A “RAÇA REAL” DOS CAPETOS

A frase célebre da “França ser a filha predilecta da Igreja” merece explicação e apuração, e tal recambia para o plano do mito sagrado onde lendas, profecias e factos estranhos se cruzam em torno da dinastia Capeto cuja origem se atribui ao próprio Espírito Santo na pessoa do rei Clovis I (c. 466 – 27.11.511).

A realeza franca, durante o reinado de Clovis, foi chamada a jogar um jogo capital e providencial na história da Igreja Católica. No final do ano 400 os imperadores romanos, estabelecidos doravante em Constantinopla, eram arianos e apoiantes de outros cultos contrários ao catolicismo. O arianismo dominava entre os povos germânicos. (godos, vândalos, burgondes, etc.). Mas no ano 496 e por estímulo da sua esposa Clotilde, Clovis converteu-se ao catolicismo, levando os seus súbditos, os francos salianos, a imitá-lo, abandonando as crenças arianas e convertendo-se à fé católica livre de todas as heresias. Isto aconteceu após a miraculosa vitória militar de Tolbiac, onde os alamanos foram derrotados pelos francos, sucesso que o arcebispo Saint-Remy previra antes a Clovis. Este fez-se baptizar por aquele em Reims, e no momento da consagração Saint-Remy profetizou que a “raça real” dos francos estaria destinada a reinar até ao final dos séculos para defesa dos pobres e dos humildes e, igualmente, para defesa e exaltação da santa Igreja e da verdadeira Fé.

Esta “raça real” dos francos é descendente da linhagem do rei Marcomir e do seu filho Faramundo, no século IV, donde saíram dois ramos: o dos reis francos salianos (francs sur la Saale, porque la Saale da Francónia é um rio afluente do Main), chamados também merovíngios; o dos reis francos ripuários (naturais do Rhin e do Weser), dos quais sairia Hugo Capeto (938 – 24.10.996) que no ano 987 tornar-se-ia rei de França, firmando assim a família e linhagem Capeto dos reis de França, como séculos antes Saint-Remy profetizara a Clovis que foi quem uniu a família franca, salianos e ripuários.

A lenda conta que no momento do seu baptismo uma Pomba desceu do céu e pousou na cabeça do rei Clovis, facto que de imediato interpretado como o reconhecimento pela Divindade da descendência de Clovis, assim sagrada nesse momento do baptismo, sacramento tradicionalmente associado ao Espírito Santo. Com efeito, desde o momento desse baptismo que os reis francos receberam uma missão divina com promessas sobrenaturais transmitidos pelo arcebispo de Reims e que fizeram destes ilustres reis “os filhos primogénitos da Igreja”.

Clóvis I

 É necessário precisar: essa missão foi dada essencialmente à “raça real” e não à França, esta o centro da acção sócio-espiritual da real depositária de tal missão: a de propagar a Palavra de Deus e estabelecer a Paz Franca ou “Livre” que alastraria ao resto do mundo. Os reis francos, “reis cristianíssimos” defensores ardentes da Fé, mostraram-se sempre dignos dessa missão de investidura romana mas de acção franca, onde a França se assumia “coração iluminado da Europa”, desde Pepino o Breve e Carlos Magno até São Luís (Luís IX), que patenteou a imagem perfeita de um chefe cristão ao serviço da Justiça e da Paz, tendo se apelidado a si mesmo “o sargento de Deus”. Depois, Luís XI e Luís XIII consagraram o reino à Muito Santa Virgem Maria e proclamaram a Sua soberania sobre a França.

Essa missão espiritual dos reis franceses seria travada dramaticamente no século XIV com o holocausto perpetrado sobre a Ordem dos Templários pelo rei Filipe Capeto, o Belo, com o beneplácito do papa Clemente V, facto deplorável manchando a linhagem Capeto e que exigia uma purificação que o tempo havia de trazer. Essa purificação registou-se no século XVIII com a Revolução Francesa e a família real presa na antiga Casa do Templo, transformada em Bastilha, antes de ser entregue aos carrascos. Purificação, ainda, levada a efeito pelo purgatório que foi a vida do Delfim Luís Carlos Capeto (rei Luís XVII que nunca o foi), pressuposto sobrevivente da Bastilha donde foi resgatado em segredo.

Por a linhagem Capeto estar incumbida de missão divina decepada nas guilhotinas do Terror, logo Luís Carlos Capeto, após desaparecer, seria aclamado a figuração do Grande Monarca Universal que no final dos tempos haveria de regressar para restaurar a monarquia divina francesa e restaurar a Igreja Universal na França, a sua “filha predilecta”, aclamando São João e o Divino Espírito Santo onde o Delfim (destinado a reaparecer) faria as vezes do dito Monarca Universal ou Melkitsedek, “Rei do Mundo”, este o Metraton ou “Intermediário” entre a Divindade e a Humanidade, que é também prerrogativa do Arcanjo São Miguel (Mikael ou Mirrail).

A França rural, a Bretanha e a Vandeia, canta la chanson du Dalphin em 1795, altura em que se edita uma gravura com o seu rosto e um “Coração de Jesus” acorrentado; o povo retrata-o jovem em pinturas simbólicas sobre um delfim empunhando a bandeira do Império Divino da “raça real”, identificando-o ao próprio Espírito Santo na pessoa de Cristo, que é quem haverá de “lavar a França dos seus pecados”; ao mesmo tempo, aparecem profecias francesas mencionando o “sang de la Cape”, isto é, o ramo esquecido da linhagem dos Capetos que em segredo teria sobrevivido fora da França, e nisto a própria palavra capeto ia ao encontro de “encoberto” sob o capote, que tanto resguardava da chuva como escondia a identidade.

Diz-se que Luís Carlos Capeto foi levado para Portugal (e que a própria duquesa de Angoulême sabia disso, tendo depois enviado ao Delfim o colar de diamantes de sua mãe Maria Antonieta, o mesmo do caso “caso do colar” envolvendo Cagliostro, cuja última proprietária no século XX foi uma senhora elvense da família Barahona, não se sabendo mais nada mas desconfiando-se muito que esse colar está hoje na posse da família Capeto portuguesa), tendo passado primeiro pela povoação de Bretanha na Ilha de São Miguel, Açores, e depois, em solo continental, se relacionado com um sapateiro de Elvas, Alentejo, que o acolheu. Essa é uma maneira encapotada para designar um grau profético ou bandárrico (vulgo, “sapateiro” ou que trabalha na tripeça, símbolo da interpretação profética relativa ao passado, presente e futuro assinalado no calçado ou caminhar seguro no entendimento de qualquer dos tempos, isto é, “com os pés defendidos ou calçados”) da Ordem dos Cavaleiros do Espírito Santo, facção da Ordem de Malta (que patrocinou a fuga do Infante) e com forte sabor maçónico, talvez relacionada a essa corrente nobiliárquica francesa na altura chamada Sagrado Coração – Grande Ocidente.

Ora o Grande Ocidente do continente europeu é a Lusitânia, ou “Lugar da Luz” (Mental), e o Sagrado Coração do mesmo é precisamente a França, cujo Restaurador da mesma haverá de sair de Portugal e que os franceses reconhecem como o Grande Monarca. Mas este o é de toda a Terra, não só de um ou dois países, na qual iniciará a Idade ou Reinado do Espírito Santo, tanto valendo por Milénio de São João, a Parúsia, a Era do Aquário, etc. Associando a pessoa do Delfim Capeto ao Grande Monarca tem-se este como o Rei do Mundo abrindo o Ciclo do Grande Ocidente tendo à cabeça, física e simbolicamente, uma dinastia eleita ou a elite (humana e espiritual) descendente dos “reis cristianíssimos”, que tanto eram os de Borgonha (Portugal) como de Capeto (França), entremesclados e materializando o sonho maior da fundação do Soberano Império do Espírito Santo sobre a Terra no qual, rezam as profecias, reinará a Concórdia Universal.

Essa ideia do Delfim francês sair de Portugal para reinar sobre a França e o Mundo inteiro, parece ter sido antecipada por Nostradamus que assim profetiza (Centúria III, XXXV):

Do mais fundo do Ocidente da Europa,

De pobres gentes um Menino nascerá,

Que por sua língua seduzirá grande grupo,

Sua fama no reino d´Oriente mais crescerá.

O MISTÉRIO DO DELFIM LUÍS XVII

Desde a pressuposta morte do Delfim Luís Carlos Capeto, herdeiro do trono de França como Luís XVII, na Bastilha de Paris, na data incerta de 1794 ou 1795, têm surgido esporadicamente na cena francesa personagens obscuros afirmando-se serem o próprio Delfim de França que terá escapado da prisão vindo reivindicar a coroa real para si. É grande a lista dos candidatos, mas também é facto que todos eles acabaram desmascarados como falsos Delfins.

O mito da sobrevivência do Delfim de França parece ter esboroado no dia 20 de Abril de 2000, com a revelação dos resultados do exame de ADN a um fragmento de menos de um grama do coração dissecado da criança que morreu na Bastilha, conservado numa urna na cripta da família real na Basílica de Saint-Denis, sendo comparada a sua assinatura genética com uma mecha autenticada dos cabelos de Maria Antonieta, mãe do Delfim, e para maior segurança comparou-se esses resultados com os obtidos em duas irmãs dessa rainha e em dois membros actuais dessa família: todos os dados concordaram entre si, confirmando tratar-se do próprio Luís Carlos Capeto de Bourbon.

Mas esse exame médico-legal não pode ser considerado conclusivo. Isto porque na investigação histórica, que assenta frequentemente na pesquisa em descendentes da pessoa que se pretende identificar, o ADN mitocondrial apesar de conter as sequências fáceis transmitidas de uma geração a outra quase não sofrendo mutações, contudo nunca se misturam com os genes do pai. No caso da identificação do Delfim de França, o teste de ADN revela-o inquestionavelmente como filho de Maria Antonieta, mas nada diz da paternidade do menino, lendo-se no relatório: “Este ADN nunca se mistura aos genes do pai”. Donde se conclui desconhecer se Luís XVI era realmente o pai do menino morto na Bastilha, assim continuando de pé, com toda a legitimidade das dúvidas não esclarecidas, a tese de Maria Antonieta, universalmente famosa pelas suas frivolidades sexuais, ser mãe de filho de pai incógnito.

Retrato do Delfim Luís XVII feito quando estava preso na Bastilha

Fica provado à saciedade que na Bastilha morreu um filho de Maria Antonieta, e fica improvada à saciedade que o filho legítimo de Maria Antonieta e Luís XVI foi quem realmente morreu na prisão. Assim, a história volta ao início e o mistério mantém-se…

O enigma densifica-se ainda mais ao saber-se que o pressuposto túmulo de Luís XVII, no cemitério de Saint-Marguerite, assinalado com as iniciais do futuro rei e a data do seu nascimento e morte (1785-1795), por essa conta só tendo vivido 10 tenros anos, após ter sido exumado viu-se que no lugar da infeliz criança está o corpo de um adolescente desconhecido, falecido entre os 15 e os 18 anos de idade.

Túmulo exumado de Luís XVII (Cemitério de Saint-Marguerite, Paris)

Igualmente mantêm-se indesmentíveis as inúmeras profecias antes e após a pressuposta “sobrevivência e fuga do Delfim”, como essa de São Cesário (470-542) vaticinando sobre a Revolução Francesa: “Os Capetíngeos tremem, ignominiosamente traídos, e a criança predestinada é impelida ao exílio por uma soldadesca furiosa”… Ou então essa de Miguel de Nostradamus na sua Epístola a Henrique o Invencível, referindo-se à Revolução Francesa e ao Delfim filho de Maria Antonieta: “E haverão dois, um que não teve o mesmo pai”…

Essa frase enigmática de Nostradamus veio a ser clarificada no livro manuscrito sobre a vida do chamado Delfim de Évora, redigido no início do século XX por um português, o falecido professor José Cerqueira Moreirinhas. Segundo este autor, o Delfim teria sido arrancado secretamente do cárcere no dia 19 de Janeiro de 1794, escondido sob a roupa suja num grande cesto de verga e posta no seu lugar uma criança doente, raquítica, transportada para ali da Escola de Cirurgia de Paris e introduzida na cela dentro de um cavalo de papelão. Se assim foi, e ante as provas médicas recentes, deduz-se que possivelmente seria um desses deserdados da sorte abandonados pela mãe, a própria rainha Maria Antonieta, aos infortúnios do mundo, e como talvez fosse parecido com o Delfim ninguém deu pela troca feita em segredo.

Ainda segundo o professor José Moreirinhas, poucos, excepto o carcereiro Simon (sapateiro de ofício) e sua mulher, Marie Jeanne Aladame, conheciam de perto o infante. Talvez por isso escassos tenham dado pela troca. Enquanto Simon distribuía rodadas de vinho aos seus colegas carcereiros e restante guarnição, embriagando-os, a sua mulher carregava discretamente o cesto de verga para uma carroça fora dos muros da prisão, conduzida por um indivíduo misterioso de nome Ojardias (nome esquisito mais parecendo o anagrama português de Jaro ou Jairo Dias). Depois os três desaparecem na noite, sem deixar rasto, abandonando para sempre a tormenta de França e dando começo ao mistério do desaparecimento do Delfim. Esta história recambolesca viria a ser contada pela própria Marie Aladame na primeira pessoa, abonada por pessoas da maior credibilidade, dentre as quais quatro freiras da Congregação de S. Vicente de Paula, em Paris, que conviveram com ela de 1810 a 1819, quando já professava o internato religioso. Essas quatro freiras atestaram o seu depoimento por escrito, e a mulher do sapateiro forçado a carcereiro, Simon, repetiu a história da evasão do filho de Maria Antonieta à própria irmã do pequeno evadido, a duquesa de Angoulême, que a visitou no mais rigoroso sigilo.

Segundo a narrativa, Luís Carlos Capeto foi levado para Portugal, precisamente para a região alentejana de Fronteira, onde mais tarde casaria com uma senhora espanhola de apelido Vasconcelos, cuja união deu descendência originando a muito pequena e fechada família dos Capetos, ainda hoje residindo principalmente em Fronteira e Borba, no Alentejo, que foram antigos domínios da Ordem de São João de Malta, de quem se diz ter sido a própria a arquitectar a fuga do Delfim de França tendo como principal implicado o seu próprio Grão-Mestre na época, Emmanuel de Rohan-Polduc (1725-1797).

Emmanuel de Rohan-Polduc (1725-1797), Grão-Mestre da Ordem de Malta

O Professor Henrique José de Souza também abordou o assunto no seu Livro do Graal (Carta-Revelação de 1.4.1950), dizendo: “Os jornais vêm falando ultimamente da descendência de Pio XII ser directamente de Luís XVII, aquele infeliz Delfim que foi ter às mãos do sapateiro Simon, como eu mesmo apontei o referido «sapateiro» e as suas tendências para essa arte… No artigo em relação a Pio XII e o seu parentesco com o Delfim, que era filho de Maria Antonieta… mas não o era de Luís XVI… fala-se em Nostradamus, interpretando passagens ligadas ao mesmo caso”.

Nunca houve ramos familiares dos Capetos em Portugal senão no início do século XIX, quando apareceram subitamente no país sem terem antepassados nele. Nessa ocasião surgiu em Fronteira um senhor chamado Copetto, mas esse senhor Copetto era filho de ninguém!… Embora na altura os registos de nascimentos fossem muito minuciosos, inserindo a ascendência até aos avós, todavia neste caso nada consta sobre os seus antepassados. Os filhos desse senhor Copetto passaram a chamar-se Capeto, sendo interessante o facto de coincidir com as Invasões Francesas a Portugal o uso do nome Copetto, como se tais pessoas pretendessem esconder algo perigoso para as suas vidas, passando a chamar-se Capeto logo que o perigo passou.

Por certo, os antepassados dos Capetos portugueses serão os Capet da linhagem real francesa. Essa família alentejana aparecida subitamente em Portugal, em Fronteira (Alto Alentejo), no começo de Oitocentos, recebeu protecção directa da Coroa portuguesa e da Ordem de São João de Malta, o que é mais que significativo. Outros Capetos portugueses que hajam do século XVIII para trás, certamente não correspondem à linhagem que apareceu nos dito século e o rei D. João VI deu protecção, o que nem ele nem nenhum dos seus antecessores fizeram antes mesmo já havendo a família Copeta, mas não a Capeto.

O conde Xavier de Roche du Teilloy, professor na Universidade Católica de Paris e autor de um livro com o título Louis XVII, em 31 de Agosto de 1985 escreveu à família Capeto em Borba afirmando que o Delfim de França casou em Portugal em 1803 com a idade de 18 anos e recebeu a protecção do rei português D. João VI, que na ocasião lhe fez uma grande doação de terras. O acordo dessa doação da Coroa Portuguesa ao Delfim de França teria sido assinado no palácio ducal de Vila Viçosa.

Carta de Luís XVII ao rei D. João VI de Portugal

O escritor francês considera ainda essa fase da vida de Luís XVII como a mais feliz, adiantando ter o Delfim visto nascer o seu primeiro filho em 1804 em Portugal, sendo desse casamento que descendem os Capetos portugueses. E desfecha a sua carta citada com as seguintes e notáveis palavras: “A ascendência de Luís XVI, o “Rei Mártir”, e de seu filho Luís XVII está representada pela família Capeto de Portugal, que, por direito, é a actual Casa Real de França. Por direito vós (família Capeto de Portugal) sois todos Príncipes e Princesas de França”.

O PALÁCIO DE CAGLIOSTRO EM PARIS

Na noite de 30 de Janeiro de 1785, cerca das 21 horas, chegou a Paris, procedente de Lyon, o homem misterioso com fama de imortal conhecido como Conde de Cagliostro. Era a segunda vez que estagiava na capital francesa, a primeira fora em 1783 onde permaneceu treze dias e curou de uma grave enfermidade o príncipe de Soubise primo do cardeal Louis René Edouard de Rohan, a pedido deste, tendo deixado a capital francesa com fama de benfeitor dos pobres por igualmente ter curado gratuitamente muitos deles, ainda por cima fazendo-lhes obséquio de donativos em dinheiro e outros bens, agindo como verdadeiro e bondoso Mestre Taumaturgo para quem a Medicina Universal não reservava segredos.

Dessa segunda vez, o Conde de Cagliostro regressava a Paris novamente a pedido do cardeal de Rohan, tendo servido de intermediário o seu discípulo Ramond de Carbonnieres que era secretário pessoal do prelado. Parece que o cardeal tinha uma missão secreta juntamente com Cagliostro, e daí o motivo do encontro possivelmente relacionado com a Revolução, que todos aguardavam a sua eclosão a qualquer momento, e a tentativa antecipada de minorar os seus efeitos que se previam trágicos para a Coroa e a Igreja em França. Acompanhado de sua esposa Serafina, foi também nesta segunda ocasião que Cagliostro iniciou em Paris os primeiros esboços do seu Rito Copta da Maçonaria Egípcia, que viria a fundar no ano seguinte.

Quando Cagliostro chegou a Paris instalou-se numa dependência do Palais Royal, mas logo mudou para um apartamento do palácio pertencente à marquesa d´Orvilliers, a convite da mesma. Este palácio d´Orvilliers é um edifício dos finais do século XVII que no século seguinte seria transformado em hotel. Lenôtre (in Vielles maisons, vieux papiers, Paris, 1910), assim descreve esta mansão: “Ela existe ainda, e imaginamos sem esforço o efeito que ela devia causar à noite àqueles que passavam na rua deserta, com os seus pavilhões de ângulo, então dissimulados por velhas árvores, os seus pátios profundos, os seus terraços largos, quando as luzes vivas do cadinho do alquimista filtravam-se pelas altas persianas. A casa, que guarda linhas nobres sobre as construções parasitas erguidas neste século, conserva algo de barroco e inquietante. A porta de carros abre-se para a Rua Saint-Claude, na esquina do Boulevard Beaumarchais: o pátio apertado entre as construções é de aspecto moroso e solene; no fundo, sob um pórtico lajeado, sai a escada de pedra que o tempo deixou e que conserva o seu antigo corrimão de ferro. Uma escada oculta, hoje emparedada, de degraus grandes, subia até ao segundo andar, onde ainda encontramos o seu traço; uma terceira escada, estreita e tortuosa, subsiste ainda na outra extremidade do imóvel, do lado do bulevar: ela enrola-se em plena parede na mais espessa escuridão e serve os antigos salões – hoje cortados de tabiques – cujas portas-janelas abriam-se para um terraço que manteve os seus balcões de ferro. Abaixo encontram-se, com as suas portas cheias de caruncho, a cocheira e as cavalariças”.

Onde era o laboratório alquímico de Cagliostro, de que todos falavam na época, ninguém, excepto o próprio, a sua esposa e o cardeal de Rohan, sabia responder. Sabia-se apenas que os apartamentos eram decorados com grande luxo e que “na antecâmara estava gravado sobre um mármore negro, em caracteres de ouro, a oração universal de Pope: “Pai do Universo, Suprema Inteligência, etc.”, cuja paráfrase Paris cantaria, dez anos depois, à maneira de hino, ao Ente Supremo.

Com efeito, o palácio de Cagliostro situa-se na Rua de Saint-Claude, no 3.º arrondissement (bairro), a qual foi aberta oficialmente em 1640. Começa no Boulevard Beaumarchais e termina na Rue de Turenne, tendo 186 metros de comprimento. Chamava-se anteriormente Rua Saint-Charles ao Marais, e passou a Rua Saint-Claude porque originalmente tinha numa esquina uma imagem desse santo, datada do século XVII, hoje desaparecida.

 Palácio d´Orvilliers, onde Cagliostro viveu em Paris

Sendo uma rua calma e discreta, por certo Cagliostro encontrou aí as condições que necessitava para as suas actividades tanto discretas como secretas. Mas tal sossego em breve veio a ser perturbado por uma intriguista francesa aventureira sem escrúpulos, a condessa Jeanne de Valois de la Motte, a causadora do processo do colar da Rainha.

Ao contrário de Cagliostro,  o Conde de Saint-Germain não tinha residência fixa em Paris. Ele viveu no palácio de Chambord que o rei Luís XVI lhe cedera, fora da cidade, e sempre que vinha a esta costumava hospedar-se no palácio de Versailles. Contudo, se acaso teve outra ou outras casas em Paris, pessoalmente não conheço mas aceito de bom grado a possibilidade.

O cardeal de Rohan tinha uma admiração sem limites por Alexandre ou Louis de Cagliostro, “adorando-o como se de um deus se tratasse”, isto é, reconhecendo a sua legitimidade de preclaro Membro do chamado Governo Oculto do Mundo ou Grande Fraternidade Branca, constituído de Homens e Mulheres que alcançaram os mais elevados graus da Perfeição Humana, os mesmos a quem os orientais reconhecem como Mahatmas ou “Grandes Almas”, agindo um pouco por toda a parte do mundo e em todos os tempos, o que os anais históricos registam mas geralmente sem saberem explicar a razão da sua existência e das suas intenções, por norma encobertas pela maior discrição e segredo.

As fontes iniciáticas que descrevem essa época, informam que a entrevista de Cagliostro com o cardeal de Rohan em Paris pretendeu preparar o terreno psicossocial para a Revolução que se avizinhava e tentar minorar as suas consequências, sendo inevitável o derrube do regime monárquico absolutista que trazia o povo na maior miséria e a burguesia privada dos seus direitos. Para decapitar de vez esse absolutismo Cagliostro, através da grande influência pública do cardeal, reuniu as maiores personalidades da Maçonaria da época e dispô-las dos lugares estratégicos da sociedade, para que quando a Revolução eclodisse elas pudessem de imediato obstruir qualquer contra-ofensiva. Foi assim, por exemplo, que a guarnição da Bastilha, quando chegou o momento da sua tomada, era toda ela constituída de franco-maçons que não dispararam sobre o povo e deixaram que tomassem a fortaleza inexpugnável.

Dois Movimentos concorreram grandemente para a queda do despotismo realengo: o Iluminismo e a Maçonaria, respectivamente sob a direcção oculta de dois insignes Mestres Vivos: o Conde de Saint-Germain e o Conde de Cagliostro. O Movimento dos Iluministas havia sido fundado por Martinetts de Pasqualys, o qual se propunha, pela prática franca da Teurgia ou “Magia Divina” e da Teosofia ou “Sabedoria Divina”, modificar a condição social da injustiça do mundo pelo aperfeiçoamento moral e mental dos homens. Sendo mais filosóficos e menos políticos radicais, os Iluministas condenavam a violência político-social defendida pelos Franco-Maçons, já então desavindos com as ideias espirituais ou esclarecidas de Cagliostro sobre a Maçonaria. Os Iluministas pretendiam uma revolução cultural através da razão, mas os Franco-Maçons pretendiam a revolução social pelas armas e a morte da família real e dos seus mais chegados. Essa divergência radical de ideias opostas reflectiu-se na Convenção de 10.8.1769, quando o comando supremo da Franco-Maçonaria foi recusado a Cagliostro, e os Franco-Maçons partiram para o conflito aberto minando as bases político-sociais do absolutismo até à morte do rei de França. Para evitar isso, tentar salvar o que pudesse da dinastia Capeto, é que Cagliostro e o cardeal de Rohan se reuniram em segredo neste palácio da Rua Saint-Claude.

Conde Alexander Louis de Cagliostro

 Cagliostro não era um agente da Ordem dos Templários, de Malta ou de outra qualquer, mas muito mais que isso: era um enviado directo do Governo Oculto (ou Espiritual) do Mundo, com a Missão de transformar para sempre a face psicossocial de França, o que aconteceu, em breve alastrando ao restante continente e às Américas. Todas as Ordens Iniciáticas, todas as Instituições Secretas de valor, as próprias religiões tradicionais, reis, imperadores, dirigentes de povos, sejam eles quem forem, acham-se dependentes da acção de semelhante Governo Oculto do Mundo, sob a sua protecção mas também juízo, pois a partir do momento em que se desviem da Lei Suprema ou do Eterno que a tudo e a todos rege (Lei de Amor, Verdade e Justiça), ficam abandonados a si mesmos e, consequentemente, a tudo quanto lhes possa acontecer, deixando de haver tal protecção superior, como aconteceu com Luís XVI e a sua família, todos trucidados pelo Terror como consequência final dos seus maus actos.

Voltando ao caso do colar, as más-línguas diziam que o cardeal de Rohan estava apaixonado pela rainha Maria Antonieta, mulher do rei Luís XVI, que afinal o detestava profundamente e disso já dera provas públicas, inclusive tendo-o demitido do cargo de embaixador em Viena. Mas a condessa de la Motte, por seu acesso à corte e proximidade à câmara da rainha, consegue convencer o cardeal de que Maria Antonieta estaria apaixonada por ele e que a sua paixão seria correspondida. Rétaux de Villette, amante da condessa, escroque e exímio falsário, forja com ela cartas assinadas pela soberana endereçadas ao cardeal. Por fim, é combinado um encontro nocturno num bosque entre o cardeal e a rainha, mas que era uma prostituta, Nicole d´Olive, assemelhando-se fisicamente com ela. Louis René acreditou no embuste e emprestou à «rainha» 150.000 libras. Seguiram-se novos pedidos e novos empréstimos, até finalmente ser-lhe solicitado que servisse de intermediário entre ela e os joalheiros Boehmer e Bossange na compra de um colar de diamantes no valor de 1.5 milhão de libras, que ela desejava ter mas em segredo para não alarmar o rei. Os joalheiros são contactados com o pedido de contactarem Jeanne de la Motte, para que esta o transmita à rainha. O cardeal aceitou servir de intermediário na transacção e o colar acabou chegando às mãos de la Motte, que vendeu-o em Londres com o auxílio do seu amante. Quando a factura dos joalheiros chegou ao palácio real, o golpe foi descoberto e Luís XVI mandou prender o cardeal de Rohan, a condessa la Motte e todos os restantes cúmplices, ao todos quinze pessoas, dentre elas Cagliostro, porque a mulher oportunista, para salvar o amante, confessou na Polícia de Paris que actuara com a cumplicidade de Cagliostro, o verdadeiro cérebro da operação, acusação depois provada ser mais mentira uma dela que, finalmente, confessou ter agido por ciúmes da grande fama e irrepreensível conduta desse Homem Superior… que apesar de tudo ainda hoje se acredita não ter passado de um “aventureiro, escroque e charlatão”, por parecer ser mais fácil censurar e aceitar a censura irracional e preconceituosa, do que pensar e elogiar o comportamento irrepreensível de quem nunca se provou nada em contrário.

Réplica em zircão do colar da rainha Maria Antonieta (Castelo de Breteuil, França)

Por causa da ímpia mentira da mulher megera, Cagliostro foi preso no palácio da Rua Saint-Claude e conduzido à Bastilha. A sua esposa Serafina não se poupou a esforços enquanto ele não libertado. Também o cardeal de Rohan, entretanto preso, foi libertado por influência da Sorbonne que defendeu o seu prior, mas não escapando ao exílio onde acabou os dias. Nicole d´Olive, também seria libertada e morreria anónima em 1789, com 28 anos de idade. A condessa de la Motte foi declarada culpada e condenada a prisão perpétua, mas antes devendo sofrer no pelouro público ser chicoteada e marcada a ferro em brasa com um V de Voleur (“Ladrão”), tendo o carrasco, por precipitação, a marcado no peito, arrancando-lhe dores atrozes. Após ser encarcerada em La Salpêtrière, conseguiu fugir da prisão para Londres, onde morreu caindo de uma janela do seu quarto… quando tentava escapar aos credores. O seu marido, Antoine-Nicolas de la Motte, cúmplice na venda dos diamantes em Londres, foi condenado às galés à revelia, já que fugira para a capital londrina. O seu amante, Réteau de la Villette, terminou igualmente a sua vida no exílio na Itália, tendo morrido de morte violenta numa rixa. Finalmente, as cabeças reais de Luís XVI e Maria Antonieta rolaram na guilhotina em 1793…

Enquanto isso, Cagliostro, injustamente condenado ao exílio pelo rei francês, abandonou Paris para sempre na manhã de 3 de Junho de 1786, regressando a Lyon onde, a 27.7.1786, fundaria o seu Rito Egípcio com a consagração da Loja A Sabedoria Triunfante, e logo a seguir deixaria a França entregue ao seu destino trágico, marcado pelo Terror que a envolveu e por certo ele terá querido evitar ou, ao menos, minorar os seus dramáticos desfechos.

Pela proximidade quase filial do cardeal de Rohan a Louis Cagliostro, vários autores acreditam que este era filho daquele. Mas não era… sendo essa «relação filial» a mesma que tem sempre o Mestre para com o discípulo aceite. Levantando um pouco do véu sobre a origem familiar de Cagliostro, apresenta-se a figura do príncipe de Montbazon, Louis Armand Constantin, distinto no exercício militar das armas e que chegou a Cavaleiro da Ordem de Malta. Pertencia à família Rohan e era irmão do cardeal de Rohan, próximo de João Ângelo Brashi, o papa Pio VI. Este cardeal Lois René, que esteve envolvido na história do colar, era familiar próximo do Grão-Mestre da Ordem de Malta, Emmanuel de Rohan, o qual veio a facilitar a libertação de Cagliostro que, diz-se era o filho abandonado do príncipe de Montbazon, fruto dos seus amores proibidos com a casada com outro, a marquesa Anne Louise de Tavernay. Isto é o que diz a história secreta relativa à origem familiar de Cagliostro, abandonado pelos pais “numa sarjeta de Génova”… para logo  ser recolhido por Adeptos do Governo Oculto do Mundo, particularmente por Paolo Domiciani de Veronesse (Tao-Ram), que lhe deu o nome de Louis Paolo Domiciani (L.P.D.), ainda que seja mais conhecido por Alexander Joseph Balsame, que não era ele mas um seu Tulku ou aspecto complementar.

Cagliostro ocupou lugar destacado representando Melki-Tesek ou Chakra-Varti, o Rei do Mundo, na França do seu tempo, juntamente com duas outras Personagens da mais elevada Hierarquia. Com efeito, o Rei do Mundo, Rotan como lhe chamava Mozart, sendo a Coluna Central, tinha as suas Colunas Vivas laterais, na época da Revolução, representadas por:

Rei do Mundo – Coluna Central JHS – São Germano (LORENZO)

Coluna Lateral da Sabedoria (J) – Cagliostro (AKADIR)

Coluna Lateral da Lei (B) – José Bálsamo (KADIR)

Hoje são:

Rei do Mundo – AKTALAYA (Construens et Destruens)

Coluna J – AKGORGE (Construens)

Coluna B – AKDORGE (Destruens)

Estes Seres são o Bodhisattva da Nova Era como um único Ser (Aktalaya – Espírito) desdobrado em Alma (Akgorge) e Corpo (Akdorge). Trata-se da cumeeira dirigente do Governo Oculto do Mundo. Aktalaya está para São Germano (Lorenzo), Akgorge está para Cagliostro (Cansinos) e Akdorge está para J.osé B.álsamo (Orisk), ou sejam, Akadir e Kadir.

OS MEDALHÕES HERMÉTICOS DA RUE DE LA PERLE

O edifício número 20 da Rue de la Perle, Paris, construção do século XIX sóbria e distinta, não se distinguiria dos outros se não fossem três misteriosos medalhões à altura do seu segundo andar, contendo alegorias esotéricas de cariz alquímico-maçónico. O que poderão ser e signi-ficar é o que se irá analisar de seguida.

No primeiro medalhão, vê-se o esquadro e o compasso entrelaçados donde pende um fio-de-prumo, e mais abaixo, à esquerda, uma figura parecendo um navio fenício com uma serpente erecta servindo de cabeça de proa, e à direita um alambique utilizado em operações alquímicas e químicas.

No segundo medalhão, apresenta-se uma cabeça humana permeio a dois ramos de azevinho entrelaçados e ligados por laço ao centro. Por cima da cabeça paira uma estrela de seis pontas.

No terceiro medalhão, tem-se uma torre de farol com a fogueira enorme acesa no topo, tendo na base um portal contendo uma figura geométrica sugerindo a de um vaso; dos lados, vê-se um estranho engenho com rodas (à esquerda) e uma ponte (à direita).

Esse conjunto alegórico remete para a presença aqui da Maçonaria Hermética derivada dos Antigos Mistérios Egípcios e que o Conde Cagliostro organizou trazendo-os do Egipto, do seio da Confraria dos Coptas do Deserto do Sinai, melhor dito, da Fraternidade de Luxor para França, onde em 27 de Julho de 1786 os implantou em Lyon, fundando a Loja Sabedoria Triunfante, sob o nome Maçonaria Egípcia, Andrógina ou Copta, de que ele era o Grão-Copta à dianteira do Rito envolvendo senhores e senhoras juntos, donde se chamar andrógina e compreender três Graus: Aprendiz, Companheiro e Mestre. Esta Ordem fundada por Cagliostro destinava-se “a conhecer, professar e propagar a Maçonaria em sua pureza e forma primitivas”, sob o signo da Glória, Beneficência, União, Sabedoria e Prosperidade.

O Ritual da Maçonaria Hermética, também chamada Filosófica, incluía os conhecimentos da Escola de Pitágoras, a teoria e prática da Alquimia de Paracelso, e também os saberes cristãos e sufis da Rosacruz de Christian Rosenkreutz. Ritual francamente Teúrgico e Taumatúrgico de comunicação directa com os Anjos, Arcanjos e demais Potestades Celestes através da meditação e purificação corporal, emocional e mental, isenta de qualquer modalidade mediúnica ou animista que os documentos disponíveis revelam Cagliostro opor-se severamente à mesma, tem-se que o mesmo era muito mais hermético do que alquímico-laboratorial, visto apontar no sentido da “alquimia interna”, da transformação e imortalidade da alma humana para que possa receber a Estrela Luminosa, ou seja, o Espírito Divino, e assim o maçom hermético possa dizer com o seu Mestre Cagliostro: Ego sum quis sum, “Eu sou o que sou”!

O objectivo do Rito Hermético – a imortalidade conquistada durante a vida física – pode ser resumido por uma frase extraída do seu catecismo: “Tendo sido criado à imagem e semelhança de Deus, eu recebi o poder de me tornar imortal e de ordenar aos seres espirituais para reinar sobre a Terra”.

Bem parece que neste edifício da Rue de la Perle poderá ter funcionado, entre a segunda metade do século XIX e talvez o início do século XX, uma Loja do Rito Hermético da Maçonaria Filosófica iniciada por Cagliostro. Os símbolos nos medalhões que decoram a fachada do prédio apontam nessa direcção…

No primeiro medalhão, a pressuposta barca fenícia assinala a travessia do mare incognitus ou mare internus (Mediterrâneo), nome que os antigos alquimistas davam ao mercúrio filosófico que obtinham no decorrer da “grande navegação”, isto é, das operações alquímicas, e chamavam-na assim por considerarem que a Alquimia é Espírito Santo e está sob o padroado de Santa Maria, a Mãe dos Filósofos vista como o Mar da Criação. Donde Maria, Mare, Maris… Essa água destilada ou purificada assinala-se na presença do alambique no lado oposto. No topo, o esquadro e compasso entrelaçados tornam-se assim o signo distinto, cumeeiro da presença da própria Maçonaria Hermética, e a Rosa no topo do compasso e donde distende para os lados o listel triunfal, vem a ser a Rosa dos Filósofos, a Flor que perfuma a Cruz (constituída pelos braços do esquadro fechado) e se converte no sinal da Imortalidade.

No segundo medalhão, o busto humano é o próprio deus Hermes, fundador da Ciência Hermética, tendo a Estrela Luminosa por cima, a mesma do Nascimento ou Natal (donde a presença das folhas de azevinho, planta natalícia) do Filósofo, do Iniciado que tendo morrido como profano, renasce como Iluminado no Espírito de Sabedoria Triunfante. Tem-se aqui a figura do grande padroeiro da Maçonaria Hermética que foi Hermes Trismegisto, “três vezes grande” pelo Corpo, a Alma e o Espírito, condição essa que Cagliostro incarnaria perante a Humanidade do seu tempo.

Finalmente, no terceiro medalhão, o farol iluminado serve para representar o athanor alquímico, o forno aquecido pelo Fogo dos Filósofos em cuja base fica o vaso onde se “cozinham” os elementos grosseiros, para extrair deles a sua quintessência vital necessária à evolução da Grande Obra Alquímica, progresso esse representado no engenho com rodas que trituram, transformam ou diluem a densidade dos elementos até torná-los rarefeitos, subtis. Para alcançar esse estado de perfeição é necessário transpor a ponte que aproxima o Alquimista desse mesmo Fogo Sagrado e o afasta da condição ordinária, profana do comum das gentes.

Resumindo a mensagem contida nos três medalhões que apelam nos seus símbolos à mais elevada e distinta condição moral e mental humana, pode muito transpor-se para aqui as palavras decisivas do testamento espiritual de Cagliostro:

“Eu não pertenço a nenhuma época, nem a nenhum lugar. Fora do tempo e do espaço, o meu Ser Espiritual vive a sua existência eterna, e se mergulho o meu pensamento no curso das Idades, se estendo o meu espírito para um modo de existência afastado daquele que percebeis, eu torno-me aqui o que desejo.

“Participando conscientemente do Ser Absoluto, regulo a minha vida segundo o meio que me envolve. O meu nome é o da minha função, porque eu sou inteiramente livre. O meu país é aquele em que fixo momentaneamente os meus passos. Datai de ontem a mina vida, se o quiserdes, ou contai-a desde os anos vividos por ancestrais que vos foram estranhos. Ou desde amanhã, se preferirdes. Quanto a mim, sei que sou aquilo que sou.

“Eis-me: sou nobre e viandante. Falo e vossa alma treme ao reconhecer antigas palavras. Uma Voz que está em vós, mas que esteve morta durante longo tempo, responde ao apelo da minha. Eu ajo e a paz retorna aos vossos corações, a saúde aos vossos corpos, a esperança e a coragem aos vossos espíritos.

“Todos os homens são meus irmãos e todos os países são minha pátria. Eu os percorro para que em toda a parte o Espírito possa descer e encontrar um caminho para vos apontar. Aos reis, cujo poder acato, não peço senão hospitalidade, e quando me é concedida, passo fazendo unicamente o bem. Mas limito-me a passar. Não sou eu um nobre viandante? Como o vento sul, como a brilhante luz do zénite que caracteriza o pleno conhecimento das coisas e a comunhão activa com Deus, eu me dirijo para o Norte […], mas sempre deixando um pouco de força, até que seja fixado o fim da minha jornada, na hora em que florescerá a Rosa sobre a Cruz. Eu sou Cagliostro.”

O ALQUIMISTA DA RUE FABRE D´EGLANTINE

É facto reconhecido que o simbolismo hermético pela riqueza e vastidão dos seus elementos não raro serve de pretexto para decorar fachadas de edifícios, e até as escadarias internas dos mesmos, sem outro motivo senão o lúdico da decoração. A Arte Nova dos fins do século XIX e dos princípios do século XX foi pródiga no recurso à simbologia hermética, aproveitando-a para fins exclusivamente decorativos. Onde se descobre se a intenção é ou não lúdica, se alguém quis deixar uma mensagem ocultada aos pósteros na sua exposição, é exactamente na disposição dos símbolos e ordem correcta dos mesmos, pois só um entendido na Arte Magna (Alquimia) o pode fazer.

Isso mesmo se descobre no edifício “alquímico” n.º 9 da Rua Fabre d´Eglantine, 12.º arrondissement de Paris, perto da estação do metro, Nation. Trata-se de um imóvel oitocentista(1850-1870) ocupando uma superfície de 728 m2, com sete andares e desconhecendo-se quem terá sido o decorador original da sua fachada singular, feita no estilo medieval característico da Arte Nova.

Na entrada no edifício, cuja porta é uma imitação de Arte Renascentista e a parte cimeira do portal outra imitação de estilo gótico, cuja fachada interior é ilustrada por um quadro muito interessante cujas figuras mostram-se correctas, na ordem certa e feitas ou mandadas fazer por quem conhecia de perto os segredos da Alquimia: vê-se um alquimista sentado de pernas cruzadas (configurando a personagem do Arcano 4 do Tarot, “O Imperador”) fitando pensativo um alambique, segurando na mão direita um grande livro e atrás dele está um forno alquímico. Junto ao alambique, um cão dorme enroscado. Atrás do alquimista, na horizontal ficando ele ao centro, aparece a figura estranha de um crocodilo, e mais atrás a ave fénix.

O alquimista segurando o livro e confiando a barba com a outra mão, pensativo e paciente, remete para a legenda hermética: ora et labora, isto é, medita e trabalha. Esse livro por certo será figurativo do Universalis Liber, o Livro do Universo, a mesma Natureza Universal tanto visível como invisível cujo segredos ou arcanos o alquimista vai desvendando à medida que aprofunda a Grande Obra, aprimorando os elementos exteriores a par dos interiores ou relativos ao seu aperfeiçoamento mental e moral. O significado do alambique remete para isso mesmo: a sua parte superior imóvel, representa a cabaça, a direcção mental, sendo o termo também aplicado ao silêncio completo, ou seja, à meditação profunda sobre a solução que se procura, esperando que a destilação e a dissolução se realize, processos estes exigindo concentração mental, emocional e física. O cão dormindo junto ao alambique, além de representar o guardião do alquimista, o seu fiel companheiro, é também indicativo do estado primitivo, anímico ou animal que cabe ao seu dono transformar em racional e espiritual.

Atrás do alquimista está o forno ou athanor (do árabe, al-tannur). Este é o objecto do aperfeiçoamento, tanto dos elementos químicos quanto da condição humana em sobre-humana ou espiritual. Se o alambique é aparelho da destilação líquida como passo fundamental para chegar à quintessência ou “espírito” dos elementos, já o forno aquecido pelo fogo hermético é o meio onde se purificam os mesmos elementos para serem eficazmente destilados. O fogo tem a ver a purificação mental e a água com a regeneração moral; do atrito de ambos, resulta o vapor ou a nuvem como sinal do “espírito” etéreo. Por seu sentido de aperfeiçoamento e transformação, é que o athanor era comparado à Montanha da Iniciação, que se sobe gradualmente tal qual o alquimista se transforma aos poucos ao longo do processo químico da Grande Obra, e assim mesmo também era associado à ideia de mansão cerrada e de templo. Os antigos alquimistas chegaram mesmo a fazer uso da figura de um carvalho oco para representar o athanor, isso porque para os primitivos druidas o carvalho tinha o sentido de templo, e por tal era a árvore sagrada da sua religião.

O crocodilo atrás do alquimista é representação do Makara no Hinduísmo, ou seja, aquele deus semi-humano que se atribui tradicionalmente ao verdadeiro Iluminado espiritual, neste caso, o Adepto do Fogo que é o Alquimista. Por fundo, vê-se a ave mítica fénix, sinal da transformação perfeita dos elementos densos em subtis, o que é figurado pela morte e ressurreição dessa ave dentre o fogo que a consumiu e a fez ressuscitar, e por isso tradicionalmente costuma ser acompanhada da legenda latina: Ignis Natura Renovatur Integra, “Pelo Fogo se Renova a Natureza inteira”.

Por cima desta porta rasga-se uma janela de lambril artístico ladeada no cimo por duas cabeças humanas encapuçadas, com aspectos jovens. Representam a Inocência e a Virtude, e assim mesmo, em Alquimia, os descendentes filiais do Rei (Ouro) e da Rainha (Prata), como resultado da núpcia química deles, sendo o sinal hermético da presença da Pedra do Filósofo (Petra Philosophurum), representado imediatamente abaixo na figura do alquimista.

Esse “Rei” e “Rainha” aparecem mais acima nesta fachada, no terceiro andar, sobre colunas cobertos por dosséis. Trajados ao modo medieval, vê-se um casal defronte um para o outro nos lados de janelas de abertura gótica, onde ela representa a consciência lunar e a Prata, resultante da fusão do Mercúrio com o Enxofre, ou seja, da Alma com o Espírito, o que em Alquimia se chama conjunção. O homem, com armadura de cavaleiro, expressa a consciência solar e o Ouro, resultado da união do Enxofre com o Mercúrio. No extremo oposto à donzela, está um outro cavaleiro fitando o casal a guisa de pajem vigilante intercessor, em caso de necessidade, entre os dois, tal qual o Mercúrio é um elemento maleável intermediário entre um estado denso e outro subtil, assim mesmo como o deus do mesmo nome é o medianeiro entre os mundos inferior e superior. O pajem será, pois, a figura em que se esconde o próprio deus Hermes, isto é, Mercúrio. Mais abaixo, sob a janela ladeada pela senhora e o cavaleiro protector, aparece a cabeça dotada de sorriso inefável de um religioso com capuz, indicando o alquimista. Repete-se aqui a representação da Pedra Filosofal, que se extrai do Sal da Terra (por isso está abaixo das outras imagens alegóricas). Indica o próprio Sal, que como substância divina em Alquimia é a manifestação final da Pedra Perfeita ou Matéria-Prima. Em geral, o Sal indica a acção do pensamento, interpretado como o “Pensamento Uno” agindo na “Substância Única” do Universo, facto representado pelo alquimista meditando no seu laboratório exteriorização do da alma em que pensa, ora ou medita.

A cena repete-se noutro lambril, onde o “Rei” e a “Rainha” estão de costas um para o outro e a cabeça do alquimista abaixo aparece com rosto carrancudo. Esta cena representa o início da Grande Obra e a grande incógnita sobre o seu final, este que é assinalado pela cena semelhante descrita anteriormente. Carranca por temor quanto ao futuro; sorriso feliz no futuro alcançado.

Por fim, servindo de suportes às janelas, aparecem quatro figuras míticas de animais mistos de cães e salamandras, os dois extremos com asas. Representam os elementos fixos (sem asas) e voláteis (com asas), assinalando a relação entre o Enxofre (Fogo, Espírito) e o Mercúrio (Água, Alma), e assim mesmo os componentes básicos dos processos de Alquimia, os próprios elementos naturais que aos poucos vão sendo aprimorados até alcançarem a máxima perfeição.

À altura do segundo andar, vê-se uma chaveta que termina em flor-de-lis. Representa a Chave do Grande Arcano, este que é o conhecimento hermético da Natureza Universal aos poucos desvendado pelo verdadeiro Filósofo do Fogo, o Alquimista ou aquele que ora e labora sobre a Química de Deus, até ele mesmo se tornar Perfeito à semelhança do Criador.

POUSSIN “ET IN ARCADIA EGO”

Et in Arcadia ego é o título de duas pinturas pastoris de Nicolas Poussin (Les Andelys, Normandia, 15.6.1594 – Roma, 19.11.1665), sendo que a mais famosa é o óleo sobre tela, medindo 87 por 120 centímetros, com o nome Les Bergers d´Arcadie (“Os Pastores da Arcádia”), em exposição no Museu do Louvre, Paris.

Les Bergers d´Arcadie retrata três pastores debruçados sobre um túmulo onde está inscrita a frase latina Et in Arcadia ego, que um deles aponta inclinado enquanto um outro abaixado lê, quadro assistido por uma pastora erecta pousando a mão esquerda no ombro do pastor inclinado. Estão trajados nos moldes gregos da Antiguidade Clássica, um com túnica branca amarelada, outro azul e o terceiro de vermelho. A senhora traja camisa amarela e saia azul. O ambiente em volta mostra-se montanhoso com um bosque assimétrico ou de árvores dispersas, a mais expressiva um pouco atrás do túmulo.

A tradução literal da frase Et in Arcadia ego, que Nicolas Poussin copiou das Éclogas VII e X de Virgílio, é: “Mesmo na Arcádia, eu estou lá”, em referência à presença da Morte, o que levou alguns a interpretarem essa frase como “A Morte é mesmo na Arcádia”, para todos os efeitos, a cena é geralmente interpretada como um memento mori (“momento de morte”). Esta leitura era comum nos séculos XVIII e XIX, ainda que a primeira aparição de um túmulo com essa inscrição memorial seja feita nos Idílios de Teócrito (Siracusa, Sicília, c. 310 a. C. – c. 260 a. C.), tema que Virgílio (Andes, 15.10 de 70 a. C. – Brindisi, 21.9 de 19. a. C.) retomou nas suas Éclogas, pegando no ambiente rústico siciliano e transpondo-o para o cenário idílico da primitiva Arcádia grega. A ideia foi retomada durante o Renascimento florentino, no círculo cultural de Lorenzo de Médici entre 1460 e 1470, sendo que em 1504 Jacopo Sannazaro, na sua pintura Arcadia, fixou a percepção moderna desta como um mundo perdido de felicidade idílica, sendo essa a primeira representação pictórica do tema familiar memento mori. O tema Et in Arcadia egotorna-se concreto em Veneza, na versão pintada por Guercino entre 1618 e 1622, onde a inscrição ganha força com a presença proeminente de uma caveira em primeiro plano, abaixo da qual está essa frase latina, vulgarizada em Setecentos e Oitocentos.

Apesar de Et in Arcadia ego ser uma construção bem formada como frase nominal sem verbo finito, além de que a omissão do verbo substantivo é perfeitamente aceitável no Latim, alguns autores desconhecendo esse aspecto da gramatical concluíram que a sentença está incompleta e falta um verbo, especulando que ela oculta uma mensagem esotérica em código ou anagrama, que traduzem por: Tego Arcana Dei, “Guardo os segredos de Deus”, sugerindo que o túmulo contém os restos mortais de Jesus ou de outro personagem bíblico importante. E reforçam essa ideia com um outro anagrama: Arcam Dei Iesu Tango, “Eu toco o túmulo de Deus Jesus”. E para não faltar nada esses autores controversos afirmam que o “túmulo divino” retratado na pintura de Poussin, com a célebre inscrição, encontra-se em Les Pontils, perto de Rennes-le-Château, o que aparentemente é verdade…

Contudo, os investigadores Franck Marie, em 1978, e Pierre Jarnac, em 1985, concluíram que essa sepultura era simples e fora iniciada em 1903 pelo proprietário da terra, Jean Galibert, que nela enterrou a sua mãe e avó. Os seus corpos foram exumados e reinterrados noutro lugar, possivelmente no cemitério da aldeia, quando essa terra foi vendida a Louis Lawrence, um americano do Connecticut que tinha emigrado para a região. Ele enterrou a sua mãe e avó na sepultura deixada vazia e construiu sobre ela o sepulcro de pedra com a legenda Et in Arcadia ego. Aos investigadores Franck e Pierre o filho de Lawrence, Adrien Bourrel, testemunhou que viu a construção do sepulcro em 1933, quando era um adolescente.

Os seguidores das ideias fantasistas e chauvinistas de Pierre Plantard, que teve tempo para inventar o seu «priorado de Sião» enquanto esteve preso acusado de defraudar a Câmara de Paris, ainda assim argumentam que o túmulo em Les Pontils foi um «protótipo» para a pintura de Poussin, que estava localizado em frente a uma casa de campo (por detrás da folhagem) e não no “meio do nada” no interior da França, como é comummente assumido por quem acredita em estórias fantásticas… Com a permissão das autoridades locais, esse túmulo foi demolido em 1988 pelo proprietário do terreno.

A supradita frase latina da pintura de Poussin tão-só significa que na Terra tudo é perecível, está sujeito à lei da Morte, até os habitantes da Arcádia, representados nos pastores expressivos do estado nómada ou móvel da civilização humana, enquanto a pastora incorpora a própria Morte, cujas cores das vestes, amarela e azul, reflectem a sabedoria e a devoção espirituais que lhe dão a segunda condição de simbólica da Imortalidade. Nisto, a Arcádia no plano físico representa o Paraíso Terreal sujeito à Lei da Morte ou da Transformação universal dos elementos, mas também expressa o seu aspecto superior como Paraíso Espiritual, já da lei da Morte liberto… Nisto, o pastor vestido de vermelho sobre quem repousa a mão da pastora, simboliza a matéria perecível, sobre quem pesa a Morte. O pastor vestido de azul que lê a legenda que aponta como o anterior, representa a alma humana, também sujeita à lei da extinção, enquanto o pastor vestido de branco amarelado fitando o de azul, vem a representar o Espírito imortal que despreza a Morte por estar acima da mesma. Tratam-se das três condições humanas fixas nos três atributos (o que é simbolizada pelo bordão que todos eles ostentam) ou “qualidades subtis da matéria” (Gunas) que os hindus chamam de Satva, Rajas e Tamas, ou seja, energia centrífuga (Espírito e Mente), energia equilibrante (Alma e Emoção) e energia centrípeta (Corpo e Matéria).

Identificada ao Parnaso ou Paradisu, o Paraíso ou Éden, a Arcádia era o lugar reservado e ocultado dos filósofos e artistas que através das suas artes iam superando a sua mortalidade. Viviam rodeados de deuses e ninfas num permanente culto do amor, facto que as sacerdotisas arcadianas da Grécia Antiga celebravam em ninfeus, isto é, templos religiosos consagrados ao culto das ninfas inspiradoras dos filósofos e artistas. Nesses templos havia sempre uma fonte sagrada, e os sacrifícios oferecidos às ninfas geralmente incluíam cabritos, cordeiros, leite e azeite, mas nunca vinho. O lado positivo do entusiasmo ninfoléptico é a inspiração divina, indispensável aos oráculos e aos poetas.

De maneira que o Parnaso, também pintado por Nicolas Poussin, torna-se um Mons Sacer, Montanha Sagrada, um locus amoenus, “lugar ameno” (loka, em sânscrito) interpretado como Paraíso Terreal ou Arcádia, consoante a sensibilidade de místicos, filósofos, poetas e artistas de todos os tempos e credos. A expressão latina de “lugar ameno” é um dos tópicos da literatura clássica usado com frequência na época medieval e renascentista, e que se opõe a locus horrendus, “lugar horrendo” (sinónimo de sociedade dessacralizada e desnaturalizada, assim mesmo igualmente significativo de tala, em sânscrito), empregue no Romantismo. O locus amoenus consiste na descrição da paisagem ideal, num ambiente de tranquilidade, bucólico ou pastoril, sendo ainda o tema escolhido para descrever o retorno do Homem à Natureza, à Felicidade e ao Paraíso Perdido, a mesma Arcádia como lugar sagrado na medida em que assume uma tripla manifestação simultânea como Céu, Terra e Inferno, ou Supramundo, Mundo e Submundo, tudo concentrado nela mesma, o que de certo modo os três pastores e a pastora, aqui corporizando a Arcádia, também representam:

Pastor de vestido amarelo – Monte da Arcádia – Céu, Supramundo; Pastor vestido de azul – Floresta da Arcádia – Terra, Mundo; Pastor vestido de vermelho – Gruta da Arcádia – Inferno, Inframundo. Pastora: a Arcádia no todo. Túmulo com legenda: onde se encerra a mensagem central de Les Bergers d´Arcadie de Poussin, acabada de descrever, a de que um e todos podem libertar-se da lei da Morte e alcançar o Paraíso Terreal, desde que para isso cada um evolua por seus próprios e meritosos esforços.

O “HOMEM VERMELHO” DAS TULHERIAS

O palácio das Tulherias está assombrado por uma lenda urbana vazada em factos esotéricos inexplicáveis para as gentes comuns: trata-se do fantasma do pequeno, ou grande, “homem vermelho”, alma penada que traz a desdita da má sorte a quem tiver o azar de com ela se cruzar.

A história recua ao século XVI e à pessoa de Catarina de Médicis (1519-1589), famosa pela sua corte de envenenadores, adivinhos e interesse na magia negra, para cujos rituais contava com um certo indivíduo obscuro chamado Jean, o magarefe, que vivia perto do palácio das Tulherias e tinha acesso à câmara da rainha e aos seus segredos mais íntimos. Este Jean era um reputado adivinho e grande coscuvilheiro da vida da coroa, dizendo-se que tentou chantagear Catarina com larga soma de dinheiro em troca do seu silêncio. Vendo que ele sabia demais, ela mandou-o assassinar. Mas o seu carrasco, um certo Neuville, só depois de desferir muitos golpes de punhal é que conseguiu matar o infeliz que, coberto de sangue (donde o epíteto “homem vermelho”), ainda teve forças para proferir esta ameaça: “Eu voltarei”. O corpo do morto foi feito desaparecer logo depois do crime, e o assassino Neuville ficou com a impressão de que a vítima o perseguia por toda a parte, acabando por enlouquecer e matar-se, por não suportar mais a presença terrível do fantasma vingador.

Alguns dias mais tarde, o astrólogo de Catarina de Médicis, Cosme Ruggieri, contou-lhe uma visão horrível que tivera: aparecera-lhe o fantasma do homem ensanguentado que lhe predisse a morte próxima da rainha e que grandes desgraças iriam acontecer aos futuros moradores do palácio e a este mesmo. A aparição fantasmagórica revelou ao astrólogo que “a rainha morreria perto de Saint-Germain”. Aterrorizada com a predição, ela decidiu nunca mais frequentar a paróquia de Saint-Germain-l´Auxerrois ou o castelo de Saint-Germain-en-Laye. Morreu em Blois, pouco depois de lhe ter aparecido o espectro “coberto de sangue”. No momento final de expirar, estava junto dela um padre para dar-lhe a extrema-unção. O seu nome: Laurent de Saint-Germain!

Há quem contraponha que esse Jean l´écorcheur (“o magarefe”) nunca existiu e não passou da alcunha de um famoso e sanguinário bandido cujo nome verdadeiro era Johannes Bückler (Schinderhannes), nascido perto de 1778 em Miehlen, na Alemanha. Era o chefe de uma perigosa quadrilha que aterrorizava a região, então francesa, de Mayence, onde acabou por ser preso, julgado e guilhotinado em 21 de Novembro de 1803.

Johannes Bückler, o magarefe

Poderá ser… mas o facto é que o fantasma das Tulherias continuou a fazer as suas aparições fatais aos moradores do palácio, anunciando sempre um drama para aquele(a) a quem aparecesse. Assim, em Julho de 1792 ele apareceu a Maria Antonieta, pouco antes da queda da monarquia, quando o palácio das Tulherias era a residência da família real. Bem se sabe o que aconteceu depois à rainha… ficando sem coroa e sem cabeça sob o guante de “madame Guilhotine”.

Depois, sob o Império, sabe-se que um “homem de capa e capuz vermelhos” terá aparecido a Napoleão Bonaparte perto do palácio das Tulherias, com a melhor das intenções a seu respeito, predizendo-lhe a vitória militar na batalha das Pirâmides, no Egipto, o que aconteceu, e logo desaparecendo misteriosamente. Quando Napoleão quis tornar-se dono do mundo, um ditador universal concentrando exclusivamente na sua pessoa o poder temporal e a autoridade espiritual, o “homem vermelho” tornou a aparecer-lhe em 1815, algumas semanas antes da batalha de Waterloo, e predisse-lhe a sua derrota eminente e a derrocada do seu império, o que também aconteceu.

Finalmente, o “homem vermelho” apareceu a Luís XVIII e ao seu irmão, o conde d´Artois, alguns dias antes da morte do primeiro por saber do mistério de Luís XVII e ter-se desinteressado dele. É o que se diz em sussurro…

O “homem vermelho das Tulherias” manifestou-se uma última vez durante o braseiro aceso pelos comunardos. Em 23 de Maio de 1781, durante o incêndio do palácio, várias testemunhas afirmaram que viram perto da sala dos Marechais assomar à janela, no meio das chamas, a silhueta de um pequeno homem vermelho que se confundiu com o fogo… desaparecendo para sempre e ficando a sua lenda.

A interpretação esotérica do “homem vermelho” diverge inteiramente da versão popular ou profana. Afirma a Tradição Iniciática que há um Governo Oculto do Mundo composto de Homens Perfeitos, santos e sábios dotados de enorme poder humano e espiritual aos quais os orientais chamam Mahatmas e os ocidentais de Superiores Incógnitos.

Tais Adeptos Perfeitos sempre existiram em qualquer parte do Globo em todos os tempos, e que existem diversas maneiras dos mesmos se reconhecerem entre si, seja através de “sinais secretos”, de “palavras de passe” ou mesmo de “credenciais” conformadas a cada uma das sete Linhas ou Raios (do Sol Espiritual, ou a Essência do Sol Físico) a que pertençam. Tais Raios promanados do Sol Central sobre a Terra através dos sete Planetas tradicionais, são: 1.º Raio do Sol (laranja) – domingo; 2.º Raio da Lua (violeta) – 2.ª feira; 3.º Raio de Marte (vermelho) – 3.ª feira; 4.º Raio de Mercúrio (amarelo) – 4.ª feira; 5.º Raio de Júpiter (púrpura) – 5.ª feira; 6.º Raio de Vénus (azul) – 6.ª feira; 7.º Raio de Saturno (verde) – sábado.

“Credenciais entre Adeptos”: sinais secretos de reconhecimento entre eles, palavras secretas só conhecidas deles, etc. Por outro lado, os Raios Planetários que representam são identificados pelas cores das suas indumentárias, sobretudo as capas. “Credenciais de Adeptos” ante reis e papas: documentos redigidos e assinados pelos Chefes das Fraternidades Ocultas donde são enviados em Nome do Chefe Supremo do Governo Oculto do Mundo: o Rei do Mundo (Rigden-Djyepo, Sanat Kumara, Ardha-Narisha, Chakravarti, Brahmatmã, Melkitsedek, Rotan, Imperator Universalis, etc.).

Quando alguns desses Mestres Reais estão investidos de missões especiais, mantêm-se em segredo afastados uns dos outros, e aparecem misteriosamente encapuçados aos monarcas e pontífices dando-lhes bons conselhos que irão decidir a sua felicidade, dos seus povos e religiões, ou então advertindo-os severamente das consequências breve prazo dos seus maus actos, quando se afastam a Lei Divina que esses Superiores Incógnitos representam. É assim que aparecem os tradicionais “homens do manto vermelho”, representando o Raio Espiritual de Marte, incarnando a mesma Justiça Universal. Conselheiros e castigadores de reis e imperadores, rainhas e imperatrizes, papas e bispos, esses Superiores Incógnitos são a própria Voz julgadora de Deus, premiando ou castigando conforme os actos cometidos.

Por certo o “Homem de Capa Vermelha”, o “Encapuçado” de que fala o próprio Cagliostro nos seus escritos, era o próprio Saint-Germain, na sua função dupla espiritual e temporal, nesta como avatara de Akdorge – Raio Espiritual de Marte, o “planeta vermelho”.

Conde Saint-Germain

Catarina de Médicis enveredou pelo caminho da magia negra e foi advertida e castigada por um desses “homens do manto vermelho”; Maria Antonieta fez-se surda aos apelos do povo faminto e também pagou o tributo mortal após aparecer-lhe um “homem encapuçado todo vestido de vermelho”; Napoleão, tendo jurado servir o bem comum, em breve usou dos seus poderes para proveito próprio e o “homem da capa vermelha” ditou o seu destino fatal; o mesmo para Luís XVIII, e também para o próprio palácio das Tulherias palco do espavento, vaidade e luxúria de uma corte decadente, moral e fisicamente, que o fogo comunardo veio purificar em meio à silhueta justiceira de um misterioso “homem vermelho” que, vez por outra, aparece para acusar as mentes impuras da corrupção dos seus actos.

Os nomes e figuras de tais Homens misteriosos ocultam-se no próprio mistério da sua existência, ainda assim parecendo que “homens de capa vermelha” ou “de capa amarela” terão sido Cagliostro e Saint-Germain, como conselheiros e juízes de cortes decadentes cuja queda precipitaram, não sem antes terem aconselhado os seus membros principais, e assim mesmo proporcionando possibilidades de maior progresso social e espiritual do Género Humano.

O JURAMENTO SECRETO DE NAPOLEÃO BONAPARTE

No friso da cimalha de um edifício da Cour Napoléon, no espaço do Museu de Louvre, aparece o busto do imperador Napoleão Bonaparte ladeado pelas musas da prudência e reflexão, com a águia imperial adiante dele. Este conjunto é interpretado por alguns como uma alegoria da natureza solar ou apolínea de Bonaparte, inclusive interpretando o nome Napoléon como neo Apolo, interpretação filológica fantasista notoriamente forçada, mesmo havendo um fundo de verdade nisso mas completamente afastado das interpretações folclóricas do actual «new age» urbano.

Napoleão Bonaparte, em francês Napoléon Bonaparte, nascido Napoleone di Buonaparte (Ajaccio, Ilha de Córsega, 15.8.1769 – Ilha de Santa Helena, 5.5.1821) filho de Carlo Maria Bonaparte e Maria Letizia Ramolino, foi o grande líder político e militar durante os últimos estágios da Revolução Francesa, e adoptando o nome de Napoleão I foi o imperador absolutista da França, reunindo na sua exclusiva pessoa o Trono e o Altar, o Poder Temporal e a Autoridade Espiritual, de 18 de Maio de 1804 a 6 de Abril de 1814, posição que voltaria a ocupar por escassos meses em 1815 (20 de Março a 22 de Junho). A sua reforma legal, o Código Napoleónico, teve uma grande e decisiva influência na legislação de vários países, e através das Guerras Napoleónicas foi responsável por estabelecer a hegemonia francesa sobre a maior parte da Europa. Por todas estas razões, o imperador é considerado um autêntico “deus Sol” que mudou para sempre o rosto político europeu e americano, abrindo um novo capítulo de progresso universal.

Apesar de tudo isso, Napoleão I foi um “traidor” do ponto de vista iniciático, a razão única da sua carreira política brilhantíssima e do seu incomparável génio militar terem se apagado abruptamente, terminando os seus dias, sofrendo de cancro no estômago, exilado em Santa Helena. Para explicar essa “traição”, ter-se-á de recuar ao momento da sua campanha militar do Egipto (1798-1801) e ao confronto do imperador com a Esfinge e a Grande Pirâmide de Keophs, no vale de Gizeh, deixando-o assombrado a ponto de dizer, quase em êxtase religioso, aos seus soldados que praticavam tiro de canhão contra a mesma Esfinge (tendo-lhe quebrado o nariz): “Respeitem o que vedes! Do cimo destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”!

Há várias referências históricas ao acontecimento insólito de Napoleão ter passado uma noite no interior da Grande Pirâmide, na sua cripta subterrânea, três dias após ter feito trinta anos de idade (tudo somado, dias e anos, dá o famoso 33…), e a maioria dessas referências (de origem maçónica, diga-se de passagem) situam o ocorrido na madrugada de 17 para 18 de Agosto de 1799, apesar de não estarem discriminadas e só sugeridas, certamente devido ao juramento de silêncio sobre o que aconteceu, no diário de Napoleão (escrito pelo seu camareiro e confidente Emmanuel Augustin, conde Las Cases, já durante o exílio do imperador em Santa Helena, e que no ano seguinte à morte deste publicaria as suas memórias com o título O Memorial de Santa Helena, havendo a seguinte citação misteriosa no tomo sexto, atribuída ao próprio Napoleão: “Desde que passei às regiões exteriores caí nas trevas, mas então Merlin socorreu-me. Ele iluminou-me como um archote. Brilhante, é muito erudito, sábio, justo e honesto”). A Tradição Iniciática diz que Napoleão terá acedido de boa vontade a ser introduzido no interior da Grande Pirâmide, a fim de prestar Juramento inviolável ao Governo Oculto do Mundo diante do seu Rei na pessoa do Ptahmer ou Grão-Mestre da Ordem que o representava, conhecida como Kaleb (donde também se diz que proveio para a Europa o Encapuçado Saint-Germain, ou em bom português, São Germano, “Santo Irmão”). Foi em tal momento que se prometeu a Napoleão Bonaparte maior protecção secreta, se ele concordasse e quisesse trabalhar a favor da organização dos Estados Unidos da Europa. Bonaparte aceitou. E depois de prestar o Juramento diante de inúmeras testemunhas, voltou a França.

O “Ser brilhante, Merlin” ou Mago Soberano descrito por Napoleão, seria um Serapis (Ser+Apis = Ser Divino), a cuja Linha pertenceria Mourat-Bey, um dos implicados no processo da Grande Pirâmide. Contudo, devo informar que nos tomos do diário do imperador há muitos elementos que escapam ao entendimento do leitorado geral e por certo escaparam à percepção do próprio Las Cases, como se nota em várias passagens incongruentes e contraditórias por vezes na mesma frase, pois este biógrafo apesar de pertencer à Maçonaria franco-britânica estava completamente fora dos Grandes Mistérios do Governo Oculto do Mundo. O próprio Napoleão não tinha percepção profunda dos mesmos, e o que sabia era o estritamente necessário para cumprir a Missão que lhe fora confiada.

Já antes do acontecimento na Grande Pirâmide, no mínimo insólito só conhecido de alguns (apesar das referências feitas por Las Cases no dito Memorial de Napoleão, mas que outros acrescentam que além dessa biografia volumosa há ainda outros documentos, relatando detalhadamente o sucedido, reservados nos Anais do supradito G.O.M.), em Abril desse mesmo ano de 1799 Napoleão havia passado outra noite inexplicável em Nazaré, pernoitando onde se pressuponha que fora a casa da Sagrada Família, isso após ter vencido os mamelucos na Batalha do Monte Tabor, Palestina, lugar apontado como o da Transfiguração de Jesus Cristo, e onde se encontrou em privado com o chefe mameluco Mourat-Bey. Após, regressou ao Egipto seguindo rota idêntica à tradicional descrita nas escrituras como a percorrida por José, Maria e o Menino Jesus, na sua fuga ao infanticida Herodes. Muitas «casualidades» jamais explicadas pelo próprio protagonista. Tantas como as de instalar no Cairo um “esquadrão” de 167 sábios destinados a recolherem tudo quanto pudessem da Sabedoria do Antigo Egipto, culminando com a descoberta da Pedra de Roseta, espécie de dicionário da primitiva escrita hieróglifa egípcia, no mesmo ano de 1799.

Após deixar o País do Nilo de regresso a França, liderou o Golpe de 18 de Brumário (Novembro de 1799), que o converteu em Primeiro Cônsul, e cinco anos depois o Senado proclamou-o Imperador. Ainda em 1799, começam a surgir referências (em testemunhos orais, e que o Memorial refere como “visitante incógnito” ao longo dos seus vários tomos) ao seu misterioso conselheiro e confidente, o famoso “Homem da capa vermelha” das Tulherias, que lhe terá profetizado: “Tu serás feliz enquanto eu te proteger. Mas se eu te abandonar, o teu destino é o desterro…” É também quando o traçado de Paris e a sua decoração aparecem seguindo critérios egípcios.

O Mundo Oculto ou Iniciático, através da Maçonaria (que na época representava a própria Tradição Espiritual oposta ao conservadorismo católico, e assim mesmo representando a liberdade e a cultura dos povos invés da sua escravidão e autismo psicofísico), insuflava-se junto ao corso “escolhido ou eleito” por seus valores ímpares de génio, o que revelava desde criança. Com efeito, o seu pai fora maçom, como também o seu irmão mais velho, Joseph Bonaparte, que chegou a ser rei de Espanha, e a sua própria esposa, Josefina de Beauharnais (23.7.1763 – 29.5.1814), aclamada imperatriz dos franceses, terá liderado uma Loja Feminina maçónica alguns anos depois da Campanha do Egipto. Porém, o mais interessante e significativo, é que muitos dos generais e sábios que o acompanharam na dita Campanha, possuíam altos graus da Maçonaria Tradicional de então.

Napoleão mostrou-se um conquistador invencível, sabia onde atacar o inimigo e quando. Era informado de tudo. Inúmeros agentes encontravam-se à sua disposição, e foi assim que se tornar vitorioso nas famosas batalhas universalmente conhecidas. Mas a fama aduladora e a vaidade de adulação ensandecem-no, e esquece ou despreza o seu Juramento solene diante dos “Superiores Incógnitos”, os Iluminatti ou Iluminados, os Mestres Espirituais do Mundo (Mahatmas) a quem prometera laborar pela Concórdia Universal dos Povos. Ao contrário disso, o que fez? Colocou os seus irmãos e irmãs nos tronos da Europa, ficando a família Bonaparte a dominá-la, e além dele próprio se tornar imperador dos franceses (1804), em 26 de Maio de 1805 obrigou o Papa Pio VII a coroá-lo rei de Itália, incluindo o Vaticano, assim anexando para si a exclusividade dos Poderes Temporal e Espiritual do Mundo, desta maneira auto-assumido “rei do mundo” ou “imperador universal”. O Papado resiste-lhe, e ele resiste a esse, pois que uma completa mudança tinha-se dado nele… Traiu, portanto, o seu Juramento, querendo realizar tudo em proveito da sua ambição pessoal. Ele considerava-se superior a quaisquer “Superiores Incógnitos” cujas ordens menosprezou abertamente. Mais uma vez, o “Homem da capa vermelha” procurou chegar à sua presença, mas… o ingrato recebeu-o debaixo de ridículo (como confessa amargamente a Las Cases). Chegou mesmo a exasperar-se com o seu fiel conselheiro de outrora, quando este lhe lembrou “o Juramento que fizera na cripta subterrânea da Grande Pirâmide”… e quando deu ordem para prendê-lo, como por encanto o mesmo desapareceu diante de si como um fantasma das Tulherias.

Desde então, Napoleão Bonaparte ficou abandonado às suas próprias forças. Começou a perder todas as batalhas, até desfechar na de Waterloo, e com ela também perdeu a Coroa. Por fim, a Inglaterra apoderou-se do “traidor” e aprisionou-o em Santa Helena, onde por certo ele pôde meditar à-vontade sobre semelhante “traição”. Pobre Napoleão Bonaparte!

Semelhante história, completamente desconhecida até dos académicos mais ilustrados, não diminui, no entanto, as suas glórias. E isso também concorre para que a França, por sua vez, seja gloriosa perante os demais povos do mundo. Pode-se, pois, admirar o génio de Napoleão Bonaparte, que venceu todos os generais da Europa e realizou verdadeiros milagres em arte militar que hoje não se conseguiriam realizar, mesmo com arsenal bélico muito mais avançado que o dessa época.

Realmente, já havia um imperador na Europa pelo que Napoleão escusava, por conta própria vítima do seu narcisismo e presunção, auto-coroar-se tal e com isso dar início ao seu fracasso humano e espiritual, e consequentemente lançar por terra a pretensão da Grande Loja Oculta de, através dele, realizar o seu projecto sinárquico de fundação dos Estados Unidos da Europa, depois da África e finalmente das Américas… Esse imperador que já havia nos confins do continente europeu era o português: D. João VI, Senhor do Reino Unido de Portugal, Algarves (África) e Brasil.

De maneira que a Hierarquia Branca, representando e sendo a Lei de Deus na Terra, acabou “escrevendo direito por linhas tortas”: com as três invasões de Portugal pelo exército napoleónico e uma, duas, três vezes derrotado, o imperador português, D. João VI, foi forçado a exilar-se na sua própria terra, não fugindo do país mas procurando refúgio seguro nos confins do mesmo em 1815: o Brasil, passando São Sebastião do Rio de Janeiro a ser capital do Império Lusitano. Começava a sobressair o Ex Oriens Umbra a favor do cada vez mais refulgente e dominador universal Ex Occidens Lux!

O desígnio e propósito da Excelsa Hierarquia Branca dos “Irmãos de Pureza” (Bhante-Jauls), os únicos e verdadeiros Illuminati ou Mahatmas, mesmo que contrariados contrariavam as Forças do Mal. Portugal jogava papel destacado na fundação do Grande Ocidente com o concurso proeminente, apesar de discreto, da Soberana Ordem de Mariz (que não está extinta, mas sim vedada para o século ou ciclo profano desde os meados do século XV-XVI, e assim interiorizada mantém as suas funções próprias para a Europa e o Mundo, vez por outra aparecendo um seu representante ou vários sobre a Terra, como foi o caso, já no século XX, do Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves). Tanto assim é que há referências históricas às presenças dos Condes Saint-Germain e Cagliostro em Portugal, este último como principal mas discreto implicado no resgate e fuga do Delfim Luís XVII para o nosso país, onde até o famoso “colar da rainha” também veio, além de outros objectos e pessoas que reservam-se ser citadas. Eis as tramas da História escrita pela Governo Oculto do Mundo que nem os mais profícuos ocultistas e teósofos conhecem…

Como disse, com todos os factos expostos estreitamente ligados entre si criando uma intrincada teia de aranha de ouro desembocando em seu centro no assinalado Extremo Ocidente da Europa, este assunto é muito mais profundo do que se supõe e chega, inclusive, ao continente americano, propriamente o Brasil, onde também chegou a influência napoleónica, facto igualmente referido por Las Cases. Mas esse já é outro capítulo de uma história intrincada repleta de mistérios cuja base, repito, é…. Portugal e o “sang de Cape”, sim, “sangue de Capeto”, mas também de Encapuçado, de Adepto Real profundamente ligado aos Mistérios do Santo Graal, quer como Objecto, quer como estado de Consciência – o Quinto, Manas-Arrupa, Mental Superior Iluminado (desperto, formado e alinhado à mente concreta, logo, à personalidade) ou Manas Taijasi (Consciência de Espírito Santo, o Terceiro Logos Criador) embocando e desembocando por Sura-Loka, a Âmbula do Verbo Divino ligando o Coração da Europa, França, à sua Cabeça, Portugal, o sempre renovado “Lugar da Luz”, vale dizer, Lux-Citânia, a Lusitânia “Tebaida dos Assuras” do Novo Ciclo a Luzir.

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