Ensinamentos Secretos de J.H.S. (Revelação e Irrevelação) – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Ago 12 2011 

Sintra, 24 de Fevereiro de 2008

Ab inope nunquam spectes

(Ninguém dá o que não tem)

Ao longo dos últimos dois decénios e alguns anos vim repetindo à exaustão que o evento da Data Avatárica de 28 de Setembro de 2005 poderia não se realizar da maneira “ao pé da letra” como muitos da ex-Instituição Teosófica de Henrique José de Souza acreditavam, creio, piamente: o Advento do Cristo de Aquarius sobre a Terra, visível e tangivelmente.

Isso mesmo declarei de viva voz e por escrito em cartas pessoais a diversos discípulos da Obra do Eterno contemporâneos do Professor Henrique José de Souza. Lembro ter baptizado uma carta minha remetida para São Paulo (SP) destinada a António Carlos Boin, datada de 28.09.2002, com assunto referente à data de 28 de Setembro de 2005, como o DIA DA GRANDE DECEPÇÃO!

Assim foi. Aliás, nem poderia deixar de ser, pois a concepção milenarista de Advento de há muito estava sendo entendida “ao pé da letra”, à boa maneira de uma qualquer religião carismática, dessas muitas que enchem a “praça pública” brasileira hoje em dia, como também já acontece em Portugal.

O Professor Henrique José de Souza destinou a data supracitada como marco inicial da ERA AVATÁRICA DE MAITREYA, englobando os 10.000 anos deste 8.º Ramo Racial destinado a semente ou projecção de uma Nova Raça, nascida de todas as experiências e valores do Passado. De maneira que “Cristo advirá sobre a Terra” quando o Homem O descobrir ou despertar primeiro em si, no mínimo três quartos da Humanidade, acabando por afectar o um quarto que sobeja. Então, com todas as condições físicas e psicomentais criadas, certamente Ele advirá sobre a Terra.

Em que data, dia, hora e minuto? Todas as que a vã fantasia humana quiser, mas, certamente, naquela que SÓ ELE SABE.

Foi isso mesmo que eu disse aos directores de certa sociedade espiritualista brasileira, quando me exigiram «retractação pública» por não reconhecer um dos seus dirigentes como o veículo privilegiado de Maitreya, ou seja, o seu Avatara,  o que também não aconteceu. Nessa minha carta remetida para São Lourenço (MG), em 5.07.2005, tive oportunidade de dizer:

«Se então ou pouco depois (até ao final deste ciclo solar de 35 anos) o CRISTO UNIVERSAL virá ou não virá, bem, só Ele o sabe e de que maneira o fará, certamente não para um homem ou uma organização mas para toda a Humanidade, já que Ele é o Supremo Instrutor do Mundo, de Homens e de Anjos – o Excelso e Divino Bodhisattwa CHENRAZI AKTALAYA MAITREYA.

«Consequentemente, é uma perfeita insanidade pretender a Expressão Viva do ETERNO que seja e faça o que nós pretendemos e fazemos. Mas estamos falando de Deus, do Cristo Universal, e não de um qualquer humano, infalivelmente – ou não fosse humano… – com as suas limitações, doenças, impropriedades, etc., o que é perfeitamente legítimo a qualquer e vulgar criatura humana. Por isso, quando perguntavam ao Prof. H.J.S. “como iria agir Maitreya na `sua´ Sociedade?”, ele respondia invariavelmente o mesmo: “Mas Maitreya irá querer saber da Sociedade para alguma coisa?…” Sim, porque Ele vem – quando muito bem decidir e condições humanas hajam para tanto – para toda a Humanidade, e não para uma exclusiva parcela mínima da mesma.

«Como todo o Goro da Ordem do Santo Graal é “Sacerdote de Melki-Tsedek”, por prescrição e decreto ao Presente e ao Futuro do próprio AKBEL em J.H.S. quando reinava entre os homens (1883-1963), devo falar-vos (agora não como historiador nem escritor, mas como MAKARA assim reconhecido pelos coevos do próprio J.H.S., o que lhes provei e vos provarei já em seguida) dos Mistérios da Cristandade que se prendem por inteiro ao escrínio lapidar da Serra Sagrada de Sintra, alter-ego de MARIZ NOSTRUM, e também vos dizer do tremendo pecado, karma voraz contraído que é, falar e tratar do CRISTO DIVINO como se falasse e tratasse dum qualquer homem oportunista do Sagrado e Divino para usufruir, à custa do crencismo e ignorância alheios, constantes e amplas regalias materiais!… Por falar em JEFER-SUS (Jeffersus, como herança nominal do Divino avatarizando o humano Jeoshua Ben Pandira há dois mil e alguns anos atrás), CRISTO ou MAITREYA são uma e mesma Entidade. É, como disse atrás, o Divino BODHISATTWA como Supremo Instrutor Mundial de Homens e de Anjos. É o Avatara – Messias, Manifestação do Espírito de Verdade – da Segunda Hipóstase AMOR-SABEDORIA do Logos Solar – o Supremo Arquitecto do Universo – que se manifesta pela mesma Hipóstase do Logos Planetário, o Segundo Trono, em que está o Sexto Luzeiro AKBEL com MAITREYA representando-O do Mundo Intermediário ou Celeste ao Terreno ou Humano.

«De modo que, para melhor compreensão didáctica, comporei o esquema seguinte:

«LOGOS SOLAR > LOGOS PLANETÁRIO > AKBEL > MAITREYA > GRANDE LOJA BRANCA > HUMANIDADE… e esta de Volta ao Divino.

«De maneira que MAITREYA exprimindo ao Mundo Divino ou de BRAHMA, o PAI, se «bicéfala» em dois Aspectos a partir do Mundo Intermediário, aqui como BUDA CELESTE exprimindo a VISHNU, o FILHO, projectando-se no Mundo Humano ou Inferior como BUDA TERRENO, Avatara da Terceira “Pessoa”, ou seja, SHIVA, o ESPÍRITO SANTO… Vale por o Celeste FOHAT «cavalgando» o Terrestre KUNDALINI, de Consciência Interplanetária e Transcontinental, logo, UNIVERSAL, por ser a antropomorfização da própria SHAMBALLAH – ou SALÉM, WALHALLAH, “Vale de Allah ou Deus”, etc., sendo o “Laboratório do Espírito Santo”, o Núcleo ou Sol Interno do Globo – na Face da Terra, nesta exprimindo ao SEGUNDO TRONO como TERCEIRO TRONO que é!

«De maneira que sendo Três Aspectos no Mundo Mayávico ou das Formas, em verdade é UM SÓ que a Si mesmo se projecta em três dimensões de Ser – Divina, Celeste, Humana. Donde MAITREYA significar, como se sabe, “SENHOR DAS TRÊS TRAMAS, MAYAS, MUNDOS”… porque a sua Essência está acima delas, absorvida no ESPAÇO SEM LIMITES do próprio ETERNO, antes, da SUBSTÂNCIA UNIVERSAL (SVABHÂVAT).»

Repito o que já disse e escrevi reiteradamente desde há dois decénios e alguns anos: a Consciência do CRISTO UNIVERSAL é isso mesmo – UNIVERSAL, “Transcontinental” por abarcar a Terra inteira. Quando Ele advir sobre a Terra não precisará de ninguém para O anunciar nessa Hora: um e todos os reconhecerão unanimemente pela vibração de AMOR-SABEDORIA de seu Ser. Antes, chuva de estrelas – “lágrimas de São Lourenço” – sobre o Pólo Norte e lavas vulcânicas desde o Pólo Sul, além de outros eventos propiciados pela Grande Loja Branca, indo desfechar num arco-íris que rodeará a Terra, anunciarão o Seu advento próximo. Quando? Quando o Homem se dispuser à transformação verdadeira de si mesmo e alguns insensatos deixarem de brincar com coisas sérias, então, sim, O reconhecerá… porque JÁ VEIO… e ninguém O reconheceu! Quem era ou é? AKBEL em forma humana.

Como campeia a crença e rareia a Fé, como a maledicência e a intriga pretendem-se maiores que a cogitação e a fraternidade, logo se «apontando canhões à retaguarda» invés de «à vanguarda» para bem se poder defender a Instituição e a Obra nas pessoas de todos os Irmãos e Irmãs das mesmas, assim sempre felizes com elas pelo trato recebendo delas, pelo contrário, escasseia o entendimento justo e a concórdia amorável que só uma vida teosófica, genuinamente eubiótica pode dar, de maneira que, inexoravelmente, aconteceu o DIA DA GRANDE DECEPÇÃO geral ante a não aparição de qualquer Divindade exclusiva a alguns e conforme o “pé da letra” dos mesmos alguns…

Sobrou o desânimo e a descrença, a desilusão (quase…) geral. Deu-se a debandada (quase…) geral, com o afastamento ou desquite de uma organização que se revelava espiritualmente falida mas, anacronicamente, desses desquitados alguns, demasiados, arrastando um KARMA PATOLÓGICO ou dependência psicomental em relação à mesma, o que em si é um karma ou débito insatisfeito.

Este mal consumado já vinha do tempo do Professor Henrique José de Souza, quando ainda era vivo, pois que inúmeros já então o questionavam severamente, como pessoa e como Mestre, inventando calúnias (que ainda hoje correm na “praça pública” brasileira, as quais tenho combatido esclarecendo como e porque surgiram…) ao mesmo tempo que desprezavam os seus ensinamentos, quando não os profanavam comercializando-os, tudo isso com a devida e honrosa excepção de uns raros Eleitos que mantinham viva em sua consciência que O DISCÍPULO SÓ PODERÁ SER ADEPTO PELOS SEUS PRÓPRIOS ESFORÇOS, e que A CONSCIÊNCIA DO MESTRE ESPIRITUAL ESTÁ NATURALMENTE ACIMA DA VULGAR E PROFANA repleta da preconceitos e inibições. Razão para o mesmo Henrique José de Souza afirmar aos presentes na antiga Sociedade Teosófica Brasileira: «Muitos dos que aqui estão, daqui não são… muitos dos que aqui não estão, daqui são!» Feliz e risonho, chamava “abençoados Mestres” aos seus discípulos quando estes cumpriam com a Lei; triste e sombrio, chamava-lhes “maus aprendizes de discípulos” e que ele é que era o Mestre e Fundador da Obra, logo, só ele sabia com justeza e perfeição, quando eles não cumpriam com a mesma Lei Divina que a tudo e a todos rege.

Isso terá valido ao Professor a fama de «pessoa com mau feitio», esquecendo ou ignorando aqueles que disso o apelidaram estarem tratando com o Iniciador ou Mestre Supremo e não com os seus pares iguais entre si, vulgares como qualquer homem comum. Para que em sua natureza hipersensível não repercutisse o karma alheio carregado por qualquer e vulgar pessoa que dele se acercasse, e para que ouvidos despreparados, logo propensos à confusão e à dúvida, não ouvissem as suas revelações verdadeiramente supra-humanas, assim poupando-se a mais sofrimentos físicos e morais, o Professor Henrique passou a receber em sua casa só os membros da Série Interna, antiga Série D ou Astaroth, portanto, os mais adiantados no conhecimento teosófico promanado da sua boca perfumada.

Mesmo com todos sabendo dessa directiva do Professor só receber os membros da última Série, havia quem ignorasse essa decisão e o procurasse. Foi assim que certa senhora, pertencente ao primeiro Grau ou Série Peregrino, muito devota, beata e teimosa, fez uma longa viagem até à casa de Henrique José de Souza em busca da solução para os seus problemas pessoais, de cariz matrimonial e financeiro, nada espirituais senão a curiosidade que a movia em conhecer ao vivo o “Grande Mestre Aghartino”. Pois bem, chegada aí, depois de tão longa e cansativa viagem, bateu na porta insistente. Finalmente abriu-se o postigo, surgindo o busto do Professor. – “Que deseja?”, perguntou ele. “Falar com o Sr. Prof. Henrique José de Souza.”, respondeu ela. Réplica seca: – “Não mora aqui.”, e fechou-lhe o postigo na cara.

Outras e muitas vezes, em sua residência na Rua João Moura, em São Paulo, tendo ido para aí da anterior na Avenida Pedro I, na mesma cidade, o Professor H.J.S. recebia os discípulos que o procuravam de uma maneira muito peculiar, para não dizer desagradável. Ficava sentado na poltrona, com semblante mal-humorado olhando fixamente para a parede, como que fazendo «birrinha», sem lhes conceder um simples olhar, uma simples palavra. Isto, naturalmente chocava os discípulos presentes, motivo para o próprio Paulo Machado Albernaz desabafar-me: – “O Professor era de trato difícil”. Ao que lhe respondi: – “Se ele agia assim, mas não sempre porque gostava muito de receber visitas dos discípulos e queixava-se quando não as recebia, era porque esses discípulos o procuravam com «mais barriga do que cabeça», isto é, para que lhes desse mais quando ainda não haviam assimilado o muito que já tinham recebido, além de se terem portado mal, por palavras e actos, para com o Mestre, para com a Obra, para com os seus Irmãos da mesma Obra, o que ele via nas suas auras, sem que pudessem mentir. Então, mostrando o seu profundo desagrado, castigava-os dessa maneira”.

Havia, pois, uma selecção prévia dos membros que iriam destinar-se a ocupar cargos cumeeiros na direcção da Sociedade Teosófica Brasileira e de todos aqueles a quem estavam destinados certos ensinamentos e práticas de cariz estritamente reservados. A aceitação indistinta dos membros nesses postos de chefia, não existia, consequentemente, as pessoas não eram aceites indistintamente só por ocuparem lugares sociais distintos e usufruírem de posses financeiras como privilegiados num meio social onde ainda campeiam as maiores desigualdades e injustiças sociais, no qual a democracia não raro se mostra mais virgem e débil que uma criança, e a corrupção tende a apresentar-se como o poder dominante. Quão diferente é esse Brasil sofredor às mãos de alguns xenófobos religiosos e políticos tiranos do seu próprio povo, o que se escoou em várias ditaduras militares de que se ressente com gravidade socioeconómica até hoje, daquele outro Brasil universalista desejado a eventos da maior transcendência por Henrique José de Souza…

Após a supracitada data de Setembro de 2005 e a desilusão então havida, permaneceram nessa organização os de faixa etária adiantada que, sem ter para onde ir por aí ficaram, conformados ou hibernando na espera da salvação de uma Divindade vinda de fora… a quem confiam os seus destinos. Resta adiantar que nem todos conservam-se nessa disposição psicológica, mas tão-só a maioria!… Outros, mais jovens ingressados na mesma, já com novos dotes e interesses próprios dos avanços sociais e tecnológicos do ciclo vigente que é o da sua nova geração, adentram as suas fileiras internas mas sem se desligarem dos seus passados psicossomáticos onde o psiquismo campeia a par de “mestres inventados”, logo questionando a mais-valia do Professor por comparação com as suas próprias referências das quais não se desprendem e tomam por mais certas que as do próprio Fundador, pelo que não se integram realmente no Espírito da própria Obra e assim não tomam a mínima consciência da responsabilidade dos seus actos para com essa mesma Obra. Tudo o que lhes caia nas mãos, por mais sigiloso e importante que seja, e por não terem a noção de responsabilidade em que ninguém os educou e tampouco lhes inculcou, inevitavelmente acabará sendo conspurcado da maneira mais insana na qual, por norma, nunca se prescinde do exibicionismo e espectáculo (falo de insensatos inconscientes e não de traidores conscientes que de há muito já vinham preparando o seu “bote”, que esses os há no Brasil mas também em Portugal, sobejamente conhecidos porque denunciados pela Instituição).  Para todos os efeitos, são esses TODOS JIVAS, logo, pura “Vida-Energia” e não “Vida-Consciência”, pelo que estão sob a égide da LUA influindo grave e sensivelmente – no Sistema Geográfico Sul-Mineiro – em ITANHANDÚ.

JIVAS também são esses que se tomam por JIVATMÃS ou Seres Solares mas não passam de criaturas lunares, mais que isso: lunáticos, indo fundar as suas seitas e criar negócios com o que aprenderam do Professor Henrique José de Souza. Conto-os às centenas… tendo aumentado o seu número desde 2005. Quando os contacto nem me respondem… com medo de serem denunciados quanto à Fonte de que usufruem mas não referem, para que o negócio de almas e carteiras se mantenha.

Outros, ainda, numa organização já sem JINAS mas repleta só de JIVAS, dispõem-se nos Templos da Obra do Eterno como se estivessem na igreja católica, protestante ou metodista, ou então abandonam a Obra e retratam-se fielmente no séquito de alguma “igreja universal” ou “maná” (e que maná para os seus dirigentes…), quando não retrocedem ao espiritismo encapotado na figura de algum falso profeta ou messias manco.

Perante o desalento de todo esse quadro constrangedor actual, coloca-se a questão: – O Professor Henrique José de Souza, com toda a sua sabedoria e clarividência, por que não previu os acontecimentos que se iriam dar nessa sua Instituição?

Ele previu, e deixou escrito, mesmo não tendo fundado nenhuma Sociedade Brasileira de Eubiose (1969), e sim a Sociedade Teosófica Brasileira (1928). Há várias cartas pessoais e gravações suas que falam desse esgotamento espiritual e o consequente fim da Instituição até ao ano 2000, esta a data escrita na sua Carta-Revelação de 3.09.1951, com o título Finis…, inserta no Livro das Falas, adiantando nessa outra Carta-Revelação de 16.11.1952, ainda em referência ao destino da mesma Sociedade: «Não haverá, propriamente, nenhuma destruição, embora que… a haja, em outro sentido, que não pode agora ser revelado». DESTRUIÇÃO PSICOLÓGICA, direi eu hoje, isto é, DESALENTO OU DESÂNIMO D´ALMA, assim sem vida, sem ânimo por mil e uma razões todas devendo-se, em última análise, à ausência efectiva do sentido e consciência real do que em verdade seja e pretenda esta OBRA DO ETERNO NA FACE DA TERRA.

Para que a INTEGRAÇÃO do discípulo fosse verdadeiramente EFECTIVA, REAL, ao mesmo tempo que não se corria o risco dele vir a conspurcar ou trair os Mistérios que lhe fossem confiados, contrariando assim o actual princípio da indiscriminação em que qualquer um, mesmo que despossuído de categoria espiritual e humana para cargos de nomeada, assume funções directivas, numa clara demonstração de hegemonia decadente anti-iniciática e anti-tradicional sob o pretexto de “democracia e humanitarismo” (contrariando o mais básico dos sentidos de hierarquia e de espiritualidade, que são a base do bom funcionamento de todo e qualquer Colégio Iniciático), dizia, para minorizar a eventualidade futura do discípulo trair, e para aumentar a possibilidade doravante do mesmo discípulo conseguir a Integração efectiva à sua Mónada Divina, o que é INICIAÇÃO REAL por se tratar da efectiva TRANSFORMAÇÃO DA VIDA-ENERGIA EM VIDA-CONSCIÊNCIA, realizaram-se até pouco depois da morte do Professor Henrique José de Souza INICIAÇÕES SIMBÓLICAS com conteúdo espiritual, REAL, acompanhadas dos respectivos Juramentos Solenes, que eram 4 mais 1 de acordo com a passagem gradual dos 4 mais 1 Graus Iniciáticos. De maneira que o discípulo estava permanentemente comprometido com a Hierarquia Espiritual do Colégio que vigiava de perto a sua evolução efectiva, logo, estava constantemente comprometido com a Divindade nele, consequentemente, com a sua verdadeira evolução.

Muitas vezes a Coluna J ou da “Sabedoria” de JHS, o engenheiro agrónomo António Castaño Ferreira, costumava «caprichar» no momento de reflexão do recipiendário quando se apagavam as luzes do Templo, fazendo jus ao seu espírito irascível, principalmente quando sabia que aquele que buscava a Iniciação e os seus Mistérios era motivado pelas piores razões. Então, na treva do momento, fazia o seu teatro, ouvindo-se a sua voz soturna com macabras palavras: «Você vem para aqui mas não sabe em que se mete. O último que esteve onde agora você está, levámos uma semana a devorá-lo… Este Colégio é diabólico, anda de artes com o Diabo, o que você quer para a sua evolução tão distinta ele não tem para lhe dar, senão estas trevas que escondem o seu deus que daqui a pouco tomará conta do seu corpo e da sua alma. Se eu fosse você, fugia quanto antes…» A verdade é que quando se tornava a acender as luzes, o desgraçado havia mesmo fugido. Isto repetiu-se muitas vezes, e só parou quando o Professor Henrique soube das pilhérias pregadas pelo Ferreira, proibindo-o severamente de repetir as façanhas chamando-lhe “Tentador sem escrúpulos”. Pudera, o António Ferreira era Coluna de ARABEL, o Quinto Senhor, emprestada a AKBEL, o Sexto Senhor, tal como também eram o Tancredo de Alcântara Gomes, a Coluna B ou da “Devoção”, e Hercília Gonçalves de Souza, a primeira esposa do Professor, nascida em 29 de Agosto de 1886 e falecida em 18 de Julho de 1931.

Tancredo de Alcântara Gomes, Henrique José de Souza, António Castaño Ferreira

Com esses episódios picarescos do Ferreira a S.T.B. ganhou fama de «seita demoníaca», apodo espalhado de bom grado pelos sectores protestantes e católicos, mas também se livrou antecipadamente de pessoas com todas as potencialidades de perjuras e traidoras, como depois muitas delas se revelaram gerando intrigas e perseguições ao Professor Henrique. Nomes das mesmas? Não os dou, tanto mais que o Venerável Mestre a todas perdoou e muitas voltaram à Família Teosófica, donde não mais saíram.

Apesar das Iniciações dos 4 Graus MANU – YAMA – KARUNA – ASTAROTH ainda hoje serem executadas nessa hodierna Instituição brasileira, contudo perdeu-se o senso da selecção ou discriminação natural daqueles que realmente merecem ser iniciados, assim mesmo, em meio a um formalismo ritualístico tanto menos apreendido como incompreendido, perdura pouco mais que um compromisso de honra, principalmente na admissão à Série Interna. Isso acaba redundando em deixar aceder ao escrínio da Obra e seus Tesouros qualquer um(a), mesmo que não possua cultura nem carácter suficientes para usufruir tamanha dignidade, logo, tampouco possua consciência dos valores reais a que acaba de ter acesso. Agindo assim, será como retirar uma criança do jardim de infância para ser reitora de universidade!… No entanto, devo informar que essas mesmas Iniciações Tributárias ou de Maçonaria Aghartina desde a primeira hora (1978) nunca deixaram de vigorar no seio mais secreto da TEURGIA Lusitana, com senso de selecção ou apartamento dos que merecem ou estão preparados, daqueles que não merecem por efectivo despreparo, tendo isto dado os melhores resultados humanos e, sobretudo, espirituais. A única excepção infeliz ao caso, é a daqueles que já trazem consigo as sementes da traição, mas a LEI impõe que se trate todos de igual e fraterna maneira, sem que hajam “filhos e enteados”. Abrangendo todos os Reinos da Natureza, como é facilmente observável, trata-se do exercício da Lei de Selecção Natural como método e pedagogia de Iniciação, neste caso, onde o mais forte ou capacitado reina sobre o mais fraco ou incapacitado espiritualmente.

Todos os Juramentos que dizem respeito à Hierarquia de Dignitários – da ORDEM DO SANTO GRAAL – assim como extensivamente a toda Hierarquia Oculta ou Grande Loja Branca, podem ser divididos em dois grupos:

1. O Juramento de Iniciação, no qual o Iniciado obriga-se, sob o mais solene juramento, a jamais revelar, sob pena de expulsão sumária da Instituição, da Ordem e da Obra, qualquer dos segredos que lhe forem confiados, e a nunca revelar, sem autorização expressa dos quadros superiores dos Dignitários, alguma parcela dos conhecimentos que forem entregues de boa-fé à sua guarda.

2. O Juramento de Cargo, prestado quando algum membro da Instituição e da Ordem assume um cargo específico na Obra. Este juramento de honra relaciona-se com as suas funções e interrelações com a Instituição e a Ordem.

Quanto aos objectivos dos 1+4+1 Graus de Iniciação e Ensino, conforme a Carta-Revelação de J.H.S. de 7.08.1953, Esquema do novo método de ensino na S.T.B. para se chegar a ser um consciente Membro da “MISSÃO Y”, são os seguintes:

PEREGRINO – O neófito saído da Humanidade comum fazendo, pelos seus próprios esforços, a sua própria selecção de aproveitamento.

MANU – A Vida pela Geração e as Leis do Ciclo que são dadas ao respectivo Iniciado para que ele se trabalhe no meio material. Viver é fácil; saber viver é difícil.

YAMA – É a etapa mais difícil da Iniciação, pois objectiva a auto-transformação efectiva do Iniciado, a Morte profana de vez para sempre. A pessoa terá de deixar de ser o que é, para tornar-se no que deverá ser, conforme os padrões da Lei.

KARUNA – É a etapa do Julgamento do trabalho humano e espiritual já realizado numa vida. É justo, mas nem bem, nem mal, tão-só o que o Iniciado realmente merece.

ASTAROTH – Colecta o resultado da evolução do Iniciado conseguida e aproveitável pela Lei. Os frutos (experiências espirituais) serão aproveitados, as palhas (vivências materiais) serão queimadas.

INTEGRAÇÃO – Compete-lhe a função de Arauto ou Yokanan ao serviço legítimo da Instituição, disseminando, conforme as suas capacidades ou aptidões, a Obra do Eterno na Face da Terra.

Para se alcançar a meta postulada a cada um dos Graus de maneira que realmente confiram a Iniciação respectiva, que é da conquista de maior Consciência, existem as respectivas Yogas de Realização dos mesmos, como sejam:

PEREGRINO – ALINHAMENTO VITAL e GLOBO AZUL.

Visa alinhar as energias dos veículos da personalidade material (física, vital, emocional e mental) do postulante à Iniciação à sua Individualidade Espiritual, sintetizada no Mental Superior. De maneira que o Alinhamento Vital tem a ver, em princípio, com a preparação espiritual do corpo físico. Enquanto isso, a Yoga do “Globo Azul” pretende uni-lo à Egrégora da nossa Obra, que assim passará a defendê-lo e a orientar a sua Alma no Caminho da Verdadeira Iniciação.

MANU – YOGA DOS CINCO ELEMENTOS (TATVAS).

Esta Yoga e a sua “Respiração Andrógina” têm finalidade idêntica à do Alinhamento Vital, mas opera mais sobre a natureza física-etérica do praticante. Visa equilibrar as 4 energias dos veículos mais densos da personalidade e trabalhando já uma 5.ª energia, o Akasha ou Éter. De maneira que cria nesta 4.ª Cadeia Terrestre as condições necessárias ao encaminhamento para a viagem projectada à futura 5.ª Cadeia de Vénus. 4+1 = 5. Os Tatvas (“vibrações subtis da Natureza”) são dispostos nos lugares certos do corpo físico para assim afectarem positivamente o corpo vital. Este trabalho procura equilibrar o veículo físico do quaternário humano utilizado nesta 4.ª Cadeia. Com tal equilíbrio estabelece-se um aproveitamento maior das experiências cíclicas evolucionais do Ciclo presente. Com isto, a Yoga está modelando o corpo vital.

YAMA – YOGA DO CHAKRA CARDÍACO.

Em virtude deste chakra conter o registo de toda a programação evolucional havida na trajectória monádica através das reencarnações, ele é o mais difícil de ser trabalhado. O chakra cardíaco assemelha-se, pois, a uma encruzilhada no Caminho Monádico na face da Terra: traz o que foi conseguido até agora e o que falta conseguir, a fim de adaptar a Mónada Humana ao contexto universal requerido pelo Sistema Evolucional em andamento. Daí o detalhamento do trabalho mentalizando e pronunciando o bijam (“semente”) de cada “pétala” ou “raio” e entendendo-lhe o significado. Visa com isso iluminar o Vibhuti (“pêndulo cardíaco”) integrando-se, assim, ao Mundo Celeste, alcançando o Adeptado, transitando da consciência da Humanidade para a da Divindade. Com este fim, a Yoga do Chakra Cardíaco molda o veículo emocional.

KARUNA – YOGA DOS OLHOS.

Objectivando moldar o veículo mental concreto, esta Yoga também visa completar a formação dos veículos do quaternário humano, dando-lhe a unidade, a fim de que ele possa iniciar um novo trabalho evolucional, qual seja integrar-se no trabalho da próxima Cadeia ou 5.º Sistema Evolucional, ou ainda, em outras palavras, integrar-se na Obra do Eterno na Face da Terra. Aumentando a sensibilidade humana prepara o discípulo para a percepção dos sentidos superiores, afinizando-o com a Linguagem Universal. O número 10 é o Número Perfeito, como afirmou Pitágoras na Tetraktys, e daí os 10 Mandamentos e os dízimos tendo necessariamente que ser pagos pelo ser em evolução. A Humanidade paga os seus dízimos aos Assuras e Makaras. Os Assuras pagam-nos ao 5.º Planetário, enquanto os Makaras pagam-nos ao 6.º Planetário. Os dois Planetários, “Vasos Canópicos” dos Ishvaras ARABEL (FOGO) e AKBEL (LUZ), por sua vez os pagam a Melki-Tsedek, como 8.º Planetário ou Síntese vigente do processo evolutivo total. Dízimos significam o trabalho transformador pelo esforço próprio, o que não deixa de implicar sacrifícios (sacrum+facere, tornar sagrado), ou seja, de tornar sagrados os veículos materiais que abrigam a Mónada Imperecível, para que eles possam expressar com nitidez o Espírito como canais desimpedidos por onde flui animadamente a Ideação Divina. Consequentemente, tais instrumentos humanos ou canais deverão ter “alta-fidelidade” em seus valores significativos. Daí Fides ou Fé, nada tendo a ver com crer, acreditar ou crença (quem hoje crê muito, acaso amanhã descrerá ainda mais…), como geralmente os religiosos confundem e assim não corrigirem a confusão semântica, infelizmente consignada nos próprios dicionários.

ASTAROTH – YOGA UNIVERSAL.

Começando pela Ideação esquematizada no 2.º Trono e nele expressa pelas Potestades dos 4+1 Maharajas que, na linguagem do praticante, é a locução “Espaço Sem Limites”, continua na escala septenária da descida da Luz ao Trono de Deus, perfazendo-se no Universo da Matéria manifestada em sua maior densidade alcançada, que é trabalho das Potestades Kumáricas, e que na linguagem do praticante é a locução “Espaço Com Limites”. Daí, então, retoma a mentalização dos chakras em sentido inverso, até diluir-se no “Espaço Sem Limites”. Esta Yoga cria os veículos para o 5.º Sistema Evolucional, embora no Akasha eles já estejam formados. Por isso a mentalização do azul akáshico só se faz no chakra laríngeo, que é o 2.º Trono ou Vau como Verbo do corpo humano, além, evidentemente, da Egrégora da Obra ou “Globo Azul”. Os sons mântricos dos 3 bijans pronunciados para cada chakra, na descida e subida da escala septenária, indicam a tessitura que se está fazendo na construção dos veículos para o 5.º Sistema. Com isto arrasta o Mental Superior ao quaternário humano.

INTEGRAÇÃO – YOGA AKBEL.

De prática individual destina-se a construir formas veiculares para o 6.º Sistema Evolucional ou Cadeia, cujo Embrião já foi lançado por Akbel. O encontro de Fohat vindo de cima, do 2.º Trono, como Ideação esquematizada, com Kundalini vinda de baixo, de Shamballah, e trazendo todo o aproveitamento evolucional da face da Terra já metabolizado nos Mundos Internos, este encontro, repito, faz vibrar os 6.º e 7.º Tatvas – Subatómico e Atómico – esse último de cor púrpura, e o anterior de cor amarela. Esta Yoga dada por Akbel aos Munindras em 28.06.1960, é o processo iniciático de trazer o Espírito e a Intuição ao quaternário humano.

INTEGRAÇÃO – ODISSONAI.

De prática colectiva é a Yoga síntese de todas as outras, ou, ainda, a Yoga resultante de todo o trabalho iniciático desenvolvido, visando os Sistemas Evolucionais do Porvir, como o Futuro imediato deste 4.º Sistema de Evolução Universal em sua 4.ª Cadeia, 4.ª Ronda do 4.º Globo na 5.ª Raça-Mãe a caminho da finalização da 5.ª Sub-Raça, com os trabalhos já firmados para a eclosão das 6.ª e 7.ª Sub-Raças que encerrarão o Ciclo Ário. Esta é exactamente a MISSÃO DOS SETE RAIOS DE LUZ em que trabalha galhardamente a nossa Obra. Assim, esta síntese engloba três coisas distintas que, simultaneamente, se resolvem num mesmo Ritual:

A) Encerra o 4.º Sistema Evolucional, transferindo os seus valores para o 5.º Sistema. Este é o significado do Ritual Mágico de Defesa dos Tributários que antecede o Odissonai.

B) Inicia o 5.º Sistema Evolucional, com os 7 Mantrinhas dos Pupilos em número de 14 ou 7 casais, começando a mentalização pelo centro Raiz (Chakra Muladhara) e o elemento Terra (Tatva Pritivi).

C) Fortalece o Embrião do 6.º Sistema com a pronúncia do bijam de cada elemento de cada uma das 7 linhas, sendo a 4.ª dupla composta de casais, totalizando 56 elementos. Estes, somados às duas tríades representando o Espaço Sem Limites e o Espaço Com Limites, mais o casal Ulisses-Ulissipa ou Henrique-Helena, totalizam 64 elementos. Como se vê, se a esse número somar-se os 14 Pupilos ter-se-á o Tarot completo, ou 78 lâminas. E, ainda, se acrescentar-se os 24 mais o casal do Ritual dos Tributários, mais os 7 componentes da mesa dirigente, ir-se-á ter o número completo da Hierarquia Assúrica representando os Makaras (Corte do 6.º Senhor): 111 elementos. Como se depreende pela meditação feita, tal perfeição métrica e numérica aliada à perfeita e exacta pronúncia dos bijans, mais a mentalização simultânea e perfeita dos chakras, gerará uma energia tal que comoverá e transformará a matéria densa, conformando-se ao arquétipo visado pelo 2.º Trono. Eis a consciência que se deve ter ao participar desta Yoga!

Mas consciência nenhuma teve um fogoso irresponsável de Itanhandú (MG) que, ainda homem novo, após aceder ao Grau ou Série Interna da supradita Sociedade brasileira – nossa congénere – e tido acesso ao material reservado da mesma, não a fez por menos: publicou as impublicáveis Cartas-Revelações do Professor Henrique José de Souza num seu sítio da internet, e vem publicando todo o espólio reservado da mesma Instituição, assim espoliando esta do seu património interno.

De imediato contactei os responsáveis na Sede da Entidade em São Lourenço (MG), alertando-os para o caso e que, sob o pretexto exclusivo da defesa do Nome e Obra doProfessor Henrique de Souza, eu iria accionar um processo jurídico contra essa pessoa, logo convindo estar presentes no tribunal os donos ou proprietários legítimos desse património furtado, ou sejam, os filhos e herdeiros do Professor Henrique José de Souza: Hélio Jefferson de Souza, Jefferson Henrique de Souza e Selene Jefferson de Souza. Informei que iria accionar um processo-crime de usurpo de direitos autorais cujo infractor incorre na lei penal nos termos do artigo 20.º e seguintes do Código do Processo Civil da Lei Jurídica do Brasil. Para isso iria entrar uma Carta Rogatória no tribunal da Comarca Cível de São Lourenço a partir da manhã de 2.ª feira de 4 de Março de 2008, a fim do despacho seguir para a Comarca Cível de Itanhandú e o Juiz de Direito dar satisfação ao caso a favor do lesado (a Sociedade), representado por um ou todos os três filhos legítimos de Henrique José de Souza, herdeiros e proprietários da coisa ofendida (o material furtado por esse senhor e que está registado em nome deles).

De maneira que alertei essa Sociedade, os seus dirigentes e lhes ofereci as bases jurídicas para avançarem. O processo ficou com eles… o meu Dever para com JHS e a sua Obra, foi cumprido. Resta que eles cumpram a sua parte, neste caso que já se universalizou através do moderno meio virtual chamado internet. Se ficarem como têm estado até hoje, mudos e quedos, certamente que abrirão caminho a acontecimentos ainda piores… a ponto de lhes rapinarem tudo.

Quanto a esse cidadão, cujo nome aqui não dou, foi director do Departamento dessa Sociedade em Itanhandú, cargo de que se serviu para furtar o material reservado de JHS, fotocopiando-o às escondidas e logo depois publicando-o, como sejam vários originais das Cartas-Revelações de Henrique José de Souza, assim como textos de apostilas internas da Instituição, nomeadamente as lâminas do Tarot Aghartino ou os Arcanos da Nova Era, tudo isso defendido pela lei dos Direitos de Autor, como qualquer um que tenha acesso às mesmas pode ler no verso das suas capas. Soube que já há algum tempo corria num outro Departamento da mesma Entidade, desta feita no Rio de Janeiro (RJ), um processo jurídico contra o mesmo cidadão, acusado de roubo. E quando pessoalmente o confrontei com tais acusações de mentiroso e ladrão… ele riu-se descaradamente. Soube depois que esse cidadão após receber uma quantia de cerca de 15.000 reais para obras de ampliação do Departamento de Itanhandú, mandou derrubar o edifício para em seu lugar construir um clube de qualquer coisa esotérica ou outra, o que levou à sua expulsão da dita Sociedade espiritualista e depois ter-se vingado desse modo, publicando tudo quando de reservado possuía da mesma.

Visitei o sítio virtual desse senhor, graças a Deus pouco conhecido frequentado praticamente só por impúberes psíquicos, a maioria parecendo-me jovens fogosos como é próprio da idade, completamente inconscientes, irresponsáveis e muitíssimo confusos, que nada sabem desta Obra Divina mas que tudo querem dela sem, contudo, com Ela se comprometerem, a ponto de um deles ter escrito um comentário tão extraordinário como este: «Henrique José de Souza traiu JHS que o abandonou» (!!!). Mas Henrique José de Souza é JHS, sigla cabalística ou avatárica do mesmo!!!

Tomando por inspiração o livro O Segredo, divulgado pela milionária norte-americana apresentadora de reality-shows, Oprah Winfrey, e que tão-só trata da já velha, agora querendo-se nova e inédita, teoria metodista e evangélica do pensamento positivo, da auto-ajuda e do auto-conhecimento (como é  que um doente psicossomático pode ter pensamentos positivos, auto-ajudar-se e auto-conhecer-se, é o que pergunto?… Como os médicos também adoecem, Jesus replicava com o axioma: “Médico, cura a ti mesmo”… se és capaz!), e que faz parte do imobiliário urbano do fetiche ingénuo dito reiki, o supracitado cidadão chega ao ponto de os comparar a… Eubiose!!! Depois passa para o elogio do romance plagiado por Dan Brown a outros (os semelhantes atraem-se…) e desfecha-se na projeciologia astral (se por esta pode ter acesso directo às coisas, então, porque necessita roubá-las?!).

Que mais posso dizer desse sítio ou covil de ladrões, prosseguindo até ao momento na sua faina rapace, senão repetir o que escreveu certa voz sobre o mesmo: «O que está sendo feito neste sítio, repousa somente na vontade de contestar ou, no caso de outros, simplesmente atacar e outros ainda, divertir-se. Tipo: Eu não sei o que quero, mas sei o que não quero. Assim, derrubemos e depois vejamos o que é possível fazer».

Ainda assim, para esclarecimento geral, falarei um pouco sobre o Tarot Aghartino e as Cartas-Revelações. Começo pelo Tarot.

Esses Arcanos da Era de Aquarius foram originalmente desenhados com pena de nanquim a preto e branco, e estão expostos num pequeno painel na “Sala dos Goros”, no primeiro andar do Templo de São Lourenço (MG). Quem os desenhou foi Maroucha Strauss, mulher do comandante Paulo Strauss, inspirada na descrição feita no Livro do Perfeito Equilíbrio (1954), do Professor Henrique José de Souza. Posteriormente, Hilda Martins pintou-os e Wagner Fraguás restaurou-os, imprimindo-os para figurarem exclusivamente nas apostilas n.os 07 e 08 da Série Astaroth da S.B.E. Mas o pintor original das 22 lâminas do Tarot Aghartino, a pedido directo do Prof. H.J.S. em 1962, foi o seu discípulo, que com ele conviveu durante 33 anos, Sr. Paulo Machado Albernaz. Esse Tarot pintado por este autor está exposto em 22 quadros de tamanho razoável no Salão do Templo do Departamento “Cruzeiro do Sul”, em São Paulo (SP). Os desenhos e as cores que se vêm na criação pictórica de Paulo Albernaz tiveram a intervenção em pessoa do próprio JHS. Consequentemente, as lâminas pintadas que essa Sociedade apresenta nas suas apostilas são já uma segunda versão um tanto afastada da original, de que apresento as lâmina seguintes correspondentes aos Arcanos de Portugal e do Brasil:

Foi o próprio Paulo Albernaz quem me confirmou, em carta endereçada de São Paulo com a data de 16.11.1999: «(…) as lâminas do Tarot do Novo Ciclo, pintadas por mim e que estão expostas na antecâmara do Templo do Departamento de São Paulo. Os quadros originais que pintei têm o formato de 75×50 centímetros e obedecem à mesma forma do pequeno quadro com as vinte e duas lâminas, que foram pintadas a bico de pena por uma das Irmãs da época (Maroucha Strauss), a mando de JHS. Ele teve uma visão mental desses Arcanos e colocou-os em algumas das suas muitas revelações escritas em 1954 e 1955. O pequeno quadro está no Salão Nobre do Templo de São Lourenço. Sem ter a menor ideia de que iria pintar tais Arcanos, recebi do próprio Mestre JHS, pessoalmente no ano de 1962, a orientação de como deveria proceder quando fosse executar a pintura, o que só ocorreu muitos anos mais tarde. Aqui está, em linhas gerais, a história desses Arcanos. Eles são as lâminas do Novo Ciclo em substituição às de Thot, que são as divulgadas por todo o mundo. O personagem Thot é o mesmo conhecido por Thot-Hermes e depois como Hermes, o Trimegisto. Na realidade ele teria sido egípcio primordialmente, passou-se para a tradição grega e depois para a romana».

Passo às Cartas-Revelações. Este triste episódio do furto das mesmas por esse infeliz personagem (episódio que agora se repete em Portugal com um outro cidadão, usando e abusando do que não lhe pertence sob nenhum pretexto), lembra-me aquele outro ocorrido cerca de 1960 com o Professor Henrique José de Souza, relativo a deixar que alguns membros destacados da S.T.B. levassem para seus lares Livros de Revelações para os estudar. Chamando-lhe a atenção para o caso do mau uso que lhes poderiam dar, alguns discípulos chegados tiveram dele a seguinte resposta: – Se fizerem bom uso das Revelações, será bom para eles! Se fizerem mau uso com as Revelações, que se cuidem com o Karma!…

Mas também nisso o Professor tomou as devidas e antecipadas precauções, o que me leva a contar um outro episódio muito pouco conhecido na Obra hoje em dia. Além de já ter queimado vários Livros de Revelações no quintal da Vila Helena, reduzindo-os a cinzas, e de ter lacrado externamente o Portal “Luz de Chaitânia” levando ao interior do Monte Verde (a Montanha Sagrada Moreb), o Professor desencadeou ainda mais, através dos Badagas do Mekatulam, nos fins de 1962: há por debaixo do altar do Templo de São Lourenço uma pequena cripta, onde eram guardadas as Revelações e Escritos originais de JHS. O acesso a essa cripta e a esses originais só era acessível a escassa minoria, onde se contava o Instrutor António Castaño Ferreira, o Mordomo do Templo, Sebastião Vieira Vidal e mais uns poucos, muito poucos. Pois bem, por essa data certo dia o Sebastião Vidal desceu à cripta e ficou terrificado ante o que viu: uma das paredes apresentava um enorme rombo deixando antever um largo buraco que se prolongava indefinidamente na escuridão da terra adentro (que depois tornou a fechar…), e os Escritos e Livros de Revelações originais (do Graal, da Pedra, Síntese, etc.) estavam completamente molhados, apodrecidos, irreconhecíveis mesmo, não deixando que se percebesse neles uma só palavra, uma só figura. Apavorado, Vidal correu para junto de JHS a contar a desgraça. Este ouviu atentamente, em silêncio, depois sorriu e levou o indicador aos lábios, exigindo silêncio!… Em verdade, ele havia ordenado aos Badagas que recolhessem os textos originais e deixassem no seu lugar papéis demolhados e podres, sem préstimo. Quero com isto dizer que, exceptuando o que na ocasião estava depositado na Vila Helena, residência do Professor na mesma São Lourenço (algumas Cartas-Revelações, o Livro-Sarcófago, os Álbuns Fotográficos de Família e pouco mais), não há um só original dos Livros de Revelações de JHS em posse da actual Instituição brasileira. Tão-só cópias de cópias, conservadas em mãos particulares de alguns membros da Série Interna e nos arquivos dos Departamentos da Sociedade, muitas das mesmas já não correspondendo aos originais. Ainda assim, aqui e ali, ficou registada a memória desses mesmos originais em raras e antigas fotografias.

Original do “Livro Síntese” do Professor Henrique José de Souza (JHS)

Está nisso a razão de aparecerem por aqui e ali Livros de Revelações transcritos à mão de cartas soltas, por falta dos originais, e também a razão de se desconhecer a maioria dos títulos que os vários conjuntos de cartas portavam. O que hoje essa Sociedade conserva deve às diligências pessoais de Hélio Jefferson de Souza junto dos Irmãos mais antigos da Obra que conservavam Cartas-Revelações enviadas a eles directamente pelo Professor ou por ordem directa dele, ou ainda que recolheram nos Departamentos onde exerciam funções. Mais uma razão jurídica a justificar quem é o legítimo proprietário desse património!…

Ora o que o tal senhor de Itanhandú apresenta no seu sítio virtual são cartas avulsas, a maioria soltas dos Livros com os seus títulos respectivos, como é o caso do Livro das Cadeias que ele não assinala, certamente por desconhecer os nomes ou títulos dados pelo próprio JHS aos diversos conjuntos de cartas seleccionados para perfazerem Livros de Revelações. Foi assim que eles nasceram e é assim que a maioria dos membros da actual Sociedade desconhece terem títulos. Na Biblioteca da Matriz em São Lourenço, donde esses textos são irradiados para todos os Departamentos, os mesmos estão ordenados por datas e não por títulos cuja memória já se perdeu, repito. Contêm-se conservados num armário de metal nessa sala, ao fundo à esquerda junto à janela ampla que dá para o pátio lateral ao Templo.

Esse tal senhor também erra a toda a linha quando diz que o Professor Henrique José de Souza «foi um escritor profícuo durante vinte anos». Não, ele foi um escritor profícuo durante mais de 50 anos, e o seu primeiro Livro de Revelações, chamado Livro das Correntes, recua a 1921-24. O último terminou-o em 1963… Porque ele escreveu tanto? Para dar instruções privadas contidas em textos igualmente privados a determinado Grupo seleccionado previamente por si, dividido em duas classes, Makaras e Assuras, e por isso a linguagem cifrada que usou, como medida de precaução ou defesa desses mesmos textos, mas que ele mesmo decifrava exclusivamente àqueles a quem se destinava, isto é, os desse Grupo reservado de Eleitos ou a Elite da Obra do Eterno na Face da Terra que o acompanhou ao longo dos decénios. Os componentes do mesmo, hoje, praticamente partiram todos, e só sobra o que sobeja…

Pois bem, essas instruções eram dadas, aplicadas, modificadas e ampliadas à medida que os anos passavam e tal Grupo progredia para uma Meta exclusiva – a integração nos seus Manasaputras em Shamballah, o que vale por Suprema e Final Redenção dos Bhante-Jauls. Actualmente comenta-se – quando se comenta… – as cartas sem a certeza de que seja exactamente esse o seu sentido, mas é natural que assim seja, pois as testemunhas vivas da origem e finalidade das mesmas hoje já faleceram…

O método que o Professor usava para escrever as suas Cartas privadas, era o seguinte: servia-se da sua máquina de escrever usando papel químico para que saíssem duas ou três cópias sob o original escrito. Depois, punha aqui e ali, nas margens das laudas já escritas, geralmente com o timbre do APTA para as autenticar, anotações feitas à mão, ou então ou as duas coisas: rasurava frases já dactilografadas e escrevia à mão ou novamente à máquina por cima delas, donde o resultado final da lauda escrita geralmente apresentar um aspecto muito confuso. Outras vezes, quando as forças lhe faltavam ou faltava-lhe tempo para escrever, ditava os textos em aparelho gravador que Irmãos seleccionados da Obra – os do dito Grupo de Príncipes ou Principais de JHS – dactilografavam a seguir. Foi assim que o falecido coronel Aldo da Luz, morador muito próximo da “Casa Misteriosa” do Mekatulam, no Bairro Carioca de São Lourenço (MG), dactilografou, após instruções prévias do Professor, o Livro de Revelações Diário Estranho (começado a 28/30 de Novembro de 1956). Havia também quem escrevesse à mão as instruções internas que ouvia de viva voz do Professor e depois as dactilografava, de maneira que muitas instruções orais sobreviveram até hoje graças à feliz iniciativa desses preclaros membros, como, por exemplo, Sebastião Vieira Vidal, que anotou e gravou todas as instruções do Professor já acamado na Clínica São Lucas, em São Paulo, nesse ano de 1963. Ou então todas as instruções privadas dadas por António Castaño Ferreira, ou pelo próprio Supremo Dirigente, que Paulo Albernaz e Isak Lustig, por exemplo, escreveram à medida que eles falavam, o que constitui um acervo raro que, graças aos Deuses, sobreviveu até à actualidade.

Escritório de Henrique José de Souza na Vila Helena (SL – MG)

O método utilizado pelo Professor para comunicar os ensinamentos reservados, geralmente era o seguinte: escrevia de manhã, por exemplo, uma carta, e à noite lia-a na Sede da Entidade, acompanhada da explicação do que expunha. Quando não podia estar presente, por quaisquer imprevistos, encarregava o irmão da sua esposa, D. Helena Jefferson de Souza Ferreira, ou seja, António Castaño Ferreira, de a ler e comentar segundo as palavras do próprio JHS, ainda que CAF tivesse liberdade absoluta para também usar os seus comentos pessoais… geralmente resultando numa revelação sobre a Revelação.

Na minha modesta opinião, considero que as Cartas-Revelações tais como se apresentam nos originais, muitíssimo riscadas e rasuradas pelo punho do próprio autor, naturalmente vão reflectir no leitorado comum, nada avisado sobre a origem e finalidade das mesmas, a consideração delas apresentarem pensamento fragmentado, sem continuidade e logo com forte sabor a ilógico e incoerente, o que levará a uma péssima apreciação psicológica do perfil do seu subscritor. Portanto, revelá-las “em bruto” publicamente acaba revelando-se um péssimo serviço à Humanidade, e ainda pior à própria pessoa de Henrique José de Souza, a quem o famoso e controverso cidadão – com comportamento psicológico algo semelhante a uma mistura arrevesada de comunista com protestante, demonstrativo de dupla personalidade por várias razões que aqui não vêm ao caso, mesmo assim dando ares de “mestre iluminado” e inclusive apresentando-se com uma jovem ao lado, numa fotografia, como se fosse um novo tomo dos “Gémeos Espirituais”, o que também se repete agora em Portugal e que assim é deja-vu – traiu, traindo o seu Juramento solene ante o Santo Graal.

De modo que a divulgação pública das Cartas-Revelações de JHS não me parece resultar em utilidade alguma para o Bem Público, pelo contrário, só irá semear mais confusões sobre o número descomunal das que já existem. Mesmo sabendo que a internet é um moderno meio de comunicação universal, ela não é usufruída por toda a Humanidade – a maioria não tem posses para os bens básicos de sobrevivência, quanto mais para esbanjar dinheiro em “bens de luxo” – mas ainda assim, quase de certeza, esses textos privados irão cair nas mãos dos espoliadores e ladrões das ideias alheias que se servirão dos mesmos para criar novos mitos, “novas revelações”, “novas escolas “intra e extra-planetárias” e coisas mais e más do género destinadas espoliar os alheios na carteira e na alma. Já agora, temos essas “igrejas universais de manás” usando como “slogans” comerciais o que ouviram de vozes da nossa Obra, nomeadamente esses de “Gruta Sagrada” e “Santuário das Riquezas”, o que tem sido uma riqueza para eles, os eternos falsos profetas ladrões descarados do alheio em nome da escritura sagrada a qual estropiam a seu bel-prazer, levando tudo para o domínio pessoal e a fartura financeira, portanto, preclaros seguidores não de Cristo mas de MAMMON!… Tem sido sempre assim, diz-me a experiência de quase quarenta anos ao serviço da Obra do Eterno, e quem irá pagar as culpas de mais um desaire físico psicomental será… Henrique José de Souza. Mas o verdadeiro culpado é esse ladrão que só parará quando for chamado à justiça legal, o que já devia ter acontecido. Sem nenhuma noção de democracia mas muita de demonocracia, completamente imprestável para o verdadeiro Progresso Humano, mostra-se ausente das noções de LIBERDADE (de princípios), de IGUALDADE (em princípio) e de FRATERNIDADE (com todos os princípios), mas muito presente em LIBERTINAGEM, SNOBISMO e PRESUNÇÃO. Sim, o que ele faz revela-se um serviço imprestável ao Eterno através da Humanidade, pois que usa de meios ilegais e implausíveis para atingir os mais que ridículos propósitos (onde já vi isto recentemente?…).

Isso lembra-me aqui uma conversa privada que tive há muitos anos com um teósofo português coevo do Professor Henrique José de Souza, o arquitecto Jorge Baptista, que a dado momento disse-me sobre os ensinamentos reservados do Mestre: «Ler as Cartas-Revelações sem preparação alguma só pode resultar na loucura certa!» Dei-lhe inteira razão.

É muito natural que as Cartas-Revelações se apresentem como estão, riscadas e rasuradas pelo Professor, pois, como já disse, elas privavam só entre alguns que, aos poucos, iam adquirindo o conhecimento completo que lhes estava reservado. Por exemplo, era costume acontecer, no seu método próprio de Iniciar, o Professor Henrique falar hoje de “assunto x”, e a seguir deixava-o; só passados dias, meses ou até anos voltava a retomá-lo… Porque agia assim? Para que os seus discípulos reflectissem ou meditassem no que receberam, e só depois, após tudo bem assimilado, voltar “à carga” retomando o assunto com novas e inéditas nuances do mesmo, o que constituía revelação.

Com a morte do Professor Henrique José de Souza, o REVELADOR, naturalmente terminou a feitura das suas Cartas-Revelações, e doravante o vasto espólio destas passou a ser usado e comentado por aqueles que sabiam do seu significado real por terem ouvido do próprio Mestre, como foi o caso de Roberto Lucíola, seu discípulo directo nos seus últimos dez anos de vida. Só depois, principalmente a partir de 1969, apareceu um escol de instrutores comentando as cartas por sua conta exclusiva, quase todos já fora do sentido original das mesmas. Hoje, por autismo ou desleixo, quiçá, poucos lêem as cartas e infinitamente menos sabem do seu significado real, assim tomando o Prof. HJS como um personagem distante envolto em brumas de quimera, isto, para eles, se acaso existiu de facto, logo, nunca o tendo conhecido tampouco sabem das suas pretensões reais.

Consequentemente, as Cartas-Revelações são acervo privado, cujo conhecimento contido nas mesmas só se destinava a alguns, os do dito Grupo de Makaras e Assuras… desaparecido. Foi assim que o Professor quis e assim foi feito durante toda a sua vida, por ordens expressas suas nesse sentido.

Não esquecendo jamais as restantes criaturas humanas, eis aí os milhares de artigos, conferências, solenidades públicas, etc., de exclusivo gabarito teosófico que, esses sim, destinavam-se a toda a Humanidade e a tornar conhecida a Sociedade Teosófica Brasileira em todo o Mundo, o que se conseguiu, pois que os(as) melhores da Raça Humana aglutinaram-se na S.T.B., desde Presidentes da República (Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek) a presidentes estatais, camarários e vereadores até cientistas, filósofos e religiosos de nomeada. Foi para levar a toda a Humanidade o melhor dos conhecimentos iniciáticos ou teosóficos que se fundaram as revistas “Dhâranâ”, “O Luzeiro”, “Tim-Tim Por Tim-Tim”, “Alquimia”, etc., retumbando em grande sucesso no Bem Público que fizeram cujo eco chega até à hora presente.

Nesta SINTRA ou CYNTHIA SEMPER FIDELLIS ontem, hoje e sempre, mais uma vez são os dilectos Filhos e Filhas do QUINTO POSTO REPRESENTATIVO, através da minha pobre pessoa, a tomar a iniciativa da defesa da OBRA DE JHS, criando defesas eficazes contra o avanço e predomínio das Forças do Mal. Já antes, em 2002, prevendo certos eventos funestos que parecem estar se dando nas brasílicas plagas, servi-me da Espada Tributária de PHALUS (nome de Makara falecido que o próprio JHS lhe dera), em plena São Lourenço de Minas Gerais do Sul, e cravando-a no chão santo, em nome do MÁRTIR mas também MARTE e MAITREYA, fiz o exorcismo das trevas evocando a maior protecção do MEKATULAM no escrínio da Serra da MANTIQUEIRA, e assim também todo o Bem do Eterno vibrando de SHAMBALLAH sobre a terra SANLOURENCEANA, espraiando-se a todo o Brasil e ao Mundo, flagrante que ficou registado em fotografia.

Divulgar-se publicamente o que o Professor HJS nunca quis fosse divulgado, só pode desfechar karmicamente em péssimo resultado no futuro imediato. Recordo aqui aquele estranho acontecimento ocorrido com o comandante Paulo Strauss, originado karmicamente por ele próprio por ter dito as coisas “pela metade” e não ter omitido em público o que ouvira em privado do Mestre JHS:

Nos idos 1955, Paulo Strauss realizou uma série de três palestras públicas no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, que tiveram êxito estrondoso. O que ele disse nessas palestras foi o que ouviu directamente da boca de JHS, este que não aprovou nem desaprovou tal iniciativa, antes ficou na expectativa mas não sem antes, muito diplomaticamente, ter aconselhado alguma contenção e prudência ao conferencista quanto ao que iria proferir. Paulo Strauss repetiu publicamente o que ouviu do Professor na intimidade, mas omitiu ou se esqueceu de dizer algumas coisas fundamentais, como por exemplo: o Rei do Mundo falaria pela rádio à Humanidade na condição de, até 1956, as nações beligerantes e imperialistas do planeta promoverem um DESARMAMENTO GERAL. Este não aconteceu e logo o Rei do Mundo não falou pela rádio. Ou essa de que até 1980 a República Teosófica estaria implantada na face da Terra, sim… se tivesse havido o DESARMAMENTO GERAL em 1956. Seja como for, as bases arquetipais de tal República, antes, SINARQUIA UNIVERSAL como CONCÓRDIA DOS POVOS, estão cimentadas no Mental Superior da Terra desde 1980. Como Strauss descurou estes importantes acréscimos, o Professor depois mostrou grande desagrado, o que era raro nele, certamente receando que a sua pessoa e a da S.T.B. caíssem no ridículo na praça pública, o que em parte aconteceu, fazendo perigar a Instituição e a Obra.

Pois sim, no dia seguinte à sua última palestra pública, Paulo Strauss ao acordar indo fazer a sua higiene matinal, aterrado deparou-se no espelho como tendo o rosto disforme dum monstro, uma mistura hedionda de lagarto e leproso. Cobrindo a cabeça com uma toalha, correu desesperado para o consultório do seu amigo, o psicanalista Edgar Soares dos Anjos, instalado na Rua México, na cidade do Rio de Janeiro, e quando este viu a forma monstruosa que Strauss tomara, apanhou o maior susto da sua vida. Para que sossegasse, deixou-o a sós por alguns momentos no seu gabinete, pondo uma música de fundo (o primeiro movimento da “Pastoral” de Beethoven) e o ambiente a meia-luz. Strauss deitou-se no divã e adormeceu. Quando acordou passados instantes, a cabeça de monstro havia desaparecido. A explicação do fenómeno é simples: tratou-se da materialização do karma de Strauss na forma dum monstro, afectando a cabeça, lugar real do pensamento que ela havia conspurcado, dando-o aos porcus ou pretas, isto é, aos profanos sem Ordem Maior do próprio Rei do Mundo. E essa só poderia ser dada por JHS que, afinal, em momento algum a dera. Cabeça de monstro igual a mental conspurcado!

Depois disso Paulo Strauss abjurou ao Mestre JHS, abandonou a Sociedade Teosófica Brasileira, quis esquecer tudo quanto havia aprendido junto a Ele e à Sociedade, e filiou-se numa agremiação maçónica do Rito Escocês Antigo e Aceite, onde por lá andou algum tempo… sempre insatisfeito. Seja como for e provando que “Deus escreve direito por linhas tortas”, mas não se aplicando ao caso presente de roubo e mentira do cidadão que aqui me traz, as conferências de Paulo Strauss no Teatro João Caetano revelaram-se de grande utilidade para o despertar das mentes comuns para as verdades insofismáveis da Teosofia, em suas novas páginas reveladas por JHS. Graças às mesmas muita gente filiou-se na S.T.B. e por lá andou largos anos, até mesmo depois da morte do Professor Henrique José de Souza.

Enfim, é como dizia Lavoisier: “Na Natureza nada se perde, tudo se transforma”! Pelo contrário, como diz o povo em relação aos ladrões “bem-intencionados”: “De boas intenções está o inferno cheio”!

Razão mais que suficiente para adaptar aqui aquelas outras palavras de JHS contidas na sua Carta-Revelação de 3.09.1951 (Livro das Falas):

«As “causalidades da Obra”, mesmo que algumas… um tanto desastrosas… Que os Deuses abençoem a todos quantos fazem parte da Obra! Deus só confia os seus Tesouros aos verdadeiros confiantes Nele… e em seus Mistérios. No mais, O HOMEM É O QUE PENSA! O QUE ELE PENSA, CRIA! Gerar, criar, formar… “Eis a Questão”!»

Na mesma sequência, como finis do presente estudo crítico, remata o Venerável Mestre na sua Carta-Revelação de 1958 inserta no Livro n.º 21 da Obra – Livro do Ciclo de Aquarius:

Todos ouviram: “Para se pertencer à nossa Obra é preciso ter honra e espiritualidade”. O AT NIAT NIATAT de há muito exigido, como linguagem aghartina, não significa apenas UM POR TODOS, TODOS POR UM ou O UM NO TODO E O TODO NO UM, mas também, o JUSTUS ET PERFECTUS. E tudo isso para não irmos mais adiante, no estado deplorável em que nos encontramos e perseguidos por sombras humanas, cobardes como o Passado que não volta. É a isso que se chama Fim de Ciclo, para começo de outro. De facto, nem todos os que estiveram em nossas fileiras possuíam capacidade intelectual e moral, no sentido coracional ou de Amor, para compreender as MINHAS REVELAÇÕES. Por isso, tornaram-se inimigos, dizendo, além do mais, que não encontraram a Realização, justamente por não saberem interpretar o verdadeiro significado de semelhante palavra. Para eles, realizar é obter poderes psíquicos (do passado evolucional da Mónada), ficar rico, possuir posição superior aos demais, embora que, para nós outros, posição inferiosíssima, porque não passa da de animais de uma Ronda inferior, que nem sequer acabou a sua Evolução junto à chamada Humana, naquela época que foi a Cadeia Lunar… Quem diz “nada ter realizado na Obra”, comete um crime de lesa-Divindade, ao mesmo tempo que se considerando, sem o saber, ignorante, faltoso e outras coisas mais.

Pelo que se vê, repito, os que descrêem em nossa Obra, porque não realizaram coisa alguma, antes de tudo deveriam estudar os seus novos mestres ou gurus, todos eles sem Missão alguma na Terra. São os falsos messias e profetas. Todos nos odeiam pelo facto de nos temerem, de terem inveja de nós. Eles sabem que “a Inteligência ou Espírito, está connosco, e com eles, o Psiquismo ou a Alma”. Todos, portanto, vivendo e obrigando os seus discípulos a recuar aos tempos remotos das consciências não mais em função na Terra. Todos esses estados de consciência estão armazenados por debaixo dessa Inteligência, que é a da Raça Ariana, ou de Manas-Taijasi para Budhi-Taijasi, dirigida por Budha-Mercúrio. Mas quem é esse Ser? Uma das maneiras de alegorizar a referida Raça. Todos os Avataras são esse Ser. E todos esses Avataras nasceram e nascerão ainda Daquele que é o seu Bija. Nesse caso, Melki-Tsedek, o nascido sem Pais, de tão má interpretação por todas as religiões, principalmente a judaica.

Os que saíram da Obra, e nesse rol os que ainda estão, por não terem achado a sua Realização, tal é o mesmo que querer encontrar Deus ou a Verdade fora e não dentro de si. Como aves de arribação, não passam de indivíduos sem inteligência, sem amor e sem coragem bastante para enfrentar os ditames da Lei. Querem vencer pelo lado do interesse pessoal, e não do geral ou colectivo. Que sofram os outros, que nada sejam na vida, mas sim apenas eles e tudo vai bem, pouco importando as suas palavras estudadas, em tom de misticismo, jesuítas que são ou traidores da sua consciência e de todos os seus irmãos em Humanidade.

Jesus já dizia: “Aquilo que Eu faço, vós podeis fazê-lo”. No Bhagavad-Gïta, Krishna ensina ao seu discípulo Arjuna: “Aqueles que adoram aos Pitris, vão aos Pitris (também pode ser subentendido como padre, como pastor das religiões correntes). Aqueles que adoram aos Bhutas (os espíritos ou elementais da Natureza, mas também, os kamarupas, as almas, etc.), vão aos Bhutas (com vistas aos espíritas, aos macumbeiros, aos da linha de umbanda, etc., etc.). Mas, os verdadeiros Adoradores são aqueles que vêm a Mim”. Sim, porque tendo adorado a Deus no seu EU INTERNO, chegaram a Deus ou ao seu Representante na Terra. Finalmente, uma Yoga única podem fazer os Makaras e Assuras – isolarem-se de todas as coisas do mundo (estado de Dhâranâ) e meditarem sobre si mesmos:

A DIVINDADE VIVE EM MIM, como vive em seu Representante na Terra, o REI MELKI-TSEDEK. Com Ele chegarei ao meu próprio Avatara. A Divindade está comigo, está comigo. AUM.

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Templários, Alquimistas e Arte Real na Normandia – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Ago 4 2011 

Lugares templários na Normandia

Quando os cavaleiros-monges da Ordem do Templo foram detidos em França na noite de 13 de Outubro de 1307 por ordem do rei Filipe IV, o Belo, a Normandia usufruía um período de paz nas períódicas contendas militares anglo-francesas e com isso era notavelmente próspera. Nessa data, Geoffroy de Charney era o preceptor da Ordem Templária na Normandia rica e próspera. A riqueza da província normanda por certo seria uma das melhores bases da Milícia, além de ser um sector estratégico importante e via de acesso às possessões templárias inglesas do outro lado do Canal da Mancha, pelos portos marítimos de Berfleur, Harfleur e Dieppe.

Certamente o rei francês Filipe IV sabia disso e, ambicioso das riquezas dos templários, depois de Paris foi na Normandia onde mais mostrou a sua crueldade desmedida, não olhando a meios para alcançar os fins, prendendo, torturando e matando quantos templários houvessem. Depois da abolição da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão pelo papa Clemente V, no concílio de Viena que decorreu entre 1311 e 1312, os bens imóveis dos templários (castelos, igrejas, casas, terrenos, etc.) foram entregues ao cuidados da Ordem de São João do Hospital, vulgo Hospitalários, que logo os ocuparam. É por isso que ainda hoje se vê, em muitos imóveis que foram templários, a cruz aspada dos hospitalários sobreposta ou junta à do Templo.

Os documentos disponíveis fazem referência aos múltiplos bens prediais e imobiliários que pertenciam a Ordem do Templo: florestas, herdades, moinhos, capelas, hospitais, etc. Quanto às numerosas “casas dos templários”, um certo número de textos históricos assimila-as às comendas ou comendadorias (que correspondiam às abadias de outras ordens monásticas), pelo que a designação simples de casa significa anexa de uma comendadorias (que poderá ter sido casa de recolhimento religioso ou, então, casa comercial destinada a transações).

Além do castelo e igreja de Gisors, há ainda outros vestígios monumentais e históricos da presença templária na Normandia medieval. Caudebec em Caux apresenta o seu famoso Museu Biochet-Bréchot, sim, mas ocupando o edifício civil mais antigo da Normandia que ainda hoje é chamado Casa dos Templários. Esta soberba construção do século XIII foi construída para albergar os monges de Saint-Wandrille (a cinco quilómetros) que gozavam da protecção directa dos cavaleiros templários. O edifício apresenta espaços surpreendentes da arte de construção medieval e possui muito vestígios arqueológicos normandos que preenchem o seu museu.

Casa dos Templários em Caux

Entre 1123 e 1125, os cavaleiros da Ordem do Templo fundaram a comendadoria de Valcanville, a pedido do rei anglo-normando Henry I Beauclerc, segundo uma carta datada de 1213 (Archives Nationales, MM 1092, N.º 37) confirmada pelo documento de doação à comendadoria (Archives Nationales, S 5466) estabelecida por Guillaume, bispo de Coutances, indicando que o senhor Hugues de Agre concedia à Ordem do Templo a igreja de Valcanville, com o padroado e todos os seus direitos, passando a chamar-se Notre-Dame du Temple (hoje é consagrada a Saint-Firmin). Desta poderosa comenda ocupando um vasto domínio, ainda subsistem algumas ruínas: várias chaminés e muros espessos flanqueados por seteiras. Estas ruínas estão num espaço espaço privado cujos proprietários, meritosamente, incitam o público a visitá-las.

Da antiga preceptoria de Breteville le Rabet (outrora chamada la Rabelle), fundada em 1154 e que foi cabeça dos bailios de Caen e de Alençon, nada resta, excepto a igreja paroquial muitíssimo alterada, ainda assim com um e outro pormenor recuando aos séculos XII e XIII, como o interessante relógio de sol de Saint-Alban, além da torre medieval que possivelmente também recuará à época dos templários.

Em Baugy, cerca de 16 quilómetros a sudoeste de Bayeux e a 20 a noroeste de Saint-Lô, antigas possessões templárias, houve uma comendadoria templária fundada em 1148 fundada por Roger III Bacon, e ainda subsiste uma parte da capela primitiva, consagrada a Notre-Dame du Temple, assim como as fundações da casa senhorial. Originalmente a capela era composta por uma nave com cinco arcos. O edífício tem um ar austero que lhe retira a elegância e simplicidade de outrora. Flanqueado por contrafortes massivos, a oeste abre-se uma porta do século XIII em cujo tímpano está esculpido o Cordeiro de Deus carregando a cruz templária. Esta antiga comendadoria está hoje numa propriedade privada, mas os proprietários deixam visitá-la mediante marcação prévia.

Em Courval ou Corval, a 4 quilómetros ao Este de Vassy, está o lugar chamado de Hospital (por certo remetendo para a Ordem dos Hospitalários), onde se vêem os edifícios da antiga comendadoria templária, fundada em Junho de 1226 por Guillaume d´Aquila, preceptor das casas do Templo na Normandia, após um acordo estabelecido com as autoridades senhoriais e eclesiásticas locais. O lugar é hoje propriedade privada mas pode-se visitá-lo. A primitiva casa senhorial ou do comendador que hoje se vê, é já uma reconstrução do século XV durante o período hospitalário. A capela, classificada monumento histórico em 2 de Setembro de 1994, é uma construção da metade do século XII e ainda possui alguns fragmentos de esculturas e de frescos, tudo carecendo de restauros urgentes.

Comenda Templária de Courval

Há registo histórico da implantação de uma comendadoria templária em Louvagny, no século XIII, mas por ser pobre não podia sustentar senão um único cavaleiro, Guy Pasnaye. A sua igreja de Saint-Vigor, do século XIV, ainda conserva alguns elementos iconográficos que poderão ser atribuídos aos templários, desde uma cruz resplandecente a um anjo peregrino.

Em Caen pode visitar-se as ruínas da igreja de Saint-Julien, recuando ao século VII e que foi reconstruída muitas vezes. No século XII foi possessão dos templários cuja primeira notícia data de 1150. Nessa altura fazia parte da comendadoria templária de Voismer, instalada em Fontaine-le-Pin. Quando a Ordem do Templo foi abolida nos inícios do século XIV, esta igreja paroquial de Saint-Julien foi doada à Ordem do Hospital. Do facto desse padroado de Saint-Julien Hospitalário, o título de cura comendador (ou “guia de almas”, em latim, cura animarum) era dado ao prior de Saint-Julien. Foi igualmente nesta igreja que se celebraram as cerimónias de entronização à Ordem de São João do Hospital (depois chamada de Malta) dos novos cavaleiros originários de Caen. Memória ainda da tradição cavaleiresca heterodoxa da Ordem Templária, vê-se na igreja de Saint-Pierre de Caen, entre outros elementos simbólicos esculpidos, o cavaleiro arturiano Lancelot du Lac passando por cima da espada mágica excalibur ou caliburna, que lhe serve de ponte entre a antiga tradição celta (representada por uma espécie de dragão marinho) e o cristianismo (representado pelo leão no qual a ponta da lâmina se finca).

Lancelot du Lac – Saint-Pierre de Caen

Além da comenda de Saint-Vicent-des-Bois, fundador em 1231 pelo comendador dos templários de Bourgoult, instalada desde 1219 em Harquency, perto de Andelys, das quais hoje não sobrevivem vestígios e se os há estão muito dispersos, em Val-de-la-Haye sobrevivem os restos da antiga comenda templária de Saint-Vaubourg que depois pertenceu aos hospitalários, e que em 27 de Dezembro de 1972 tornou-se monumento histórico de interesse público. Tanto o castelo como a igreja de São João Baptista são edifícios coevos dos templários, mas estão hoje alterados por terem sofrido remodelações sobre alterações.

Por fim, sendo impossível assinalar todas, a maioria nem sequer aparecendo nos documentos históricos, tem-se a comendadoria templária de Villedieu-la-Montagne. Dela resta a antiga capela que é hoje a igreja paroquial de  Villedieu, com a sua torre hexagonal e alguns elementos arquitectónicos do edifício original bem conservados dentro deste templo.

Mistérios da catedral de Gisors

A construção da igreja colegial de Gisors, desde o início do século XX considerada catedral em diversas brochuras turísticas, apesar da sede episcopal ter sido sempre em Évreux, recua à época dos templários e das confrarias de monges-construtores protegidas por eles. Constituindo um monumento notável cuja arquitectura é uma síntese de diferentes estilos, indo do gótico flamejante ao estilo renascença, foi consagrado pelo Papa Calixto II em 1119. Em 1123 um incêndio devorou a sua nave, tendo os trabalhos de restauro começado cerca de 1160. Graças ao financiamento da rainha Branca de Castela, o seu coro gótico foi consagrado em 1249.

Com a ajuda dos financiamentos das confrarias de caridade e das corporações de ofícios, a igreja conheceu numerosas transformações desde o século XII até ao final do século XV. Confiada aos Grappin, uma família de arquitectos do Vexin, os trabalhos prosseguiram no século XVI, com a reconstrução da nave e das capelas laterais em estilo gótico flamejante e a fachada ornada com motivos renascentistas.

Desde a metade do século XX que esta pressuposta catedral de Gisors é associada à tradição esotérica dos templários, que inclusive teriam escondido aqui, num pressuposto subterrâneo, o seu tesouro fabuloso da ambição do rei francês Filipe IV, que os perseguiu até à extinção. Apesar das invenções urbanas pseudo-históricas, há um fundo de verdade em tudo isso, a começar pela presença templária desde a primeira hora nesta casa de religião. Também é verdade existirem registos históricos dando notícia de uma espécie de hipogeo ou sala subterrânea sob esta igreja e onde havia uma imagem de Santa Catarina do Monte Sinai, sabendo-se igualmente da existência dos subterrâneos de Gisors, uma rede de túneis alinhando no eixo norte-sul (cardus) permitindo supor haver ligação subterrânea entre o castelo de Gisors e esta igreja consagrada a Saint-Gervais e Saint-Protais.

Igualmente verdade é o facto de terem sido os próprios templários a elevar a patronos de Gisors os santos gémeos Gervais e Protais, filhos de São Vital e da bem-aventurada Valéria, que viveram junto de dois outros santos gémeos : Celso e Nazário. Foram martirizados no ano 57 por ordem do imperador Nero (Anzio, 15.12 de 37 d. C. – Roma, 9.6. de 68 d. C.), por recusarem abjurar à fé cristã e escusarem a idolatria romana. A presença dos gémeos remete para o duplo sentido da religião cristã conforme o entendimento templário: a crença ortodoxa, exotérica ou pública (a letra das escrituras), e a fé heterodoxa, esotérica ou privada (o espírito das escrituras).

É sob a invocação de Saint-Gervais e Saint-Protais que Jean de Gisors (1133-1220), vassalo do rei de Inglaterra, estabeleceu as pazes com o rei de França em 1188 com a mediação diplomática directa dos templários, chamando ao processo de “pazes do olmo” por ter sido firmado junto a um olmo que ainda hoje se vê junto ao castelo. Antes, quando acordos idênticos haviam sido quebrados entre os soberanos dos dois países à sombra da mesma árvore, às conversações fracassadas chamaram-se “corte do olmo”.

Além do sentido político diplomático, “corte do olmo” refere-se igualmente às confrarias de ofícios, principalmente as dos carpinteiros, sendo a madeira de olmo a mais utilizada na construção do castelo e igreja de Gisors. Quanto ao “corte”, indica a separação dos respectivos poderes e competências das confrarias de construtores e da Ordem do Templo, que no entanto lhes dava protecção e apoio. Talhada na madeira e esculpida da pedra, desde o século XII ao século XVI, apercebe-se um pouco por toda a parte nesta igreja os sinais heterodoxos da doutrina esotérica dos templários que as confrarias operativas de arquitectos, pedreiros e canteiros deixaram para a posteridade.

Dentre as muitas particularidades singulares presentes neste templo, tem-se logo à entrada, no frontíspicio, a inquietante frase latina: Terribilis est locus iste, «terrível é este lugar». Terrível tem aqui o sentido de temível ou temor ao Divino que aqui se manifesta, estando representado na ilustração a que a legenda se refere: o sonho de Jacob com os Anjos descendo e subindo por uma escada ligando o Céu à Terra (Génese, 28:12), o que remete para o sentido da Scalae Coeli, “Escada do Céu”, nome dado aos templos e mosteiros de reclusão espiritual ou, neste caso, de entendimento reservado à iluminação mental de alguns do que nele está exposto e só raros entenderão, “segundo o espírito que vivifica”. Aqui, a escada celeste é substituída pela Árvore de Jessé, pai do rei David, da qual o profeta Isaías (11:1-3) augurou que adviria o Cristo. Trata-se, portanto, de uma profecia relativa aos tempos futuros da Cristandade, por certo a ver com a Parúsia ou Segundo Advento do Messias.

Os Anjos repetem-se na abóbada e nas colunas da igreja, são uma constante. Significam que este templo foi erguido sobrenaturalmente, ou seja, mediante um conhecimento esotérico ou velado interdito ao comum dos mortais, de acordo com a gemetria e arquitectura sagradas de maneira que os símbolos viessem a expressar significados de elevada e oculta transcendência. Esses Anjos parecem-se Querubins, em hebraico Kerub, palavra esta significando Tesouro, por certo o Tesouro do Céu revelado como Sabedoria Divina na Terra (possivelmente será este o significado do lendário «tesouro dos templários»), a mesma Sophia grega aqui representada em Santa Maria, na capela da Virgem, com o Querubim aos pés e à sua volta os objectos simbólicos (fonte, poço, torre, estrela, etc.) com que é invocada na sua Ladainha sob variados atributos (Rosa Mística, Estrela do Mar, Fonte do Horto ou Paraíso, Torre ou Tronco de David, etc.).

A coluna dos Curtidores (Tanneurs) está decorada por inúmeras cenas dessa corporação, algumas de cariz iniciático por se tratar de iniciação de ofício, vendo-se numa um mestre curtidor com um bastão e junto a ele a palavra MARIA (por esta ser a padroeira da Arte Real, esta assinalada numa coluna por dois arquitectos abrindo um livro e ao lado um rei), logo seguida de uma outra : I S Z G, possivelmente as iniciais do nome do mestre canteiro renascentista que lavrou esta coluna.

A coluna dos Delfins (Dauphins), financiada pela Confraria Real de Saint-Louis, é uma representação do Poder Real representado por delfins ou golfinhos e flores-de-lis, igualmente aludindo à Realeza Divina de França iniciada com Clovis iluminado directamente pelo Espírito Santo que se lhe revelou, facto apologético reforçado pelo testemunho dos Apóstolos de Cristo que, segundo a Lenda Áurea, teriam buscado exclusivamente a França logo após a Morte e Ressurreição do Senhor. Posto assim, revela o Sang Royal apostólico que daria vazão ao eucarístico Saint Greal da Celebração, que na Idade Média era conhecido como Saint Vaisel, que os trovadores e jograis divulgaram como Santo Graal, a Taça Sagrada dos Mistérios Divinos. Esta coluna dos Delfins é torsa e termina numa apoteose de arcos de ogivas ilustradas por Anjos.

Na capela de Saint-Clair, datada de 1526, tem-se o Jacente, tratando-se do alto-relevo de um cadáver semi-decomposto num túmulo, apresentando à esquerda a seguinte frase latina: Quisquis ades tu morte cades sta, respice, plora, sum quodd eris, modicum cineris pro me, precor, ora, «Quem quer que seja tu, serás abatido pela Morte. Até lá, toma cuidado, arrepende-te. Eu sou o que tu serás, um monte de cinzas. Implora pedindo por mim». Tem-se aqui a figuração do rito de passagem, onde a Morte se manifesta como revelação e introdução ao Mundo Superior do Paraíso ou ao Mundo Inferior do Inferno, conforme a vida corporal que se levou. Todas as iniciações trqadicionais atravessam uma fase de morte, antes de abrir o acesso a uma vida nova. Libertadora das penas e preocupações terrenas, a Morte não é um fim em si, pois abre o acesso ao Reino do Espírito, à Vida verdadeira, facto que levou os antigos latinos a preferirem: mors janua vitae, «a morte, porta da vida». Esta frase dirige-se sobretudo ao homem que, sofrendo a crise da iniciação, morre como profano ou imperfeito e renasce como perfeito integrado numa vida superior mental, emocional e física. É isto que significa Saint-Clair, ou seja, Santa Luz, a Luz da Iniciação Crística, cujos Mistérios Sagrados acabam sendo retratados nesta catedral de Gisors.

Os grafitos misteriosos da Torre do Prisioneiro

Se há castelo encantado repleto de mistérios, sem dúvida que esse é o de Gisors. Situado no Vexin normando, é constituído por uma torre circular que foi acrescentada à fortaleza já existente, obra dos duques da Normandia dos séculos XI e XII, destinada a defender o domínio anglo-normando contra as pretensões do rei de França.

Quando em 1158 teve lugar o encontro entre o soberano inglês Henrique II Plantageneta e o rei francês Luís VII no castelo de Gisors, a fim de selarem a reconciliação entre os dois reinos, tendo o soberano capeto prometido ao filho do rei inglês a mão da sua filha Margarida de França, que então só tinha seis meses de idade, foi dado como dote o castelo de Gisors. Enquanto se esperava a celebração do casamento e para que nenhuma das partes agisse a seu próprio favor, o castelo foi entregue aos cuidados da Ordem do Templo, e três cavaleiros templários foram encarregados de cuidar dele: Robert de Piron, Tostes de Saint-Omer e Richard de Hastings. Cerca de 1160 Henrique II ordenou a celebração das núpcias, e o castelo de Gisors manteve-se sob a tutela inglesa, contudo, os templários mantiveram aí a sua posição diplomática de mediadores entre as partes.

Em 1188 dá-se a Terceira Cruzada à Terra Santa e no regresso da mesma o sucessor de Henrique II, Ricardo Coração de Leão, é feito prisioneiro em Dürnstein, na Áustria, por desentendimentos com o imperador germânico Henrique VI. O seu cativeiro durou de Dezembro de 1192 a 4 de Fevereiro de 1194. Nesse interregno, Filipe Augusto, rei de França, aproveitou a oportunidade para apoderar-se do castelo de Gisors, em 1193. Neste ano, o soberano francês mandou efectuar muitas remodelações e acréscimos na fortaleza, construindo-se a que veio a ser chamada Torre do Prisioneiro, inspirada na torre barbacã, orientada para a cidade, do castelo do Louvre, em Paris.

Quando Ricardo Coração de Leão foi libertado, tomou armas para recuperar o seu feudo normando, mas em 1195 as duas partes acabaram por assinar os tratados de paz de Vaudreuil e de Issoudun, completados no ano seguinte pelo tratado de Gaillon, que colocou o Vexin – logo Gisors – sob a autoridade da coroa de França.

Tendo perdido a sua posição de fortaleza estratégica, o castelo de Gisors foi então transformado em prisão de Estado, onde eram temporariamente encarcerados prisioneiros políticos antes de serem julgados. Quando em 13 de Outubro de 1307 o rei de França, Filipe IV, o Belo, mandou prender os templários sob os pretextos mais inverossímeis, esta fortaleza tornou-se lugar de detenção para muitos deles, a começar pelos mais importantes da Ordem do Templo: Jacques de Molay, o Grão-Mestre, Hugues de Pairaud, Geoffroy de Gonneville, preceptor do Poitou e da Aquitânia, e Geoffroy de Charney, preceptor da Normandia. Foram encarcerados numa cela na cave da torre do castelo. Em memória de Jacques de Molay, aí detido, é afirmado que desse episódio nasceu o apelido Torre do Prisioneiro.

Torre do Prisioneiro – castelo de Gisors

Há também quem diga que esse apelido da torre não se deve ao arresto de Jacques de Molay e dos seus companheiros, mas a um outro episódio mais recente: o do prisioneiro Nicolas Poulain, cirurgião na ilha de França que em 1587 denunciou uma conspiração da facção dita des Seize (dos 16) em Paris contra o rei Henrique III. Para se vingar, alguns membros da família Guise, envolvidos na intentona, fizeram com que Nicolas Poulain fosse detido, encarcerado e esquecido na célebre Torre do Prisioneiro de Gisors. Para passar o tempo, o pobre infeliz terá feito uma série enorme de grafitos, com motivos religiosos, nas paredes da prisão, dizendo-se que foi ele o autor efectivo dessas misteriosas inscrições, apesar de não estar decisivamente provado esse facto.

Esse conjunto de baixos-relevos ocupa o andar inferior da torre. A luz penetra tibiamente em certos momentos do dia por uma seteira a quatro metros de altura, o que deixa pressupor a realização desse trabalho só nos momentos da passagem rápida da luz, antes de tudo voltar a mergulhar nas trevas profundas. A pedra, fácil de trabalhar, era proveniente das pedreiras de Magny.

Entre os grafitos aparecem brasões absolutamente alheios à pessoa de Nicolas Poulain, mas não às dos templários aí detidos em Agosto de 1308, todos eles de nobreza reconhecida e fortemente brasonada. O facto é reforçado pela figura dum cavaleiro numa montada ricamente aparelhada, prova cabal da sua origem nobre. Tudo é atestado pela presença aqui e além, toscamente desenhadas mas facilmente identificáveis, das cruzes páteas da Ordem do Templo.

De forte sabor oriental, greco-bizantino, além de cenas relacionadas à vida de Jesus Cristo e Santa Maria, sua Mãe, aparecendo João Baptista no acto de baptizar o Senhor, Maria com o Menino ao colo revelando-se aos Apóstolos pósteros, neste caso, os templários, devotadíssimos à figura maternal da Senhora e que foram os primeiros a divulgar o seu culto no Ocidente, mormente através da Festa das Candeias por eles instituída, destaca-se em todo o conjunto as cenas da Paixão de Cristo, esta podendo ser transposta para a situação dramática por que estavam passando os templários.

O estilo greco-bizantino dos grafitos poderá muito bem recambiar para a influência oriental que caracterizou a Ordem Templária cuja maior parte da sua vida e actividade teve-as no Médio Oriente, onde manteve relações estreitas com diversos movimentos sociais e culturais daí.

As cenas da Paixão poderão ter um duplo sentido: além do imediato referente à Tragédia do Gólgota, igualmente recambiarão para o culto do Sangue Real que nessa ocasião foi recolhido por José de Arimateia numa Taça Sagrada, a mesma que os bizantinos chamavam Kratter e que depois, na linguagem provençal, foi transformada em Graal, este o Santo Vaso da Última Ceia e da Paixão de Cristo trazido para o Ocidente pelo mesmo Arimateia mas que depois, segundo a Lenda Dourada, voltou ao Oriente, a Jerusalém, em cujos subterrâneos das ruínas do Templo de Salomão os templários o terão encontrado e trazido de vez para o Ocidente europeu. Lenda ou não, o facto provado é que os templários tinham um especial apreço pela celebração da Paixão e Ressurreição pascal, e a Taça Eucarística (vista nestes grafitos de Gisors) era o principal dos seus objectos litúrgicos.

Uma outra dicotomia que transfere para o contexto heterodoxo da Tradição Iniciática, é a invocação angustiante, toda piedosa, que o prisioneiro escreveu em latim na parede: O Mater Dei memento mei, «Ó Mãe de Deus, lembra-te de mim». Nos lados da frase, as letras N P, que vários autores identificam como as iniciais de Nicolas Poulain. Contudo, por a frase ter duplo sentido, pois anagramaticamente lê-se: Amo Demeter enim timeo, «Amo Demeter, porque a temo», essas iniciais poderão ser lidas como Pater Noster, «Pai Nosso», sendo o início da jaculatória, primeiro evocando o Pai e depois dirigindo-se à Mãe. A Demeter grega, é a mesma Ísis egípcia ou a igual Cibele romana, depois gaulesa. Para todos os efeitos, trata-se da Deusa Mãe Primordial, cujas primitivas formas de reconhecimento cultual vieram a ser incorporadas e reconhecidas na Cristandade na pessoa única de Maria, com todos os predicatos de Misericórdia e Salvação os quais, afinal, eram motivo da invocação muda dos infelizes prisioneiros da torre do castelo Gisors, posto nenhum outro recurso de salvação terem senão o do Céu retratado na Mãe Divina.

Enigmas da abadia de Mortemer

Situada entre Lyons-la-Forêt e Lisors, no Eure, a abadia de Mortemer foi a primeira casa religiosa da Ordem de Cister na Normandia. Ajudou a fundá-la o rei de Inglaterra, Henry Beauclerc, em 1134. A sua história é descrita numa crónica num cartulário do início do século XIII, que relata a vida dos abades até 1205 e descreve as circunstâncias da fundação da abadia e da sua construção, como igualmente a proximidade dos monges cistercienses daqui aos cavaleiros da Ordem do Templo que lhes davam protecção.

Mas foi somente em 1209, após a conquista da Normandia (nome significando “terra do Norte”) por Filipe Augusto, rei de França, que o santuário principal deste mosteiro foi consagrado à Mãe de Deus. Aqui residiam cerca de 50 monges que viviam em completa austeridade sobrevivendo dos produtos da agricultura das terras que possuíam em volta do mosteiro. Certamente que o monge mais famoso de Mortemer foi o escritor Filipe d´Alcripe (1531-1581), conhecido pela sua obra La Nouvelle Fabrique des excellents traits de vérité.

Quando sobreveio a Revolução Francesa de 1789, a abadia já mostrava sinais acentuados de declínio e ruína, pelo que nela só viviam quatro monges. Os revolucionários venderam o imóvel como bem nacional após perseguirem e assassinarem esses religiosos, acusando-os de conspiração junto do povo. Depois a ruína do imóvel acentuou-se ainda mais e ele foi vendido muitas vezes, até que em 1985 o proprietário actual fundou aí um museu consagrado à vida dos monges cistercienses, cujas receitas servem para a manutenção desse espaço histórico.

Com o desaparecimento dos últimos religiosos de Mortemer começaram as lendas sobre eles, as quais envolvem a abadia num halo de mistério e sobrenatural até hoje, havendo mesmo quem jure ter visto os fantasmas dos monges passearem por entre as ruínas mais de uma vez, e também se deparado várias vezes com a aparição etérea de uma dama toda vestida de branco.

Uma das lendas da abadia de Mortemer é a da garrache, a mulher loba. Conta que o rendeiro Roger Saboureau, em data desconhecida, andava caçando à noite na floresta de Lyons (que rodeava o domínio de Mortemer) quando subitamente deparou com dois olhos jovens fixando-o intensamente. Então viu aparecer uma enorme loba. Assustado, ele disparou e matou o animal. Quando amanheceu, descobriu horrorizado o cadáver ensanguentado da sua esposa… ele matara uma garrache, mulher enfeitiçada que nas noites de Lua Cheia percorria o campo como punição pelos seus pecados. Ela havia sido condenada a transformar-se em loba sete vezes em sete vilas em volta da abadia de Mortemer. Acaso a garrache ainda ande por lá, penando os seus pecados…

O significado dessa lenda será o seguinte: a extirpação dos pecados do povo simples pelo modelo de virtude e santidade que a vivência monástica impelia à imitação geral no seu largo domínio. Por outro lado, a mulher loba poderá igualmente ser a própria loba itálica representada na Igreja Romana com quem a Ordem de Cister nem sempre teve as melhores relações no espiritual e no corporal, ante o luxo e espavento com que a cúria se envolvia. O cisterciense São Bernardo de Claraval, por exemplo, foi um crítico severo do pecado da vaidade e opulência que dominava a Igreja, tendo os templários, que deviam a sua Regra ao santo, tomado o partido tanto da opinão deste quanto a igual dos cistercienses, o que desagradou muito ao papado.

Fala-se também do gato Goblin (eul cat Goublin, em normando), que na realidade é um gnomo tomando a aparência desse animal e que guarda num subterrâneo o tesouro da abadia. Frequentemente vêem-se gatos errando por entre as ruínas, e não há como segui-los para descobrir o tesouro…

O tesouro cisterciense contém-se na fórmula latina ora et labora, «ora e trabalha», ou seja, o exercício espiritual e o labor intelectual e físico, pois que a Ordem em Mortemer deixou verdadeiros tesouros de vivência espiritual, de criação intelectual e prosperidade material através da agricultura e pastorícia, incrementando o desenvolvimento sócio-económico da região. Por outro lado, Goblin é corruptela do termo cabalístico Gob ou Gobi, o chamado rei dos gnomos ou seres elementais da terra vivendo em grutas ou próximos delas que se esquivam ao contacto com os seres humanos, e por essa faceta oculta ou subterrânea foi acrescentada a figura do gato, animal lunar ou nocturno cuja natureza felina tem o capricho de reservar-se à aceitação da presença humana só quando lhe apraz.

No museu da abadia encontra-se um lavabo do século XII que era onde os monges se lavavam. Conhecido como fonte dos celibatários, conta-se que as mulheres casadoiras procurando um marido se espargirem os cabelos com essa água, por certo casarão no ano seguinte. O facto é que muitas visitantes solteiras da abadia vieram a casar no ano seguinte… e por essa razão todos os anos, por ocasião da festa de Santa Catarina, inúmeras jovens vão banhar os seus cabelos na fonte miraculosa. É assim que na cultura local a jovem mulher casta e solteira converte-se em símbolo ascético e celibatário, desempenhando um papel importante tanto moral como ideal dispondo a castidade num estado sobrehumano distinguindo a virgindade como a mais alta virtude.

Santa Catarina é a Pura, tanto virginal como sobretudo espiritual, principalmente no entendimento e aplicação rigorosa da doutrina cristã por parte dos cistercienses, o que na Normandia chegou para os associar às ideias reformadoras da «heresia» cátara do Sul de França. O espargimento da água milagrosa sobre a cabeleira vem a ser sinal da regeneração mental e fortaleza corporal, cuja condição celibatária dos monges recebeu a alteração contrária, por via da lenda tão ao gosto popular, de proporcionar futuros bons casamentos.

Além dos fantasmas dos quatro monges assassinados durante a Revolução Francesa, as ruínas da abadia de Mortemer também estão encantadas pelas aparições da Dama Branca, ou seja, a imperatriz Matilde (7.2.1102 – 10.8. 1167), avó do rei Ricardo Coração de Leão. Herdeira do trono de Inglaterra e imperatriz do sacro império romano-germânico, o seu primo Étienne de Blois usurpou-lhe a coroa britânica em 1135, com a morte de Henry I, o que provocou na Inglaterra a guerra civil, por vezes chamada a anarquia, por ninguém se entender em coisa nenhuma. Vinda para terras normandas, Matilde tornou-se condessa d´Anjou e duquesa da Normandia. A sua educação em menina recebera-a na abadia cisterciense do Bec, e essa ligação à Ordem de Cister manteve-se durante toda a sua vida, tendo fundado numerosos mosteiros cistercienses em Inglaterra e na Normandia, sendo a mais importante benfeitora desta abadia de Mortemer e também a sua dedicada protectora, facto que as suas aparições sobrenaturais parecem confirmar. Quando morreu foi sepultada diante do altar maior da abadia do Bec, mas em 1846 os seus restos mortais foram trasladados para a catedral de Rouen.

Além dos factores imediatos relacionados com a presença histórica da imperatriz Matilde, a Dama Branca é parte intrínseca do imobiliário mítico templário, por certo herdando-o em parte dos cistercienses e por outras das narrativas tradicionais das antigas religiões, nomeadamente a judaica, a greco-romana e a celta. A Dama Branca representa aqui o aspecto temporal da Mãe Divina, a Imperactriz Universal como Rainha do Mundo ou Chakravartini para os orientais. Toda vestida de branco como as vestes cistercienses e templárias, representava a Pureza Viva do próprio Espírito Santo manifestado em forma feminina, condição que o judaísmo chama Shekinah, significando Deus manifestado no Mundo, em actividade junto da comunidade dos fiéis agindo sobre as almas dos mesmos tornando-as brancas, isto é, dotadas das mais elevadas virtudes. E é isto que significa Mortemer, a Mãe que dá a Morte, por certo a da condição vulgar a fim de se manifestar a consciência divina que dota e distingue todo o ser espiritual.

O templo das siglasde Chéronvilliers

A bonita comuna de Chéronvilliers, no departamento do Eure, na Alta Normandia, possui a sua igreja de São Pedro a qual revela-se um autêntico templo das siglas devido aos inúmeros sinais e símbolos da Maçonaria Operativa medieval traçados  e esculpidos nas suas paredes.

Tendo origem nos finais do século XII, esta igreja de São Pedro de Chéronvilliers recebeu restauros no século XVI, altura em que foi reconstruída a sua fachada oeste e o lado sul. Data desse último século o conjunto escultórico, bastante degradado, de três bustos e dois leões sobre a porta lateral sul.

Sendo o leão o rei dos animais e o signo astrológico do Sol, o astro-rei, e o Sol no reino mineral representado pelo ouro, o mais nobre dos metais, tanto bastou para ser associado como o animal representativo da realeza, e assim mesmo da Maçonaria Operativa que antigamente era chamada Arte Real. Este título fundamenta-se na lenda de terem sido iniciados maçons na arquitectura e geometria sagradas a construírem o Templo do Rei Salomão que mandava em todos os obreiros contratados para o efeito, nascendo assim o nome Arte Real, cuja prática operática desse processo iniciático exterior acompanhava a construção mística do Templo interior, o Templo da Alma, o que fazia do iniciado um «Rei», um «Mestre» de si próprio e da Natureza a quem dava expressão por essas ciências arquitectónica e geométrica.

Na Idade Média, os mestres pedreiros e os mestres canteiros ergueram primorosos palácios e igrejas a mandato dos reis e dos príncipes da Igreja, e novamente o sentido Arte Real justificou-se dessa maneira, aliando a ordem profissional à ordem mental e moral, o que marcou a Arquitectura como a Arte do próprio Verbo Solar manifestado na Matéria por via do apuramento e e desenvolvimento até à máxima pureza dos seus elementos químicos, função da Alquimia que por isto também era chamada Arte Real. Símbolos alquímicos decorando templos construídos com as medidas da arquitectura sagrada, não é raro verem-se tanto na Normandia como por toda a Europa, tendo origem numa das três fases em que se reparte a evolução maçónica, como seja: 1.ª) Maçonaria Primitiva (terminada com os Collegia Fabrorum, as escolas de artífices romanos iniciadas em 500 a. C. e findadas em 400 d. C.); Maçonaria Operativa (composta pelas várias corporações de ofícios: geómetras, arquitectos, pedreiros, canteiros, carpinteiros, etc.), que durou desde o início do século V até 1523; Maçonaria Especulativa (composta de intelectuais especuladores dos símbolos antigos de seus antecessores), fundada em 1717 vinda até à actualidade.

Os mestres pedreiros e canteiros das primitivas confrarias de construtores costumavam reconhecer-se entre si por símbolos e sinais que traçavam nas paredes dos edifícios onde exerciam o seu ofício, nascendo assim as siglas lapidárias. Estas siglas, abundantes nesta igreja de Chéronvilliers, serviam tanto para identificar o seu autor (uma espécie de rubrica pessoal) como a confraria a que pertencia, portanto, sendo um símbolo particular pertencente ao simbolismo de uma colectividade. Alguns autores advogam que as siglas lapidárias tinham como única finalidade utilitária a identificação do trabalhador para efeito de pagamento do seu trabalho. Essa opinião está correcta só parcialmente, pois que a maioria desses sinais insculpidos são positivamente identificados como pertencentes ao espólio da simbologia mística e esotérica, portanto, sendo símbolos sagrados, os quais, nos tempos medievais onde a intensidade espiritual e religiosa dominava a sociedade, certamente ninguém pensaria gravá-los como sinais de identificação pessoal só para fins salariais, profanos, em edifícios religiosos.

É também muito mais plausível que as siglas lapidárias ou petroglíficas, mais que há pessoa em si mesma expressassem a confraria companheiril que assim deixava a sua marca, o ex-libris, em determinada obra do seu empenho, ao mesmo tempo exprimindo em termos velados ou esotéricos, na linguagem universal da simbologia, o teor da doutrina perfilhada pela mesma corporação.

Tanto assim será que os signos canteiros não se perfilam num só tipo e sim dispõem-se em quatro classes gerais, conforme estão gravados tanto nos monumentos como nos incunábulos, como sejam: 1) signos paleocristãos; 2) signos mágico-cabalísticos; 3) signos astrológicos; 4) signos numéricos. Por vezes, invés de uma só classe aparecem todas e misturadas entre si, que é o que acontece aqui na igreja de São Pedro (ou a Pedra, de Petrus e Petra, em latim e grego) de Chéronvilliers.

Ao lado da porta lateral sul está uma janela gótica encimada por um brasão e dois medalhões laterais dum mesmo personagem, parecendo um nobre. Possivelmente será o busto daquele que encomendou esta obra no século XVI, e isto justifica-se pela inscultura de uma faixa cruzada a meio da base da janela, que na época tinha o mesmo significado de «eu mandei fazer e assim está feito», fechado ou cruzado (terminado).

Por seus conhecimentos superiores interditos a quem não fosse iniciado nos segredos da geometria e arquitectura que as confrarias de monges construtores e mestres canteiros detinham ciosamente, os mesmos eram considerados «criaturas diabólicas», isto é, possuídos de segredos sobrenaturais que nenhum mortal poderia possuir. Por esta razão, na porta lateral oeste vê-se esculpida a cabeça dum mestre construtor com cornos, associando-o ao Diabo. Na linguagem medieval e até na do início da Renascença, citar ou esculpir uma cabeça do Diabo não possuía a exclusiva interpretação de estar a referir-se ao príncipe das trevas, mas também e muitas vezes significando uma pessoa diáblica ou genial, com conhecimentos superiores aos comuns com que realizava obras incomuns. Sem dúvida que os mestres construtores eram seres diáblicos. Abaixo dessa cabeça esculpida, está gravada uma árvore com flores de trevo saindo de um jarro a que se sobrepõem um vaso.  É uma referência velada à Árvore Divina do Paraíso (sendo a prerrogativa divina assinalada pelo trevo ou “três folhas”, com isso designando a Santíssima Trindade), modelo usado pelos construtores medievais para fixarem as bases do edifício a erguer. Tal Árvore Paradisíaca era associada pelos antigos cabalistas judaico-cristãos à figura tradicional da Árvore das Sephiroths ou Emanações Divinas. O jarro, na mitologia grega, tem o significado de Providência Divina (que assiste à construção da obra), enquanto o vaso hermético, como se vê aqui, indica o lugar onde se operam as Maravilhas (da arte hermética dos mestres construtores).

Na mesma porta lateral oeste mas no lado oposto da cimalha onde está o grupo escultórico descrito acima, vê-se um pêndulo terminando num losango em cruz (assinalando os monges construtores como rectos e perfeitos cristãos), o qual está por cima dum coração atravessado por duas flechas cruzadas em aspa. Refere-se ao Coração de Maria, padroeira da Arte Real na Idade Média por representar a própria Matéria Prima que se revela após burilada a pedra bruta em blocos finamente esculpidos na mais real das artes: a da construção do edifício físico a par do espiritual. Dentro desse coração esculpido está um S e um M, possivelmente as iniciais do nome do mestre canteiro, além de serem, obviamente, as do nome de Santa Maria. Abaixo do coração está uma sigla, por certo a identificação companheiril tanto desse mestre como da corporação a que estaria afiliado.

Esta igreja de São Pedro será coeva e possível paroquial da Abadia Casa de Deus ou Chaise-Dieu, lugar próximo a Chéronvilliers, edificada no século XII e que era um eremitério chamado o Deserto. Em 1132, Hugues do Deserto tornou-se o primeiro abade da Casa de Deus da Ordem de Fontevrault, de inspiração beneditina. Casa de Deus ou Domus Dei, em latim, é o lugar onde se exerce a Arte Sacerdotal, enquanto Deserto é sinónimo de reclusão ou apartamento profano, para aprender sem ingerência essa mesma Arte Sacerdotal. Dela promanou a Arte Real, magnificamente representada nesta igreja paroquial dependente da abacial Casa de Deus.

Simbolismo maçónico no túmulo dos cardeais de Amboise

Na catedral primacial de Nossa Senhora da Assunção de Rouen, com origem recuando ao século III d. C., encontra-se a capela axial consagrada à Virgem, feita entre 1305 e 1311. É aqui que está o mausoléu monumental dos cardeais de Amboise, obra encomendada pelo célebre cardeal Georges I de Amboise (1460-1510) ao grande arquitecto Roland Le Roux, que a realizou de 1516 a 1521 sob a direcção do neto e sucessor daquele cardeal, Georges II de Amboise (1488-1550), ambos sepultados aqui. À sua cabeceira está um altar e um retábulo de madeira esculpida e dourada por Jean Racine em 1643.

Nos escultóricos, os dois cardeais aparecem ajoelhados, o avô adiante do neto, de mãos postas implorando à Virgem. No baldaquino aparecem o Cristo, a Virgem e os vários Apóstolos, e logo abaixo, no andar intermédio, têm-se os santos patronos desses religiosos, destacando-se São Jorge lanceando o Dragão, e por fim, no envasamento, aparecem as estatuetas representativas das Virtudes. Este monumento ilustra a evolução da arte nesse período extraordinário que foi a Renascença rouenense.

Contudo, por detrás da aparência piedosa deste conjunto monumental oculta-se uma mensagem pouco católica e muito maçónica, cuja autoria só pode ser atribuída ao escultor e pintor Jean Racine, que quis assim deixar a sua marca de iniciado na Ordem Maçónica mas sem colidir com o sentido tradicional, mental e moral, salvífico e confessional das figuras expostas. No baldaquino, vê-se Cristo entregando o esquadro ao Apóstolo Santo André, enquanto a Virtude Prudência exibe o compasso. Esquadro e compasso, acima e abaixo, são desde sempre os símbolos da Maçonaria, e neste sentido a sua interpretação iniciática vai muito além da piedade devocional reflectida pelo artista nos dois cardeais de Amboise.

Santo André é representado com a cruz em x, e segundo o Evangelho de São João era discípulo de João Baptista, mas chamado para o apostolado passou a seguir Jesus Cristo. Ele é considerado o intermediário entre o Anunciador (João Baptista) e o Anunciado (Jesus Cristo), e assim mesmo aquele que «falava duas línguas»: a cerrada ou esotérica do Baptista e a aberta ou universal do Cristo. Nisto, também a Maçonaria tem uma acção dupla: a iniciática dos seus rituais vedados ao mundo profano, e a pública das suas acções sociais. André provém do grego Andrós, significando «homem», que por sua vez é uma contracção de Alexandrós, «defendor de homens». Entre os iniciados maçons entendidos na doutrina cabalística judaico-cristã, Santo André é entendido como aquele que vai esquadrar as bases da Nova Jerusalém ou Jerusalém Celeste (objectivo espiritual do 29.º Grau de Grande Cavaleiro Escocês de Santo André do Rito Escocês Antigo e Aceite), e por isso toma do Cristo o esquadro como se vê na representação escultórica. Nos lados da cena, estão um nobre e uma dama cujas poses descrevem  um dos sete sinais secretos do Grau 29.º, ou seja, o Sinal da Água, colocando-se a mão direita sobre o coração e descendo-a até ficar lateral ao tronco. É pois, um sinal peitoral o que se vê aí.

A presença do Apóstolo Santo André na Maçonaria recua a 1593, quando Jacques VI da Escócia fundou a Rose-Croix Royal com 32 cavaleiros da Ordem de Santo André do Cardo. Nessa época, ele era Grão-Mestre dos maçons operativos da Escócia, mas será durante o exílio em França do seu sucessor Jacques II que neste país é fundada em 1659 a Ordem dos Mestres Escoceses de Santo André, nome desde então jamais abandonado pela Maçonaria.

No plano moral, o esquadro simboliza a Eqüidade, a Justiça e a Rectidão, e constitui a jóia do cargo de Venerável, porque ele deve ser o maçom mais recto e justo dentro da Loja maçónica, cumprindo o seu dever com absoluta eqüidade.

A Virtude Prudência (Sapientia), na base do retábulo, invés de se apresentar carregando o livro, cena comum na sua iconografia, prefere mostrar-se carregando o compasso maçónico, cena incomum só podendo ter um sentido ocultado. Na destra carrega o espelho da Sabedoria (speculum sapientia) no qual se mira. Este reflecte a sabedoria e a prudência, o reflectir sobre as consequências de acto passado e a sua possível reflexão no futuro. Esta Virtude é característica do verdadeiro homem sábio. De maneira que o relativo e o absoluto se acham representados pela acção simbólica do compasso, que figura a dualidade (hastes) e a união (a sua junção) dentro da Maçonaria, na qual é um dos seus símbolos maiores juntamente com o esquadro e a escritura sagrada. Os três são considerados as grandes jóias e as grandes luzes da Maçonaria. Como instrumento simbólico, representa a Medida e a Justiça.

A noção de Virtude na Maçonaria não é exactamente igual à do Catolicismo, é bom que se diga.  Sendo qualidades próprias do homem, as virtudes são “forças” ou skandhas, em sânscrito, que integradas ou assimiladas entram na formação do carácter superior do ser humano. Chama-se assim todos os hábitos constantes que levam o homem para a prática de operações honestas, tendentes para o bem. Podem ser classificadas como virtudes morais e virtudes mentais. As que são aplicadas para o bem honesto são morais, e as que são aplicadas para a verdade são mentais ou intelectuais. Aquelas são operativas, estas são especulativas, cuidam da cultura, enquanto as outras cuidam do carácter. Por exemplo, a caridade é uma das virtudes morais, enquanto a sabedoria e a ciência são virtudes mentais.

A formação das virtudes acontece pela repetição de uma série de actos da mesma espécie, cujos exercício constante e perseverante converte-os em hábitos. Por esta razão, a virtude é uma conquista pessoal onde não há interferência hereditária. Para que o comportamento pessoal se transforme numa virtude, implica essencialmente duas condições: o conhecimento do dever a ser cumprido e a disposição firme e perseverante em realizá-lo. Conceitualmente, para a Maçonaria a virtude é disposição habitual para a prática do bem e do que é justo, e por isso ela é tida como prova da perfeição e o protótipo ideal do Maçom.

A Filosofia antiga reunia toda a Moral em quatro virtudes cardeais ou principais, em torno das quais todas as outras gravitam ou dependem, e que são: Justiça, Prudência, Fortaleza, Temperança, sendo as três últimas apenas qualidades de quem as possui e não virtudes relacionadas com o próximo, pois só a Justiça é uma virtude útil aos outros, mas não bastando ser justo porque também é preciso ser benfazejo. A Maçonaria reconhece e incentiva a prática das quatro virtudes cardeais, além das três virtudes teologais, representando-as por borlas pendentes nos quatro cantos da Loja.

Ao contrário das virtudes cardeais, adquiridas pelo hábito constante, as virtudes teologais não são adquiridas pelo esforço do homem. São virtudes ensinadas na teologia de São Paulo e por isso é que se chamam teologais (prevenientes de Deus). Chamam-se elas: Fé, Esperança, Caridade. Pelas mesmas o homem supera-se a si mesmo obtendo condições de alcançar a Suprema Perfeição.

Para a Teologia, a representa a expressão da crença esclarecida como acto lógico e fundamental da razão humana; a Esperança e a Caridade ou Amor, andam juntas e representam o sentimento amorável para com o próximo que se deve a uma disposição muito viva da alma, seja nas concepções filosóficas e morais, seja nos ideais religiosos e espirituais. Para a Moral, distinguem-se os deveres da Justiça e os deveres da Caridade: os primeiros consistem em respeitar os direitos de outrém; os segundos consistem em socorrer o próximo por todos os meios ao dispor. Posto tudo, concluiu-se que o mal é a antítese da virtude. E é ao mal do fanatismo, da ignorância e da superstição que todo o Maçom verdadeiro deve combater sempre e em toda a parte com tolerância, sabedoria e esclarecimento.

O estranho cadeiral da igreja de Saint-Martin

Esta igreja de Saint-Martin está na cidade de Nonancourt, situada na margem do Rio Avre entre Dreux e Verneuil-sur-Avre. Foi construída no início do século XII e reconstruída em 1205, sendo o campanário o principal vestígio desse período. Restaurada no século XVI, datam dessa época (1500-1530) os seus vitrais que hoje constituem um conjunto excepcional pelo seu número e qualidade. Mas não são os vitrais e sim o cadeiral no coro da igreja quem agora prende a atenção, por nele estarem esculpidas pequenas figuras grotescas cujo bizarro impele para interpretações nada conformadas à doutrina oficial da Igreja. Estão aí esculpidos um homem de cócoras fitando atentamente adiante, um macaco sentado absorvido na leitura de um livro, um diabo com corpo de lobo suportando um espaldar de braços abertos configurando um triângulo.

O cadeiral é obra do século XVI de alguma confraria de mestres carpinteiros (magister carpentarius) contratada para o efeito no laicato, que apesar de não pertencer ao clero não era alheio à doutrina cristã e à simbologia universal assistindo a essa. Parece ser um mestre carpinteiro quem, subalterno ou de cócoras ante a hierarquia eclesiástica, está esculpido no espaldar de uma das cadeiras. Ele observa atentamente defronte, e a sua postura com o cóccix destacado e posto na curvatura do assento, sugere bem que o sentido sagrado do mesmo, posto que o cóccix elevado destaca a região sacra ou sagrada do corpo humano, assim emitindo sub-repticiamente a condição de ser sagrado do personagem postado na curvatura para baixo, ou seja, para o solo e o subsolo, indicativo de algo escondido, subterrâneo, neste caso, por certo tratando-se do conhecimento oculto ou velado do mestre carpinteiro, à cabeça de uma iniciação de ofício tradicional fazendo parte do corpus operático da primitiva Maçonaria Operativa, onde carpinteiros e pedreiros laboravam juntos.

O macaco absorvido na leitura de um livro, está inteiramente de acordo com a simbologia egípcia reservada ao deus Thot (o mesmo Hermes grego), onde aparece sob a forma de grande cinocéfalo branco como patrono dos sábios e dos letrados. Na sua função de escriba divino toma nota da Palavra de Ptah, o Deus Criador, a qual transmite aos homens sob o aspecto moral e sapiencial, para que a Humanidade evolua no caminho para o Divino. Consequentemente, o livro que o macaco lê atentamente no escultórico será o Livro da Vida e do Destino de um e todos os seres viventes. Se na iconografia cristã o macaco é frequentemente a imagem do homem degradado pelos seus vícios, em particular pela luxúria e a malícia, aqui ele representa o oposto disso, facto assinalado no livro da sabedoria antítese da imoralidade, posto o homem sábio ser o oposto do homem pecador, este que pode conhecer mas não saber, isto é, não ter integrada na sua consciência a Sabedoria Divina e os seus princípios de estar em harmonia consigo, com tudo e todos; é assim que na sua função psicopompa de mestre instalado como Hermes ou Thot na encruzilhada do visível e invisível, o macaco leitor expressa o homem sábio, compreensivo e compassivo, facto que na iconografia hindu se reserva para figurar o macaco real Hanuman, descrito no livro sagrado Ramayana, que vem a ser representativo do Bodhisattva ou “Buda de Compaixão”, nascido do Céu e sofrendo por amor aos homens na Terra, ensinando-os e guiando-os para o seu superior e espiritual destino comum.

O diabo com corpo de lobo com um joelho em terra e suportando o ângulo espaldar triangular, é a prova maior desta ser obra de uma corporação iniciática conhecedora dos segredos da Tradição Primordial e de como a ocultar sob forma grotesca como esta é. O lobo é a forma animal usada tradicionalmente para designar os adoptados ou iniciados nos segredos dos conhecimentos diáblicos ou geniais da Arte Real, esta que está sob o padroado feminino de Maria mas que no Antigo Egipto estava sob o orago de Ísis, em cujos Mistérios os iniciados colocavam uma máscara dourada com a efígie de um lobo. Os iniciados de Ísis recebiam o nome de «chacais» ou «lobos». Ainda hoje esse é o nome eleito para as crianças adoptadas pela Fraternidade Maçónica, a quem chamam «lobinhos», designação que o maçom Robert Baden Powell, fundador do Escutismo, utilizou para aplicar aos escuteiros mais jovens, os «lobitos». Quanto à configuração triangular no escultórico, indica os três ofícios mores da Arte Real: Geometria – Arquitectura – Carpintaria, onde um giza, outro esculpe e o último talha o templo da alma acompanhando a edifícação física, ou seja, o templo ideal feito em simultâneo com o templo material.

O facto de se escolher o coro para esculpir essas figuras no cadeiral, também tem o seu significado. Esse é o o lugar do canto, da oração e da reflexão clerical comum ou em coro. Geralmente de formação rectangular, o coro apresenta à direita e à esquerda o cadeiral, grupos de cadeiras onde o clero toma assento durante o serviço religioso.

Geralmente composto por duas fileiras em cada lado, o cadeiral apresenta uma elevação dos espaldares das cadeiras da fila posterior que vai compor as paredes laterais do coro. Inicialmente essas cadeiras eram movíveis, mas com o passar do tempo tornaram-se parte integrante e fixa da arquitectura, onde cada assento podia apresentar apoios para os braços e uma divisória para os assentos contíguos.

O assento também pode ser recolhido de maneira a permitir a permanência de joelhos ou em pé. A extremidade esculpida do assento, quando recolhido verticalmente, oferece ao clérigo a possibilidade de repouso em caso de longas permanências em pé. Este elemento, designado de misericórdia, passou a ser decorado, especialmente durante a Idade Média mas passando à Renascença, com baixos-relevos de cenas religiosas ou da vida quotidiana, por vezes com formas grotescas e fantásticas como se vêem nesta igreja de Saint-Martin de Nonancourt. No período do Gótico, a mestria do trabalho do carpinteiro deu lugar a braços extremamente trabalhados e espaldares de filigrana complexa, podendo ser coroados por gabletes ou em forma de tabernáculo assente em colunelos e encimado por pináculos.

Não deve confundir-se cadeiral com cátedra. As basílicas e catedrais cristãs, que originalmente, a partir do ano 327 d. C. governando o imperador romano Constantino, seguiam o modelo arquitectónico dos edifícios religiosos gregos e depois os dos templos romanos da Síria importados para a capital do império, Roma, eram construídas com uma plataforma elevada acima do nível da congregação, figurando no centro da plataforma o altar e adiante deste a cadeira ou trono bispal, isto é, do bispo, chamada cátedra.

Provém da cátedra o termo latino ex cathedra, significando «desde o trono», politicamente aludindo ao trono do juiz romano, mas espiritualmente ao trono do Juiz da Igreja, o próprio Cristo, representado pelo bispo que assim ocupava o lugar mais privilegiado e honroso do templo.

Originalmente o bispo pregava sentado, ex cathedra, numa posição em que o Sol penetrando no ângulo oposto da igreja, pelo vitral a ocidente e incidindo a oriente no altar mor adiante do qual estava a cátedra, ia resplandecer no seu rosto enquanto falava à congregação ou assembleia, tornando-o assim a imagem vivo do Sol Espiritual que é Cristo, para todos os efeitos, sendo a herança ritualística do primitivo culto solar a essa outra divindade que dominou na Síria e chegou a predominar em Roma, o deus Mitra, consignado Solis Invictus, tal qual Cristo também o foi.

Finalmente, esta igreja de Saint-Martin de Nonancourt, onde brilha a arte dos magister carpentarius do século XVI, apresenta a flèche que é a obra mais notável de carpintaria dessa época, havendo ainda uma estátua representando São João Baptista, da mesma data, esse que é o patrono dos construtores livres cujas oficinas ou lugares de reuniões ainda hoje levam o nome de Lojas de São João, padroeiro masculino da Arte Real de, pedra a pedra e trave a trave, construir o Edifício da Humanidade nova, mais justa e perfeita.

A estranha Mansão da Anunciação

Em Rouen, na Rua Eugène Dutuit, junto ao Presbitério situado no n.º 5 e não muito longe da igreja de Saint-Maclou ou Malo (um dos sete santos da Bretanha), está uma estranha mansão gótica, bela mas de ar severo, do século XV.

Este edifício tem esculpida sobre o frontão da entrada a cena bíblica da Anunciação à Virgem, donde herda o seu nome, e em volta numerosos motivos alquímicos evocativos da Grande Obra.

Não se sabe quem mandou construir esta Mansão da Anunciação consagrada à Virgem. Mas sabe-se que recebeu grandes restauros após o incêndio de 1520 nesta antiga Rua Malpalu, que em 1886 passou a chamar-se Eugène Dutuit, o antiquário e mecenas que financiara as obras de reconstrução pós-incêndio neste quarteirão da igreja de Saint-Maclou.

A Mansão da Anunciação possivelmente terá sido construída por alguma família abastada próxima da Ordem Beneditina de Saint-Maclou, e por certo algum membro dessa família se dedicou à Arte Real ou Alquimia cuja padroeira é a própria Virgem Maria, esta a quem os beneditinos tinham especial devoção dedicando-lhe fólios preciosos, monumentos únicos e orações raras, não ignorando que vários alquimistas famosos também andaram de relações próximas com essa Ordem, e por vezes eles mesmos eram monges beneditinos, como foi o caso do célebre alquimista Basil Valentine no século XV.

 Mansão da Anunciação – Rouen

A Alquimia (matriz da Química moderna) fez parte das ciências tradicionais ou esotéricas que a Igreja Católica tolerou relativamente num dos seus três aspectos, a saber: a Externa ou Alquimia Metálica, portanto, laboratorial e física; a Interna ou Alquimia Mística, a ver com a mudança espiritual dos estados de consciência do homem, e era esta que a Igreja tolerava; finalmente, a Arte Magna, a mais perfeita, onde simultaneamente à transmutação da matéria dava-se a transformação da alma, sendo esta a preferida de todos os verdadeiros alquimistas.

A Alquimia processa-se por duas vias, chamadas Via Húmida e Via Seca. A primeira é um caminho de experimentações metálicas graduais, lentas mas seguras, sempre com a presença de um casal, cujo elemento principal nessas operações é a água que se vai fervendo num fogo que se intensifica gradualmente à medida que o crisol da Matéria Prima aparece no fundo da retorta. A esta fase chama-se Anunciação. A Matéria Prima é a Primordial ausente de metais impuros, e é com ela que se obtém a Pedra Filosofal, chamando-se este caminho para a fábrica da Pedra de Crisopeia, “obtenção do Ouro”, tanto místico como metálico. Enquanto na Via Húmida passa-se primeiro pela “obtenção da Prata”, chamada Argiopeia, na Via Seca não: o caminho é directo para a Crisopeia e o elemento dominante é o fogo, com o alquimista operando sozinho abreviando o tempo para alcançar o seu fim, o que não deixa de ser muito arriscado. A Via Seca é representa pela árvore seca com nós, estes os «nós» da alma que o Adepto do Fogo vai «desatando» de maneira radical ou ascética, ou seja, procurando alcançar a Iluminação espiritual no mais breve prazo de tempo possível, o que fica marcado pela obtenção externa do Ouro alquímico.

A fachada frontal em madeira da Mansão da Anunciação, sugere pelos seus lados nodosos e esculpidos a própria árvore seca, consequentemente a Via Seca. Seja como for, a cena da Anunciação à Virgem está presente tanto nessa como na Via Húmida, por ser o anúncio simbólico do nascimento próximo da Pedra Filosofal (assinalada no Cristo) de que está grávida a Matéria Prima (representada em Maria), após o Anjo (estado de consciência espiritual) lhe ter anunciado a Graça (ou meio para alcançar com segurança a finalidade).

A colagem dos processos das operações alquímicas, representadas por símbolos e emblemas astrológicos e mitológicos, a episódios especifícos dos Antigo e Novo Testamentos, principalmente aqueles onde domina a presença feminina seja como heroína ou como santa, ou ambas as coisas, recua ao ano 1100 na Europa quando as universidades árabes passaram a divulgar a ciência alquímica, tendo-as frequentado os místicos e sábios judeus e cristãos, adaptando os símbolos e alegorias herméticas a passagens demarcadas das escrituras sagradas, levando a leitura e interpretação destas para o campo da heterodoxia característica da Tradição Iniciática. Na Europa, foram precisamente os beneditinos, e depois os cistercienses seus descendentes, os primeiros a aceitar a ideia de ligar a Bíblia à Alquimia, mas que no mundo bizantino já era aceite desde Zózimo de Panápoles, que cerca do ano 300 d. C. deu início à Escola Alquímica em Alexandria e foi o primeiro a ser chamado Filósofo do Fogo. Ele havia recolhido esses conhecimentos herméticos junto dos sábios da Ásia, na China e sobretudo na Índia.

No pilar lateral esquerdo da Mansão da Anunciação está a Virgem Maria defronte para o oposto Arcanjo São Gabriel que lhe faz o divino anúncio. Esse tem abaixo o escultórico dum busto angélico (representando o solve, princípio espiritual), e aquela um busto humano (representando o coagula, princípio material). A Senhora é encimada por uma cabeça de querubim (marcando a subida ao solve) e o Arcanjo é encimado por uma cabeça de silvano, parente do fauno (marcando a descida ao coagula). Ao centro, a flor do lírio tendo por cima um dragão enrolado. Representa a Anunciação Alquímica, sentido hermético ou oculto dado pelo simbolismo do dragão, aqui símbolo da Sabedoria Secreta marcando o chamado Fogo Secreto da Magnus Opus. Abaixo do lírio, está um escudo onde se vê um cordame com nós e uma cruz, sendo uma possível alegoria da Via Seca que este edifício pretenderá retratar. A Virgem no pilar desta Mansão, apresenta o livro na mão direita. Este facto iconográfico deve-se ao Comentário sobre o Evangelho de São Lucas, de Orígenes, e que o Hino de Vésperas da Festa justifica: «Quando Maria aparece com o livro entre as mãos ou junto ao seu assento, há um significado próprio para isto: Ela gerou o Verbo, a Palavra, o Livro das nossas almas».

O evento da Anunciação à Virgem Maria pelo Arcanjo Gabriel da conceição pelo Espírito Santo de Jesus Cristo, é observado pelas Igrejas Ocidental e Oriental em 25 de Março, exactamente nove meses antes do Natal, sendo o tempo que dura a gravidez em toda a mulher. De acordo com o Novo Testamento (Lucas, 1,26), a Anunciação ocorreu no sexto mês de gravidez de Isabel, prima da Virgem Maria, que concebeu João Baptista. Segundo Thomas Talley, esta data baseia-se na tradição judaica e no pensamento rabínico relativas ao ciclo do nascimento e morte, início e fim, que já era celebrado numa data específica, o 14 de Nisan, quando se celebra a Páscoa judaica e que corresponde a Março no calendário gregoriano. Os cristãos no início do seu movimento, para marcarem o começo da sua história e realçarem que a mesma realizava o que o judaísmo anunciava, escolheram essa data próxima da Páscoa judaica, ou seja, a da Anunciação do advento de Jesus Cristo.  Talley toma por base o facto do Arcanjo Gabriel ter aparecido a Zacarias quando este oficiava no Santíssimo Altar do Templo em Jerusalém, como Sumo Sacerdote durante a festa do Yom Kippur, celebrada em Setembro, o que coloca a concepção de João Baptista na Festa dos Tabernáculos e o seu nascimento nove meses após, próximo ao Solstício de Verão. Mas como o Evangelho de São Lucas afirma que a Anunciação ocorreu no sexto mês de gravidez de Isabel, ele deve ter ocorrido próximo do Equinócio da Primavera, ou seja, da Festa da Páscoa judaica.

As primeiras alusões à Festa da Anunciação encontram-se no cânone do Concílio de Toledo (ano 656), tendo o Concílio de Constantinopla (ano 692) proibido a celebração de festejos durante a Quaresma, excepto se coincidissem com um domingo (dia do Senhor), e um Sínodo da Igreja Católica de Inglaterra, em 1420, proibiu qualquer trabalho na data desta Festa.

Decorações alquímicas do Hotel d´Escoville

Reconstruído após a Segunda Guerra Mundial, o Hotel d´Escoville foi construído na Praça Saint-Pierre de Caen entre 1530 e 1535, seguindo o gosto italianisante da Renascença do seu proprietário original, Nicolas Le Valois d´Escoville (1475-1541), um dos mais ricos mercadores de Caen que conseguiu enriquecer rapidamente graças à exclusividade do comércio cerealífero com a Espanha.

Nicolas d´Escoville não foi só o negociante afortunado, foi sobretudo o alquimista renomeado escritor do liber mutus (livro mudo) que é este hotel repleto de alegorias da Grande Obra Hermética. O próprio nome primitivo do edifício, Hôtel du Grand Cheval, o “Grande Cavalo”, aponta logo à partida haver aqui uma Grande Cabala sob a aparência artística dos símbolos que, afinal, são reconhecida parte notável do imobiliário da simbologia hermética.

Como a Alquimia laboratorial ou prática química exige sempre a presença de um casal para que exprima o Sol e a Lua, o Subtil e o Espesso, a Mente e o Coração, etc., vindo o homem e a mulher a representar o futuro Andrógino Perfeito que em Alquimia chama-se Rebis e que, no fundo, vem a ser a humanização da própria Pedra Filosofal, eis que aparecem na fachada setentrional as estátuas de dois dos principais personagens do Antigo Testamento: à direita, o rei David segurando a cabeça decapitada do filisteu Golias ou Goliath; à esquerda, Judith, viúva de Esaú, ostentando a cabeça degolada de Holofernes, o comandante assírio que ela seduziu para o decapitar. Em simbologia alquímica a cabeça cortada tem o significado de separação dos elementos subtis (ou sagrados) dos grosseiros (ou profanos), e na Tradição Ocidental representa-se por personagens ligados a cenas  bíblicas do Antigo Testamento, a fim conferirem o sentido de estado primordial ou ancestral. Sendo cinco os elementos naturais (éter, ar, fogo, água, terra), igualmente está repartida em cinco partes esta fachada setentrional, o que é muito significativo. Por cima da estátua de David, dois Anjos masculinos sustêm um escudo armoriado, por certo referindo-se a Escoville e ao aspecto solar, ígneo ou masculino do Rebis. Por cima da estátua de Judith, repete-se a cena com dois Anjos femininos sustendo igual escudo armoriado, aqui aludindo ao aspecto lunar, volátil ou feminino do mesmo Rebis. Juntos são o Andrógino Perfeito, o Adepto Filosófico (Alquimista) ou a própria Pedra Filosofal viva.

Por cima de uma das janelas laterais aparece a alegoria escultórica da cabeça dum touro de cujas orelhas pendem grelhas, enquanto da boca sai a direito um bastão que passa por cima de uma faca e de um espeto. O touro é considerado o animal primordial por representar a própria Energia Vital da Natureza, e nesta ilustração ela representa a Força Criadora Universal a quem antigos hebreus chamaram El, Deus, e deram-lhe a forma inteira de um bovino ou de uma simples cabeça de touro, cujas estatuetas de bronze costumavam ser presas à extremidade de um bastão ou de uma haste pelos patriarcas hebreus no tempo de Moisés. Sacrificar o touro (assinalado na faca e no espeto) e comê-lo (representado nas grelhas para assar), para os alquimistas equivalia ao domínio das forças vivas naturais submetendo-as à vontade do filósofo hermético, que através de sucessivas operações químicas, acompanhando a transformação das suas próprias almas de espessas ou grosseiras em subtis ou elevadas, chegavam ao estado mais rarefeito dos elementos da Natureza e daí alcançando a síntese da mesma num único elemento em que reconheciam e se identificavam com Deus presente no Espírito da Natureza. A esse elemento único chamavam Pedra Filosofal, como aplicação do princípio supremo regenerador da Matéria, transformando o «chumbo» (grosseiro) em «ouro» (subtil). De maneira que a morte do touro às mãos do alquimista, equivale à «imolação» de Deus (representada no trigo e na vide ingeridos na celebração eucarística) às mãos do homem que procura alcançar o Seu Poder e Presença absolutos.

A busca do Poder e da Presença de Deus, com todo seu o significado, tem-se no topo da cimalha deste hotel na estátua de um homem malhando a matéria-prima, isto é, operando sobre a matéria visível para obter a subtileza da matéria invisível. Representa a fase labora, trabalha, da Alquimia, mas sempre acompanhada da fase ora, medita, para que a Realização alquímica seja justa e perfeita. Donde os alquimistas terem por lema ora et labora, medita e trabalha, frase que veio a originar a palavra laboratório, isto é em latim, labor+oratorium.

Esse ora et labora  aparece representado em duas pequenas figuras humanas esculpidas no pórtico de entrada do hotel, a da direita o ora e a da esquerda o labora. Ladeiam um friso ilustrado com a cena apocalíptica da Besta escarlate e a Virgem triunfante, dominada por homens e anjos, sobrepostos por outros anjos ao fundo da cena anunciando a Jerusalém Celeste.

Na simbologia alquímica a besta apocalíptica é associada ao animal mítico basilisco, com cabeça de pássaro e corpo de dragão, servindo de anúncio das fases espiritual e química da Grande Obra que vai ter início. Ambas as fases juntas têm o nome de conjunção e o seu processo inicial é chamado de Infância dos Filósofos. Por isso vê na ilustração um jovem prendendo por uma corrente um dragão submisso. Também por isto, este painel não poderia deixar de estar à entrada do hotel, como que indicando outras fases ou aspectos herméticos retratados no seu interior, assim dispondo-o como verdadeira Mansão Filosofal. O Apocalipse de São João diz que a besta escarlate (a matéria corruptível ou em estado não apurado) tem o número 666, cuja soma dá 18 e a soma deste o 9. Significa o Homem manifestado na Matéria (666) e o Homem elevado ao Espírito (999). Tem-se aqui o Homem Adâmico a caminho de se tornar Homem Crístico, pela transformação e superação da sua natureza inferior ou grosseira, humana, em superior ou subtil, angélica. Não deixa de ser curioso que entre os hebreus o nome Adão, Adam ou Adm é assinalado precisamente pelo número cabalístico 9 e tem o significado de Homem, neste caso, a Humanidade inteira.

A Virgem triunfante do dragão, representada com a Lua aos pés, é a Senhora da Conceição ou Concepção alquímica do espesso em subtil. Ela é a própria Alma do Mundo e do Universo, a quintessência da Matéria em quem os alquimistas reconheciam a Pedra Filosofal. Por isto, Maria sempre foi a Padroeira e Mãe dos Filósofos, a representação deífica da própria Alquimia ou Química Divina (Allah-Chêmia, em copta), cuja absorção na essência viva da Virgem Eterna equivale à entrada triunfal na Jerusalém Celeste, isto é, na dignidade de verdadeiro Alquimista ou Filósofo do Fogo Sagrado, este a essência última e prima-essência de toda a Natureza que, afinal, também ela é Obra do Espírito Santo tomando forma como Virgem triunfante.

No topo do cimalha, ladeando um nicho vazio, vêem-se duas serpentes coroadas. Representam as energias fundamentais masculina e feminina que se opõem e completam na Grande Obra, o que retorna novamente à presença do casal hermético. Há uma serpente verde celeste representando a Electricidade Cósmica que os hindus chamam Fohat, e há uma serpente vermelha terrestre designando o Electromagnetismo Planetário a quem os hindus chamam Kundalini. As serpentes coroadas ladeando o nicho, representam os três elementos ou princípios mais elevados da Alquimia, chamados “espíritos alquímicos”: Enxofre, Mercúrio e Sal, correlacionados no Homem ao Espírito, Alma e Corpo. Aqui, na entrada do hotel, tradicionalmente o Enxofre fica ao centro, o Mercúrio à direita e o Sal e à esquerda.

Hoje, este hotel é um lugar do poder político e administrativo e igualmente um dos principais foros culturais da cidade, sendo sede da Academia de Caen desde 1753. Desde o século XIX que a Sociedade Filarmónica de Calvados dá concertos aí, por motivo da Sociedade de Belas-Artes passar a reunir-se no hotel. Em 1862 o edifício foi classificado monumento histórico, e teve lugar uma primeira restauração do imóvel, seguindo-se outras três: de 1895 a 1905, por Anthime de la Rocque; de 1915 a 1925, por Gabriel Ruprich-Robert; finalmente, de 1933 a 1936, por Ernest Herpe. Pela singularidade notável que o distingue, este Hotel d´Escoville merece visita demorada e atenta pelo muito que esconde e revela como autêntica Mansão Filosofal.