Sintra, 1980

 Asato ma sat gamaya                                   Guia-me do irreal ao Real

Tamaso ma yiotir-gamaya                             Da treva à Luz

Mritior-ma amritam gamaya.                        Da morte à Imortalidade.

 

Falar e escrever sobre o que seja um discípulo verdadeiro, avizinha-se tarefa árdua, quase impossível de descrever… É recordar a solidão, mesmo quando se está rodeado de gente, fidelíssima companheira de quem se desfez do mundo e procura a riqueza do Eterno; é lembrar amarguras, tristezas e injustiças morais e físicas, recompensa certa que o mundo dá a quem ao mundo tudo dá. É impossível descrever com exactidão o que seja um Iniciado verdadeiro, ou tão-só verdadeiro discípulo, que, em comparação com a consciência comum dos seus semelhantes em Humanidade, já está na cumeeira do seu Género.

Mesmo assim, com toda a dificuldade, tentarei descrever em linhas gerais o que seja o Iniciado e o Caminho da Verdadeira Iniciação, desde já pedindo desculpa por alguma insuficiência acaso apresentando-se no que se segue.

Como já se sabe, a 4.ª Vaga de Vida ou Expiração Monádica do Supremo Demiurgo, o Logos Planetário, é a Humana (Jiva). Processando a sua Evolução através do compasso quaternário, esta Vaga soprada da Boca do Eterno apresenta-se hoje em 4 tipos de consciência bem definidos de acordo com o seu maior ou menor progresso evolucional. Assim, tem-se:

A) Primitivos. Os seres recém-saídos da terceira Vaga de Vida, a Animal, e entrados no estado Humano. Consequentemente, possuem poucas reencarnações humanas estando, ao nível da personalidade ou “eu” inferior, completamente desligados consciencialmente do Eu Superior, Espiritual, sendo a sua principal função alinhar entre si os veículos dessa mesma personalidade, inteiramente desencontrados ou desalinhados uns dos outros. Estes seres foram, na ocasião, a vanguarda do Reino Animal, os mais adiantados no desenvolvimento interno quanto à passagem do Emocional para o Mental Concreto.

B) Civilizados. A vasta maioria humana, isto é, o homem que pensa no plano objectivo ou concreto com bastante potência podendo, vez por outra, ainda assim excepcional e rarissimamente, ter ténues vislumbres da Mente Superior, subjectiva, ou seja, do Corpo Causal. Neste estado, os sentimentos mais nobres do homem dirigem-se quase exclusivamente à sua família e amigos mais chegados, ainda que também possa ter, nos seus limites estreitos, acessos de compaixão pelos desconhecidos em sofrimentos que, mesmo não sendo seus familiares nem amigos chegados, em boa verdade são seus irmãos em Humanidade, pois que todos provêm e estão ligados monadicamente ao Deus Único, o Logos Soberano da Terra, e assim, na essência última, todos constituem uma verdadeira Família Planetária a qual hoje, aparentemente, anda dispersa ou desavinda entre si. Para o cultivo cada vez maior dessa compaixão ou amor ao próximo, inquestionavelmente as religiões verdadeiras, não as falsas que transformam os altares em “balcões de negócios”, através dos seus sistemas morais são imprescindíveis à manutenção do tecido social e a impedir que o Homem regrida à animalidade bestial. Para o homem desta condição a matéria objectiva, visível e tangível pelos sentidos físicos, constitui a mestra suprema nas suas realizações imediatas. Para ele, toda vida resume-se ao concreto do positivismo, inclusive a religião, onde para entender o subjectivo tem de o objectivar, assim só acreditando em Deus quando Ele tem forma semelhante à sua e age como ele agiria, pagando a uns com os carvões do eterno braseiro infernal e premiando a outros com as róseas e eternas nuvens celestiais. E assim, pacata e naturalmente, inconscientemente o homem vai palmilhando o caminho da sua evolução rumo ao destino incógnito mas, quiçá, promissor…

C) Idealistas. Os mais adiantados da Humanidade comum. Por norma, assumem os postos de chefia dos vários ramos da estrutura social (educação, filosofia, religião, artes e letras, política, ciência, força militar, economia, etc.). Muitos destes homens e mulheres já estão muito próximos da tomada de consciência da Divindade na Natureza Universal, consequentemente, da Divina Lei Suprema que a tudo e a todos rege, e, não raras vezes, os Mestres Soberanos da Humanidade, os Mahatmas ou “Grandes Almas”, servem-se deles inspirando-os, geralmente sem suspeitarem minimamente, a uma boa condução e educação da restante Família Humana no caminho do verdadeiro Progresso, sinónimo de Verdadeira Iniciação Colectiva, visto o Homem comum, devido à sua própria ignorância cega (avidya), como é natural quando a Vida-Energia (Jiva) predomina e a Vida-Consciência (Jivatmã) ainda está em semente, correr o risco permanente de cristalizar na matéria bruta, à semelhança do aconteceu a parte extensa da Humanidade na anterior Cadeia Lunar, acontecimento que a Bíblia simboliza no episódio da mulher de Lot (Lut ou Lupe, “Lua”) ter se transformado numa «estátua de sal», isto é, cristalizado na sua evolução lunar, passando à Cadeia seguinte, a actual Terrestre, com grande atraso, o que justifica ainda a presença de tribos humanas selvagens no Mundo de hoje.

D) Aspirantes. Sem me referir exclusivamente ao Aspirante à 1.ª Iniciação Espiritual, este tipo humano é o pico consciencial da Humanidade comum. No seu íntimo já soou o abstracto Chamado, a indescritível Saudade do Eterno invadiu-o e misteriosamente inflamou-o, e sentindo o cansaço dos preconceitos de uma vida sempre igual nos mesmos limites estreitos, a sua consciência agoniza para ela na noite mais escura da matéria e parte, parte só e sem um adeus, desafiando as suas incertezas e inquietações ante o que o espera mais além… na profundeza abissal do seu âmago profundo, partindo à demanda do Tesouro de Deus, o seu Deus Único e Verdadeiro, a Centelha Monádica do Grande Mar de Fogo Universal despendido do próprio Logos Eterno, «em cuja Presença existimos e temos o nosso ser», citando São Paulo.

É desse homem solitário sem pátria fixa nem leito certo, mesmo que se fixe em país certo e recoste em leitos de seda, num solilóquio permanente com o seu Deus, mais que num colóquio com os homens, que irei falar, e, quiçá, afinal também esteja falando de mim!…

O que acabei de descrever é referido na Escola Esotérica Oriental dos Arhats como as 4 castas raciais: Brahmane – Kshatriya – Vaíshia – Shudra, o que corresponde na organização medieval europeia ao Clero – Nobreza – Comércio – Povo. Mas deve acrescentar-se que, devido à crise francamente iniciática por que passa a Humanidade e tudo quanto na Terra vive hoje em dia, roncando as dores de parto de um Novo Estado de Consciência, os diversos tipos humanos estão completamente baralhados, misturados entre si recolhendo uns dos outros as mais diversas experiências necessárias à evolução do todo. Por isso se vê agora «um médico que daria um excelente sapateiro» ou «um padre com alma de mercador»… E também por isso o discípulo verdadeiro reencarna actualmente em meios completamente adversos à sua condição real, aos seus reais anelos interiores. É, afinal, como diz o Mestre Djwal Khul Mavalankar, o Tibetano, «a evolução pelo atrito»…

Esses diferentes estados de consciência humana dão razão à Lei da Hierarquia, quando diz: «os homens são iguais em essência, não tanto em potência, e desiguais em presença».

Mas, como pode um comum mortal enraizado em padrões intelectuais preestabelecidos e em preconceitos emocionais irrevogáveis, de súbito entrar em conflito aberto com essa condição psicomental ao começar a interessar-se e a dedicar-se inteiramente aos assuntos metafísicos, criando as condições interiores para vir a ser, doravante, um Gotrabhu ou “Aspirante ao Aspirantado”?

A Substância Universal preenche a Vida-Energia e esta reage cada vez mais sensivelmente por ciclos prévia e perfeitamente estabelecidos pelas Hierarquias Criadoras do Universo, cuja influência chega até ao metabolismo psico-biológico do Homem. Geralmente um Gotrabhu torna-se tal após completar um longo ciclo de reencarnações durante o qual recolheu as experiências necessárias à sua maior consciência e consequente amadurecimento interior, e assim acabando por despertar para a Vida do Espírito, ou seja, começar a predominar nele a Vida-Consciência. Contudo, logicamente que o tempo de duração até esse despertar interior varia de pessoa para pessoa, tudo dependendo do seu mais rápido ou mais lento amadurecimento consciencial, mesmo que tudo esteja conformado aos ritmos certos do relógio sideral que é o Zodíaco, corpo de manifestação das 12 Hierarquias Criadoras em torno do Logos Solar.

Os Grandes Mestres de Amor-Sabedoria são as provas cabais de que assim é. No esforço permanente de transformação, sublimação e assunção sobre si mesmos, na opera magna atravessando quantas vidas foram necessárias mas sem perderem o entusiasmo que os impelia avante – até aos pés do seu Mestre Interior reflectido nalgum Mestre Exterior que desde o início os encaminhava, os inspirava de fora, até se tornarem UM com o MESTRE, finalmente, também eles transformados em Adeptos Reais ou Verdadeiros –, por vezes elevaram-se em metade do tempo preestabelecido pela Lei Maior, para sempre se libertando da “lei da morte”, ou seja, das cadeias férreas do Ciclo de Necessidade da Roda do Destino que os condicionava à Lei de Prakriti, a Matéria original do Mundo das Formas, e que é a alavanca impulsionadora de Dharma, Karma e Samsara, isto é, da Consciência, do Discernimento e do Movimento.

Paulatina e pacientemente, Eles, Excelsos Mestres Soberanos da Humanidade, porque Ativarnas (“acima das castas”), quando foram simples mortais decerto também realizaram os seus pequenos exercícios espirituais aconselhados por seus Mentores. Aos poucos, sem desistirem e com uma confiança ilimitada “Naqueles que tudo sabem e podem”, foram realizando a sua Integração espiritual, o Alinhamento vital entre o seu “eu” inferior e o “Eu” Superior; primeiro da Personalidade material com a Individualidade espiritual, e a seguir desta com a Mónada Divina. Seguidamente, da Mónada com o Logos Planetário e, por fim, com o Solar, assim se tornando, efectivamente, Homens Divinos participes directos da Consciência do Universo.

Existe um “momentum” próprio para o despertar da consciência espiritual e a consequente satisfação das necessidades desta. De maneira que nada adianta o lamento comum do «porque não despertei mais cedo?», pois só quando a alma está suficientemente amadurecida, ela desperta. Antes disso… impossível. Por regra geral, há quatro meios para ingressar no Caminho do Progresso Interior ou da Verdadeira Iniciação:

1.º) Pela companhia daqueles que nele já entraram;

2.º) Ouvindo e lendo ensinamentos específicos sobre a Doutrina Oculta;

3.º) Pela reflexão esclarecida, isto é, pela própria força do pensamento constante e raciocínio cerrado pode chegar por si mesmo a parte da Verdade;

4.º) Pela prática da virtude, o que quer dizer que um longa série de vidas virtuosas, ainda que não implique necessariamente um aumento da intelectualidade, acaba por desenvolver num indivíduo a intuição suficiente para que ele compreenda a necessidade de entrar no Caminho, e veja qual a direcção que esse Caminho toma.

Quando o iniciante começa a estudar e a praticar os ensinamentos da Sabedoria Divina (Teosofia ou Gupta-Vidya), vivenciando-os o melhor que pode e sabe, por norma acontecem dois factos interessantes que são, por assim dizer, despoletados pelo arranque espiritual:

A) Aceleramento kármico. À sua volta o até então sólido e belo mundo social, desmorona-se como coisa velha, podre e gasta. A sua consciência agora interessada por mais altos e dignos valores dos que até então o possuíam, vai-lhe precipitar o desfazer das ilusões mundanas, portanto, advindo as desilusões dolorosas. Doravante, em seu íntimo, a sociedade profana depara-se-lhe um monte de cinzas, uma fogueira de paixões intensas nele já apagadas, de ilusões perdidas ou desfeitas. Os “bons e dedicados amigos” de antanho, fiéis companheiros de boémia e vida passional, passam a ser vistos com outros olhos ao aperceber-se que tal «amizade» é interesseira, finita e caduca, toda ela se prendendo à forma e não à totalidade do ser. Geralmente basta uma ligeira discordância, e pronto… fica-se sem o «bom e velho amigo». A família deixa de ter o exclusivo das suas atenções e interesses, quando dilata essas mesmas atenções e interesses ao restante Grupo Humano. Então, é praticamente certo, advêm os aborrecimentos: «Como é possível você, criatura sã e inteligente, acreditar em tais tolices?», reagem os familiares e «amigos» incapazes de entender o que a larga e horizontal mente humana, em que estão, jamais poderá responder, pois a resposta está um tom acima, na profunda e vertical mente espiritual. Aqui, neste conspecto social, para seu bem o discípulo deverá usar de muita discrição e prudência, visto a ostentação ou exibicionismo só servir para agravar a situação e, dessa maneira, acabar sendo marginalizado… por culpa sua. A sua profissão como “ganha-pão” certo, também tende a encará-la como uma monotonia «sem préstimo algum», o que está de todo errado e pode corrigir se encarar a profissão, seja ela qual for, como um contributo imprescindível para o bem geral da sociedade, sendo retribuído com o salário certo e merecido com que se sustentará e aos seus. Vista assim, a actividade profissional não deixa de ser uma perfeita meditação activa.

A Humanidade sofre por ter feito do amor um pecado e do trabalho um castigo. –  Disse o Professor Henrique José de Souza, ou seja, aquele que os Teúrgicos e Teósofos entendem como o Venerável Mestre JHS.

A vida do aspirante enche-se de problemas, vindo perturbar o seu sossego social até há pouco imperturbável. Se for pessoa ainda pouco segura, não deixará de perguntar-se: «Será a Teosofia e o Ocultismo uma manha diabólica?». Diga-se, de passagem, que muitos iniciantes convencem-se que de facto assim é, e pronto: exorcismo aos livros e textos teosóficos e ocultistas, ao fogo com eles e os seus diabolismos – vade retro Satanás! – juntamente com os diabólicos propagadores de tamanhas insanidades, e logo tratar de esquecer para sempre essa «loucura momentânea» que os arrastou por «interesses idiotas» que «só azar trazem». Se acaso algum deste género ainda estiver filiado na convencional religião estatal, por certo não deixará de procurar o padre-cura para obter a remissão do seu pecado capital em ter ambicionado, debalde… levantar o VÉU DE ÍSIS!

Ainda não chegaram os seus “momentuns”, e por isso acontece tal. Pressentem mas não arriscam… há que aguardar mais uns anos ou, então, uma próxima vida, sim, porque Natura non facit saltus, isto é, a Natureza não dá saltos.

Se a vida do aspirante se “enche de problemas” (na realidade eles sempre existiram, como factores psicossociais não resolvidos e que são o lastro nocivo da consciência remoendo-se, ou do remorso da alma), ainda assim é porque o seu karma pessoal foi acelerado pelos Anjos do Destino, a fim de se esgotar mais rapidamente, debitando numa vida o que normalmente levaria cinco ou seis a debitar, contudo sempre e matematicamente em conformidade com as  suas capacidades de suportar. Isto faz parte do Plano Iniciático proposto aos candidatos ao Adeptado, fenómeno a que o Professor Henrique José de Souza chamou de “Colapso da Velocidade”. A paciência, a humildade e a aceitação das provações, tudo isso temperado com a fé esclarecida nos Mestres e no Mestre Interno, juntamente com o amor dedicado a toda a Vida e o estudo aplicado das Causas, acabará levando o discípulo à superação da consciência ordinária e assim, passando a encarar as circunstâncias imediatas de uma maneira superior, conseguirá a força da energia necessária para vencer as tribulações diárias.

B) Superstição psicomental. Esta é uma verdadeira chaga viva para a maioria esmagadora dos estudantes dando os primeiros passos no estudo e compreensão da Teurgia e Teosofia, indo redundar manifestamente tanto num crencismo pueril quanto num puritanismo castrante, e isto porque o seu sistema psicomental ainda está muitíssimo dependente dos seculares padrões morais das religiões vigentes os quais, é forçoso reconhecer, limitam mais do que libertam. De maneira que ao início ainda se mantém uma série de condicionalismos, mais ou menos inconscientes, os quais são um rigoroso e intocável tabu para o neófito. Por exemplo, é quase comum vê-lo inibir-se de se afirmar e agir com rigor e determinação em certas situações conflituosas onde a sua presença é imprescindível, mas que escusa recusando assumir-se, assumindo assim a sua fraqueza, e isto tão-só por causa da sua tendência emocional em resvalar para o bem famoso puritanismo do não dever agir muito materialmente, em que situação for, porque simplesmente não é… espiritual. Pessoalmente, conheço inúmeras pessoas assim, auto-emparedadas psicomentalmente num tabu subtil rotulado de «espiritualismo» mas que é, em boa verdade, é um completo materialismo, mas muito mais falaz, por ser subtil, quase invisível ou despercebido aos sentidos imediatos: o materialismo «sentimentalista», fruto de uma mal cultivada religiosidade psíquica. É óbvio que deverá haver educação espiritual da pessoa, cultivando o carácter pela moral e a inteligência pela cultura, portanto, uma educação esclarecida, liberta de tabus e preconceitos sócio-religiosos, sempre aberta a novos horizontes de sabedoria e conhecimento porque, na Vida como ela é, realmente não existem padrões definitivos, visto tudo ser mutável e móvel, desde logo devendo o aspirante dotar-se de uma mente muito «elástica», sempre pronta a reconhecer e integrar horizontes cada vez mais vastos e esclarecedores.

O Iniciado ocidental, com a sua própria Tradição Espiritual, inserido num esquema de vida diária a mais profana que o força a afirmar-se a cada momento, tem de assumir a condição de verdadeiro guerreiro, sempre a favor do Espírito mas sem desprezar a Matéria, espalhando em redor, através do exemplo facultado pelo seu carácter e cultura firmes, a chama viva da espiritualidade, esta que não se acende com “fraquezas e medos” mas com ousadia e valentia ante uma civilização materialista e consumista, o mais supérflua possível, que não respeita nada nem ninguém… excepto os mais fortes, e estes devem ser os verdadeiros espiritualistas.

Dois grandes tabus ou congestionamentos psicológicos afligindo o principiante no Caminho da Iniciação são, sem dúvida, aqueles referentes ao sexo e à alimentação. Apesar do muito que já disse e escrevi sobre esses dois factores, repito mais uma vez que a função sexual não existe para ser reprimida, como coisa imunda e pecaminosa, nem abusada, como factor mentecapto e possessivo, antes encarada como função normal da Lei da Vida e que o seu uso devidamente enquadrado e regrado faz do sexo um acto santo, de preferência exercido a três: o homem, a mulher e Deus como Espírito Santo manifestando-se por eles, o que irá tornar a relação íntima uma espécie de santa eucaristia, na qual o homem depõe no altar ventre da mulher a semente da criação que ela alimenta com o amor que impele a ambos, para deles surgir o terceiro elemento: o filho, o fruto bendito do acto puro.

Sobre a alimentação, quase descarece dizer que o vegetarianismo integral só deve ser usado por quem dele necessita verdadeiramente, e não por alguma espécie de auto-imposição fanática, não profiláctica, na busca de uma qualquer «pureza física», exercício usualmente reparando-se naqueles que possuem mente vegetativa, o que lhes dá um forte pendor emocional. Na sua obra magistral, A Verdadeira Iniciação, o Professor Henrique José de Souza descreveu a complexidade alimentar ao distinguir as carências temperamentais dos linfático, bilioso, nervoso e sanguíneo, cada qual com as suas necessidades alimentares específicas.

De maneira nenhuma pretendo, clara ou encapotadamente, fazer alguma espécie de apologia a Pantagruel, mas sim tentar fazer perceber que as coisas dão-se no momento exacto ou próprio, em conformidade à necessidade natural que desponta, e nunca de outra maneira artificial nascida de alguma artificiosa imposição psico-física, mais ou menos religiosa-espiritualista cujas noções, apresentando-se pouco claras, inevitavelmente redundam numa distorção psicomental, não raro revelada como neurastenia e hipocondria, doenças de foro claramente psíquico. A melhor e única maneira de evitar essas gravidades será tentar não contornar ou enganar a sua própria natureza, e escusar-se a qualquer espécie de fanatismo puritano, este o eterno auto-castrador inibindo o Homem de viver-se perfeita e integralmente, pois que o “enjaula” centripetamente em si mesmo o que, mais uma vez, só pode desfechar em desânimo, em desespero e, inclusive, nas tristemente famosas afectações psíquicas.

A esse respeito, passo a citar o seguinte excerto de um texto interno da Escola Teúrgica, por o considerar bastante esclarecedor deste assunto do sexo e da alimentação:

«Algumas escolas de pensamento, de base esotérica, advogam como ponto fundamental para uma perfeita realização espiritual a completa e total subjugação do corpo humano, que estamos a tratar, quer pela absoluta proibição da ingestão de álcool ou de alimentos de origem animal, quer pela absoluta proibição de quaisquer contactos ou relações de tipo sexual.

«Neste particular a perspectiva da Escola Teúrgica é específica, dado o seu vínculo à Tradição Oculta Ocidental. Os discípulos que estão ligados à Grande Fraternidade Branca alcançaram a realização interior não pela repressão dos processos físicos vitais, mas sim pelo seu correcto enquadramento numa perspectiva superior de ordem espiritual. O problema não consiste na manutenção ou abolição da vida sexual, mas na perspectiva que o discípulo tem dela e do lugar e importância que lhe confere. A função sexual é uma função vital, tão vital como a respiração ou a nutrição. Reprimi-la, longe de conduzir à realização, poderá ocasionar no discípulo perturbações de ordem psicológica e, sobretudo, aquela cegueira ilusória que caracteriza o fanatismo.

«Da mesma maneira se coloca o problema dos regimes alimentares que poderão estar aconselhados aos discípulos. Não se nega, de forma alguma, a importância que pode ter em certos momentos específicos a não ingestão de alimentos animais ou bebidas alcoólicas e a não manutenção de relações sexuais, como propiciatórias a uma correcta integração em certas cerimónias de cunho ritualístico ou templário. O que se quer dizer é que a extrema concentração do discípulo sobre esses aspectos pode conduzi-lo à mais perigosa e insidiosa forma de materialismo, à concentração total sobre o corpo físico denso (sob disfarce espiritualista), quando outros aspectos importantes da realização espiritual são descurados.»

É assim que, natural e alegremente, o discípulo vai paulatinamente crescendo em sua consciência interior até que ele e o Eu Divino se absorvam um no outro, liberto de peias e tabus personalísticos como as clássicas características morais das religiões exotéricas e cultos afins claramente emocionais, ainda assim necessárias à condução da Humanidade comum mas não do discípulo, se acaso pretende integrar o escol privilegiado do número de eleitos ou a elite espiritual do Género Humano.

Informam ainda os Grandes Mestres da Humanidade que o desenvolvimento interior da pessoa isolada e não em grupo, por muito boa vontade que tenha, não deixa de acarretar o perigo de cair no desânimo, na inércia e na desistência.

Quando um indivíduo desperta para os interesses espirituais, geralmente começa a ler e a estudar sofregamente livros de Escolas diversas, cada qual com o seu método de preparação espiritual, consequentemente, sendo as suas informações dispersas, desencontradas de uma para as outras, por serem diferentes, mas ele, num misto de ingenuidade e inadvertido, por vezes chega a misturar todos esses métodos numa amálgama de conceitos que só podem resultar, inevitavelmente, numa complexidade de erros didácticos e técnicos. Sei, por experiência própria, quão dificílimo é persuadir alguém assim do seu erro, e, pior ainda, quando esse alguém pelo seu carisma tem aceitação pública, pois que irá transmitir preceitos, conceitos e métodos imprecisos junto do auditório e dos seus seguidores, havendo a forte possibilidade de quase todos eles, se não todos, ainda estarem dando os primeiros passos do primeiro passo no Caminho.

Outros, infelizes, apartam-se de qualquer Grupo Espiritual ou Ordem Esotérica e sós, por sua conta e risco, entregam-se a práticas de índole mentalista e mágica. No caso, sempre tão fácil de acontecer, do exercício ou operação correr mal, quem os salvará das forças ingratamente atraídas – se estão isolados – dessa maneira arriscando-se a doenças psicofísicas, à loucura e à indução ao suicídio (como aconteceu no século XIX com o famoso mago Eliphas Lévi, que após invocar de espada em punho o Espírito Imortal do Excelso Apolónio de Tiana, caiu inerte perdendo para sempre o juízo… mas acompanhando-o doravante e sempre a tendência suicidária. Acabou os seus dias pobre mendigando pelas ruas de Paris…), neste caso indício claro de perda da Alma, isto quando não tombam imediatamente fulminados de morte?

Também nesse último campo tenho experiência vivida, pelo que não deixo de alertar os principiantes no Caminho da Verdadeira Iniciação quanto aos perigos subjacentes aos métodos aplicados isoladamente, particularmente os mágico-animistas, perigos acrescidos quando se enfronham numa miscelânea medonha de técnicas de Escolas diversas que recolheram aqui e além na literatura pública, mas sem que, realmente, pertençam efectivamente a alguma.

Ademais, quer após a morte ou então durante o período de sono aquando a alma se liberta temporariamente da veste física, para onde irão as almas dessas pessoas? Para as «escolas astrais sintéticas», como afirmam alguns em sua defesa? Mas nada disso existe, pois é pura ignorância fruto da ingenuidade psíquica. Não há «escolas sintéticas astrais onde se ensina sabedoria esotérica cósmica feita de todas as fontes espiritualistas do mundo a qual aí se assume síntese cósmica», pois tal não condiz com nada, a começar pela Ordem e Harmonia Universal. O que há, sim, são os Santuários Espirituais ou Retiros Privados (Ashrams) dos Grandes Mestres da Humanidade, cada qual com a sua tónica de ministrar o Conhecimento Único, e todos tributando Àquela que os sintetiza como Fonte Suprema desse mesmo Conhecimento Universal: Shamballah, a “Mansão do Amanhecer”, também chamada “Santuário de Kundalini” e “Laboratório do Espírito Santo”.

Acontece que esses infelizes tão-só errarão no Astral ou Mundo Emocional, Psíquico, envolvidos em belos sonhos róseos, até que entendam que nesta Era de Globalização, de Fraternidade Universal do Género Humano cada vez mais se solidificando, não é mais possível nem faz parte das Regras da Grande Fraternidade Branca a evolução pessoal isolada.

Em princípio, como boas e genuínas existem 49 Escolas de Espiritualidade à semelhança dos 49 Raios de Luz do Logos Único, com esses coadunadas. Umas desenvolvem-se mais pelo aspecto “Amor” e outras mais pela “Sabedoria”, mas todas expressando o aspecto “Vontade” de Bem Fazer, sendo a Egrégora ou “Alma Colectiva” de cada uma e de todas unidas, “a trolha e o cinzel” dos Grandes Mestres na construção do Edifício da Perfeição Humana.

Como se sabe, cada Raio (constituído de 7 sub-raios, logo, 49 Raios, 7 principais cada qual com 7 subsidiários) representa um Aspecto do Logos Planetário o qual sendo um sub-aspecto do Logos Solar, Este manifesta-se por Ele. É assim que o 2.º Raio do Logos Solar – sendo o 2.º sub-raio do 1.º Raio do Logos Central do Sistema de Evolução Universal, ocultando-se por detrás daquele – se manifesta na Terra pelo 2.º sub-raio do 3.º Raio. De maneira algo similar, ao nível da evolução humana aquele que começa a destacar-se desta, primeiro reconhecendo as suas necessidades interiores e depois procurando uma Escola que as satisfaça, a qual esteja de acordo com a sua tónica, começa assim a realizar, paciente e abnegadamente, os graus que o levarão aos pés do seu Mestre, e ele mesmo acabando por se tornar Mestre, tal qual a borboleta saída do casulo.

O objectivo supremo de todas as verdadeiras Fraternidades Iniciáticas sempre foi e será um só: o de levar o ser humano a se auto-conscientizar e a viver a sua realidade interior, os seus verdadeiros e, em última análise, únicos objectivos na vida. Não apenas uma vida vegetativa, mas uma vida plena, universal, em que a vida como energia se acresce, transforma em mais vida, energia e CONSCIÊNCIA. Sim, porque a Verdadeira Iniciação é a da transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência… de um e todos no Todo.

Dentro e fora do esquema geral da Iniciação, existem dois tipos gerais de homens em evolução: o místico devocionalista e o ocultista mentalista.

O primeiro evolui pela linha vertical de menor resistência do Sistema de Evolução, ligando-se ao Aspecto “Amor” do Logos Planetário e realizando-se pela Doutrina do Coração. Reparte-se em dois aspectos:

A) O místico contemplativo. Aquele que vive única e exclusivamente de si para Si, a Mónada Divina, apartando-se da agitação psicomental da restante Humanidade indo introverter todas as suas capacidades psicofísicas, motoras e mentais, para isso se servindo das qualidades do 2.º Raio de Amor-Sabedoria e, principalmente, do 6.º Raio do Devocionalismo, este como sendo a “8.ª inferior” daquele. É o asceta, o anacoreta, o que vive num solilóquio permanente de si para Deus e nada mais, estabelecendo a ligação do veículo de consciência Emocional com o Intuicional e deste com o Monádico, a “Centelha na Chama”. Da absorção ou integração na Mónada Divina resulta o não mais voltar, o não mais reencarnar, ou então só a longo prazo, se ainda tiver débitos kármicos, caso excepcionalíssimo, pois o místico contemplativo purifica-se e ascende à Altura de Deus pelo rigor da Hatha e Bhakti Yogas, isto é, a do domínio físico, chegando a tomar feições de mortificação, e a do controle emocional, a quem dá combate permanente até anular toda e qualquer expressão de emotividade.

B) O místico activo. Aquele que apesar de integrado em algum mosteiro não vive em clausura mas em claustro, ou seja, não deixa de participar no serviço aos seus e à Humanidade através das qualidades do 2.º Raio de Amor-Sabedoria, do 4.º Raio da Harmonia Artística ou do 6.º Raio do Devocionalismo, esses que são precisamente as Linhas ou Tónicas dos seus respectivos Dirigentes Espirituais: Nagib, Hilarião e Kut-Humi. De modo que o místico activo aplica os métodos devocionais para também ele assumir-se em Deus mas pelo serviço ao Divino e aos Mestres – a “Assembleia dos Santos e Sábios”, de que fala a Igreja cristã – através da Humanidade desfavorecida.

Seja como for, em si só o método devocional não é de todo perfeito, pois o místico propende sempre para as inclinações psicomentais do exclusivismo e do fanatismo, este sob a forma de pietismo beato.

Quanto ao segundo aspecto, evolui em elíptica espiralada como linha de maior resistência do Sistema de Evolução, devido desenrolar-se com maior lentidão e o discípulo para evoluir fazer contacto directo com a Matéria, com o Mundo das Formas com todas as suas tramas, dramas e vitórias, acabando por recolher de tudo isso uma experiência inaudita e inédita postando-o, face às Hierarquias Universais, como JAVA-AGAT, o “Grande Mago da Matéria” em que se fez justo e perfeito pelo desenvolvimento do Mental, da “Sabedoria” do Logos ou Deus da Terra, característica fundamental da chamada Doutrina do Olho.

O ocultista, confundido na Humanidade comum, por ser seu dever servi-la impessoal e anonimamente, vai estabelecer a ligação consciencial do seu corpo Mental com o Espiritual e deste com o Divino. Este desenvolvimento é processado por meio das tónicas que lhe são especialmente afins, como sejam os sistemas da meditação ocultista e da ritualística. Repara-se nisso a aplicação dos métodos da Raja e da Jnana Yogas, ambas destinadas ao desenvolvimento do Mental, tanto humano como espiritual, e igualmente a influência na sua vida do 1.º Raio da Vontade ou Poder, do 3.º Raio da Actividade Inteligente, do 5.º Raio do Conhecimento Científico e do 7.º Raio da Ordem ou Magia Cerimonial, precisamente as Linhas de Forças por que se exprimem os seus Supremos Dirigentes, os Preclaros Adeptos Vivos Ab-Allah, São Germano, Morya e Serapis Bey.

Mas também a via mental do ocultista por si só é falha, por ele propender sempre às inclinações psicomentais do autoritarismo, não raro manifesto como xenofobismo, e do egoísmo intelectual, sob a forma de descompaixão por vezes encapotada no floreado vaidoso do que é simples narcisismo.

A Perfeição do Ser ou o seu Perfeito Equilíbrio está tão-só em desenvolver o Mental a par do Emocional, a Sabedoria acalentada pelo Amor, razão mais que suficiente para o Professor Henrique José de Souza ter proferido: «Quando o Homem na Terra colocar a Mente ao lado do Coração, alcançará as maiores venturas do Céu». E logo a seguir, adiantar: «A Humanidade só pode alcançar a Neutralidade vivendo em luta com o Bem e com o Mal. Porque é daí que nasce, justamente, a Neutralidade. Do ilusório conduz-me ao Real, das trevas à Luz, da morte à Imortalidade. A Imortalidade se acha na Neutralidade. Bendita seja a morte aparente das coisas terrenas para a morte-ressurreição das coisas divinas».

Esse Perfeito Equilíbrio ou Neutralidade Perfeita encontra-se no 4.º Raio sob a chancela do Mestre Hilarião, aliás, a Linha Andrógina que caracteriza a Vontade de Deus na hora presente da Manifestação e Evolução Universal.

Assim, “par e passo”, o discípulo iniciado nos Mistérios Menores conferidos por alguma Confraternidade Iniciática legalmente credenciada pela Grande Loja Branca dos Mestres Supremos da Humanidade, vai se acercando da 1.ª Iniciação Maior que é a do verdadeiro Aspirante, aquando envereda decisivamente no Caminho do Adeptado. Agora, chegados aqui, convém assinalar o seguinte que não é tão raro como possa parecer à primeira vista: um indivíduo pode ter todos os graus simbólicos de determinada Escola, mas não ter sequer a 1.ª Iniciação Real, ou, então, ter somente a 1.ª Iniciação Simbólica e no entanto deter já em sua natureza interna as 1.ª, 2.ª ou 3.ª Iniciações Reais auferidas junto da Loja dos Mahatmas. Isto demonstra como tudo é relativo e se descobre nas características culturais e morais da pessoa que, de facto, seja Iniciada verdadeira. De maneira que o mestre de grau de determinada escola espiritualista poderá não passar de simples aprendiz ante aquele que pela primeira vez está recebendo dela a respectiva iniciação simbólica…

Tudo depende do progresso espiritual ao longo do esteiro das vidas sucessivas, com o consequente esgotamento do karma pessoal. A evolução da Alma não se mede por graus escolásticos, sejam quais forem, mas sim pelo seu acercamento ao Augoeides, o Eu Divino, e quanto mais perto fica mais iluminada está. À Confraternidade cabe tão-somente ajudar nessa evolução e nada mais, visto NINGUÉM EVOLUIR POR ALGUÉM.

Contudo e para maior segurança humana e espiritual de todos, reafirmo que só em perfeita unidade auferida junto de uma Confraternidade verdadeiramente Espiritual se pode evoluir sem percalços desnecessários e até, quantas vezes, dramáticos!… Ademais, um Grupo Esotérico Humano é a manifestação de um Mestre Real, constituindo o seu Núcleo, tal qual toda a Hierarquia Planetária em volta do seu Logos é a manifestação da Hierarquia Universal tendo como Centro o Logos Solar, o Deus Supremo do nosso Universo Sistémico.

A analogia das coisas dispersas novamente reunidas, leva ao entendimento da Unidade Universal.

Acerca da aproximação do discípulo ao Altar do Fogo Sagrado da Iniciação, com a antecedente debastação dos seus “eus” inferiores como lhe é exigida para que possa penetrar a Luz, é assunto comentado, num misto de severidade e beleza, no Poema A Voz do Silêncio, inspirado no “Livro dos Preceitos de Ouro” da Escola Transhimalaia dos Arhats e dado ao Ocidente pela extraordinária Helena Petrovna Blavatsky (Upasika), cuja tradução para a língua portuguesa se deve a Fernando Pessoa. Diz:

«Há apenas um Caminho para o caminheiro, e só bem no seu final se pode ouvir a “Voz do Silêncio”. A escada pela qual ascende o candidato é formada de degraus de sofrimento e dor, que só podem ser aplacados pela voz da virtude. Ai de ti, discípulo, se em ti restar um só vício que não tenhas deixado para trás. Pois então a escada cederá e te deitará abaixo; o seu pé está apoiado no profundo lodo dos teus pecados e falhas, e antes que possas atravessar este largo abismo da matéria, tens que lavar os teus pés nas Águas da Renúncia. Cuida que não ponhas um pé ainda sujo no primeiro degrau da escada. Ai daquele que ouse macular um só degrau com pés lamacentos. A lama vil e viscosa secará, tornar-se-á pegajosa, e acabará por colar-lhe o pé ao degrau, e como uma ave presa no visco do caçador astuto, ele será afastado de todo o progresso ulterior. Os seus vícios tomarão forma e o arrastarão à queda. Os seus pecados levantarão a voz, como o riso e o soluço do chacal depois do sol posto; os seus pensamentos se tornarão um exército, e o levarão com escravo cativo.

«Mata os teus desejos, discípulo; torna impotentes os teus vícios antes de dares o primeiro passo na solene viagem.

«Estrangula os teus pecados, e emudece-os para sempre, antes de levantares o pé para subir a escada.

«Silencia os teus pensamentos e fixa toda a tua atenção em teu Mestre, que ainda não vês mas já sentes.

«Funde num só todos os teus sentidos, se queres estar seguro contra o inimigo. É só por meio desse sentido, oculto na cavidade de teu cérebro, que o íngreme caminho para o teu Mestre pode descortinar-se aos olhos turvos da tua alma.

«Longo e penoso é o Caminho diante de ti, ó discípulo! Um simples pensamento sobre o passado que deixaste para trás te arrastará para baixo, e terás que começar de novo a subida.

«A Luz do Único Mestre, a áurea e imarcescível Luz do Espírito, lança os seus fúlgidos raios sobre o discípulo desde o primeiro instante. Os seus raios penetram as espessas nuvens da matéria.»

Alcança, por fim, a 1.ª Iniciação Real. Unido ao seu Mestre Interno, é levado aos pés do seu Mestre pessoal que o consagra efectivo Aspirante ao Adeptado. Aqui o Discípulo adquire o poder equivalente ao do Reino Mineral, correspondendo – nesta 4.ª Cadeia Planetária dividida em 7 Rondas em cuja 4.ª estamos – à 1.ª Ronda de Saturno (Ar), pelo que este 1.º Grau do Aspirante ou Sotapati equivale ao Nascimento espiritual.

Passados alguns anos ou várias vidas – quiçá! – conquista a 2.ª Iniciação Real, que lhe é conferida, através do seu Mestre pessoal, pelo próprio Mestre do Mundo, o Bodhisattva, função hoje assumida pelo Cristo (JEPHER-SUS ou MAITREYA), indo adquirir poder equivalente ao do Reino Vegetal durante a 2.ª Ronda Solar (Fogo). Este é o Grau do Probacionário ou Sakadagamin, do que recebe o Baptismo espiritual e está destinado a passar as mais variadas provações como esgotamento kármico e adquirição da consciência necessária à superação da fatídica “Roda dos Renascimentos”.

Por norma, ainda que hajam raras excepções, até à 3.ª Iniciação pode acontecer que o Discípulo não tenha consciência imediata de que é realmente Iniciado, e isso só é detectável, aos olhos dos demais com lucidez e esclarecimento, pela suas virtudes, sapiência e vontade inquebrantável em prosseguir no Caminho da Evolução, mesmo “contra todos os ventos e marés” do tempestuoso mundo profano.

Na 3.ª Iniciação Real é finalmente Aceite pelo seu Mestre pessoal, criando este uma teia ou tela etérica (podendo ser destruída se o discípulo recuar no seu progresso) que ligará os dois como um só. Nesta fase e através do seu Mestre, o Discípulo é consagrado pelo Senhor do Mundo, o Rei do mesmo como Melkitsedek ou Chakravarti, acontecendo a Transfiguração ou Metástase da personalidade com o seu Eu Divino, e é chamado de Anagamin passando a deter poder semelhante ao do Reino Animal durante a 3.ª Ronda Lunar (Água).

Advém, finalmente, a 4.ª e última Iniciação Real no Caminho do Discipulado. Ele é já um semi-Mestre, um semi-deus. Neste período o Iniciado é Unido à Consciência do Logos Planetário, assumindo-se um Chresto ou Arhat, cuja Crucificação derradeira da sua personalidade permite-lhe o acesso, pelo domínio da Terra (4.ª Ronda – Reino Humano), ao Reino dos deuses e de Deus, ou seja, a própria Agharta–Shamballah. É, pois, repito, um Chresto, “Ungido ou Iluminado divino” porque Arhat de Fogo.

Só na 5.ª Iniciação se pode considerar o Discípulo um Mestre Verdadeiro, Mahatma ou Asheka. Equivale à Ressurreição na tomada de posse do 5.º Reino Espiritual, por sua consciência ir até o próprio Logos Solar e, consequentemente, ter o domínio pleno do 5.º Elemento ou Quintessência da Natureza – o Éter, com que já se tece a 5.ª Ronda de Vénus da actual Cadeia Planetária.

Mas falar do divino Adepto, do Dhyani-Jiva como Jivatmã, só se pode fazer por metáforas, pois que Ele é realidade misteriosa para além de toda e qualquer concepção finita do imperfeito intelecto humano. É falar de Deus Antropomórfico e, ao mesmo tempo, do Pai Interno… assim, em boa verdade, Deste não se pode falar com justeza e perfeição, não por ser dogma proibido e sim por limitação humana, só restando o essencial a um e a todos: procurar senti-Lo, ouvi-Lo, vivê-Lo!…

Mesmo assim, para um entendimento mais perfeito que o intelecto humano sempre exige, devo informar haverem ainda as 6.ª e 7.ª Iniciações, as de Choan e Mahachoan correspondentes à Assunção e ao Pentecostes, equivalentes à 6.ª Ronda de Mercúrio (Subatómico – Permeabilidade) e à 7.ª Ronda de Júpiter (Atómico – Plasticidade) com que desfechará a Cadeia actual.

Quando o Homem atinge o Adeptado, os Senhores do Karma Universal (Maharajas) apresentam-lhe e deixam à sua escolha um de 7 Caminhos por que doravante poderá prosseguir a sua evolução, como sejam:

1.º – Caminho do Logos Central (Mahaparabrahman)

2.º – Caminho do Logos Solar (Parabrahman)

3.º – Caminho do Logos Planetário (Brahman)

4.º – Caminho dos Arqueus (Assuras)

5.º – Caminho dos Arcanjos (Agnisvattas)

6.º – Caminho dos Anjos (Barishads)

7.º – Caminho dos Homens (Jivas)

Antes de prosseguir para o desfecho do presente capítulo, devo responder à seguinte questão que me foi colocada por um estudante e a qual é pertinente ao tema em causa: – Está o Espírito dentro ou fora do Homem? Entendendo a Centelha Divina como sendo de natureza subtil e não física, respondo que o Espírito localiza-se sobre o Homem e envolve-o como uma Cachoeira de Luz ou Aura Gloriosa, síntese de todas as demais, pelo que é vista como um maravilhoso arco-íris resplandecente, ainda assim sobressaindo o tom púrpura ou cor de sol-posto. À medida que os “centros vitais” (chakras) humanos são desenvolvidos em proporção crescente, mais a Luz Espiritual manifesta-se por eles na Alma e no Corpo, e com isso maior se torna a Consciência no Homem. Chama-se a isto Iluminação e Iniciação, ou seja, a Iluminação Interior que permite a Iniciação Exterior, para com isso chegar ao domínio pleno das Leis da Vida, ou seja, ao Adeptado.

De maneira que a disciplina que leva à Realização Integral do Homem, apresenta-se com três etapas:

1.ª – A Preparação, que desenvolve os sentidos espirituais;

2.ª – A Iluminação, que aviva a Luz Espiritual;

3.ª – A Iniciação, que permite a comunicação com Deus e os Deuses.

Para terminar este estudo, já longo, dou o remate final com um trecho de texto interno do Colégio Teúrgico, o qual se apresenta com a lucidez e a abertura mental que só a Sabedoria Iniciática das Idades pode conferir a um e a todos:

– A Via do Discipulado é algo extremamente difícil. A inflexibilidade dos Mestres perante a conduta dos Discípulos não deixa de ser acompanhada do maior amor, da mais profunda compreensão perante as suas grandezas e misérias. Também os Mestres foram um dia Discípulos, também Eles caíram e se levantaram nessa senda tortuosa, também Eles se viram abatidos, vezes sem conta, pelo destino, numa esquina qualquer da vida. É Camões quem maravilhosamente resume toda a tragédia contida nas vidas do Discípulo, nesta sibilina frase: “Erros meus, má fortuna, amor ardente”.

Mais do que ninguém sabem os Mestres dar o devido valor àquilo que custa ser Discípulo. Este é, na realidade, um guerreiro e cada vitória, cada sucesso, tirado a ferros, arrostado contra a dureza de um meio, que nada perdoa e de nada se compadece, é uma página imortal escrita quantas e quantas vezes com o sangue, o suor e as lágrimas dolorosamente arrancadas a uma condição que apenas se pode gabar de ser humana. O Discípulo é acima de tudo um homem humilde, palmilhando a vida sem nada ter de verdadeiramente seu porque tudo dá no serviço desinteressado aos outros, quantas vezes de rastos, o rosto contra o pó, pois só desse modo se pode olhar Deus face a Face. Ou não estivesse Ele no Centro da Terra… E assim se transforma o Discípulo um Homem Sábio.

O Homem Sábio não é aquele que faz tudo bem feito, mas sim o que tendo uma má atitude sabe corrigir o seu erro e humildemente pedir desculpa.

O Homem Sábio não é aquele que só tem pensamentos puros, mas sim o que, ao ter um pensamento impuro, consegue de imediato envolvê-lo numa onda de amor, neutralizando-o.

O Homem Sábio não é aquele que só tem certezas, mas sim o que sabe forjar na dúvida a força do seu carácter, a constância dos seus ideais.

Os Discípulos de Aquarius estão, de facto, hoje em dia, vivendo em condições interiores extremamente duras, mas também infinitamente promissoras.

Nada se consegue sem esforço e “quem quiser passar além do Bojador, tem de passar além da dor”.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Henrique José de Souza, A Verdadeira Iniciação. Reimpressão das edições de 1939, 1957 e 1969 em 1980 pela Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro. Última impressão: 2001, São Lourenço (MG).

Carlos Lucas de Souza, O Raiar de um Novo Mundo (Órgão Monumental da Civilização Eubiótica). Brasília, 1968.

Luzes da Iniciação Eubiótica, colectânea de textos de António Castaño Ferreira e Sebastião Vieira Vidal. Nova Brasil Gráfica e Editora Ltda, São Lourenço (MG), primeira edição em Fevereiro de 2006.

Coletânea de autores, Os Grandes Iluminados. Aquarius, Fundo Editorial, Rio de Janeiro, 1968.

Roberto Lucíola, Dhyanis. Caderno “Fiat Lux” – 17, Novembro de 1998, São Lourenço, Minas Gerais, Brasil.

Roberto Lucíola, Iniciação. Caderno “Fiat Lux” – 34, Fevereiro de 2003, São Lourenço, Minas Gerais, Brasil.

Helena Blavatsky,  A Voz do Silêncio. Versão portuguesa por Fernando Pessoa. Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro, 1969.

Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Editora Dinapress, Lisboa, 1.ª edição Setembro de 2002.

Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz (Portugal e o Futuro). Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006.

Vitor Manuel Adrião, Portugal, os Mestres e a Iniciação. Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, 2008.

Diálogos Agarthinos – Correspondência Epistolar entre Vitor M. Adrião e Luís A. W. Salvi, três volumes. Edições Agartha, Alto Paraíso de Goiás, 2008.

Coletânea de autores, A Teurgia e a Fraternidade Espiritual Portuguesa. Edição Comunidade Teúrgica Portuguesa, Sintra, 2011.

Alice A. Bailey, Iniciação Humana e Solar. Fundação Cultural Avatar, Niterói – Rio de Janeiro, 1975.

C. W. Leadbeater, Os Mestres e a Senda. Editora Pensamento, São Paulo, 1977.

Textos Internos da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

 

 

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