Os Templários Kadosh (30.º Grau Kadosh) – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jan 27 2012 

Este estudo constitui a resposta à solicitação de várias partes amigas no país e no estrangeiro interessadas em saber se há ou não relação, nem que seja tão-só simbólica, entre a actual Franco-Maçonaria e a antiga Ordem do Templo, e nesse sentido responderei o melhor que puder mas cingindo-me exclusivamente à Tradição Iniciática das Idades na sua vertente TEOSOFIA/TEURGIA que aqui me traz, pelo que me restrinjo exclusivamente a essa cuja resposta afirmativa é a de ser muito indirecta a relação antigo Templo – moderna Maçonaria, e a que existe é muitíssimo diferente das pretensões usais em voga nos meios maçónicos.

Dos 33 Graus Simbólicos que constituem a Maçonaria Escocesa (Rito Escocês Antigo e Aceito), as funções dos 3 últimos resumem todos os anteriores, tal como o 30.º resume os posteriores. Com efeito, o 31.º Grau tem a função de manter a regularidade da acção social maçónica, ou seja, de inspeccionar sobre o exercício restrito dos landmarks ou “regras” por parte das Lojas junto do mundo profano; o 32.º Grau assegura a regularidade do “Real Segredo” no interior das Lojas, isto é, assegura a manutenção ou obediência ao Rito prescrito conforme a Constituição Geral; por fim, o 33.º Grau constitui o Supremo Tribunal ou cúpula da Ordem Maçónica assegurando a boa ordem dos trabalhos das Lojas para o mundo profano, e a boa ordem dos trabalhos no interior das Lojas e entre elas. Só o Grande Inspector Geral do 33.º Grau é quem pode decidir, dar a “última palavra” sobre as decisões das Lojas acerca do que se passa fora ou dentro delas, nisto, por exemplo, sobre a aceitação de novos membros no seio da Fraternidade, ou então a erradicação, a expulsão daqueles que por palavras e actos tenham provado ser indignos dela ao lesá-la moral e fisicamente.

O 30.º Grau do Grão-Eleito Cavaleiro Kadosh ou Cavaleiro da Águia Branca e Negra é exactamente o dos Ritos, o da legislação e manutenção dos Ritos, que os posteriores 3 últimos Graus, constituindo o “Tribunal Maçónico”, em princípio aprovam o seu exercício nas Lojas. Os Kadosh são, pois, os “Templários” da Maçonaria.

Isso vai bem, encaixa perfeitamente com a sua tradição, tema que aqui me traz, repito, após solicitado várias vezes para o desenvolver por parte de amigos e conhecidos correlacionados a essa corrente reconhecida da Tradição Iniciática das Idades.

Sendo “corrente reconhecida” pelos Superiores Incógnitos da mesma Maçonaria, ou sejam os 49 Adeptos Independentes da Grande Loja Branca, então esses quatro últimos Graus do Escocismo, e mais um quinto, correlacionam-se da seguinte maneira à cúpula directiva da Excelsa Hierarquia Planetária:

É, pois, no Grau Kadosh que todos os Graus posteriores e anteriores do Escocismo se encontram. Será por isso que a sua divisa é Nec Plus Ultra, “Nada mais além”. De facto, não há nada mais além senão a Lei do Eterno, incarnada pelo Manu (Vaisvasvata) junto da Hierarquia Planetária, o que veio a derivar nas leis ou landmarks do Código Maçónico destinadas a fazer do Maçom sobretudo um Obreiro justo e perfeito de um novo Edifício Humano, isto é, de uma Sociedade Humana em que a Concórdia Universal reine finalmente no seio dos povos. Com isso terá a ver a legenda da bandeira do 30.º Grau – Ordo Ab Chao, “A Ordem saída do Caos”. O que me levou a proferir anteriormente (in Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria, Editora Dinapress, Lisboa, Setembro 2002, p. 131):

“Nos Graus Filosóficos (19.º ao 30.º) da Maçonaria Escocesa, sob o patronímico do Kadosh (do hebraico, “Santo, Consagrado”), este o “Cavaleiro da Águia Branca e Negra”, logo, bicéfala ou andrógina, ele expressa ocultamente o Kadoshim ou o Construtor Encapuçado (Adepto Real) de Kaleb, sendo altamente iniciático o lema Kadosh: Ordo Ab Chao, “A Ordem saída do Caos”. Nesse caso, é o Caos antecedendo o Cosmos, que é dizer, a Treva (Arcano XVIII, “A Lua” – Cor Negra do Grau) donde haverá de sair a Luz (Arcano XIX, “O Sol” – Cor Branca, antes, Vermelha do Grau), ou por outra, o Pralaya antecedendo o Manvantara, o Repouso Cósmico antes da Actividade Universal. Mas como muitos elementos dessa Agremiação persistem em permanecer lunares, apásicos ou apáticos à Grande Luz (Maha Sun ou Maçonaria, em interpretação livre), convir-lhes-á antes: Chao Ab Ordo – “O Caos saído da Ordem”… Tudo pela Anarquia, nada pela Sinarquia? NÃO! Antes, ORDO AB CHAO… TUDO PELA SINARQUIA, NADA PELA ANARQUIA!”

De maneira que os Kadosh estão presentes no escrínio de todas as Ordens Iniciáticas e Secretas, como legítimos mantenedores da parte Sacerdotal ou Templária das mesmas, dando forma ao Plano Subjectivo (“Espaço Sem Limites”) e subjectivando o Plano Objectivo (“Espaço Com Limites”) por meio da mecânica sublime do Ritual.

Como “Consagrados, Santos, Puros” (em hebraico Kad-osh-shin, que deu em Ka-do-che originando Kadosh), não deixam assim de expressar simbolicamente, mas na origem o foram realmente, os “Irmãos de Pureza”, esses encobertos transhimalaios Bhante-Jauls que são os Adeptos Perfeitos da Excelsa Loja Branca, havendo uma parte deles, “os discípulos dos B. J.”, tombado tragicamente no fracasso da Iniciação Real durante três Tragédias consecutivas rematadas numa quarta (Gólgota – Tibete – França… Lisboa, Rua Augusta), como repercussão da original Tragédia Atlante em que eles se tornaram, realmente, “Filhos da Viúva”, isto é, cosmogonicamente a Terra separada pelos densos véus da Maya lunar, do influxo espiritual directo do Sol, o que coincidiu com o início da Kali-Yuga, “Idade Sombria”, e a “viuvez” da Alma da Terra do seu Espírito Universal; antropogonicamente e recuando aos dias finais da Atlântida, os Kadosh que antes eram Príncipes Sabaoth porque de origem Sedote ou Badagas (“frutos proibidos” da união sexual ilícita dos deuses com as filhas dos homens, o que está descrito no Genesis bíblico e também alegorizado na lenda medieval de Melusina), parte deles, instigados por ALUZBEL, o “Arcanjo Revoltado”, revoltou-se contra a LEI estabelecida pelo MANU (Chakshusa) da 4.ª Raça-Mãe Atlante e aliou-se aos Assuras revoltados, que também eles o eram, indo assaltar a 5.ª Cidade e Capital desse Continente, o que resultou na morte do seu Rei, MU-ISKA, e VIÚVEZ da sua Rainha, MU-ÍSIS, perecendo também o Filho de ambos, RA-MU. Desde então, os Kadosh derrotados (777) portam o epíteto funesto de “Filhos da Viúva”, que lhes foi imposto por outros Kadosh vencedores (111), ou os que, “contra ventos e marés”, permaneceram fiéis à Lei, acompanhando os seus Mestres Sabaoth (“Guerreiros Divinos”, donde Jeohvah-Sabaoth ou Zabaoth, “Exército de Deus”) ao escrínio lapidar dos Mundos Subterrâneos, a Badagas, onde desde então passaram a viver, conservando consigo ciosamente toda a “Ciência Divina” ou Proibida à Humanidade vulgar. Para trás ficou uma Raça e um Continente em estertores mortais sob os vagalhões carrascos das ideias animalescas e das paixões nabalescas…

Se a História profana pouco sabe disto, a verdade é que a História Iniciática conhece isso muito bem isso e muito mais ainda… por deter o acesso a fontes que àquela estão vedadas, por ser originária de profanos.

Deverei, após tudo, adiantar que a Raça Atlante recebeu a Redenção Divina em 4 de Outubro de 1937 por parte de quem de direito, ou seja, pelo Excelso Sexto Luzeiro AKBEL no seu Avatara HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, ficando esse Karma Racial resolvido de vez (ainda que os seus “ecos funestos” se prolonguem por mais algum tempo), e algum tempo depois os “discípulos dos Bhante-Jauls” (“a esperança do Traixu-Lama”, no dizer da insigne Helena Petrovna Blavatsky) também obtiveram a sua Redenção ou Triunfo final (“Vitória do Trono de Deus”) às zero horas de 23 de Março de 1963, graças aos inauditos esforços sacrificiais do mesmo Luzeiro de Amor nessa hora dando por findados milénios e milénios de sacrifícios pessoais a favor da sua Corte, a favor, também, da Humanidade.

De maneira que os verdadeiros Kadosh – cerne da Maçonaria Negra ou Oculta por serem os mesmos Superiores Incógnitos – são a Ala Instrutiva (ESCOLA) e Sacerdotal (TEMPLO) da Maçonaria Universal Construtiva dos Três Mundos disseminada estrategicamente pelo Mundo (TEATRO), estando organizada em 22 Templos e 33 Ordens Iniciáticas Secretas das quais está na cúspide das mesmas, ou seja, no Norte da Índia (Srinagar) como Confraria dos Traixus-Marutas, assim mesmo mantendo uma especial ligação Jina e Jiva, Supra-Humana e Humana, ao 17.º Templo Universal de Sintra e à 13.ª Ordem Encoberta mas Soberana de Mariz (fundada por 12 Kadosh em volta dum 13.º… tal como aconteceu com a Ordem dos Templários, com 9 Kadosh e mais o “Ancião da Montanha” com a sua Contraparte Feminina e suas Duas Colunas Vivas; o mesmo sucedeu antes no Tabernáculo do Deserto e depois no Templo de Salomão, entre os hebreus).

Historicamente e tratando-se de Ordens Ocultas, Maçónicas, e atendendo a que todas as Ordens Iniciáticas Secretas são de origem Humana, a começar pelas interiorizadas como “formigueiros de Adeptos Humanos”, elas são representadas em quatro fases (correspondendo a iguais períodos da Terra, ainda assim reflectidos nos 33 Graus do Escocismo). Vejamos como:

1.ª) O Ciclo Maçónico teve o seu início aquando da construção do Templo de Salomão, logo, numa fase tipicamente hebraica e daí a origem dos Kadosh nesse período, que já se sabe ser muito anterior, mais profunda e mais ampla.

Esta fase corresponde aos Graus 1 a 14, o que equivale a dizer: o valor das 14 Hierarquias Criadoras, divididas em dois grupos de 7 – Hierarquia do Raio Divino e Hierarquia do Raio Primordial. Por isso, o Arcano 14 leva o sentido iniciático de “Perfeito Equilíbrio”.

2.ª) A Filosofia Cristã, baseada no Ciclo do Ocidente, na respectiva Era cristã. A Maçonaria funcionando como cobertura da Nova Civilização. Por isso as cidades tradicionais do ciclo cristão têm os nomes de Belém (Nascimento do Cristo) e Jerusalém (Morte do Cristo), ou sejam as possuídas das iniciais das duas Colunas do Templo de Salomão: Bohaz (“Rigor”) ou Bhakti (“Devoção”), e Jakin ou Jnana, ambos os termos, hebraico e védico, com o sentido de “Conhecimento”. Consequentemente, Amor e Sabedoria é quanto se deve possuir para poder penetrar o escrínio do Templo, o “Santo dos Santos” (Sanctum Sanctorum) onde mora a Lei, o Manu, a manifestação real do 1.º Raio Divino sob a forma de Shekinah.

Este período corresponde aos Graus 17 e 18, sim, à fusão do Oriente com o Ocidente, promulgando o Ex Oriens Umbra e o Ex Occidens Lux!

3.ª) A Iniciação dos Kadosh, Kadoshim, Kodesh – Graus 19 a 30, posto que os Kadosh são os realizadores dos Supremos Ritos, são quem alimentam e fazem mover de Norte a Sul e de Oriente a Ocidente a Ciência Teúrgica da Merkabah, o “Carro” ou “Corpo de Deus”.

4.ª) Os componentes dos Grandes Conselhos – Graus 30 a 33. Em determinadas Ordens o Grau 33 cabe ao Ser mais elevado em evolução. Só pode ocupá-lo o Rei dos Reis, Melki-Tsedek, Rei de Salém (Shamballah) e Sacerdote do Altíssimo (Logos), ou quem as suas vezes fizer, naturalmente, devidamente investido para tanto pela regularidade da Iniciação Maçónica.

A alínea 1.ª tem a confirmação na pessoa de Zadock, 1.º Grão-Sacerdote do Templo de Salomão, coevo deste Rei Sábio e do seu Arquitecto Iluminado, Hiram Abiff. Zadock, nome hebraico cujo significado é o mesmo de Kadosh, instituíra no Grande Templo o culto monoteísta do Deus Único e Verdadeiro expresso no Astro Rei (herança do Atonismo de Akenaton trazido do Egipto pelos hebreus aquando do Êxodo), o qual solta o seu “Raio Solitário” de Vida pelo planeta rei ou maior do Sistema que é Júpiter, oculto na palavra cabalística Jeohvah, “expressão bioplástica do Homem Cósmico”. E a Teurgia dos Salmos de David, pai de Salomão, fez-se ouvir no Templo, este a “expressão estática do mesmo Homem Cósmico”, e talvez mais que todos o Salmo 104: “Constituiu-o Senhor da sua Casa, e por Príncipe de tudo o que possuía; para que desse Luz aos seus grandes como a si mesmo, e ensinasse a Prudência aos seus anciãos”.

Como Grão-Sacerdote, Zadock iniciou uma linhagem bem sua, a dos Zadokitas que inicialmente eram só 12 escolhidos ou eleitos, por seus dotes de inteligência e virtude, para assessorá-lo na “Casa do Senhor Israel” (isto é, IshwaraIsh-Ra-Elli – como Logos Supremo ou a “Realeza de Ísis” – Ísis-Ra-El) em seus divinos ofícios, logo, eram os primitivos Kadoshs ou os do período bíblico. São os mesmos “Grandes Iluminados e Sábios Prudentes” do supracitado Salmo 104, que é o de apelo ao respeito aos bons Sacerdotes e a todos os que possuem o Dom Divino – Louvai o Senhor, invocando Seu Nome

Tamanha era a importância dos Zadokitas ou “Sacerdotes Eleitos” de toda a Israel, como Kadosh ou “Santos Sacerdotes e Sábios Instrutores”, que logo ocuparam o lugar primaz da mesma, e em quem todos reconheciam os méritos do Espírito Santo (Shekinah). Disto mesmo dá notícia a Regra Messiânica, texto inserto nos Manuscritos do Mar Morto, a qual foi traduzida em 1955 por D. Barthélemy no DJD, I (Oxford, 1955, pp. 107-108): “Esta é a regra para toda a congregação de Israel nos últimos dias, quando se juntarem [Comunidade para cami]nhar segundo a lei dos filhos (espirituais) de Sadoc (ou Zadock), os Sacerdotes, e dos homens da sua Aliança que se afastaram [do] caminho do povo, os homens do Seu Conselho que mantêm a Sua Aliança no meio da iniquidade (ou sejam, os Justos, Tsedek), oferecendo a expiação [para a Terra]”. E noutra parte: “Todos os sá[bios] da congregação, os instruídos e os inteligentes, homens cujo caminho é perfeito e homens de talento, juntamente com os chefes das tribos e todos os juízes magistrados, e os chefes do Mil [Cem,], II Cinquenta e Dez, e os leviatas, cada homem na [cla]sse do seu dever; estes são os homens de renome, os membros da assembleia convocada para o Conselho da Comunidade em Israel diante dos filhos de Sadoc, os Sacerdotes”.

De maneira que, como “Cabeça de Tibes” ou Tríade Suprema do Templo de Milich-Ha-Shaddai ou Io-Ur-Shalem (que é Jerusalém, sim, mas como expressão externa da Salém interna, a mesmíssima Shamballah ou a Mensão eterna de Melki-Tsedek, o Supremo Senhor do Mundo detentor do Báculo Celeste e da Espada Flamejante, representativos dos Poderes Espiritual e Temporal, do Altar e do Trono, enfim, da Pax et Lex, o que lhe confere a prerrogativa de Mikael Quis Ut Deus – o Arcanjo Guardião do Templo de Israel e sua Religião), há 12 Kadosh, repartidos em 3 grupos de 4 montando-lhe guarda ou formando “círculo de resistência”, donde se tem:

É assim que, essencialmente, o Grão-Eleito Cavaleiro Kadosh é o Ministro, o Sacerdote ou Goro do Rei do Mundo, cuja Missão Iniciática de trazer o Oriente da Tradição ao Ocidente Primordial, não deixa de estar prescrita a dado passo na Excelsa Yoga de Akbel, onde diz: – Vibramos intensa e harmonicamente, agora, com o Céu, a Terra e o Interior Lugar dos Deuses. Tal como representamos o Potentado do Ocidente, também ligados estamos ao Principado do Oriente, pelo Omphalo ou Centro do Mundo – Shamballah!

Logo a Chamada de Deus, no Ritual do Odissonai, adianta: – Ó At-Ha-Kadosh, Ancião dos Dias, Espírito das Idades, Condutor da Merkabah de Ouro na Ronda dos Tempos, Melkitsedek é vosso Corpo, e Shekinah, três vezes Santa Luz, é vossa Alma, enviada desde Salém, Shamballah, ao Homem deste Tempo, o Novo Salomão deste vosso Templo do Grande Ocidente. Ex Occidens Lux!

Este 30.º Grau do Rito Escocês Antigo e Aceito é o 24.º do Rito de Perfeição, criado em 1758. Sendo de grande importância no Mundo Maçónico Ibero-Europeu, todavia para os Supremos Conselhos dos Estados Unidos da América ele é um daqueles que se confere por simples comunicação, o que constitui um grasso erro humano e maior ainda grasso erro espiritual, por impossibilitar o usufruto pleno do Poder do Grau que só a transmissão iniciática pode facultar, pois que este mesmo implica obrigatoriamente um Ritual de Iniciação específico, como aliás está prescrito na própria Legislação Maçónica.

Ao encontro destas minhas palavras vêm as de José Castellani e Cláudio R. Buono Ferreira (in Manual Heráldico do Rito Escocês Antigo e AceitoDo 19.º ao 33.º, Madras Editora, São Paulo, 1997, p. 45), quando dizem:

“Como a palavra Kadosh significa “santo”, “sagrado”, purificado”, o Cavaleiro Kadosh é o verdadeiro Eleito, o Homem por excelência, purificado e limpo de todas as máculas. Trata-se, assim, do Grau máximo da Escala Iniciática, já que os posteriores são considerados administrativos. Por isso, a sua Iniciação completa é tripla, compreendendo a do Grau do Ilustre Cavaleiro do Templo, o de Cavaleiro da Águia Branca e Negra e a do Grande Eleito, simbolizando, dessa maneira, o tríplice aspecto de causa, meio e efeito, essencial a toda a escala do Rito. Depois de adestrado no seu Mestrado e plenamente integrado no Mundo Cósmico, ele pode se entregar à meditação e à acção interior, comunicando, aos outros futuros Eleitos, os caminhos da Razão, da Sabedoria e do Amor.”

Com efeito, sendo este o último Grau Filosófico, presume-se que, em princípio, o Maçom ao alcançá-lo seja um Espírito Eleito ou Sancionado, o que tem a ver com a palavra Santo, como tal encontra-se Purificado (Kadosh) e logo, por sua mente e coração iluminados, naturalmente considerará os trabalhos maçónicos sobretudo coisa divina que, em verdade e essência, o são.

De maneira expressa o Bhante-Jaul (do sânscrito Bhante, “Venerável Mestre”, literalmente como saudação, significando também “Mestre, Senhor, Irmão”, e Jaul ou Yaul, “Iluminado, Purificado, Pureza”), por seu sentido de Pureza afim ao Kadosh, é o Puro (Katter, donde Cátaro, em provençal, donde saíram os nomes portugueses Catarina e Costo ou Costa), é o casto, ainda que acaso não seja obrigatoriamente celibatário. De maneira que não se deverá confundir castidade com celibato. Aquela é uma disposição essencialmente interior, e este sobretudo exterior. Um celibatário pode ser um pecador mas um casto, não. Por não saber ou não querer separar uma da outra condição, é que a política social da Igreja tem querido importar a uma sociedade secular de interesses multivariados as regras próprias do bom funcionamento mosteiral, isto é, pretendendo transformar a sociedade humana num imenso espaço monástico com regras confessionais estritas sujeitas à sanção do eclesiástico, sem mais nem menos, o que só pode redundar em fracasso e consequente desmoralização da moral rígida rejeitada a-priori pelo colectivo social. Ainda sobre a hibridez auto-infligida do celibato, adaptação espúria daquela lenda hagiográfica do “cinto de castidade” (cingulum castu) dado a Tomás de Aquino por dois Anjos, tal voto eclesial mas não sacramental fez de quem o pratica um estéril ante as palavras da Escritura Sagrada: “Amai-vos e multiplicai-vos”. Se no Dicionário da Língua Portuguesa celibato (caelibatu) “é o estado de solteirão que não pretende casar-se”, de maneira alguma, ao contrário do que pensa a maioria, ele é sinónimo de castidade, porque um casto poderá não ser um celibatário, tal como um celibatário nem sempre é um casto. A castidade não implica obrigatoriamente a inibição física, sexual, mas implica sempre o regramento das acções, das emoções e dos pensamentos manifestados conscientemente como o melhor, o mais positivo que o homem tem, e é este o sentido da palavra casto (castu) no Dicionário da Língua Portuguesa: “puro, inocente, sem mescla”. Assim, o casto se faz na Terra um Agnus Castu ou “Cordeiro Inocente” que “tira (pelo exemplo que infunde) os pecados (karma) do mundo”, e nessa condição produtiva, verdadeiramente espiritual, faz-se um celícola ou “habitante do Céu” nesta mesma Terra. Este é, afinal, o estado de ser do verdadeiro Mestre e do verdadeiro Discípulo, acaso celibatários em momentos predeterminados, certamente sempre castos em todos os momentos, isto é, verdadeiros Agnus Castus à imagem e semelhança do Maior de todos os Kadosh, o Cristo Universal, assim como de todos os Avataras, Messiah (Messias) ou o mesmo Espírito de Verdade que a este mundo já adveio desde os paramos celestiais do Segundo Trono de Deus.

Sendo o 30.º Grau o da Grande Eleição (sobretudo espiritual, já se vê), ela está espelhada no planeta regente do Kadosh, ou seja, Júpiter (Tsedek, em hebreu, “Justo”), cujo aspecto inferior é Saturno e cujo movimento contrário de ambos veio a originar a Swástika védica (em português, Suástica), simbolizando precisamente a Divindade em Acção:

Essa conjunção do 1.º e 7.º planetas do nosso Sistema de Evolução Universal (Júpiter e Saturno) leva de nome, em aghartino, ASGA-LAXA, Asga-Lacha, Asga-Vatza ou Asga-Ladack, e tem precisamente o significado de “ESPLENDOR DO CÉU”, cujo símbolo representa o Movimento sobre e sob a Terra, portanto, a acção do Pramantha ou Cruzeiro Locomovedor da Evolução do Ciclo em manifestação no Segundo e Terceiro Tronos, no Céu e na Terra, sob o impulso do Imanifestado, o Primeiro Trono.

Júpiter expressa a Geração relativa ao Segundo Trono, a Geração Espiritual ou a do ponto de vista mais elevado. Daí a expressão do Professor Henrique José de Souza: “O Tetragramaton como expressão ideoplástica do Homem Cósmico, que é JEHOVAH, JOVE, JÚPITER”…

Saturno expressa tudo quanto tem a ver com o Seio da Terra, o Terceiro Trono. Daí as expressões SABAOTH, SABATH, SÁBADO, SATURNINAS, SATURNO…

Juntando Júpiter e Saturno tem-se a palavra ASGA-LAXA, “Senhor do Governo dos Dois Mundos”, o Celeste e o Terrestre, o que vale por MELKI-TSEDEK ou CHAKRA-VARTI na Terra, mas que sendo ASGA-LAXA no Céu, é AKBEL!

De maneira que para Júpiter e Saturno o Grau Kadosh atribuiu-lhes os símbolos respectivos da Águia e da Escada d’Ouro, sobre o que diz René Guénon (in O Esoterismo de Dante, Editora Vega, Lisboa, 1978, pp. 31-32):

“Quanto aos dois outros símbolos, é impossível não reconhecer aí os do “Kadosch Templário”; e, ao mesmo tempo, a águia, que a Antiguidade clássica atribuía já a Júpiter, como os Hindus a atribuem a Vishnu, era o emblema do antigo Império Romano (o que nos lembra a presença de Trajano sob o olho desta ave), e permaneceu como o do Santo Império. O céu de Júpiter é o lugar dos “príncipes sábios e justos”, Diligete justitiam, qui judicatis terram (Paradiso, XVIII, 91-93), correspondência que, como todas as que Dante dá para os outros céus, se explica inteiramente por razões astrológicas; e o nome hebraico do planeta Júpiter é Tsedek, que significa “justo”. Quanto à “escada dos Kadosch”, já falámos dela: estando a esfera de Saturno imediatamente acima da de Júpiter (na escala da Involução ou “Descida do Espírito à Matéria” como Pravritti-Marga, direi eu), chega-se ao pé dessa escada pela Justiça (Tsedakah) e ao seu cimo pela Fé (Emounah). Este símbolo da escada parece ser de origem caldaica e ter sido trazido para o Ocidente juntamente com os Mistérios de Mitra; havia então sete degraus, sendo cada um deles formado por um metal diferente, segundo a correspondência dos metais com os planetas; por outro lado, sabe-se que no simbolismo bíblico se encontra igualmente a escada de Jacob, que, unindo a Terra aos Céus, apresenta significação idêntica.”

Com efeito, a escada dupla do Kadosh (Involução e Evolução, Pravritti e Nivritti Margas) permite a elevação gradual do homem até chegar à comunhão espiritual com o Céu (Júpiter), depois de ter descendido e cumprido a experimentação terrestre (Saturno). Os sete degraus ou Planos necessários a essa elevação representam-se simbolicamente de um lado, o esquerdo, pelas sete Artes liberais da Idade Média, e do outro pelas Virtudes teologais às quais se chega por intermédio daquelas Artes ou Ciências.

Os degraus da esquerda são, de baixo para cima, representativos da Gramática, da Retórica, da Lógica, da Aritmética, da Geometria, da Música e da Astronomia. Os da direita são, de baixo para cima, em hebraico: Tsedakah (Justiça), Schor Laban (Boi Branco = O Espírito em busca da Verdade, Pureza), Mathok (Doçura), Emounah (Fé), Amal Saghi (Grande Obra), Sabbal (Penitência, paciência), Gemoul-Binah-Themounah (Recompensa-Compreensão-Inteligência). A escada da esquerda é Oheb Kerobo (“Quem ama ao próximo”), e a da direita é Oheb Eloha (“Quem ama a Deus”).

É novamente René Guénon (in Os Símbolos da Ciência Sagrada, Editora “Pensamento”, São Paulo, 1993, pp. 294-296) a proferir-se sobre o simbolismo da escada, sendo meus os comentários entreparêntesis:

“Essa significação é evidente no simbolismo bíblico da escada de Jacob, pela qual os Anjos descem e sobem (Mónadas Patentes e Mónadas Potentes). E sabemos que Jacob, no local em que teve a visão dessa escada, colocou uma pedra (chamada Lusa) que “erigiu como um pilar”, que também era uma figura do “Eixo do Mundo”, substituindo assim, de certo modo, a própria escada. Os Anjos representam propriamente os estados superiores do Ser; portanto, a eles correspondem também, mais em particular, os degraus, o que pode ser explicado pelo facto de se considerar a escada com os seus pés assentes sobre a terra, ou seja, o que para nós é necessariamente o nosso próprio Mundo, indo constituir o “suporte” a partir do qual a ascensão deve efectuar-se. Mesmo supondo que a escada se prolongue subterraneamente (atentem ao espírito destas palavras, Kadosh de símbolo ou virtuais mas que acaso pretendam ser reais!), para compreender a totalidade dos Mundos como deve ser na realidade, a sua parte inferior seria em todo o caso invisível (ou oculta), tal como ocorre com os seres que alcançaram uma “caverna” situada em certo nível, como parte central da Árvore que se estende atrás dela. Em outros termos, tendo já percorrido os degraus inferiores, não cabe mais considerá-los de facto no que diz respeito à realização posterior do Ser, no qual só poderá intervir o percurso dos degraus superiores.

“É por isso que, sobretudo quando a escada é empregada como um elemento de certos ritos iniciáticos, os seus degraus são expressamente considerados como representação dos diferentes céus, isto é, dos estados superiores do Ser. É assim que, em particular nos Mistérios de Mitra, a escada tinha sete degraus, relacionados aos sete planetas, e que, diz-se, eram feitos com os metais correspondentes a cada um desses planetas; o percurso desses degraus representava os graus sucessivos da Iniciação. A escada de sete degraus encontra-se em certas organizações iniciáticas da Idade Média, de onde passou sem dúvida, de forma mais ou menos directa, para os Altos Graus da Maçonaria Escocesa, tal como dissemos em outra oportunidade a propósito de Dante. Nesse caso, os degraus são relacionados às “ciências”, mas isso, no fundo, não faz qualquer diferença, pois, segundo o próprio Dante, as “ciências” identificam-se aos “céus” (in Convito, t. II, cap. XIV). É evidente que para corresponder desse modo aos estados superiores e aos graus da Iniciação, essas ciências só podiam ser as tradicionais, entendidas no seu sentido mais profundo e propriamente esotérico, inclusive aquelas ciências cujos nomes, para os modernos e em virtude da degradação que temos citado repetidamente, designam apenas ciências ou artes profanas, isto é, alguma coisa que, em relação às verdadeiras ciências, na realidade não passa de uma casca vazia e um “resíduo” sem vida.

“Em certos casos, encontra-se também o símbolo de uma escada dupla, o que implica a ideia de que a subida deve ser seguida de uma nova descida; sobe-se então, de um lado, pelos degraus que são as “ciências”, isto é, por graus de conhecimento que correspondem à realização de outros tantos estados, e torna-se a descer, de outro lado, pelos degraus que são as “virtudes”, ou seja, os frutos desses mesmos graus de conhecimento aplicados aos seus respectivos níveis (isto ao nível humano, em que o Iniciado adquire a Ciência Divina e dela desce possuído das respectivas virtudes a comunicá-las aos seus confrades de Ordem, ou seja, já como Iniciador; ao nível espiritual, desce como Mónada inconsciente à Terra e sobe como Mónada consciente ao Céu. Portanto, ambas as formas de descida e subida ou subida e descida, estão correctas no Ritual do Grau, ainda que aquela ao nível humano seja a mais própria). Pode-se além disso notar que, mesmo no caso da escada simples, um dos montantes pode ser considerado de certa forma como “ascendente” e o outro como “descendente”, de acordo com a significação geral das duas Correntes Cósmicas (que são Prakriti, a Matéria correspondente ao descenso, e Purusha, o Espírito relacionado ao ascenso), da direita e da esquerda, às quais correspondem os dois montantes em razão da sua própria situação “lateral” em relação ao verdadeiro eixo (o Eixo do Mundo, Áxis Mundi, representado no Equador, e no Rito pela própria Águia “Kadosh” que figura sobre a Escada, por vezes sendo figurada por uma Serpente Alada que, assim, irá indicar o Grão-Eleito como o sendo de facto, isto é, tendo despertado interiormente o Fogo Criador do Espírito Santo – Kundalini – e se evolado como Anjo Alado ao mais alto Céu, para depois volver ao limbo da Terra por amor, piedade a seus Irmãos ainda em “trevas”…) que, embora invisível, nem por isso deixa de ser o elemento principal do símbolo, ao qual todas partes sempre devem ser referidas se quisermos compreender inteiramente o seu significado.”

Sendo este Grau considerado de vingança contra o Papa e o Rei (Clemente V e Filipe IV) que sentenciaram à morte os antigos Templários e principalmente o seu Grão-Kadosh ou Mestre Jacques Borgomundus de Molay, ele é assim entendido ordinariamente por maçons e profanos. Com esse aspecto exterior terão a ver o sinal, a palavra de passe e a palavra sagrada do 30.º Grau, ou sejam: pés em esquadria e mãos levantadas sobre a cabeça, com os dedos juntos excepto os polegares, formando um triângulo com o crânio ao centro (outro símbolo do Grau, representativo da Morte, da Imortalidade e da Sabedoria necessária para alcançar essa mesma Imortalidade), enquanto pronuncia a palavra sagrada – Nekam Adonai, “Vingança, Senhor”. Já a palavra de passe, usada como resposta na entrada dos Cavaleiros Kadosh, é Nekam Menachem – “Vingança Consoladora” (cf. 2 Reis, 15:14-22).

Mas, em verdade, a vingança será a do Kadosh sobre si mesmo, a de matar o seu “eu inferior”, ou melhor, alinhá-lo, integrá-lo ao “Eu Superior”, ao mesmo tempo que ajuda na transformação social e espiritual do mundo (o que é alegorizado pelo Rei e o Papa), levando assim à transformação do seu Karma em Dharma e à consequente integração colectiva no “Eu Universal”, o que é Paradharma, destarte ajudando o Homem a tornar-se mais Homem e Deus mais Deus, colaborando na integração Deste em níveis de Vida e Consciência que até para o maior da Humanidade são simplesmente inconcebíveis, mas que não deixam de ser Mahaparadharma, sim, o “Grande Dever Universal” em cumprimento.

Com isso, o Kadosh «vinga-se» de si mesmo, das Tragédias passadas que ele e parte dos do seu nível provocaram, queimando de vez o Karma, o “Débito” contraído, e ao mesmo tempo «vinga-se» e «assassina» as instituições profanas assassinas de quanto seja verdadeiramente Espiritual, logo, Iniciático, quer dizer, transforma-as por dentro. E isto foi o que o Rei D. Dinis fez em Portugal, ao vingar a Ordem do Templo assassinada criminosamente pelos Poderes Sacerdotal e Real corrompidos, por via da criação da Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, que viria a transformar Portugal, a Europa e o Mundo de maneira irredutível na Marcha do Progresso Humano e Espiritual durante a Gesta Henriquina desse 13.º Grão-Kadosh que foi o Infante Henrique de Sagres (I ou JHS).

Portanto, o sentido de vingança subjacente ao 30.º Grau não se reduz, nem tampouco tem sentido, à vingança pelo assassínio dos Templários medievais e ao contínuo ataque exacerbado às instituições e religiões oficiais. Quem disso partilha nada sabe de Maçonaria e certamente ignora essas expressivas palavras de José Castellani e Cláudio R. Buono Ferreira (in ob. cit.): “Embora o Grau esteja associado à vingança, esta não é, na realidade, física, mas, sim, a da Verdade contra o erro, a do Amor contra o ódio, o do Espírito contra a matéria, seguindo a rota da Alquimia Mística, presente em Graus anteriores. O crânio atravessado pela espada é a representação gráfica dessa vingança”.

Ou como diria Fernando Pessoa no seu Bilhete de Identidade, escrito por ele próprio em Lisboa, em 30 de Março de 1935: “Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.

O que se revela no tríplice Tau:

Quanto à indumentária prescrita para o Cavaleiro Kadosh, ele usa faixa e avental (este é actualmente pouco usado nas Lojas do Grau), tendo na faixa inscritas as iniciais “C.K.S.” que significam, obviamente, “Cavaleiro KadoSh”; também são usadas as iniciais “C.K.H.” – “Conselho Kadosh de Heredom” (em alusão ao Rito de Heredom, origem dos Altos Graus). No avental negro, debruado de branco, está inserida a vermelho uma Cruz Teutónica tendo no centro o número 30.

Segundo as antigas instruções, o Presidente da Oficina ou Loja – “Grande Venerável Sábio Mestre” – usava uma túnica negra, aberta lateralmente, em forma de dalmática, bordada de branco; os Rituais modernos aboliram essa vestimenta, recomendando o uso de smoking ou terno preto, o que do ponto de vista tradicional afecta ou lesa no geral a antiguidade coreográfica do Grau. Além disso, o Presidente trazia, na cintura, o principal objecto do Kadosh: um punhal, com cabo de marfim e de ébano. Mais que tendo o sentido de ferir vingativamente, o punhal ou adaga reporta-se aqui ao sentido primaz do Grau: o de Eixo do Mundo Maçónico e, consequentemente, do Centro Místico do Kadosh, o Coração, devendo a lâmina feri-lo e aos outros, figurativamente, isto é, o Verbo ou Palavra certeira do Eleito dirigida ao coração do próximo, perfurando, abrindo, iluminando a sua Alma pelo sopro suave do Amor e da Sabedoria.

Diversos autores tradicionalistas, como Nicolas Flamel, identificam a adaga, como miniatura da espada, à Pedra Filosofal, e não apenas ao caminho para ela, pelo que o simbolismo da “Caliburna” ou “Excalibur” cravada na rocha pura equivale à posse da própria Pedra Filosofal. Isso identifica-se à descrição no texto sagrado onde a espada é comparada ao “Logos”, “o Verbo Divino mais penetrante que uma espada de dois gumes” (um que premeia e outro que castiga). – Cf. Bíblia, Hebreus, 4, 12. Flamel, no seu Livre des Figures Hieroglyphiques (obra do século XIV. Reedição Denoel, Paris, 1970), adianta sobre a sua prerrogativa espatária: “Esta espada nua, esplendorosa, é a Pedra ao Branco, tantas vezes descrita pelos Filósofos sob esta forma”. Para o Kadosh, ela é não só o instrumento de purificação como a expressão da própria Perfeição atingida. É a Pedra Branca, objectivo supremo da Filosofia Hermética.

Tal Pedra Branca a apontei a Venerável Irmão, já partido para as plagas dos Deuses, em pleno centro altaneiro de São Lourenço de Minas Gerais do Sul, Brasil, adiantando ser a Espada Flamígera aí figurada a mesma dos Assuras, Arqueus ou Tributários do Eterno Melki-Tsedek!… Como instrumento de purificação a espada equivale ao chamado “Fogo dos Filósofos”, e assim é encontrada assinalada pelo abade Dom Pernety, do século XVIII, no seu Dictionaire Mytho-Hermétique (redição Denoel, Paris, 1972): “Espada: é o Fogo dos Filósofos, bem como a lança, etc.”. Ora o Fogo dos Filósofos é o Fogo Primordial como Hálito do Eterno no acto primaz da Criação, logo, sendo Purificador e Regenerador, antes, Transformador e Superador por excelência. E este é o elemento natural do Templário Kadosh.

Fernando Pessoa também mostrava um interesse todo especial por este 30.º Grau da Maçonaria, tanto que referindo-se ao Ritual de Iniciação, em documento do seu espólio (54 A-53), lê-se: “Temos espadas porque somos cavaleiros, vestes de rito porque somos sacerdotes, capuzes de velar porque somos ocultos (homens)”. Homens Ocultos ou Encobertos são os Adeptos Perfeitos, Homens Representativos ou Kadosh, no sentido de “Consagrados” à Obra do Eterno na Face da Terra.

Além disso, como uma outra prova da afeição esotérica de Fernando Pessoa a este Grau, possuindo ele um exemplar (que até há pouco se encontrava na casa de sua irmã, em Cascais) da obra de A. E. Waite, Emblematic Freemasonry (Londres, 1925), sublinhou uma nota (na página 208) onde é dita que “a espada e o punhal são símbolos da Sabedoria e da Inteligência, no Ritual maçónico do Cavaleiro Kadosh”. De facto, a espada, mesmo para o “vulgar” iniciado maçom, significa tanto a Honra (do Cavaleiro) como a Sabedoria (do Santo). E por isso ela, a espada (em hebraico mizla, “espada flamígera”), depois superada em distinção pelo punhal (em grego athamé, em pali purbha, ambos com o significado igual de “língua de fogo”), é a alfaia natural do Templário Kadosh.

De maneira que não se trata de brincar aos «rituais martinistas» andando cada um encapuçado como «incógnito misterioso», mesmo que todos os participes conheçam-se entre si, numa degradada expressão de paródia da verdadeira Iniciação, como se tem visto em certas magias psíquicas embrulhadas na aparência de maçonismo, as quais parecem dar sempre os piores e mais dramáticos resultados…

Isso traz-me à memória a obra magistral de Miguel de Cervantes, D. Quixote de la Mancha, sátira social ao espírito decadente da antiga Cavalaria, na qual o “cavaleiro da triste figura” transporta rídiculo e alucinado ao presente o que só houve no passado, acabando por indistinguir os dois tempos, apesar de Sancho Pança, a sua boa consciência, o ir aconselhando o melhor que podia, tentando trazê-lo à razão. Eis o retrato actual do ambiente psicossocial das inúmeras seitas templistas. Por isto, o Dr. Mário Roso de Luna tinha inteira razão quando proferiu: “Ainda que seja Jina a Literatura Cavaleiresca, não deixa de ser perigoso para alguns meninos lerem livros de Cavalaria, sim, porque os tomam à letra, confundem-se e provocam os maiores desvarios”…

Respeitante à indumentária, O Presidente da Loja Kadosh levava na cabeça um chapéu negro desabado, porém, tendo na frente a aba levantada, servindo-lhe de presilha um Sol de prata, raiado de ouro, colocado entre as letras “N” e “A” (Nekam Adonai), e tendo no centro um olho. É simbolismo todo a ver com o baphometh Templário, isto é, o crânio iluminado pela Sabedoria de quem é reservatório, o que corresponde aos Chakras Coronal (Chapéu) e Frontal (Sol), tal como a adaga associa-se ao despertar dos “Centros Vitais” Laríngeo (Palavras do Grau) e Cardíaco (Punhal).

Os Oficiais do Conselho usam um colar negro chamalotado, orlado de prata, tendo bordada em púrpura, no vértice, uma águia bicéfala (alusiva no Homem à União Real – donde Raja-Yoga – da Alma com o Espírito, e em Deus o Pai e a Mãe Cósmicos, portanto, o estado de Perfeito Equilíbrio ou do Andrógino Primordial), segurando um punhal nas garras; esta águia tem, de cada lado, uma Cruz Teutónica púrpura (alusiva a Santa Maria dos Teutões ou Alemães, cuja Ordem viria a criar o Sacro Império Germânico destinado, em princípio, à implantação da Sinarquia no Norte e Centro da Europa, sob a direcção dos Kadosh Teutónicos sobreviventes da extinção sangrenta da Ordem do Templo). A jóia suspensa pelo colar é uma águia bicéfala de prata, com as asas abertas, segurando um punhal nas garras e realçada sobre uma Cruz Teutónica de esmalte vermelho.

Os Cavaleiros trazem uma faixa negra, com franja de prata, a tiracolo, da esquerda para a direita, cores expressivas do seu título que neste Grau encontra a plena legitimidade: “Filhos da Viúva”. Na face anterior estarão, pintadas ou bordadas de vermelho, duas Cruzes Teutónicas, além de uma águia bicéfala coroada e das iniciais “C.K.H.”, cujo significado já dei. De acordo com as antigas instruções, também usavam uma faixa vermelha à cintura com um punhal suspenso (à maneira dos antigos Assacis libaneses que andaram de relações íntimas com os Templários) e o chapéu negro desabado, tendo na frente a aba levantada e presa pelo Sol prateado já descrito. Isso, todavia, já não consta das modernas instruções, o que é muito lastimável por se ter imposto, certamente por preconceitos, uma indumentária profana à original francamente iniciática, o que reflecte e induz ter-se perdido ou esquecido o sentido primaz do Templo: lugar apartado de todas as afectações profanas, como espaço de verdadeira Realização, pessoal e colectiva.

A jóia suspensa da faixa a tiracolo, é um punhal de folha de aço e cabo ovalado, metade de marfim e metade de ébano (materiais do Líbano, o que reporta uma vez mais para o “Velho da Montanha”, Sheik Al-Djabal, “O Senhor Todo-Poderoso”, e os seus Cavaleiros Assacis, de quem parte dos Drusos são hoje herdeiros espirituais). A administração do Conselho Kadosh usará, além dessa faixa, uma outra faixa abdominal, orlada de prata, o que de certo modo vai substituir o avental.

Actualmente, os trabalhos desenvolvem-se em apenas duas Câmaras: a Câmara Vermelha, destinada à recepção, ou seja a Iniciação, e a Câmara Negra, destinada aos Oficiais do Conselho: Comendador ou Grão-Mestre (Eminentíssimo), Prior e Preceptor (Eminentes), representando precisamente (apesar de hoje se ignorar quase na totalidade) o MANU, o BODHISATTVA e o MAHACHOAN, e numa escala mais acima as TRÊS BRUMAS CELESTES ou SÓIS MERCURIANOS.

A Verdade apresenta-se, enfim, como toda a Lei Universal, através da Polaridade. Sempre existiram dois Sectores na orientação do Mundo: um tipo TEMPLÁRIO (expresso em Ordens Iniciáticas), mantenedor do Eu Interno de cada um; mantém a Fé, que será iluminada pelo Conhecimento, senão transforma-se em religiosismo, em crença, fanatismo… por falta dos esclarecimentos necessários. O outro Sector é tipo MAÇÓNICO, realiza-se através das Ordens Ocultas, das Sociedades Secretas, as quais prestam cobertura ao primeiro Sector. Sociedade Secreta porque não ensina tudo o que sabe ou, por outras palavras, só ministra os conhecimentos àqueles que estão preparados para recebê-los. No Cristianismo, por exemplo, há o aspecto clerical que começou com Pedro, e há as Ordens conhecidas de todos, fazendo a cobertura política, a manutenção… Mas tudo evolui, logo, vão assumindo outros aspectos, conforme o desenvolvimento das concepções humanas.

Nas tradições transhimalaias, aponta-se: o REI DO MUNDO com as suas Duas Colunas, são os Supremos Orientadores da MAÇONARIA DOS TRAIXUS-MARUTAS, estes que são os mantenedores universais do CULTO DE MELKI-TSEDEK.

Com a destra voltada para o Céu e o polegar invertido para a Terra, contrariamente a quantas saudações caóticas foram instituídas pelas decadentes ideologias do velho Ciclo declinado, maiores homenagens se devem prestar ao mais Digno e Excelso de Todos os Construtores:

– O SUPREMO ARQUITECTO DO UNIVERSO!

Sim, ao AT-HA-KADOSH ou “SANTÍSSIMO” como “SANTO DOS SANTOS”!

SAÚDO, FINALMENTE, OS KADOSH, KODESH, KADESHIM,

REALIZADORES DAS SUPREMAS INICIAÇÕES,

DOS MAIS ELEVADOS RITUAIS!

BIJAM

OBRAS CONSULTADAS

Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Editora Dinapress, Setembro de 2002, Lisboa.

Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora, 2004, São Paulo.

Comunidade Teúrgica Portuguesa, O Mistério dos Traixus-Marutas, Apostilas n.os 96 e 97, Série Integração.

Sebastião Vieira Vidal, Série Q. S. G. e Série Revolução Francesa e Ciclos da Obra.

Yvett K. Centeno, “Episódios/A Múmia”: Um poema-chave para o estudo do hermetismo em Fernando Pessoa. In Persona 1, publicação do Centro de Estudos Pessoanos – Faculdade de Letras do Porto. Porto, Novembro, 1977.

Orlando Soares da Costa, Maçonaria Adonhiramita – Iniciação Real, vol. III. Editora Europa, 1999, Rio de Janeiro.

Orlando Soares da Costa, Maçonaria Adonhiramita – História dos Mistérios e da Evolução da Consciência Humana, vol. IV. Editora Europa, 1999, Rio de Janeiro.

Geza Vermes, Manuscritos do Mar Morto, 2.ª edição. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda, Agosto 2006, Lisboa.

René Guénon, O Esoterismo de Dante. Editora Vega, Abril de 1978, Lisboa.

René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, 1993, São Paulo.

Crata Repoa ou Iniciações aos Antigos Mistérios dos Sacerdotes do Egipto. Traduzida do alemão por Ant. Bailleul, Paris, 5821. Edições Axis Mundi, 1989, Paris.

Jean Palou, A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática. Editora Pensamento, São Paulo.

Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria. 2.ª edição, revista e ampliada, 1974, Editora Pensamento, São Paulo.

José Castellani e Cláudio R. Buono Ferreira, Manual Heráldico do Rito Escocês Antigo e Aceito (do 19.º ao 33.º). Madras Editora, 1997, São Paulo.

Rizardo da Camino, Kadosh (do 19.º ao 30.º). Madras Editora, 1998, São Paulo.

Rizardo da Camino, Rito Escocês Antigo e Aceito (1.º ao 33.º). Madras Editora, 1999, São Paulo.

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Maçonaria Feminina (Mulher e Tradição) – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Jan 24 2012 

Se bem que a Maçonaria Especulativa assente as suas bases exclusivamente no sexo viril desde que foi fundada em 24 de Junho de 1717, dia de São João Baptista, na Inglaterra com a reunião de quatro Lojas formando a Grande Loja de Londres, e a efectiva presença feminina na mesma seja algo bastante tardio (aparte a iniciação de madame Elizabeth Aldworth em 1732, na Irlanda, o que deixa subentender a presença de senhoras na Franco-Maçonaria já no século XVIII, mas cujo registo não transparece), praticamente nos finais do século XIX (com a iniciação em França de Marie Deraismes, em 14 de Janeiro de 1882, posterior à fundação em Portugal, em 1881, da Loja Feminina “Filipa de Vilhena”, da Maçonaria de Adopção inscrita no Grande Oriente Lusitano Unido, precursor do Grande Oriente Lusitano que é a segunda potência maçónica mais antiga do mundo (1802), mas já antes a Marquesa de Alorna tendo sido iniciada maçona na Loja “Virtude” de Lisboa, em 1814), e isso por motivo mais laico e político que filosófico e metafísico, com a Mulher aparentando ter um papel subalterno quase marginal no seio da mesma Maçonaria, sempre alheada do Rito dos homens, acontece que tal ideia quase universalmente aceite no meio maçónico, ou pelo menos na maioria dos ritos, é completamente estranha à verdade original.

Elizabeth Aldworth (1732)

Primeiro de tudo, dando início à resposta aos amigos e amigas pertencentes a essa corrente de Tradição que me solicitaram este estudo, devo recordar que a Divindade Primordial entre os povos antigos era Feminina, tratando-se da Grande Deusa-Mãe como a consignavam os habitantes neolíticos da Estremadura ibérica, reconhecimento prolongando-se até à Europa Central.

Deusa agrária por suas qualidades de fecundação, propiciadora de boas semeaduras e colheitas, e também Deusa parturiente dando a vida e a saúde às criaturas, era, enfim, a incarnação da Força Fecunda da própria Mãe-Terra (Mater-Rhea ou Matéria). A Ela os lígures, celtas e lusitanos ergueram menires de formato fálico, atribuindo-lhe a fecundação que do Seio aflora à Terra inteira. A Ela os hindus neolíticos levantaram iguais pedras fálicas, a que chamaram shivalingas. Assume-se assim a Grande Mãe Criadora – Maha-Shakti – da Natureza viril por sua Força Ígnea – Kundalini – geradora e encausadora das vidas e das formas. Os cristãos haveriam de A conclamar Nossa Senhora da Conceição, isto é, a Concepção da Natureza inteira da qual é Alma. Sem Ela por certo nada haveria, nada existiria…

Portanto, a Divindade mais próxima ao Homem que a Ela deve a existência é, antes de tudo, MULHER, e este é predicado de ESPÍRITO SANTO, o que A associa à Shekinah ou “Presença Real de Deus” no mais sublime dos Tabernáculos, Sanctum-Sanctorum da Mãe-Terra, ou seja, o “Jardim das Delícias” tanto bíblicas como corânicas, para todo o efeito, AGHARTA.

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Todo o peregrino da vida que sobe uma Montanha em busca da Luz, acaso já pensou que essa Montanha é feminina e a Luz também? A Luz Celeste se manifesta por sua protuberância física que é toda a Montanha consignada Sagrada sinónima de Iniciação Real.

Por outras palavras, FOHAT como Luz da Mãe Divina que é o Segundo Logos, se corporifica como Filho na Força de KUNDALINI que é o Terceiro Logos. A Mãe se projecta no Seio da Terra e o Filho se eleva ao Cume do Céu. Eis a razão de, iconograficamente, a Virgem Eterna trazer sempre no regaço ao Divino Filho.

Assim, a subida da Montanha assume a equivalência da Scalae Coeli (“Escada do Céu”) que une a Terra ao Céu e por onde descem e sobem os Anjos (Gén., 28:10-22), sinónimo de demanda do Divino na Terra e da Terra ao Divino convertendo-se a Escada em Cruz e com esta, “carregando-a”, faz-se a assunção ao pico celeste: “Toma a tua Cruz e segue-me” (Mt., 10:38), quer dizer, segue-me para o Céu, evocação da plenitude divina e humana de Cristo, mas também equivalente, Scalae Coeli, da plenitude humana e divina de Maria. De maneira que a Senhora estando junta da Escada é Nossa Senhora da escada do Céu, a Cruz, áxis mundi do estado vivencial interior da Cristandade em um e devendo ser todos, para que seja efectivamente a Escada de Deus, Scalae Dei, e por ela, com toda a segurança de corpo e alma se suba certo de que é a Escada para o Céu, ou Scalae Paradisi, meta última suprema de todo o verdadeiro Kadosh ou “Consagrado”, em hebreu.

Scalae Coeli remete ainda para a Escada de Jacob, como a Bíblia descreve a sua revelação em sonho profético ao patriarca de Israel: a Escada unindo a Terra com o Céu por onde subiam e desciam os Anjos, ela é assim o Antahkarana ou elo de ligação entre o Divino e o Terreno. A teologia patrística, por via da hermenêutica, interpretou tal sonho profético ou jina como sendo prefiguração do Mistério da Incarnação e da Assunção (Pravritti e Nivritti Margas), partindo da perícopa joanina: “Vereis o Céu aberto e os Anjos de Deus subindo e descendo por meio do Filho do Homem” (Jo., 1:51). A ampliação exegética e hermenêutica levou a considerar que Deus desceu ao lugar do sonho, aí instituindo a Bethel, a “Casa de Deus”, Domus Dei, título que se atribui ainda a Maria, porque o seu ventre foi a primeira Casa de Deus no Mundo incarnado, o primeiro Altar, o primeiro Sacrário, onde o Senhor se expôs, real e presente, à adoração da Humanidade.

Na mesma correnteza de pensamento, todo o Assura da Obra Divina de AKBEL tem a sua Consciência Superior como Makara, e todos os Makaras e Assuras constituem o Corpo de MAITREYA, o Cristo Universal, cuja Alma boníssima é a própria LAKSHAMI, a Mãe Divina, que é também Maria, à destra de seu Fruto Bendito, o Senhor do Amor-Sabedoria trazendo consigo todos os tálamos de Esperança e Redenção, e a quem Ela cobre com o seu cerúleo manto azul do Akasha preenchendo o firmamento.

Hominis postrate: o Siderius Crucis, Ave Maris Stella!

Os Grandes Avataras todos Eles tiveram as suas Contrapartes, assim se manifestando como Deva-Pis ou GÉMEOS ESPIRITUAIS: Akenaton e Nefertiti, Krishna e Krishnaya, Budha e Mayadevi, Cristo e Maria, HENRIQUE e HELENA, etc., etc.

No seio da própria Shuda-Dharma-Mandalam, a Grande Fraternidade Branca, sendo o modelo primordial de todos os demais Institutos credenciados pela Tradição Iniciática das Idades, os próprios Adeptos possuem as suas Contrapartes femininas, e vice-versa, para que Kartri (Criador) tenha sempre efectivação por Shakti (Criadora). De maneira que elas são as Grandes Mães da Humanidade como Shaktis Primordiais dos 7 Raios de Luz do Eterno, Deus Único e Verdadeiro – o Logos Solar, reconhecido como VISHNU, por uma parte, ou como CRISTO UNIVERSAL, por outra, para todo o efeito, a Segunda Hipóstase ou Aspecto AMOR-SABEDORIA do ANDRÓGINO PRIMORDIAL do Segundo Trono, Logos ou Mundo Intermédio, o Céu. Adianto que tal Fraternidade dos Superiores Incógnitos do Mundo é a mesmíssima Maçonaria Universal Construtiva dos Três Mundos, a dos Traixus-Marutas dirigindo os 22 Templos de Agharta, ou melhor, 21 Templos para um 22.º Central, Shamballah, o LABORATÓRIO DO ESPÍRITO SANTO donde o Rei e Rainha de Melki-Tsedek, Chakravartin e Chakravartini, dirigem os destinos do Mundo.

Das 49 “Flores da Maternidade” como Mães dos 49 Adeptos Independentes concebidos pelos 7+1 atributos de Kundalini ou o “Fogo Criador do Espírito Santo”, há 7 mais 3 que se destacam na Obra do Eterno levada a efeito no seio da Hierarquia Oculta e que ocupam lugar destacado nas páginas ilustres da augusta História da Obra realizada pela TEURGIA/TEOSOFIA Luso-Brasileira desde 1899. Muito parcialmente, deixo aqui o esquema seguinte das SHAKTIS Primordiais e das MÃES Universais, em conformidade aos SETE RAIOS de Luz como os depreende a Ala Feminina da ORDEM DO SANTO GRAAL, a ORDEM DAS FILHAS DE ALLAMIRAH (“Os Olhos do Céu” ou “O Olhar Celeste”):

As 7 Mães

As Grandes Mães são, hoje mesmo no primeiro domingo do mês de Maio em sessão branca ou flanqueada a convidados não maçons, homenageadas na Maçonaria no dia comemorativo das Mães terrenas (dia do Sol, domingo, em Taurus/Vénus, Maio, expressando a Mulher Iluminada), para todos os efeitos, expressivas das Mães celestes que têm a sua maior e mais sublime figuração nas Excelsas Mahatmas. Nessa data, o Templo maçónico deve estar ornamentado com a pompa possível, havendo o cuidado de evitar exageros para não se conciliarem com a solenidade da magna comemoração. Ao lado do Altar dos Juramentos deve estar posta uma coluna ou mesa pequena com um vaso ou recipiente próprio para receber as flores (rosas) destinadas às Mães que partiram para a Eternidade. Ainda no Oriente do Templo será colocada uma poltrona (“trono”), em lugar de destaque, para a Mãe presente mais idosa. São providenciadas rosas vermelhas e brancas suficientes para que cada Dama receba uma branca (pureza) e duas vermelhas (vida), e cada Irmão e profano receba uma branca e uma vermelha. Isto significa a Pureza de Vida pela Mulher inspirando o que recebe menos flores, ou seja, norteando os seus passos na Pureza de Vida. Expressa a Grande Educadora.

Mesmo numa sociedade patriarcal como foi a europeia medieval, a mística do Feminino impôs-se por via do culto tanto a Shekinah, como a Maria ou a Fátima, e logo, de maneira subtil, a primitiva sociedade matriarcal atlante urge, e mesmo se impõe, ao «império dos homens». Assim observa-se a admissão das mulheres à Iniciação, e mesmo virem a ser mais que Iniciadas, elas mesmas Iniciadoras. De maneira que se tinha na antiga Ordem do Templo as Templárias, vivendo próximas aos Templários e sendo a retaguarda auxiliadora destes; o mesmo acontecia com as monjas do Islão, onde os Assacis possuíam declarado apoio feminino, tanto humano como espiritual por parte dessas fatmas do Corão messiânico, sufi, e neste sentido escreveu Jean Reynor (in Initiation Féminine et Franc-Maçonnerie. Revista Études Traditionnelles, n.º 357, Janeiro/Fevereiro de 1960) reconhecendo sabedoria e santidade às mulheres iniciadas do Cristianismo e do Islão, “graças a Iniciações no interior de certas Ordens monásticas femininas, […] Iniciações comuns aos dois sexos”, fazendo recuando a Iniciação Feminina à própria Cavalaria Espiritual da Ordem do Santo Graal, cujas Damas e Sacerdotisas, aparelhando em conjunto com os Cavaleiros e Sacerdotes, eram certamente muitíssimo mais “do que as beatas de simples exoteristas”, sim, porque também eram Sibilas e Oráculos dos respectivos Arautos ou Profetas.

Isso registou-se na admissão à própria Ordem de Cavalaria, gizada por Carlos Martel e regulamentada por Raimundo Lúlio, e apesar de marcial e viril exclusiva a homens nobres e bravos, foi a Iniciação Cavaleiresca igualmente Iniciação Mariana ou Senhorial, por o proposto à armação se consagrar a Santa Maria e ser consagrado por uma Rainha ou Dama distinta, que lhe impunha o gládio sobre a cabeça e os ombros sagrando-o, só após sendo efectivamente reconhecido armado Cavaleiro.

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De maneira que há duas correntes iniciáticas: uma histórica (mental) e patriarcal, outra espontânea (intuicional) e matriarcal, o que levou à separação dos sexos resguardados em casas próprias a cada qual, em princípio para distinguir essas duas correntes e depois, com a perda crescente do sentido iniciática da Tradição Primordial e o aumento da profanidade mesmo entre religiosos, para evitar tentações carnais, cuja órbita no passional impede sempre a marcha para o Divino!… Apesar disso, a forma mais correcta da operática esotérico será sempre a de homens e mulheres presentes juntos a um mesmo Altar, como acontece na Ordem do Santo Graal, pelo que a Maçonaria Mista ou Andrógina é a expressão mais perfeita de todas, tanto mais que ritos de homens ausentes de mulheres, e vice-versa, não raro, por Fohat estar apartado de Kundalini e esta isolada de Fohat, provocando anomalias de cariz sexual, impondo-se neles um mental volitivo, feminino ou emocional, expresso por actos dessa natureza, e nelas um mental fixo, masculino ou intelectual, expressando-se por atitudes másculas.

Deverá haver sempre um par de sexos desiguais em qualquer rito de qualquer espécie de prática espiritual verdadeira, para que a mente e o coração não andem desavindos um do outro e a Sabedoria do Homem aparelhe com o Amor da Mulher, e juntos sejam a semente da Vontade Criadora de uma Nova Humanidade, de uma Nova Alma que conduza à transformação de vez da Sociedade para o Bem, o Bom e o Belo.

Em relação com isso, escreveu René Guénon (in Initiation et Réalisation Spirituelle. Éditions Traditionnelles, Paris): “As duas cadeias iniciáticas. – Uma é histórica, a outra espontânea. A primeira comunica-se nos Santuários estabelecidos e conhecidos, sob a direcção dum Sheikh (Guru) vivo, autorizado, possuindo as chaves do Mistério. Tal é El-Talîmurrijâl, a instrução dominical ou dos homens. A outra é El-Talîmur-rabbânni, a instrução senhorial que me permito chamar “Iniciação Mariana”, porque foi essa que recebeu a Santa Virgem, a Mãe de Jesus, filho de Maria. Nesta há sempre um Mestre, mas ele pode estar ausente e mesmo já ter falecido há muitos séculos. Nesta Iniciação retira-se do Presente a mesma substância espiritual que os outros tiraram da Antiguidade. Actualmente ela é muito frequente na Europa, pelo menos em seus graus inferiores, mas quase desconhecida no Oriente”.

Além da vertente mística e filosófica, a profissional também foi exercida no campo operático da Idade Média, sim, como Maçonaria Operativa Feminina, onde mulheres construtoras incorporavam as guildas, agremiações operativas de pedraria e carpintaria vocacionadas ao trabalho de construção de catedrais, onde muitas vezes a presença feminina fundiu operativismo com corporativismo. Sobre isto e apesar de referir-se exclusivamente aos módulos da iniciação artesanal por herança doméstica, Paul Naudon observa (in Les origines religieuses et corporatives de la Franc-Maçonnerie, Paris, Dervy, 1953): “As mulheres eram admitidas à Mestria em dois casos bem distintos. De uma parte, certos ofícios eram exclusivamente compostos de mulheres (fiadoras de seda, trabalhadoras de tecidos de seda); em alguns outros ofícios as mulheres eram admitidas à Mestria em concorrência com os homens (remendões, trabalhadores em linho, criadores de galinhas). Por outro lado, as viúvas eram em geral autorizadas a continuar no ofício do marido falecido. Presumia-se, então, que tivessem adquirido uma suficiente experiência profissional”.

Mas houve mais que isso. Por Lionel Vibert (in La Franc-Maçonnerie avant l’existence des Grandes Loges, Paris, Gloton, 1960), sabe-se que na guilda dos carpinteiros de Norwich (por volta de 1375), à qual estavam ligados os maçons (pedreiros), “os Irmãos e as Irmãs deviam orar juntos do dia da Ascensão”. Por outro lado, é tradição que a filha do mestre-de-obras da catedral de Estrasburgo, Sabina de Steinbach, trabalhou na guilda dos maçons daquela cidade e esculpiu as estátuas do portal meridional da catedral, tendo com o seu marido, o mestre maçom Bernard de Sunder, trabalhado num grupo de estátuas da catedral de Magdeburgo (in Louis Lachat, La Maçonnerie opérative, p. 150, e sobretudo Le Magasin Pittoresque, p. 171, 1845).

Por fim, existe um texto de importância capital (em geral passado em silêncio pelos historiadores maçons) que é conhecido sob o nome de Manuscrito Inglês de 1693, pertencente à York Lodge n.º 236. A propósito da iniciação de um novo maçom, declara esse texto: “Um dos mais antigos toma o Livro; esse ou essa que se vai tornar maçom, põe a mão sobre o Livro e, em seguida, são dadas as instruções. Todo o maçom deve estar atento a isto”.

Apesar de todas essas provas flagrantes da presença feminina no operativismo filosófico e prático maçónico, tem-se que James Anderson (1679-1739), o organizador da Maçonaria Especulativa por via do seu Livro de Constituições que logo se tornaria a “bíblia” maçónica, escreveu nessa obra que dedicou a uma mulher, a Sr.ª Lagard: “As pessoas admitidas como membros de uma Loja devem ser homens de bem e leais, nascidos livres, de idade madura, circunspectos, nem servos, nem mulheres, nem homens sem moral, ou de conduta escandalosa, mas de boa reputação” (in James Anderson, Constitutions de 1723, artigo III). Convém lembrar, a propósito, que René Guénon e outros autores acusaram Anderson de haver feito desaparecer, voluntariamente, grande número de textos antigos. Os textos que mencionassem a presença de mulheres na Maçonaria Operativa, não poderiam estar entre esses?

Com tudo isso, mesmo assim vieram a constituir-se Lojas Femininas, a chamada Maçonaria de Adopção, no século XVIII, divagando muitos autores recentes, como Oswald Wirth (in Le rituel féminin, revista Le Symbolisme, n.º 219, Julho de 1937), sobre o que se exerceria nessa Lojas de Adopção do Antigo Regime por volta de 1770, nos quais se encontravam “alguns rituais diferentes dos rituais masculinos, mas visivelmente criados para lembrar o seu carácter simbólico, misterioso e educador” (in Gaston-Martin, Manuel d’histoire de la Franc-Maçonnerie française, Paris, 1929).

A criação da Maçonaria de Adopção deve-se a duas Preclaras Adeptas das mais insignes que o mundo já conheceu: Serafina Feliciani e Lorenza Feliciani. A primeira, aparelhando com o seu divino Consorte, o Conde de Cagliostro (AKADIR), ambos vindos de LUXOR, no Egipto, para Lyon, na França, fundaram o RITO ANDRÓGINO ou COPTA, juntando 12 senhoras e 12 senhores num mesmo Templo e ao mesmo tempo. Dessa Loja “SABEDORIA TRIUNFANTE”, nascida da antiga “A SABEDORIA” (1786), a TEURGIA do Insigne Casal veio a inspirar a abertura masculina à adopção de mulheres na Maçonaria.

Na retaguarda desse havia outro Casal cuja missão era juntar o Operático Teúrgico ao Entendimento Místico, antes, Teosófico: Lorenza Feliciani e o Conde de Saint Germain (LORENZO), provindos de KALEB, na Líbia, para Paris, na França, aí implantando a ROSACRUZ ANDRÓGINA.

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Lorenza Paola Domiciani

Ambos os Casais em breve estenderiam a sua influência a Portugal, sabendo-se da presença de Cagliostro e Serafina em Lisboa em 1787, instalados no Café Central da Rua de Remolares, ao Cais de Sodré, que albergava a Loja “Heréticos Mercadores”, epíteto malfazejo dado pela inquisição aos maçons protestantes britânicos e irlandeses da mesma, apodo mal-grato prontamente acolhido e espalhado pelo intendente Pina Manique através dos seus “cães de fila”, e que assim mesmo passou aos manuais da História da Maçonaria em Portugal, mas o seu verdadeiro nome oculto seria: Loja dos “MESTRES HERMÉTICOS”.

Já Saint Germain, o Conde de Fénix (confundido com Cagliostro, o Conde de Lyon), esteve em Lisboa em 1788 e sabe-se ter estado ao largo de Setúbal, quiçá defronte à Serra da Arrábida, a bordo da fragata inglesa “FÉNIX” onde terá realizado várias “Iniciações Molhadas”, inclusive com a presença de senhoras, uma delas, possivelmente, a Marquesa de Alorna (ALCIPE).

Natália Correia (in Programa Mátria, n.º 10, 1988, Arquivo da Radiotelevisão Portuguesa, Lisboa) informou que a Marquesa de Alorna havia fundado a Sociedade da Rosa, “uma Ordem Maçónica mista, em que os Irmãos eram os Cavaleiros da Rosa e as Irmãs as Ninfas da Rosa”, sublinhando que “o marido (da Marquesa), tal como o seu primo, o Conde de Lippe, eram Maçons”. De maneira que, ainda segundo Natália Correia, “a primeira mulher ligada em Portugal à Maçonaria não é a Viscondessa de Juromenha, D. Maria da Luz, iniciada na Loja Virtude, de Lisboa, em 1814, mas a Marquesa de Alorna, aliás apontada […] por José Agostinho de Macedo como fundadora da Maçonaria das Damas” (in Jorge Morais, Bocage Maçom. Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Fevereiro de 2007).

Mas será só em 1881 que levanta colunas em Lisboa a primeira Oficina maçónica feminina (uma “Loja de Adopção”, por ser constituída sob o patrocínio e no âmbito de uma Obediência masculina): a Loja “Filipa de Vilhena”, que trabalharia sucessivamente sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano Unido, da Grande Loja dos Maçons Livres e Aceites de Portugal e da Grande Loja Departamental Fortaleza do Grande Oriente de Espanha (in Jorge Morais, Com permissão de Sua Majestade. Via Occidentalis Editora, Lda., Outubro de 2005). Em 1885 essa Loja do Rito de Adopção abateu colunas, ou seja, cessou a sua actividade.

Em 1904 levantaram colunas em Lisboa, isto é, iniciaram actividade maçónica sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano Unido, as Lojas do Rito de Adopção “Humanidade” e “Oito de Dezembro”, sendo na primeira dessas que será iniciada (em 1907) Adelaide Cabete (com o nome simbólico Louise Michel). Anos depois, em 1923, as Lojas Femininas do Rito de Adopção abandonam o Grande Oriente Lusitano e Adelaide Cabete, Venerável Mestra da Loja “Humanidade”, onde atingiu o 18.º Grau, pede e obtém filiação no movimento internacional da Maçonaria Mista, Le Droit Humain. Ao longo dos três anos seguintes, outras seis Lojas portuguesas (de Lisboa, Alcobaça, Portalegre e Beja) filiam-se no Droit Humain, constituindo uma Jurisdição Portuguesa presidida por Cabete (Adelaide de Jesus Damas Brazão Cabete, Alcáçova, Elvas, 25.1.1867 – Lisboa, 14.9.1935).

Túmulo de Adelaide Cabete, Cemitério Alto de S. João, Lisboa

Em 1926, perseguida pela Ditadura Militar a Maçonaria Portuguesa passa à clandestinidade e a Jurisdição no País de Le Droit Humain cessa actividade, com as suas sete Lojas abatendo colunas. Só em 1980 tornaria a levantar colunas em Lisboa a Loja Mista “Humanidade”, logo reiniciando os contactos com o Movimento Le Droit Humain, “O Direito Humano”, que é a Comaçonaria ou Ordem Maçónica Mista Internacional fundada em França cerca de 1882 por Georges Martin, após a Loja “Les Libres Penseures”, do Rito Escocês Antigo e Aceite, ter iniciado uma mulher, Marie Deraismes, que ficaria como principal referência da moderna Iniciação Maçónica Feminina.

Finalmente, em 27 de Março de 1996 é constituída a Grande Loja Feminina de Portugal, de obediência adogmática e cariz liberal. Embora não dispondo de Templo próprio, como informa Jorge Morais, algumas das suas Oficinas funcionam nas instalações e Templos do Grande Oriente Lusitano. Serão Grã-Mestras Maria Manuela Cruzeiro, Júlia Maranha, Maria Helena Carvalho dos Santos e Maria Belo. Essa Grande Loja nasceu da união de três outras Lojas: a Loja “Unidade e Mátria”, fundada em 1983 em Lisboa, a Loja “Lusitânia”, fundada em 1988 em Lisboa, e ainda a Loja “África”, também fundada em Lisboa.

Em Novembro de 2009 fundou-se em Portugal a primeira Ordem Maçónica Feminina do Rito Antigo e Primitivo Memphis-Misraim. Denominada Loja “Ísis”, instalada em Lisboa, é composta exclusivamente por mulheres que praticam o Rito Egípcio, com forte intensidade esotérica.

Annie Besant, Mestra Maçona na Comaçonaria

Apesar da Franco-Maçonaria não possuir qualquer tipo de doutrina e tão-só um vasto corpo de simbologia que fica ao cuidado de cada um interpretar segundo as suas capacidades mentais, de acordo com a sua evolução interior, a verdade é que é esse mesmo simbolismo acaba sendo a prova cabal de ter havido originalmente uma doutrina velada por esse mesmo corpo simbológico, doutrina essa certamente iniciática do conhecimento de homens e mulheres alumiados pelo Espírito. É ao retorno a essa Luz que a Maçonaria deve encaminhar os seus afiliados, e isso só será possível quando se eliminarem de vez as escórias psicossociais de interesses políticos pelo poder temporal e onde os intervenientes, por mais destacados acaso podendo ser na hierarquia maçónica, não raro têm comportamento abaixo do mais mísero profano, e isto por duas razões que vão dar numa terceira: 1.ª) ignorarem ou esquecerem que Maçonaria é sobretudo um Colégio de Iniciação Espiritual, e para se ser Iniciado verdadeiro tem que ser-se verdadeiramente Espiritualista; 2.ª) colocarem as mulheres numa posição subalterna relativamente à hierarquia maçónica, mesmo as maçonas, e estas acabarem aceitando essa condição e adoptarem os mesmos vícios dos homens, tanto psicomentais, como só emocionais e físicos; 3.ª) por levarem a política ao interesse próprio e não da colectividade, por adoptarem a filosofia dialéctica invés da dialéctica da Teosofia, e assim se ficando, quase na generalidade, pela aceitação do simbolismo como elemento decorativo secularizado e assumido costume lúdico, tudo isso levando um Instituto Espiritualista a converte-se em “laico e materialista”, certamente para desgosto dos seus Augustos Antepassados, os Superiores Incógnitos, os Encobertos KADOSH dirigentes da marcha sublime da Evolução Humana.

Para terminar, passo a descrever o resumo do Ritual da Loja Mista La Candeur (“A Candura”) do Oriente de Paris, 1779, nos três Graus da Maçonaria Azul, ou sejam Aprendiza, Companheira e Mestra, e nos dois posteriores, Mestra Perfeita e Eleita Escocesa.

Os Dignatários da Loja de Adopção, eram: um Grão-Mestre, uma Grã-Mestra; um Irmão 1.º Supervisor, uma Irmã Inspectora; um Irmão 2.º Supervisor, uma Irmã Depositária; um Irmão Orador; uma Irmã Tesoureira.

Como disse, havia cinco Graus: a Aprendiz Maçona; a Companheira; a Mestra; a Mestra Perfeita e a Eleita Escocesa.

A Loja do Grau de Aprendiza representa as quatro partes do Mundo: a Europa, a Ásia, a África e a América.

O Venerabilíssimo senta-se na Ásia, tendo diante dele um altar. A Grande Inspectora está à sua direita; veste-se de branco. O Venerabilíssimo acrescenta às suas vestes ordinárias uma faixa azul, de cuja parte inferior pende um martelo na forma de T.

Traz o chapéu na cabeça, segura uma espada com a mão esquerda e uma trolha com a mão direita. Sobre o altar encontra-se um vaso contendo pasta para pôr o selo da discrição, com a ajuda de uma trolha que deve estar dentro do vaso. À abertura da Loja, o Venerabilíssimo pergunta à Grande Inspectora:

P. – Quais são os deveres de uma Perfeita Maçona?

R. – Amar, socorrer, proteger e respeitar as suas Irmãs e Irmãos, sobretudo no infortúnio.

O Venerabilíssimo diz: “Continuemos, portanto, a nos amar, proteger e socorrer-nos mutuamente em todas as ocasiões”.

Bate cinco vezes, repetindo cinco vezes: Eubolos (do grego, Prudência)!

A Loja está aberta.

Para se receber uma mulher no Grau de Aprendiza, põe-se a recipiendária numa câmara escura. Uma Irmã, colocada junto dela, prepara-a para resistir com firmeza às terríveis provas por que vai passar. Em seguida, tira-lhe a liga da meia esquerda e põe no lugar uma outra de fita azul; tira-lhe a luva direita, arregaça-lhe a manga direita e cobre-lhe os olhos com uma venda.

Assim feito, a Irmã apresenta a recipiendária à porta do Templo, na qual bate cinco vezes.

Após lhe perguntar o nome, a idade, a qualidade da postulante e se ninguém se opõe à sua admissão, o Venerabilíssimo diz então: “Levai-a à Câmara do Segredo e fazei-a passar pela prova da Serpente venenosa; em seguida, introduzi-a na Loja”.

A recipiendária é conduzida à Câmara de onde foi retirada e na sua mão esquerda é colocada uma serpente figurada.

Em seguida, a Irmã a reconduz à Loja e a entrega nas mãos do Grande Inspector, após haver batido na porta.

O Inspector deixa a recipiendária no meio do Templo e vai colocar-se à esquerda do Venerabilíssimo, dizendo-lhe: “É a Senhora que deseja tornar-se Maçona”. Pergunta então o Venerabilíssimo: “É de vossa livre e espontânea vontade, Senhora?” Após a resposta da recipiendária, pergunta-lhe: “Reflectistes bem, antes de vos decidir a entrar para uma Ordem tão respeitável?” Após a resposta, pergunta ainda: “Não vos aconteceu algum dia acreditar que os Maçons estão sujeitos a vícios infames, contrários à virtude e à probidade?” Após a resposta, volta-se para o Irmão Inspector e diz-lhe: “Irmão Inspector, fazei a recipiendária passar sob a abóbada de aço; em seguida, levai-a a viajar do Norte ao Ocidente, fazendo-a passar severamente pela prova do fogo”. O Inspector leva-a a viajar três vezes do Norte ao Ocidente e duas vezes em torno de dois fogaréus sobre os quais manda pôr a mão; após, anuncia: “Ela viajou”, e a faz voltar-se para o lado de um esqueleto. O Venerabilíssimo diz então ao Grande Inspector: “Fazei-a ver todo o horror de seu estado”. A venda é retirada e imediatamente os dois Irmãos Terríveis agitam os seus archotes. O Venerabilíssimo ordena em seguida: “Deixai-a reflectir por um momento sobre o seu estado actual”. Um instante depois, adianta: “Fazei-a passar da morte para a vida, conduzindo-a à Estrela do Oriente com cinco passos”. Então os dois Irmãos Terríveis voltam-na num instante, e até bruscamente, na direcção do Oriente; o Inspector manda-a dar os cinco passos na direcção do Venerável, dizendo-lhe para prestar atenção ao que vai dizer a Grande Inspectora.

Segue o discurso do Orador. – A recipiendária faz o seu juramento. Feito o juramento, o Venerabilíssimo transmite-lhe as palavras, sinais e toques.

Isso feito, o Venerabilíssimo abraça a recipiendária e diz-lhe: “Mudo a condição de Senhora para a condição de Irmã, apresentando-vos uma liga de meia na qual estão escritas as palavras Silêncio, Virtude”. Então a Grande Inspectora tira-lhe a que está usando e a substitui por esta. O Grande Inspector oferece-lhe, em seguida, as luvas e um avental brancos, como as suas vestes, dizendo-lhe: “Eu vos decoro com o avental de uma Ordem respeitável; o avental é duas vezes branco, para vos lembrar a candura que devem sempre apresentar um Maçom e uma Maçona”.

Depois disso, segue o beijo de associação de todos os Irmãos e Irmãs, com a palavra e o toque, passando, em seguida, a recipiendária ao clima da América, para ouvir a instrução que lhe é feita pelo Venerabilíssimo e a explicação do quadro colocado no meio do jardim.

No Grau de Companheira, os Dignatários são os mesmos e ocupam os mesmos lugares. Sobre a mesa do Venerabilíssimo está uma maçã artificial dentro de uma caixa; ao lado dessa caixa está um prato com maçãs; do outro lado, um vaso cheio de massa.

A Grande Inspectora conduz a candidata à Câmara de Reflexões, tira-lhe o brinco da orelha esquerda e diz-lhe: “Todo o Maçom deve desprezar os vãos ornamentos do mundo”. Cobre-lhe os olhos. Isto feito, a conduz novamente à porta da Loja, depois de haver batido cinco vezes, com batidas iguais.

O Grande Inspector pergunta: “Quem bate e o que deseja?” A Grande Inspectora responde: “É uma Aprendiza que deseja ser recebida como Companheira”. Introduzida, a Grande Inspectora manda-a fazer cinco voltas em torno da mesa diante do Venerabilíssimo; em seguida, a conduz à parte inferior da Loja, onde a Inspectora põe-lhe uma cadeia nas duas mãos, passando-a por cima do pescoço.

O Venerabilíssimo diz então: “Fazei-a ver a imagem da sedução e a origem do seu pecado, e conduzi-a, de seguida, ao Altar da Discrição”.

Após um discurso, a Inspectora manda-a fazer o seu juramento, que é o mesmo do Grau de Aprendiza. Isto feito, apresenta-lhe uma maçã e ordena-lhe: “Mordei esta maçã sem atingir a semente que é o germe e a fonte de todos os nossos vícios”. Após esta cerimónia, aplica-lhe o selo da discrição, pondo-lhe massa na boca com uma trolha, com cinco pequenos toques, e diz-lhe: “Aplico-vos o selo da Maçonaria na boca para vos fazer lembrar de jamais a abrir para divulgar os nossos Santos Mistérios”. O Venerabilíssimo limpa, em seguida, a boca da recipiendária, abraça-a e transmite-lhe as palavras, sinais e toques. O Venerabilíssimo manda, em seguida, reconhecer e aplaudir a cerimónia.

O dever das Companheiras é obedecer, escutar, trabalhar e se calar.

Para o terceiro Grau, a Loja é iluminada com treze luminárias: 7 ao Sul e 6 ao Norte.

O Inspector, instalado como nos dois Graus precedentes, tem atrás dele uma mesa, em cima da qual está uma caixa que se abre com uma mola. Essa caixa contém um coração, sobre o qual está escrito: Silêncio e Virtude. Ao lado dessa caixa, estão um pequeno maço e um pequeno formão de Maçom. A decoração para as Mestras é uma faixa de seda azul brilhante, um manto atravessado do ombro esquerdo para a direita da cintura, de cuja parte inferior pende uma trolha de ouro ou de cobre dourado.

Do mesmo modo que nos dois Graus anteriores, a recipiendária é retirada da Câmara de Reflexões, com um grande lenço no pescoço, símbolo da humildade. A Grande Inspectora introduz a candidata, depois de bater na porta e de ter respondido às perguntas feitas pelo Venerabilíssimo.

Introduzida no Templo, diz o Venerabilíssimo à Grande Inspectora: “Fazei ver à recipiendária o que deve encerrar a obra dos Maçons”. Os olhos da recipiendária são descobertos e, com cinco passos, é conduzida na direcção da mesa onde se encontra a caixa.

O Venerabilíssimo pergunta-lhe: “É da vossa livre e espontânea vontade ser recebida como Mestra e persistis na guarda do mais absoluto silêncio sobre tudo o que virdes e ouvirdes?” Após a resposta, continua o Venerabilíssimo: “Mandai-a trabalhar, Irmão Grande Inspector”. Este lhe apresenta o formão e o maço, mandando-lhe bater cinco vezes; a caixa se abre. Diz o Grande Inspector ao Venerabilíssimo: “A Irmã trabalhou”. Pergunta o Venerabilíssimo: “Que produziu o trabalho?” Responde o Inspector: “Um coração que encerra Silêncio e Virtude”.

Após o discurso do Orador, o Venerabilíssimo pergunta-lhe: “Persistis nos juramentos anteriores que haveis prestado diante de nós?” Após a resposta, o Grande Inspector a conduz ao pé do trono; ali, o Venerável recebe-a como Mestra, abraça-a e dá-lhe as palavras, os sinais e os toques que ela transmite ao Grande Inspector e à Grande Inspectora, que a abraçam e dão conta ao Venerabilíssimo.

Para encerrar os trabalhos, o Venerabilíssimo diz: “Meus Irmãos e minhas Irmãs, a Torre de Babel foi derrubada; a paz e a concórdia foram restabelecidas; ouvimos, obedecemos e trabalhamos; calamo-nos: a Loja de Mestra está encerrada”.

No quarto Grau, o de Mestra Perfeita, o trono do Venerabilíssimo está entre duas colunas de cinco pés de altura, em ferro branco. As duas colunas são unidas por um arco-íris transparente.

A coluna à direita do Mestre é cheia de orifícios na forma de estrelas, para deixar passar o brilho de uma luz que será colocada por detrás. Essa coluna representa aquela Coluna de Fogo que precedia os hebreus durante a noite, no êxodo pelo deserto.

A coluna da esquerda não é furada e representa aquela que escondia a luz do dia aos egípcios.

O altar do Venerabilíssimo deve estar colocado quase sob o arco-íris.

A recipiendária está sozinha na Câmara de Preparação, onde o Irmão Introdutor a vai buscar e fazer-lhe algumas perguntas sobre os três Graus precedentes. Pergunta-lhe, em seguida, se deseja sinceramente chegar à Perfeição. Após a sua resposta, dirige-lhe uma prelecção apropriada. Feita essa exortação, o Irmão Introdutor deixa a recipiendária por alguns instantes, entregue às suas reflexões. Vai buscar na Loja um vaso de metal opaco, emborcado sobre um prato, encerrando dentro dele um pássaro vivo.

De duas polegadas de espessura, o contorno do vaso é coberto de areia muito fina disposta da maneira mais uniforme possível. O Irmão Introdutor leva o conjunto nesse estado até à candidata, dizendo-lhe tratar-se de um depósito precioso, que lhe é confiado, com a proibição de tocá-lo sem ordem do Venerabilíssimo, a quem dentro em pouco será apresentada. A candidata é deixada durante algum tempo entregue a si mesma, para ver se será tentada a destampar o vaso. Se vier a fazê-lo, a areia se espalhará com o voo do pássaro. Então, sem qualquer consideração, o Venerabilíssimo faz-lhe graves reprimendas por sua leviandade, por sua indiscrição, por sua curiosidade e falta de palavra e acaba dizendo-lhe que estando, por esta vez, indigna da Perfeição, deverá lutar, por meio de novos trabalhos, para conquistar a felicidade de ser recebida como Perfeita; e, uma vez aberta a lousa de mesa, é condenada a uma pena pecuniária em favor dos pobres.

Se, pelo contrário, a candidata não descobre o vaso e nada é desarrumado, o Irmão Introdutor anuncia-lhe que, pelo preço da sua discrição, irá receber o Grau de Mestra Perfeita. Mandará que tome prudentemente o prato que contém o vaso e, depois de lavar as mãos, conduz a recipiendária à porta da Loja, na qual bate cinco vezes.

Procede-se, em seguida, à iniciação do Grau.

O Venerabilíssimo faz as seguintes perguntas ao Inspector ou à Inspectora:

P. – Irmão Inspector (ou Irmã Inspectora), que resultado obteve a Irmã ….. de seu trabalho?

R. – Venerabilíssimo, no primeiro dia apliquei o formão para afastar e eliminar o ócio e todos os falsos preconceitos sobre a Maçonaria. No segundo dia, começou a fortalecer o meu trabalho e me fez conhecer a excelência de nossa Ordem. No terceiro dia, ensinou-me a arte dos Maçons Livres, isto é, de amar a honra e tornar doces e complacentes os corações mais duros e mais cruéis. No quarto dia, abriu-me o coração dos Maçons, que distribui os seus benefícios com todos os seus semelhantes e evita, como um dever, fazer críticas a qualquer dos seus Irmãos que se afaste dos verdadeiros princípios.

O Venerabilíssimo ordena: “Irmão Inspector (ou Irmã Inspectora), trazei a recipiendária, que lhe darei a recompensa por seu trabalho”.

O Venerabilíssimo dá-lhe então um par de meias de seda azul, nas quais estão bordados dois corações e as seguintes palavras partilham as duas meias:

A Verdade nos uniu

O Céu nos recompensa

Passa-lhe também um pequeno martelo de ouro, com um anel que se abre e sobre o qual está escrito o segredo.

Em seguida, adorna a Irmã com uma estrela de cinco pontas, sobre as quais são colocadas estas cinco letras: D.C.V.P.L.; a estrela pende de uma faixa branca a tiracolo.

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Para o quinto Grau, o de Eleita Escocesa, a Loja deve estar atapetada em amarelo e ser iluminada por quatro luminárias, um livro do Evangelho está sobre o Altar do Respeitabilíssimo.

O avental é branco, com forro amarelo, e uma estrela bordada em prata acima do peito: a estrela está encerrada num quadrado.

O Mestre da Loja toma o título de Respeitabilíssimo.

Para ser recebida, a candidata está só, entregue às suas reflexões durante um quarto de hora; em seguida, é conduzida, com os olhos cobertos, à porta da Loja, pela Grande Inspectora, que lhe retira a touca e lhe põe um grande lenço no pescoço.

A Inspectora manda-a lavar as mãos e a testa e lhe prende os dois braços em torno do corpo com uma faixa amarela; em seguida, a conduz à porta da Loja, na qual bate duas vezes, e a entrega nas mãos do Inspector que veio recebê-la, que a faz descrever quatro voltas diante do Respeitabilíssimo e a um pé do quadrado da Loja. Começa então o interrogatório para saber se ela é realmente Maçona, e é dada a ordem para lhe ser retirada a venda dos olhos para que veja a luz.

Imediatamente lhe é retirada a cobertura dos olhos; todos os Irmãos lhe apontam a espada ao coração e o Mestre diz-lhe: “Minha cara Irmã, todas estas espadas que vedes serão tantas armas contra vós, se algum dia vos tornardes perjura; mas serão, ao contrário, para a vossa defesa, se continuais a perseverar no bem”.

Quando a candidata acaba de prestar o seu juramento, o Respeitabilíssimo manda que se levante, retira-lhe a faixa que prendia os braços e diz: “Eu vos liberto dos grilhões do vício para vos conduzir pelos caminhos da virtude”.

Ordena-lhe, em seguida, que vá abraçar todos os Irmãos e Irmãs, a começar pelos Oficiais, e depois venha ficar ao seu lado.

De volta para junto do Respeitabilíssimo, ele diz-lhe: “Recebo-vos na Dignidade de Eleita Escocesa, pelo poder que esta Respeitável Loja me conferiu, depois de me haver julgado digno”. Ele abraça-a quatro vezes, adorna-a com o avental e as luvas e lhe transmite as palavras, sinal e toque.

OBRAS CONSULTADAS

Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Editora Dinapress, Lisboa, 2002.

Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império. Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, Abril de 2007. Reedição da mesma obra em Lisboa, 2011, Bubok Publishing, S.L.

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Ex Occidens Lux! (Do coração à cabeça da Europa) – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Jan 3 2012 

A “RAÇA REAL” DOS CAPETOS

A frase célebre da “França ser a filha predilecta da Igreja” merece explicação e apuração, e tal recambia para o plano do mito sagrado onde lendas, profecias e factos estranhos se cruzam em torno da dinastia Capeto cuja origem se atribui ao próprio Espírito Santo na pessoa do rei Clovis I (c. 466 – 27.11.511).

A realeza franca, durante o reinado de Clovis, foi chamada a jogar um jogo capital e providencial na história da Igreja Católica. No final do ano 400 os imperadores romanos, estabelecidos doravante em Constantinopla, eram arianos e apoiantes de outros cultos contrários ao catolicismo. O arianismo dominava entre os povos germânicos. (godos, vândalos, burgondes, etc.). Mas no ano 496 e por estímulo da sua esposa Clotilde, Clovis converteu-se ao catolicismo, levando os seus súbditos, os francos salianos, a imitá-lo, abandonando as crenças arianas e convertendo-se à fé católica livre de todas as heresias. Isto aconteceu após a miraculosa vitória militar de Tolbiac, onde os alamanos foram derrotados pelos francos, sucesso que o arcebispo Saint-Remy previra antes a Clovis. Este fez-se baptizar por aquele em Reims, e no momento da consagração Saint-Remy profetizou que a “raça real” dos francos estaria destinada a reinar até ao final dos séculos para defesa dos pobres e dos humildes e, igualmente, para defesa e exaltação da santa Igreja e da verdadeira Fé.

Esta “raça real” dos francos é descendente da linhagem do rei Marcomir e do seu filho Faramundo, no século IV, donde saíram dois ramos: o dos reis francos salianos (francs sur la Saale, porque la Saale da Francónia é um rio afluente do Main), chamados também merovíngios; o dos reis francos ripuários (naturais do Rhin e do Weser), dos quais sairia Hugo Capeto (938 – 24.10.996) que no ano 987 tornar-se-ia rei de França, firmando assim a família e linhagem Capeto dos reis de França, como séculos antes Saint-Remy profetizara a Clovis que foi quem uniu a família franca, salianos e ripuários.

A lenda conta que no momento do seu baptismo uma Pomba desceu do céu e pousou na cabeça do rei Clovis, facto que de imediato interpretado como o reconhecimento pela Divindade da descendência de Clovis, assim sagrada nesse momento do baptismo, sacramento tradicionalmente associado ao Espírito Santo. Com efeito, desde o momento desse baptismo que os reis francos receberam uma missão divina com promessas sobrenaturais transmitidos pelo arcebispo de Reims e que fizeram destes ilustres reis “os filhos primogénitos da Igreja”.

Clóvis I

 É necessário precisar: essa missão foi dada essencialmente à “raça real” e não à França, esta o centro da acção sócio-espiritual da real depositária de tal missão: a de propagar a Palavra de Deus e estabelecer a Paz Franca ou “Livre” que alastraria ao resto do mundo. Os reis francos, “reis cristianíssimos” defensores ardentes da Fé, mostraram-se sempre dignos dessa missão de investidura romana mas de acção franca, onde a França se assumia “coração iluminado da Europa”, desde Pepino o Breve e Carlos Magno até São Luís (Luís IX), que patenteou a imagem perfeita de um chefe cristão ao serviço da Justiça e da Paz, tendo se apelidado a si mesmo “o sargento de Deus”. Depois, Luís XI e Luís XIII consagraram o reino à Muito Santa Virgem Maria e proclamaram a Sua soberania sobre a França.

Essa missão espiritual dos reis franceses seria travada dramaticamente no século XIV com o holocausto perpetrado sobre a Ordem dos Templários pelo rei Filipe Capeto, o Belo, com o beneplácito do papa Clemente V, facto deplorável manchando a linhagem Capeto e que exigia uma purificação que o tempo havia de trazer. Essa purificação registou-se no século XVIII com a Revolução Francesa e a família real presa na antiga Casa do Templo, transformada em Bastilha, antes de ser entregue aos carrascos. Purificação, ainda, levada a efeito pelo purgatório que foi a vida do Delfim Luís Carlos Capeto (rei Luís XVII que nunca o foi), pressuposto sobrevivente da Bastilha donde foi resgatado em segredo.

Por a linhagem Capeto estar incumbida de missão divina decepada nas guilhotinas do Terror, logo Luís Carlos Capeto, após desaparecer, seria aclamado a figuração do Grande Monarca Universal que no final dos tempos haveria de regressar para restaurar a monarquia divina francesa e restaurar a Igreja Universal na França, a sua “filha predilecta”, aclamando São João e o Divino Espírito Santo onde o Delfim (destinado a reaparecer) faria as vezes do dito Monarca Universal ou Melkitsedek, “Rei do Mundo”, este o Metraton ou “Intermediário” entre a Divindade e a Humanidade, que é também prerrogativa do Arcanjo São Miguel (Mikael ou Mirrail).

A França rural, a Bretanha e a Vandeia, canta la chanson du Dalphin em 1795, altura em que se edita uma gravura com o seu rosto e um “Coração de Jesus” acorrentado; o povo retrata-o jovem em pinturas simbólicas sobre um delfim empunhando a bandeira do Império Divino da “raça real”, identificando-o ao próprio Espírito Santo na pessoa de Cristo, que é quem haverá de “lavar a França dos seus pecados”; ao mesmo tempo, aparecem profecias francesas mencionando o “sang de la Cape”, isto é, o ramo esquecido da linhagem dos Capetos que em segredo teria sobrevivido fora da França, e nisto a própria palavra capeto ia ao encontro de “encoberto” sob o capote, que tanto resguardava da chuva como escondia a identidade.

Diz-se que Luís Carlos Capeto foi levado para Portugal (e que a própria duquesa de Angoulême sabia disso, tendo depois enviado ao Delfim o colar de diamantes de sua mãe Maria Antonieta, o mesmo do caso “caso do colar” envolvendo Cagliostro, cuja última proprietária no século XX foi uma senhora elvense da família Barahona, não se sabendo mais nada mas desconfiando-se muito que esse colar está hoje na posse da família Capeto portuguesa), tendo passado primeiro pela povoação de Bretanha na Ilha de São Miguel, Açores, e depois, em solo continental, se relacionado com um sapateiro de Elvas, Alentejo, que o acolheu. Essa é uma maneira encapotada para designar um grau profético ou bandárrico (vulgo, “sapateiro” ou que trabalha na tripeça, símbolo da interpretação profética relativa ao passado, presente e futuro assinalado no calçado ou caminhar seguro no entendimento de qualquer dos tempos, isto é, “com os pés defendidos ou calçados”) da Ordem dos Cavaleiros do Espírito Santo, facção da Ordem de Malta (que patrocinou a fuga do Infante) e com forte sabor maçónico, talvez relacionada a essa corrente nobiliárquica francesa na altura chamada Sagrado Coração – Grande Ocidente.

Ora o Grande Ocidente do continente europeu é a Lusitânia, ou “Lugar da Luz” (Mental), e o Sagrado Coração do mesmo é precisamente a França, cujo Restaurador da mesma haverá de sair de Portugal e que os franceses reconhecem como o Grande Monarca. Mas este o é de toda a Terra, não só de um ou dois países, na qual iniciará a Idade ou Reinado do Espírito Santo, tanto valendo por Milénio de São João, a Parúsia, a Era do Aquário, etc. Associando a pessoa do Delfim Capeto ao Grande Monarca tem-se este como o Rei do Mundo abrindo o Ciclo do Grande Ocidente tendo à cabeça, física e simbolicamente, uma dinastia eleita ou a elite (humana e espiritual) descendente dos “reis cristianíssimos”, que tanto eram os de Borgonha (Portugal) como de Capeto (França), entremesclados e materializando o sonho maior da fundação do Soberano Império do Espírito Santo sobre a Terra no qual, rezam as profecias, reinará a Concórdia Universal.

Essa ideia do Delfim francês sair de Portugal para reinar sobre a França e o Mundo inteiro, parece ter sido antecipada por Nostradamus que assim profetiza (Centúria III, XXXV):

Do mais fundo do Ocidente da Europa,

De pobres gentes um Menino nascerá,

Que por sua língua seduzirá grande grupo,

Sua fama no reino d´Oriente mais crescerá.

O MISTÉRIO DO DELFIM LUÍS XVII

Desde a pressuposta morte do Delfim Luís Carlos Capeto, herdeiro do trono de França como Luís XVII, na Bastilha de Paris, na data incerta de 1794 ou 1795, têm surgido esporadicamente na cena francesa personagens obscuros afirmando-se serem o próprio Delfim de França que terá escapado da prisão vindo reivindicar a coroa real para si. É grande a lista dos candidatos, mas também é facto que todos eles acabaram desmascarados como falsos Delfins.

O mito da sobrevivência do Delfim de França parece ter esboroado no dia 20 de Abril de 2000, com a revelação dos resultados do exame de ADN a um fragmento de menos de um grama do coração dissecado da criança que morreu na Bastilha, conservado numa urna na cripta da família real na Basílica de Saint-Denis, sendo comparada a sua assinatura genética com uma mecha autenticada dos cabelos de Maria Antonieta, mãe do Delfim, e para maior segurança comparou-se esses resultados com os obtidos em duas irmãs dessa rainha e em dois membros actuais dessa família: todos os dados concordaram entre si, confirmando tratar-se do próprio Luís Carlos Capeto de Bourbon.

Mas esse exame médico-legal não pode ser considerado conclusivo. Isto porque na investigação histórica, que assenta frequentemente na pesquisa em descendentes da pessoa que se pretende identificar, o ADN mitocondrial apesar de conter as sequências fáceis transmitidas de uma geração a outra quase não sofrendo mutações, contudo nunca se misturam com os genes do pai. No caso da identificação do Delfim de França, o teste de ADN revela-o inquestionavelmente como filho de Maria Antonieta, mas nada diz da paternidade do menino, lendo-se no relatório: “Este ADN nunca se mistura aos genes do pai”. Donde se conclui desconhecer se Luís XVI era realmente o pai do menino morto na Bastilha, assim continuando de pé, com toda a legitimidade das dúvidas não esclarecidas, a tese de Maria Antonieta, universalmente famosa pelas suas frivolidades sexuais, ser mãe de filho de pai incógnito.

Retrato do Delfim Luís XVII feito quando estava preso na Bastilha

Fica provado à saciedade que na Bastilha morreu um filho de Maria Antonieta, e fica improvada à saciedade que o filho legítimo de Maria Antonieta e Luís XVI foi quem realmente morreu na prisão. Assim, a história volta ao início e o mistério mantém-se…

O enigma densifica-se ainda mais ao saber-se que o pressuposto túmulo de Luís XVII, no cemitério de Saint-Marguerite, assinalado com as iniciais do futuro rei e a data do seu nascimento e morte (1785-1795), por essa conta só tendo vivido 10 tenros anos, após ter sido exumado viu-se que no lugar da infeliz criança está o corpo de um adolescente desconhecido, falecido entre os 15 e os 18 anos de idade.

Túmulo exumado de Luís XVII (Cemitério de Saint-Marguerite, Paris)

Igualmente mantêm-se indesmentíveis as inúmeras profecias antes e após a pressuposta “sobrevivência e fuga do Delfim”, como essa de São Cesário (470-542) vaticinando sobre a Revolução Francesa: “Os Capetíngeos tremem, ignominiosamente traídos, e a criança predestinada é impelida ao exílio por uma soldadesca furiosa”… Ou então essa de Miguel de Nostradamus na sua Epístola a Henrique o Invencível, referindo-se à Revolução Francesa e ao Delfim filho de Maria Antonieta: “E haverão dois, um que não teve o mesmo pai”…

Essa frase enigmática de Nostradamus veio a ser clarificada no livro manuscrito sobre a vida do chamado Delfim de Évora, redigido no início do século XX por um português, o falecido professor José Cerqueira Moreirinhas. Segundo este autor, o Delfim teria sido arrancado secretamente do cárcere no dia 19 de Janeiro de 1794, escondido sob a roupa suja num grande cesto de verga e posta no seu lugar uma criança doente, raquítica, transportada para ali da Escola de Cirurgia de Paris e introduzida na cela dentro de um cavalo de papelão. Se assim foi, e ante as provas médicas recentes, deduz-se que possivelmente seria um desses deserdados da sorte abandonados pela mãe, a própria rainha Maria Antonieta, aos infortúnios do mundo, e como talvez fosse parecido com o Delfim ninguém deu pela troca feita em segredo.

Ainda segundo o professor José Moreirinhas, poucos, excepto o carcereiro Simon (sapateiro de ofício) e sua mulher, Marie Jeanne Aladame, conheciam de perto o infante. Talvez por isso escassos tenham dado pela troca. Enquanto Simon distribuía rodadas de vinho aos seus colegas carcereiros e restante guarnição, embriagando-os, a sua mulher carregava discretamente o cesto de verga para uma carroça fora dos muros da prisão, conduzida por um indivíduo misterioso de nome Ojardias (nome esquisito mais parecendo o anagrama português de Jaro ou Jairo Dias). Depois os três desaparecem na noite, sem deixar rasto, abandonando para sempre a tormenta de França e dando começo ao mistério do desaparecimento do Delfim. Esta história recambolesca viria a ser contada pela própria Marie Aladame na primeira pessoa, abonada por pessoas da maior credibilidade, dentre as quais quatro freiras da Congregação de S. Vicente de Paula, em Paris, que conviveram com ela de 1810 a 1819, quando já professava o internato religioso. Essas quatro freiras atestaram o seu depoimento por escrito, e a mulher do sapateiro forçado a carcereiro, Simon, repetiu a história da evasão do filho de Maria Antonieta à própria irmã do pequeno evadido, a duquesa de Angoulême, que a visitou no mais rigoroso sigilo.

Segundo a narrativa, Luís Carlos Capeto foi levado para Portugal, precisamente para a região alentejana de Fronteira, onde mais tarde casaria com uma senhora espanhola de apelido Vasconcelos, cuja união deu descendência originando a muito pequena e fechada família dos Capetos, ainda hoje residindo principalmente em Fronteira e Borba, no Alentejo, que foram antigos domínios da Ordem de São João de Malta, de quem se diz ter sido a própria a arquitectar a fuga do Delfim de França tendo como principal implicado o seu próprio Grão-Mestre na época, Emmanuel de Rohan-Polduc (1725-1797).

Emmanuel de Rohan-Polduc (1725-1797), Grão-Mestre da Ordem de Malta

O Professor Henrique José de Souza também abordou o assunto no seu Livro do Graal (Carta-Revelação de 1.4.1950), dizendo: “Os jornais vêm falando ultimamente da descendência de Pio XII ser directamente de Luís XVII, aquele infeliz Delfim que foi ter às mãos do sapateiro Simon, como eu mesmo apontei o referido «sapateiro» e as suas tendências para essa arte… No artigo em relação a Pio XII e o seu parentesco com o Delfim, que era filho de Maria Antonieta… mas não o era de Luís XVI… fala-se em Nostradamus, interpretando passagens ligadas ao mesmo caso”.

Nunca houve ramos familiares dos Capetos em Portugal senão no início do século XIX, quando apareceram subitamente no país sem terem antepassados nele. Nessa ocasião surgiu em Fronteira um senhor chamado Copetto, mas esse senhor Copetto era filho de ninguém!… Embora na altura os registos de nascimentos fossem muito minuciosos, inserindo a ascendência até aos avós, todavia neste caso nada consta sobre os seus antepassados. Os filhos desse senhor Copetto passaram a chamar-se Capeto, sendo interessante o facto de coincidir com as Invasões Francesas a Portugal o uso do nome Copetto, como se tais pessoas pretendessem esconder algo perigoso para as suas vidas, passando a chamar-se Capeto logo que o perigo passou.

Por certo, os antepassados dos Capetos portugueses serão os Capet da linhagem real francesa. Essa família alentejana aparecida subitamente em Portugal, em Fronteira (Alto Alentejo), no começo de Oitocentos, recebeu protecção directa da Coroa portuguesa e da Ordem de São João de Malta, o que é mais que significativo. Outros Capetos portugueses que hajam do século XVIII para trás, certamente não correspondem à linhagem que apareceu nos dito século e o rei D. João VI deu protecção, o que nem ele nem nenhum dos seus antecessores fizeram antes mesmo já havendo a família Copeta, mas não a Capeto.

O conde Xavier de Roche du Teilloy, professor na Universidade Católica de Paris e autor de um livro com o título Louis XVII, em 31 de Agosto de 1985 escreveu à família Capeto em Borba afirmando que o Delfim de França casou em Portugal em 1803 com a idade de 18 anos e recebeu a protecção do rei português D. João VI, que na ocasião lhe fez uma grande doação de terras. O acordo dessa doação da Coroa Portuguesa ao Delfim de França teria sido assinado no palácio ducal de Vila Viçosa.

Carta de Luís XVII ao rei D. João VI de Portugal

O escritor francês considera ainda essa fase da vida de Luís XVII como a mais feliz, adiantando ter o Delfim visto nascer o seu primeiro filho em 1804 em Portugal, sendo desse casamento que descendem os Capetos portugueses. E desfecha a sua carta citada com as seguintes e notáveis palavras: “A ascendência de Luís XVI, o “Rei Mártir”, e de seu filho Luís XVII está representada pela família Capeto de Portugal, que, por direito, é a actual Casa Real de França. Por direito vós (família Capeto de Portugal) sois todos Príncipes e Princesas de França”.

O PALÁCIO DE CAGLIOSTRO EM PARIS

Na noite de 30 de Janeiro de 1785, cerca das 21 horas, chegou a Paris, procedente de Lyon, o homem misterioso com fama de imortal conhecido como Conde de Cagliostro. Era a segunda vez que estagiava na capital francesa, a primeira fora em 1783 onde permaneceu treze dias e curou de uma grave enfermidade o príncipe de Soubise primo do cardeal Louis René Edouard de Rohan, a pedido deste, tendo deixado a capital francesa com fama de benfeitor dos pobres por igualmente ter curado gratuitamente muitos deles, ainda por cima fazendo-lhes obséquio de donativos em dinheiro e outros bens, agindo como verdadeiro e bondoso Mestre Taumaturgo para quem a Medicina Universal não reservava segredos.

Dessa segunda vez, o Conde de Cagliostro regressava a Paris novamente a pedido do cardeal de Rohan, tendo servido de intermediário o seu discípulo Ramond de Carbonnieres que era secretário pessoal do prelado. Parece que o cardeal tinha uma missão secreta juntamente com Cagliostro, e daí o motivo do encontro possivelmente relacionado com a Revolução, que todos aguardavam a sua eclosão a qualquer momento, e a tentativa antecipada de minorar os seus efeitos que se previam trágicos para a Coroa e a Igreja em França. Acompanhado de sua esposa Serafina, foi também nesta segunda ocasião que Cagliostro iniciou em Paris os primeiros esboços do seu Rito Copta da Maçonaria Egípcia, que viria a fundar no ano seguinte.

Quando Cagliostro chegou a Paris instalou-se numa dependência do Palais Royal, mas logo mudou para um apartamento do palácio pertencente à marquesa d´Orvilliers, a convite da mesma. Este palácio d´Orvilliers é um edifício dos finais do século XVII que no século seguinte seria transformado em hotel. Lenôtre (in Vielles maisons, vieux papiers, Paris, 1910), assim descreve esta mansão: “Ela existe ainda, e imaginamos sem esforço o efeito que ela devia causar à noite àqueles que passavam na rua deserta, com os seus pavilhões de ângulo, então dissimulados por velhas árvores, os seus pátios profundos, os seus terraços largos, quando as luzes vivas do cadinho do alquimista filtravam-se pelas altas persianas. A casa, que guarda linhas nobres sobre as construções parasitas erguidas neste século, conserva algo de barroco e inquietante. A porta de carros abre-se para a Rua Saint-Claude, na esquina do Boulevard Beaumarchais: o pátio apertado entre as construções é de aspecto moroso e solene; no fundo, sob um pórtico lajeado, sai a escada de pedra que o tempo deixou e que conserva o seu antigo corrimão de ferro. Uma escada oculta, hoje emparedada, de degraus grandes, subia até ao segundo andar, onde ainda encontramos o seu traço; uma terceira escada, estreita e tortuosa, subsiste ainda na outra extremidade do imóvel, do lado do bulevar: ela enrola-se em plena parede na mais espessa escuridão e serve os antigos salões – hoje cortados de tabiques – cujas portas-janelas abriam-se para um terraço que manteve os seus balcões de ferro. Abaixo encontram-se, com as suas portas cheias de caruncho, a cocheira e as cavalariças”.

Onde era o laboratório alquímico de Cagliostro, de que todos falavam na época, ninguém, excepto o próprio, a sua esposa e o cardeal de Rohan, sabia responder. Sabia-se apenas que os apartamentos eram decorados com grande luxo e que “na antecâmara estava gravado sobre um mármore negro, em caracteres de ouro, a oração universal de Pope: “Pai do Universo, Suprema Inteligência, etc.”, cuja paráfrase Paris cantaria, dez anos depois, à maneira de hino, ao Ente Supremo.

Com efeito, o palácio de Cagliostro situa-se na Rua de Saint-Claude, no 3.º arrondissement (bairro), a qual foi aberta oficialmente em 1640. Começa no Boulevard Beaumarchais e termina na Rue de Turenne, tendo 186 metros de comprimento. Chamava-se anteriormente Rua Saint-Charles ao Marais, e passou a Rua Saint-Claude porque originalmente tinha numa esquina uma imagem desse santo, datada do século XVII, hoje desaparecida.

 Palácio d´Orvilliers, onde Cagliostro viveu em Paris

Sendo uma rua calma e discreta, por certo Cagliostro encontrou aí as condições que necessitava para as suas actividades tanto discretas como secretas. Mas tal sossego em breve veio a ser perturbado por uma intriguista francesa aventureira sem escrúpulos, a condessa Jeanne de Valois de la Motte, a causadora do processo do colar da Rainha.

Ao contrário de Cagliostro,  o Conde de Saint-Germain não tinha residência fixa em Paris. Ele viveu no palácio de Chambord que o rei Luís XVI lhe cedera, fora da cidade, e sempre que vinha a esta costumava hospedar-se no palácio de Versailles. Contudo, se acaso teve outra ou outras casas em Paris, pessoalmente não conheço mas aceito de bom grado a possibilidade.

O cardeal de Rohan tinha uma admiração sem limites por Alexandre ou Louis de Cagliostro, “adorando-o como se de um deus se tratasse”, isto é, reconhecendo a sua legitimidade de preclaro Membro do chamado Governo Oculto do Mundo ou Grande Fraternidade Branca, constituído de Homens e Mulheres que alcançaram os mais elevados graus da Perfeição Humana, os mesmos a quem os orientais reconhecem como Mahatmas ou “Grandes Almas”, agindo um pouco por toda a parte do mundo e em todos os tempos, o que os anais históricos registam mas geralmente sem saberem explicar a razão da sua existência e das suas intenções, por norma encobertas pela maior discrição e segredo.

As fontes iniciáticas que descrevem essa época, informam que a entrevista de Cagliostro com o cardeal de Rohan em Paris pretendeu preparar o terreno psicossocial para a Revolução que se avizinhava e tentar minorar as suas consequências, sendo inevitável o derrube do regime monárquico absolutista que trazia o povo na maior miséria e a burguesia privada dos seus direitos. Para decapitar de vez esse absolutismo Cagliostro, através da grande influência pública do cardeal, reuniu as maiores personalidades da Maçonaria da época e dispô-las dos lugares estratégicos da sociedade, para que quando a Revolução eclodisse elas pudessem de imediato obstruir qualquer contra-ofensiva. Foi assim, por exemplo, que a guarnição da Bastilha, quando chegou o momento da sua tomada, era toda ela constituída de franco-maçons que não dispararam sobre o povo e deixaram que tomassem a fortaleza inexpugnável.

Dois Movimentos concorreram grandemente para a queda do despotismo realengo: o Iluminismo e a Maçonaria, respectivamente sob a direcção oculta de dois insignes Mestres Vivos: o Conde de Saint-Germain e o Conde de Cagliostro. O Movimento dos Iluministas havia sido fundado por Martinetts de Pasqualys, o qual se propunha, pela prática franca da Teurgia ou “Magia Divina” e da Teosofia ou “Sabedoria Divina”, modificar a condição social da injustiça do mundo pelo aperfeiçoamento moral e mental dos homens. Sendo mais filosóficos e menos políticos radicais, os Iluministas condenavam a violência político-social defendida pelos Franco-Maçons, já então desavindos com as ideias espirituais ou esclarecidas de Cagliostro sobre a Maçonaria. Os Iluministas pretendiam uma revolução cultural através da razão, mas os Franco-Maçons pretendiam a revolução social pelas armas e a morte da família real e dos seus mais chegados. Essa divergência radical de ideias opostas reflectiu-se na Convenção de 10.8.1769, quando o comando supremo da Franco-Maçonaria foi recusado a Cagliostro, e os Franco-Maçons partiram para o conflito aberto minando as bases político-sociais do absolutismo até à morte do rei de França. Para evitar isso, tentar salvar o que pudesse da dinastia Capeto, é que Cagliostro e o cardeal de Rohan se reuniram em segredo neste palácio da Rua Saint-Claude.

Conde Alexander Louis de Cagliostro

 Cagliostro não era um agente da Ordem dos Templários, de Malta ou de outra qualquer, mas muito mais que isso: era um enviado directo do Governo Oculto (ou Espiritual) do Mundo, com a Missão de transformar para sempre a face psicossocial de França, o que aconteceu, em breve alastrando ao restante continente e às Américas. Todas as Ordens Iniciáticas, todas as Instituições Secretas de valor, as próprias religiões tradicionais, reis, imperadores, dirigentes de povos, sejam eles quem forem, acham-se dependentes da acção de semelhante Governo Oculto do Mundo, sob a sua protecção mas também juízo, pois a partir do momento em que se desviem da Lei Suprema ou do Eterno que a tudo e a todos rege (Lei de Amor, Verdade e Justiça), ficam abandonados a si mesmos e, consequentemente, a tudo quanto lhes possa acontecer, deixando de haver tal protecção superior, como aconteceu com Luís XVI e a sua família, todos trucidados pelo Terror como consequência final dos seus maus actos.

Voltando ao caso do colar, as más-línguas diziam que o cardeal de Rohan estava apaixonado pela rainha Maria Antonieta, mulher do rei Luís XVI, que afinal o detestava profundamente e disso já dera provas públicas, inclusive tendo-o demitido do cargo de embaixador em Viena. Mas a condessa de la Motte, por seu acesso à corte e proximidade à câmara da rainha, consegue convencer o cardeal de que Maria Antonieta estaria apaixonada por ele e que a sua paixão seria correspondida. Rétaux de Villette, amante da condessa, escroque e exímio falsário, forja com ela cartas assinadas pela soberana endereçadas ao cardeal. Por fim, é combinado um encontro nocturno num bosque entre o cardeal e a rainha, mas que era uma prostituta, Nicole d´Olive, assemelhando-se fisicamente com ela. Louis René acreditou no embuste e emprestou à «rainha» 150.000 libras. Seguiram-se novos pedidos e novos empréstimos, até finalmente ser-lhe solicitado que servisse de intermediário entre ela e os joalheiros Boehmer e Bossange na compra de um colar de diamantes no valor de 1.5 milhão de libras, que ela desejava ter mas em segredo para não alarmar o rei. Os joalheiros são contactados com o pedido de contactarem Jeanne de la Motte, para que esta o transmita à rainha. O cardeal aceitou servir de intermediário na transacção e o colar acabou chegando às mãos de la Motte, que vendeu-o em Londres com o auxílio do seu amante. Quando a factura dos joalheiros chegou ao palácio real, o golpe foi descoberto e Luís XVI mandou prender o cardeal de Rohan, a condessa la Motte e todos os restantes cúmplices, ao todos quinze pessoas, dentre elas Cagliostro, porque a mulher oportunista, para salvar o amante, confessou na Polícia de Paris que actuara com a cumplicidade de Cagliostro, o verdadeiro cérebro da operação, acusação depois provada ser mais mentira uma dela que, finalmente, confessou ter agido por ciúmes da grande fama e irrepreensível conduta desse Homem Superior… que apesar de tudo ainda hoje se acredita não ter passado de um “aventureiro, escroque e charlatão”, por parecer ser mais fácil censurar e aceitar a censura irracional e preconceituosa, do que pensar e elogiar o comportamento irrepreensível de quem nunca se provou nada em contrário.

Réplica em zircão do colar da rainha Maria Antonieta (Castelo de Breteuil, França)

Por causa da ímpia mentira da mulher megera, Cagliostro foi preso no palácio da Rua Saint-Claude e conduzido à Bastilha. A sua esposa Serafina não se poupou a esforços enquanto ele não libertado. Também o cardeal de Rohan, entretanto preso, foi libertado por influência da Sorbonne que defendeu o seu prior, mas não escapando ao exílio onde acabou os dias. Nicole d´Olive, também seria libertada e morreria anónima em 1789, com 28 anos de idade. A condessa de la Motte foi declarada culpada e condenada a prisão perpétua, mas antes devendo sofrer no pelouro público ser chicoteada e marcada a ferro em brasa com um V de Voleur (“Ladrão”), tendo o carrasco, por precipitação, a marcado no peito, arrancando-lhe dores atrozes. Após ser encarcerada em La Salpêtrière, conseguiu fugir da prisão para Londres, onde morreu caindo de uma janela do seu quarto… quando tentava escapar aos credores. O seu marido, Antoine-Nicolas de la Motte, cúmplice na venda dos diamantes em Londres, foi condenado às galés à revelia, já que fugira para a capital londrina. O seu amante, Réteau de la Villette, terminou igualmente a sua vida no exílio na Itália, tendo morrido de morte violenta numa rixa. Finalmente, as cabeças reais de Luís XVI e Maria Antonieta rolaram na guilhotina em 1793…

Enquanto isso, Cagliostro, injustamente condenado ao exílio pelo rei francês, abandonou Paris para sempre na manhã de 3 de Junho de 1786, regressando a Lyon onde, a 27.7.1786, fundaria o seu Rito Egípcio com a consagração da Loja A Sabedoria Triunfante, e logo a seguir deixaria a França entregue ao seu destino trágico, marcado pelo Terror que a envolveu e por certo ele terá querido evitar ou, ao menos, minorar os seus dramáticos desfechos.

Pela proximidade quase filial do cardeal de Rohan a Louis Cagliostro, vários autores acreditam que este era filho daquele. Mas não era… sendo essa «relação filial» a mesma que tem sempre o Mestre para com o discípulo aceite. Levantando um pouco do véu sobre a origem familiar de Cagliostro, apresenta-se a figura do príncipe de Montbazon, Louis Armand Constantin, distinto no exercício militar das armas e que chegou a Cavaleiro da Ordem de Malta. Pertencia à família Rohan e era irmão do cardeal de Rohan, próximo de João Ângelo Brashi, o papa Pio VI. Este cardeal Lois René, que esteve envolvido na história do colar, era familiar próximo do Grão-Mestre da Ordem de Malta, Emmanuel de Rohan, o qual veio a facilitar a libertação de Cagliostro que, diz-se era o filho abandonado do príncipe de Montbazon, fruto dos seus amores proibidos com a casada com outro, a marquesa Anne Louise de Tavernay. Isto é o que diz a história secreta relativa à origem familiar de Cagliostro, abandonado pelos pais “numa sarjeta de Génova”… para logo  ser recolhido por Adeptos do Governo Oculto do Mundo, particularmente por Paolo Domiciani de Veronesse (Tao-Ram), que lhe deu o nome de Louis Paolo Domiciani (L.P.D.), ainda que seja mais conhecido por Alexander Joseph Balsame, que não era ele mas um seu Tulku ou aspecto complementar.

Cagliostro ocupou lugar destacado representando Melki-Tesek ou Chakra-Varti, o Rei do Mundo, na França do seu tempo, juntamente com duas outras Personagens da mais elevada Hierarquia. Com efeito, o Rei do Mundo, Rotan como lhe chamava Mozart, sendo a Coluna Central, tinha as suas Colunas Vivas laterais, na época da Revolução, representadas por:

Rei do Mundo – Coluna Central JHS – São Germano (LORENZO)

Coluna Lateral da Sabedoria (J) – Cagliostro (AKADIR)

Coluna Lateral da Lei (B) – José Bálsamo (KADIR)

Hoje são:

Rei do Mundo – AKTALAYA (Construens et Destruens)

Coluna J – AKGORGE (Construens)

Coluna B – AKDORGE (Destruens)

Estes Seres são o Bodhisattva da Nova Era como um único Ser (Aktalaya – Espírito) desdobrado em Alma (Akgorge) e Corpo (Akdorge). Trata-se da cumeeira dirigente do Governo Oculto do Mundo. Aktalaya está para São Germano (Lorenzo), Akgorge está para Cagliostro (Cansinos) e Akdorge está para J.osé B.álsamo (Orisk), ou sejam, Akadir e Kadir.

OS MEDALHÕES HERMÉTICOS DA RUE DE LA PERLE

O edifício número 20 da Rue de la Perle, Paris, construção do século XIX sóbria e distinta, não se distinguiria dos outros se não fossem três misteriosos medalhões à altura do seu segundo andar, contendo alegorias esotéricas de cariz alquímico-maçónico. O que poderão ser e signi-ficar é o que se irá analisar de seguida.

No primeiro medalhão, vê-se o esquadro e o compasso entrelaçados donde pende um fio-de-prumo, e mais abaixo, à esquerda, uma figura parecendo um navio fenício com uma serpente erecta servindo de cabeça de proa, e à direita um alambique utilizado em operações alquímicas e químicas.

No segundo medalhão, apresenta-se uma cabeça humana permeio a dois ramos de azevinho entrelaçados e ligados por laço ao centro. Por cima da cabeça paira uma estrela de seis pontas.

No terceiro medalhão, tem-se uma torre de farol com a fogueira enorme acesa no topo, tendo na base um portal contendo uma figura geométrica sugerindo a de um vaso; dos lados, vê-se um estranho engenho com rodas (à esquerda) e uma ponte (à direita).

Esse conjunto alegórico remete para a presença aqui da Maçonaria Hermética derivada dos Antigos Mistérios Egípcios e que o Conde Cagliostro organizou trazendo-os do Egipto, do seio da Confraria dos Coptas do Deserto do Sinai, melhor dito, da Fraternidade de Luxor para França, onde em 27 de Julho de 1786 os implantou em Lyon, fundando a Loja Sabedoria Triunfante, sob o nome Maçonaria Egípcia, Andrógina ou Copta, de que ele era o Grão-Copta à dianteira do Rito envolvendo senhores e senhoras juntos, donde se chamar andrógina e compreender três Graus: Aprendiz, Companheiro e Mestre. Esta Ordem fundada por Cagliostro destinava-se “a conhecer, professar e propagar a Maçonaria em sua pureza e forma primitivas”, sob o signo da Glória, Beneficência, União, Sabedoria e Prosperidade.

O Ritual da Maçonaria Hermética, também chamada Filosófica, incluía os conhecimentos da Escola de Pitágoras, a teoria e prática da Alquimia de Paracelso, e também os saberes cristãos e sufis da Rosacruz de Christian Rosenkreutz. Ritual francamente Teúrgico e Taumatúrgico de comunicação directa com os Anjos, Arcanjos e demais Potestades Celestes através da meditação e purificação corporal, emocional e mental, isenta de qualquer modalidade mediúnica ou animista que os documentos disponíveis revelam Cagliostro opor-se severamente à mesma, tem-se que o mesmo era muito mais hermético do que alquímico-laboratorial, visto apontar no sentido da “alquimia interna”, da transformação e imortalidade da alma humana para que possa receber a Estrela Luminosa, ou seja, o Espírito Divino, e assim o maçom hermético possa dizer com o seu Mestre Cagliostro: Ego sum quis sum, “Eu sou o que sou”!

O objectivo do Rito Hermético – a imortalidade conquistada durante a vida física – pode ser resumido por uma frase extraída do seu catecismo: “Tendo sido criado à imagem e semelhança de Deus, eu recebi o poder de me tornar imortal e de ordenar aos seres espirituais para reinar sobre a Terra”.

Bem parece que neste edifício da Rue de la Perle poderá ter funcionado, entre a segunda metade do século XIX e talvez o início do século XX, uma Loja do Rito Hermético da Maçonaria Filosófica iniciada por Cagliostro. Os símbolos nos medalhões que decoram a fachada do prédio apontam nessa direcção…

No primeiro medalhão, a pressuposta barca fenícia assinala a travessia do mare incognitus ou mare internus (Mediterrâneo), nome que os antigos alquimistas davam ao mercúrio filosófico que obtinham no decorrer da “grande navegação”, isto é, das operações alquímicas, e chamavam-na assim por considerarem que a Alquimia é Espírito Santo e está sob o padroado de Santa Maria, a Mãe dos Filósofos vista como o Mar da Criação. Donde Maria, Mare, Maris… Essa água destilada ou purificada assinala-se na presença do alambique no lado oposto. No topo, o esquadro e compasso entrelaçados tornam-se assim o signo distinto, cumeeiro da presença da própria Maçonaria Hermética, e a Rosa no topo do compasso e donde distende para os lados o listel triunfal, vem a ser a Rosa dos Filósofos, a Flor que perfuma a Cruz (constituída pelos braços do esquadro fechado) e se converte no sinal da Imortalidade.

No segundo medalhão, o busto humano é o próprio deus Hermes, fundador da Ciência Hermética, tendo a Estrela Luminosa por cima, a mesma do Nascimento ou Natal (donde a presença das folhas de azevinho, planta natalícia) do Filósofo, do Iniciado que tendo morrido como profano, renasce como Iluminado no Espírito de Sabedoria Triunfante. Tem-se aqui a figura do grande padroeiro da Maçonaria Hermética que foi Hermes Trismegisto, “três vezes grande” pelo Corpo, a Alma e o Espírito, condição essa que Cagliostro incarnaria perante a Humanidade do seu tempo.

Finalmente, no terceiro medalhão, o farol iluminado serve para representar o athanor alquímico, o forno aquecido pelo Fogo dos Filósofos em cuja base fica o vaso onde se “cozinham” os elementos grosseiros, para extrair deles a sua quintessência vital necessária à evolução da Grande Obra Alquímica, progresso esse representado no engenho com rodas que trituram, transformam ou diluem a densidade dos elementos até torná-los rarefeitos, subtis. Para alcançar esse estado de perfeição é necessário transpor a ponte que aproxima o Alquimista desse mesmo Fogo Sagrado e o afasta da condição ordinária, profana do comum das gentes.

Resumindo a mensagem contida nos três medalhões que apelam nos seus símbolos à mais elevada e distinta condição moral e mental humana, pode muito transpor-se para aqui as palavras decisivas do testamento espiritual de Cagliostro:

“Eu não pertenço a nenhuma época, nem a nenhum lugar. Fora do tempo e do espaço, o meu Ser Espiritual vive a sua existência eterna, e se mergulho o meu pensamento no curso das Idades, se estendo o meu espírito para um modo de existência afastado daquele que percebeis, eu torno-me aqui o que desejo.

“Participando conscientemente do Ser Absoluto, regulo a minha vida segundo o meio que me envolve. O meu nome é o da minha função, porque eu sou inteiramente livre. O meu país é aquele em que fixo momentaneamente os meus passos. Datai de ontem a mina vida, se o quiserdes, ou contai-a desde os anos vividos por ancestrais que vos foram estranhos. Ou desde amanhã, se preferirdes. Quanto a mim, sei que sou aquilo que sou.

“Eis-me: sou nobre e viandante. Falo e vossa alma treme ao reconhecer antigas palavras. Uma Voz que está em vós, mas que esteve morta durante longo tempo, responde ao apelo da minha. Eu ajo e a paz retorna aos vossos corações, a saúde aos vossos corpos, a esperança e a coragem aos vossos espíritos.

“Todos os homens são meus irmãos e todos os países são minha pátria. Eu os percorro para que em toda a parte o Espírito possa descer e encontrar um caminho para vos apontar. Aos reis, cujo poder acato, não peço senão hospitalidade, e quando me é concedida, passo fazendo unicamente o bem. Mas limito-me a passar. Não sou eu um nobre viandante? Como o vento sul, como a brilhante luz do zénite que caracteriza o pleno conhecimento das coisas e a comunhão activa com Deus, eu me dirijo para o Norte […], mas sempre deixando um pouco de força, até que seja fixado o fim da minha jornada, na hora em que florescerá a Rosa sobre a Cruz. Eu sou Cagliostro.”

O ALQUIMISTA DA RUE FABRE D´EGLANTINE

É facto reconhecido que o simbolismo hermético pela riqueza e vastidão dos seus elementos não raro serve de pretexto para decorar fachadas de edifícios, e até as escadarias internas dos mesmos, sem outro motivo senão o lúdico da decoração. A Arte Nova dos fins do século XIX e dos princípios do século XX foi pródiga no recurso à simbologia hermética, aproveitando-a para fins exclusivamente decorativos. Onde se descobre se a intenção é ou não lúdica, se alguém quis deixar uma mensagem ocultada aos pósteros na sua exposição, é exactamente na disposição dos símbolos e ordem correcta dos mesmos, pois só um entendido na Arte Magna (Alquimia) o pode fazer.

Isso mesmo se descobre no edifício “alquímico” n.º 9 da Rua Fabre d´Eglantine, 12.º arrondissement de Paris, perto da estação do metro, Nation. Trata-se de um imóvel oitocentista(1850-1870) ocupando uma superfície de 728 m2, com sete andares e desconhecendo-se quem terá sido o decorador original da sua fachada singular, feita no estilo medieval característico da Arte Nova.

Na entrada no edifício, cuja porta é uma imitação de Arte Renascentista e a parte cimeira do portal outra imitação de estilo gótico, cuja fachada interior é ilustrada por um quadro muito interessante cujas figuras mostram-se correctas, na ordem certa e feitas ou mandadas fazer por quem conhecia de perto os segredos da Alquimia: vê-se um alquimista sentado de pernas cruzadas (configurando a personagem do Arcano 4 do Tarot, “O Imperador”) fitando pensativo um alambique, segurando na mão direita um grande livro e atrás dele está um forno alquímico. Junto ao alambique, um cão dorme enroscado. Atrás do alquimista, na horizontal ficando ele ao centro, aparece a figura estranha de um crocodilo, e mais atrás a ave fénix.

O alquimista segurando o livro e confiando a barba com a outra mão, pensativo e paciente, remete para a legenda hermética: ora et labora, isto é, medita e trabalha. Esse livro por certo será figurativo do Universalis Liber, o Livro do Universo, a mesma Natureza Universal tanto visível como invisível cujo segredos ou arcanos o alquimista vai desvendando à medida que aprofunda a Grande Obra, aprimorando os elementos exteriores a par dos interiores ou relativos ao seu aperfeiçoamento mental e moral. O significado do alambique remete para isso mesmo: a sua parte superior imóvel, representa a cabaça, a direcção mental, sendo o termo também aplicado ao silêncio completo, ou seja, à meditação profunda sobre a solução que se procura, esperando que a destilação e a dissolução se realize, processos estes exigindo concentração mental, emocional e física. O cão dormindo junto ao alambique, além de representar o guardião do alquimista, o seu fiel companheiro, é também indicativo do estado primitivo, anímico ou animal que cabe ao seu dono transformar em racional e espiritual.

Atrás do alquimista está o forno ou athanor (do árabe, al-tannur). Este é o objecto do aperfeiçoamento, tanto dos elementos químicos quanto da condição humana em sobre-humana ou espiritual. Se o alambique é aparelho da destilação líquida como passo fundamental para chegar à quintessência ou “espírito” dos elementos, já o forno aquecido pelo fogo hermético é o meio onde se purificam os mesmos elementos para serem eficazmente destilados. O fogo tem a ver a purificação mental e a água com a regeneração moral; do atrito de ambos, resulta o vapor ou a nuvem como sinal do “espírito” etéreo. Por seu sentido de aperfeiçoamento e transformação, é que o athanor era comparado à Montanha da Iniciação, que se sobe gradualmente tal qual o alquimista se transforma aos poucos ao longo do processo químico da Grande Obra, e assim mesmo também era associado à ideia de mansão cerrada e de templo. Os antigos alquimistas chegaram mesmo a fazer uso da figura de um carvalho oco para representar o athanor, isso porque para os primitivos druidas o carvalho tinha o sentido de templo, e por tal era a árvore sagrada da sua religião.

O crocodilo atrás do alquimista é representação do Makara no Hinduísmo, ou seja, aquele deus semi-humano que se atribui tradicionalmente ao verdadeiro Iluminado espiritual, neste caso, o Adepto do Fogo que é o Alquimista. Por fundo, vê-se a ave mítica fénix, sinal da transformação perfeita dos elementos densos em subtis, o que é figurado pela morte e ressurreição dessa ave dentre o fogo que a consumiu e a fez ressuscitar, e por isso tradicionalmente costuma ser acompanhada da legenda latina: Ignis Natura Renovatur Integra, “Pelo Fogo se Renova a Natureza inteira”.

Por cima desta porta rasga-se uma janela de lambril artístico ladeada no cimo por duas cabeças humanas encapuçadas, com aspectos jovens. Representam a Inocência e a Virtude, e assim mesmo, em Alquimia, os descendentes filiais do Rei (Ouro) e da Rainha (Prata), como resultado da núpcia química deles, sendo o sinal hermético da presença da Pedra do Filósofo (Petra Philosophurum), representado imediatamente abaixo na figura do alquimista.

Esse “Rei” e “Rainha” aparecem mais acima nesta fachada, no terceiro andar, sobre colunas cobertos por dosséis. Trajados ao modo medieval, vê-se um casal defronte um para o outro nos lados de janelas de abertura gótica, onde ela representa a consciência lunar e a Prata, resultante da fusão do Mercúrio com o Enxofre, ou seja, da Alma com o Espírito, o que em Alquimia se chama conjunção. O homem, com armadura de cavaleiro, expressa a consciência solar e o Ouro, resultado da união do Enxofre com o Mercúrio. No extremo oposto à donzela, está um outro cavaleiro fitando o casal a guisa de pajem vigilante intercessor, em caso de necessidade, entre os dois, tal qual o Mercúrio é um elemento maleável intermediário entre um estado denso e outro subtil, assim mesmo como o deus do mesmo nome é o medianeiro entre os mundos inferior e superior. O pajem será, pois, a figura em que se esconde o próprio deus Hermes, isto é, Mercúrio. Mais abaixo, sob a janela ladeada pela senhora e o cavaleiro protector, aparece a cabeça dotada de sorriso inefável de um religioso com capuz, indicando o alquimista. Repete-se aqui a representação da Pedra Filosofal, que se extrai do Sal da Terra (por isso está abaixo das outras imagens alegóricas). Indica o próprio Sal, que como substância divina em Alquimia é a manifestação final da Pedra Perfeita ou Matéria-Prima. Em geral, o Sal indica a acção do pensamento, interpretado como o “Pensamento Uno” agindo na “Substância Única” do Universo, facto representado pelo alquimista meditando no seu laboratório exteriorização do da alma em que pensa, ora ou medita.

A cena repete-se noutro lambril, onde o “Rei” e a “Rainha” estão de costas um para o outro e a cabeça do alquimista abaixo aparece com rosto carrancudo. Esta cena representa o início da Grande Obra e a grande incógnita sobre o seu final, este que é assinalado pela cena semelhante descrita anteriormente. Carranca por temor quanto ao futuro; sorriso feliz no futuro alcançado.

Por fim, servindo de suportes às janelas, aparecem quatro figuras míticas de animais mistos de cães e salamandras, os dois extremos com asas. Representam os elementos fixos (sem asas) e voláteis (com asas), assinalando a relação entre o Enxofre (Fogo, Espírito) e o Mercúrio (Água, Alma), e assim mesmo os componentes básicos dos processos de Alquimia, os próprios elementos naturais que aos poucos vão sendo aprimorados até alcançarem a máxima perfeição.

À altura do segundo andar, vê-se uma chaveta que termina em flor-de-lis. Representa a Chave do Grande Arcano, este que é o conhecimento hermético da Natureza Universal aos poucos desvendado pelo verdadeiro Filósofo do Fogo, o Alquimista ou aquele que ora e labora sobre a Química de Deus, até ele mesmo se tornar Perfeito à semelhança do Criador.

POUSSIN “ET IN ARCADIA EGO”

Et in Arcadia ego é o título de duas pinturas pastoris de Nicolas Poussin (Les Andelys, Normandia, 15.6.1594 – Roma, 19.11.1665), sendo que a mais famosa é o óleo sobre tela, medindo 87 por 120 centímetros, com o nome Les Bergers d´Arcadie (“Os Pastores da Arcádia”), em exposição no Museu do Louvre, Paris.

Les Bergers d´Arcadie retrata três pastores debruçados sobre um túmulo onde está inscrita a frase latina Et in Arcadia ego, que um deles aponta inclinado enquanto um outro abaixado lê, quadro assistido por uma pastora erecta pousando a mão esquerda no ombro do pastor inclinado. Estão trajados nos moldes gregos da Antiguidade Clássica, um com túnica branca amarelada, outro azul e o terceiro de vermelho. A senhora traja camisa amarela e saia azul. O ambiente em volta mostra-se montanhoso com um bosque assimétrico ou de árvores dispersas, a mais expressiva um pouco atrás do túmulo.

A tradução literal da frase Et in Arcadia ego, que Nicolas Poussin copiou das Éclogas VII e X de Virgílio, é: “Mesmo na Arcádia, eu estou lá”, em referência à presença da Morte, o que levou alguns a interpretarem essa frase como “A Morte é mesmo na Arcádia”, para todos os efeitos, a cena é geralmente interpretada como um memento mori (“momento de morte”). Esta leitura era comum nos séculos XVIII e XIX, ainda que a primeira aparição de um túmulo com essa inscrição memorial seja feita nos Idílios de Teócrito (Siracusa, Sicília, c. 310 a. C. – c. 260 a. C.), tema que Virgílio (Andes, 15.10 de 70 a. C. – Brindisi, 21.9 de 19. a. C.) retomou nas suas Éclogas, pegando no ambiente rústico siciliano e transpondo-o para o cenário idílico da primitiva Arcádia grega. A ideia foi retomada durante o Renascimento florentino, no círculo cultural de Lorenzo de Médici entre 1460 e 1470, sendo que em 1504 Jacopo Sannazaro, na sua pintura Arcadia, fixou a percepção moderna desta como um mundo perdido de felicidade idílica, sendo essa a primeira representação pictórica do tema familiar memento mori. O tema Et in Arcadia egotorna-se concreto em Veneza, na versão pintada por Guercino entre 1618 e 1622, onde a inscrição ganha força com a presença proeminente de uma caveira em primeiro plano, abaixo da qual está essa frase latina, vulgarizada em Setecentos e Oitocentos.

Apesar de Et in Arcadia ego ser uma construção bem formada como frase nominal sem verbo finito, além de que a omissão do verbo substantivo é perfeitamente aceitável no Latim, alguns autores desconhecendo esse aspecto da gramatical concluíram que a sentença está incompleta e falta um verbo, especulando que ela oculta uma mensagem esotérica em código ou anagrama, que traduzem por: Tego Arcana Dei, “Guardo os segredos de Deus”, sugerindo que o túmulo contém os restos mortais de Jesus ou de outro personagem bíblico importante. E reforçam essa ideia com um outro anagrama: Arcam Dei Iesu Tango, “Eu toco o túmulo de Deus Jesus”. E para não faltar nada esses autores controversos afirmam que o “túmulo divino” retratado na pintura de Poussin, com a célebre inscrição, encontra-se em Les Pontils, perto de Rennes-le-Château, o que aparentemente é verdade…

Contudo, os investigadores Franck Marie, em 1978, e Pierre Jarnac, em 1985, concluíram que essa sepultura era simples e fora iniciada em 1903 pelo proprietário da terra, Jean Galibert, que nela enterrou a sua mãe e avó. Os seus corpos foram exumados e reinterrados noutro lugar, possivelmente no cemitério da aldeia, quando essa terra foi vendida a Louis Lawrence, um americano do Connecticut que tinha emigrado para a região. Ele enterrou a sua mãe e avó na sepultura deixada vazia e construiu sobre ela o sepulcro de pedra com a legenda Et in Arcadia ego. Aos investigadores Franck e Pierre o filho de Lawrence, Adrien Bourrel, testemunhou que viu a construção do sepulcro em 1933, quando era um adolescente.

Os seguidores das ideias fantasistas e chauvinistas de Pierre Plantard, que teve tempo para inventar o seu «priorado de Sião» enquanto esteve preso acusado de defraudar a Câmara de Paris, ainda assim argumentam que o túmulo em Les Pontils foi um «protótipo» para a pintura de Poussin, que estava localizado em frente a uma casa de campo (por detrás da folhagem) e não no “meio do nada” no interior da França, como é comummente assumido por quem acredita em estórias fantásticas… Com a permissão das autoridades locais, esse túmulo foi demolido em 1988 pelo proprietário do terreno.

A supradita frase latina da pintura de Poussin tão-só significa que na Terra tudo é perecível, está sujeito à lei da Morte, até os habitantes da Arcádia, representados nos pastores expressivos do estado nómada ou móvel da civilização humana, enquanto a pastora incorpora a própria Morte, cujas cores das vestes, amarela e azul, reflectem a sabedoria e a devoção espirituais que lhe dão a segunda condição de simbólica da Imortalidade. Nisto, a Arcádia no plano físico representa o Paraíso Terreal sujeito à Lei da Morte ou da Transformação universal dos elementos, mas também expressa o seu aspecto superior como Paraíso Espiritual, já da lei da Morte liberto… Nisto, o pastor vestido de vermelho sobre quem repousa a mão da pastora, simboliza a matéria perecível, sobre quem pesa a Morte. O pastor vestido de azul que lê a legenda que aponta como o anterior, representa a alma humana, também sujeita à lei da extinção, enquanto o pastor vestido de branco amarelado fitando o de azul, vem a representar o Espírito imortal que despreza a Morte por estar acima da mesma. Tratam-se das três condições humanas fixas nos três atributos (o que é simbolizada pelo bordão que todos eles ostentam) ou “qualidades subtis da matéria” (Gunas) que os hindus chamam de Satva, Rajas e Tamas, ou seja, energia centrífuga (Espírito e Mente), energia equilibrante (Alma e Emoção) e energia centrípeta (Corpo e Matéria).

Identificada ao Parnaso ou Paradisu, o Paraíso ou Éden, a Arcádia era o lugar reservado e ocultado dos filósofos e artistas que através das suas artes iam superando a sua mortalidade. Viviam rodeados de deuses e ninfas num permanente culto do amor, facto que as sacerdotisas arcadianas da Grécia Antiga celebravam em ninfeus, isto é, templos religiosos consagrados ao culto das ninfas inspiradoras dos filósofos e artistas. Nesses templos havia sempre uma fonte sagrada, e os sacrifícios oferecidos às ninfas geralmente incluíam cabritos, cordeiros, leite e azeite, mas nunca vinho. O lado positivo do entusiasmo ninfoléptico é a inspiração divina, indispensável aos oráculos e aos poetas.

De maneira que o Parnaso, também pintado por Nicolas Poussin, torna-se um Mons Sacer, Montanha Sagrada, um locus amoenus, “lugar ameno” (loka, em sânscrito) interpretado como Paraíso Terreal ou Arcádia, consoante a sensibilidade de místicos, filósofos, poetas e artistas de todos os tempos e credos. A expressão latina de “lugar ameno” é um dos tópicos da literatura clássica usado com frequência na época medieval e renascentista, e que se opõe a locus horrendus, “lugar horrendo” (sinónimo de sociedade dessacralizada e desnaturalizada, assim mesmo igualmente significativo de tala, em sânscrito), empregue no Romantismo. O locus amoenus consiste na descrição da paisagem ideal, num ambiente de tranquilidade, bucólico ou pastoril, sendo ainda o tema escolhido para descrever o retorno do Homem à Natureza, à Felicidade e ao Paraíso Perdido, a mesma Arcádia como lugar sagrado na medida em que assume uma tripla manifestação simultânea como Céu, Terra e Inferno, ou Supramundo, Mundo e Submundo, tudo concentrado nela mesma, o que de certo modo os três pastores e a pastora, aqui corporizando a Arcádia, também representam:

Pastor de vestido amarelo – Monte da Arcádia – Céu, Supramundo; Pastor vestido de azul – Floresta da Arcádia – Terra, Mundo; Pastor vestido de vermelho – Gruta da Arcádia – Inferno, Inframundo. Pastora: a Arcádia no todo. Túmulo com legenda: onde se encerra a mensagem central de Les Bergers d´Arcadie de Poussin, acabada de descrever, a de que um e todos podem libertar-se da lei da Morte e alcançar o Paraíso Terreal, desde que para isso cada um evolua por seus próprios e meritosos esforços.

O “HOMEM VERMELHO” DAS TULHERIAS

O palácio das Tulherias está assombrado por uma lenda urbana vazada em factos esotéricos inexplicáveis para as gentes comuns: trata-se do fantasma do pequeno, ou grande, “homem vermelho”, alma penada que traz a desdita da má sorte a quem tiver o azar de com ela se cruzar.

A história recua ao século XVI e à pessoa de Catarina de Médicis (1519-1589), famosa pela sua corte de envenenadores, adivinhos e interesse na magia negra, para cujos rituais contava com um certo indivíduo obscuro chamado Jean, o magarefe, que vivia perto do palácio das Tulherias e tinha acesso à câmara da rainha e aos seus segredos mais íntimos. Este Jean era um reputado adivinho e grande coscuvilheiro da vida da coroa, dizendo-se que tentou chantagear Catarina com larga soma de dinheiro em troca do seu silêncio. Vendo que ele sabia demais, ela mandou-o assassinar. Mas o seu carrasco, um certo Neuville, só depois de desferir muitos golpes de punhal é que conseguiu matar o infeliz que, coberto de sangue (donde o epíteto “homem vermelho”), ainda teve forças para proferir esta ameaça: “Eu voltarei”. O corpo do morto foi feito desaparecer logo depois do crime, e o assassino Neuville ficou com a impressão de que a vítima o perseguia por toda a parte, acabando por enlouquecer e matar-se, por não suportar mais a presença terrível do fantasma vingador.

Alguns dias mais tarde, o astrólogo de Catarina de Médicis, Cosme Ruggieri, contou-lhe uma visão horrível que tivera: aparecera-lhe o fantasma do homem ensanguentado que lhe predisse a morte próxima da rainha e que grandes desgraças iriam acontecer aos futuros moradores do palácio e a este mesmo. A aparição fantasmagórica revelou ao astrólogo que “a rainha morreria perto de Saint-Germain”. Aterrorizada com a predição, ela decidiu nunca mais frequentar a paróquia de Saint-Germain-l´Auxerrois ou o castelo de Saint-Germain-en-Laye. Morreu em Blois, pouco depois de lhe ter aparecido o espectro “coberto de sangue”. No momento final de expirar, estava junto dela um padre para dar-lhe a extrema-unção. O seu nome: Laurent de Saint-Germain!

Há quem contraponha que esse Jean l´écorcheur (“o magarefe”) nunca existiu e não passou da alcunha de um famoso e sanguinário bandido cujo nome verdadeiro era Johannes Bückler (Schinderhannes), nascido perto de 1778 em Miehlen, na Alemanha. Era o chefe de uma perigosa quadrilha que aterrorizava a região, então francesa, de Mayence, onde acabou por ser preso, julgado e guilhotinado em 21 de Novembro de 1803.

Johannes Bückler, o magarefe

Poderá ser… mas o facto é que o fantasma das Tulherias continuou a fazer as suas aparições fatais aos moradores do palácio, anunciando sempre um drama para aquele(a) a quem aparecesse. Assim, em Julho de 1792 ele apareceu a Maria Antonieta, pouco antes da queda da monarquia, quando o palácio das Tulherias era a residência da família real. Bem se sabe o que aconteceu depois à rainha… ficando sem coroa e sem cabeça sob o guante de “madame Guilhotine”.

Depois, sob o Império, sabe-se que um “homem de capa e capuz vermelhos” terá aparecido a Napoleão Bonaparte perto do palácio das Tulherias, com a melhor das intenções a seu respeito, predizendo-lhe a vitória militar na batalha das Pirâmides, no Egipto, o que aconteceu, e logo desaparecendo misteriosamente. Quando Napoleão quis tornar-se dono do mundo, um ditador universal concentrando exclusivamente na sua pessoa o poder temporal e a autoridade espiritual, o “homem vermelho” tornou a aparecer-lhe em 1815, algumas semanas antes da batalha de Waterloo, e predisse-lhe a sua derrota eminente e a derrocada do seu império, o que também aconteceu.

Finalmente, o “homem vermelho” apareceu a Luís XVIII e ao seu irmão, o conde d´Artois, alguns dias antes da morte do primeiro por saber do mistério de Luís XVII e ter-se desinteressado dele. É o que se diz em sussurro…

O “homem vermelho das Tulherias” manifestou-se uma última vez durante o braseiro aceso pelos comunardos. Em 23 de Maio de 1781, durante o incêndio do palácio, várias testemunhas afirmaram que viram perto da sala dos Marechais assomar à janela, no meio das chamas, a silhueta de um pequeno homem vermelho que se confundiu com o fogo… desaparecendo para sempre e ficando a sua lenda.

A interpretação esotérica do “homem vermelho” diverge inteiramente da versão popular ou profana. Afirma a Tradição Iniciática que há um Governo Oculto do Mundo composto de Homens Perfeitos, santos e sábios dotados de enorme poder humano e espiritual aos quais os orientais chamam Mahatmas e os ocidentais de Superiores Incógnitos.

Tais Adeptos Perfeitos sempre existiram em qualquer parte do Globo em todos os tempos, e que existem diversas maneiras dos mesmos se reconhecerem entre si, seja através de “sinais secretos”, de “palavras de passe” ou mesmo de “credenciais” conformadas a cada uma das sete Linhas ou Raios (do Sol Espiritual, ou a Essência do Sol Físico) a que pertençam. Tais Raios promanados do Sol Central sobre a Terra através dos sete Planetas tradicionais, são: 1.º Raio do Sol (laranja) – domingo; 2.º Raio da Lua (violeta) – 2.ª feira; 3.º Raio de Marte (vermelho) – 3.ª feira; 4.º Raio de Mercúrio (amarelo) – 4.ª feira; 5.º Raio de Júpiter (púrpura) – 5.ª feira; 6.º Raio de Vénus (azul) – 6.ª feira; 7.º Raio de Saturno (verde) – sábado.

“Credenciais entre Adeptos”: sinais secretos de reconhecimento entre eles, palavras secretas só conhecidas deles, etc. Por outro lado, os Raios Planetários que representam são identificados pelas cores das suas indumentárias, sobretudo as capas. “Credenciais de Adeptos” ante reis e papas: documentos redigidos e assinados pelos Chefes das Fraternidades Ocultas donde são enviados em Nome do Chefe Supremo do Governo Oculto do Mundo: o Rei do Mundo (Rigden-Djyepo, Sanat Kumara, Ardha-Narisha, Chakravarti, Brahmatmã, Melkitsedek, Rotan, Imperator Universalis, etc.).

Quando alguns desses Mestres Reais estão investidos de missões especiais, mantêm-se em segredo afastados uns dos outros, e aparecem misteriosamente encapuçados aos monarcas e pontífices dando-lhes bons conselhos que irão decidir a sua felicidade, dos seus povos e religiões, ou então advertindo-os severamente das consequências breve prazo dos seus maus actos, quando se afastam a Lei Divina que esses Superiores Incógnitos representam. É assim que aparecem os tradicionais “homens do manto vermelho”, representando o Raio Espiritual de Marte, incarnando a mesma Justiça Universal. Conselheiros e castigadores de reis e imperadores, rainhas e imperatrizes, papas e bispos, esses Superiores Incógnitos são a própria Voz julgadora de Deus, premiando ou castigando conforme os actos cometidos.

Por certo o “Homem de Capa Vermelha”, o “Encapuçado” de que fala o próprio Cagliostro nos seus escritos, era o próprio Saint-Germain, na sua função dupla espiritual e temporal, nesta como avatara de Akdorge – Raio Espiritual de Marte, o “planeta vermelho”.

Conde Saint-Germain

Catarina de Médicis enveredou pelo caminho da magia negra e foi advertida e castigada por um desses “homens do manto vermelho”; Maria Antonieta fez-se surda aos apelos do povo faminto e também pagou o tributo mortal após aparecer-lhe um “homem encapuçado todo vestido de vermelho”; Napoleão, tendo jurado servir o bem comum, em breve usou dos seus poderes para proveito próprio e o “homem da capa vermelha” ditou o seu destino fatal; o mesmo para Luís XVIII, e também para o próprio palácio das Tulherias palco do espavento, vaidade e luxúria de uma corte decadente, moral e fisicamente, que o fogo comunardo veio purificar em meio à silhueta justiceira de um misterioso “homem vermelho” que, vez por outra, aparece para acusar as mentes impuras da corrupção dos seus actos.

Os nomes e figuras de tais Homens misteriosos ocultam-se no próprio mistério da sua existência, ainda assim parecendo que “homens de capa vermelha” ou “de capa amarela” terão sido Cagliostro e Saint-Germain, como conselheiros e juízes de cortes decadentes cuja queda precipitaram, não sem antes terem aconselhado os seus membros principais, e assim mesmo proporcionando possibilidades de maior progresso social e espiritual do Género Humano.

O JURAMENTO SECRETO DE NAPOLEÃO BONAPARTE

No friso da cimalha de um edifício da Cour Napoléon, no espaço do Museu de Louvre, aparece o busto do imperador Napoleão Bonaparte ladeado pelas musas da prudência e reflexão, com a águia imperial adiante dele. Este conjunto é interpretado por alguns como uma alegoria da natureza solar ou apolínea de Bonaparte, inclusive interpretando o nome Napoléon como neo Apolo, interpretação filológica fantasista notoriamente forçada, mesmo havendo um fundo de verdade nisso mas completamente afastado das interpretações folclóricas do actual «new age» urbano.

Napoleão Bonaparte, em francês Napoléon Bonaparte, nascido Napoleone di Buonaparte (Ajaccio, Ilha de Córsega, 15.8.1769 – Ilha de Santa Helena, 5.5.1821) filho de Carlo Maria Bonaparte e Maria Letizia Ramolino, foi o grande líder político e militar durante os últimos estágios da Revolução Francesa, e adoptando o nome de Napoleão I foi o imperador absolutista da França, reunindo na sua exclusiva pessoa o Trono e o Altar, o Poder Temporal e a Autoridade Espiritual, de 18 de Maio de 1804 a 6 de Abril de 1814, posição que voltaria a ocupar por escassos meses em 1815 (20 de Março a 22 de Junho). A sua reforma legal, o Código Napoleónico, teve uma grande e decisiva influência na legislação de vários países, e através das Guerras Napoleónicas foi responsável por estabelecer a hegemonia francesa sobre a maior parte da Europa. Por todas estas razões, o imperador é considerado um autêntico “deus Sol” que mudou para sempre o rosto político europeu e americano, abrindo um novo capítulo de progresso universal.

Apesar de tudo isso, Napoleão I foi um “traidor” do ponto de vista iniciático, a razão única da sua carreira política brilhantíssima e do seu incomparável génio militar terem se apagado abruptamente, terminando os seus dias, sofrendo de cancro no estômago, exilado em Santa Helena. Para explicar essa “traição”, ter-se-á de recuar ao momento da sua campanha militar do Egipto (1798-1801) e ao confronto do imperador com a Esfinge e a Grande Pirâmide de Keophs, no vale de Gizeh, deixando-o assombrado a ponto de dizer, quase em êxtase religioso, aos seus soldados que praticavam tiro de canhão contra a mesma Esfinge (tendo-lhe quebrado o nariz): “Respeitem o que vedes! Do cimo destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”!

Há várias referências históricas ao acontecimento insólito de Napoleão ter passado uma noite no interior da Grande Pirâmide, na sua cripta subterrânea, três dias após ter feito trinta anos de idade (tudo somado, dias e anos, dá o famoso 33…), e a maioria dessas referências (de origem maçónica, diga-se de passagem) situam o ocorrido na madrugada de 17 para 18 de Agosto de 1799, apesar de não estarem discriminadas e só sugeridas, certamente devido ao juramento de silêncio sobre o que aconteceu, no diário de Napoleão (escrito pelo seu camareiro e confidente Emmanuel Augustin, conde Las Cases, já durante o exílio do imperador em Santa Helena, e que no ano seguinte à morte deste publicaria as suas memórias com o título O Memorial de Santa Helena, havendo a seguinte citação misteriosa no tomo sexto, atribuída ao próprio Napoleão: “Desde que passei às regiões exteriores caí nas trevas, mas então Merlin socorreu-me. Ele iluminou-me como um archote. Brilhante, é muito erudito, sábio, justo e honesto”). A Tradição Iniciática diz que Napoleão terá acedido de boa vontade a ser introduzido no interior da Grande Pirâmide, a fim de prestar Juramento inviolável ao Governo Oculto do Mundo diante do seu Rei na pessoa do Ptahmer ou Grão-Mestre da Ordem que o representava, conhecida como Kaleb (donde também se diz que proveio para a Europa o Encapuçado Saint-Germain, ou em bom português, São Germano, “Santo Irmão”). Foi em tal momento que se prometeu a Napoleão Bonaparte maior protecção secreta, se ele concordasse e quisesse trabalhar a favor da organização dos Estados Unidos da Europa. Bonaparte aceitou. E depois de prestar o Juramento diante de inúmeras testemunhas, voltou a França.

O “Ser brilhante, Merlin” ou Mago Soberano descrito por Napoleão, seria um Serapis (Ser+Apis = Ser Divino), a cuja Linha pertenceria Mourat-Bey, um dos implicados no processo da Grande Pirâmide. Contudo, devo informar que nos tomos do diário do imperador há muitos elementos que escapam ao entendimento do leitorado geral e por certo escaparam à percepção do próprio Las Cases, como se nota em várias passagens incongruentes e contraditórias por vezes na mesma frase, pois este biógrafo apesar de pertencer à Maçonaria franco-britânica estava completamente fora dos Grandes Mistérios do Governo Oculto do Mundo. O próprio Napoleão não tinha percepção profunda dos mesmos, e o que sabia era o estritamente necessário para cumprir a Missão que lhe fora confiada.

Já antes do acontecimento na Grande Pirâmide, no mínimo insólito só conhecido de alguns (apesar das referências feitas por Las Cases no dito Memorial de Napoleão, mas que outros acrescentam que além dessa biografia volumosa há ainda outros documentos, relatando detalhadamente o sucedido, reservados nos Anais do supradito G.O.M.), em Abril desse mesmo ano de 1799 Napoleão havia passado outra noite inexplicável em Nazaré, pernoitando onde se pressuponha que fora a casa da Sagrada Família, isso após ter vencido os mamelucos na Batalha do Monte Tabor, Palestina, lugar apontado como o da Transfiguração de Jesus Cristo, e onde se encontrou em privado com o chefe mameluco Mourat-Bey. Após, regressou ao Egipto seguindo rota idêntica à tradicional descrita nas escrituras como a percorrida por José, Maria e o Menino Jesus, na sua fuga ao infanticida Herodes. Muitas «casualidades» jamais explicadas pelo próprio protagonista. Tantas como as de instalar no Cairo um “esquadrão” de 167 sábios destinados a recolherem tudo quanto pudessem da Sabedoria do Antigo Egipto, culminando com a descoberta da Pedra de Roseta, espécie de dicionário da primitiva escrita hieróglifa egípcia, no mesmo ano de 1799.

Após deixar o País do Nilo de regresso a França, liderou o Golpe de 18 de Brumário (Novembro de 1799), que o converteu em Primeiro Cônsul, e cinco anos depois o Senado proclamou-o Imperador. Ainda em 1799, começam a surgir referências (em testemunhos orais, e que o Memorial refere como “visitante incógnito” ao longo dos seus vários tomos) ao seu misterioso conselheiro e confidente, o famoso “Homem da capa vermelha” das Tulherias, que lhe terá profetizado: “Tu serás feliz enquanto eu te proteger. Mas se eu te abandonar, o teu destino é o desterro…” É também quando o traçado de Paris e a sua decoração aparecem seguindo critérios egípcios.

O Mundo Oculto ou Iniciático, através da Maçonaria (que na época representava a própria Tradição Espiritual oposta ao conservadorismo católico, e assim mesmo representando a liberdade e a cultura dos povos invés da sua escravidão e autismo psicofísico), insuflava-se junto ao corso “escolhido ou eleito” por seus valores ímpares de génio, o que revelava desde criança. Com efeito, o seu pai fora maçom, como também o seu irmão mais velho, Joseph Bonaparte, que chegou a ser rei de Espanha, e a sua própria esposa, Josefina de Beauharnais (23.7.1763 – 29.5.1814), aclamada imperatriz dos franceses, terá liderado uma Loja Feminina maçónica alguns anos depois da Campanha do Egipto. Porém, o mais interessante e significativo, é que muitos dos generais e sábios que o acompanharam na dita Campanha, possuíam altos graus da Maçonaria Tradicional de então.

Napoleão mostrou-se um conquistador invencível, sabia onde atacar o inimigo e quando. Era informado de tudo. Inúmeros agentes encontravam-se à sua disposição, e foi assim que se tornar vitorioso nas famosas batalhas universalmente conhecidas. Mas a fama aduladora e a vaidade de adulação ensandecem-no, e esquece ou despreza o seu Juramento solene diante dos “Superiores Incógnitos”, os Iluminatti ou Iluminados, os Mestres Espirituais do Mundo (Mahatmas) a quem prometera laborar pela Concórdia Universal dos Povos. Ao contrário disso, o que fez? Colocou os seus irmãos e irmãs nos tronos da Europa, ficando a família Bonaparte a dominá-la, e além dele próprio se tornar imperador dos franceses (1804), em 26 de Maio de 1805 obrigou o Papa Pio VII a coroá-lo rei de Itália, incluindo o Vaticano, assim anexando para si a exclusividade dos Poderes Temporal e Espiritual do Mundo, desta maneira auto-assumido “rei do mundo” ou “imperador universal”. O Papado resiste-lhe, e ele resiste a esse, pois que uma completa mudança tinha-se dado nele… Traiu, portanto, o seu Juramento, querendo realizar tudo em proveito da sua ambição pessoal. Ele considerava-se superior a quaisquer “Superiores Incógnitos” cujas ordens menosprezou abertamente. Mais uma vez, o “Homem da capa vermelha” procurou chegar à sua presença, mas… o ingrato recebeu-o debaixo de ridículo (como confessa amargamente a Las Cases). Chegou mesmo a exasperar-se com o seu fiel conselheiro de outrora, quando este lhe lembrou “o Juramento que fizera na cripta subterrânea da Grande Pirâmide”… e quando deu ordem para prendê-lo, como por encanto o mesmo desapareceu diante de si como um fantasma das Tulherias.

Desde então, Napoleão Bonaparte ficou abandonado às suas próprias forças. Começou a perder todas as batalhas, até desfechar na de Waterloo, e com ela também perdeu a Coroa. Por fim, a Inglaterra apoderou-se do “traidor” e aprisionou-o em Santa Helena, onde por certo ele pôde meditar à-vontade sobre semelhante “traição”. Pobre Napoleão Bonaparte!

Semelhante história, completamente desconhecida até dos académicos mais ilustrados, não diminui, no entanto, as suas glórias. E isso também concorre para que a França, por sua vez, seja gloriosa perante os demais povos do mundo. Pode-se, pois, admirar o génio de Napoleão Bonaparte, que venceu todos os generais da Europa e realizou verdadeiros milagres em arte militar que hoje não se conseguiriam realizar, mesmo com arsenal bélico muito mais avançado que o dessa época.

Realmente, já havia um imperador na Europa pelo que Napoleão escusava, por conta própria vítima do seu narcisismo e presunção, auto-coroar-se tal e com isso dar início ao seu fracasso humano e espiritual, e consequentemente lançar por terra a pretensão da Grande Loja Oculta de, através dele, realizar o seu projecto sinárquico de fundação dos Estados Unidos da Europa, depois da África e finalmente das Américas… Esse imperador que já havia nos confins do continente europeu era o português: D. João VI, Senhor do Reino Unido de Portugal, Algarves (África) e Brasil.

De maneira que a Hierarquia Branca, representando e sendo a Lei de Deus na Terra, acabou “escrevendo direito por linhas tortas”: com as três invasões de Portugal pelo exército napoleónico e uma, duas, três vezes derrotado, o imperador português, D. João VI, foi forçado a exilar-se na sua própria terra, não fugindo do país mas procurando refúgio seguro nos confins do mesmo em 1815: o Brasil, passando São Sebastião do Rio de Janeiro a ser capital do Império Lusitano. Começava a sobressair o Ex Oriens Umbra a favor do cada vez mais refulgente e dominador universal Ex Occidens Lux!

O desígnio e propósito da Excelsa Hierarquia Branca dos “Irmãos de Pureza” (Bhante-Jauls), os únicos e verdadeiros Illuminati ou Mahatmas, mesmo que contrariados contrariavam as Forças do Mal. Portugal jogava papel destacado na fundação do Grande Ocidente com o concurso proeminente, apesar de discreto, da Soberana Ordem de Mariz (que não está extinta, mas sim vedada para o século ou ciclo profano desde os meados do século XV-XVI, e assim interiorizada mantém as suas funções próprias para a Europa e o Mundo, vez por outra aparecendo um seu representante ou vários sobre a Terra, como foi o caso, já no século XX, do Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves). Tanto assim é que há referências históricas às presenças dos Condes Saint-Germain e Cagliostro em Portugal, este último como principal mas discreto implicado no resgate e fuga do Delfim Luís XVII para o nosso país, onde até o famoso “colar da rainha” também veio, além de outros objectos e pessoas que reservam-se ser citadas. Eis as tramas da História escrita pela Governo Oculto do Mundo que nem os mais profícuos ocultistas e teósofos conhecem…

Como disse, com todos os factos expostos estreitamente ligados entre si criando uma intrincada teia de aranha de ouro desembocando em seu centro no assinalado Extremo Ocidente da Europa, este assunto é muito mais profundo do que se supõe e chega, inclusive, ao continente americano, propriamente o Brasil, onde também chegou a influência napoleónica, facto igualmente referido por Las Cases. Mas esse já é outro capítulo de uma história intrincada repleta de mistérios cuja base, repito, é…. Portugal e o “sang de Cape”, sim, “sangue de Capeto”, mas também de Encapuçado, de Adepto Real profundamente ligado aos Mistérios do Santo Graal, quer como Objecto, quer como estado de Consciência – o Quinto, Manas-Arrupa, Mental Superior Iluminado (desperto, formado e alinhado à mente concreta, logo, à personalidade) ou Manas Taijasi (Consciência de Espírito Santo, o Terceiro Logos Criador) embocando e desembocando por Sura-Loka, a Âmbula do Verbo Divino ligando o Coração da Europa, França, à sua Cabeça, Portugal, o sempre renovado “Lugar da Luz”, vale dizer, Lux-Citânia, a Lusitânia “Tebaida dos Assuras” do Novo Ciclo a Luzir.