste: durante a Guerra Civil Espanhola (18 de Julho de 1936 – 1 de Abril de 1939) a aviação franquista bombardeou Barcelona com mais de 1900 bombas em 385 ataques aéreos, tendo em 30 de Janeiro de 1938 caído uma bomba dentro desta igreja matando 42 pessoas, 20 delas crianças, que haviam procurado refúgio no seu interior. Ainda hoje é preservada a memória desse acontecimento trágico na fachada do templo apresentando os sinais da metralha assassina dum momento histórico que fazem deste imóvel um monumento escondido que as pessoas ignoram e a História parece querer esconder. Ainda assim, o Ajuntamento de Barcelona depôs aí uma placa, em 31 de Janeiro de 2007, em homenagem às vítimas civis inocentes de São Felipe Neri.

Também existe o colégio de São Felipe Neri nesta encantadora praça, estando no seu centro uma fonte. Esta tinha na sua parte alta uma escultura chamada o estudante, porém foi roubada deixando a fonte incompleta, e desde então corre a lenda do “menino que fugiu da escola e não regressou”.

Apesar de estar incompleta, a fonte continua a dar encanto e poesia a esta praça ignorada que a torna, por si mesma, merecedora de uma visita. Todo este espaço ficou célebre por aparecer no videoclip da canção My Inmortal do grupo Evanescence. Uma canção que parece recolher e transmitir toda a magia e as sensações que estão nesta peculiar praça escondida em pleno Bairro Gótico de Barcelona.

 

 

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