As Marias do Mar e Santa Sara

A saga dos Santos Apóstolos de Cristo, depois da sua morte e ressurreição, vindos para o Ocidente europeu por via marítima, tem o seu ponto alto na Camarga, em Saintes-Maries-de-la-Mer onde as três Marias Salomé, Jacobé e Madalena, acompanhadas de uma certa Sara, desembarcaram e iniciaram a epopeia provençal do Cristianismo matriarcal que marcou indelevelmente a espiritualidade desta parte de França de maneira tão singular que o herético e o herático dificilmente se distinguem um do outro.

A Tradição Iniciática, tão menosprezada pela doutrina oficial da Igreja que parece temê-la, marca aqui presença visível e tangível apesar do clero pouco falar deste “santos impossíveis” que primeiro marcaram a vida de Jesus Cristo nos Evangelhos, e a seguir a espiritualidade heterodoxa europeia. O primeiro dos factos está na própria viagem marítima das Santas Marias numa barca sem remos nem velas e nem provisões, entregando-se ao alimento ou ânimo da Providência deixando que esta arrastasse a barca impelida pelos Anjos até às praias da Camarga, onde desembarcaram.

A viagem marítima sobrenatural converte as santas em nautas, em navegadoras experientes nas artes sagradas do mar desconhecido, o que significa, em linguagem esotérica, a posse efectiva do mais alto grau da Mestria transcendente. Deixar que a barca navegue segura à mercê dos caprichos dos elementos, equivale a entregar-se incondicionalmente à Divina Providência como único e absoluto abrigo seguro, e igualmente ao domínio total das forças desconhecidas da Natureza, que só podem ser apreendidas por aqueles que, mediante o processo iniciático específico, identifiquem-se com ela.

A Via dos Navegantes ou Via Húmida, como é chamada na Alquimia, implica a presença dos dois sexos (e as Marias do Mar vêm acompanhadas dos santos Maximino, Sidónio, Lázaro e José de Arimateia, este portador do Saint Vaisel ou Santo Vaso, depois chamado, na hagiografia provençal, Santo Graal) marcando o estado de Ser Andrógino, característica do Espírito Santo que sopra onde quer, não se sabendo donde vem e para onde vai (João, 3:8). A barca converte-se em abrigo seguro para os que crêem na Arte providencial transformando-os em Mestres domadores dos elementos inóspitos. Esses Mestres são aqui Mestras, incarnações vivas do próprio Espírito Santo cuja barca é símbolo da arca ou repositório do Poder, Sabedoria e Revelação da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, precisamente representada pelas três Marias.

Essa é a Barca da Luz, milagrosa e misteriosa como este mesmo lugar onde ela aportou, cuja toponímia primitiva justifica essa prerrogativa. O geógrafo latino Rufo Avieno, no século IV, diz que esta cidade costeira chamava-se Oppidum Priscum Ra, ou seja, “antiga (priscum) fortaleza (oppidum) iluminada (ra)”. Ra é o nome egípcio do Deus do Sol e Pai de todos os deuses, que o Cristianismo associaria à presença luminosa do Espírito Santo, e o nome que Avieno deu ao lugar muito possivelmente inspirou-se em algum pressuposto santuário celta que aqui haveria relacionado a algum tipo de culto solar. Com a cristianização local sob o Orago da Virgem Divina, esse nome latino foi substituído por Notre-Dame-de-Ratis (alterando-se Ra em Ratis, “barca”), passando a Notre-Dame-de-la-Mer e finalmente, em 1838, a Saintes-Maries-de-la-Mer, motivo de grande peregrinação a 24 e 25 de Maio.

É nessa altura que Saintes-Maries-de-la-Mer enche-se de colorido e pitoresco com a vinda de ciganos de toda a Europa e doutros continentes aí, para prestarem homenagem à sua padroeira Santa Sara, a Negra, a quem também chamam Kali, em romani. A tradição cigana do culto a Santa Sara deverá ser coeva da aparição dos ciganos na Europa nos fins do século XIV, vindos da Índia e Médio Oriente para o Centro-Norte do continente europeu, apesar de não ser datada antes de 1521 em La Légende des Saintes-Maries, de Vincent Philippon.

A tradição cristã diz que Santa Sara teria nascido no Alto Egipto, pertencendo a alta linhagem mas que se converteu à religião judaica e depois fez-se discípula de Jesus, tendo sido a serva negra de Maria Salomé e Maria Jacobé, acompanhando-as na sua viagem à Camarga. Também se diz que ela foi serva e parteira auxiliar de Maria Mãe de Jesus, que a tinha em alta estima por tê-lo trazido ao mundo, segundo o apócrifo Evangelho de Tiago. Outros, ainda, dizem que foi serva de Maria Madalena que a tinha por confidente e amiga. Contudo, o aspecto heterodoxo da mesma tradição cristã dá um significado muitíssimo mais distinto a Sara, partindo do seu próprio nome hebraico, Sarah, “Princesa”, apontando-a como possível familiar de Jesus e Maria Madalena pertencente à linhagem real davídica, atribuindo-lhe os versículos bíblicos 7:8 do capítulo 4 das Lamentações (de Jeremias): “A sua Princesa mais brilhante que a neve, mais branca que o leite… Agora a sua aparência é mais negra que o carvão, e não é reconhecida nas praças”. Segundo a tradição romani, foi Sara quem informou os Apóstolos que depois da morte e ressurreição de Cristo deveriam embarcar para a Europa, e aqui chegados foi Sara a primeira a desembarcar com a cabeça coberta por um lenço, dispondo-a numa posição de chefia encoberta ou encapuçada, que é o que significa aqui o lenço, sinal de cupidez honrada que até hoje nenhuma cigana prescinde de usar. A comitiva apostólica tinha a esperá-la um grupo de camargos (ou kara-marus…), que a lenda identificou posteriormente como ciganos, e nisto estará a devoção cigana a Santa Sara que foi a primeira a dirigir-se-lhes.

Associada por sua cor ao culto da Virgem Negra, ou seja, o da Deusa-Mãe Primordial pré-cristã que assiste à Criação criada por si como Espírito Santo tomando forma feminina que emerge das Águas da Vida, por esta razão a imagem de Santa Sara é imersa até meio corpo na procissão ao mar que fazem os ciganos desde 1936. O “rito da navegação” ou do “char naval”, inspirado na lenda do desembarque das santas e santos, aparece na prática da imersão das imagens sacras e liga-se aos processos agrários e purificadores que conservam-se nas festas das Rogações e até no Carnaval, como método de catarse colectiva onde se veste e despe as roupas de fantasia para assumir a nova e real condição liberta de condicionamentos psicológicos, o que equivale a uma purificação psicomental.

A imagem de Santa Sara está na cripta da igreja de Saint-Michel e o seu culto recua ao final da Idade Média, a 1448 quando René d´Anjou solicitou do Papado o reconhecimento das suas relíquias, constando que a sua canonização data de 1712. A imagem está coberta de lenços por se considerar Santa Sara auspiciadora da maternidade, o que relaciona-se ao atributo de Deusa-Mãe Primordial que criou o Universo e os seres. As mulheres ciganas (romi) que não conseguem engravidar ou que têm dificuldades na gravidez, rogam-lhe essa mercê e um bom parto, e após atendidas depositam aos seus pés um lenço (diklô), e é assim que se acumulam centenas de lenços em volta da imagem.

As pessoas fazem todo o tipo de pedidos a Santa Sara, devido à fama de atender a todos que acreditam verdadeiramente nela. Mas ela persegue os opressores, os tiranos, os racistas, aqueles que atentam contra os seus primeiros protegidos, os romani. Sara é a santa dos desesperados, dos ofendidos e dos desamparados assistindo a quantos acreditam nela, Phuri Dai, “Princesa Divina”, e sobretudo em seu Pai Kristesko, ou seja, Jesus Cristo.

Sainte-Baume e Maria Madalena

A subida agreste da montanha que leva a Sainte-Baume ou Baumo, em provençal, “Santa Gruta”, onde terá vivido Maria Madalena, é dominada pelo silêncio evocador de divindades antigas, celtas e outras convertidas em estranhos santos cristãos, que enchem de temor religioso os peregrinos dominados pela imponência e majestade da paisagem onde deuses etéreos parecem entrecruzá-la.

Sainte-Baume é a montanha mais alta desta cordilheira na Provença (1144 metros de altitude), está a cerca de 20 quilómetros da costa do Mediterrâneo e próxima de grandes cidades como Marselha, Aix-en-Provence e Toulon. Penetrada a “Gruta Santa”, o silêncio continua a impor-se e a escuridão densa só é atenuada pela luz tíbia das velas acesas. De imediato ocorre ao espírito a imagem dos primeiros tempos do cristianismo anacorético dos santões eremitas que sendo conversos cristãos mesmo assim não abandonaram definitivamente as primitivas crenças nos deuses e saberes celtas.

Sobretudo domina a presença de Maria Madalena, a personagem santificada mais heterodoxa e até hierática das escrituras sagradas. Considerada a “Apóstola dos Apóstolos”, a Lenda Áurea diz terá abandonado a Terra Santa pouco depois da Tragédia do Gólgota embarcando com outros Apóstolos (Lázaro, Marta, Maximino, Arimateia, Sara, etc.) tomando a direcção de Saintes-Maries-de-la-Mer, perto de Arles, em Marselha. Desembarcados, Maria Madalena iniciou a sua jornada missionária na Provença, até que finalmente recolheu-se em Sainte-Baume onde viveu em reclusão 30 anos, antes de entregar a sua alma ao Criador.

Quando se recolheu na solidão de Sainte-Baume, desprovida de mantimentos e de água, Maria Madalena postou-se a orar e os Anjos fizeram jorrar uma fonte, que está justamente embaixo do “lugar da penitência”. Nessa fonte ainda hoje os cegos vêm banhar os seus olhos, facto que além da evidência de procurar a cura milagrosa significa também a busca da iluminação espiritual, pois Maria Madalena era considerada a representação iconográfica e icónica da própria Sabedoria Divina revelada através da Iniciação Críptica ou Subterrânea(donde a “Santa Gruta”), como acreditavam os antigos gnósticos dos séculos II-V d. C., os quais afirmavam que Jesus Cristo havia iniciado pessoalmente Maria Madalena nos segredos ou esoterismo da sua doutrina. Isto está descrito no texto apócrifo gnóstico, escrito em copta e datado do final do século II, chamado Evangelho de Maria, compreendendo um longo diálogo entre Cristo e Madalena diante dos discípulos mudos e atentos. O tema repete-se na Pistis-Sophia, considerada a bíblia dos antigos gnósticos e que foi escrita em copta cerca do ano 350. Segundo as Questões de Maria, que data do final do século III, Maria Madalena era a esposa efectiva de Jesus, o que acaso sendo verdade não tem nada de excepcional, atendendo à lei judaica da Torah impondo a obrigatoriedade do casamento aos rabinos. Esse texto foi conservado por Epiphane de Salamine no seu Pararion. Contra as heresias, XXVI, 8.

Muito ao contrário do Papa S. Gregório Magno que no século VI identificou Maria Madalena como a “prostituta anónima” do Evangelho de S. Lucas (7-36:50), numa explicação controversa nunca provada, esta “Apóstola dos Apóstolos” é descrita como tendo nascido no ano 3 da nossa Era e sido filha do arcipreste Syrus, o Yaïrita, sacerdote de David e que oficiava na sinagoga de Cafarnaum. Eucharia, sua mãe, teria pertencido à linhagem real de Israel mas não davídica. Originária da cidade de Magdala (do hebreu migdal, “torre”), situada na margem ocidental do Lago Tiberíades, Maria Madalena certamente foi a discípula mais importante do Cristo. É ela quem acompanha Jesus na Morte e quem dá testemunho da sua Ressurreição. Na sua função de ungir com ricos e raros óleos o Senhor, deste então chamado Cristo, bou seja, Ungido, foi a única com autoridade legítima para justificar pela unção, como rito de passagem, a prerrogativa tradicional dos Reis Divinos: a do Messias legítimo, ou seja, a do Ungido ou Cristo. A mulher que O consagrou em tão augusta função impossivelmente poderá ser insignificante. Ainda hoje, na subida para Sainte-Baume, mantêm-se o mais que significativo caminho dos reis, aliás, o mais difícil de subir.

A alimentação desta santa penitente em Sainte-Baume, parece que se constituía apenas de raízes apanhadas em volta da gruta, ou seja, tinha uma dieta vegetariana, mas que Santa Catarina de Sena exorbita dizendo que “Maria Madalena recebia diariamente abundantes orvalhos da Graça, que as Escrituras denominam as doçuras celestes, que fortificavam o seu espírito e o seu corpo”, por certo já não se referindo a algum tipo de alimentação corporal mas espiritual, por via das constantes revelações divinas que afloravam à mente iluminada de Santa Madalena.

Frequentemente Maria Madalena subia, com a ajuda dos socorros angélicos, até ao cume da montanha para ali entregar-se à oração nas horas canónicas. Ali, junto à pequena capela de Saint-Pilon (o “santo pilar”, em afinidade com o termo hebraico migdal, “torre”), uma rocha marcada ainda com o sinal dos seus joelhos é testemunha disso. São Francisco de Sales não hesitou em afirmar que “ela cantava as sete horas canónicas com o coro dos Anjos”.

A prática das orações diárias em horas fixas passou do Judaísmo ao Cristianismo (e depois ao Islamismo), e foi padronizada em formatos litúrgicos especiais quando a vida monástica se espalhou pela Europa. Graças à influência Beneditina, essa prática já estava bem estabelecida no século IX e distribuía as sete Horas Canónicas ao longo do dia (diurnas) e da noite (vigílias) da maneira seguinte: Matinas (24 horas), Prima ou Laudes (3 horas), Terça (9 horas), Sexta (12 horas), Nona (15 horas), Vésperas (18 horas), Completas (21 horas). A 1.ª hora evoca os dois pólos do ofício litúrgico quotidiano, manhã e tarde; a 2.ª hora louva os primeiros momentos do dia e glorifica a ressurreição de Jesus Cristo; a 3.ª hora evoca a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos reunidos com Maria no Cenáculo, e é também a hora da crucificação de Jesus, segundo S. Marcos (15:25); a 4.ª hora evoca o momento em que S. Pedro teve uma visão divina, sendo a hora da agonia de Cristo na Cruz, conforme S. Mateus (27:45); a 5.ª hora lembra a oração de Pedro e João no Templo, onde Pedro curou o paralítico (Actos, 3:1), sendo igualmente a da morte de Jesus na Cruz (Mateus, 27:46); a 6.ª hora, Vésperas, recebe o seu nome do astro luminoso Vésper (Vénus) e evoca a vinda do Reino de Deus sobre a Terra, repetindo as palavras de S. Lucas (24:49): “Permanece connosco, pois cai a tarde e o dia já declina”; a 7.ª hora reza-se antes do repouso da noite: o sono da noite lembra o sono da morte e leva o cristão a entregar-se, a abandonar-se inteiramente ao Senhor.

Relíquia de Santa Maria Madalena em Sainte-Baume

A imagem desnuda de Santa Maria Madalena que se vê aqui em Sainte-Baume, coberta pelos seu longos cabelos e deitada em atitude receptiva como que aguardando o divino esposo, remete para o mundo do simbolismo: a largura do cabelo (como também a da barba) é sinal de identificação com o meio cósmico, negando-se a transformar o contexto natural em que se vive e se crê em consciência. Simbolicamente, o cabelo crescido confere força, enquanto o seu corte debilita quem sofre a amputação. Os anacoretas envolviam-se no seu próprio cabelo tomando-o por veste, e buscavam uma identificação com o meio cósmico e a Consciência Universal procurando alcançar esta pelas suas práticas ascéticas rigorosas.

Outro símbolo de Santa Maria Madalena é o crânio, com duplo significado apesar do Cristianismo tê-lo unicamente como recordação da morte. O crânio contém o cérebro e está no topo do ser humano. Representa Sainte-Baume no Homem. É, por isso, o lugar o lugar sagrado do corpo humano por excelência e sinal de descoberta daquilo que se mantém secreto: a Sabedoria Suprema, representada na própria Maria Madalena, Padroeira dos Iniciados no segredo e das Iniciações em secreto.

Santa Marta e a Tarasca

Em Sainte-Baume vivia o terrível monstro Tarasca que Maria Madalena expulsou daí, indo então assolar a região do vale do Rhône onde andava em pregação uma outra Apóstola do Cristo: Marta de Betânia, irmã de Lázaro, o “ressuscitado” pelo próprio Cristo. De imediato, Marta deu-lhe combate sem tréguas acabando por vencê-lo e acorrentá-lo, tornando o monstro dócil, fazendo com que a região bvoltasse a ser habitável e próspera nascendo assim, em memória desse feito sobrenatural, a cidade de Tarascon, da qual até hoje é padroeira Santa Marta.

Segundo a Lenda Áurea escrita por Jacques de Voragine entre os anos 1261 e 1266, o monstro Tarasca era um animal deveras complexo composto de uma mistura de outros animais: era uma espécie de dragão com seis patas curtas como as de um urso, tendo o dorso de um boi coberto por uma carapaça de tartaruga e uma cauda escamada terminando em ferrão de escorpião. A sua cabeça era igual à de um leão, com orelhas de cavalo e olhos humanos. Sem dúvida que se está diante da versão regional, com certeza céltica, da Esfinge greco-egípcia que também era um monstro mitológico que devorava quem não o entendesse.

A presença Tarasca assinala a adaptação da religião primitiva celta ao cristianismo por via apostólica assumida quase exclusivamente pelas mulheres eleitas de Cristo, o que redunda na integração dos mistérios druídicos (ou dos sacerdotes celtas) na revelação apostólica indo equivaler, em termos simbólicos, à Tarasca vencida por Santa Marta. A Tarasca era sobretudo a representação da Natureza viva e pródiga, nutriente dos seres vivos permanentemente fecunda, o que se representava pelo falo eréctil como se vê na estátua litofálica da Tarasca no Museu de Avignon. Se entre os celtas as druidisas eram as fecundadas pelo falo da Tarasca, ou seja, as mulheres iniciadas nos Mistérios da Natureza, portanto, mulheres de eleição iniciática vivendo aparte das restantes como participes da arte sacerdotal e até mágica que caracterizou a religião celta, já as apóstolas cristãs, vivendo em regime anacorético ou de reclusão, eram fecundadas ou iluminadas pelo Espírito Santo que se manifesta como Natureza viva e toma forma feminina. Por isso é que o Espírito Santo revelou-se no Pentecostes na primeira pessoa da Virgem Maria, e é por isto que a Festa da Tarasca (instituída pelo rei René d´Anjou em 1469) se celebra no segundo domingo depois do Pentecostes (50 dias depois do domingo de Páscoa), e também em 29 de Julho, dia de Santa Marta. Até ao final do século XIX a Festa da Tarasca era precedida de uma procissão religiosa incorporando as diferentes corporações de ofícios da Provença, vindo essas artes tradicionais simbolizar o renascimento fértil e fecundante da Natureza desde a Festa do Pentecostes.

Um dos símbolos que os celtas dispunham para representar a energia telúrica da Terra animando a tudo e todos, era a serpente alada, espécie de dragão a quem chamavam vouivre, também chamada “besta faramina”, mas que os autores do século XIII rebaptizaram de tarasca, origem do topónimo tarascon (já citado por Estrabão no século II). A sua raiz etimológica, tar, é pré-indo-europeia, incorporada à língua ligúrica, e significa “elevação”, indicando uma força poderosa criadora sempre presente que viria a ser representada pelo falo erecto, tornado objecto de culto dotado dos mesmos atributos que depois se reconheceriam no Espírito Santo, e nisto é de assinalar que os festeiros da Tarasca exibem nos seus trajes as cores tradicionais do Espírito Santo: branco e vermelho.

Quanto a Santa Marta, do aramaico Martha, “Senhora”, irmã de Maria de Betânia e Lázaro, é mencionada nos Evangelhos de Lucas (10, 38-42) e de João (11, 1-5) e segundo a Lenda Áurea terá emigrado de Jerusalém para a Provença após a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ela faz parte do núcleo de “Mulheres Miróforas” (portadoras de miro ou mirra), ou seja, daquelas que incensam com a sua acção apostólica a Pessoa e a Palavra de Deus Vivo vencedor da Morte entre os homens, sendo as conservadoras ou guardiãs do rito de passagem que é o da Unção com que após se reconhece o Cristo ou Ungido e por consequência à Humanidade cristã, ungida ou iluminada pelo baptismo. Descrita nos evangelhos como uma mulher prática e caseira, Marta veio a ser representada iconograficamente com as chaves da casa rodeada de instrumentos de cozinha, demonstrando a sua grande diligência nesse cargo e mostrando-a como uma mulher serviçal, atenta e acolhedora. Por isto é a padroeira das cozinheiras, criadas, hoteleiros, lavadeiras e irmãs de caridade.

Santa Marta é sobretudo a Senhora ou Orago das Iniciações de Ofícios (daí a presença das corporações profissionais na Festa da Tarasca) cuja especialidade é dar forma utilitária comum a matérias antes informes impossíveis de utilizar, facto assinalada na própria ressurreição de Lázaro por Cristo após Marta O ter ido procurar, para que fizesse o milagre de transformar o corpo morto ou imprestável em corpo vivo portador da essência da Vida, doravante de grande préstimo no ofício ou ministério da Palavra de Deus.

Sarcófago de Santa Marta em Tarascon

Analisando a aventura prodigiosa de Lázaro ressuscitado por Cristo após o chamado de Marta, observa-se nessa passagem descrita minuciosamente por São João o contacto com o processo iniciático do rito de passagem da morte e ressurreição. Nesse caso, Marta é a mensageira que avisa sobre a cerimónia que está tendo lugar, para Jesus acuda e marque com a sua presença a cena ritual, encerrando-a e dando-lhe sentido transcendente.

Nesse sentido, Marta seria uma sacerdotisa mensageira do mistério da morte e ressurreição que estava acontecendo, motivo da sua advocação junto da Tarasca que não é morta e sim transformada, tema que serviu aos primitivos anacoretas cristãos da Provença para levarem a cabo o rito da sua própria morte e ulterior ressurreição, o que transformou estes lugares em verdadeiros enclaves iniciáticos. Inclusive, à vista do rito actual dos que foram curados graças à pressuposta intercessão de Santa Marta e são trazidos pelos seus familiares dentro dos seus próprios caixões, reconstroem-se idealmente cerimónias ancestrais que tiveram lugar ali e daquele modo, cerimónias muitas vezes precedidas ou seguidas da gravação da lápide ritual, e as quais de acordo com o sentido popular estritamente ortodoxo do milagre, com o tempo acabaram convertendo-se nas romarias e festas que actualmente têm lugar, como esta singular da Tarasca em Tarascon, que desde 25 de Novembro de 2005 foi proclamada pela Unesco como fazendo parte do património oral e imaterial da Humanidade, assim mesmo ficando inscrita para sempre em 2008.

O misterioso São Trófimo de Arles

São Trófimo de Arles é um daqueles santos impossíveis da Provença. Só as invenções sagradas que a Igreja criou na Idade Média para destacar e exaltar o poder sobre-humano dos seus filhos e representantes fiéis junto do povo que necessita de milagres para acreditar sem mais nenhum aprofundamento teológico, pode explicar a presença aqui deste misterioso personagem pomo da devoção arlesense.

A lenda hagiográfica diz que São Trófimo foi o primeiro bispo de Arles no século V e que transformou em catedral uma basílica primitiva dedicada a Saint-Étienne, e que desde então é o padroeiro da cidade. A informação histórica disponível dá uma explicação mais plausível: em 17 de Novembro do ano 597 Augustin de Cantorbéry regressou a Arles após ter convertido à religião católica o rei, a rainha e os principais dignitários ingleses, sendo consagrado arcebispo da Igreja de Inglaterra em São Trófimo pelo arcebispo de Arles, Virgílio, então vigário de Saint-Siège em Gaules. Poderá muito bem estar nesse episódio a origem da invenção de São Trófimo como primeiro bispo de Arles, ficando as alterações posteriores dos acontecimentos ao encargo das vicissitudes do tempo que as lendas entretanto surgidas iriam justificar.

Uma tradição antiga da Igreja diz que na época dos imperadores romanos Décio e Herénio Etruscus, no ano 251 d. C., o papa Fabiano enviou sete bispos de Roma para França para pregarem o Evangelho: Gatien para Tours, Paulo para Narbonne, Saturnino para Toulouse, Denis para Paris, Austromoine para Clermont, Marcial para Limages e Trófimo para Arles.

A partir dos meados do século V, a tradição local identificou Trófimo de Arles ao homónimo companheiro de São Paulo, mencionado nos Actos dos Apóstolos (20:4 e 21:29) e na Epístola II a Timóteo (4:20), e depois, por via do seu biógrafo, o papa Zósimo, no Romanum Martyrium. Com efeito, Trófimo é um personagem bíblico que o Novo Testamento indica ser oriundo de Éfeso e um dos companheiros (dentre os 70 discípulos) do Apóstolo Paulo na sua terceira viagem missionária. Mas é impossível que o Trófimo provençal e o Trófimo pastoral sejam o mesmo, pois se este viveu no século I o outro nasceu no século V.

Para todo o efeito, Trófimo é convertido em navegador e até mercador, no sentido de mercadejar ou propagar o Evangelho em troca da conversão da Provença celta à nova religião. Este sentido de “comércio marítimo” levou a que São Trófimo fosse identificado a um outro personagem bíblico do Novo Testamento que era armador rico e membro do Sinédrio, ou seja, José de Arimateia, o “discípulo secreto” citado pelo “discípulo amado”, São João Evangelista. Nisto, há diversas pistas que põem em correspondência imediata São Trófimo e José de Arimateia.

São Trófimo de Arles

Se Trófimo, em latim Trophimus, significa “Divino Criador”, já Arimateia, em grego Arimatheos, do cita Arima, quer dizer “Deus Único”, e isto filologicamente põe em pé de igualdade os dois personagens aparentemente distintos mas cujos nomes dão a primazia divina a ambos. Ademais, segundo a Lenda Áurea é José de Arimateia quem tem a primazia de ser portador do Santo Graal na barca milagrosa para a Provença, em companhia dos Apóstolos e Apóstolas de Cristo. Se Trófimo dá início à evangelização arlense, por sua vez Arimateia é quem inicia o ciclo heterodoxo da Cristandade no Ocidente, que o pensamento religioso dos cátaros e templários abraçou com agrado. Por sua parte, São Trófimo fez aparecer miraculosamente uma fonte de águas puras que espalharam-se por toda a Arles, facto interpretado como sinónimo da sua palavra sábia que se espalhava como fonte de salvação espiritual. Se Arimateia atravessa o oceano para iniciar uma terra de gente desconhecida, já Trófimo feche o ciclo anual a 29 de Dezembro, data da sua celebração, para abrir um novo ano litúrgico que por ser futuro não se sabe o que revelará. Mas sabe-se que assim como José de Arimateia introduziu secretamente a Palavra de Cristo no Sinédrio, igualmente o Apóstolo Paulo introduziu Trófimo no Templo (Actos, 21:29), em Éfeso, possibilitando-lhe o acesso aos segredos dos mistérios divinos.

Tal como São Trófimo desloca-se da Grã-Bretanha para a Provença, depois de cristianizar a monarquia e o povo desse país usando da Palavra de Cristo, assim também José de Arimateia passou por Glastoubury, no País de Gales, Grã-Bretanha, trazendo consigo o Vaso de Cristo, isto é, o Santo Cálix da Última Ceia que depois serviu para recolher o Sangue Real do Redentor, na Tragédia do Gólgota, e só depois prosseguiria a sua viagem até à Provença, onde se despediria de Santa Maria Madalena e subiria até à Bretanha, semeando a Palavra de Deus e fundando templos. Com isso, José de Arimateia é a primeira das figuras da tradição do Santo Graal, a qual se espalhou por toda a Gália chegando a França e alastrando a outros países europeus, com destaque para Portugal, a quem os templários do século XII chamavam Porto-Graal, como consta de várias cartas do seu primeiro rei D. Afonso Henriques. Foi Arimateia, com a ajuda de Nicodemos, quem despregou o corpo de Jesus da Cruz, amortalhou-o e deu-lhe sepultura. Após o funeral, foi preso pelas autoridades romanas a pedido das judaicas, mas um Anjo enviado por Jesus após a sua Ressurreição libertou-o milagrosamente da prisão, e foi então, juntamente com outros Apóstolos e Apóstolas, que se iniciou viagem marítima apostólica para o Ocidente europeu trazendo o Santo Graal, o Vaso Balsâmico e o Santo Sudário com que se envolveu o corpo de Cristo Morto, respectivamente assinalando o Sangue Redentor do Messias, a Unção de Cristo e a Ressurreição em Cristo, prova testemunhal expressa pela figura sacra estampada no pano sagrado que, diz a Lenda Áurea, serviu de vela à barca milagrosa que trouxe esses santos personagens à Provença.

Certamente pelo motivo da justaposição tardia de Trófimo a Arimateia, talvez por causa das pressupostas crenças heréticas que corriam na Provença durante a Idade Média, é que esse último aparece esculpido no claustro românico da catedral de São Trófimo, com trajes de mercador todavia identificado ao primeiro bispo de Arles. Reforçando ainda mais a presença aqui dos “apóstolos marinheiros”, tem-se esta catedral como paragem obrigatória dos numerosos peregrinos a Santiago de Compostela, com ponto de chegada e partida na Via Tolosana, no caminho jacobeo da Provença. Também São Tiago Maior, filho de Zebedeu e Salomé e irmão de João Evangelista, foi Apóstolo que fez viagem marítima do Médio Oriente ao Ocidente duas vezes, uma em vida e outra já depois de morto, indo aportar à Galiza numa barca miraculosa conduzida por Anjos, indício da navegação hermética como arte providencial posta sob o Orago do Divino Espírito Santo.

Trófimo ou Arimateia

Talvez por alguns dos mais esclarecidos dos finais do século XVIII acaso conhecedores do facto de Arimateia e Trófimo puderem ser o mesmo personagem dotado de nome relacionado à Suprema Divindade, é que na época da Revolução transformaram esta antiga catedral do arcebispado de Arles em templo do Ente Supremo (inspiração do Iluminismo a que pertenciam muitos franco-maçons). Depois, em 1801, foi declarada simples igreja paroquial sujeita à sé ou sede catedral de Aix-en-Provence, mas em 1882 o papa Leão XIII elevou-a a basílica menor.

Tendo como ex libris o seu claustro monumental, esta igreja primacial de Arles, situada na Praça da República, é uma das mais interessantes realizações da arte românica. Tudo quanto aqui é românico recua ao século XII, época em que Raimon de Montredon, arcebispo de Arles de 1142 a Abril de 1160, em 29 de Setembro de 1152 organizou a trasladação das relíquias de São Trófimo dos Alyscamps para a basílica de Saint-Étienne, que provavelmente então perdeu esse título a favor do actual Saint-Trophime, em homenagem ao primeiro bispo lendário da cidade, pressuposto “discípulo secreto” do próprio Jesus Cristo.

São Salvador de Aix: Cristo ou Mitra?

A catedral de Saint-Sauveur de Ain-en-Provence, situada na Praça da Universidade, é um monumento românico-gótico cuja construção data do final do século XI e início do século XII, onde na nave meridional chamada Corpus Domini encontra-se uma dedicatória datada de 1103 atribuída ao arcebispo Rostang de Fos. Outros indícios arquitectónicos do edifício visíveis em várias partes do mesmo, dão a sua origem como muito mais antiga fazendo-o recuar visivelmente à Alta Idade Média.

Afirma-se que esta catedral de São Salvador foi construída no lugar do antigo fórum de Aquae Sextiae romano, e as suas fundações assentam sobre um templo dedicado ao deus Apolónio ou Apolo, pois que aqui era o lugar da primitiva via aureliana, uma das principais da Provença romana.

Está-se diante dum templo solar sob o auspício ancestral de divindades igualmente solares. Apolo era o deus das purificações e das curas e  era também conhecido como Phebus, “o luminoso”, por ser identificado ao próprio Espírito do Sol. Possuía o sobrenome de Loxias, “o Oblíquo”, por causa da ambiguidade dos seus oráculos que revelava pela voz das sibilas e pitonisas, de quem era orago, havendo um templo importante dedicado a ele em Delfos, na Grécia, e um outro igualmente importante em Roma, culto que os latinos herdaram da cultura helénica.

Em breve os latinos substituíram o culto apolíneo por outro importado da Pérsia, na Ásia Menor, para Roma cerca do ano 86 a. C. e que perdurou até ao século IV d. C., acompanhando o fim do Império e influenciando o Cristianismo nas suas origens: a celebração dos mistérios do deus solar Mitra, que nesta catedral de Aix aparece como São Mitra, óbvia invenção sagrada de adaptação do deus primitivo a personagem do santoral cristão. É dito que este São Mitra nasceu no ano 433 na Tessalónica, Grécia, e foi serviçal de um pretor romano. Pelos seus dotes de bondade e sabedoria e por sua filiação ao Cristianismo, Mitra foi acusado de feitiçaria e condenado à morte, sendo decapitado no pretório romano de Aix-en-Provence no ano 466, com 33 anos de idade. Por isso a sua imagem retrata-o ostentando à altura do peito a cabeça decapitada, como se vê na sua estátua patente no exterior desta catedral e que é obra do escultor Jean Mone, feita em 1512 e 1513.

O sarcófago contendo os pressupostos restos mortais São Mitra está na capela dos Santos Cosme e Damião da catedral, e se bem que seja datado do final do século XVI é, com toda a evidência, um sarcófago reutilizado nessa época tendo recebido restauros para o efeito, facto faz recuar a sua origem efectiva muito além do século XVI. Nele vê-se o Cristo no cume de uma montanha rodeado dos seus Apóstolos, e uma tampa com alegorias não cristãs foi utilizada para fechar o sarcófago, estando decorada com figuras de génios alados.

Está-se perante a versão cristã do próprio deus Mitra. Se o santo deste nome foi sacrificado com 33 anos de idade, igualmente Mitra morreu com 33 anos, e assim também Cristo. Se São Mitra morreu a 13 de Novembro, dia da sua festa, já o deus Mitra nasceu em 25 de Dezembro, dia em que se celebrava, depois do Solstício de Inverno, o renascimento do Sol, tal qual Cristo, cujo dia de Natal é chamado, como o de Mitra, de Natalis Solis, o “Nascimento do Sol”. Se o deus Mitra possuía o apodo de soberano dos exércitos, igualmente Cristo aparece como Belator Rex e Sol Invicto (Solis Invictus), título herdado de Mitra o deus Salvador, título igualmente dado a Cristo, o Salvador do Mundo.

O deus Mitra era representado com cabeça de Leão (signo do Sol) por ser considerado o distribuidor da energia vital que vivifica e purifica os corpos e as almas. Por esta razão, o principal rito nos mistérios mitraicos era a libação, consistindo em beber o vinho sagrado, representando o espírito de sabedoria do deus, liturgia que o Cristianismo herdou, depois de banhado ou purificado na fonte sagrada, equivalente ao baptismo cristão.

Como herança litúrgica desse período longínquo, sobreviveu até hoje o famoso baptistério desta catedral de São Salvador, datado dos fins do século V d. C. e que é dos mais antigos de França, aproveitado dos romanos pelos merovíngios. De formato octogonal, tendo sofrido algumas alterações ao longo do tempo, da época sua construção não sobrevivem mais que as paredes e a cova baptismal, onde se mergulhava o corpo inteiro do baptizado e não só vertendo-se água sobre a cabeça, como hoje se pratica. Com o mergulho de corpo inteiro no baptistério, o baptizado passava a participar do nascimento e ressurreição de Cristo, espiritualmente purificado para uma vida nova em que a sua consciência se iluminara, tal qual acontecia nos mistérios de Mitra. Este baptistério era alimentado pelas águas quentes provindas das termas romanas a Este do lado exterior da catedral.

Segundo a Lenda Áurea, a passagem do culto mitraico ao cristão deveu-se aqui à intervenção directa de um dos seguidores de Jesus Cristo, São Maximino, que veio da Palestina a bordo da barca que trouxe Maria Madalena para a Provença. Antes de falecer em 7 de Junho de ano incerto, dia da sua festa, Maximino edificou uma modesta capela que consagrou ao Santo Salvador, a qual foi destruída durante as invasões árabes do século VIII ao IX, mas que no século XI os cristãos voltariam a reconstruir, significando isto, talvez, ter sido nessa altura que o culto cristão de São Salvador se perpétuou, desaparecendo no esquecimento da memória colectiva a origem da sua inspiração: os primitivos mistérios sagrados do deus Mitra, o vencedor do Mal, o senhor da Luz, incarnação da pureza espiritual, da dádiva de si mesmo em prol da fraternidade universal dos povos e de toda a Criação. Tudo isto, afinal, são prerrogativas presentes na vida e mensagem de Cristo.

O Bode d´Ouro de Saint-Ferréol

Na Provença não há quem nunca tenha ouvido falar no Cabro d´Or (Cabra ou Bode de Ouro), e um pouco por toda a região rural fala-se dele e do grande tesouro encantado que está escondido no lugar onde se esconde o animal fabuloso.

Por norma, os camponeses provençais têm uma ou mais cabras nas suas quintas, mas o cobiçado bode d´ouro nunca ninguém o apanhou. Os mais velhos dizem tê-lo visto em algum momento no passado, perto de uma gruta ou no cimo de um monte, onde os Templários teriam escondido o seu tesouro, diz a lenda, acrescentando que só esse animal sabe onde ele está e quem o agarrar possuirá o tesouro. Esta história é contada pelos anciãos na aldeia de Carcès, durante as noites de Lua Cheia ou quando o vento Mistral sopra, principalmente na Primavera. O Mistral é o vento oeste que desce ao Vale do Rhône atenuado pelas montanhas. Ainda hoje o Cabro d´Or é o ex-libris de Carcès, havendo representações suas um pouco por toda a parte daí, suspeitando-se que no velho castelo do cimo do monte sobre a povoação seja onde está escondido o bode maravilhoso e o tesouro encantado.

A presença do Bode d´Ouro é igualmente assinalada noutros lugares da Provença, sempre associado à lembrança dos Templários e dos Árabes que invadiram o Sul de França durante o século VIII. Em Arles, acreditava-se que ele passeava todas as manhãs no topo da colina de Montmajour. Não longe de Arles, em Cordes, o Bode d´Ouro era visto junto dum misterioso subterrâneo cuja entrada era em forma de espada, como também perto de Vallauris, no Val d´Or, num lugar semeado de estranhas ruínas a quem chamam igualmente de Cordes ou Cordoue. Em Biot, o “Jardim da Cabra de Ouro” é o nome dado a uma ruína romana, e a lenda conta que aí havia uma cabra dourada que guardava um tesouro que ainda está escondido entre os seus muros. No Var, o Bode d´Ouro também se apresenta no alto do Céran, situado próximo de Draguignan. Também é conhecido em Trigance, vila do Haut-Var, no limítrofe dos Alpes de Provença onde os Templários possuíram uma comenda onde, segunda a lenda, esconderam um tesouro.

Contudo, a tradição lendária do Cabro d´Or teria nascido no século XIII na ermida de Saint-Ferréol durante o período da Cruzada Albigense (1209-1244) ou contra os “heréticos” (cátaros). A ermida foi construída nessa época para servir de refúgio aos religiosos que procuravam escapar às perseguições eclesiásticas e devia ser um lugar bastante seguro, pois está a 300 metros de altitude sobre um plano rochoso sobretudo acessível pelo lado Norte. Encontra-se a 5 quilómetros a nordeste de Cérêt, sobre a margem esquerda do rio Tech. Aí ainda se vê as ruínas de um oppidum circular, espécie de fortaleza, atribuído aos lígures, e também as dum castrum ou povoado gallo-romano, posterior daquele. Diz a tradição que aqui cultuava-se a cabra dourada, e ainda hoje o topo desta colina é conhecido como chève, “cabra”.

O simbolismo cultual da chève primitiva seria adaptado pelos eremitas de Saint-Ferréol para inventarem a lenda do Cabro d´Or que logo se espalhou por toda a Provença. Por certo conheceriam o seu significado oculto e através dessa figura mítica teriam pretendido, no caso de serem exterminados, deixar inculcada no povo geral a memória dos seus conhecimentos hererodoxos proibidos pela Igreja “oficial”, como se esta só possuísse a “letra” da doutrina cristã e eles todo o “espírito” ou entendimento perfeito da tradição universal, naturalmente englobando essa mesma doutrina. Nisto, os Templários estiveram sempre presentes na protecção e simpatia dada àqueles a quem o papado acusava de hereges, no caso, os cátaros e os seus simpatizantes, como seriam os eremitas de Saint-Ferréol, sendo o Cabro d´Or simbólico da Sabedoria Primordial de quem as religiões se originam mas se corrompem vítimas das vicissitudes temporais. Essa Sabedoria Primordial possuiu-a a fina-flor espiritual da Ordem do Templo, também ela acusada de idolatria a um pressuposto “bode de ouro” chamado Baphometh, que neste caso é corruptela de Mahometh, com cujos seguidores os Templários mantiveram estreitas relações culturais e espirituais, sem que por isso tivessem que renegar os votos da sua Regra cristianíssima.

Entre os antigos gregos e romanos herdeiros da cultura mesopotâmica e asiática, o simbolismo do bode ligava-se à ideia da manifestação de Deus, ou seja, do Ser Altíssimo que vivendo no pico de alguma montanha sagrada como o fazem os animais caprinos, daí se revelava aos homens eleitos por meio de alguma teofonia. Por isso em Lemnos, na antiga Samotrácia, no principal santuário cultuava-se o bode, antes, cabra sob o nome de Cabiro, cujos sacerdotes e seus auxiliares eram os coribantes e curetes. Este culto tornou-se famoso entre os assírios, egípcios e gregos, estes que viam a cabra simbolizada no relâmpago despendido dos céus. Também os hebreus observavam o mesmo simbolismo, pois Jehovah manifestara-se a Moisés no cimo do Monte Sinai por meio de relâmpagos, e como memória dessa manifestação divina o manto que recobria o Tabernáculo do Deserto – matriz do posterior Templo de Salomão – era feito de lã de cabra.

Os hindus chamam à cabra de Cumara ou Kumara, ligando-a à constelação do Capricórnio, afirmando que se trata da expressão mais elevada de Deus Eterno revelada à Humanidade por Graça da Mãe do Mundo, chamada Prakriti ou a Matéria Primordial, a mesma Mãe Terra ou Mater-Rhea (donde Matéria…) que junta com o deus Cronos ou Saturno foi a Mãe dos Cabiros, para os gregos.

Uma vestimenta denominada cilicium (cilício), tecida em lã de cabra, era usada por alguns sacerdotes romanos e sírios nio momento da prece, para representar a sua união com a Divindade. Entre os cristãos, o uso ascético do cilício adquire o mesmo significado, com a intenção de mortificar a carne como penitência, e de libertar assim a alma vivificada que almeja entregar-se plenamente ao seu Deus. O uso dessa vestimenta evoca o hábito de burel (tecido grosseiro de lã) dos monges cristãos. A esse propósito, nota-se que a palavra sufi provirá, segundo a tradição mais aceita no Ocidente, de suf ou çuf, termo que designa o feltro de pêlo de cabra com que se faz ritualmente a veste dos místicos do Islão, os sufis (ou “sábios e elevados como o bode”…com cuja pele se revestiam), ainda hoje usada em certas confrarias místicas islâmicas.

Os órficos ou participantes dos Mistérios de Orfeu na Grécia, comparavam a alma iniciada a um cabrito caído dentro do leite, ou seja, aquele que vive e se alimenta da sabedoria sagrada, assinalada no leite da cabra, para conquistar a riqueza da imortalidade de uma vida divina. Em todas as tradições a cabra aparece como símbolo da ama-de-leite e da iniciadora, tanto no sentido físico como no sentido místico das palavras. No entanto, a sua conotação caprichosa implica também a gratuidade dos dons imprevisíveis da Divindade que nunca sabe quando se manifesta e de que maneira, sendo este o sentido da natureza fugidia do lendário Cabro d´Or, que se esconde dos homens ambiciosos mais das riquezas materiais que das espirituais que dão sabedoria e elevação.

Na Provença, a cabra é sobretudo associada à agilidade ou, segundo La Fontaine, ao seu gosto pela liberdade, por uma liberdade feita de impulsos imprevisíveis, motivo pelo qual do seu nome latino, capris, derivou a palavra capricho. Mais que tudo, entre os provençais a cabra é sinónima de liberdade nutridora tanto moral como social, e entre os antigos místicos da Provença, perseguidos pela heresia eclesial, correspondia ao aspecto mais secreto e supremo da Divindade representada no Bode d´Ouro: o mistério incomunicável da Energia Divina à Humanidade, motivo principal da teofonia, e assim mesmo expressando o Poder Divino do Espírito no Homem.

Elzéar de Sabran, santo herético

Quem visita a igreja franciscana de Ansouis e  detém-se junto às relíquias de Saint-Elzéar de Sabran e da sua esposa Sainte-Delphine de Sabran, não deixa de perguntar-se quem foram estes personagens santificados pela Igreja e qual o seu papel na espiritualidade da Provença, pois a fama que discorria sobre os mesmos, principalmente Elzéar de Sabran, quase nada tinha em comum com os convencionalismos eclesiásticos, pelo contrário, chocava abertamente com os mesmos que os remetia para o rebordo do fosso da heresia declarada.

Pertencente a uma das mais ilustres famílias nobres da Provença, filho de Ermangaud de Sabran e Laudune de Alba, Elzéar nasceu em 1285 no castelo de Roubians, perto de Cabrières-d´Aigues, no Luberon. A lenda conta que ainda sendo criança de colo já mostrava sinais de santidade, pois mortificava-se todas as sextas-feiras recusando o leite da sua ama. Ele fez os seus estudos no convento de Saint-Victor de Marseilha, cujo abade então era o seu parente Guillaume de Sabran. Foi aí que Elzear tomou contacto pela primeira vez com os ideais franciscanos que, exigindo o retorno da Igreja escandalosamente opulente e mundana ao estado da primitiva pobreza e pureza do Cristianismo, acercavam-se bastante dos propósitos divulgados pelos templários (que marcaram presença no convento de Saint-Victor, como comprova a lápide de Hugues de Glazinis aí, decorada com cruzes templárias) e, sobretudo, pelos cátaros ou “puros”, dos quais a família Sabran não escapava à fama de nutrir simpatia por eles, que haviam sido chacinados em 1208 e a sua doutrina condenada como herética no concílio de Latrão, em 1215. A acção futura de Elzéar de Sabran irá revelar-se, de certa forma, a vingança póstuma dos cátaros…

Com a morte de seu pai em 1309, Elzéar de Sabran tornou-se barão de Ansouis e senhor do condado de Ariano. Em 1312, depois de ter ajudado a derrotar militarmente Henrique VII, que em Roma pretendia coroar-se soberano do Sacro Império Romano-Germânico, abandonou os seus domínios em Nápoles, após ter subjugado os italianos pela bondade a não odiarem os franceses, e regressou à Provença como familiar próximo do Papado em Avignon. Mas regressou casado, por em 1299 ter acedido ao desejo do rei Charles II de Nápoles de contrair núpcias com a virtuosa Delphine de Blessed (1283-1360), da Casa de Glandèves.

Contudo, o casal Elzéar e Delphine mostrava-se mais propenso à vida monástica do que à conjugal, e foi assim que se juntou à Ordem Terceira de São Francisco, fundada em Assis em 1210, mudando-se de Ausouis para Puimichel, tendo contraído voto de castidade em 1316 debaixo da influência do franciscano François de Meyronnes, alcunhado Doutor Delle, que era confessor de ambos e adepto das doutrinas milenaristas que pregavam o casamento casto, sem interacção sexual, porque os corpos deviam manter-se puros nessa época próxima do fim do mundo e do tempo do anti-Cristo estar prestes a chegar. Debaixo desse pretexto apocalíptico, escondia-se a acusação formal da decadência temporal da Igreja e das urgentes reformas espirituais exigidas para a mesma.

Os franciscanos foram os principais defensores da ideia de reformar a Igreja, como S. Francisco de Assis advogara especialmente em relação ao voto de pobreza, e por isso o papado várias vezes o declarou heréticos, como Bonifácio VIII em 1296. Eram conhecidos como fraticelli, “irmãos”, cujo diminutivo italiano é frate (no plural, frati), do latim frater, que na língua italiana se abrevia muitas vezes para fra, referindo-se ao clero. Frati foi uma designação dada aos membros das Ordens Medicantes fundadas durante o século XIII, principalmente a dos Frades Menores de São Francisco. O termo latino fraterculus não aparece nos registos antigos respeitantes aos fraticelli. Etimologicamente, o nome frades menores (frates minores) é equivalente ao diminutivo de fraticellus. O ideal de S. Francisco de Assis, fundador dos frades menores, era que estes cumprissem rigorosamente os votos espirituais de pobreza, abnegação e humildade, com a missionária ou apostólica missão de levar a Humanidade de volta ao Espírito de Cristo. O povo italiano acabou designando por fraticelli todos os membros das ordens religiosas (principalmente medicantes), e especialmente eremitas, quando via esses religiosos observarem com todo o rigor os preceitos ou regras monásticas nas suas vidas.

A origem dos fraticelli e a causa do seus crescimento dentro e fora do Ordem Franciscana, deve ser procurada na história dos espirituais. É suficiente observar aqui que, em consequência das severas exigências de S. Francisco a respeito da prática da pobreza, os seus seguidores dividiram-se em dois ramos: os zelanti, ou espirituais, e os relaxati, mais tarde conhecidos como conventuais. Os papas do século XIII intervieram para estabelecer a harmonia entre as duas facções, e Gregório IX, Inocêncio IV e Nicolau III deram nas suas bulas explicações sobre os pontos em questão tentando conciliá-los. Mas as diferenças não foram completamente conciliadas e nem a unidade monástica inteiramente restaurada entre os espirituais e o corpo principal da Ordem, a comunidade (frates communitate).

Elzéar de Sabran e Delphine de Sabran eram espirituais franciscanos, como consta nos arquivos dos frades menores do convento de Apt. Por esta razão, a canonização do casal e a sua subida aos altares da santidade mostrou-se dificílima, por sua ligação declarada aos ideais dos fraticelli que a Igreja considerava desviantes da doutrina oficial. Por duas vezes solicitou-se a sua canonização ao papado em Avignon, a primeira a João XXII que a recusou, e a segunda em 1351 a Clemente VI, que também a recusou. Por fim, em 15 de Abril de 1359 o papa Urbano V, por certo para contrariar o papado de Avignon, na basílica de S. Pedro em Roma canonizou Elzéar ou Elzearius (que em hebreu significa “socorro de Deus”), mas não tendo a bula de canonização sido emitida senão pelo seu sucessor Gregório XI, em 5 de Janeiro de 1351. Por seu turno, os Estados da Provença reunidos em Apt, em 18 de Abril de 1382 solicitaram ao papa Clemente VII a canonização de Delphine de Sabran, no que não foram atendidos apesar de até hoje ela ser muito citada no Martirológio Franciscano, e como o povo da Provença sempre a teve como Sainte-Delphine, em 1694 o papa Inocêncio VII acabou reconhecendo o seu culto e consagrou-lhe o dia 26 de Novembro, enquanto o do seu esposo virginal é a 27 do mesmo mês, ambos tendo por símbolo iconográfico o lírio virginal.

Relícários de Elzéar e Delphine em Ansouis

Durante uma embaixada a Paris, Elzéar de Sabran contraiu febre maligna e faleceu nesta cidade em 27 de Setembro de 1323, com a idade de 38 anos, sendo assistindo nos seus últimos momentos pelo seu confessor, o franciscano François de Meyronnes. O seu corpo foi depois trasladado para a igreja do convento dos frades menores de Apt.

Por sua vez, Delphine de Sabran faleceu em 26 de Novembro de 1360 no mesmo convento franciscano de Apt, cujos religiosos no mesmo dia da sua passagem apresentaram uma proposta de canonização da nobre beguina. Uma beguina, na acepção actual, é uma mulher de uma comunidade religiosa com regras menos estritas que as de um mosteiro. Na Idade Média, as beguinas constituíam uma corrente espiritual e política de mulheres que se votavam a Deus, mas sem pronunciarem votos perpétuos como aquelas de um mosteiro. Os seus homólogos masculinos eram chamados beguinos ou béguards. Beguino e beguina foram Elzéar e Delphine que a Igreja, por certo a contragosto, teve que aceitar e reconhecer a sua santidade.

Templários na Provença

Após a fundação da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, vulgo Ordem dos Templários, em 1118 em Jerusalém diante de Balduíno II, tendo sido oficializada em 1128 no Concílio de Troyes, oito anos depois, em 1136, instalaram-se na Provença. Nesta altura o mestre templário Arnaud de Bedos recebeu do nobre Hugues de Bourbouton (pequeno senhorio a dois quilómetros de Richerenches) a doação de algumas terras à Ordem do Templo, então inabitadas e incultas. Aí se fundou a primeira preceptoria templária na Provença.

Em 1138 o senhor Hugues de Bourbouton entrou na Ordem como cavaleiro após doar todos os seus bens ao Templo: tornou-se preceptor de Richerenches. Seguiram-lhe o exemplo vários familiares seus, e em breve o priorado ou preceptoria de Richerenches cresceu e tornou-se o mais importante da Provença. Depois outros nobres provençais, desejosos dos favores do Templo e de Deus, para resgate dos seus pecados e para servirem a Fé como melhor sabiam, ou seja, pelas armas, também fizeram doações avultados à Milícia Templária, tendo aparecido outras comendas ou bailios, e até simples granjas ou fazendas, dependentes da preceptoria de Richerenches: em Orange, em Roaix, em Villedieu e em Montélimar. Com o mesmo título daquelas de Arles, de Aix ou do Col de Cabres, a preceptoria de de Richerenches foi cabeça de jurisdição militar, económica e espiritual como sede de priorado.

A preceptoria de Richerenches estava instalada num quadrilátero de 74 metros ao norte, 81 metros ao sul, 58 metros ao este e 55 metros ao oeste, rodeada de muralhas. Comportava vários alojamentos, uma capela, uma forja, alguns armazéns agrícolas, estábulos e oficinas de artesãos. Era um lugar de exploração agrícola produtora de recursos económicos, um lugar de estadia para os jovens templários recebendo a instrução militar e religiosa, e um lugar de recolhimento para os velhos templários inaptos para o combate. Como em todas as Casas do Templo, a vida diária era marcada pela oração e o trabalho segundo a Regra da Ordem.

Comenda Templária de Richerenches

Para alcançar a conquista e depois manter a defesa dos territórios conquistados na Palestina, a Ordem do Templo apoiava-se nas riquezas económicas produzidas pelas suas preceptorias no Ocidente. Assim, a Provença era uma terra produtora de recursos indispensáveis para os templários.

Da época templária, subsistem na antiga preceptoria de Richerenches: a granja, a mais bela e importante das suas construções com uma magnífica nave de 32 metros de comprimento por 11 de largura, rodeada de enormes contrafortes ligados ao cume por arcadas cuja cobertura do terraço rodeada de ameias ajudava à defesa. Também subsiste a parte baixa da abside da igreja, onde foi encontrada uma pedra gravada com o nome de um dos preceptores de Richerenches: Hugues de Bourbouton.

A Ordem do Templo também se instalou em Avignon, em 1174, como comenda dependente da preceptoria de Arles, e em 1197 foram-lhe feitas importantes doações prediais ou em imóveis apesar de nunca ter crescido muito, pois na metade do século XIII os templários de Avignon não haviam adquirido senão algumas terras na orla do Rhône e algumas casas isoladas na cidade. Nesta teriam a sua sede no espaço acctualmente delimitado pelas ruas Saint-Agricol e Félix-Gras. A igreja de Saint-Agricol poderá ter sido propriedade dos templários no século XII, pois próximo dela conserva-se um portal que leva o sugestivo nome de portale templi.

Em Março de 1209, o Conde Alfonso II de Provença doou à Ordem dos Templários as terras biotoises com isenção do pagamento de juros. Desde logo as possessões templárias em Biot passaram a ser geridas pela preceptoria de Grasse, e só em 1233 os cavaleiros construíram a sua nova casa, situada no antigo castelo de Biot. Actualmente ainda é visível a construção: trata-se do edifício que separa a praça da Igreja da praça das Arcadas.

A comenda de Biot comportava a repartição habitual das casas da Ordem do Templo: os aposentos do comendador, uma grande sala, uma cave, uma torre com masmorra, vários armazéns e cavalariças e grandes pomares compostos de amendoeiras, figueiras e vinhas. A cada comenda eram atribuídos de dois a quatro cavaleiros, um capelão, vários escudeiros e irmãos serventes. Contriamente às outras, a comendadoria biotoise explorava as suas próprias terras e os cavaleiros contratavam sazonalmente os camponeses da região para procederem à semeadura e colheita agrícola. Por esta razão, a comenda de Biot era mais rica que muitas outras da Ordem. As doações mais importantes que tiveram aqui aconteceram sobretudo entre 1226 e 1260, estendendo-se as suas terras desde Villeneuve-Loubet até às de Clausonnes passando o Golfo de Biot. A Ordem do Templo formou a unidade territorial de Biot, constituindo um importante domínio religioso que atraiu para aí gente de diversas tendências espirituais, desde judeus até cátaros, que a Igreja diz terem sido convertidos a ela mas que a História afirma terem permutado cultural e espiritualmente com o Templo, sem que necessitassem converter-se a uma visão restrita do entendimento e aplicação do devocional. Isto parece ter acontecido também nos outros lugares templários da Provença, pelo que não era uma excepção à regra heterodoxa de confraternidade inter-religiosa.

Quando em 13 de Outubro de 1307 os templários são detidos em França por ordem do rei Filipe IV, o Belo, ambicioso das suas riquezas e para isso alegou as acusações mais inverosímeis, desde heresias a sodomias, abusos de poder e exploração económica, no que foi apoiado pelo papa que ajudara a eleger, Clemente V, o apoiante do partido real, Charles III, o Coxo, Conde de Provença, deteve e aprisionou os cavaleiros templários de Biot em Perthuis. Em seguida os seus bens imobiliários foram repartidos entre a coroa, os vassalos fiéis à mesma e por fim, por ordem papal, chegando uma pequena parte dos mesmos à Ordem dos Hospitalários, para pôr esta contra a Templária e calar o protesto da grande injustiça que lhe haviam feito. Finalmente, no Concílio de Viena em 1312 o papa Clemente V aboliu a Ordem dos Templários, contrariando todos os protestos alegando a sua inocência.

Por fim, a maioria das possessões imobiliárias da Ordem do Templo na Provença foi destruída durante as guerras de religião que opuseram católicos e protestantes, alcunhados de huguenotes, que foram travadas entre 1562 e 1598 e tiveram inicio em 1520 com as primeiras perseguições católicas aos protestantes. Apesar de tudo, sobreviveu até hoje muito património templário, apesar de maltratado pela inclemência do tempo e dos homens, merecendo ser visitado por quem queira conhecer a Provença Templária.

O túmulo de Nostradamus

Na capela de Nossa Senhora da igreja colegial de Saint-Laurent de Salon-de-Provence encontra-se uma placa mural onde pode ler-se a seguinte inscrição latina: “Aqui se encontram, depois de várias tribulações, algumas das ossadas do famoso “astrophilo” Michel de Nostre-Dame, dito Nostradamus (1503-1566)”. Este epitáfio tumular foi refeito no mês de Julho de 1813, após os restos mortais de Nostramadus terem sido trasladados para aqui da igreja conventual dos Cordeliers da cidade (Saint-François), em 1789, onde jazia a sua sepultura entre a porta principal e o altar de Santa Marta.

O epitáfio fúnebre do célebre astrólogo e profeta Nostradamus é, pois, originário da igreja dos Cordeliers. Nele lê-se a seguinte inscrição em latim: “D. O. M. Clarissimi ossa Michaelis Nostradami, unius omnium mortalium judicio digni, cujus pene divino calamo totius orbis ex astrorum influxu futuri eventus conscriberentur. Vixit annos LXII. Menses VI. Dies XVII. Obit Salone anno MDLXVI. Quietem posteri ne invidete. Anna Pontia Gemella Salonia conjugi optatu fecit”. Que se pode traduzir por: “Deus Omnipotente Misericordioso. Aqui repousam os restos do ilustríssimo Michel Nostradamus, estimado pelos mortais por seus juízos certos, cuja pena quase divina, acompanhando o decurso dos astros e do Universo inteiro, descreveu os acontecimentos futuros. Viveu 62 anos, 6 meses, 10 dias e morreu em Salon em 1566. Que ninguém perturbe o seu descanso. Ana Pontia Gemela, sua esposa, fez este epitáfio”.

Michel de Nostredame ou Miquèl de Nostradama, famoso como Nostradamus (Nossa Senhora), foi um filho genuíno da Provença: nasceu em Saint-Rémy-de-Provence em 14 de Dezembro de 1503, e por sofrer deartrite e gota, morreu em Salon-de-Provence vítima de um forte ataque de hidropisia (acumulação de líquido nos tecidos), em 2 de Julho de 1566, sendo sepultado de pé numa das paredes da igreja dos Cordeliers. O facto de se ser sepultado de pé não era invulgar na época: simboliza a ressurreição da alma imortal e o seu caminhar de encontro a Deus Omnipotente e Misericordioso.

Supostamente Nostradamus previu a sua morte, pois em de 1 de Julho, um dia antes de morrer, terá dito ao seu secretário Jean de Chavigny: “Amanhã você não me encontrará vivo”. Assim aconteceu: foi encontrado morto próximo da sua cama e de um banquinho, como antevira e escrevera no seu Presságio 152.

Durante muitos anos o túmulo de Nostradamus foi objecto de veneração, e ninguém que visitava Salon deixava de ir junto dele prestar-lhe homenagem. A lenda conta que Nostradamus foi sepultado ainda vivo acompanhado de papel, tinta, penas e alguns livros, tendo deixado a ameaça de morte a quem o viesse perturbar o seu descanso eterno.

Durante a Revolução, os guardas nacionais de um batalhão marselhês – ou do Vaucluse – abriram o túmulo de Nostradamus esperando encontrar algum tesouro ou segredo dentro dele. As suas ossadas foram pilhadas e dispersas, tendo um marselhês, segundo a tradição local, se apropriado do crânio do defunto. O presidente da Câmara recolheu o que pôde das relíquias e salvou o retrato de Nostradamus e do seu filho César, dentro de caixilhos de metal sobre os túmulos, alegando que era do interesse dos compatriotas a sua conservação, pois o cidadão Michel Nostradamus havia predito a Liberdade. Ele colocou as ossadas na igreja de Saint-Laurent, dentro da antiga capela de Saint-Roche (hoje da Virgem), com uma inscrição que foi apagada mas que podia ler-se na época da Restauração: “No ano três da Liberdade, o túmulo de Nostradamus, que honra Salon, sua pátria, e cuja memória ficará para sempre entre os compatriotas franceses pelas suas predições do reino da Liberdade, foi aberto. Os cidadãos empenhados em conservar as suas cinzas, repartiram-nas; lamentavelmente a municipalidade só pôde recolher a parte que está neste túmulo: ela doa-a à posteridade, assim como o retrato deste homem célebre e do seu filho o historiador, ele próprio pintor”.

Conta-se que o soldado que incitara os companheiros e fora o primeiro a profanar o túmulo de Nostradamus, foi fuzilado alguns dias depois, acusado de roubar o dinheiro da casa onde estava alojado, e a sua morte foi encarada como uma punição da sua impiedade e um sinal da maldição póstuma de Nostradamus.

Capela da Virgem, Salon-de-Provence, onde estão os restos mortais de Nostradamus

Provindo de uma família judaica distinta da Provença que se convertera ao Cristianismo, Nostradamus era o filho primogénito dentre os oito que teve o casal Jaumete de Nostredame e Reynière de Saint-Rémy. Ele veio a formar-se em Medicina e Boticária (que hoje se chama Farmacêutica), e tal como muitos médicos da Renascença praticou a Alquimia e sobretudo a Espagiria, que é a ciência ervanária dos elixires e unguentos, sendo uma espécie de introdução à prática alquímica. Igualmente dedicou-se à Cabala a que juntou a Astrologia e as previsões astrológicas. Mas o que sobretudo o afamou universalmente foi a sua pressuposta clarividência psíquica, capaz de prever os acontecimentos futuros mais longínquos. Esses deixou-os descritos na sua obra famosa As Profecias, editadas em 1568 e que desde então tem recebido frequentes reedições em muitas línguas, apesar de frequentemente se apresentarem alteradas relativamente ao texto original. As Profecias compõem-se de quadras proféticas (quatrains) agrupadas em versos métricos decassílabos organizadas em blocos de cem, e daí o nome centúrias (centuries).

Antes da edição póstuma de As Profecias, durante dez anos este profeta renascentista publicou uma série de almanaques anuais, sendo o primeiro editado em 1550 e foi quando passou a utilizar o seu nome em latim, passando de Nostredame para Nostradamus. Esses almanaques continham factos astrológicos, informações variadas e milhares de presságios. Alguns desses presságios estavam escritos em versos – precisamente cento e quarenta e um – e foram estudados em separado das quadras das Profecias, apesar de serem muito similares a estas. Os exegetas que estudaram essa parte do seu trabalho afirmam que se tratavam de acontecimentos na sua época ou próximos e, portanto, de pouco valor para a época presente.

Quando As Profecias de Nostradamus foram publicadas, muitos católicos e protestantes pensaram que ele era o demónio e alcunharam-no de herege. Mas outras classes sociais, mais ilustradas e com um espírito mais aberto, defenderam o nome do autor e aprovaram a publicação, porque essas centúrias inspiravam profecias espirituais. O livro chamou a atenção de Catarina de Médicis, esposa de Henrique II de França, que era uma grande admiradora e defensora de Nostradamus, ela que o havia convocado para a corte em Paris a fim de perguntar-lhe sobre o futuro dos seus filhos através do horóscopo astrológico, tendo o tempo posterior confirmado a exactidão das previsões de Nostradamus.

Segredo maçónico da fonte dos quatro delfins

Aix-en-Provence é conhecida como a “cidade das fontes” por ter mais de quarenta. De todas evidencia-se, tanto pela graça escultórica quanto pelo insólito esculpido, aquela que é uma das mais antigas fontes de Aix: a fontaine des quatre dauphins.

Esta fonte no centro do quartier Mazarin, no cruzamento das ruas 4 Setembro e Cardinal, é obra barroca do escultor, depois arquitecto, Jean-Claude Rambot (1621-1694), que a edificou em 1667. Compõe-se dum tanque circular tendo ao centro quatro delfins postos em cruz ou direccionados aos quatro pontos cardeais, de cujas bocas corre água para o tanque, e dentre as suas caudas ligeiramente levantadas ergue-se um obelisco tendo no topo uma pinha. Originalmente, este obelisco foi decorado por uma estátua do Arcanjo São Miguel (por isto no século XVII era conhecida como fontaine de Saint-Michel, possivelmente em honra do cardeal Michel de Mazarin, a autoridade máxima do clero aixoise e cavaleiro da Ordem de Malta), que depois foi substituída por uma flor-de-lis, a seguir por uma cruz de Malta até que, por fim, foi-lhe imposta a pinha. Classificada como monumento de interesse público em 1905, a ornamentação metálica da fonte data de 1912.

Esta fonte dos quatro delfins pelas suas figuras esculpidas encaixa completamente no simbolismo da Tradição Iniciática, e não será de estranhar que Jean-Claude Rambot tenha perfilhado das ideias ocultistas que marcaram esse Período Iluminista e que já vinham da Renascença. Ademais, a época da construção desta fonte (1667) corresponde àquela em que se começou a esboçar a formação da Maçonaria Especulativa em Setembro de 1666, primeiro em Inglaterra e depois em França, a qual foi fundada oficialmente em 1717. Os maçons especulativos tinham-se como cidadãos livres possuídos de uma nova mentalidade social, iluminista e humanista, que a partir do século XVII começaram a ocupar o espaço deixado vago pelos maçons operativos que se desestruturaram e desapareceram no final da Idade Média (século XV), ainda que algumas agremiações de companheiros e canteiros tenham chegado ao século XVI.

O Ocultismo iluminista passou grandemente pela mitologia greco-romana dando aos seus símbolos e metáforas um significado esotérico que se sobrepunham às interpretações clássicas ou vulgares da Mitologia. É assim que a presença original do Arcanjo solar Mikael ou Miguel coroando esta fonte monumental com os delfins abaixo, remete de imediato para o mito cretense pré-helénico que descreve a encarnação do deus solar Apolo sob a forma de um golfinho, segundo o hino homérico, para abordar as costas de Crisa que lhe abrem a rota de Delfos, onde estava um colégio de pitonisas e sibilas que o deus veio a proteger sob a forma de golfinhos vivendo junto à costa da ilha, ao mesmo tempo que dava a inspiração profética a essas mulheres sacerdotisas que assim serviam de intermediárias, profetisas ou “porta-vozes” entre o Mundo Humano e o Mundo Celeste, tal qual a função oculta do obelisco, marcando o objecto no seu topo o ponto onde o visível penetra o invisível, e vice-versa. Os geómetras e arquitectos hindus chamam a essa extremidade ou ápice de ponto bindo.

Está-se perante um simbolismo ligado ao das transfigurações lustrais, ou das águas sagradas. Ainda na mitologia grega, os piratas que se embriagaram depois de prenderem o deus Dionísio ou Baco ao mastro do seu navio, caíram ao mar e transformaram-se em golfinhos. Desde aí o golfinho tornou-se o símbolo da regeneração e conversão, pois que pelas águas a inferioridade humana foi purificada e convertida em natureza superior, repleta de docilidade e simpatia. Por isto, a imagem do golfinho podia ser vista gravada na trípode ou vaso do fogo sagrado no Templo de Delfos, consagrado a Apolo. Essas qualidades, acrescentadas à velocidade de deslocação que possui, fizeram dele o senhor da navegação, e é assim que o golfinho é associado à imagem do deus dos oceanos, Poseidon, com um tridente ou uma âncora.

Na arte grega, o homem era muitas vezes representado a cavalgar um delfim com função psicopompa ligada aos ritos funerários. Os cretenses acreditavam que os mortos retiravam-se para os confins do mundo, para a Ilha dos Bem-Aventurados, sendo transportados para lá no dorso de golfinhos. Plutarco descreve a viagem de Arião caído ao mar, levado e escoltado por golfinhos que o salvaram da ameaça de marinheiros prestes a matá-lo. O relato é rico em simbolismo, com interpretação transparente: Arião passa do mundo agitado e violento ao mundo de uma salvação imortal, graças à mediação dos golfinhos. Por este motivo de salvação espiritual, é que mais tarde se representou o Cristo Salvador sob a forma do golfinho, sendo essa função psicopompa ou de transportar as almas de um lado ao outro da vida, igualmente atribuída ao Arcanjo São Miguel.

De maneira mais psicológica e ética, o relato de Arião indica também a passagem da excitação e dos terrores fantasistas à serenidade da luz espiritual e da contemplação, pela mediação da bondade (o mergulho salvador, a facilidade, o ar benevolente dos golfinhos, etc.). São perceptíveis aí as três etapas da evolução espiritual: predominância da emotividade e da fantasia; intervenção da bondade, ou do amor e do devotamento, iluminação na glória da paz interior.

Na heráldica, o golfinho é representado como “porco-marinho” escamado, como, por exemplo, no brasão de armas de Dauphiné (Delfinado). Os sucessores do trono francês (representado pela flor-de-lis, e por esta razão simbólica também se postou no topo do obelisco desta fonte essa flor), usavam golfinhos em seus brasões pessoais e eram chamados delfins. A expressão latina ad usum delphini (“para uso do príncipe herdeiro”) em livros, significa que se trata de edições “para os jovens”, sem detalhes “imorais”.

O que está hoje no cimo do obelisco é uma pinha, cujo simbolismo integra-se com muita felicidade na significação do conjunto escultórico. É o símbolo da Verdade oculta (sob a casca ou aparência) que se manifestada, por isso mesmo também simboliza a Vida revelada na Natureza, sendo para os antigos gregos a representação da religião agrária, por a pinha simbolizar essa imortalidade sempre renovada pelas águas nutridoras da vida dos seres e da Natureza. Por isso o pinheiro era consagrado a Dionísio, o deus morto e ressuscitado, e a Cibele, deusa da fecundidade. De facto, no culto a Dionísio e a Cibele em Roma honrava-se o pinheiro: abatia-se e transportava-se para o templo do Palatino uma árvore de Março, o pinheiro, depois fazia-se o seu velório esperando a ressurreição, que finalmente chegava no momento do Equinócio da Primavera, passando-se abruptamente dos gritos de desespero a um júbilo delirante. O pinheiro simbolizava o corpo do deus morto e ressuscitado, ele própria a imagem, nos cultos a Cibele, da alternância das estações.

A pirâmide perdida de Marselha

No limite exacto dos oitavo e nono bairros da cidade de Marselha, ergue-se um curioso monumento repleto de histórias secretas e fantásticas onde Ocultismo e Maçonaria se cruzam sem coerência nem explicação: trata-se uma estranha pirâmide, cuja memória colectiva local há muito que perdeu o seu significado e origem.

Conhecida como a pirâmide do rei de Espanha e sem mais desenvolvimento, hoje este imóvel está ao abandono sem protecção alguma. Chegou a murar-se o acesso à sala interior mas a barreira foi deitada abaixo e é assim que se vê a sala repleta de detritos. O exterior da pirâmide mostra-se muito degradado por numerosos actos de vandalismo. Com efeito, este monumento insólito exige uma intervenção urgente das autoridades locais para que o preservem como parte notável do património histórico e cultural de Marselha.

Esta pirâmide representa tudo o que resta do domínio criado por Dominique Bastide, constituído de um palácio e um parque tornados célebres por terem acolhido o rei de Espanha Carlos IV – descendente de Luís XIV de França – e a sua corte exilada na Provença por Napoleão Bonaparte, no primeiro quartel do século XIX. Dominique Bastide era um negociante rico marselhês que desejou instalar-se com a sua mulher e filha no arrabalde sossegado e discreto da cidade, e para isso adquiriu, entre Mazargues e Montredon, 160 hectares de terras com bosques e colinas. Foi no ano XII da República (1801) que começou a construção do palácio e do parque, prolongando-se as obras até 1804. Estes ficariam famosos com a chegada de Carlos IV à propriedade em 26 de Fevereiro de 1811, tendo vivido aí até 1812. Actualmente, desde 1968, o palácio do rei de Espanha não existe mais: o colégio do rei de Espanha ocupa o seu lugar. Também o parque do rei de Espanha foi desmontado para em 1959 construir-se um bairro residencial. Sobrou a pirâmide, abandonada e violada…

Esta pirâmide destinou-se a mausoléu familiar dos Bastide e terá sido construída entre 1804 e 1809, tendo sido nela depostos os corpos do filho e da esposa (mais tarde trasladados para o cemitério Saint-Charles e depois para o de Saint-Pierre), Camille Georges Bastide, falecido em 11 de Março de 1809 com 10 anos e oito meses, e Jeanne Henriette Félicité Dusaulx, nascida em Metz a 8 de Outubro de 1785 e falecida em data incerta, de Jacques Antoine Dominique Bastide, nascido em Montpellier em 14 de Setembro de 1773 e falecido em Paris, em 29 de Novembro de 1844.

O formato desta pirâmide com seis metros de altura parece inspirar-se naquele da pirâmide de Caius Cestius em Roma, e a época da sua construção (1804-1809) condiz com o momento histórico da «egiptomania» que invadiu a França após a expedição triunfal de Napoleão Bonaparte ao Egipto (1798-1801). Tal «egiptomania» correspondeu igualmente ao período da implantação do Rito Copta da Maçonaria Egípcia na Provença, e isto poderá indiciar uma possível ligação ou aproximação maçónica de Dominique Bastide com o mundo da Tradição Iniciática, muito mais quando se sabe haver uma ancestral relação íntima entre pirâmide e rito funerário.

A pirâmide participa do simbolismo do montículo funerário com o qual se recobria os corpos dos defuntos, pois que ela é um “montículo” de pedra gigantesco e perfeito distendendo ao máximo a sua proporção geométrica de maneira a proporcionar a garantia de ascese e evolação da alma na eternidade, o que fica assinalado pela ponta da pirâmide que assim subentende-se penetrar o invisível. Por esta razão, as cerimónias funerárias eram sempre realizadas no interior de pirâmides, desde as mais elaboradas às mais simples, como é esta de Marselha. No Antigo Egipto, o sentido de ascensão espiritual era o principal do simbolismo da pirâmide, pois acreditava-se que quando o rei ou faraó cessava de viver o seu corpo morto ficava no quadrado da matéria, base da pirâmide, enquanto o seu espírito imortal subia pelo centro dos lados triangulares, perpassando o ápice para se unir ao Deus Sol ou , de quem Hórus era o mensageiro divino assim representando o Mundo Celeste.

Por essa razão, a pirâmide representava igualmente a montanha da iniciação, sendo a sua ponta ou pico a imagem do desenvolvimento espiritual máximo alcançado: quanto mais um ser humano se espiritualiza, mais a sua vida se engrandece, se dilata à medida que se eleva consciencialmente. Do mesmo modo, no plano colectivo humano: quanto mais uma sociedade se espiritualiza, maior é o número de seres participando da vida superior e superiormente norteando a colectividade no caminho da verdadeira evolução para o ápice, que é a conquista da felicidade humana.

Por isso, a pirâmide tem o duplo significado de convergência e integração, tanto individual como colectiva. Convergência ascendente, consciência de integração, é assim que a pirâmide é o lugar de encontro entre dois mundos: um mundo mágico, ligado aos ritos funerários de retenção indefinida da vida ou de passagem para uma vida supratemporal, e um mundo racional, que evoca a geometria e os modos de construção, facto que os actuais amadores dos mistérios urbanos a ver com manias “piramidológicas” evocam sem critério nem sobriedade.

A maior prova da possível filiação iniciática de Dominique Bastide porventura estaria no desaparecido templo próximo desta pirâmide, no seu antigo parque ajardinado. Tratava-se de uma pequena construção circular com colunas a toda a volta e com quatro aberturas simétricas. Um pórtico de quatro colunas sustentava um frontão triangular. Elevava-se sobre um rochedo e para se chegar a ele subia-se uma grande escadaria após atravessar uma alameda de ciprestes. No interior, de mármore, vários mosaicos e frescos decoravam as paredes feitas de uma argamassa avermelhada. Hoje nada existe dele. Um mapa de 1820 situa-o aproximadamente entre a actual Aldeia SOS e a Escola Granados.

No desaparecido parque real também haviam quatro tanques, um muito grande com uma cascata, as estátuas das três Graças, de Júpiter e do deus Pan decorando as alamedas bordadas de ciprestes, e um grande túnel escondia-se atrás de soberbos larícios. Um laranjal e várias estufas completavam a bela e luxuosa propriedade de Dominique Bastide, na qual Carlos IV, o rei exilado de Espanha, viveu a felicidade que não encontrou em nenhum outro lugar.

Advertisements