Sintra, Maio de 2008

INTRÓITO

 

Este mês de Maio que é das Maias ou Mães em pleno 2008, teve a marcá-lo a recente passagem à Imortalidade de uma Venerável Irmã desta Obra Divina em Portugal, a qual estava sob a égide do Dhyani-Budha BENTO (José Brasil de Souza), precisamente o que expressa o Raio Espiritual da LUA, e quis a Lei que a saudosa Irmã partisse a uma hora lunar num dia solar, ou seja, domingo, consequentemente, lunisolar a caminho, certamente, da sua integração futura no 5.º Sistema de Evolução Universal caracterizado como a Idade dos Andróginos (SOL E LUA, Masculino e Feminino inteiramente equilibrados entre si na criatura dessa mesma Idade).

A aparição ininterrupta de Anjos em meus sonhos agitando meus sonos, era já um sinal claro e fatal da passagem próxima dessa nossa Irmã. Visitei-a no hospital, preparei-a para o momento próximo da desencarnação e dei-lhe a Bênção da Vida. Logo após a sua morte física, de imediato procedeu-se em Templo ao Ritual de Encaminhamento da Alma imortal da mesma, avisando os familiares antes e após o cumprimento da Cerimónia, o que uma sua irmã carnal, bastante chegada a ela, agradeceu muito e naturalmente comovida.

Este acontecimento que é, a par do Berço (VIDA – MANU), o destino mais certo de todas as criaturas viventes, ou seja, o Túmulo (MORTE – YAMA), impeliu-me a escrever este estudo sobre a Vida após a Vida que, em boa verdade, julgo ser de necessidade premente a tudo e a todos por tratar do maior dos mistérios: a Imortalidade após a Morte, seguida da Ressurreição e, finalmente, a nova Encarnação.

 

MORTE

 

Como o que encarna objectivamente é o quaternário inferior (mental concreto, emocional, psíquico ou astral, duplo etérico ou vital, físico denso ou somático), ao qual se encadeia a respectiva Mónada na subjectividade do seu Plano, logo esses quatro veículos ou princípios humanos estão sujeitos ao fenómeno da morte. Morto o corpo físico, seguido da decomposição do duplo etérico, fica o homem, isto é, a consciência humana, habitando o corpo astral por um tempo mais ou menos largo, e após abandona-o penetrando a Vida Mental, a qual também haverá de findar  e suceder o mergulho da consciência humana num novo estado de beatitude espiritual, antes de nova encarnação.

Há algumas falsas concepções que convêm abordar desde já, para as destruir quanto antes. Uma delas, refere-se à suposição de que no momento da morte a separação do homem do seu corpo físico possa causar sofrimento. O testemunho das pessoas que assistem ao passamento, principalmente médicos e enfermeiros, é unânime em afirmar que quase todos os moribundos expiram placidamente, mesmo os acometidos de doenças longas e dolorosas, o que não é contradito pelo chamado “estertor mortal” ou “cirro da morte”, mais ou menos agitado, que sucede segundos antes, pois que se trata do corpo a deixar de respirar (ou seja, o escoar definitivo de PRANA para acontecer de imediato a acção mortal, ceifadora de APANA), apagando-se a vida do corpo que termina o ciclo de animação. De facto, se a morte é fruto da imprestabilidade ou desgaste definitivo do corpo físico aos demais veículos ou princípios, o ser, cujas sensações se expressam pelo seu corpo emocional, só pode sentir-se aliviado ao deixar o corpo tornado inútil.

Esse alívio extraordinário acompanhado de uma sensação indescritível de leveza, todos o sentem, tal como todos, uns mais e outros menos, é bem verdade, já têm desde dias antes da desencarnação uma visão nítida do mundo espiritual e dos seus habitantes, principalmente daqueles mais chegados (por antigos laços de parentesco, por exemplo) ao ente prestes a partir, como eles também já partiram. Com esses, apresentam-se igualmente os Auxiliares Espirituais que irão ajudar no processo da desencarnação. Tais Auxiliares serão de escala evolutiva imediatamente superior à do agonizante, e se este tiver sido pessoa de parca evolução, consequentemente, os seus Assistentes espirituais igualmente não serão de grande evolução, mesmo que superior à sua. Pelo contrário, o estudante de Sabedoria Divina, o Iniciado que desencarna tem sempre a apoiá-lo Seres de tal excelsitude que não raros clarividentes os confundem com o próprio Cristo, se for no Ocidente, ou então com o Buda ou com Krishna, se for no Oriente, tal a sua beleza e glória espiritual.

Outro conceito falso diz respeito à crença de que a morte é a grande igualadora universal. Esta crença fere substancialmente a Lei do Karma ou da “Causa e Efeito”, que é uma Lei Universal, válida não- somente para os indivíduos encarnados mas também para todos os seres e coisas manifestados. A desigualdade aparente no Mundo Físico, como todos a vemos, persiste no Mundo Astral e mesmo no Mental Concreto, principalmente naquele após a morte, e engana-se gravemente quem pensa que em se tirando a vida física dirimem-se os seus sofrimentos; quanto muito, consegue-se modificar a natureza deles.

Outra ideia falsa é pensar que a morte conduz indistintamente a consciência de todos a uma espécie de permanente sono calmo e sem sonhos ou com sonhos agradáveis. Não, o que se semeou em vida física e ficou impresso na memória mental que sobrevive à morte cerebral, é que irá determinar a sua vida extra-física como um paraíso ou um inferno, rodeado por todas as imagens e pensamentos que criou, atraindo assim a beleza ou a fealdade de consciências afins. Já o disse no passado: “Faz de tua vida um céu para não vires a sofrer na morte as penas do teu inferno”…

A aparência do homem em seu corpo astral, que é o veículo bioplástico das imagens e o mais imediato, logo, o que mais impressiona ou imprime a forma a que se acostumara por ser a que tivera na vida orgânica, quase nada difere do que aparentava o seu corpo físico. A maior diferença, inculcada pela sensação de leveza e liberdade post-mortem, faz-se sentir no aspecto da idade, pois por norma – exceptuando aqueles ferreamente agarrados à vida que findou, ficando assim enfeiados e envelhecidos, quando não mantendo a aparência dos seus últimos dias terrenos – a aparência que toma o corpo astral é a de ser um tanto mais jovem, a qual vai tomando o seu corpo fluídico à medida que se desprende do envoltório carnal.

O momento da morte, por mais rápido que ela ocorra, não é instantâneo, pois que há sempre um estado intermediário entre a vida e a morte, à semelhança daqueles breves instantes em que se passa do estado de vigília ao de sono; é como o apagar de um bico de gás em que, antes da completa extinção, a chama vai decrescendo…

Esse momento de transição mais que importante é crucial para o futuro espiritual do ser em trânsito. Nesses breves instantes, mesmo que a morte seja rápida, o homem vê passar diante da sua consciência, com muitíssima maior nitidez que um filme de cinema, o panorama total da sua vida recém-concluída, até aos mínimos detalhes. Os acontecimentos apresentam-se em ordem inversa, recuando desde esse momento derradeiro até à infância, assistindo ele a esse desenrolar dos factos como um observador imparcial e, nessa contemplação, analisa a série infinita de causas que o fizeram agir, sentir e pensar, desde o nascimento até à morte, e dessa retrospecção deduz a natureza da vida que terá na futura encarnação. Tudo isso se passa nos breves instantes em que a chama da vida física vai se apagando… Tenha-se em mente que o factor Tempo como o conhecemos no Plano em que vivemos, não é idêntico ao dos demais Planos da Natureza: um segundo no Mundo Físico equivale a um minuto ou a uma hora no Astral, tal como um minuto ou uma hora parecem um ano ou um século no Mental. Nisto, quem não terá, em poucos segundos de sono, sonhado o desenrolar de acontecimentos que, nesse estado, lhe pareceram durar várias horas ou muito mais?

As conclusões que o homem tira de tudo o que acabou de ver nesses derradeiros instantes é como se fosse uma visão do seu futuro, porque ela é verdadeiramente imparcial. Nesse estado, o ser penetra no domínio completo das causas que gerou durante a vida: é o mundo dos mortos, o reino de YAMA, o mundo dos efeitos. Antes que se corte definitivamente o laço ou elo vital (o chamado “cordão prateado” ou o que liga os corpos mental e astral ao físico por intermédio do etérico, sendo que o “cordão d´ouro” ou Sutratmã é o que une os três aspectos da Mónada Imortal ou o Homem Verdadeiro) que o liga ao Mundo Físico, pode, por um supremo esforço de vontade, imprimir ao seu pensamento uma energia suficiente para determinar, desde esse momento, as condições em que virá a reencarnar. Eis a importância crucial do último pensamento do moribundo, pois nele reside o seu bom ou mau futuro espiritual. Sempre aconselhei ao ente prestes a entrar em trânsito a visualizar aquilo tenha como sendo o mais belo e grandioso na sua concepção pessoal: o Cristo, o Buda, o Mestre JHS, um Anjo de Glória, um Templo luminoso, uma Paisagem maravilhosa, a Flor-de-Lis, a Rosacruz, etc., isto sempre de acordo com a natureza do implicado, e sempre com a firme certeza de que a seguir Deus virá operar o Milagre da Ressurreição pelo indiscutível apoio imediato dos seus Santos e Sábios Emissários.

Por tudo isso, é de importância capital para o discípulo que visa preparar nesta vida as suas condições futuras (para isso, mister se faz a convicção absoluta na doutrina do Karma, não de maneira cega mas esclarecida), organizar para si um ideal superior de ser, meditar constantemente sobre ele e vivê-lo o melhor que souber e puder, ou seja, capacitando-se a possuir as mais nobres qualidades morais e espirituais de sabedoria, bondade, tolerância, sacrifício, justiça, etc., para que, na hora fugaz da sua morte, possa o seu pensamento evocar esse ideal, modelando assim as condições favoráveis à sua futura encarnação.

Sendo de importância crucial esse momento de retrospecção em seu trânsito para a vida espiritual, necessitando o moribundo de toda a atenção e sossego para concentrar-se nos fenómenos que então se processam em si e em seu torno, torna-se evidente que um ambiente exterior sossegado, ausente de agitações emocionais, redundará em benefício enorme para ele. As vibrações intensas dos choros e lamentações dos entes que o cercam, só podem prejudicá-lo afectando imenso o seu desprendimento corpóreo, principalmente se ainda for jovem cujos laços físicos rompidos são muito mais intensos que num idoso.

É, assim, prova de elevado nível de cultura espiritual quando a família do morto sabe conservar a devida calma diante do evento dessa natureza, pelo que as religiões, os médicos e os enfermeiros deveriam ter uma cultura maior nesta questão da morte do que aparentam ter, para efectivamente intervirem com toda a eficiência tanto junto do que parte como dos seus entes queridos que ficam.

O costume de contratar “mulheres chorosas” ou “carpideiras” para assistir ao último suspiro do moribundo e ao seu enterro, cada uma caprichando mais que a outra no fingimento de manifestações sofríveis por quem nunca conheceram, é dos piores e mais desrespeitosos actos que se podem fazer por atingirem dolorosamente a alma que parte…

Não se deve comparar o momento da morte com o Dia do Juízo, embora o morto passe naqueles instantes por uma provação, que é justamente a de rememorar todos os seus actos. Talvez seja um pequeno juízo, porque o Grande Dia do Juízo Final diz respeito exclusivamente a um certo momento da evolução da alma através da cadeia de mundos. Mas o que não se pode negar é o acerto, mesmo que débil em termos de cultura teosófica, das religiões em dar assistência moral ao moribundo, ajudando-o nesse instante crucial com preces elevadas.

No caso da nossa Venerável Irmã volvida ao Mundo dos Deuses, ela desfechou essa sua vida terrena repetindo aquela frase da YOGA AKBEL ou do MUNINDRA, que tanto gostava de fazer: – Eu sou uma Munindra! Onde está a Munindra, está AKBEL!

Terminada essa fase de retrospecção, o homem entra num estado semiconsciente que corresponde à sua transição através do corpo etérico que deixa para trás ao mesmo tempo que o cordão da alma recua consigo até ao chakra umbilical do corpo astral, assim terminando a vida física, tornando-se o PRANA, “vida”, a APANA, “não-vida”. Com a saída da alma do corpo físico e deixando para trás o corpo etérico este fica ligado àquele, por ser o seu verdadeiro molde físico, mas já não o interpenetra, simplesmente fica flutuando sobre o cadáver, desagregando-se sincronicamente com o veículo físico. Por isso o cemitério apresenta o desagradável espectáculo dos corpos em decomposição com os seus moldes etéricos flutuando sobre eles como farrapos…

Isso leva à questão higiénica da cremação dos corpos advogada por muitos, principalmente no Oriente. Contudo e atendendo a que o processo de retrospecção e trânsito varia de alma para alma consoante a evolução alcançada, logo, sendo mais ou menos rápida a integração nos corpos superiores, deve-se ter muito cuidado em não queimar ou embalsamar o corpo antes de passarem, no mínimo, três dias depois da morte. Há aqueles que fazem a retrospecção e depois mantêm-se aferrados à vida que terminou, assim permanecendo no corpo etérico, e por repercussão acabarão sentindo os efeitos cirúrgicos de qualquer exame médico post-mortem ou ferimento provocado no corpo físico inerte. De maneira que, não é demais repetir, é aconselhável deixarem-se passar três dias antes de proceder a qualquer cremação, embalsamamento e até enterramento, como também a alguma autópsia, além de que pode acontecer o fenómeno, não raro, de um estado cataléptico, com paragem cardíaca temporária, ser confundido com morte orgânica.

Muitos que passaram pelo fenómeno cataléptico da “morte temporária”, dizem que nesse estado “penetraram num túnel luminoso ao fundo do qual havia gente ou paisagem, ou ambas as coisas”. Isso é fácil de explicar: Trata-se da abertura da visão suprafísica pela dilatação do chakra frontal, sem a ingerência das sensações físicas, dando-lhe assim o primeiro vislumbre do panorama do Plano imediato, o Astral. Quem, acaso, antes de adormecer nunca apercebeu um foco ou uma esfera luminosa na região frontal?…

Separado definitivamente do corpo denso, como disse, em geral o duplo etérico fica flutuando como uma nuvem violeta sobre o cadáver, constituindo aquilo que geralmente se chama de espectro. Então a consciência penetra num estado de sono, que perdura até se desprender completamente do mesmo duplo etérico, que vai de minutos a horas até dias e mesmo semanas, dependendo esse prazo da evolução consciencial alcançada pelo falecido. Para todos os efeitos, deve-se respeitar os três dias já assinalados… pois que desses em diante as condições para a execução das exéquias fúnebres entram em fase de degradação em qualquer sentido, e se acaso a alma permanecer ligada ao corpo morto através do duplo etérico em desagregação, então é sinal claro da sua parca evolução e farto karma, e tal será o seu castigo.

Mas não foi castigo antes glorificação a passagem ao Mundo Espiritual da nossa Venerável Irmã, ladeada por dois Anjos protectores por sobre o Altar ao som das trombetas do Hino Exaltação ao Graal, em sua veste de luz, nela parecendo cor de pérola, dando entrada apoteótica no Reino de YAMA, o Mundo dos Deuses ou das Almas Salvas – o DUAT.

 

RESSURREIÇÃO

 

O despertar post-mortem acontece com mais ou menos rapidez mas sempre com a maior das naturalidades como quem esteve dormindo um bom sono e agora desperta para um novo dia, para uma nova vida. Excluindo apenas o corpo físico, o homem vê-se exactamente o mesmo de antes de morrer: a mesma inteligência, o mesmo carácter, as mesmas virtudes e os mesmos vícios continuarão a dominá-lo após a desencarnação. As condições em que se acha após a morte são as que ele mesmo criou com os seus pensamentos e desejos ao longo da vida física.

Não há, para o homem que morre, nenhuma recompensa ou punição vinda do exterior. O que há é simplesmente o resultado daquilo que fez, disse, sentiu e pensou quando vivia no Mundo Físico. No Mundo Astral ele simplesmente colhe os frutos do que semeou na vida física, o que o dotará de consciência liberta e feliz ou, então, de consciência pesada e infeliz remoendo na culpa do que fez e não devia ter feito e… não mais pode remediar. Eis aqui a razão oculta dos dogmas de inferno, purgatório e céu das religiões, e também da importância que estas têm junto das massas populares para as informarem e formarem, de acordo com as mentalidades afins, sobre a necessidade permanente de cultivar uma conduta humana digna para não sofrerem as consequências dos seus próprios actos post-mortem. Mais uma vez, a Teosofia mostra-se imprescindível na formação espiritual dos religiosos, para que entendam melhor as suas doutrinas e mais perfeitamente as apliquem junto dos seguidores, assim se portando como verdadeiros popes, padres ou pais espirituais encaminhando na vida e na morte aos seus filhos.

De maneira que a primeira fase post-mortem não apresenta ao homem nenhum aspecto novo e estranho, mas a mera continuação, em condições mais ou menos diferentes segundo a sua apercepção das mesmas, da vida que levou no Mundo Físico. Prova a veracidade desta afirmação o facto de que inúmeros recém-chegados ao Plano Astral, após a morte, não terem consciência de haver morrido, e mesmo se compreenderem o que lhes acaba de acontecer, geralmente não são capazes de perceber em quê o Mundo Astral difere do Mundo Físico. Nesses casos, essas pessoas contrapõem de imediato o facto de estarem conscientes (o penso, logo existo, de Descartes), pensarem, sentirem e se moverem como uma prova absoluta de não terem morrido, independentemente do facto de durante a sua vida física terem ou não acreditado na imortalidade da alma.

Assim, à primeira vista quem entra no Mundo Astral pouca diferença nota do Mundo de que acaba de sair. Sabe-se que cada partícula de matéria astral é atraída por outra de matéria física correspondente. Portanto, se se imaginar o Mundo Físico totalmente suprimido, ficará a reprodução exacta do mesmo em matéria astral. O homem que aí chega verá da mesma forma os objectos, muros, móveis, pessoas, etc., a que estava habituado, bem delineados nessa mesma matéria. É verdade que se examinar com atenção os objectos, verificará que as suas partículas se acham em movimento, quando no Plano Físico esse movimento é imperceptível. Verá, também, tudo envolto numa ligeira luz difusa, como se tudo estivesse mergulhado em leve neblina, correspondendo ao éter astral disperso no espaço ambiente. Mas como a maioria não tem o hábito de analisar as coisas atentamente, o que acaba de morrer não aperceberá de imediato essa mudança. É por isto que muitos não acreditam ter morrido…

Mas pouco a pouco o homem compreende que alguma coisa nova aconteceu. Verifica primeiro que, apesar de ver os seus amigos no Plano Físico, não consegue comunicar-se com eles, debalde todos os seus esforços. Às vezes fala-lhes, e eles parecem não o ouvir. Experimenta tocá-los, e eles parecem não o sentir. Algumas vezes acredita estar sonhando, pois lhe é possível comunicar-se com os seus amigos quando eles estão dormindo. Assim, gradualmente começa a compreender as diferenças entre a sua vida actual e a física anterior. Uma das primeiras descobertas que mais o impressionam e maravilham é constatar ter desaparecido completamente de si toda a dor e toda a fadiga de carácter físico. Percebe, depois, que os seus pensamentos e desejos se exprimem em formas visíveis, tanto mais claras quanto mais se vai integrando nessa nova vida. Quem vive no corpo astral, depois da morte, é mais facilmente e mais profundamente influenciado pelos sentimentos dos seus amigos e inimigos do que quando se achava no Plano Físico. Isto deve-se a já não possuir o corpo denso que lhe atenuava as percepções e fazia dele um ser mais activo e menos passivo ou receptivo. Além disso, não vendo os seus amigos e inimigos como habitualmente antes, senão os seus corpos emocionais, conhece os seus sentimentos e as suas emoções pela visão directa desses mesmos corpos. Mesmo que geralmente não seja capaz de conhecer os detalhes das suas vidas físicas, contudo é muito consciente dos sentimentos desses amigos ou inimigos, tais como o amor ou o ódio, a simpatia ou a antipatia, etc. Daí o bem ou o mal que essa visão lhe pode causar.

Habitualmente, depois da morte o homem não vê a contraparte total dos objectos, mas apenas a porção que pertence ao subplano astral da sua afinidade ou simpatia aí onde se acha. Neste caso, irá iniciar a aprendizagem de identificação dos objectos, experiência essa que ao início é vaga e indecisa por as antigas percepções físicas se sobreporem às da nova condição, perturbação temporária essa que certamente não afligirá quem estudou, durante a vida terrena, as condições bioplásticas da vida nos Planos subtis.

É assim que, a partir do subplano da sua simpatia ou afinidade, o homem inicia o desgaste da restante matéria astral dos subplanos imediatos até os superar e dar início à sua segunda morte, que  é a de deixar o corpo astral para se integrar no Mundo Mental, o mesmo Céu, Paraíso, Devakan, Manas-Loka, Bardo, etc., das escrituras e religiões tradicionais.

A sua assunção a esse e permanência nele, antes de nova encarnação, varia de indivíduo para indivíduo de acordo com a sua anterior permanência no Astral e mérito de estar mais ou menos tempo no Mental.

Mercê das revelações e aplicações do Excelso AKBEL entre os homens na sua vida terrena, é sabido que a Humanidade comum, Jiva, após a morte vai para os Planos cerceando o Globo Terrestre, e aí fica até nova encarnação, enquanto a Humanidade eleita, Munindra, já dotada do estado psicomental Jina, após a desencarnação volve ao Mundo Interior do mesmo Globo, só havendo o ponto comum das Essências Espirituais ou Mónadas de ambas as classes estarem reservadas no Laboratório do Espírito Santo que é Shamballah, aquelas mais adormecidas do que estas. A transfusão da condição Jiva à Jina é exclusivamente feita através das revelações e aplicações do mesmo Excelso AKBEL, assim mesmo estabelecendo um ponto de contacto entre os Mundos exteriores e interiores, como seja:

Isso leva a concluir o seguinte: se bem que o fenómeno da morte física seja igual para todos, e a conquista da imortalidade, inclusive a física, tenha de passar pelo mesmo fenómeno, já a disposição psicomental de como se morre essa é que varia de pessoa para pessoa, indo determinar para onde se evolará a sua Alma: se para mais perto da Humanidade, se para mais perto de Deus, do Logos Eterno.

Se é para mais perto do Eterno Deus da Terra “em que todos existimos e temos o Ser”, parafraseando São Paulo, então ao Munindra fica a assertiva salvífica de AKBEL relativa ao seu futuro imortal (in Carta-Revelação de 21.06.1941):

«Donde o Governo Espiritual do Mundo exigir, logo da entrada no Templo, ao neófito para mentalizar o Globo Azul com o Pax dourado em triângulo, para que do seu pensamento nasça uma forma para aumentar o brilho do Deva da Obra, de há muito criado… Sim, porque acompanhando todos os Mistérios desde os Céus, a verdade maior é que tal Deva é “a minha própria veste celeste”, que aparece nas horas trágicas. E um dia sendo Um comigo e Ele… os 3 Mundos, acompanhando a evolução dos seres e quantos mistérios já são agora conhecidos da Obra, formarão o termo Maitri, ou seja, a Idade de Ouro.

«Não se julgue, pois, que tal Deva provém apenas desde a fundação da Sociedade Dhâranâ, em 1924. Nesta deu-se a sua projecção, como uma “deixa teatral”, qual acontece de vida em vida. Não se deve ter maus pensamentos, porque concorre-se para engrossar as fileiras do Mal. Ao contrário, estou farto de dizer, os Adeptos não fazem senão criar formas-pensamento de Bem, por isso mesmo, Anjos ou Devas do ambiente terreno, que se juntando aos do Divino ou Além-Akasha, por sua vez, auxiliam à resistência e iluminação, cada vez maior, desse Deva ou Egrégora, que já provém desde que existe na Terra a Grande Hierarquia Oculta. E muito mais, desde o começo da Raça Ária até hoje. No dia em que Ele ficar totalmente igual no meio e em baixo, na razão do seu esplendor celeste, o mundo estará redimido. O mundo será igual aos outros dois, isto é, só haverá uma Unidade geral das coisas…

«Não nos esqueçamos que a minha primeira esposa, Hercília, viu-o antes de morrer. E se tão distante ainda de estar completamente formado Ele era tão luminoso, tão resplandecente que ela quase desmaiou… que dizer daqui a mais alguns milénios? Não é Ele, ainda, quem abrindo as suas ASAS protectoras dentro do nosso Templo, Ele que me faz olhar embevecido para o tecto da Matriz durante toda a sessão, contemplando a MINHA FORMA DIVINA… dizia, se regozija, recebe os influxos poderosos dos mantrans, das vibrações, do mental, enfim, de todos os que preenchem o vazio desse mesmo Templo? Donde eu fazer um estudo, há dois anos, sobre o valor dos mantrans, que na Índia desde o seio materno embala e defende a criança, protege-a durante a vida e condu-la, depois da morte, aos Reinos ou Mundos Superiores.»

Mesmo assim, aprofundando ainda mais o tema, sirvo-me aqui do que escrevi em carta privada endereçada a valorosa Munindra sanlourenceana que me interrogou sobre o assunto (15.08.2008):

«Adentro assim as questões que a Venerável Irmã teve a gentileza de me colocar, referente à condição “post-mortem” do Munindra e o peso do seu karma determinando para que região irá a sua alma!…

«Antes de tudo o mais, temos que colocar a premissa elementar mas indispensável ao enquadramento de quanto se segue, isto é, se se trata dum MUNINDRA SIMBÓLICO ou dum MUNINDRA REAL.

«Se é um Munindra Simbólico, detentor do título mercê exclusiva do seu acesso ao Grau Interno da nossa OBRA e nada mais, então, logicamente não possui natureza ASSURA e sim JIVA, consequentemente, estando sujeito a todos os erros e quedas de qualquer ser humano em aprendizagem nesta grande Escola da Vida. O que o distingue dos seus semelhantes em Humanidade é tão-só participar directamente dos Mistérios Maiores da mesma Obra Divina, mesmo que acaso nada de nada perceba física, emocional e mentalmente deles. Acidentes vários ocorridos na estrutura social da Instituição desde há quatro ou cinco decénios, causados por interesses os mais imediatos e profanos, fizeram com que um Jiva normal, mesmo que possuído de “ensejos místicos” não apurados, adentrasse sem mais nem menos preparação maior uma Obra e Ordem de natureza absolutamente ASSURA, isto no sentido de participadora do MENTAL UNIVERSAL.

«De maneira que quando esse Munindra Simbólico falece fisicamente, pode acontecer uma de duas coisas:

«1.ª – Se a sua natureza humana não se transformou espiritualmente, permanecendo mental e emocionalmente pouco mais ou menos igual ao que era quando adentrou o escrínio da Obra, então após a morte física seguirá o rumo destinado a toda a Humanidade: deixará o suporte etérico do corpo físico (parcela do Corpo Físico do Globo animado pelo Sol, com o consequente Corpo Etérico balizado pela Lua, como “círculo não se passa”) e adentrará o Plano Astral (que é o Corpo Emocional da Terra, balizado por Marte) envolvente do Globo constituindo o seu ambiente psíquico (positivo e negativo, dependendo de cada qual com qual dos pólos se afinizará), e só depois de purgar as consequências dos seus actos no Mundo anterior, mercê do mecanismo da consciência remoendo-se (donde o remorso) no sentimento de auto-culpabilização, adentrará o Plano Mental Concreto (da Terra, balizado por Saturno), onde permanecerá até soar o momento de nova encarnação.

«Ou então:

«2.ª – Se foi um Munindra Simbólico, sim, mas sincero para consigo mesmo e o seu próximo, a começar pelos seus Irmãos de Grupo Esotérico expressão do Grupo Egóico, sempre trabalhando para se transformar de JIVA em JIVATMÃ e neste sentido ajudar na transformação geral do Grupo e de toda a Humanidade, acaba por assumir a natureza dum Munindra Real e seguir o mesmo curso que este post-mortem, graças aos seus próprios esforços os mais dignos e dignificantes da sua real natureza espiritual, divina mesmo.

«Respeitante ao Munindra Real, é muito natural que ao longo da sua vida física cometa estes ou aqueles desmandos (quem não os comete?), mas que os sabe reconhecer após cometidos e logo após esforçar-se, num acto de boa vontade ou disposição interior, por não mais os repetir. Seja como for, ficarão para sempre impressas nos seus registos akáshicos as impressões das suas boas e más e acções, que lhe irão alegrar ou afligir a consciência. Por norma, as impressões positivas são mais que as negativas, mercê da sua noção da Lei e vivência em consonância com a mesma.

«Quando desencarna, após libertar-se do duplo etérico passa algum tempo no Mundo de Badagas até reajustar a sua consciência à sua condição real e assim libertar-se do fardo kármico da última vida, ou seja, reajustar o mecanismo psicomental à nova condição aos poucos apaziguando-se ante o remorso do que deveria ter feito bem e não fez… É uma condição absolutamente transitória, de duração muito limitada.

«Badagas é o Submundo da Face da Terra, e se bem que a sua natureza seja física contudo não deixa de ser muito mais bioplástica, etérica que o estado sólido propriamente dito. Badagas também é sólida, sem dúvida, mas predominando a condição etérica que, por seu lado, liga-se directamente ao Astral do Globo que é o Duat. De maneira que esse Mundo é como que uma “Câmara de Reflexão” antes de penetrar o Átrio da Região dos Deuses, o mesmo Duat ou Amenti. Razão de se ver nesse Mundo Sedote seres físicos entremesclados com seres hiperfísicos, o que qualquer observador vindo da superfície regista com facilidade e sem necessidade de ser clarividente, pois que o ambiente etéreo-astral rarefeitíssimo daí propícia o fenómeno. Razão, também, de se observar nos Templos Sedotes «materializações» ou manifestações – graças exclusivamente ao éter ambiente – com a maior das facilidades e naturalidades de Seres verdadeiramente Divinos provindos do mais profundo e espiritual do Globo. Aí temos a explicação da manifestação física dessa Hierarquia paralela à Humana, de natureza etérica, que é a dos Munis e Todes, para todos os efeitos pouco se afastando dos seus lugares privilegiados, como é o caso aí da Montanha Sagrada Moreb servindo de abóbada ou zimbório ao Templo do Mekatulam.

«Após ter reajustado a sua consciência kármica à nova condição, o Munindra Real anseia ainda mais Luz e Paz e gradualmente vai dando entrada no Mundo de Duat, onde permanecerá até próximo da sua nova encarnação. Quando estiver nas proximidades de encarnar, liberta-se do seu corpo astral – que poderá ou não ficar aí como um “molde” de que o seu Mestre se servirá para comunicar com a sua Consciência encarnada; se não, dissolver-se-á lentamente no espaço ambiental do Duat, o que equivale, em termos simbólicos, a «queimar» o corpo astral – e vai para a Agharta onde reunirá a matéria mental necessária para criar novos corpos de manifestação, estando a sua Mónada em Shamballah integrada ao respectivo Manasaputra pelo qual criará um corpo mental concreto, depois o emocional, a seguir o vital e, ao poucos, vai tomando forma na Face da Terra que ficará concluída no momento do nascimento.

«É assim que morre, ressuscita e nasce um Munindra Real. Pode até acontecer que no momento do nascimento, por sua natureza bioplástica, seja muito mais fácil substituir uma Mónada por outra por razões de Missão determinada pela Hierarquia Maior, e então tem-se o fenómeno das “crianças trocadas” à nascença, como foi o caso de Henrique em relação a Honorato, em 1883.

«Quanto à sua outra questão, respeitante à doação de órgãos (inclusive sangue) de um corpo humano a outro, sem dúvida que em princípio se deve evitar mas, sem dúvida também, que nem sempre se pode evitar. Não se podendo evitar, procure-se então os órgãos (inclusive sangue) mais compatíveis com a natureza do receptor, e o seu mecanismo psicomental agirá sobre os compostos estranhos ao seu organismo e poderá aceitar e integrar biologicamente os mesmos. O não se fazer essa selecção é que leva inúmeras vezes à rejeição dos órgãos doados por outra pessoa. Não nos esqueçamos que o corpo etérico tem uma capacidade enorme de assimilação graças à sua natureza bioplástica – capaz de, figuradamente, “transformar chumbo em ouro” – e as “samskaras” ou “impressões kármicas” não estão no duplo etérico e sim no “kama-manásico”, o veículo psicomental (onde a parte superior do Astral se entresmescla com a parte inferior do Mental). De maneira que essa operação em si mesma é alheia ao karma pessoal da pessoa, não o aumenta nem diminui em princípio, só em consequência da aceitação ou rejeição dos órgãos novos (inclusive sangue), o que lhe poderá trazer bem-estar ou sofrimento, mas isto já tem a ver com o seu próprio karma e não que a operação lhe traga novo karma.

«Quanto a pessoalmente decidir doar os seus órgãos físicos após deixar o seu corpo actual, a decisão cabe inteiramente a si. Se deixou para sempre o seu corpo físico e seguiu avante pelo Mistério da Eternidade, logo, deixou de ter qualquer relação com o mesmo, pelo que os órgãos eventualmente doados a outrem necessitado deles não irá afectar a si em coisa nenhuma. Já não tem nada a ver consigo… Quanto ao receptor, bem, aí o caso é diferente: se a pessoa que doou os seus órgãos foi uma espiritualista, cujos pensamentos e emoções positivas afectaram grave e beneficamente o corpo denso, quem for receber esses órgãos só pode beneficiar com isso, e nisto entra em acção a Lei do Karma, pois o que os receber será por determinismo kármico favorável a si mesmo. Mas, mais uma vez, o ou a doadora morta e bem morta para o mundo terreno, em nadíssima será afectada em sua estrutura interna, em sua alma. Fenómeno semelhante acontece na “segunda morte”, quando a alma larga o corpo astral ou emocional para integrar o Plano Mental: se o cascão psíquico (astral) deixado para trás acaso for ocupado temporariamente por algum ser astralino (tipo elemental, por exemplo), em nadíssima isso afectará o Ser recentemente passado ao Mundo do Pensamento (Devakan, Bardo, Eliseu, Céu, etc.). Quando o desnecessário da nossa vida diária é assumido lixo e deitado fora, em princípio, obviamente esquecemo-lo após excluído e continuamos a rotina de nossa vida. O mesmo acontece com os órgãos físicos e os corpos extra-físicos, depois da nossa Consciência já não necessitar deles. Quem afirmar o contrário, incorre em grande erro e prova cabal de ignorância. Mas isso já não nos importa…

«Essa teoria de certos espiritualistas restritiva à doação de órgãos (inclusive sangue) foi rebuscada aos conceitos anglicanos de Charles Leadbeater que os transpôs aos seus nóveis teosofistas, aqui muito semelhantes aos raciais judaicos ortodoxos assimilados pelo extremismo da seita “Testemunhas de Jeová”. Mas nós nada temos a ver com isso e, sobretudo, devemos ter em mente sempre o seguinte: a Vida é o Mistério e para o entender o discípulo deve manter constantemente uma mente muito “elástica”, sempre aberta a novos e mais amplos horizontes de existência. Nem tudo é o que parece e nem tudo que parece, é!…»

 

ENCARNAÇÃO

 

Quando chega o momento em que a Mónada, na sua marcha contínua para mais alto e mais profundo, deixa para trás o corpo emocional da mesma forma como deixou o corpo físico por ocasião da morte, processa-se então o que se chama de morte astral ou segunda morte.

A retirada da Mónada ou Ego Espiritual vai progressivamente paralisando as funções do corpo astral, a começar pelas mais densas, que assim se desagregam à medida que a consciência se retira, por um esforço semiconsciente do mesmo Ego. É desta maneira que o homem se liberta gradualmente desse veículo, até deixá-lo totalmente e ingressar no Mundo Mental, o chamado Devakan.

Durante a sua estadia no Plano Emocional o Espírito purificou e assimilou tudo quanto havia de puro e assimilável nas emoções e sentimentos do corpo astral, de maneira que o que restará deste será um simples resíduo, um cascão de que a Tríade Superior (Espírito – Intuição – Mental Abstracto) se liberta facilmente, passando a vibrar num nível imediatamente superior onde também purificará e assimilará tudo quanto de puro e assimilável o homem pensou enquanto ser carnal.

Ao passar do Astral ao Mental pelo fenómeno da segunda morte, o homem não leva consigo as características emocionais, pois que a matéria astral não pode existir no Plano Mental e a matéria deste não pode responder às emoções grosseiras das paixões e desejos inferiores. Tudo quanto no homem se exprimiu como inferior ou de baixo padrão vibratório, fica em estado latente no átomo-semente mental que entretanto já absorveu o átomo-semente astral, e assim fica durante toda a sua vida devakânica ou celeste. É assim que, quando termina a vida astral, os elementos vitais retiram-se desse corpo abandonando-o à desagregação enquanto o seu átomo-semente se aloja no Corpo Causal ou Mental Superior.

Nos casos da maioria dos homens comuns, uma parte da sua matéria mental acha-se de tal modo misturada com a matéria astral (o que se chama kama-manas ou psicomental) que se torna impossível separá-las de imediato. Daí decorre que uma porção da matéria mental fica no corpo emocional após a partida da Mónada, facto muito semelhante ao que ocorre na primeira morte.

No caso em que o homem, durante a sua vida, subjugou completamente os seus desejos inferiores e conseguiu libertar inteiramente o mental de todos eles, acontece que não terá nenhuma dificuldade em abandonar o corpo astral, levando consigo não só quanto trouxe para essa encarnação particular como o conjunto de todas as experiências, faculdades, etc., adquiridas.

Neste ponto, devo informar antes do mais que quanto maior for a duração de uma alma no Plano Astral mais depressa ela acabará por esquecer a sua última vida terrena, de que não se lembrará absolutamente nada quando se transfere ao Plano Mental, e cuja memória, ou melhor, as impressões psicomentais dessa mesma vida ficam registadas no seu átomo-semente causal, sendo quem irão determinar as condições da sua reencarnação futura. Só os Grandes Adeptos e Iniciados conservam a memória das vidas passadas, mesmo quando encarnam, por manterem uma consciência ininterrupta dos vários níveis do Ser fixando-a do Plano Búdhico ou Intuicional para “baixo”.

Terminada a acção das causas que levaram o Ego Espiritual ao Plano Mental, completamente assimilados os frutos das experiências colhidas nos Planos inferiores, passado algum tempo começa a surgir no Ser o desejo natural de se objectivar nos Mundos das Formas. A este desejo, que tanto para o indivíduo como para o Cosmos é a causa primária da reencarnação e da manifestação, os hindus dão o nome de trishna.

Ele nasce, na maioria dos homens cujos laços kármicos os atrai ou encadeia ao Mundo das Formas, após a alma haver satisfeito as suas necessidades nos Planos Astral e Mental, indo invadi-la o pensamento intenso de que aí já cumpriu o seu propósito e começa a conjecturar a possibilidade de entrar numa nova fase de existência. É quando o seu corpo mental começa a dissolver-se no espaço ambiental e o Ser inicia um estado de sonolência que, ao mesmo tempo, leva-o a recolher-se ao Mundo Mental Superior ou Causal, indo desprender-se de vez do veículo mental inferior, o que equivale a uma terceira morte. Então o Ego vai adormecendo cada vez mais sobre si mesmo.

Ante a proximidade desse novo estado de sonolência a alma não experimenta qualquer sensação de dor ou incómodo, pelo contrário, invade-a uma espécie de satisfação e felicidade como se pressentisse algo que a irá renovar e realizar, pressentindo a proximidade de novas experiências que terá possibilidade de vivenciar numa nova existência.

De forma que ao terminar o ciclo do Devakan, o Ego acha-se livre de toda a peia passada, mesmo que as acções praticadas na vida anterior não se achem aniquiladas, pois que o registo dessas impressões (samskaras) contém-se no seu átomo-semente mental. Se elas não existissem a Lei não determinaria nova encarnação, pelo que se encontram em estado latente formando a raiz do seu destino. As sementes das tendências começam a germinar logo que o Ego se prepara para a próxima encarnação despendendo de si, dos seus átomos-sementes, as matérias mental, astral e física para a criação de uma nova personalidade que o revestirá. É assim que a nova personalidade carrega consigo o fardo do passado.

As sementes provenientes da colheita do passado são chamadas de skandhas, “tendências”. Logo que o Ego se apresenta no limiar dos Mundos Mental e Astral para uma nova encarnação, as skandhas fazem-se presentes para constituir o carácter dos novos veículos, ou seja, as qualidades materiais e as tendências psicomentais dessa nova personalidade. O Ego envolve-se primeiro de matéria do Mundo Mental, em seguida de matéria do Mundo Emocional, e terá assim os novos veículos dessa natureza onde reaparecerão os interesses, emoções e apetites das suas vidas passadas. Essa matéria psicomental é atraída para o Ego automaticamente, e tal natureza irá reproduzir a que o homem possuía na sua última vida terrena. É assim que ele irá reiniciar a sua vida material no ponto justo em que a deixou pela última vez.

De acordo com as suas necessidades e simpatias kármicas as quais ligam o passado ao futuro, ou sejam, as suas mesmas samskaras, o Ego naturalmente penetra na corrente que o conduz ao renascimento na família e ambiente adequados ao seu grau de evolução, mas que também lhe irão possibilitar as experiências necessárias à expiação dos dividendos passados. Isto explica porque numa alma sem karma o interesse por novas experiências humanas inexiste, e assim o Ego não é acometido de qualquer sono pré-reencarnatório, antes procura a absorção cada vez maior na Divindade de quem é Partícula ou Centelha um dia desprendida para se manifestar.

Em consequência desse encadeamento ao Mundo das Formas, o Ego vai submergindo-se num sono profundo – que se torna completo no momento em que se liga inteiramente ao novo corpo físico, o que sucede quando é cortado o “cordão umbilical” – indo assim “morrer” para o Mundo Espiritual no seu “descenso” a caminho do Mundo Material, onde finalmente reencarna.

O Ego Espiritual não fica enclausurado dentro da forma física, antes se manifesta pela alma nessa mesma forma, e tal “clausura” equivale a estar com a sua consciência inteiramente focada no Mundo das Formas, completamente abstraído do Mundo Espiritual que o envolve.

O sono do Ego regista-se nos recém-nascidos, que continuam sonolentos durante a infância – por isto os bebés dormem muito nos primeiros tempos, de noite e de dia, sendo menos o tempo de vigília que o de sono, por a sua consciência ainda estar muito ligada aos mundos espirituais onde passam a maior parte desse tempo – e aos poucos vão despertando para os factores externos, à medida que se desenvolve a inteligência da criança.

Um último tópico: a irrequietude da maioria das crianças é uma forma de despenderem ou largarem as energias do passado acompanhando as suas tendências psicomentais anteriores, assim ganhando novas energias e, por via dos novos interesses, novas tendências. Quando a criança é inibida do descanso regular e das brincadeiras irrequietas pelos adultos, está-se forjando o seu futuro doentio, obeso ou esquálido, sempre centrípeto, o qual certamente ninguém lhe deve desejar. Nisto, o papel dos pais e educadores é fundamental: à medida que os interesses da criança se manifestam, irem lhe dando educação primorosa, preferencialmente de natureza espiritual em conformidade às apetências e interesses da idade tenra, para que um dia sejam bons cidadãos, óptimos chefes de família e excelentes espiritualistas.

Assim se aprende a matar a Morte e a saber que a Vida após a Vida prossegue sempre na eternidade do Ser, da Consciência cuja imortalidade cada vez mais se torna a peneira do Futuro neste Eterno Presente.

Tenho dito.

Bijam

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Vários autores, A Natureza Secreta do Homem (Estudo dos corpos astral e mental). Editora Arabutã, São Paulo, 1994.

Max Heindel, Cosmogonia dos Rosacruzes ou Conceito Rosacruz do Cosmos. Edições Alfaómega Portugal, Lisboa, 1981.

Ramacharaka, A vida depois da morte. Editora Pensamento, São Paulo, 1937.

C. W. Leadbeater, O que há além da morte. Editora Pensamento, São Paulo, 1979.

Arthur E. Powell, vários volumes: O Duplo Etérico, O Corpo Astral, O Corpo Mental, O Corpo Causal e o Ego. Editora Pensamento, São Paulo.

 

 

 

 

 

 

 

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