APRESENTAÇÃO

No género da História Sagrada, este é um livro único que atravessa os séculos de Portugalidade sob o pendão da mais misteriosa e controversa organização que existiu na Idade Média: a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão. Cimento indispensável à formação político-social e ao crescente sentido de espiritualidade e religião em Portugal, a Ordem do Templo é apresentada neste livro por meio das cartas régias e bulas papais referentes a ela, numa vasta colectânea de textos inéditos escritos na época, incluindo-se o Louvor e a Regra de São Bernardo de Claraval aos Cavaleiros Templários, as opiniões dos reis de Aragão e Portugal sobre a Ordem e dezenas de outros depoimentos de quem conheceu de perto a Milícia de Monges-Cavaleiros. Dentre os diversos temas que preenchem esta obra inédita na abordagem que faz aos Templários, destacam-se: a missão espiritual e temporal do Templo, a gnose dos Templários, o processo de abolição da Ordem do Templo, o tesouro dos Templários, a Ordem de Cristo e o Infante Dom Henrique, o Preste João e a Jerusalém Celeste, o património Templário em Portugal, dentre centenas de outros.  Os santos, as celebrações, as lendas, as crenças e os mitos, tudo isso e muito mais tornam a leitura deste livro indispensável ao entendimento mais profundo do Portugal Templário.

EDITORA: MADRAS EDITORA, SÃO PAULO, BRASIL

ANO DE EDIÇÃO: 2011, Novembro

INTRODUÇÃO

Ao longo dos anos que tenho dedicado à História Sagrada de Portugal, a Intra-História ou a não-contada, positivamente marginalizada talvez por preconceitos e desconhecimentos tanto académicos como religiosos de mais alta e valorosa Sabedoria, ainda assim assistindo ela à Portugalidade hoje mesmo presente na diáspora dos portugueses no mundo, afigura-se-me quase permanentemente, nas investigações levadas a cabo tanto em terreno como em gabinete, a presença soberana da Ordem dos Templários nas últimas centúrias da Idade Média.

Assim, não deixa de causar estranheza que hoje seja tão pouco estudada nos manuais de carteira uma organização como a Ordem dos Templários que, mesmo se observada somente da perspectiva sócio-económica, teve papel tão determinante na formação dos futuros estados europeus. Talvez isso se deva a ser a Instituição monástico-militar mais assombrada ou de intenção vedada e velada da Idade Média, como se depreende dos parcos mas significativos documentos sobreviventes até hoje referentes a ela, o que lhe valeu o óbvio actual do descuro, repito, tanto académico como religioso.

As recolhas documentais e fotográficas que fiz até ao presente estão arquivadas e catalogadas, boa parte delas agora dadas à estampa, vindo a preencher várias prateleiras com material exclusivamente do foro da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão (Pauperes Commilitonum Christi Templique Salominici), também conhecidos por  Cavaleiros Pobres de Cristo e da Santíssima Trindade (Pauperes Commilitonum Christi Santaeque Trinitatis). Através dessa documentação verifica-se ter havido no escrínio dessa Milícia determinado tipo de práticas que, chamemo-las assim, terá constituído o Ocultismo Templário, certamente exposto na fórmula da mentalidade religiosa da época mas, contudo, afigurando-se ser a própria Tradição Iniciática das Idades de que o Templo terá sido fiel depositário.

Ante tudo e desde 1997 quando foi escrita a primeira versão deste livro, agora revisto e aumentado, é obrigatório reconhecer ter aparecido nos últimos tempos um escol razoável de investigadores nacionais e estrangeiros que têm abordado e dado à lavra as suas conclusões, não raras dignas de mérito e aplauso. Mesmo assim, nessas conclusões não raro parece ficar, ad intempore, o etéreo flutuo da incoerência na conclusão dos documentos lidos, talvez por se os ler à luz do momento presente e não do tempo em que foram escritos e em que condições. Está nisto o célebre documento de Chinon, de que darei notícia num dos próximos capítulos.

A par desse escol de raros mas proveitosos investigadores, há o vasto leque dos que se arremessam ao incoerente exercício da arte de bem fantasiar, aproveitando os dados credíveis que a História conservou até hoje para, num delírio febril, lançarem-se à aventura infrutífera das mais inconsistentes conjecturas, seja por inocência mental própria ao estatuto «new age», seja por consciência mal-intencionada no pretendo de algum intento imediato mas ainda assim mais ou menos velado, indo converter-se em política obscura de aparência cultural. Nesta condição estão a invenção rasurada de imensas bulas, cartas e outras a par de razoável iconologia atribuídas aos Templários mas que, verdade se diga, o seu crédito não vai além de Setecentos, a maioria inventada por autores do século XIX e princípios do XX. Nesta precaríssima condição está o célebre bafometh, assim como as famigeradas Profecias de João de Jerusalém, dito profeta dos Templários, e de ambos darei notícia nos próximos capítulos.

Outros, jovens desejosos de seguir as pisadas acauteladas dos mais velhos em saber e idade mas num desejo incontido de receberem créditos públicos pela publicação constante das suas redacções de temáticas tão variadas e tão ao sabor juvenil do “sabe-tudo”, estatuto ardoroso que a idade experimentada acaso haverá de refrear e talvez revelar ridículo, acabam assimilando de tudo um pouco assim se dispersando sob a capa dum positivismo que se torna incoerente, quer por disporem o Sagrado no mesmo patamar do profano, quer por ostracizarem ou tão-só ignorarem o sentido do falar e do agir, não raro com a política aparelhando com a religião, do mundo medieval, falar e agir esse bem diverso do de hoje e que só encontra paralelo na permanência secular da religião continuar aparelhada com a política.

De maneira que ignorando ou então superficializando acerca dos motivos de determinadas manobras político-religiosas que nos bastidores sociais levaram a certos acontecimentos controversos relacionados aos Templários, como foi o caso da polémica batalha de Ascalon, vai-se desavisadamente redundar no erro factual do parcelar ser tomado pelo todo, e mesmo esse incompreendido por não se saber das pretensões veladas dos que assumiram posições determinantes que viriam a marcar os acontecimentos subsequentes. É o caso do imperador Frederico II, primeiro protegido do Templo e depois insurgido contra o mesmo, acusando os Templários de traírem a Cristandade por sua mancebia com o Xiismo islâmico, particularmente com os Assacis da Jordânia e do Líbano, estes que logo receberam da parte da Igreja romana os maiores vilipêndios vingando até hoje, como o de serem “fumadores de haxixe” e “assassinos” de punhal a soldo de quem tivesse bolsa mais gorda, e… nada mais errado! Mas por certo que esses vilipêndios romanescos aconteceram por o papa se sentir ensombrado com a presença desassombrada do Cheik Al-Djebel, o Iman Madhi Encoberto da Linhagem Al-Sabah, que Marco Polo celebrizaria como o “Velho ou Ancião da Montanha” (Bey Al Bordi, Senhor de Alborj, a Montanha Primordial, assim identificado por judeus e cristãos a Mikael, o arquétipo do Monarca-Pontífice de Salém, Melki-Tsedek, também igualado por hindus e budistas ao Chakra-Varti na Morada Santa de Monte Meru, que como Primordial também é o Pólo Norte magnético, figurado “Torre de Fé” pelo monoteísmo das três religiões do Livro), Chefe Supremo da Ordem dos Assacis. Este é assunto que desenvolverei nas páginas seguintes.

Ou então, não se precavendo do sentido da Regra diferir do de Estatuto, tal qual o cimento com que se faz a parede do edifício, confundir-se ambos e desfechar não se sabendo desse mesmo e primaz sentido. À Regra e aos Estatutos sujeitavam-se os Cavaleiros Templários, por norma gente culta provinda exclusivamente das melhores famílias nobres, fortemente brasonadas, da Europa. Se não fosse de sangue nobre, de Casa armoriada distinta, não poderia ser Templário. Menos ainda seria Monge-Cavaleiro se não contraísse antes os três votos perpétuos, espírito da própria Regra e lógica da mesma, de Pobreza, Obediência e Castidade. Ipso facto.  Aos Estatutos sem a Regra, logo sem votos contraídos, sujeitavam-se os cavaleiros laicos contratados pelos Tempreiros, como era uso chamá-los em Portugal, que mesmo assim também eram Templários pelo direito que os Estatutos lhes conferiam. Grande número destes viriam depois a tornar-se Templários de “corpo inteiro”, acrescendo ao direito a fé, pelo abraço além dos Estatutos da Regra e contracção dos votos perpétuos. Era-lhes então deposto o manto cruzio de Cavaleiro-Monge, certamente a ambição maior de qualquer um que entrasse na Instituição.

Dos nove Cavaleiros que originalmente fundaram a Ordem nenhum era analfabeto, pobre e de famílias minguas, não: provinham das melhores Casas da Europa, frequentavam as cortes mais ilustres, dominavam as letras com mestria igual às das armas sagradas pela Regra de Cavalaria que lhes legitimava os Dons adiante dos nomes próprios. O seu abraço à Fé beneditina, antes da Reforma de Cister, tornando-os protótipos dos futuros Monges e Cavaleiros, ainda assim não lhes concedia o direito canónico de aplicar os sacramentos e exercer o ofício da missa. O monge não detém esse direito sacramental, só o sacerdote. Este está sagrado, é pontífice ou “ponte” entre o Divino e o Terreno. O monge está consagrado à Ordem,  mas não sagrado no Ofício, e nisto reside toda a diferença: um sacerdote é sempre um monge, mas um monge nem sempre é sacerdote. Por isto, eram solicitados sacerdotes de outras Obediências (principalmente cistercienses) para ministrarem os ofícios divinos nas Casas do Templo, onde os cavaleiros certamente seriam monges, mas nunca sacerdotes. Isto não invalida os seus conhecimentos teológicos das escrituras e dos ofícios. Conheciam-nos mas não detinham o poder sacramental necessário à sua legítima e regular transmissão sacerdotal, ou seja, a “transmissão apostólica”.

Foi essa diferença, que é tudo, a levar à redacção da proibição, na alínea XXI da Regra, dos seculares não usarem dos mesmos trajes e insígnias impostos pela Religião dos Templários canonicamente investidos, a fim de evitar confusões e escândalos, tanto civis como religiosos, como aconteceu nos primeiros tempos da Milícia agrupada pelas armas e pela fé mas sem norma de vida, ou seja, desregrada, sem Regra. Assim, para separar o temporal ordinário do espiritual ordenado criando ordem distinta como vida regrada, São Bernardo doou aos Cavaleiros Pobres de Cristo a Regula Vitae, logo aceite, assumida e vivida, com o apartamento das vicissitudes antigas nascidas da desordem de não se ter norma condutora, reconhecidamente afiliada à Tradição e que pudesse ser lida, interpretada e vivenciada tanto como catequese quanto como gnose, para todos os efeitos, sempre vivenciada por todos que abraçassem a Religião. E todos quantos posteriormente, ainda assim excepcionalmente, quiseram passar por Templários mas sem o ser, aproveitando-se desse estatuto distinto para actos de banditismo e abusos de toda e qualquer espécie, tanto na Europa como no Ultramar, sabe-se terem sido os próprios e verdadeiros Templários a denunciá-los, combatê-los e desbaratá-los in definitivus.

Por vezes também se me revela um desconhecimento grasso dos usos e costumes medievais, estes geralmente saídos de preceitos religiosos, como esse dos Templários usarem barbas longas como “prova cabal” do seu “escasso asseio físico”, compensado pela “gula desmedida”! Afirmativas desse tipo vão além da ignorância: penetram bastamente o terreno risível do patético. Na sociedade medieval só os nobres e distintos usavam barbas longas, os demais nem sempre. Eram sinal de soberania viril e de potência espiritual, herança judaica transmitida à Europa e cuja fonte é o Sepher Dzeniutha, o “Livro Oculto”, indicando a “Barba” da “Cabeça Suprema”, ou o Eterno, como enfeitada com nove adornos gloriosos (sefiras). Logo, todo o nobre e todo o monge deixavam crescer as barbas para que fossem como as do Eterno em si mesmos, e assim lhes desse a potência viril indispensável tanto nas armas como na fé. O mesmo vale para a cabeleira basta. Quanto às regras alimentares, sabe-se pela Regra e pelos Estatutos que os Templários quando não eram rigorosamente comedidos, eram pouco mais que frugívoros, e o vinho era por norma terminantemente proibido nas mesas das suas refeições, segundo a mesma Regra.

Com tudo, e isto é muito positivo, mesmo assim denota-se o fascínio que a Ordem dos Templários exerce actualmente um pouco por toda a parte, certamente por causa do halo de mistério e segredo em que se envolveu, muito mais porque em casas militares não entravam civis, logo não se sabendo o que havia e fazia nelas, aventaram-se e inventaram-se lendas maravilhadas pela fantasia do misterioso, e na demanda do que ela terá sido resta-me convidar o leitor a acompanha-me no roteiro desfilado nesta obra, que voto lhe seja de grande proveito ao destrinçar ou, no mínimo, entender, do que foi e fez a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão.

Vitor Manuel Adrião

 

ÍNDICE

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO I

PATROLOGIA AFONSINA E CAVALARIA DE DEMANDA

CAPÍTULO II

OS TEMPLÁRIOS E A MATRIZ DE LOURES

CAPÍTULO III

AS SIGLAS DA MATRIZ DE LOURES

CAPÍTULO IV

“CIVITAS” E “TEMPLUM” SAGRADOS

CAPÍTULO V

REGRA DOS CAVALEIROS POBRES NA CIDADE SANTA [DE JERUSALÉM]

CAPÍTULO VI

DO LOUVOR DA NOVA MILÍCIA E DOS SOLDADOS DO TEMPLO

CAPÍTULO VII

TEMPLÁRIOS, OS GUARDIÕES DA “TERRA SANTA”

CAPÍTULO VIII

OS TEMPLÁRIOS E AS HERESIAS

CAPÍTULO IX

CARTA ERUDITA DE D. FR. BENITO JERÓNIMO FEIJÓO

CAPÍTULO X

OS TEMPLÁRIOS E OS CELTAS

CAPÍTULO XI

OS TEMPLÁRIOS E OS JUDEUS

CAPÍTULO XII

OS TEMPLÁRIOS E OS ÁRABES

CAPÍTULO XIII

SANTOS E PROFETAS DO TEMPLO

CAPÍTULO XIV

O TESOURO DOS TEMPLÁRIOS

CAPÍTULO XV

A PARÚSIA DOS TEMPLÁRIOS

CAPÍTULO XVI

A FREIRIA MILITAR DE JESUS CRISTO

CAPÍTULO XVII

CONSULTA DA REFORMAÇÃO DA ORDEM DE CRISTO

CAPÍTULO XVIII

A REGRA E DEFINIÇÕES DA ORDEM E MESTRADO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

CAPÍTULO XIX

RITUAL DE ARMAÇÃO NA ORDEM DE CRISTO

CAPÍTULO XX

O INFANTE HENRIQUE DE SAGRES

CAPÍTULO XXII

A DEMANDA DO REINO DO PAI JOÃO

CAPÍTULO XXII

CARTA DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS A MANUEL, IMPERADOR DE CONSTANTINOPLA

CAPÍTULO XXIII

PATRIMÓNIO TEMPLÁRIO EXISTENTE EM PORTUGAL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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