Sintra, 13.8.2008

Ι

Boa tarde, Exm.ª Sr.ª ……

Tendo apreciado o seu telefonema, respondo-lhe de seguida por carta datada de 30.7.2008, conforme combinado, a propósito da envolver-me directamente nesse próximo evento místico dito “888 – Portal de Orion”. Reitero: por norma respeito a todos os seres humanos e às suas crenças, mas, respeitar não significa que vá me EMISCUIR.

Ainda assim, é meu dever alertar a Exm.ª Sr.ª quanto aos pressupostos de «mestres ascensionados» saídos de lavras de pessoas que, permita-me, dever-se-ia analisar séria e descomprometidamente qual o seu estado interior, psíquico e mental. Relativamente a datas messiânicas, bem parece agora vingar essa última do “888 – Portal de Orion”, sobre o que me inibo sequer comentar, porque, bem parece como todas as outras, irá resultar em NADA… absolutamente NADA, cujo único bem-estar individual resultará de uma espécie de catarse colectiva. Mas, bem se sabe, que QUANTIDADE não é o mesmo que QUALIDADE.

Sugiro-lhe, se me permite, ter a maior das prudências com essas ditas «mensagens transcendentais» recebidas por «canalização mediúnica» as quais acabam revelando, em boa verdade, o estado de espírito de quem as escreveu ou gravou, pois que nada confere com nada em matéria de Linguística, de Astronomia, de Geografia e, sobretudo, de Espiritualidade, ou por outra, de TRADIÇÃO INICIÁTICA DAS IDADES.

Muito teria a dizer sobre o famoso 888 e o misterioso ORION, o deus QUIRON da mitologia greco-romana, palavra tornada esdrúxula, desconexa e fantasiosa nessa outra KRION (???). Mas, falar mais para quê? Para me sujeitar a ver, mais uma vez, quanto emito de público completamente adulterado? Então, não vale a pena…

Também o mais que fantasioso planeta “Hercóbulus” (???) esteve ainda este ano para chocar com a Terra, dizem. Os «canalizadores» e os seus «mestres» garantiram a “pés juntos” que tal iria acontecer. Mas, bem se sabe, não aconteceu coisa alguma e nem se sabe que planeta é esse… Então, porque os meios «new age» não retomam agora o assunto que foi tão falado ainda este mês, altura em que o tal planeta iria chocar com a Terra?…

Tudo isso recorda-me o caso de cometa Kohoutek em 1973, episódio contado em 2007 por Miguel Henrique Borges na sua revista 2016 – Sol de Aquário. Quem descobriu esse corpo celeste a aproximar-se da Terra, em Março daquele ano, foi o astrónomo checo Lubos Kohoutek. Ele anunciou a descoberta de forma sensacional, porque, segundo garantiu, aquela aparição provinha da Nuvem de Oort, uma região nos confins do Sistema Solar. Empolgado, o cientista disse que o astro daria um espectáculo no céu, ao se aproximar do Sol e passar «raspando» a órbita da Terra. Ele “prometeu” a magnífica visão do cometa no céu nocturno, várias vezes maior e mais luminoso do que a Lua Cheia.

Personalidades, entidades e movimentos místicos apoderaram-se do assunto. Os meios de comunicação social abarrotaram-se de matérias sobre a abertura do «portal cósmico» que traria objectivamente a Nova Era. A Humanidade ia-se iluminar na cauda do cometa… Ignorância, injustiça, violência, guerra e doença, tudo de ruim seria descartado pela vassoura cósmica.

Numa bela manhã de domingo do mês de Setembro, foi-se formando entre as colunas do Templo de Maitreya, em São Lourenço (Minas Gerais do Sul, Brasil), um ajuntamento de jovens eubiotas, rapazes e raparigas que conversavam animadamente sobre a aproximação do Kohoutek como sendo um belo e definitivo lance para a Humanidade.

A certa altura, Sebastião Vieira Vidal, Instrutor desta Obra Divina e Discípulo do Professor Henrique José de Souza com quem conviveu por mais de 50 anos, chegou e sentou-se na escadaria. Com as costas apoiadas numa das colunas, ficou ouvindo a conversa, em silêncio. Lá para as tantas, um rapaz dirigiu-lhe a palavra:

– Dá licença, Professor Vidal? Todos os movimentos espiritualistas estão saudando e festejando a chegada do Kohoutek. Só a Eubiose (em Portugal, Teurgia) não se manifesta. Parece que está por fora.

O Mordomo do Templo finalmente falou naquela manhã:

– Esse pessoal todo que diz que o cometa vai fazer e acontecer, todos têm razão, todos estão certos. Só quem está errado é o cometa… porque nada disso vai acontecer.

Quatro meses depois, o Kohoutek foi desapontamento e fiasco. No final de Dezembro de 1973 e durante Janeiro de 1974, com um pouco de sorte nos olhos e sem nuvens no céu, algumas pessoas viram-no, mas sem a monumental cauda de gases benfazejos.

Que eu saiba, só o Professor Vidal teve notícia desse anti-clímax, meses antes. E ele nem era adivinho…

Portanto, ante este novo acontecimento algo semelhante ao anterior e a tantos outros do género, só posso afirmar: NADA PODERÁ ACONTECER E TUDO DE NADA ACONTECERÁ!

Abro aqui um parêntese: agora, em 2011, temos a “nova moda” que diz que “o mundo vai acabar em 21 de Dezembro de 2012” como constam das “profecias maias”. Essa teoria nasceu no Texas (E.U.A.), espalhou-se por toda a América do Norte, depois a Central e finalmente a do Sul. Da América do Sul e do Norte, em simultâneo, chegou à Europa, inclusive Portugal. Fora o facto óbvio de ser um negócio chorudo onde alguns ganham milhões à custa da credulidade de milhares, eis mais uma demonstração, que redundará em ABSOLUTAMENTE NADA, de insanidade e incultura tanto académica quanto esotérica: a astrologia do povo Maia e as respectivas ilações proféticas fornecidas pela mesma nessa época tinham a ver exclusivamente com esse povo, as preocupações imediatas com o seu presente e devir, não com as do mundo em geral que era coisa completamente abstracta para essa sociedade pré-colombiana. Assim foi também com outros povos, inclusive o Português medieval, cuja astrologia tinha a ver com o meio ambiente rural (preocupações agrárias de semeaduras e colheitas) e não tanto com o estado geral do mundo, dos continentes com os quais não havia a menor afinidade na época, e a maioria tampouco os conhecia. Qual o português ilustrado do século XII ou XIV que conhecia o Japão, por exemplo? Mais: como é possível que não especialistas em epigrafia e línguas antigas pré-colombianas (como é o caso dos pressupostos «sábios» norte-americanos que propalaram essa ideia peregrina) deterem um conhecimento exacto da tradução das estelas maias, onde estão gravadas as ditas “profecias”, se confessaram só terem conhecimento rudimentar da língua maia, ignorando o quichua, o nahoa, etc., e ademais sem nenhum enquadramento das epígrafes no contexto temporal em que foram insculpidas? É, de facto, extraordinário… em 22 de Dezembro de 2012 voltarei a falar do assunto, advertindo desde já que a seguir a essa vão aparecer novas datas apocalípticas e messiânicas, se não estiverem já a ser forjadas por uma indústria rendosa que vive do «new age» e se serve dos novos métodos e redes de comunicação electrónica para afligir a impuberdade psicomental humana.

Respeitante à Missão de Portugal e à Iniciação da Península Ibérica, a primeira desenvolve-se por si mesma com a intervenção dos melhores da Raça, inspirados nos seus Maiores, sem que necessite de «meditações transcendentes» para a consecução de algo que existe por si mesmo e é intrínseco à função cíclica do Ibérico; quanto à segunda, Portugal – Espanha desde há milénios, ainda havia o culto neolítico ao deus Endovélico, fazem parte de um todo chamado PENÍNSULA IBÉRICA, cuja Iniciação Racial absolutamente nada tem a ver com «profecias canalizadas» de quem há muito me copia, primeiro encapotada, depois abertamente…

Sem mais de momento, com os meus maiores respeitos e votos de muita saúde e sorte no que seja verdadeiramente Espiritual, atenciosamente sou

V. M. A.

ΙΙ

Nos últimos tempos tenho sido assediado com ditas revelações «new age» provindas do meio dito «neo-espiritualista», umas mais fantásticas que as outras e todas destituídas de qualquer solidez tanto psicomental como psicossocial, ainda que neste aspecto parte do colectivo social seja bastante afectado pelas mesmas, mormente boa parcela de jovens e menos jovens lançando-se nos abismos do fantástico e da fantasia, assumidos auto-suficientes, esclarecidos e iluminados que, por via do seu maior ou menor carisma, acabam induzindo a outros tantos as mesmas patologias d´alma. Todos, é facto, sem a mínima formação verdadeiramente espiritual, teosófica ou esclarecida, a par de uma religiosidade que de facto a seja, mas, em contraposição, assumindo a maior e febril, notoriamente afectada, postura da óbvia “alucinação mística”.

Isso mesmo pude confirmar há poucos dias atrás (8.8.8, data que serviu para mais um invento místico que resultou… em nada!) em Santa Eufêmia da Serra de Sintra, onde fui interpelado por um número crescente de cidadãos que andavam à procura da “entrada para Agharta”, sem mais nem menos, permeio a estados d´alma visivelmente alterados. Tratei-os com o respeito que se deve a uma criança…

E de facto são crianças comportamentalmente, «abduzidas» ou não, certamente abusadas por certas e distintas individualidades nacionais e internacionais que aqui vêm fazendo o seu negócio à margem da lei jurídica do País e que já deviam ter sido interpeladas pelas respectivas autoridades, pois que facturam milhares e milhares de euros isentos de impostos, enganando os Ministérios das Finanças e da Justiça da maneira mais clamorosa e descarada possível.

Se Jesus afirma nas Escrituras “DAI DE GRAÇA O QUE DE GRAÇA RECEBESTES”, essa gente «distinta» faz precisamente o contrário: inventa o que lhe apraz na presa do lucro fácil e da satisfação pessoal, e por via de uma coreografia colorida destinada a dar mais intensidade psicológica ao discurso, confunde o auditório ou o leitorado a ponto deste não aperceber sequer que está sendo roubado económica e espiritualmente e que, tal o estado neurológico em que fica, ainda por cima agradece… e pede mais.

Este assunto melindroso arrastou-se por algumas sessões internas da Comunidade Teúrgica Portuguesa, e sempre fui dizendo que os “negócios da casa alheia são alheios aos nossos”, mas que, mesmo assim, mais dia, menos dia, acabaria por tornar público este assunto e levá-lo ao conhecimento das autoridades legítimas da Nação, participando à comunicação social e envolvendo o Parlamento e a Presidência da República. Sim, porque Portugal – assim como o Brasil, nossa exclusiva Pátria-Gémea – não merece tamanho flagelo sempre redundando em desgraças atrás de desgraças psicossociais (ele é o “rei dos gnomos” de Torres Vedras que estuprou e assasinou, ele é o jovem satanista que matou os pais em Ílhavo, ele é a jovem assassinada num ritual satânico em Carcavelos, ele é o fulano que assassinou dezenas de pessoas na Noruega, etc., etc., etc.) feitas de negócios ilícitos escudados no princípio constitucional da “liberdade de exercício religioso”. Pois sim, mas exercício religioso é uma coisa e negócios financeiros chorudos, isentos de fiscalização, encapotados na alegação da legalidade desse exercício, é coisa bem diversa, como diversa é a “Fábrica da Igreja” (chama-se assim mesmo o organismo encarregue da manutenção e rentabilidade económica dos móveis e imóveis da religião católica) do Espírito do Evangelho.

É bom que se saiba que as organizações espiritualistas classificam-se em três classes distintas, pouco tendo a ver umas com as outras no modo de estar e de agir, como sejam:

ORDENS (Ex.: Teosofia, Rosacruz, Maçonaria, etc.)

| |

Qualidade: MENTAL-ESPIRITUAL – SAPIENCIAL

Versus

INICIAÇÃO PELO ESPÍRITO > Esclarecimento pelo Estudo e aplicação do mesmo.

RELIGIÕES (Ex.: Judaísmo, Catolicismo, Islamismo, etc.)

| |

Quantidade: PSICOMENTAL – CONFESSIONAL

Versus

SALVAÇÃO PELA ALMA > Consolação pela catequese e elevação pela prece.

SEITAS (Ex.: “Manás”, “Universais”, “Animistas”, etc.)

| |

Disparidade: PSICOFÍSICA – IDOLÁTRICA

Versus

CONFUSÃO PELO CORPO > Redundando em doenças alucinatórias psicossomáticas.

A TEURGIA pertence à 1.ª classe, respeita a 2.ª e separa a verdade da mentira em relação à 3.ª. É nisso que se diferencia o JIVATMÃ (“Vida-Consciência”) do JIVA (“Vida-Energia”), tal como o JIVA é absolutamente diferente do JINA (“Génio”, Adepto Perfeito). Isso leva à dedução da existência de duas Humanidades: a dos Perfeitos (JINAS) e a dos imperfeitos (JIVAS), estes norteados por alguns daqueles que sacrificialmente, a guisa de Bodhisattvas compassivos, a vão ajudando desde os bastidores da Evolução Humana. Entra aqui a acção do PRAMANTHA-DHARMA ou GRANDE FRATERNIDADE BRANCA, e a diferença capital entre as crenças dos homens e a cultura dos deuses. Poderia até dizer: esta OBRA DIVINA (TEURGIA) forma uma Humanidade Jina ou Assura através da Iniciação JHS ou AKBEL, e as obras dos homens valem o que valem, mesmo com o deus cifrão no comando de muitas crenças que tanto mal fizeram e fazem a quem se deixa iludir pelo canto da sereia… esta que, na mitologia, é um ser devorador de carne humana. Aqui vale pelos sereios e sereias que devoram o corpo e alma de quem por eles se deixa fascinar.

A saudosa D. Helena Jefferson de Souza, Venerável Contraparte do Mestre JHS, o Professor Henrique José de Souza, repetia amiúde o conselho: VIGILÂNCIA DOS SENTIDOS! E eu só posso reiterar o constante, que vai dar ao mesmo, de OLHOS E OUVIDOS ALERTA!

A pedagogia psicossocial da COMUNIDADE TEÚRGICA PORTUGUESA, respeitando a inteira liberdade de pensamento e acção dos seus membros, onde o colectivo interage sem pressões nem opressões de espécie alguma, vem a impossibilitar toda a hipótese de converter-se numa maníaca «fábrica de falsos profetas e messias mancos», o que, mesmo assim, insatisfaz a alguns desejosos de poder e mando que por ela têm passado.

Neste tempo de acentuada crise «neo-espiritualista» acerca da qual e dos seus causadores desde há muito é do conhecimento público a opinião da Comunidade Teúrgica Portuguesa, acabei dando com uma antiga reportagem no matutino Correio da Manhã (17.2.93), assinada pelo jornalista Victor Mendanha, a qual expressa opinião idêntica à da C.T.P. sobre este fenómeno psicossocial. De maneira que será nessa reportagem que me basearei para descrever quanto se segue, num momento em que nenhum Santo ou Grande Iluminado, seja Jesus, a Virgem Maria ou outro Maior do Género Humano, escapa ao limbo poluído e poluidor das «mensagens e canalizações mediúnicas» que, não raro, nem isso são: tão-só exercícios fantasistas de dar forma a imagens oníricas do subconsciente, isto quando não se inventa simplesmente para enganar e roubar o próximo.

Esta questão já era abordada por René Guénon na “crise da moderna civilização ocidental”, mas não é só o Ocidente mas também o Oriente, todo o mundo que está atravessando uma das suas grandes crises de identidade, equivalente a uma Iniciação Planetária de passagem de um estado de 4.º Grau para o 5.º, equivalente à transição da 4.ª Ronda Terrestre para a 5.ª de Vénus do mesmo Globo. De modo idêntico, também o ser humano atravessa as suas crises de crescimento, seja físico, psíquico ou mental. Tudo o que se pode observar na criatura humana pode se encontrar no Globo e no Universo, de uma forma ou de outra, visto o “Tudo e o Todo estarem interligados”.

Se bem que René Guénon fosse um homem admirável, notável tradicionalista e cabalista, os seus passos desacertaram com os do movimento cíclico da Evolução Planetária, pois voltou-se do Ocidente para o Oriente ao contrário da Grande Fraternidade Branca que já se encontrava, justamente na sua época, a promover a transferência dos valores humanos e espirituais do Oriente para o Ocidente com o grande Movimento Teosófico.

Esse Movimento, liderado por Helena Petrovna Blavatsky, como se sabe, tinha como objectivo chegar a um certo ponto do Sudoeste dos Estados Unidos da América do Norte, a El Moro, próximo à cidade de Cimarron no Estado do Novo México, naquela época representativo de toda a Evolução no Hemisfério Norte.

Se a Missão Teosófica de Blavatsky não alcançou o êxito desejado nos E.U.A., isso deve-se a múltiplas razões, dentre elas a falta de apoio ou compreensão dos sectores espiritualistas europeus e, sobretudo, dos norte-americanos ao trabalho de sementeira espiritual dessa Grande Mestra que, perseguição após perseguição, uma mais injusta e cruel que a outra, foi obrigada a regressar ao Oriente e a interromper, adiar a sua Missão.

Além disso, as experiências atómicas realizadas pelo Governo norte-americano, nos inícios da década de 50 do século XX, no vasto deserto daquela região privilegiada do Novo México, prejudicaram seriamente e invadiram, devido à radiação libertada, o espaço interior, subterrâneo da Fraternidade Jina dos Rosacruzes de El Moro, a qual seria suposto dar o grande impulso para o surgimento da 6.ª Sub-Raça desta 5.ª Raça-Mãe Ariana, usando a terminologia teosófica.

A partir desse momento dramático, a América do Norte ficou como que “viúva dos Deuses” indo activar-se, antes do seu tempo próprio, o Grande Posto Representativo da América do Sul, no Brasil, no Roncador em Mato Grosso, passando essa Missão de fundação da 6.ª Sub-Raça e da 7.ª simultaneamente, logo a ver com o futuro imediato do Mundo, para aí, de modo a servir de apoio à fusão dos valores iniciáticos e civilizacionais entre o Oriente e o Ocidente.

Desde então a Missão Espiritual do Brasil revestiu-se de extrema importância nos meios espiritualistas contemporâneos, graças ao pioneirismo do trabalho de sapa da Sociedade Teosófica Brasileira liderada pelo Professor Henrique José de Souza, brasileiro de ascendência lusitana. Mas também Portugal já desde muito antes, o que não significa que aqui, no solo pátrio, importemos ou copiemos os exclusivos valores brasileiros do dia-a-dia para atingir a compreensão de tão importantes conhecimentos, pois cada um pode continuar a ser o que é dentro do seu espaço pessoal e civilizacional, porque semelhantes valores estão acima de quaisquer características nacionais, pessoais, etc.

Aliás, pode-se dizer mesmo que, em termos esotéricos, Portugal e o Brasil são uma e mesma coisa, agindo e comportando-se como se fossem duas conchas de uma mesma balança, duas faces de uma mesma moeda… sim, moeda ou moneda expressando a Mónada Imortal cujo Centro Único é Shamballah, o Fiel da Balança da Lei, e por isso são estes Países que passam por esta Obra Divina, graças à marcha precessional dos Ciclos de Evolução Universal, e não a Obra Divina, intemporal não-geográfica, que passa por eles…

Note-se: os portugueses, provenientes de um espaço geográfico minúsculo, desde cedo encetaram diáspora, espalharam-se por todo o Mundo, miscigenaram-se com todos os povos e deixaram os seus filhos adaptar-se, bem como eles próprios, em grande medida, aos usos e costumes dos naturais, assimilando-os, criando novas experiências, etc. No Brasil dá-se precisamente o inverso, mas essencialmente o mesmo: num espaço geográfico gigantesco, maior que a Europa, estão a concentrar-se e a misturar-se todas as raças, costumes, religiões, filosofias, etc. Não é admirável?

O protótipo do Homem Universal, o Homem-Síntese, está no Português como anseio, como ideia, e no Brasileiro como concretização ou realização desse Inconsciente Colectivo, numa escala gigantesca, à medida continental. Donde, não se dever confundir a Missão Iniciática de Portugal com a do Brasil, mesmo que se completem como início e final de uma e mesma Missão Espiritual à escala planetária…

Enquanto isso, continua a grassar a grande crise de identidade no mundo, o que é oportuna e oportunistamente aproveitada por toda a espécie de messianismos, seitas, animismos, etc., a divulgarem «mensagens» da Virgem Maria, do Arcanjo Miguel, de Jesus, de pressupostos extraterrestres, etc., e até de organizações fantásticas, claramente inspiradas em novelas ficcionistas ou em cinematografia ficcional, mas com nomes pomposos pretendendo anular as Escrituras Antigas para impor escrituras novas… levando muitos a pensar, ante o caos geral e a esperança cada vez mais rara, que é já o “fim do mundo”.

Todavia, contrariamente ao que muitos acreditam, não se trata do fim do mundo mas da passagem de um grande Ciclo Planetário para outro, dos muitos em que é repartida a Vida Universal, e mesmo que já se tenha adentrado o novo Ciclo as influências do antigo persistirão por mais algum tempo, até que a consciência do Homem integre os novos valores. Desse modo é que se fala hoje muito – ainda que muitíssimo mais de modo ininteligível e fantástico, dando forma ao absurdo – da Idade do Aquário, a Nova Era, etc.

Realmente sucede que muita gente, desejando fortemente a mudança para algo que pressente instintivamente mas que não consegue compreender mentalmente, deixa a imaginação correr ao acaso, cair no fatalismo e tornar-se, não raras vezes, vítima fácil dos que pretendem explorá-la psíquica e materialmente, dos messianistas de todo o tipo, etc. O grande teósofo espanhol Mário Roso de Luna dizia mesmo que «o messianismo é o achaque dos débeis que esperam de outros a salvação que só pode vir de si próprios».

É assim que, na mesma linha, ultimamente têm surgido grupos iniciados em «reikis siderais» (!!!) que vendem «iniciações cósmicas» (!!!) por alto preço, a pregar colisões de planetas, cometas e asteróides com a Terra, o que em princípio pode ser cientificamente possível. Certamente que sim, mas se a Matemática e, dentro dela, a Teoria das Probabilidades são exactas, poderão não o ser as premissas ou pressupostos que entram nos cálculos. Em boa verdade, hoje está-se numa civilização tecnocrática e tecnológica que vive basicamente dos estímulos físicos, e então, quando algo parece ameaçar as estruturas físicas, advém o horror pelo desconhecido, o horror à morte, à aniquilação, que são coisas que não existem verdadeiramente… O que é a morte física senão o fim de mais um ciclo da vida do Eu Imortal, que voltará a nascer vezes sem conta até completar todas as experiências necessárias à sua realização neste mundo?

Se, para além do físico, aprender-se a cuidar também da sensibilidade e da inteligência como “corpos” que são, certamente haverá mais lucidez, mais serenidade e menos angústia quanto ao futuro e, sobretudo, mais acções em todos os quadrantes para dotar os povos de condições de vida mais consentâneas com a qualidade de seres humanos.

O medo da morte nasce do desconhecimento da vida e das leis que a regem. Muito do que acontece de nefasto ao Homem é desencadeado pelo seu próprio desequilíbrio com a Natureza, ou seja, com a Vida Universal, que nele se manifesta como consciência, inteligência, etc. Se ele passar a estar em equilíbrio com o seu Deus Interior, que é dizer, consigo mesmo, está-lo-á com a Natureza. Ter que ter medo de quê, então?

Por inexistir esse equilíbrio vital como o único factor capaz de estabelecer a harmonia entre Homem-Natureza, é que se pretende substituir a ele o factor das profecias sobre profecias, todas fatalistas reveladoras do estado neurológico depressivo, gerando o hipocondríaco que resvala sempre para o maníaco, de quem as emite, respeitantes ao «fim do mundo»… Mas, em boa verdade, desconheço profecias minimamente credíveis sobre o «fim do mundo» como aniquilação pura e simples de todas as formas de vida na Terra. Desde já adianto que a profecia é um campo muito sensível, muito sibilino e propenso a várias interpretações, para cuja correcta decifração são necessárias as chaves que presidem à sua criação.

De resto, toda a gente pode fazer profecias… ou antes, dizer-se profeta. Vamos dar crédito a todas as profecias, venham de onde vierem e em nome de quem vierem, deixando que outros conduzam a nossa vida, ou vamos utilizar a nossa inteligência, a nossa vontade própria e a nossa sensibilidade para nos conduzirmos como seres pensantes? Esta, sim, é a Filosofia de Vida apregoada por todos os Grandes Iluminados, Sábios, Génios e Avataras que o mundo já conheceu: confiar em si mesmo em primeiro lugar, embora sensível a tudo o que está à sua volta, aprendendo com tudo e com todos, com humildade, sem preconceito.

É comum ouvir profetizar em nome dos deuses, dos mestres, etc., quaisquer que eles sejam, mas é raro, raríssimo deparar com atitudes e comportamentos de natureza divina, superior, por parte dos seus pretensos intérpretes. Ipso facto.

Donde se poderá concluir que vive-se ainda sob a influência dum período intercíclico repleto de falsos messias, profetas mancos e iniciados falsários, indo confirmar aquelas outras palavras de Jesus Cristo na Escritura: “ACAUTELAI-VOS, NO FINAL DOS TEMPOS (Ciclo) MUITOS SE DIRÃO POR MIM MAS SERÃO CONTRA MIM. SERÃO COMO LOBOS TRAVESTIDOS COM PELES DE CORDEIROS NO MEIO DO REBANHO (Humanidade)”. Ainda assim, inibo-me completamente a dar nomes e a citar factos que desde logo possam identificar os seus intervenientes, pois a ninguém cabe o direito de julgar os outros ou de colar etiquetas na testa de alguém, especialmente em público, pois isso constitui um grave atentado, ou censura, à boa reputação a que todos têm direito. Então, longe de mim apontar que “A” é falso e “B” é verdadeiro. Nem poderia nunca a Comunidade Teúrgica Portuguesa alicerçar o seu bom nome em detrimento de todos quantos sentem, tal como nós, ser sua missão a de valorizar e dignificar a vida humana em todos os seus quadrantes.

Mas todas essas coisas são naturais numa época em que os valores estão em transformação, e em que tudo é posto em causa, sobretudo porque se verifica hoje uma divulgação maciça de todo o género de conhecimento, num processo em que cada um é livre de interpretar o que quiser como muito bem entender. É assim, por exemplo, que a “partícula mínima da matéria”, o quantum, vê-se em breve transformada “quantum estelar”, porque o nome soa bem e o delírio pode campear à-vontade… Parece algo caótico, e na realidade é, mas também é algo admirável, por se tratar do nascimento de uma nova mentalidade – ainda em “bruto” ou não apurada – que não está agrilhoada a dogmas de qualquer espécie.

É claro que se verificam excessos mas, na adolescência da espiritualidade, como não haver excessos? Então, as curiosidades acabam por ser estimuladas e, dado o hábito muito ocidental de querer e fazer as coisas depressa, ou de comodamente as obter em troca de um simples pagamento, toda a gente passa a julgar que se faz um Iniciado nos Mistérios Maiores da Natureza por simples idas a “cursos pagos” ou “lendo muitos livros”, sem mais e qualquer disciplina.

Querer ser mais e melhor é uma aspiração admirável, mas querer ser algo supostamente superior à força, a contra-relógio, é enganar-se a si próprio e, assim, enganar todos os que seguem atrás. Mostrar sucesso aos olhos dos outros no campo espiritualista, iniciático, etc., não corresponde, de forma alguma, aos valores defendidos pelas Escolas de Iniciação genuínas, porque a transformação interna não se confunde com valores económicos, empresariais, quantitativos, etc. Enfim, a Espiritualidade não cabe nos gráficos.

Ainda assim, nestes dias conturbados por que passa o Mundo, permeio às verdadeiras Escolas de Iniciação coexistem as falsas como autênticas correntes de contra-Iniciação e contra-Tradição, mas, como dizia Jesus, “pelos frutos conhecereis a árvore”!… Por Colégios de Iniciação genuínos entendem-se todos aqueles que, ao longo da História, foram criados ou mantidos pelos Avataras e Grandes Iluminados ou Adeptos da Boa Lei, independentemente de serem ou não conhecidos da ciência historiográfica actual. De notar que essa manutenção não é eterna, ou seja, uma dada Instituição desse tipo tem uma vida sempre limitada: pode ser 50 anos, um século, dois séculos ou mesmo mais, mas o seu fim é sempre certo.

O que acontece depois é que alguns “discípulos menores”, laicos presos às rotinas do pensamento e não percebendo as mudanças operadas, vão tomando as rédeas dessas Instituições, mantêm-lhes os nomes – ou inclusivamente criam novas Associações dando-lhes os mesmos e prestigiados nomes de outras mais antigas – mas a sua actividade não é mais, absolutamente, do que “restos de Iniciação”. De maneira que esses estudiosos persistentes no Passado em detrimento do Futuro, são incapazes de iniciar os seus discípulos na Iniciação Real, mas tão-somente na chamada Iniciação Simbólica, quanto muito. Isto porque a “coisa viva” já não está lá, já passou para outro lado, e por isso são “restos”, o que não significa que não possam ser de extrema utilidade aos que começam a dar os primeiríssimos passos no Caminho da Iniciação, como alternativa às religiões de Estado, às rotinas intelectuais, etc.

Mesmo isso absolutamente nada tem a ver com livraria e mensagens, escritas ou orais, «psicografadas ou canalizadas mediunicamente» de alegados santos dos santorais cristão, hindu, budista, etc., a par de nomes como Morya, Kut-Humi, São Germano, etc., onde a Verdadeira Iniciação não tem lugar e sim a confusão caótica de se julgar o singular perfeito igual ou simpático ao plural imperfeito, como se a qualidade e a unidade fossem iguais à quantidade e à disparidade. Tampouco tem a ver com “curas estelares” e coisas do género arvoradas por alguns como “a missão da sua vida”, a de ajudar (isto é louvável) e de curar os outros – isto é duvidável, pois que muitos carregam doenças psicofísicas, mais ou menos notórias, o que me reporta àquelas palavras de Jesus Cristo: “MÉDICO, CURA-TE A TI MESMO”! Quer dizer, como é possível uma pessoa doente, logo, portadora de um prana ou “energia vital” doentia cuja vitalidade orgânica remete para uma carência notória da mesma, poder curar a doentes sem mais nem menos? Não confere…

Como não confere o próprio nome «mensagens psíquicas», que diz tudo. Se são psíquicas, ou se têm a ver com o Mundo Psíquico, como ver nelas a influência dos referidos Adeptos da Boa Lei, fidedignas expressões do Espírito, do Mundo Espiritual? Existe uma enorme confusão entre “espiritual” e “psíquico”, começando pelos próprios espíritas e demais animistas, para os quais todas as entidades que se manifestam nas ditas sessões psíquicas são «espíritos», quando não são mais do que habitantes do “mundo dos mortos” ou Plano Astral, que é um simples prolongamento deste Plano Físico e que nada tem de Espiritual, Transcendente ou Superior. Conhecedor profundo das Leis da Natureza, nenhum Adepto Real, Mestre de Sabedoria, etc., utiliza um “médium psíquico” para se manifestar, por conhecer como poucos os efeitos nefastos da mediunidade para o próprio “médium”, tanto física como emocionalmente.

Inclusivamente tenho lido alguns trechos atribuídos ao referido tipo de «mensagens psicografadas ou canalizadas» (como actualmente é moda dizer-se) e, sem qualquer intenção de hostilizar os seus possíveis leitores eventualmente simpatizantes desses métodos, não vi neles nada de novo, nada que não tenha sido já escrito ou falado nos meios esotéricos de ontem e de hoje, aparte o rol imenso de fantasias e invenções linguísticas, geográficas, astronómicas, etc. Ora os Mestres de Sabedoria não se especializam em copiar-se uns aos outros, ou em repetir indefinidamente o que ensinaram no Passado, pois se assim fosse não haveria dinâmica alguma no Conhecimento Iniciático, não existiria Evolução.

Bem sei que as mensagens «recebidas» nas clássicas sessões espíritas diferem no método e no conteúdo dessas «canalizadas», ainda que no fundo ambas vão dar no mesmo. Aqui, devo chamar a atenção para os perigos da fantasia… A mente humana possui uma riqueza extraordinária e um enorme poder de encadeamento e reprodução autónoma de imagens a partir de um simples estímulo, razão porque o nosso Mestre, o Professor Henrique José de Souza, chamava a atenção dos seus discípulos para “não tomarem a nuvem por Juno”, aconselhando reiteradamente a VIGILÂNCIA DOS SENTIDOS.

Contudo, apesar de utilizarem na sua generalidade uma linguagem algo adolescente e até ingénua em muitos casos, também é verdade que em nenhuma dessas «mensagens» li ensinamentos reprováveis ou moralmente duvidosos. Mas atribuir tais trabalhos ou alocuções a Mestres de Sabedoria parece-me até um insulto a tais Seres, os quais merecem de todos o maior respeito e que sempre ensinam aos seus discípulos a tornarem-se seres livres e emancipados através de princípios activos como “sejam iguais a Mim”, e nunca a ser cordeirinhos dóceis e passivos através de conselhos do género “esperem pela próxima mensagem”…

Leiam-se os grandes monumentos da literatura universal, como o Bhagavad-Gïta, atribuído a Ieseus Krishna, o Tao Te King, de Lao Tsé, os ensinamentos atribuídos a Jesus Cristo no Novo Testamento – apesar das múltiplas mutilações e enxertos efectuados aos textos originais –, os Diálogos de Platão e ainda os textos atribuídos a Hermes o Trimegisto, as Cartas dos Mestres de Sabedoria editadas pela Sociedade Teosófica de Adyar, os estudos sobre Maçonaria do grande Joseph Marie Ragon, o monumento literário, filosófico e científico que é toda a obra de Mário Roso de Luna, etc., etc., e compare-se a vivacidade, a originalidade, a autoridade de cada um deles com alguma dessas «mensagens» atribuídas aos verdadeiros Mestres. Cada um, se quiser, faça a comparação por si mesmo, e certamente aperceberá não existir qualquer semelhança.

Sem dúvida que o principiante no Caminho Espiritual em sua busca está permanentemente sujeito a cair em grandes logros e erros, uns induzidos por ele próprio, e outros aduzidos por outréns. O extraordinário teósofo, Sebastião Vieira Vidal, desde cedo discípulo do Professor Henrique José de Souza, dizia que «o (neo) espiritualismo é o ambiente onde existe o maior número de falsificações porque é o reino do improvável», não significando que não tenha probabilidades de existir ou de fazer parte da realidade mas, sim, porque não pode dar provas imediatas da veracidade de um dado conhecimento adquirido.

Daí, ser facilmente explicável a proliferação de mestres, avataras, gurus, instrutores vindos do espaço sideral e messias que dão revelações públicas ou se escondem para não serem reconhecidos. Neste sentido, hoje existem cursos de todo o género e literatura de todos os feitios, toda a matéria possível à venda, acessível a qualquer pessoa com bom sentido de liderança, expressão fácil e cuidada e alguma cultura, para se tornar um iniciado, um guru, um mestre aos olhos do mundo geralmente desconhecedor de todas estas matérias.

Encaixa também nisso a tão propalada vinda do Novo Avatara ou Messias (Paracleto, Maitreya, etc.), cada qual reivindicando para si a exclusividade do Advento. Mas este é um assunto muito sério…

Correndo o risco das minhas palavras serem demasiado sibilinas, ainda assim direi que para alguém reconhecer um Avatara deverá tê-lo despertado antes em si mesmo… Se for assim, não é necessário, como nas aventuras que devorávamos na nossa meninice, ter um mapa do tesouro, porque caso haja, no nosso interior, algum valor espiritual, seremos atraídos para o Tesouro, ou seja, para o Avatara, para o Messias, para o que lhe quiserem chamar desde que corresponda à medida exacta. E, normalmente, Eles, os Avataras, não publicam nenhum itinerário…

Tenho dito.

Anúncios