Alinhamento megalítico de Carnac

O núcleo megalítico de Carnac, situado na comuna de Morbihan, é o mais antigo da Europa e o mais extenso do mundo. Trata-se de um conjunto arqueológico datado do ano 1000 a. C. (II-I Milénio) constituindo um testemunho fascinante da cultura neolítica, composto por dólmens e 3000 menires em três grupos de alinhamentos repartidos por mais de 4 quilómetros de extensão.

O primeiro grupo, chamado Kermario, sendo o mais belo e conhecido, é composto de 10 fileiras ou linhas comportando um total de 982 menires, e nele que estão plantadas as maiores e mais altas pedras do alinhamento de Carnac, algumas superando os 7 metros de altura. O segundo grupo, o conjunto Le Menec, compreende 111 fileiras compostas por 1099 menires alinhados ao longo de 1165 metros de comprimento por 100 de largura, havendo menires que chegam a medir 4 metros de altura, vendo-se também túmulos, círculos de pedra e altares. Finalmente, o terceiro conjunto chamado Kerlescan, totalizando 540 menires repartidos por 13 fileiras, encontrando-se na sua extremidade um cromeleque de 39 menires com um grande menir no centro, chamado Gigante do Mano, com 6,5 m de altura.

O menir, por vezes de tamanho elevado, é uma pedra cravada verticalmente no solo (ortostáto). Daí que o seu nome menir, adoptado pelos arqueólogos dos século XIX, signifique em bretão antigo “pedra longa” (men+hir, idêntico ao gaélico maen hir, com o mesmo significado). No bretão moderno chama-se-lhe peulvan, e em português perafita, do latim pedra ficta, “pedra fixa, fincada”.

Aqui, em Carnac, os alinhamentos de menires possuíam dupla finalidade: uma, a de serem orientadores de locais, estando fincados sobre linhas telúricas a guisa de agulhas de acupuntura destinadas a revigorarem determinada zona, aqui o espaço agrícola de Carnac para que o terreno fosse sempre fértil, próprio para sementeiras e fartas colheitas. Ao mesmo tempo, os alinhamentos serviam de vedores do avanço das areias e do mar, o que sempre resultou e ficou provado que assim era quando, há cerca de 70 anos atrás, uns lavradores decidiram retirar alguns menires que estavam incomodando a sua actividade de lavoura. Pouco tempo depois, o mar avançou por essa fractura aberta inundando os campos. Reparou-se o mal recolocando imediatamente os menires retirados, e o mar recuou imediatamente.

A segunda finalidade dos alinhamentos de menires, destinava-os ao culto da fecundidade, tanto dos solos para os tornar produtivos quanto das mulheres para que fossem  férteis, enquadrando-se assim no tipo de culto à Grande Deusa-Mãe que na Pré-História se reconhecia como a Divindade Primordial nutridora dos seres vivos, portanto, a própria Natureza viva em cujos fenómenos geológicos e atmosféricos reconheciam as manifestações da própria Deusa-Mãe. Os menires de formato fálico ficam assim explicados: expressam a fecundidade da Natureza e os prodígios da fecundação, o que só pode ser representado pelo membro viril masculino.

A sedentarização das tribos neolíticas, praticando a pecuária e a agricultura, levou-as a um estado maior de civilização por interacção social mais próxima. Assim, criaram o culto ao seus mortos e construíram enormes sepulturas colectivas, estelas gigantescas, e fileiras de menires, isolados ou próximos. Sem dúvida que a Humanidade de então aprendeu a deslocar essas grandes pedras graças a roldanas, cordas e alavancas, tendo numerosas experiências actuais demonstrado que com poucos homens mas com a engenharia adequada, é possível deslocar grandes pedras pesando toneladas.

Servindo de calendário sazonal e astronómico, marcando as estações agrícolas, os alinhamentos megalíticos de Carnac por certo eram indispensáveis para os povos pastores e agricultores que aqui viveram nos primórdios da civilização humana. Que povos eram esses e como apareceram no Sul da Bretanha?

Tratar-se-iam dos Milésios (nome derivado de “Mil”, em referência à data da sua aparição no ano 1000 a. C.) ou Milesianos provindos da Península Ibérica (Galiza e Portugal), vindo dar origem este extraordinário conjunto lítico da Idade do Bronze. Aos Milesianos ou Mile Espaine se uniriam depois os celtas gaélicos fundadores da actual Gália. Após a conquista desta pelos romanos, a Bretanha passou a fazer parte da Armórica (Aremoricae, “que está defronte ao mar”). Cerca do ano 500 d. C., os bretões da Ilha Grande Bretanha, sendo atacados pelos anglo-saxões, emigraram para aqui, a Pequena Bretanha, trazendo os seus usos e costumes célticos, que cedo incorporaram-se nos dos autóctones também celtas, que nas Côtes-du-Nord, mas também nas do Sud, eram conhecidos como naturais do País de Dinan, o “Povo da deusa Dana”, isto é, a Grande Deusa-Mãe desses povos primitivos emigrados da Ibéria para a Hibérnia (Irlanda) mas também para a Bretanha, Grande e Pequena.

São numerosas as lendas locais que tentam explicar estes alinhamentos megalíticos de Carnac, porque durante muito tempo a origem destas estruturas permaneceu desconhecida. A maioria das lendas liga-se à fertilidade representada pelos menires, porque ela perpétua a lembrança dos primitivos cultos sagrados. Há a lenda de São Cornélio, que conta a má aventura dos legionários romanos que quando quiseram ocupar este espaço foram imediatamente petrificados e transformados em menires. O significado é o seguinte : o invasor romano foi dominado pela cultura local do invadido celta. Por norma, o mais forte fisicamente é dominado pelo mais fraco, cuja fortaleza reside numa cultura superior à daquele.

Só a partir de 1750 é que começou a haver interesse científico pelos alinhamentos de Carnac e as foram emitidas as primeiras hipóteses sobre a sua origem e finalidade. O conde de Caylus, em 1764, afirmava que os megálitos eram anteriores à época dos gauleses e dos romanos. F. de Pommereul, em 1790, por sua vez emitiu a hipótese de uma origem celta que durante muitos anos ocupou as reflexões arqueológicos sobre este conjunto megalítico. Mas no início do século XX, James Miln e Zacharie Le Rouzic, que estiveram na origem do Museu da Pré-História de Carnac que leva os seus nomes, Miln-Le Rouzic, introduziram novas interpretações fundadas na arqueologia. Eles verificaram e tentaram provar que o monumental conjunto lítico estivera ligado à prática de cultos, ou seja, à veneração de alguém ou de alguma coisa, o que já ficou clarificado atrás.

Durante a Ocupação, também a ideologia nazi interessou-se pelos alinhamentos de Carnac, vendo um sinal da «indo-germanização» da região pelas populações exteriores vindas do Norte para o Mar. Chegou a ser enviada uma missão ao local no Outono de 1940 e realizados levantamentos topográficos aéreos, com a ajuda da Luftwaffe. Essas pesquisas foram dirigidas directamente por Alfred Rosenberg, o principal ideólogo do ocultismo sinistro do partido nazi. Mas o decurso da guerra interrompeu definitivamente essas pesquisas nazis.

Depois de 1991, este sítio arqueológico foi fechado ao público e restringido o livre acesso, a fim de o preservar e conservar. Com efeito, o livre acesso provocava, sobretudo na época estival, numerosas degradações dos menires (fracturas e quedas) e do terreno. Hoje é possível visitar-se mas com marcação prévia e número restrito de visitantes de cada vez, tudo sob o olhar atento de zelosos vigilantes, muitos deles os próprios agricultores da região.

Túmulo de Saint-Michel em Carnac

Quem vem a Carnac, passando no meio dos alinhamentos de menires e pouco antes de chegar à povoação, avista à esquerda o túmulo de Saint-Michel. Trata-se de um monte artificial em cujo cume foi erigida em 1663 uma capela consagrada ao dito Arcanjo (possivelmente nascida de alguma ermida medieval entretanto desaparecida), a qual foi destruída em 1923 e reconstruída em 1927 semelhante à original. Vem daí o nome Saint-Michel. No seu topo, verdadeiro belvedere donde se domina toda a região, tem-se uma paisagem deslumbrante de Carnac.

Esta verdadeira colina artificial com mais de 30.000m3 medindo, a partir da sua base, 125 metros de comprimento por 60 de largura e 10 de altura,  é de facto um túmulo neolítico (tumulus) datado de entre o milénio 5000 e 3400 a. C. Este monumento é considerado do tipo dos tumulus carnacéens, pequena série de monumentos funerários ligada ao fenómeno mais geral dos tumulus gigantes.

O termo latino tumulus designa uma eminência artificial, circular ou não, cobrindo uma sepultura. Por vezes emprega-se a designação cabeço (tertre), quando é feito só de terra, e quando é elevado só com pedras chama-se cairn, “montículo rochoso artificial”. Este tumulus de Saint-Michel é feito de terra e pedras, e por ser uma câmara sepulcral megalítica bem elaborada é identificada como dólmen, por certo destinando-se a jazigo funerário da elite social do povoado neolítico de Carnac.

As primeiras escavações arqueológicas neste túmulo de Saint-Michel junto às Rochas de Carnac, deveram-se a Galles e Lefebvre em 1862-64, sendo a campanha seguinte dirigida por Le Rouzic, de 1900 a 1907.

No interior deste tumulus, há uma série de galerias com muitas covas anexas em torno do túmulo principal, rodeado por uma quinzena de pequenas sepulturas,  assim como também um corredor perto da extremidade oriental. Essas galerias foram consolidadas para puderem visitar-se com segurança, mesmo assim só acessíveis mediante marcação prévia no Museu de Carnac. As diversas covas desembocam no corredor central comprido e estreito, vendo-se uma capa térrea espessa amarela grisalha cobrindo tudo em volta da parte oriental do dólmen. Uma carapaça pedragosa superficial completa a estrutura e explica a sua boa conservação resistindo à erosão.

A cova central é característica das criptas dos grandes tumulus carnacéens. Construída sobre o solo, essa câmara «ciclópica» mede 2,4 m de comprimento por 1,4 m de largura e 0,9 m de altura. Dentro dela haviam 11 machados de pedra polida (de 37 cm de altura por 19 cm de comprimento, e um outro mais modesto de 9,7 cm em piroxenito), 25 machados em fibrolite, 97 pedras discóides e 10 pendentes piriformes em variscite. Acrescentam-se a isso 40 pequenas pedras discóides feitas de ossos de animais. Várias ossadas humanas e de animais foram igualmente recolhidas nas diversas covas, como também fragmentos de cerâmica do Neolítico Médio na zonal oriental do dólmen.

Tem-se discutido muito sobre a idade deste monumento, a sua cronologia relativa às covas laterais à sepultura central, e à finalidade do monumento parecendo ter tido a dupla função de templo e depois túmulo, de acordo com os seus dois tipos de estruturas. Pode muito bem ser assim, pois nessa época da “pedra polida” (neolítico) não raro um templo também servia de túmulo.

As pedras discóides encontradas no interior do tumulus sendo representações do próprio Sol, como círculo luminoso, pressupõem ter havido aqui um culto solar dos sacerdotes celtas, os druidas, ao deus Belenos ou Bel, que quer dizer «Senhor da Luz», identificado ao próprio astro-rei. Este deus e a deusa Dana ou Danu conceberam um filho que veio a ser o deus Lug, o «Luminoso», considerado a encarnação do próprio Espírito do Sol na Terra e que foi a divindade mais importante do panteão lígure, celta e celtibero.

Lug era o deus da vida por excelência, eternamente jovem e talentoso, dominando diversos campos, desde a Oratória à História, da Agricultura à Metalurgia, da Alquimia à Magia. Cantor e músico eternamente jovem, os diversos títulos que foram dados a Lug reflectem a sua importância, como esses de Maicnia (jovem guerreiro) e Samildanach (possuindo muitas habilidades). Enquanto deus solar e guerreiro, o seu atributo é a lança mágica (representando o fogo), sendo-lhe associados o lince e o corvo, esta a ave da memória e da profecia.

Quanto ao lince, o seu nome celta é o homónimo exacto do deus Lug: lug, genitivo loga. É possível que tenha sido considerado como um símbolo de Lug por causa da sua visão penetrante, dizendo a lenda que as cordas da harpa celta eram feitas de tripa de lince, sendo os seus sons considerados divinos. Uma crença medieval atribuía ao olhar do lince ou do lobo-cerval o poder de penetrar muros e muralhas; várias gravuras da Renascença representando os cinco sentidos, figuram a visão como um lince. Acreditou-se também que o lince percebia sobre as imagens o reflexo dos objectos que lhe eram ocultos, ou seja, escondidos da sua visão.

A festa propiciatória de Lugnasad, celebrada a 1 de Agosto, quando o signo solar do Leão se encontra no auge, dirigida ao culto dos mortos e à celebração da Natureza para fomentar boas colheitas, diz-se que foi instituída pelo deus Lug.

Com a cristianização da cultura celta, impondo-se a esta aquela como se vê neste túmulo carnaceano, com a capela por cima do dólmen, esse deus solar foi substituído por um Arcanjo também solar, Michel ou Miguel. Celebrado pela Igreja Católica em 29 de Setembro, este Arcanjo é considerado chefe das milícias celestiais e o que está mais próximo de Deus, a ponto de se confundir com a Sua Luz, donde a prerrogativa latina para o mesmo: Qui ust Deus, ou seja, Quem é Deus. Em hebraico, como Mikael é assinalado Maleak-Elohim, isto é, Aquele no qual é Deus.

Como Miguel também Lug se confundia com a Luz de seu Pai Bel. A estatura quase ou mesmo ciclópica de ambos os deuses, é sinal da sua elevada posição na cumeeira dos respectivos panteões deíficos representando para os mortais a própria Divindade Suprema. Sendo «ciclópicos», ciclópicas deveriam ser as edificações consagradas aos mesmos, particularmente a Lug, donde as proporções agigantadas do tumulus seu e do homónimo cristão.

Desse facto também provirá a origem do nome Carnac, de raiz celta car, “pedra”, que os antigos latinos identificavam à chorea gigantum, isto é, a “dança do gigante”. Como dança, possivelmente seriam essas sagradas em honra de Lug, e como gigante seria o próprio Lug, representado no gigantismo das pedras talhadas, os menires.

Finalmente, a elevação da colina artificial vem a expressar o próprio Monte Belos ou Bel, a “Montanha do Sol” a cuja Divindade elevam-se as almas dos defuntos para participar e ser Nela, antanho conduzidas post-mortem por Lug e hoje por Miguel, ambos divindades psicopompas, isto é, intermediárias entre o mundo dos vivos e o oceano dos mortos.

Os animais de São Cornélio

Quem visita a igreja de São Cornélio de Carnac não deixa de admirar-se e interrogar-se pelo facto deste santo aparecer ladeado por um boi e uma vaca na fachada do edifício. Quem era São Cornélio? Que tem o gado bovino a ver com ele? Haverá alguma relação com algum tipo de culto mais antigo, em que Cornélio possa ser decalque iconográfico de algum deus primitivo? Enfim, paira a pergunta geral: que significa tudo isso?

Na fachada desta igreja de Carnac, Cornélio aparece ostentando a cruz pontifical porque foi Papa desde 6 ou 13 de Março do ano 251 até Junho de 253, tendo sucedido a São Fabiano. A Igreja Católica dedicou-lhe e ao seu amigo São Cipriano o dia 13 de Setembro, se bem que tradicionalmente lhe fosse consagrado o 16 de Setembro, data do seu martírio segundo São Jerónimo. Iconograficamente, é atribuído a Cornélio o corno, em referência à origem do seu nome em latim: “corno” ou “chifre”. Este poderá ser a trompa de batalha usada no seu tempo na guerra contra os godos, feita de um chifre de boi ou de vaca. Com efeito, o nome Cornély provirá de corne e de leos, “povo”, como quem diz, o corno ou a força do povo.

Em A Lenda Dourada, obra latina do século XIII escrita por Jacques de Voragine, este autor dá uma interpretação teológica ao nome Cornélio, dizendo que significa “aquele que entende a circuncisão”. Com efeito, este Papa destacou-se pela advocação moral da virgindade monástica e da fidelidade conjugal, ambas distintas mas lícitas e necessárias. Algumas das suas relíquias foram levadas para a Alemanha durante a Idade Média, sendo a posse da sua cabeça reivindicada pelo mosteiro beneditino de Kornelimünster Abbey, próximo a Aachen. Na Renânia, ele é considerado padroeiro dos namorados. É também, universalmente, o santo padroeiro dos agricultores e do gado. É invocado contra a epilepsia e as aflições relacionadas com os nervos e os ouvidos.

Anteriormente a esse Papa houve um outro Cornélio, nada menos que o protagonista bíblico de dois dos capítulos dos Actos dos Apóstolos, X e XI. Aí é contada a sua história e o episódio de uma visão conjunta com Pedro, onde um Anjo lhes apresentou um grande mantel sustido pelas quatro pontas cheio de animais, répteis e aves, e concitou que os sacrificassem e comessem, ao que Pedro alegou não comer alimentos manchados e impuros. Então, a voz celeste repreendeu Pedro, «que não chamasse impuro ao que Deus purificara». O Apóstolo compreendeu finalmente: com essa mensagem os Céus anunciavam claramente a universalidade da ideia cristã, que devia estender-se não só entre os judeus mas a toda a Terra. Esta é a primeira referência nas Escrituras à expansão cristã mais além do âmbito restrito do judaísmo. Na continuação da história do São Cornélio do Novo Testamento, narrada a partir do relato de Simeão Metafraste que o tomou de Surio, ele foi predicar na Ásia Menor, na cidade de Skepsis, na actual Turquia, onde era prefeito do império romano um tal Demétrio o Filósofo, adorador do deus Júpiter. Ele quis obrigar Cornélio a venerar esse deus, mas o Apóstolo invocou o Deus dos cristãos que respondeu imediatamente reduzindo a cinzas a estátua de Júpiter e desmoronando o seu templo, ficando subterrados os familiares de Demétrio. O prefeito mandou prender Cornélio, mas logo lhe suplicou que rogasse ao seu Deus que lhe devolvesse sãos e salvos o seus familiares. Assim foi feito: o Deus cristão fez com com as ruínas se removessem por si mesmas e dentre elas saíram incólumes todos os familiares de Demétrio. O significado desse episódio miraculoso salta à vista: conversão e baptismo de todos os gentios, reconhecimento de Cornélio como porta-voz de uma fé imediatamente assumida e anos felizes da cidade e de todos os seus habitantes até à morte do mestre, que passou a uma vida melhor exortando a todos a preservarem na virtude que lhes havia inculcado. O seu sepulcro começou a ser fonte de milagres e o martiriológio conferiu-lhe como data litúrgica o segundo dia de Fevereiro.

O dia 2 de Fevereiro é o da Candelária, o da Festa das Candeias, que constitui um dos festejos mais decididamente pagãos entre as celebrações reconhecidas e convenientemente adaptadas pelas autoridades eclesiásticas. Curiosamente, a do Papa São Cornélio continua sendo uma curiosa mostra de paganismo assumido: observa-se a permissividade da Igreja que faz deste santo patrono dos animais cornudos que lhe são consagrados no dia da sua festa oficial, 16 de Setembro, próximo do Equinócio do Outono, em 20 de Setembro que se adjudica a São Caprásio, isto é, a Santa Cabra, que é um santo cornudo – pelo menos no nome – tanto como é São Cornélio. Penetra-se assim nos cultos agrários primitivos: tradicionalmente, no Equinócio do Outono faz-se a festa que feche as últimas vindimas, ou seja, as últimas colheitas; porém, paralelamente é a festa que invoca a protecção divina para os animais, sobretudo para o gado bovino, que serão especialmente protegidos durante o Inverno, porque constituem o alimento principal num tempo em que a natureza vegetal fica adormecida debaixo do frio.

Tem-se aí, em Cornélio de Carnac, a versão cristã do deus cornudo da religião celta, Cernumos ou Cermumnos, cujo nome significa “Cervo”, que nos tempo dos druidas era evocado para proteger o gado cornúpeto na festa do Equinócio do Outono. Era o deus celta protector dos animais, função depois transferida para Cornélio. A lenda conta que este percorreu o mundo numa charrete puxada por um boi e uma vaca enormes, e que ao alcançar o Sul da Bretanha foi perseguido pelos legionários romanos que o queriam matar. Conseguindo chegar a Carnac, escondeu-se na orelha de uma dos animais e daí transformou as fileiras de soldados pagãos em pedras, que são os enfileiramentos megalíticos.

Desde então, numerosos peregrinos vindos de toda a parte começaram a afluir a Saint-Cornély de Carnac para que este curasse os seus animais enfermos. Ele agracia a todos, por certo em memória dos dois animais que lhe prestaram tão precioso serviço quando fugiu para este lugar. O seu perdão celebrado na segunda semana de Setembro, dia 13, é dos mais importantes desta região agro-pecuária. Os peregrinos ajoelham-se na igreja diante das relíquias do santo, e depois fazem a romaria da fonte próxima, levando recipientes que enchem com água. Com ela, lavam os olhos e as mãos e levantam os braços para que a água corra ao longo do corpo. Em seguida, juntam o seu gado e levam-no em peregrinação à igreja de São Cornélio onde dão com ele uma volta completa ao edifício, e a seguir voltam à fonte onde derramam água sobre a cabeça dos animais. Muitos asseguram que os animais dão a volta por si mesmos sem que ninguém os conduza. Frequentemente os peregrinos fazem donativos de trigo, de dinheiro e também de gado a este templo.

A fonte, situada a oeste da igreja de São Cornélio, foi durante muito tempo o principal o ponto de abastecimento da povoação. A construção actual data do século XVII, está abaixo do solo e rodeada por um murete formando um recinto, a que se acede por quatro escadarias. Esta fonte de arcaria de ordem dórica é encimada por uma espécie de obelisco terminando numa esfera suportando uma cruz metálica. No seu interior, colocado num pequeno altar, está uma estátua de São Cornélio. A fim de proteger a fonte, foram instaladas grades sobre os seus três lados abertos, o que torna difícil a visão dessa representação do santo.

Também a igreja já não é a primitiva, pois data do século XVII. O seu curioso baldaquino do pórtico de entrada está ornado de volutas habilmente dispostas em forma de coroa real e repousa sobre colunas geminadas. Alude à realeza divina de Maria como Mãe do Mundo, estando alguns episódios da sua vida retratados em curiosas pinturas do século XVIII dentro deste templo. Este baldaquino monumental é obra de um mestre canteiro chamado Kergoustin e data de 1792.

O diabo de Campénéac

A igreja paroquial de Campénéac, consagrada à Natividade da Virgem Santíssima, fica não muito distante da floresta de Brocéliand, e talvez para acentuar ainda mais o carácter mágico dessa floresta esta igreja apresenta uma curiosidade única em França: um diabo ajoelhado suporta o púlpito do templo para que ele não o esmague.

Sendo o púlpito o lugar do Verbo, da Palavra Divina preferida pelo sacerdote representante do Eterno na Terra, o demónio ajoelhado vem a expressar a submissão e a conversão do Mal em Bem, pelo que alguns vêem na alegoria a Palavra de Deus esmagando Satan. Outros, vêem aí esconjuração das antigas e «diabólicas» tradições celtas pela nova religião triunfante, indo atribuir ao escultórico insólito a evocação do nascimento mítico do mago Merlin, gerado dos amores de um génio diabólico com uma mortal religiosa.

A imagem tradicional do diabo é exclusivamente cristã, e a sua forma convencional de todos conhecida (com chifres e corpo meio humano e meio bode) foi fabricada nos conventos medievais europeus, seguindo o modelo alegórico descrito em textos judaicos. Depressa se celebrizou essa imagem do ente maligno, graças à propaganda dos religiosos católicos destinada a amedrontar os prosélitos, assim fazendo com que não fugissem do redil da Igreja. A religião celta dos primitivos druidas desconhecia essa figura, mesmo aceitando a existência dos espíritos malignos que provocavam anomalias atmosféricas e psicológicas indo afectar tanto o meio natural como o ambiente pessoal. A sua esconjuração era motivo de uma celebração anual na noite de 31 de Outubro, o Halloween, quando a população realizava desfiles barulhentos destinados a amedrontar e repelir os espíritos malignos da Natureza. À meia-noite os druidas acendiam uma fogueira representando o Sol do ano novo celta, cujo calendário iniciava no dia 1.º de Novembro. A Igreja adaptou essa celebração céltica e transformou-a no Dia de Todos os Santos, altura da ida aos cemitérios prestar homenagens à memória dos entes queridos falecidos.

Portanto, o diabo na igreja de Campénéac é uma figuração cristã de inspiração judaica, completamente alheio à cultura celta. Pressupõe-se que seja o arquidemónio Asmodeus, que é representado como uma espécie de feiticeiro (donde a alusão a Merlin) e também pode adoptar a forma de uma aranha negra. A demonologia informa que o seu poder é tão grande que é considerado a arma de Lúcifer, o imperador do Inferno, para derrotar o Messias (por isto está representado em posição de subjugado sob o púlpito, para que não possa impedir o Segundo Advento do Senhor e possa se converter a Ele).

Estando imediatamente abaixo de Lúcifer (aqui entendido no sentido exclusivamente demonológico e não como Estrela da Manhã, que é o planeta Vénus), Asmodeus é o arquidemónio representante do último pecado, a Luxúria, concepção teológica dada ao pior dos pecados, e também ingere negativamente nas disputas entre casais, impelindo à desagregação das famílias. O nome Asmodeus provém do Talmud hebraico Aschmedai, “aquele que faz perecer”, e como Anjo destruidor, ou o mesmo Assura revoltoso da teologia hindu, aparece citado no Velho Testamento, em II Samuel, 24:16, em Sabedoria, 18:25, e também no Apocalipse, em 9:11. Reaparece no Livro de Tobias (3, 8, 17; 6:14; 8:2), como inimigo da união conjugal. O seu nome passou ao grego Asmaidos e ao latim Asmodaeus ou Asmodäus, sendo que na tradução de S. Jerónimo das escrituras sagradas para a Vulgata Latina aparece, no mesmo Livro de Tobias, o nome Asmodaios, descrito no Dicionário Bíblico como o assassino dos sete noivos de Sara, filha de Jacob e Raquel, tendo-os morto no dia do próprio casamento antes de consumarem a união conjugal. Sara, devido à vergonha que tal situação causava ao pai, pediu a Deus para morrer. Então Deus, ouvindo as suas súplicas, enviou o Arcanjo Rafael para resolver o problema e guiar Tobias até ela. O Arcanjo expulsou Asmodeus das proximidades de Sara e prendeu-o acorrentado de mãos e pés no alto da montanha mais elevada do deserto do Alto Egipto. Assim, Sara pôde casar com Tobias que posteriormente cegou, mas graças à interferência do Arcanjo Rafael foi curado.

A literatura apócrifa judaica diz que Asmodeus era filho de Adamah (Adão), o primeiro homem, e de Lilith, a sua primeira esposa antes de Eva. Quando Lilith se revoltou contra Deus e foi expulsa do Paraíso convertida em serpente, Deus deu a Adão a nova companheira Eva (Heve). Adão fecundou Eva que deu à luz Caim. Assim, Asmodeus e Caim serão os primogénitos da História Humana, ambos condenados aos domínios infernais, as talas do hinduísmo, por terem transgredido as leis de Deus. Uma outra lenda judaica, diz que Asmodeus era filho de uma mulher mortal, Naamah, fecundada por Lúcifer, o chefe dos Anjos caídos. E uma outra lenda faz nascer Amadeus do incesto de Tubalcaim com a sua irmã Noema ou Noêmia, nome que significa “Lua Nova”.

A presença de Aschmedai no judaísmo poderá ser herança da cultura parse ou iraniana, cuja religião mazdeísta chamava ao “Demónio da Ira” de Ashmedia ou Daeva Aesma. A ira demoníaca só era acalmada pela doçura da Deusa Mãe, esposa do Deus Sol Ahura Mazda, da religião parse. Aqui, em Campénéac, por certo só será sossegada pela candura da Virgem Santíssima a quem esta igreja é consagrada.

Se este templo reserva o insólito da presença do diabo dentro do seu chão santo, insólitos também têm sido vários episódios marcantes da História de Campénéac. Aqui nasceu Armelle Nicolas (1606-1671), chamada a boa Armelle, mulher humilde cuja piedade, caridade e extâses místicos suscitaram um movimento de culto em toda a Bretanha que perdurou até ao início do século XX. Esta localidade foi conhecida da corte de Luís XIV graças à canção dos “Gars de Campénéac”, composta em 1585.

Aqui fala-se mais o gallo, língua romana, que o bretão histórico, língua céltica. Talvez por isso o topónimo Campénéac provenha do latim Campaniacum, sendo acum um sufixo gaulês atestado pela forma documental Kenpéniac no ano 840 d. C., como está no cartulário de Redon, possivelmente inspirada em Campanius, primeiro senhor de Campénéac, como referência aos campos romanos situados perto da floresta de Brocéliand.

Campénéac é um fundus gallo-romano e pode a este título ser considerada como uma paróquia primitiva, citada assim desde o século IX (cartulário da Abadia de Redon, carta CVII). Outrora, esta paróquia dependia da diocese de Saint-Malo, mas com a elevação de Campénéac a comuna e cabeça de cantão em 1790, em 1802 a paróquia passou para o bispado de Vannes.

Da época celta de Campénéac, pode-se assinalar os restos de um dólmen com galeria situado perto de Brambellay. Da época romana, não há a assinalar nenhum vestígio até hoje. Até 1860 a actual igreja manteve as formas arquitecturais do primitivo edifício, altura em que foi restaurada. Mas quem se mantém até hoje, por certo contrariado mas nada podendo fazer, é o diabo que suporta a Palavra de Deus e, submisso, prova que no final é sempre a Luz a vencer a Treva.

A floresta mágica de Brocéliand

A floresta de Paimpont estende-se por 7000 hectares. É aqui que se encontra o bosque encantado de Brocéliand, que não figura em nenhuma carta topográfica (oficial) senão nos sonhos astrais de magia e encantamento de muitos. É a Terra do Nunca… Aqui se evocam e pressentem as fadas Morgana e Viviane da saga arturiana, Lancelote do Lago, Merlim o Mago, o rei Artur e os lendários doze cavaleiros da Távola Redonda. A Natureza: xisto vermelho, granito e quartzo com mais de 600 milhões de anos; crateras abissais no Vale Sem Retorno, florestas profundas ou extensas, ribeiras ou extensões de águas tranquilas, enfim, a paisagem é grandiosa.

Merlin, filho de um génio e de uma mortal, herdou os poderes sobrehumanos de seu pai dos quais se serviu para auxiliar o rei Artur da sua demanda do Santo Graal. Um dia, atravessando a floresta de Brocéliand, ele encontrou a fada Viviane perto de Barenton. Eles amaram-se. Ela aprisionou-o para sempre num túmulo após ter aprendido todos os seus segredos mágicos. Viviane passou a viver eternamente nas águas profundas de Comper. A outra fada, Morgana, que aprisionava para sempre os seus amantes nas profundezas do vale, está estreitamente associada ao Vale Sem Retorno, no fundo do qual encontra-se o Espelho das Fadas. O encantamento de Brocéliand é constante e total. Inclusive influenciou a iconologia patente na igreja de Tréhorenteuc, que sendo cristã mistura-se com tradições e lendas arturianas onde o tema celta se confunde com o cristão: o vitral da Acção de Graças mostra os Apóstolos em torno do Saint Vaisel, ao lado daquele outro da Aparição do Santo Graal, a Taça Sagrada ou Eucarística, aos cavaleiros da Távola Redonda em volta do rei Artur. O tema repete-se num dos quatro painéis presentes no coro, mostrando os cavaleiros da Távola Redonda em torno do Santo Graal, enquanto num outro vê-se Saint-Orenne, irmã do rei Judicael, numa cena familiar: tendo feito voto de pobreza, ela viveu reclusa em Tréhorenteuc. Este espaço encantado de Brocéliand convida ainda a descobrir o Castelo de Trécesson, o Túmulo dos Gigantes, a Casa de Viviane, o Túmulo de Merlin, a Fonte de Barenton e outros mais lugares escondidos no coração desta floresta mágica.

Sejam míticos ou reais, é sempre interessante fazer um tour pelos lugares mais notáveis da floresta mágica de Brocéliand, ex-libris do mundo mágico céltico-cristão :

A Fonte de Barenton. Diz-se que foi neste lugar que Merlin encontrou Viviane pela primeira vez. A lenda conta que o suave borbulhar que às vezes se vê sobre as águas são os suspiros das fadas que vivem no seu fundo, que realizam os desejos impossíveis de todos quantos por elas se apaixonam. Igualmente, a água desta fonte possui propriedades miraculosas, particularmente para as pessoas com doenças mentais: diz-se que se um doente mergulhar a sua cabeça nesta água, de imediato recuperará a clareza de espírito.

A Fonte da Juventude. Trata-se de uma modesta nascente de água situada perto do Túmulo de Merlin. Esta água possui, segundo a lenda, o poder de devolver a juventude a qualquer um que se banhe nela, e até mesmo conceder-lhe a vida eterna. Historicamente, os druidas celtas reuniam-se junto a esta fonte por ocasião do Solstício de Verão, a 21 de Junho, a fim de benzer as crianças, que após banhadas eram inscritas no marith, o registo da época. O mito da Fonte da Juventude provavelmente provém do facto das crianças recém-recenseadas serem consideradas nascidas só a partir do momento em que eram baptizadas. De certa forma, o Cristianismo adopta a mesma fórmula para os seus baptizados, os recém-nascidos na Igreja e em Cristo, não importando a idade real que possuam.

O Túmulo de Merlin. Este monumento é um vestígio neolítico de uma anta destruída em 1894 por caçadores de tesouros que procuravam o hipotético tesouro do Mago. Só sobreviveram os três pilares verticais, adossados a um velho azevinho, árvore sagrada para os celtas que marcava o nascimento de um novo ciclo sazonal e religioso, facto celebrado pelo Cristianismo na festa do Natal. Segundo a lenda, Merlin, o grande druida ou sacerdote da religião celta, deixou-se seduzir pela fada Viviane, a Dama do Lago, e confiou-lhe os segredos da arte sacerdotal. Viviane traçou nove círculos mágicos em torno de Merlin enquanto dormia, e aprisionou-o numa prisão invisível ou astral, e depois fechou-o para sempre num túmulo. Actualmente, numerosas pessoas ainda prestam culto a este monumento e evocam a memória de Merlin, fazendo-lhe pedidos para o que desejam ver realizar-se e deixando aqui objectos, lembranças a guisa de ex-votos.

O Túmulo de Viviane. Trata-se de uma anta reduzida aos alicerces, também ela vítima de pilhagem e delapidação no século XIX.

O Vale Sem Retorno. Este é o lugar mais famoso de Brocéliand. Trata-se de um vale apertado repleto de contrastes pela paisagem com gretas profundas no xisto vermelho, cor obtida pelo mineral de ferro que existe aqui e faz «enloquecer» as bússolas. Frequentemente apresentada como uma sedutora maléfica, a fada morgana era a meia-irmã mágica do rei Artur e sua adversária, como era igualmente de Guinièvre, esposa do rei, e dos cavaleiros da Távola Redonda. Merlin era o seu mestre de Magia. Segundo a lenda, traída pelos seus amantes, a fada Morgana encantou e aprisionou no Vale Sem Retorno todos os cavaleiros infiéis ao seu amor. O seu castelo estava construído nas alturas de uma montanha, donde vigiava os seus prisioneiros no vale. Os sortilégios de Morgana foram desfeitos por Lancelote que, fiel a Guenièvre, conseguiu libertar os cavaleiros escravos de uma paixão infiel.

O Espelho das Fadas. Segundo a lenda, é um lago, no fundo do Vale Sem Retorno, no qual as fadas podiam ler o futuro nas noites de Lua Cheia, lançando nele um grão de trigo. O nome de espelho provém do facto da floresta em volta ser de tal maneira espessa que o vento nunca consegue perturbar a superfície da água, que permanece lisa e imóvel como um espelho.

A Árvore d´Ouro. Em Setembro de 1990, a floresta de Paimpont ardeu durante cinco dias. Após a catástrofe, afluíram donativos de toda a França para financiar a reflorestação e novas plantações. Para assinalar este acontecimento, o artista François Davin criou esta obra, a Árvore d´Ouro, inaugurada em Agosto de 1991. Ele dourou um castanheiro com folha de ouro, e em volta ficaram cinco árvores negras simbolizando a floresta ardida, por descuido ou intenção. O ouro simboliza a imortalidade da floresta. O artista quis evocar as hastes de um cervo da antiga religião celta simbolizada em Merlin. O conjunto é rodeado por pedras aguçadas. A Árvore d´Ouro tornou-se a nova lenda de Brocéliand.

Imortalizada pelos trovadores e jograis da Idade Média, a floresta mítica e mística de Brocéliand ao transpor o tema arturiano da Grande Bretanha para esta Pequena Bretanha salvaguarda assim a tradição céltico-cristã do Santo Graal e, ao mesmo tempo, acompanhando a marcha precessional da civilização, parece querer demonstrar a supremacia espiritual da Bretanha sobre as ilhas britânicas ao plantar-se aqui o testemunho visível e tangível da Antiga Tradição que é Brocéliand ou Bresilianda, termo utilizado por alguns para designar a Bretanha Armórica por inteira, já que o topónimo provém do céltico brec´h, “colina”, tendo-se acrescentado o gálico tardio land, “terra”, por extenso, “colina de terra”, com o significado mais restrito de “país (bro, em bretão) dos montes”, estes, levando para o sentido castrejo, sendo os montículos megalíticos elevados que decoram a paisagem do Sul da Bretanha.

O primeiro texto a citar a floresta de Brocéliand foi o Roman de Rou, do poeta anglo-normando Robert Wace, cerca de 1160, mas sem dar uma localização precisa da mesma. A primeira localização física reivindicada remonta a 30 de Agosto de 1467, quando os Usemens et Coustumes de la foret de Brecilien foram escritos no castelo de Comper por um certo Lorence, capelão do conde de Laval. Antigamente, o Brocéliand era assimilada à floresta de Quintin, mas depois da primeira metade do século XIX os diferentes autores românticos preferiram associá-la à floresta de Paimpont, e assim ficaria para as gerações futuras poderem encantar-se nela e ter sonhos de magia e sortilégio.

O «menir cristianizado» de Saint-Uzec

O menir de Saint-Uzec, em Pleumeur-Bodou, surpreende pela sua talha e as suas esculturas. É um impressionante bloco de granito local com 8 metros de altura e 3,50 metros de largura, devendo pesar mais de 60 toneladas. Está colocado numa cerca a que se acede por uma pequena escadaria. Este monumento neolítico datará de entre 4000 e 2500 anos antes da nossa Era.

É um dos mais belos exemplares de «menir cristianizado», posto que está encimado por uma cruz e comporta na sua face sul baixos-relevos de cenas cristãs feitos cerca de 1674 aquando das missões evangélicas do Padre Maunoir, um jesuíta conhecido por ter destruído grande número de megálitos considerados pela Igreja como ídolos pagãos.

Esses baixos-relevos na face sul do monumento representam os instrumentos da Paixão de Cristo (martelo, cravos, lança, açoite, etc.), encimados pela Virgem ladeada pelo Sol e a Lua com rostos humanos. Em 1920 ainda se podia ver sob os baixos-relevos um Cristo colorido, pintura entretanto desaparecida apagada pelo tempo, mas cujo testemunho conserva-se em antigos cartões postais.

O facto de estarem retratadas aqui cenas da Paixão de Cristo é muito significativo e fácil de explicar segundo o entendimento jesuíta: o Senhor deu-se em holocausto pela redenção dos pecados da Humanidade, principalmente o pecado da idolatria, e com a Sua ressurreição a Humanidade redimida terá ressuscitado em Cristo e só em Cristo deve acreditar, pelo que os símbolos e monumentos dos primitivos cultos pagãos deverão erradicados da face da Terra, destruídos, ou então convertidos em objectos cristãos, como é este de Saint-Uzec assim exorcizado por um jesuíta fanático. Enfim, não há dúvida que o fanatismo gera o sectarismo, este produz a idolatria, onde o crer se impõe ao saber, e é assim que se provocam as perseguições a pessoas e objectos que não perfilhem da mesma crença, não raro apagando-se qualquer indício de saber e devoção alheias com a mais abjecta destruição dos corpos móveis e imóveis, querendo também atingir a memória e a alma dos mesmos, donde se recorrer ao vilipêndio e à mentira estropiando os factos históricos mais elementares.

Na face norte do menir, vê-se uma cova com 25 centímetros de profundidade originada pela erosão, prova de que no passado longínquo esta pedra esteve em posição resguardada. Também observam-se vários sulcos verticais formados desde que a pedra foi levantada. Até há pouco tempo, graças à campanha difamatória do Padre Maunoir, acreditava-se que esses sulcos naturais eram canais destinados a fazer correr o sangue das vítimas sacrificadas pelos druidas para actos de canibalismo.

Mas a História não regista positivamente nenhuma espécie de sacrifício humano nem de ritos canibalescos por parte dos druidas. Regista, sim, o sacrifício de soldados romanos aprisionados durante a ocupação romana, os quais eram declarados inimigos inconversos do povo celta, e quem os sacrificava eram os guerreiros não os sacerdotes. Também os romanos dizimaram milhares de autóctones locais (homens, mulheres, velhos e crianças), muitas deles sacrificados em actos públicos como motivo para diversão macabra. Tratou-se de selvageria provocada pela sanha da guerra, não de rituais religiosos preestabelecidos. Se acaso houve canibalismo entre os guerreiros de ambas as partes, também a excitação enlouquecida pela sanha da guerra pode explicar o facto, esporádico e não regular.

Como os celtas resistiram com bravura e heroísmo ao ímpeto da invasão romana, derrotada em muitas batalhas impossíveis de as perder, os escritores latinos (por exemplo, Júlio César) escreveram que os druidas celtas sacrificavam prisioneiros aos deuses e depois comiam-nos, obviamente omitindo que os romanos faziam exactamente o mesmo. A mentira pegou, e após a Era Cristã o escritor Plínio, o Velho, sugeriu a mesma coisa nos seus escritos, não por ter visto mas só por ter ouvido. Actualmente a Arqueologia, a Paleontologia e a História provam à saciedade que esse facto é uma invenção jesuítica.

A religião celta mostra os druidas como sacerdotes e filósofos adeptos do culto da Natureza, assumindo a função de directores espirituais dos ritos como mediadores entre os deuses e os homens, praticando uma espécie de «mono-panteísmo», ou seja, reconhecendo um panteão de vários deuses naturais subordinados a um Ente Supremo, a quem chamavam Oiw. Os druidas (termo oriundo da raiz indo-europeia wid, “saber”) repartiam-se em seis classes de acordo com a sua função e especialização:

Filid – A classe mais elevada dos druidas, que conhecia as disposições dos astros e os movimentos telúricos da Terra. Diz-se que o lendário Mago Merlim era um Filid.

Brithem – Druidas exercendo a função de juízes, mantendo a ordem e a justiça na população celta.

Liang – Druidas considerados curandeiros ou médicos, possuíam especializações entre si e conheciam a botânica pormenorizadamente, tendo inclusive praticado operações cirúrgicas delicadas, como transplantes de coração.

Scelaige – Druidas que narravam oralmente, e também por escrita ideográfica, a História da Nação Celta, os seus feitos religiosos e militares. Eram os conservadores da tradição e a memória.

Sencha – Druidas que percorriam as terras divulgando a tradição e a memória celtas e recolhendo novas histórias sobre o que estava acontecendo no momento.

Bardos – Druidas que eram arúspices e poetas, encarregados da tradição musical que partilhavam entre si e ensinavam ao povo.

Havia, pois, um alto grau de civilização entre os celtas, cuja cultura penetrou fundo a romana e até a «colonizou», tornando os colonizadores colonos, como se observa neste menir de Saint-Uzec, que sendo isolado é classificado como menir da fecundidade, o que liga-o aos ritos agrários da fertilidade, geralmente representados por uma figura divina feminina, a deusa Ceridwen, indicando a sua função de gestação e geração, para os druidas representada na própria pedra como o elemento mais duradouro e o primordial donde todos os outros saíram. Pegando nisso, os romanos associaram os menires à presença da Bona Dea, a «Boa Deusa» propiciadora da vida natural mantida por boas sementeiras e melhores colheitas. O cristianismo transformou a Bona Dea na própria Virgem Maria, e é assim que ela aparece insculpida neste menir.

Classificado monumento de interesse público em 1889, é conhecido indistintamente por Menir de Saint-Uzec, Menir de Saint-Duzec ou ainda Menir de Penvern. Constitui a prova mais flagrante de resistência à colonização religiosa cuja memória não evoca sanhas cristãs mas sagas celtas repletas de magia e encantamento de um povo cuja evocação ainda hoje maravilha.

O Calvário iniciático de Guéhenno

O único conjunto escultórico monumental de arte religiosa que existe em Morbihan, no território do Finistère, é o Calvário de Guéhenno, que está dentro da sua cerca paroquial (constituída de igreja, calvário, ossário e cemitério rodeados por um muro com porta triunfal).

Este Calvário reproduz as várias fases da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, e pela disposição exacta das suas imagens concluiu-se que o conjunto encerra uma dupla mensagem, tanto exotérica ou confessional como esotérica ou sapiencial. A confessional é dirigida a todos os crentes, para que através das figuras aprendam e interiorizem facilmente a mensagem religiosa que o conjunto expõe. A sapiencial dirige-se àqueles que além da catequese confessional sabem ler e interpretar o significado esotérico dos símbolos expostos, ou seja, “encontrar o espírito vivificador por baixo da letra morta”.

Este monumento apresenta um duplo entablamento em relevo ornado de baixos-relevos sobre os quatro lados:

Sobre a face oeste, o Cristo Ressuscitado em companhia dos Apóstolos. Representa a Imortalidade, a última fase da Obra Alquímica que é a fábrica da Pedra Filosofal, simbolismo da Iluminação Espiritual do Adepto Perfeito, representado no Cristo, após passar pelas doze fases da Grande Obra, representadas pelos doze Apóstolos, as quais são: Putrefactio, Coagulatio, Cibatio, Sublimatio, Fermentatio, Exaltatio, Augmentatio, Projectio, Calcinatio Solutio, Elementorum Separatio, Circulatio, Conjunctio, cujo resultado é a Quintessência da Natureza e do Homem, o chamado Azoto que é a propriedade natural etérica ou volátil afim à própria condição de Cristo Ressuscitado, o Espírito vivo vencedor da Morte corporal.

Sobre a face sul, o Cristo orando no jardim das oliveiras de Gethsemani. Esta palavra em aramaico significa “oliveira” e “azeite”, este com o sentido subentendido de óleo santo, o mesmo com que se unge o Messias assim chamado Christus, “Ungido”. Nessa hora de angústia, Jesus ora sozinho, suplica coragem ao Alto para suportar a Tragédia que se avizinha e um Anjo consola-o, dando-lhe a provar a Taça da Amargura, que é a da Lua reflectora das incertezas humanas, mas que logo se transforma na Taça da Exaltação, que é a de Vénus expressora das certezas espirituais. Alquimicamente, representa o destilatio, a “destilação” com que se separa os elementos químicos grosseiros das suas essências alquímicas subtis, operação figurada nas incertezas de Jesus Homem (“Pai, afasta de mim este Cálice!”) e nas certezas de Cristo Deus (Pai, cumpra-se a tua Vontade!”).

Sobre a face este, a flagelação de Jesus Cristo. O açoite feito de tiras de pele de boi com pontas metálicas nas extremidades chamava-se flagrum, donde proveio o nome flagelar, e depois da crucificação era o pior castigo que podia afligir-se aos condenados. Tanto a crucificação como a flagelação eram métodos de tortura exclusivamente romanos, destinados aos criminosos e figuras públicas consideradas perigosas para o Estado; os judeus usavam o apedrejamento e a lapidação. Alquimicamente, a flagelação equivale à mortificação dos elementos naturais, ou seja, à sua purificação dissolvendo os princípios grosseiros por um fogo lento mas constante até ficarem prontos para a fase seguinte da Obra Alquímica. Esta operação, chamada mortificatio, é representada no episódio da flagelação do Senhor.

Sobre a face norte, os ultrajes a Cristo. Os legionários caricaturam o Senhor como Rei de Israel de fancaria, impondo-lhe na cabeça a coroa de espinhos dolorosos que são o símbolo de Marte, que para os romanos era o deus guerreiro e mártir; colocam-lhe nas mãos como ceptro de escárnio uma cana verde, planta sob a influência planetária de Saturno; invés da capa imperial põem-lhes nos ombros o manto purpurado, cor de Júpiter, de um qualquer legionário. Por fim, esbofeteiam-no no rosto e na boca, como que querendo selá-la para não ouvirem a Voz da Verdade, atributo de Hermes ou Mercúrio, o deus da Sabedoria. Este episódio é retratado na fase alquímica chamada cibatio, tratando da adição de matéria nova preparada para juntar ao que já está no crisol ou vaso alquímico. Isso, transpondo para o episódio bíblico, depois de ser flagelado Jesus ainda foi ultrajado na sua dignidade divina, como Rei e Sacerdote do Eterno.

Por cima elevam-se as três cruzes do Gólgota, o “lugar da caveira” como o ponto mais elevado do corpo humano e onde o Mental tem o seu domínio.

A cruz do meio mostra Cristo em agonia no alto dos seus dez metros, suportada por um tronco de árvore seca com nós como símbolo tradicional da via seca da Alquimia, também chamada via ascética e via radical por determinar em breve prazo a iluminação espiritual graças à transformação dos elementos corporais de espessos em subtis, o que é marcado pela Morte de Jesus e a entrega de seu Espírito a Deus. Abaixo, St.ª Maria e S. João, testemunhos da Paixão, mas também representações da Arte Real que é a Alquimia, a quem os filósofos herméticos medievais (tendo por patrono S. João Evangelista) apodavam de Roseira dos Filósofos e Roseiral Mariano. Segue-se Jessé, pai dos reis de Israel, ancestral de Jesus descendente da linhagem ou tronco familiar daquele, e ainda hoje é dito que da árvore de Jessé advirá o Messias futuro.

As cruzes laterais carregam os dois ladrões que foram crucificados juntamente com Jesus, por certo fazendo as vezes de Colunas Vivas ou Ministros do Senhor. A tradição chama-lhes Gestas e Dimas, ignorando-se qual deles é o bom e o mau ladrão. Abaixo da cena do Calvário, o “monte calvo” como outra referência ao crânio, observa-se nas traseiras o Diabo esperando que os três morram para tomar as suas almas. Mas também significa a Inteligência “Diáblica” ou Superior que caracterizou a vida de JHS (Jesus Hominem Salvatorum, “Jesus Salvador dos Homens”) e que com a Sua morte ausentou-se do palco do mundo, e por isso o Diabo está à retaguarda.

Aos pés da Cruz está a Virgem da Piedade e, diante dela, o sudário apresentado por Santa Verónica, vendo-se ainda um soldado com a lança, possivelmente sendo o centurião Longuino, e um cavaleiro que poderá ser o prefeito da Judeia, Pôncio Pilatos. Esta cena conclui a Obra Alquímica na fase derradeira do conjunctio ou conjunção harmónica e perfeita dos elementos naturais, devendo esperar-se a seguir três dias até que a Pedra dos Filósofos aparece na retorta, o que equivale à Ressurreição de Cristo ao terceiro dia saindo sepulcro. Por este motivo, também aparece junto à Verónica a cena da Ressurreição, tendo abaixo, como cena oposta em alto-relevo, a deposição de Jesus no sepulcro. Nos ângulos laterais do altar, estão as quatro estátuas dos Profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel encimadas pelas dos Apóstolos Mateus, Marcos, Lucas e João, as quais foram acrescentadas quando da restauração deste conjunto monumental em 1853.

Adiante do Calvário, destacado dele, está uma coluna onde estão gravados os instrumentos da Paixão e que tem em cima um galo. Além de ser uma alusão a que antes do galo cantar Pedro negoria três vezes o Senhor, como este lhe vaticinara, é também referência a Cristo Ressuscitado da Morte como Messias ou Avatara Solar, assinalado por essa ave que anuncia o nascimento do Sol e cujo canto esconjura as trevas da noite. É obra de dois abades do século XIX.

Este Calvário monumental foi esculpido e erigido por um certo F. Guillonic em 1550 (como atesta a inscrição gravada sobre o pedestal), mas foi quase inteiramente destruído pelos revolucionários durante o Terror, em 1794: as cruzes abatidas, as estátuas mutiladas e as esculturas feitas em pedaços. Mas o povo da região recolheu cuidadosamente os fragmentos e guardou-os até 1853. Nesta data, o reitor de Guéhenno, o abade C. M. Jacquot, e o seu vigário Loumailler empreenderam eles mesmos a restauração do monumento. Foi uma tarefa árdua e longa, porque não somente se colaram os fragmentos guardados como também se esculpiram os elementos que faltavam. Hoje, com o passar do tempo, o antigo e o novo estão indissoluvelmente fundidos num conjunto harmonioso que encanta e desperta a fé de quem está ou visita Guéhenno.

A mansão dos Companheiros do Dever de Nantes

Quem chega junto às margens do canal Saint-Félix, próximo da gare Sul em Nantes, depara-se com um edifício enorme com aspecto apalaçado que se destaca dos outros pela sua elevada flecha torsa encimada por uma estrela de cinco pontas. Raros são os que não perguntam intrigados: porque aparece aí, único em Nantes, esse estranho pináculo? O que significa? A quem pertence o edifício e porque foi feito assim?

Essa mansão é a sede em Nantes dos Companheiros do Dever do Tour de França, organização de mestres de ofícios cuja origem recua além da Idade Média, ao período dos artífices da Roma dos césares, ao tempo do imperador Numa Pompílio (574 a. C. – 673 a. C.) que ajudou ao desenvolvimento e expansão, a partir do império, dos collegia fabrorum, que originalmente eram trinta e uma corporações de ofícios constituídas por arquitectos e artífices com influências das religiões e filosofias anteriores a essa mesma época, nomeadamente da Ásia, as quais adentraram a Idade Média dando origem a várias outras guirlandas de ofícios, como as confrarias francas que brilharam durante a época dos lombardos, povo germanizado, que foram conquistados pelos francos em 774 d. C. Os collegia fabrorum influenciaram, do século VI ao XII, as ordens monásticas europeias e os colégios bizantinos, sendo que estes receberam a influência do hermetismo e do neopitagorismo que os mestres de artes possuíam, e assim também muitas daquelas ordens religiosas. Foi quando muitos desses companheiros do dever abraçaram a religião cristã, sobretudo a beneditina ao início, e se tornaram monges construtores, isso para fugir ao lume mortal da Inquisição. Mas muitos deles acabaram por abandonar o hábito religioso, e foi assim que esses monges responsáveis de ofícios, sobretudo pedraria e carpintaria que ilustram as maiores obras-primas europeias, as suas catedrais, palácios e castelos, foram desaparecendo; é também assim que, no meado do século XV, eles tornam a reaparecer como mestres canteiros, mas isentos de filiação religiosa. Sobrevivem até meados do século XVII, e então também desaparecem. No século XVIII (1717) tornam a aparecer mas só no plano figurativo ou simbólico, isto é, como Maçonaria Especulativa, pretendida herdeira tradicional daquela Maçonaria Operativa.

Se bem que os símbolos e rituais do Companheirismo e da Maçonaria sejam muito diferentes, ainda assim há bastantes elementos comuns pelo motivo indicado, a desta ter copiado aquele.

Ainda assim, o termo compagnonnage não aparece na língua francesa senão cerca de 1719, para designar o período de estágio profissional que um companheiro deve fazer junto de um mestre. No plano geral e humano, ele evoca um compagnonnage de vie (companheirismo de vida), um agrupamento de pessoas cujo motivo é: entreajuda, protecção, educação, transmissão dos conhecimentos entre todos os seus membros. Este é o dever que têm entre si, por isto se chamam Companheiros do Dever, e com o dever de regularmente cumprirem o Tour de France acudindo aqui ou ali a restaurar ou construir um monumento. Portanto, a tradição operativa mantém-se viva em solo francês.

As lendas companheiras fazem referência a três fundadores míticos dos Companheiros do Dever: o Rei Salomão, o Mestre Jacques e o Padre Soubise. A lenda salomónica é particularmente importante nos mitos dos companheiros do “dever de liberdade”. Mas ela tem origem mais tardia que as outras, parecendo ter sido introduzida, no final do século XVIII e início do XIX, nas oficinas companheiras a partir do mito maçónico do arquitecto fenício Hiram Abiff ao serviço do Rei Salomão, antes de expandir-se através dos rituais das várias sociedades de companheiros.

Segundo a lenda principal dos Companheiros do Dever, o Mestre Jacques havia aprendido a talhar a pedra ainda criança, antes de partir em viagem com a idade de 15 anos para chegar ao estaleiro da construção do Templo de Jerusalém na idade de 36 anos. Aí tornou-se mestre dos canteiros, dos pedreiros e dos marceneiros, este cargo de carpintaria tendo-o repartido com o seu companheiro de viagem, Soubise, o qual ficaria conhecido em França como Padre Soubise. Se bem que os relatos bíblicos sobre a construção em Jerusalém do Templo do Rei Salomão não falem nem de Jacques nem de Soubise, contudo os relatos históricos medievais sobre a construção da catedral da Santa Cruz de Orléans descrevem a presença de dois mestres de obra nela, Jacques Moler e o beneditino Soubise, que, e aqui já é lenda, enfrentaram uma greve de trabalhadores que degenerou numa terrível batalha seguida de uma cissão. Parece que essa lenda apoia-se em factos históricos tardios, ou seja, na cissão entre os companheiros católicos e protestantes e na destruição por estes últimos da flecha da catedral de Orléans em 1568. Só em 2 de Julho de 1598, após assinado o Édito de Nantes, se pôs fim às guerras de religião.

A flecha torsa que se vê sobressaindo da mansão dos Companheiros do Dever em Nantes, é precisamente uma evocação da flecha de Orléans e, ao mesmo tempo, uma homenagem a esta cidade que terminou com as guerras entre confrades da mesma Ordem. Construída entre 1952 e 1957 pelo arquitecto Jean Maeder, esta flecha ou pináculo retorcido encimado por uma estrela de cinco pontas (símbolo das primitivas collegia fabrorum), parece uma campânula evolando-se em espiral.

A flecha é o símbolo da penetração, da cobertura. Simboliza também o pensamento dirigido às alturas do ideal superior, e é assim que representa o traço de luz (assinalado na estrela) que ilumina o espaço fechado (o edifício). Representação do raio solar, também ele elemento fecundador, a flecha assume-se como símbolo dos intercâmbios entre o Céu e a Terra. No seu sentido descendente, é um atributo do Poder Divino, tal como o raio punitivo, o raio de luz ou a chuva fertilizante; os homens que Deus pode utilizar para executar as suas obras são chamados, no Antigo Testamento, de filhos da aljava (Salmos, 127:5). No seu sentido ascendente, a flecha está ligada ao sentido da verticalidade espiritual, à realização da libertação das condições terrestres sinónimas de profanas.

De um modo geral, a flecha torsa é o símbolo universal da assunção em espiral ou gradual aos Mistérios Divinos que também divinizam o Homem. É uma libertação imaginária da distância e da gravidade, ou seja, uma antecipação mental da conquista de um bem aparentemente fora de alcance.

Esta mansão dos Companheiros do Dever foi reabilitada em 1994. Compreende um escritório, várias salas de cursos, uma biblioteca, uma sala de jantar e vários quartos com capacidade para acolher 125 jovens que querem aprender um dos 27 ofícios tradicionais dos companheiros, visando a excelência na prática de um ofício. A porta de entrada do edifício, decorada lateralmente por dois painéis mostrando companheiros do dever em trajes antigos, é uma obra-prima da arte metalúrgica ou do ferro forjado, inserida na obra-prima da stereonomia (traçado e talha de pedra). Também a biblioteca é uma obra-prima de carpintaria.

Se bem que esta mansão não seja um museu aberto ao público, ela acolhe excepcionalmente e sob reserva de visitas grupos ou pessoas interessadas pela obra dos Companheiros do Dever do Tour de França. Todos dão por bem empregado o seu tempo ao terem a oportunidade única de verem e aprenderem com o recheio deste edifício, que também é único em Nantes e obra-prima da monumentalidade francesa.

O túmulo alquímico de François II

O túmulo de François II (23.6.1433 – 9.9.1488), o último duque da Bretanha independente, e da sua mulher Marguerite de Foix (c. 1458 – 15.5.1486), é um monumento funerário que se encontra em Nantes, na catedral de São Pedro, tendo sido realizado em mármore de Carrara no início do século XVI por Michel Colombe (c. 1430 – c. 1513), renomeado escultor bretão, e Jehan Perréal (c. 1455 – c. 1528), dito Jehan de Paris, famoso arquitecto, pintor e decorador parisiense, “intendente artístico” do rei de França.

Este conjunto monumental, encomendado por Anne de Bretagne para honrar a memória dos seus parentes, é considerado uma obra-prima da escultura francesa. Inicialmente conhecido sob o nome de tombeau des Carmes, por ter estado inicialmente na capela dos Carmos em Nantes, como François II desejara, depois de ter sobrevivido à sanha destruidora do Terror no século XVIII, ele foi finalmente colocado neste lugar da catedral de Nantes no início do século XIX.

O monumento é constituído de um sarcófago massivo, rectangular, de 3,90 m de comprimento por 2,33 m de largura e 1,27 m de altura. Sobre as tampas tumulares e lado a lado, estão as estátuas jacentes de François e Marguerite deitadas de mãos juntas em prece. As suas cabeças repousam sobre almofadas espessas mantidas por três Anjos, e aos seus pés retêm-se o galgo, símbolo da fidelidade, e o leão, representando a força. Nos quatro cantos do túmulo vêem-se quatro estátuas erectas, representando as Virtudes Maiores ou Cardeais: a Força moral, a Temperança, a Justiça e a Prudência. Em volta do túmulo apresentam-se outras esculturas delicadas, em pequenos nichos de mármore rosa, representando os doze Apóstolos, vendo-se também os santos patronos dos dois falecidos, S. Francisco de Assis e St.ª Margarida, como também Carlos Magno e São Luís. Sob estas estátuas, dentro de pequenos medalhões, vêem-se monges penitentes vestidos de negro.

A iconologia exposta e o sentido que pretende transmitir perpassa o imediato da piedade cristã e dispõe as figuras no plano da simbologia alquímica notavelmente exposta neste túmulo assim convertido num liber mutus in memoriam (“livro mudo em memória”). Não há registo de que François II tenha sido um adepto da Alquimia, mas há registo de que a Alquimia como via penitencial ou purificadora da alma e do corpo (donde a presença dos frades penitentes) foi tolerada pela Igreja e praticada por muitos religiosos e nobres. Via Penitencial também se chamava ao Caminho de Santiago de Compostela, que os hermetistas consideravam caminho de realização alquímica sendo o Fogo dos Filósofos representado em Santiago Maior, o “Filho do Trovão”, que se vê aqui com um curioso elmo em forma de caracol que universalmente é considerado símbolo lunar, indicando a regeneração periódica através de várias etapas representadas no Caminho Jacobeo; por o caracol mostrar e esconder os seus chifres assim como a Lua que aparece e desaparece, ele assinala a morte e o renascimento, que é o tema do eterno retorno.

Neste túmulo do último governante da Bretanha independente, é-lhe feito o apologético encómio patrístico com foros que imortalizam a sua memória através da matéria-prima (representada na pedra trabalhada do monumento) que é a mesma com que opera a Alquimia. O escultor Jehan Perréal, patriota bretão, por certo seria quem conhecia a ciência alquímica e lavrou o seu simbolismo nas figuras piedosas deste túmulo cristão. O legado hermético de Geber, nome latino de Ibne Jabir Hayan (721 – 815 d. C.), pai da Alquimia islâmica e europeia, está notavelmente exposto neste túmulo de François II.

As quatro Virtudes Cardeais alegorizadas por mulheres, indicam o caminho virtuoso que o duque e todo o homem de bem são chamados a seguir. A Força, representada com armadura militar, por se tratar de uma virtude viril, é representada segurando uma torre donde arranca um dragão pelo pescoço. Representando o cavaleiro cristão na defesa da Fé, a figura representa a força moral que triunfa do vício e da tentação, num permanente combate interior onde se esforça por arrancar do dragão do Mal da torre do Bem, o foro íntimo. Alquimicamente, essa batalha mística é sustentada pelo domínio do Fogo dos Filósofos, assinalado no dragão, que rodeia ou envolve a torre, simbólica do athanor ou forno alquímico, que sendo cerrada como a Fé, portanto, fortaleza (donde força) inexpugnável, nela gradualmente vai se fabricando a Crisopeia do Senhor, isto é, o Ouro Filosófico representado por Cristo, o mais Puro Ouro dos Céus.

A Temperança tem na mão direita um freio de cavalo, símbolo de uma conduta equilibrada, porque há um tempo para tudo (Eclesiástico, 3,1-15), e na mão esquerda apresenta um relógio, simbolizando o tempo em que falta saber respeitar e atenuar as paixões. Simboliza igualmente a medida do tempo que não se deve gastar em futilidades, devendo haver equilíbrio em tudo para evitar o excesso. Ela lembra que a medida justa está precisamente no meio: o equilíbrio. O hábito quase monástico com que a figura se apresenta, exprime as tentações da carne que levam precisamente ao excesso. É nesta estátua que o duplo sentido da mesma faz-se sentir mais: o freio de cavalo faz estacar no sentido fonético de Cabala (cheval et Cabale, termos com sonâncias afins), a Tradição Hermética que entre os alquimistas europeus da Renascença era precisamente representada por Pégaso, o cavalo alado da mitologia grega. Por sua vez, o relógio ou, em francês, horloge, indica o reino solar de Heliogabale, o Mercúrio dos Filósofos, que também é representado pelo cavalo alado, indicando o Fogo Volátil ou Subtil intermediário ao Espírito (Enxofre) e à Matéria (Sal) que tempera e marca sem atraso nem adianto, como um relógio, o tempo certo da manifestação do Espiritual no Corporal para este revelar aquele.

A Justiça porta na mão esquerda um livro com uma balança esculpida abrangendo as duas páginas abertas, representando a Lei. Na mão direita carrega uma espada erecta cuja ponta é recoberta pela sua capa: “Faz a justiça, mas não destruas ou injustices ninguém”. A espada pune e a balança pesa a gravidade do crime ou o peso dos argumentos das duas partes. A estátua está coroada, para lembrar que o governante exerce o papel de juiz e de árbitro. Alquimicamente, esta estátua indica o equilíbrio entre o Solve e o Coagula, os princípios Volátil e Fixo assinalados no Mercúrio (Alma) e no Sal (Corpo). De maneira que a Justiça ou Themis representa o equilíbrio entre as forças ou correntes opostas, e da harmonia estabelecida entre ambas esta Virtude torna-se garante da vida eterna por assim ser a chave da imortalidade procurada pela Alquimia.

A Prudência tem na mão direita um compasso, símbolo da medida de todo o acto, e na mão esquerda um espelho reflectindo todo o pensamento e captando os conselhos sábios do Ancião, figurado no rosto duplo: o rosto traseiro da estátua é o de um velho representando a sabedoria do passado, e o rosto dianteiro é o de uma jovem assinalando a previsão que não dispensa a experiência do anterior. O espelho é igualmente aquele da verdade: nele se vêem as imagens das fraquezas humanas e se aprende a conhecer-se a mesmo, corrigindo a conduta pessoal. Aos pés da estátua acha-se uma serpente: “Sede prudentes como as serpentes” (Mateus, 10,16). A Prudência com duplo rosto vem a ser uma espécie de Janus, o deus bicéfalo dos gregos e romanos, sobretudo destes que o tinham como padroeiro dos seus collegia fabrorum, as escolas de artífices e arquitectos cujo símbolo de Arte Real é precisamente o compasso que a Prudência apresenta. Esta Virtude é a personificação da deusa grega Metis, a primeira esposa de Zeus, o deus dos deuses. Ela ofereceu ao deus Cronos uma poção mágica (o compost alquímico) que logo a bebeu, e a seguir obrigou-o a devolver os seus filhos (os elementos químicos) que ele havia devorado (devolução dos elementos já refinados, purificados de impurezas grosseiras, pois que a Alquimia não trabalha com os elementos químicos conhecidos mas com a essência dos mesmos, os seus «espíritos»). A serpente enroscada aos pés da Prudência vem a ser a alegoria do Fogo Radical ou Criador do Espírito Santo que vivifica e alimenta a natureza e o Homem, ascendendo do seio da Terra às alturas do Céu, mas temperado com a prudência que a Arte Magna impõe aos verdadeiros Filósofos do Fogo.

O galgo é o cão que acompanha e guarda o alquimista, tal como vela pela alma da Bretanha incarnada neste nobre casal, François e Marguerite, fazendo de par hermético, suportado pelos três Anjos alegóricos dos três “Espíritos Alquímicos”: Enxofre (Espírito), Mercúrio (Alma) e Sal (Corpo). O leão, como signo do Sol, vem a expressar a Iluminação Real do Adepto da Grande Obra que, no plano das realizações imediatas, será a própria Bretanha cabeça da França mágica.

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