Roma, Caput Mundi

Sim, Roma “Cabeça do Mundo”. Ao menos no sentido religioso, como sede da religião confessional do Ocidente, tal qual Atenas, na Grécia, foi o berço cultural da Europa.

A origem de Roma esconde-se na sua lenda de fundação onde entra uma loba cuidando de dois irmãos gémeos, Rómulo e Remo, abandonados à sorte do destino pelos homens e os deuses, eles que eram filhos de Marte e de Rhea Sílvia, descendente de Eneias, herói de Cartago. Amamentados por Ruma, a loba ou lupe, a Lua expressiva da fecundidade, Rómulo e Remo cresceram e fizeram-se homens, o último representando os povos migratórios ou nómadas do Lácio e o primeiro expressando a fixação ou sedentarização dos mesmos aqui, o que ficou assinalado no mito de “Rómulo matar o seu irmão Remo”, tal qual Caim matara Abel na Bíblia, cujo significado é o mesmo.

Como Remo é símbolo dos povos migratórios movendo-se do Oriente para Ocidente no Globo habitável, ele ficou, astrologicamente, como símbolo da Terra em seus movimentos orbitais e sazonais, estes dominados por Marte, expressando a sedentarização dos mesmos povos passando de pastores a agrários pela construção de cidades, o que sideralmente é marcado pelo espaço e tempo de prevalência das estações anuais marcando a vida das urbes inicialmente rurais, facto simbolizado na figura de Rómulo que se tornaria o primeiro rei de Roma, segundo a lenda.

Foi assim que Marte (Rómulo) passou a ser, no horóscopo da cidade de Roma, o seu planeta regente a par de Terra (Remo) sob a influência de Vénus que é, astrologicamente, uma espécie de alter-ego da Lua (Ruma). Por esta razão, ficou convencionada por Públio Terêncio Varrão (82 a. C. – c. 35 a. C.), poeta, historiador e astrólogo, que a data da fundação de Roma era 21 de Abril (quando o Sol sai do signo de Carneiro/Marte e entra em Touro/Vénus) de 753 a. C., atribuindo uma duração de 36 anos cada uma das sete gerações correspondentes aos sete reis mitológicos de Roma, começando por Rómulo. Esses “36 anos” são simbólicos e referem-se aos grandes ciclos planetários onde domina durante esse tempo um dos sete planetas tradicionais da Antiguidade, como sejam: Sol, Saturno, Vénus, Júpiter, Mercúrio, Marte, Lua. Conclui-se que cada uma das “sete gerações” esteve sobre influência de um desses planetas, sendo que os sete reis mitológicos (os quatro primeiros latinos e sabinos, e os restantes etruscos ou tarquínios) foram os seguintes: Rómulo (753 a. C. – 716 a. C.), Numa Pompílio ou Panfílio (716. A. C. – 673 a. C.), Túlio Hostílio (673 a. C. – 641 a. C.), Anco Márcio (641 a. C. – 616 a. C.), Tarquínio Prisco (616 a. C. – 578 a. C.), Sérvio Túlio ou Mastarna, em etrusco (578 a. C. – 534 a. C.), Tarquínio, o Soberbo (534 a. C. – 509 a. C.).

Foi assim que 21 de Abril de 753 a. C. ficou como o Natal de Roma, sendo também dia da festa de Pales, a Parilia. Essa era uma divindade da mitologia romana relacionada com a vida pastoril, e na festa da sua celebração os pastores acendiam fogueiras de restolho e espinhos sobre as quais saltavam (costume que se transferiu depois para os festejos joaninos entre os povos cristãos), e pediam perdão aos deuses pelos seus animais terem penetrado nos recintos sagrados dos templos. Em algumas fontes clássicas, como Ovídio e Virgílio, Pales é apresentada como divindade feminina, enquanto outras fontes referem-na como divindade masculina. Possivelmente seria hermafrodita ou dotada dos dois sexos (Palibus duobus, assim festejada a 7 de Julho no seu templo que estaria no Campo de Marte), para expressar o momento de sedentarização dum povo nómada que acabou fundando a cidade de Roma.

Etimologicamente, a origem do nome Roma provirá do grego Róme, “bravura, coragem” (atributos de Marte), cuja raiz rum significa “seios, tetas”, com possível referência à loba ou lupe, em latim. A língua etrusca, pegando na mesma raiz grega, rum, extraiu a palavra Ruma para designar o burgo, e aos seus habitantes chamava Rumach, “de Roma”. Mas a expressão Ruma, com origem greco-egípcia, servia também para designar o boi, este o animal ruminante que se atribui a Vénus (signo do Touro) e se crê auspiciar astrologicamente Roma. O facto é que o boi na Antiguidade romana ocupou lugar destacado nos seus cultos zoo e antropomórficos. Daí que o Campo do Boi passasse a ser conhecido pelo nome latino de Forum Ruminalis ou Forum Bovarium, ou seja, Campo dos Bois. Durante muito tempo, segundo refere Tito Lívio, mostrava-se no Forum Ruminalis a figueira sob a qual a loba aleitara os gémeos Rómulo e Remo. Por tal motivo, passou a ser conhecida pelo nome de Ficus Ruminalis, isto é, Figueira Ruminal, planta saturnina, tal qual o boi negro (ao invés do branco que é de Vénus).

Já o Rio Tibre que banha a “cidade eterna”, o seu nome provirá provirá do latim arcaico Tibaris, onde estão presentes os temas mediterrânicos tab e ares, respectivamente significativos de “santo” e “carneiro”, ou seja, “o carneiro santo”, nome dado ao deus Ares, o padroeiro das legiões romanas que tinha aqui, em Roma às margens do Tibre, o centro principal do culto a ele, donde irradiava para todo o império que cobriu a Europa, parte de África e chegou às portas da Ásia.

Como cidade, inicialmente gizada em quadrado, Roma nasceu no Monte Palatino (nome derivado de Pales, a divindade pastoril), onde se ergueu o palatium, “palácio” dos soberanos, em breve consagrando-se a Júpiter, por ser considerado o maior e mais poderoso dos deuses, tal qual os imperadores romanos consideravam-se maiores e mais poderosos que quaisquer outros soberanos no mundo habitável. Por isso, a águia, ave jupiteriana, ficou com emblema orgulhoso e augusto do império.

Sendo a cidade das sete colinas, Roma representava-se por sete templos principais em cada uma delas, e quando se tornou cristã levantaram-se nas mesmas sete igrejas que serviriam de luminárias à fé católica irradiando para todas as partes do mundo onde a mesma existe. Isto dá-lhe os foros legítimos de caput mundi e aeterna civitas por essa mesma razão menos política-temporal e mais religiosa-espiritual, fazendo-a cidade do divino Amor, que é o que significa Roma às avessas. As sete colinas romanas com os seus sete templos antigos, são:

Monte Aventino (Mons Aventinus) – Templo dedicado a Diana, deusa da Lua.

Monte Capitolino (Mons Campidoglio) – Templo da Tríade Capitolina (Júpiter, Juno e Minerva), cujos deuses intercambiam entre si tal qual faz o planeta dos intercâmbios ou permutas, Mercúrio.

Monte Celio (Mons Caelius) – Centro devocional de Rómulo, sob a invocação de Ares ou Marte.

Monte Esquilino (Mons Esquilinus) – Templo da deusa Vénus.

Monte Palatino (Mons Palatinus) – Templo de Júpiter.

Monte Quirinal (Collis Quirinalis) – Templo do deus Quirino, protector do Estado Romano dando-lhe a luz ou Sol necessário à sua boa legislação.

Monte Viminal (Collis Viminalis) – Templo do deus Silvano presidindo às mortes e enterramentos, predicados de Saturno.

O papa Alexandre VII (1599-1667), seguindo a tradição religiosa das sete colinas, deu como principais as sete igrejas de Roma: Santa Maria Annunziata, Santi Vicenzo e Anastasio, San Paolo, San Giovanni in Laterano, Santa Maria Maggiore, Santa Croce in Gerusalemme, San Lorenzo fuori le Mura.

Por fim, na cidade do Vaticano (Vaticanus) tem-se na basílica de S. Pedro de Latrão, substituta do templo dos Vates com que se iniciou apodar Roma, cidade eterna.

O Templo de Vesta e o Vaticano

Do Palatino ao Vaticano a distância é breve. Por certo nenhuma distância cultual havia entre os dois lugares no tempo do império romano. Ou seja, ambos os montes da cidade eram povoados por sacerdotes e sacerdotisas consagrados ao culto solar ou apolíneo do deus Mitra e sobretudo da deusa Vesta, que aí tinham os seus templos.

Por debaixo da basílica de S. Pedro de Latrão subsistem restos de um mitreo ou templo mitraico subterrâneo, ainda com o altar meio desconjuntado, e no Palatino, no Forum Romano, mantêm-se as ruínas do templo circular de Vesta com a vizinha Casa das Vestais ou as consagradas a essa deusa solar, jovens puras e virgens encarregues de manter aceso o fogo sagrado no templo as quais, além da sua esmerada educação preparando-as para a vida do lar, eram igualmente preparadas no desenvolvimento psicomental das faculdades de previsão do futuro ou vaticínio. De maneira que à função de vestais ou virgens aliavam, sobretudo as que abraçavam a vida religiosa para toda a vida, o exercício de vates ou vaticinadoras.

Delas deriva o nome Vaticano, do latim Vaticanus, derivado de vates, estes que aí viveram muito antes da Roma pré-cristã, havendo inclusive um templo do deus etrusco Vagitanus que era o padroeiro dos vaticinadores. De maneira que o Vaticanus é o primitivo “lugar dos vaticínios”, e sobre o templo de Vagitanus ter-se-á levantado o cristão de S. Pedro.

Mas esse Vagitanus era um deus menor em comparação à divina Vesta, considerada a esposa de Apolo ou Helius, o Sol Espiritual. Por isso todos os lares romanos possuíam uma lareira onde ardia a chama eterna de Vesta fazendo as vezes de imagem desta. Como o Sol é redondo da mesma forma o eram os templos da deusa, com as entradas voltadas para o leste para expressar a ligação entre o Sol da Vida e fogo sagrado ardendo no centro do recinto. Vesta que também era chamada Héstia, donde derivou o nome de hóstia, que como se sabe também é de formato circular e expressa o corpo místico da Divindade em Cristo, incarnação do Sol Espiritual, ou melhor, do Logos Eterno. Os próprios templos circulares ou votivos do Cristianismo não deixam de ser reproduções dos primitivos da deusa Vesta ou Héstia, pelo que o seu simbolismo cristão restrito é o de representar a hóstia sagrada, esta o alimento eucarístico tal qual o Sol o é dos corpos e das almas.

Segundo Dionísio de Halicarnasso, os romanos acreditavam que o fogo sagrado de Vesta estava intimamente ligado ao destino da cidade e viam no apagar dele um presságio mortal da extinção da cidade, e até mesmo do império, o que aconteceu com a implantação da nova religião cristã, possuída da simbologia mitraica masculina e da feminina de Vesta.

Para que em Roma o fogo perpétuo não se extinguisse no Templo de Vesta (Aedes Vestae, em latim), possivelmente mandado construir pelo imperador Pompilius Numa no século VII a. C., ele era mantido por seis ou dez sacerdotisas da deusa, num sacrifício permanente através do qual a inocência virginal servia de elemento substancial e até de escudo contra os pecados, as falhas eternas da Humanidade. Obviamente que o perímetro do templo era rigorosamente vedado aos homens, tanto de dia como de noite. Essa tradição mantém-se nos mosteiros femininos cristãos.

Uma vez por ano, no primeiro dia de Março, renovava-se o fogo sagrado: a sacerdotisa chefe do templo ou Virgem Máxima (Virgo Vestalis Maxima) assessorava o Sumo Pontífice (Pontifex Maximus) com ela apagando e ele acendendo novamente o fogo sagrado, por meio de dois paus onde um penetrava o orifício doutro e friccionavam-se até gerar chama, técnica chamada pramantha. O acto envolvia-se de grave cerimonial expressando a Vesta como deusa geradora e sustentadora das mulheres e da família. Ao mesmo tempo, por ser realizado nas proximidades do Equinócio da Primavera, servia de preanuncia do ano novo astrológico, em 20/21 de Março, quando a Natureza desponta pujante sob o signo do Carneiro animado pela impetuosidade ígnea de Vesta, a deusa solar. O 1.º de Março das Vestais veio a ter o seu equivalente no 1.º Domingo da Quaresma, período que abre o preparatório da Páscoa, e que vai até Domingo de Ramos, quando Jesus entrou em Jerusalém montado num jumento, este que era o animal sagrado das vestais, símbolo de sacrifício, humildade e paz.

Em Roma, na grande festa chamada Vestália os jumentos eram coroados de flores e não trabalhavam. Durante a festividade, que durava de 7 a 15 de Junho, as senhoras romanas iam em procissão, descalças e cobertas, oferecer o pão por elas cozido aos templos de Vesta. No final da festividade, as vestais fechavam o templo, lavavam-no e depois abriam-no com um banquete oferecido ao seu divino orago, contando apenas com a presença de mulheres. A Vestália tem, no Cristianismo, como vizinha e oposta, ainda assim com algumas semelhanças na finalidade litúrgica, a celebração do Corpus Christi, o Corpo de Deus. No final do mesmo mês de Junho, dia 29, S. Pedro é celebrado na sua basílica vaticana e em todo o mundo católico romano, que também assim e por estarem em data próximas no mesmo mês, acaba sendo uma evocação inconsciente do passado mágico dos vates e das vestais que sagraram esse lugar muito antes do Apóstolo Pedro ou os seus seguidores substituí-los cultualmente, onde o Papa faz as vezes do Sumo Pontífice da religião solar dos vates e vestais de Roma e do seu vasto império na época.

Por serem consideradas imbuídas de poderes especiais, as vestais eram honradas por todos e tinham poderes jurídicos de perdoar aos condenados que buscassem o seu socorro, inclusive extirpar os pecados da alma só com a sua simples presença. A sua pureza corporal e espiritual era considerada a garantia da segurança e salvação de Roma, sendo por isso vigiadas severamente pelo Sumo Pontífice.

A disciplina rigorosa das vestais (por exemplo, aquela que deixasse apagar o fogo sagrado no templo era severamente chicoteada) acabou sendo herdada pelas freiras professas cristãs, juntamente com os dotes de pureza ou virgindade do corpo e da alma. As vestais eram escolhidas dentre as filhas de famílias nobres e deviam servir durante trinta anos no templo, dos quais dez eram de aprendizagem, outros dez de sacerdócio, e os últimos para ensinar as novas vestais. Deviam manter a castidade, estando submetidas a regras severas, e em caso de infracção ao casto voto, eram enterradas vivas perto do Monte Quirinal, no campus sceleratus (campo da perversidade), onde a ex-virgem era acompanhada por um procissão fúnebre até ao local, onde era encerrada numa cova contendo uma cama, uma lamparina acesa, e um pouco de óleo e leite.

Com o passar do tempo e a decadência do império romano, as vestais tornaram-se bodes expiatórios e foram usadas para fins políticos, sendo-lhes atribuídas as causas dos desastres naturais e as derrotas nas batalhas por, suposta e alegadamente, terem infringido os seus deveres e quebrado o voto de castidade, facto nunca provado como esse da Virgem Máxima injustamente condenada à morte pelo imperador Domiciano em 90 d. C., enquanto o seu suposto amante morria espancado nas escadarias do Forum; mas ficou provado que a velha e gasta política romana não soube acompanhar a marcha do progresso político-social, e com isso o império foi gradualmente dissolvendo-se e Roma tomando nova feição política, cultural e religiosa.

O que resta do Templo de Vesta no Palatino ardeu duas vezes. A primeira no grande incêndio de Roma no ano 64 d. C., crê-se que mandado atear pelo imperador Nero. A segunda no ano 191, tendo Julia Domna, esposa de Septímio Severo, mandado restaurar o templo. A chama sagrada foi retirada do mesmo em 394 por Teodósio I, após ter vencido a Batalha de Frigidus, derrotando Eugenius e Arbogast. Essa data marcou o fim das vestais em Roma e o abandono do templo, sucessivamente saqueado até desaparecer todo o seu mármore no século XV. A secção em pé hoje foi reconstruída na década de 1930 durante o regime de Benito Mussolini.

Fonte das Três Tiaras

O simbolismo decorativo da Fontana delle Tiare ou Fonte das Tiaras, no Largo delle Colonnato, em Rione Borgo, sem dúvida que se inspira e refere à presença próxima dela da residência pontifícia. Encontra-se situada por detrás do acesso ao lado norte da Praça de S. Pedro do Vaticano. É obra realizada após encomenda da comissão da Comuna de Roma ao arquitecto romano Pietro Lombardi, em 1927.

A fonte ergue-se sobre base circular ligeiramente destacada e assenta num trevo ou trifólio sobre que se ergue uma grossa pilastra donde para três bacias escorre a água. O conjunto é encimado por três tiaras papais dispostas em triângulo tendo abaixo de cada, em duplicado, as chaves pontifícias, ao todo, seis.

Sem dúvida que se está diante de uma indesmentível simbologia papal assinalando o sumo-pontífice como chefe supremo do orbis catolicus romanus (“mundo católico romano”), regular sucessor canónico da linhagem apostólica iniciada por S. Pedro confirmado pelo próprio Jesus Cristo conferindo-lhe a autoridade de chefe máximo da Igreja ou Assembleia universal dos seguidores da Sua Palavra, segundo relata o Evangelho de S. Mateus (capítulo 16, versículo 19): Et tibi dabo clavis regni caelorum (“E dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus”).

Aparecendo nesta fonte três tiaras equivalem à tríplice tiara, triregnum ou triregno, descrita como a coroa papal em forma de colmeia, com três diademas e encimada por uma pequena cruz. Objecto desde simples a ricamente decorado com ouro, prata e outras pedrarias preciosas, os papas podiam usar a tiara dos seus antecessores ou então confeccionarem novas. Recebiam o triregno na cerimónia de coroação após a sua eleição, marcando o início do seu pontificado, mas uma vez que esse é um ornamento não-litúrgico, só se era ostentado em procissões papais e actos solenes de jurisdição, pelo que o papa, como os bispos, ornamenta-se com uma mitra pontifícia nas funções litúrgicas. Os primeiros registos do uso do triregno remontam ao século VIII, desenvolvendo-se a sua decoração e forma até meados do século XIV, sendo que o último papa a portar triregno foi Paulo VI, em 1963. Dessa data até hoje, raramente os papas usam-no, mas que ficou, com as chaves cruzadas ligadas por um cordão (cíngulo), como o brasão proeminente do papado.

Anteriormente ao século VIII, a origem da tiara pontifícia mergulha na lenda, dizendo esta que o papa Silvestre I (314-335) recebeu a tiara do imperador Constantino como um sinal de liberdade e paz na Igreja, inicio da pax romana. Também a narrativa lendária diz que Clóvis I ofereceu ao papa Símaco a tiara papal na igreja de S. Martinho, em Tours, no século V. Porém, um ornamento branco usado na cabeça do papa é registado pela primeira apenas na biografia do papa Constantino no século VIII, no Liber Pontificalis. Essa cobertura é chamada de camelaucum ou phrygium. A mais baixa das três coroas do triregno apareceu na base da chapelaria branca tradicional dos papas no século IX, quando esses assumiram efectivamente o poder temporal dos Estados Pontifícios, sendo essa coroa da base decorada com jóias para assemelhar-se às coroas dos reis e príncipes. O termo tiara é referido pela primeira vez na biografia do papa Pascoal II, no Liber Pontificalis, em 1118.

À coroa mais baixa da tiara adicionou-se uma outra passando a duas, em 1128 no pontificado de Bonifácio VIII, na época do conflito com Filipe, o Belo, rei de França, para demonstrar que a sua autoridade espiritual era superior ao poder real, e assim a tiara passou a chamar-se biregno. Quanto à terceira coroa acrescentada posteriormente com a qual a tiara passou chamar-se triregno, a sua data é incerta ainda que seja sugerido o seu aparecimento durante o pontificado de João XXII (1316-1334).

Às três coroas da tiara foram dados os seguintes atributos papais: Pastor Universal (coroa superior), supremacia da Autoridade Espiritual (coroa intermédia) e domínio do Poder Temporal (coroa inferior). Esses atributos derivam da tríplice dimensão de Cristo como Sacerdote, Profeta e Rei, funções, por sua vez, reconhecidas no Rei do Mundo ou Melkitsedek de quem Cristo a representação viva mais próxima ao mesmo, a ponto da própria Igreja reservar-se a duas espécies de sacerdócio, facto também reconhecido pela Sinagoga ou Judaísmo. De facto, o Livro do Génesis e a Epístola de S. Paulo aos Hebreus referindo-se a esse misterioso Soberano, levou a tradição judaico-cristã a distinguir dois sacerdócios: um, “segundo a Ordem de Aarão”; outro, “segundo a Ordem de Melkitsedek”. Este superior àquele, pois se liga do Presente aos Tempos do Advento do Messias, expressando os Apóstolos, os Bispos e a Igreja do Ocidente. E aquele vincula o Passado ao Presente, expressando os Profetas, os Patriarcas e a Igreja do Oriente.

Exotérico (público, confessional) – O Sacerdócio de Araão ou Sacerdócio Menor. Ministra as coisas temporais e confessionais (morais) e é o dominante na religião católica, andando próximo aos ensinamentos dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo.

Esotérico (reservado, sapiencial) – O Sacerdócio de Melkitsedek ou Sacerdócio Maior. Ministra as coisas celestiais e sapienciais (gnósticas), correlacionando-se aos ensinamentos do Apóstolo S. João.

O exclusivo dos Mistérios de Melkitsedek contém-se no Deserto (símbolo de lugar reservado ou aparte do mundo profano) e contém-se no Silêncio Sacerdotal, equivalente da Palavra Perdida na Maçonaria, nos quais a Opera Dei, “Obra Divina” ou Teurgia é o exercício exclusivo, possuída de leis e regras canónicas que, afinal, constituem a Ciência Sacerdotal.

Na Bíblia, tem-se aparece a primeira referência a Melkitsedek ou Melki-Tsedek no Genesis (XIV, 19-20): “E Melki-Tsedek, Rei de Salém, mandou que lhe trouxessem pão e vinho e ofereceu-os ao Deus Altíssimo. E bendisse Abraão (…) e Abraão deu-lhe o dízimo de tudo”, instituindo-se a Ordem de que fala o Salmo 110, 4: “Tu és um sacerdote eterno, segundo a Ordem de Melkitsedek”. Este é assim definido por S. Paulo na sua Epístola aos Hebreus (VII, 1-3): “Melki-Tsedek, Rei de Salém, Sacerdote do Deus Altíssimo que saiu ao encontro de Abraão (…) que o abençoou e a quem Abraão deu o dízimo de tudo, é em primeiro lugar e, de acordo com o significado do seu nome, Rei da Justiça, e em seguida, Rei de Salém, isto é, Rei da Paz; existe sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tem princípio nem fim a sua vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece Sacerdote para todo o sempre”.

É assim que o sacerdócio da Igreja cristã chega a identificá-lo à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, mantenedor da Tradição Apostólica que vem do Apóstolo Pedro até ao Presente. Tal como Melki-Tsedek é “Rei Sacerdote de Deus”, só como “Sacerdote de Deus” leva o nome judaico Kohen-Tsedek, e como “Rei do Mundo ou Imperador Universal” o de Adonai-Tsedek, funções assinaladas no triregno o qual o Brahmatmã, equivalente de Melki-Tsedek no Oriente, também carrega sobre a cabeça, acompanhado das duas chaves de ouro e prata indicativas dos Mistérios Maiores do Céu e dos Mistérios Menores da Terra. Também o Brahmatmã se triparte nas funções laterais de Mahinga e Mahanga, ou seja de Rei e Sacerdote do Eterno. Melki-Tsedek tinha, ainda, o seu equivalente no Antigo Egipto na função de Ptah-Ptahmer; na Índia, é chamado Chakravarti e Chakravartini e também Dharma-Raja; os antigos Rosacruzes reconheciam-no como Imperator Mundi e Pater Rotan, e foi assim que a Maçonaria o reconheceu no século XVIII, consignando-o Maximus Superius Incognitus, para todos os efeitos, o Imperador Universal dos corpos, das almas e dos espíritos com soberania absoluta sobre o Inferno, a Terra e o Céu, facto representado no triregno, nas chaves dos Mistérios e no cordão pontifical ou que liga os três Mundos entre si, Mundos esses animados ou vivificados pelos Pardas ou Rios Celestes que, neste particular, representam-se nas águas dessentadoras da Fontana delle Tiare, expressiva da tríplice função de Deus-Deus, Deus-Homem, Homem-Deus.

De Cibele a Santa Maria Maior

A Basílica de Santa Maria Maior (Basilica Sanctae Mariae Maioris), antigo panteão dos papas de Roma, desde sempre se revelou envolta em mistérios pelos quais o Céu e a Terra parecem jogar os destinos da Humanidade nas presenças da Virgem Divina e do Santo Graal, este que a Tradição Iniciática do Ocidente afirma ter transitado por este templo praticamente no início da Cristandade europeia. Resta encontrar os sinais comprovadores de tamanha e assombrosa afirmação, mesmo que estejam encapotados sob aspectos diversos do que aparentam ser.

Antes de haver igreja cristã aqui havia um templo romano consagrado à deusa Cibele, considerada “Mãe dos Deuses” ou Deusa-Mãe expressando a fertilidade da Natureza. Presidia aos ciclos da vida e da morte de todos os seres (minerais, vegetais, animais e homens) sendo igualmente a sua protectora, sobretudo do Reino Animal, motivo para os gregos apodarem-na de Potnia Theron, “Senhora dos animais”, sendo frequentemente representada com uma coroa de muralhas na cabeça, ramos de frutos nas mãos e um leão aos pés, indicativo da sua soberania como Mãe do Mundo ou Rhea, como os greco-romanos a consideravam.

 Os predicados da deusa Cibele seriam transferidos para a Virgem Maria, inclusive iconograficamente, como se vê numa escultura no exterior da basílica onde a Virgem aparece enlaçando o lado do Cordeiro Pascal, substituo óbvio do leão de Cibele. Ainda existindo em pé no ano 420 sob a vigência do papa Celestino I, o templo cibelenino seria derrubado durante o pontificado do sucessor daquele, Sisto III (432-440), sendo aproveitados os seus materiais para ampliar a basílica cristã sobre ele. A sua fundação remonta ao pontificado do papa Libério I (352-366), quando transformou em igreja o que era o palácio Sicinini (Ecclesia Sicinini) próximo do templo do Cibele, e daí chamar-se também Basílica de Santa Maria da Libéria ou Liberiana, desde logo posta sob a advocação da Virgem Divina, graças a uma lenda muito bela e significativa que se pode dispor no imobiliário das lendas graalísticas: um casal romano rogou à Virgem luzes para saber como empregar a sua fortuna. Receberam, então, em sonhos, tanto o casal como o papa Libério, a revelação de que Santa Maria desejava que lhe fosse construído um templo precisamente no lugar do Monte Esquilino que aparecesse coberto de neve. Os sonhos aconteceram na noite de 4 para 5 de Agosto, em pleno Verão. No dia seguinte, o terreno onde hoje se ergue a basílica amanheceu inteiramente nevado. A lenda é ainda comemorada por caírem do Céu pétalas de rosas brancas durante a celebração da missa que o papa realizou a seguir ao sonho profético.

Rosas de Maria é nome dado tradicionalmente à Revelação Celeste do Santo Graal ou Vaso Sagrado, Eucarístico, na Terra, onde as pétalas de rosas brancas substituem a manifestação da Pomba celeste sobre o lugar de eleição, para todos os efeitos, na iconologia mariana correspondendo à aparição do Espírito Santo expurgador das heresias e firmador da verdadeira Fé. Isto equivale à iluminação mística onde o Graal se revela não como objecto sagrado mas como consciência consagrada.

Mesmo assim, é facto significativo a época da ocorrência desse acontecimento milagroso ter coincidido com o momento de maior conflito entre o Catolicismo e o Arianismo, que se arrastava desde o Concílio de Niceia (Anatólia, Turquia) realizado no ano 325, onde os arianos negavam a existência de Jesus Cristo com duas naturezas, divina e humana, e os católicos afirmavam-na. Apesar de não ter escapado à fama de simpatia pela Arianismo, e que lhe chegou a valer o desterro para Berea de Tracia ordenado por Constâncio II, o facto é que em Roma, no ano 358, Libério I combateu essa doutrina e expulsou o antipapa Félix II, imposto pelo imperador.

O facto é que a basílica passou a ser chamada de Nossa Senhora das Neves, em conexão com a festa litúrgica do aniversário da Virgem Maria em 5 de Agosto, e é assim que aparece inscrita no Missal Romano de 1568: Sanctae Mariae Dedicatio ad Nives (Dedicação de Santa Maria das Neves).

Santa Maria das Neves equivale à Virgem Branca, a da Conceição ou Maior, portanto, a Mãe do Mundo expressiva da própria Terceira Pessoa ou Divino Espírito Santo como o único a operar o milagre da Criação, dispondo Maria, sua forma humana como repositório fértil (Graal) da Presença Divina, como Mãe Soberana dos animais, homens e deuses.

Mas será Sisto III a dedicar a basílica ao culto de Maria, Mãe de Deus, cujo dogma da Divina Maternidade, Concepção ou Conceição acabara de ser declarado pelo Concílio de Éfeso (431). Por isto, a Basílica de Santa Maria Maior de Roma é a mais antiga igreja do Ocidente consagrada à Virgem Maria.

Este templo também foi chamado de Santa Maria do Presépio (Sancta Mariae ad Praesepe), nome que lhe foi dado por causa da relíquia com um pedaço do berço ou manjedoura ou presépio da Natividade de Jesus Cristo, trazida para aqui no tempo do papa Teodoro (640-649). Essa relíquia está hoje sob o altar-mor da basílica, na Cripta da Natividade, dentro de um relicário de cristal desenhado por Giuseppe Valadier em forma de vaso, com Jesus Menino por cima e duas taças laterais, o que é uma referência óbvia ao Graal objecto que, teima em afirmar a Tradição Iniciática, terá passado por este templo há largos séculos. Ao lado do relicário chamado sacra culla (sacro berço), está a sepultura de S. Jerónimo, um dos Doutores da Igreja.

É interessante assinalar que a palavra sânscrita Akta, depois ocidentalizada Apta, signifique “creche”, “manjedoura”, “presépio” e ainda “lugar onde nasce o Sol”, e esteja presente nos ritos brahmânicos e noutros relacionados à manifestação da Luz de que o Graal Humano, Jesus Cristo, ao nascer no Apta de Belém de imediato se tornou a Luz do Mundo. Segundo Burnouf, o simbolismo desse rito ancestral é o seguinte: o brahmane (sacerdote) cruza dois pedaços de madeira (a swástika, ou cruz destrocêntrica) que, para não se moverem, são cravados com quatro pregos, e na junção dos dois braços da cruz passa uma corda que, pela fricção, produz fogo. O Pai do Fogo Sagrado é o “divino carpinteiro”, Tuashtri, que é quem prepara a cruz ou pramantha que deve gerar o Filho Divino, Agni, que é o Fogo. A sua Mãe é Maya, equivalendo à Virgem Maria cristã.

Quando o pequeno Agni nasce, é colocado num vaso, berço ou manjedoura, simbolicamente tendo ao seu lado a vaca mugidora. Ora Vâch (o mesmo que vaca), em sânscrito, significa: Verbo Sagrado, Palavra Criadora ou Logos Criador, sendo assim alusão ao momento da manifestação ou encarnação do próprio Verbo Divino, aqui, assinalado em Jesus Menino.

O sacerdote brahmane toma o pequeno Agni em suas mãos, coloca-o sobre um altar e espalha sobre ele manteiga clarificada (sendo esta a origem da “unção” ou “santos óleos” usados nos baptizados cristãos). É justamente quando o pequeno Agni, o Fogo Sagrado assim inflamado, toma o nome de Ungido (Iluminado), Akta em sânscrito e Christus em latim. Torna-se resplandecente, pois que em seu redor tudo se ilumina. As trevas desaparecem, os demónios fogem espavoridos diante da sua luz cintilante.

Ele é o Guru dos Gurus (Maha-Guru, Grande Instrutor, etc.), o Mestre dos Mestres e toma o nome de Jâtavâda ou “aquele em quem a Sabedoria é inata”. Este título cabe a Jesus Cristo encimando o relicário do presépio em Santa Maria Maior, onde mostra-se deitado, posição passiva ou fixação da Sua Pessoa, com a destra abençoando o Mundo, transmitindo-lhe a Sua Sabedoria e tendo por fundo as estrelas luminosas igualmente encimando as taças laterais, como que querendo significar: Graal, estrela bendita, caída do Céu.

O Sacro Cálice de San Lorenzo

A Basílica de San Lorenzo Fuori le Mura é alfobre de lendas e enigmas desaguando todas no Sacro Cálice, do qual alguns dizem que esteve aqui e talvez que ainda esteja escondido num recôndito obscuro deste templo, talvez nas suas catacumbas fechadas.

Fazendo parte do imobiliário da Roma misteriosa, o assunto merece atenção. Segundo a lenda, dentre os tesouros confiados ao diácono São Lourenço pela Igreja Grega fazia parte o Cálice Sagrado onde Jesus e os Apóstolos beberam na Última Ceia, e onde igualmente o Sangue Divino no Cristo jorrou no Calvário para dentro dele que discípulo José de Arimateia trazia consigo. Esta Taça Sagrada ficou conhecida na Idade Media como Santo Graal. Mas como ela chegou à posse de São Lourenço (Valência ou Huesca, Aragão, 225? – Roma, 10.8.258) é que ninguém explica, nem mesmo as lendas.

É dito que a presença do Santo Graal nesta igreja estará ligada às perseguições aos cristãos no ano 258, ordenadas pelo imperador Valeriano, e à ordem dada pelo Papa Sisto II para esconder os tesouros cristãos, dentre eles o Cálice Sagrado entretanto chegado à posse da Igreja Romana, sem que se saiba como. Esses tesouros teriam sido escondidos nas catacumbas sobre as quais seria edificada no século IV esta igreja de São Lourenço, por ordem do imperador Constantino I, depois ampliada na época do Papa Pelágio II (579-590).

É assim que alguns amadores de Arqueologia e História, servindo-se do Guia para as catacumbas escrito em 1938 pelo frade capuchinho Giuseppe Da Bra, como este acreditam existir uma sala subterrânea com cerca de 20 metros quadrados onde num canto estará o Graal num trono, e por estar representado em vários frescos nesta igreja a sua presença aqui parece ficar confirmada.

Contudo, a lenda local mostra-se impiedosa para os amadores do “fantástico”, pois ela conta que quatro dias antes de sofrer o martírio na grelha incandescente, São Lourenço confiou o Cálice Sagrado a um amigo que o levou para Huesca, sendo depositado no mosteiro de San Juan de la Peña, o núcleo de força espiritual do reino de Aragão, tendo ido parar depois à catedral de Valência, Espanha.

Não é crível que o Graal valenciano e até mesmo o romano seja o original onde Jesus Cristo bebeu e depois verteu o seu sangue. Só é crível como Tradição Graalística a que se liga por inteiro este santo valenciano sepultado aqui, nesta igreja que é uma das sete principais de Roma.

Primeiro que tudo, deve-se atender ao cargo eclesiástico de São Lourenço: diácono. A sua função é ser guardião do tesouro da Igreja, cuidar dos bens da mesma, cargo de grande responsabilidade, pois por bens ou tesouros além de entender-se riquezas materiais, objectos e valores, igualmente entende-se o cuidado na alimentação da fé aos crentes e da distribuição de esmolas aos necessitados. O diaconato foi responsável pelas primeiras comunidades cristãs e hoje mantêm-se ao serviço das mesmas como seus servidores. Possuindo o primeiro grau do Sacramento na Ordem eclesiástica, o diácono é ordenado não para o sacerdócio mas para o serviço de caridade e da proclamação da Palavra de Deus e da Liturgia. Assessora o sacerdote no ministério dos Sacramentos e da Missa, como se viu com São Lourenço assessorando Sisto II.

Por essa razão, o diácono São Lourenço é o “Guardião do Santo Graal”, no caso, a Taça Eucarística da Santa Missa que se vê retratada nos frescos do século XIII e nos ladrilhos do chão, juntamente com a Cruz pátea oriental que representava a Cristandade, e por isso a Ordem dos Templários (que nunca esteve aqui, e sim na igreja de São João Baptista desta cidade) adoptou-a como Cavalaria Papal, pois que o seu chefe supremo, antecedendo o Mestre Geral, era o próprio Papa.

Fala-se também que na Sexta-Feira Santa o Cálice escondido na pressuposta catacumba sanlourenceana verte sangue que logo se transforma em vinho. Como se sabe do facto, é absolutamente desconhecido… mas por certo terá uma razão mais crível que merece ser vista por todos: nesta basílica conserva-se uma laje com a mais antiga epígrafe latina cristã que refere explicitamente a transubstanciação do sangue em vinho pelo sacramento da missa: Verus in altari cruor est vinumque, “O verdadeiro sangue no altar parece ser vinho”.

São Lourenço (do latim Laurentius, “coroado de louros”, atributo solar, luminoso), tendo sido um dos sete diáconos da antiga Roma, é relacionado com o Graal porque, segundo a lenda, foi aqui o seu guardião e depois enviou-o para Aragão. Mas a presença graálica em relação com São Lourenço não se dá só em Roma e em Espanha, pois o imperador Santo Henrique, fundador do reino da Hungria, ofereceu à basílica de São Lourenço um enorme cálice de ouro e pedrarias que, miraculosamente, quebrou-se no momento do imperador expirar entregando a alma a Deus. O mesmo santo já havia restaurado milagrosamente outro cálice precioso que um presbítero de mãos frouxas deixara cair no chão.

As várias advocações de São Lourenço também são igualadas aos atributos transcendentes do Santo Graal. Segundo as lendas medievais, tratava-se de um Vaso Sagrado feito pelo próprio Deus que tinha o poder de ressuscitar os mortos caídos na batalha, curar-lhes as feridas e devolver-lhes a vida perdida. Com isso, representava a imortalidade conferida por iniciação espiritual, por certo gnóstica ou sapiencial. Igualmente tinha a qualidade de produzir e conter, em tempos de paz, alimentos suficientes para suprir com excesso o povo. Nisso, expressava o alimento da fé nutridor do povo crente, função destinada ao diácono encarregue da parte confessional, a par do exercício da caridade aos necessitados do mundo. De maneira que o Santo Graal ou Saint Vaisel vem a ser expressão dos Dons do Espírito Santo, tanto como estado de Consciência Espiritual como Objecto Sagrado, capaz de operar os maiores prodígios da Natureza, por reflectir a Quintessência da mesma.

De maneira que o significado do Santo Graal possui perfeita correlação física e espiritual na própria palavra:

Gral é o almofariz, objecto de laboratório, em que são feitas certas misturas químicas.

Graal é a Taça Sagrada. Nela, naturalmente, são feitas as mais sublimes, espirituais e místicas fusões e sublimações alquímicas.

Alquimia essa destinada a transformar a simples “vida energia” humana em plena “vida consciência” no mesmo homem, assim identificado a Cristo em quem incarnou o Divino Espírito Santo. Será, então, um Iniciado verdadeiro, um Ser Crístico de facto e direito.

Assim o foi São Lourenço, como se regista até no seu próprio nome, Luz, e a este propósito a sua associação ao elemento Sol-Fogo-Luz inclui-se não só no aspecto astronómico ou celeste das lágrimas de São Lourenço que é a chuva de estrelas, as Perseidas da constelação de Perseus, mas também no elemento geológico ligado às águas minero-medicinais cujas propriedades miraculosas são motivo para lhes chamar águas perfumadas e águas de São Lourenço. Finalmente, também possui uma vertente puramente filológica: o fogo de São Lourenço, nome que se dá em alguns lugares a um determinado tipo de urticária alérgica produzida pela exposição ao Sol.

Visitar Roma e não ir a San Lorenzo é visita inacabada, é passar ao largo do insólito e misterioso que a cidade eterna reserva ao visitante.

A porta alquímica do Marquês Palombara

A Porta Alquímica, também chamada Porta Mágica, Porta Hermética e Porta do Céu, é um monumento esotérico repleto de símbolos astrológicos e alquímicos permeio a frases em latim e hebraico, com igual sentido hermético. Ladeiam-na as duas corpulentas e atarracadas figuras barbadas desnudas do deus egípcio Bes, postadas como guardiãs do portal que parecem abrir para os misteriosos mundos subtis da primitiva Tradição Rosacruz.

Esta Porta Alquímica, edificada em 1680 segundo a data inscrita nela, é a única sobrevivente das cinco portas da villa Palombara de Massimiliano Palombara, marquês de Pietraforte (1614-1680), que se localizava na zona rural leste de Roma no Monte Esquilino, próxima da posição correspondente à actual Piazza Vittorio. Em 1873 desmontou-se a porta e remontou-se em 1888, nos jardins da Piazza Vittorio, num antigo muro da igreja de Santo Eusébio, sendo-lhe adicionadas lateralmente duas estátuas do deus egípcio Bes, vindas do Palácio do Quirinale. Postada no canto norte do jardim da Piazza Vittorio Emanuele II, onde está hoje, esta porta enigmática é por certo o ex-libris da Roma esotérica.

O facto de se lhe adicionar as estátuas de Bes resultou feliz, pois que este deus menor do Antigo Egipto era tido como protector dos lares contra os espíritos malignos, e assim mesmo também protector do sono, da fertilidade e do matrimónio. Estes atributos juntos à sua imagem tradicional assemelham-no ao deus dos gnomos apelidado pelos antigos hermetistas de Gob ou Gobi.

Sobre a arquitrave do portal, vê-se um medalhão onde a Cruz da Terra sobrepõe-se ao hexalfa ou estrela de seis pontas, vulgarmente chamada “estrela de David”. Representa o equilíbrio perfeito da Terra em harmonia com o Céu (triângulo vertido) e com a Terra (triângulo invertido). A Cruz da Terra descreve-se tradicionalmente como uma cruz sobre um globo ou círculo. Este círculo, aqui, contém um menor como estilização da rosa, que associada ao cruzeiro dá Rosa+Cruz. Em volta do círculo da Terra lê-se a frase latina: Centrum in trigono centri (“O centro (é) no trígono do centro”), e na cercadura do círculo envolvente do medalhão, tem-se nova frase latina: Tria sunt mirabilia Deus et Homo Mater et Virgo trinus et unus (“Três é a coisa maravilhosa, Deus e Homem, Mãe e Virgem, Trino e Uno”). Ambas as frases são referências à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Divino Espírito Santo em sua natureza Andrógina ou Masculina e Feminina, revelado na Natureza como Homem Deus (Cristo) e Virgem Mãe (Maria), sob cujo padroado estavam os antigos Rosacruzes, procurando por Maria (Iniciação Senhorial) chegar a Cristo (Iniciação Dominical). O nome Espírito Santo repete-se no lintel cimeiro inscrito em hebreu Ruach Elohim, ladeado pelos signos astrológicos de Saturno (esquerda) e Júpiter, configurados de maneira a também expressarem os símbolos das respectivas constelações do Capricórnio e do Sagitário, ou seja, o da Manifestação de Deus na Matéria como Saturno, e o do Reconhecimento de Deus sobre a Matéria como Sagitário. Por isto, tradicionalmente Sagitário é considerado o “aspecto superior” de Capricórnio, facto atestado pela legenda latina sob a inscrição hebraica: Horti magici ingressum hespericus custodit draco et sine alcide colchicas delicias non gustasset iason (“O dragão guarda a entrada do jardim mágico (Saturno), e se não fosse Hércules (Hermes ou Mercúrio) Jasão não teria as delícias da Cólquida (Júpiter)”.

Na trave lateral esquerda do portal, estão gravados os símbolos de Marte e Mercúrio, cada qual sobreposto por uma frase latina. O facto de sobrepor-se o beligerante Marte a Mercúrio, significa que a temperança ou “diplomacia” deste tempera e acalma a impetuosidade daquele, tradicionalmente considerado o planeta da guerra, dos guerreiros, assim suportados e dirigidos “inferior” ou interiormente pelo planeta associado ao conhecimento, à instrução, aqui, por certo, a dos sacerdotes ou detentores da sabedoria espiritual. Alquimicamente, assinala o Ferro (Marte) modelado pelo maleável Azougue (Mercúrio). Por isso, está inscrito em latim por cima do signo de Marte: Quando in tua domo nigri corvi parturient albas columbas tunc vocaberis sapiens (“Quando na tua casa (Marte) o corvo negro (matéria bruta) der à luz pombas brancas (matéria refinada), tu serás chamado sábio”). Por cima do signo de Mercúrio, lê-se: Qui scit comburere aqua et lavare igne facit de terra caelum et de caelo terram pretiosam (“Qem sabe queimar com água e lavar com fogo, faz da Terra Céu e do Céu Terra preciosa”), referência óbvia ao dito “tempero” ou equilíbrio.

Na trave lateral direita do portal, estão gravados os símbolos de Vénus e da Lua como é grafada na sexta casa do Zodíaco, invertendo graficamente o símbolo de Mercúrio. A sexta casa é precisamente a de Mercúrio com o aspecto feminino ou Virgem em exaltação ou predomínio nela, o que é retratado como Vénus (Mãe do Céu) sobre a Lua (Mãe do Mundo). Por cima do signo de Vénus, lê-se a epígrafe latina: Diameter spherae thau circuli crux orbis non orbis prosunt (“O diâmetro da esfera, o tau do círculo, a cruz do mundo não ajudam aos cegos” de entendimento espiritual, portanto, profanos da Ciência Sagrada). E por cima do símbolo cabalístico da Lua, lê-se: Si feceris volare terram super caput tuum eius pennis aquas torrentium convertes in petram (“Quem faz voar a Terra ao sopro da sua mente, terá transformado em pedra a água da corrente”). Refere-se à acção da Mente de Deus incarnada no Homem operando a transformação de si mesmo e com isso da própria Natureza. A isto chama-se Labor da Mãe Divina ou Obra do Espírito Santo.

Na base da porta hermética, centraliza-se o signo do sulphur ou enxofre rematado pela mais que iniciática sigla indicativa da conjunção Júpiter – Saturno, que os Iniciados Rosacruzes davam como sinal da manifestação messiânica ou avatárica, isto é, da realização universal da Parúsia ou Advento de Cristo sobre a Terra, onde Júpiter (indicativo do Espírito) e Saturno (indicativo da Matéria) se encontram conjugados ou em perfeito equilíbrio, mas com o Espírito (assinalado no sulphur alquímico) dirigindo as acções imediatas. Isto equivale à Iluminação Rosacruz como igual à obtenção da Pedra Filosofal, ou seja, a mesma Iluminação Espiritual tanto do Adepto como da Natureza Universal a que está integrado desde que Cristo ou o seu Princípio Divino despertou nele. A dupla epígrafe latina que ilustra lateralmente este símbolo, remete para esse mesmo significado: est opus occultum veri sophi aperire terram ut germinet salutem pro populo (“É obra oculta do verdadeiro sábio abrir a Terra, e trazer a salvação para o povo”). Filius noster mortuus vivit rex ab igne redit et coniugio gaudet occulto (“Nosso Filho morto (recolhido ao seio da Terra), vive, e como Rei (do Mundo) retorna do Fogo (do Espírito Santo, indicativo do Núcleo ou Sol Central do Globo) e revela o matrimónio oculto (do Espírito com a Matéria, de Júpiter com Saturno).

O senador Massimiliano Palombara era efectivamente um adepto da Alquimia membro da Ordem Rosacruz, facto provado e reconhecido pela unanimidade. O medalhão que encabeça este portal como único resto do seu palácio, é exactamente igual ao que está no frontispício do livro alegórico-alquímico Aureum Seculum Redivivum, de Henricus Madatanus (pseudónimo de Adrian von Mynsicht, 1603-1638), também ele Rosacruz. O frontispício da edição original dessa obra em 1621, é muito diverso do que aparece na edição póstuma de 1677, sendo nesta que se inspirou Palombara.

Segundo a lenda, transmitida em 1802 pelo erudito Francesco Girolamo Cancellieri, certa noite o marquês Palombara albergou no seu palácio um peregrino identificado como Mestre Rosacruz ou Rosacruz Invisível (oculto das vistas profanas), identificado por alguns como o alquimista Francesco Giustiani Bono, que ofereceu ao seu discípulo um pó capaz de produzir ouro, além de um misterioso manuscrito repleto de símbolos esotéricos que continha o segredo da Pedra Filosofal. Esses símbolos poderão bem ser os que estão grafados neste portal, aliás, pelo qual atravessou o Sábio misterioso na manhã seguinte desaparecendo para sempre.

 

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