O meu reconhecido agradecimento ao senhor doutor Rui Pires, dedicado investigador da história da Quinta da Torre de Coina e devotado amigo da terra, por todas as informações que me disponibilizou e confiou.

O Autor

Dominando a paisagem circundante, altiva e estranha, a Torre do Inferno encontra-se junto à Estrada Nacional n.º 10 em Coina, freguesia do Concelho do Barreiro, dentro da propriedade do famoso e controverso Manuel Martins Gomes Júnior, o “rei do lixo”, que deu brado em Lisboa e na margem sul do Tejo nos primeiros decénios do século XX.

A quinta onde se encontra a também chamada Torre de Coina chamava-se no século XVIII Quinta de São Joaquim e era um pouso, lugar de recreio e passagem entre as duas bandas do Tejo e deste para o Além-Tejo (Alentejo), que “mandou fazer a sua fazenda (expensa)” Joaquim de Pina Manique, desembargador da Casa da Suplicação, “cavaleiro fidalgo da Casa de Sua Majestade e professo da Ordem de Cristo no Mestrado da mesma Ordem”, irmão mais novo do célebre Intendente-Geral da Segurança Pública no reinado de D. Maria I, Diogo Inácio de Pina Manique, o ultra-conservador que fundou a Casa Pia de Lisboa. Ainda hoje a marca de D. Joaquim está patente na quinta, numa inscrição lapidar encimada pela Cruz de Cristo incrostada no muro da propriedade. Com as mudanças políticas ocorridas no século XIX e a dispersão da família Pina Manique, a propriedade entrou numa fase de abandono e decadência até que, nos finais desse século, foi comprada pelo famoso “rei do lixo” que vinha construindo um império a partir do nada!

A vida de Manuel Martins Gomes Júnior replete-se de contradições em lances “claros-escuros” onde a obscuridade dos factos é maior que a clareza dos actos, motivo que tem levado os seus raríssimos biógrafos a confessarem ser a mesma mais conhecida pelas maledicências e incoerências dos inúmeros inimigos que Manuel Martins granjeou ao longo da sua vida que pelos factos concretos, os quais por se manterem desconhecidos impossibilitam a feitura da sua biografia com veracidade exacta.

Manuel Gomes Júnior nasceu em 11 de Novembro de 1860 no seio de uma família humilde em Santo António da Charneca, no Barreiro, filho de Manuel Martins e de Maria Gertrudes Martins. Desde cedo prometera a si mesmo mudar da vida miserável e tornar-se rico, e foi o que fez! Após ter trabalhado durante algum tempo como marçano em Lisboa e juntado algumas economias, regressou ao Barreiro onde comprou uma padaria de venda de cereais; para ter autonomia no negócio, adquiriu o moinho de água de moagem de cereais em frente à Quinta de São Vicente, que também viria a ser sua e onde fundaria a Sociedade Agrícola da Quinta de São Vicente. Posteriormente, com a compra de propriedades rurais a norte e a sul do Tejo, sobretudo no Alentejo, fundou a Companhia Agrícola de Portugal, contribuindo consideravelmente para o desenvolvimento sócio-económico da lavoura e agropecucária no país, mormente na região sul. Diz-se – sem prova nenhuma mas originada no bulício inflamado das inimizades republicanas/monárquicas do seu tempo – que após assinar um contrato com uma seguradora ele próprio terá ateado fogo ao moinho, e como nunca se provou que não tivesse sido acidente foi indemenizado com uma elevada quantia. Com parte desse dinheiro comprou uma pequena propriedade e entregou-se à especulação agrícola, emprestando dinheiro, sob pesados juros, aos proprietários vizinhos de Coina para cultivarem os seus terrenos. Numa época em que as colheitas foram más e os agricultores não tiveram como saldar as dívidas contraídas, Manuel Gomes não lhes perdoou: anexou as parcelas dos devedores à sua, formando assim uma quinta com mais de 300 hectares. Já em 1908 era dono da Quinta da Trindade na Azinheira, Seixal, tendo chamado a si a reconstrução do edifício apalaçado e construído ainda o «castelinho», nesse que fora propriedade de D. Brites Pereira, sobrinha de D. Nuno Álvares Pereira, que aí fundara a ermida da Senhora da Boa Viagem para os religiosos da Ordem da Santíssima Trindade, extinta em 1834. Foi assim, também, que a partir de 20.5.1897 (segundo a Carta de Arrematação do Ministério das Finanças) a Quinta do Manique ou de São Joaquim ficou na sua posse, tudo graças aos seus dotes de especulador, diz a vox populi sentenciosa. Tornou-se um grande proprietário, e havia que rentabilizar o terreno. Dedicou-se à suínicultura após firmar um contrato com um grande negociante e exportador de carnes de Lisboa. Alugou-lhe o espaço da quinta para criação de porcos e participou no negócio de exportação de carnes. Pouco tempo depois o seu sócio morreu e Manuel Gomes assumiu o controlo total do negócio, passando a ser um rico negociante de carnes. Devido à sua inclinação natural para os negócios e ao seu carácter empreendedor, atingiu o auge ao assegurar o controlo da recolha dos lixos em Lisboa (à altura os lixos eram apenas matéria orgânica) com a arrematação feita com a respectiva Câmara em 27 de Março de 1907, transportando-os para Coina nas suas cinco fragatas para servirem de alimento aos porcos, não gastando com isso um só tostão! Morreu na sua Quinta da Alfarrobeira, na Estrada do Calhariz de Benfica, e foi enterrado um dia após a sua morte, no cemitério do Alto de São João em 9 de Novembro de 1943, numa simples cova aberta à última hora, nas traseiras de majestosos jazigos, tendo por última mortalha quatro tábuas de pinho forradas de pano preto e por acompanhamento, além de raras pessoas de família, meia dúzia de amigos que conseguiram romper a discrição em que o acto se envolveu. Vítima de doença prolongada, ainda assim a lenda popular insiste que ele morreu em circunstâncias estranhas cujas causas nunca foram apuradas.

Após a sua morte, a Quinta da Torre de Coina passou para o seu genro António Zanolete Ramada Curto e tornou-se o principal centro agrícola da região. Em 1957 vendeu-a a José Mota, irmão dos grandes proprietários e industriais de curtumes Joaquim Baptista Mota e António Baptista Mota, que mudaram o nome do imóvel para Quinta de São Vicente fundando aí a Sociedade Agrícola da Quinta de São Vicente, transformando a propriedade numa importante exploração pornícola. Igualmente melhorou-se o seu jardim palaciano, o labirinto de arbustos, a escadaria de pedra, o pomar e as palmeiras em volta da capela.

Em 1972 a herdade foi novamente vendida, desta vez a António Xavier de Lima, conhecido urbanizador da margem sul. Este afirmou publicamente possuir um projecto para reconverter a quinta e transformar o palácio numa pousada com cerca de 85 quartos. Mas na noite de 5 de Junho de de 1988 o palácio foi totalmente devorado pelas chamas de um incêndio, que não poucos dizem ter sido ateado de propósito. Xavier de Lima disse depois ao jornal A Capital que o restauro do imóvel implicava um investimento não suportável. Desde aí o palácio com a torre e a quinta em volta encontram-se num total abandono, já tendo abatido toda a parte intermédia e o terceiro terraço do edifício, a cada dia transformando-se mais e mais numa enorme ruína este que é o ex-libris da histórica vila de Coina cuja autarquia, sem dúvida, deveria cuidar melhor do seu património, muito mais sendo este um exemplar de arquitectura única no país construído com os mais ricos materiais da época.

Manuel Martins Gomes Júnior e a sua família nunca habitaram esta Quinta da Torre (por as suas obras terem sido interrompidas cerca de 1913-1914, deixando o imóvel incompleto), mas o facto de tê-la adquirido e lhe imposto o aspecto realengo imponente como espécie de memória póstuma do primitivo pouso cujo donatário estava ligado à Casa Real, sendo também ele “rei” (do lixo) por certo quis ter um palácio condigno com tal título, ou melhor, alcunha, que os mais desaforados de Coina também apodavam de “porco sujo”. Com isso descurava-se o óbvio da sua intenção: contribuir para a higiene pública da capital então frágil em cultura profiláctica, ao mesmo tempo que a sua perspicácia empresarial via nisso uma forma gratuita de aumentar a sua riqueza. Diz a vox populi que foi a sua vingança republicana sobre o regime monárquico, pousando no lugar dos antigos cortesãos lixo e porcos. À propriedade rebaptizou-a com o novo e inquietante nome de Quinta do Inferno, com a sua Torre do Diabo que mandou fazer em 1910, dizendo-se que transformou a capela da quinta em armazém e estábulo (sendo certo que em 1906 abriu uma escola dotada na mesma que ofereceu à educação gratuita dos seus empregados e filhos), e às suas fragatas transformadas em arrastos do lixo deu-lhes os nomes de Mafarrico, Mefistófeles, Demo, Diabo, Satanás, Belzebu, Horrífico, Caronte, Plutão, Averno e outros mais mimosamente escolhidos para chocar a conservadora e católica flora. Por certo tratou-se de uma provocação desaforada ao regime eclesiástico secular que a recente Revolução de 5 de Outubro depusera, mas com isso ficou até hoje com fama de ateu anti-deísta impenitente dotado de um feitio irregular e pouco afectivo.

Casado com Maria de Oliveira Bello (1871 – 23.7.1967), às suas duas filhas legítimas pôs os nomes de Ceres e Cibele, e às ilegítimas anteriores ao casamento, os de Proserpina e Flora, enquanto um sobrinho recebeu o nome de Libertino e a um outro afilhado quis pôr-lhe o nome de Livre Pensador, e como tal não foi possível após reflectir um instante mandou que lhe chamassem Rodas Nepervil, que é o nome anterior lido ao contrário. Estes nomes são já um sinal claro de erudição requintada de Manuel Martins e também, aparte a óbvia provocação desaforada ao regime eclesiástico, indício da sua afiliação e perfilha secreta do pensamento hermético greco-latino adoptado sobretudo pela Maçonaria do tempo.

Figura política de peso na época, republicano e humanista, foi regedor de Santo António da Charneca, construiu a primeira escola de ensino primário na freguesia, financiou colectividades, fundou a supradita Companhia Agrícola de Portugal, concedeu regalias aos seus funcionários e protegeu os pobres. Foi um apóstolo do ideal de “sociedade republicana” justa e igualitária que se sonhou nos primeiros tempos do regime, o que se conformava ao ideal político perfilhado pela Maçonaria Portuguesa na qual Manuel Martins seria afiliado, o que não está provado mas tabém não descartada a hipótese severa de o ter sido, como quase todos os republicanos desse período terem, de uma forma ou doutra, andado de ligações com essa Ordem. Os conflitos permanentes, os vícios dos políticos aburguesados, o esquecimento rápido do ideal de “sociedade justa e perfeita” e a cada vez maior ditadura republicana onde o radicalismo carbonário embatia violentamente contra os princípios elementares do regime recente afligindo o povo esmagado pela estultícia dos golpes e contra-golpes militares onde de manhã havia um parlamento e à tarde outro diferente, tudo isso levou Manuel Martins Gomes Júnior à desilusão profunda do regime que acreditara e ao seu afastamento do círculo político do Partído Democrático de Afonso Costa em 1913, apesar de em 1922 ter ainda apoiado a direcção do Partido Radical (formação republicana populista que não passou de partido minoritário) que financiou, talvez pretendendo contribuir através dele para a restauração do ideal republicano que sonhara e via seriamente moribundo, muito mais desde que Portugal sofreu o sério revez no conflito da I Grande Guerra Mundial (1916) e depois com o assassinato de Sidónio Pais (1918). Se ele foi maçom como o seu amigo pessoal e Prémio Nobel da Medicina, professor Egas Moniz, seu executor testamentário, o seu desquite do Grande Oriente Lusitano terá acontecido por volta de 1913, o mesmo ano em que Egas Moniz se afastou da Maçonaria em sérias discordâncias com a mesma, a ponto de vir a bater-se em duelo (em 1914) com o general Norton de Matos, futuro Grão-Mestre do G.O.L.

Manuel Martins Gomes Júnior, ao centro, rodeado pelos seus empregados na Quinta do Inferno no início do século XX

O anti-deísmo do ateu e opulento Manuel Martins terá sido mais uma blague provocatória de fachada que propriamente uma convicção íntima, provocação como essa de repreender a esposa sempre que a via pôr azeite nas lamparinas do oratório da capela da sua quinta de Benfica: “Maria, não é melhor guardares esse azeite para regar o bacalhau e as batatas?” Em contraste flagrante com esse aparente zelo jacobino misturado a um apreciado gosto anarquista de bon-vivant provocateur, deixou no seu testamento (onde consta a fortuna fabulosa orçada em 34.552.370$80 contos (24 milhões e 152 mil escudos em bens imobiliários, e 9 milhões e 50 mil escudos em bens mobiliários), segundo a Relação de Bens a 24 de Outubro de 1943, sendo notário José Valente de Araújo, de Lisboa, e a fonte do Ministério das Finanças o processo n.º 7385 de 9 de Novembro de 1943) a doação de larga quantia em dinheiro às Misericórdias Franciscanas da sua escolha prévia: duzentos e cinquenta contos em dinheiro à Santa Casa da Misericódia de Lisboa; duzentos e cinquenta contos à Santa Casa da Misericórdia de Alcácer do Sal; duzentos e cinquenta contos à Santa Casa da Misericórdia de Setúbal; duzentos e cinquenta contos à Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, com a condição, quanto a essa última legatária, de manter permanentemente uma escola primária mista em Coina, satisfazendo todas as despesas da mesma. Isto além de ter contribuído amplamente para substituir a desmoronada capela de Nossa Senhora dos Remédios de Coina por uma outra igreja mais condigna, e de ter decidido e promovido a construção da sede da Sociedade Filarmónica União Agrícola 1.º de Dezembro, em Santo António da Charneca. Assim se revelou tão humanista quanto religioso que no âmago era mas escondia…

Além disso, o Palácio e Torre da Quinta do Inferno apresentam sinais claros de simbologia com fundo deísta, conhecimento esse que Manuel Martins Júnior terá recolhido no meio esotérico em voga na época, ou seja, na própria Maçonaria Iniciática, no que tem mais de simbológica e espiritual e menos de política e temporal. Por isso, ainda hoje a vox populi diz sem saber que ele destinava-se a ser a nova sede da Maçonaria Portuguesa, por a anterior ter ardido há pouco tempo, o que não é verdade no que toca, pelo menos, à sede central onde está o Palácio Maçónico na Rua do Grémio Lusitano, no Bairro Alto de Lisboa. Também não possuo informações exactas de ter havido qualquer incêndio em alguma Loja da margem sul. Concluo que o sentido de “nova sede maçónica” será diverso do da voz do povo: ele está no próprio simbolismo do edifício que causa estranheza geral, menos àqueles que detêm o conhecimento exacto do seu significado iniciático: os arquitectos maçons que edificaram o imóvel e deixaram os sinais secretos da sua afiliação esotérica, por certo de acordo com a vontade expressa do proprietário, mesmo acaso ou decerto despossuído de maiores profundezas do pensamento esotérico.

A botânica maçónica marcou presença determinante junto do operariato, do empreseriado, dos intelectuais e até dos religiosos da margem sul do Tejo. Nisso é incontornável a pessoa do farmacêutico António Augusto Louro (Sabugal, 22.10.1870 – Alcanena, 1.8.1949), cuja farmácia no Seixal foi local de encontro e debates de ideais maçónicos e republicanos. Carbonário e maçom conciliador, foi nomeado Garante da Amizade entre os Irmãos e Lojas situadas no Vale do Seixal. Autorizado por decreto do Grão-Mestre interino Francisco Gomes da Silva, em 16 de Julho de 1906 fundou no Barreiro a Loja “Esperança de Porvir”, e já antes, a 13 do mesmo mês, fundara em Sesimbra o Triângulo n.º 82 (compostos de 3 Mestres-Maçons), instalado a 22 de Novembro de 1906 e que em 1912 ainda estava em actividade. Em 4 de Dezembro de 1906, foi autorizado a fundar um novo Triângulo na Moita, que se transformou na Loja “Boa Viagem”. Esta Loja, instalada em 10 de Maio de 1908, recebeu o n.º 275 e seguia o Rito Francês. Pertenceu a ela João Martins Gomes, irmão do supracitado Manuel Martins Gomes, que exerceria o cargo de Venerável na Loja Renascença do G.O.L. em Lisboa, depois da cissão ocorrida no Grande Oriente Lusitano Unido em 1914, quando a Loja “Boa Viagem” adoptou o nome de Loja “Firmeza”, vindo a abater colunas, a encerrar em 1919. Existem também registos do Triângulo “Feio Terenas”, no Seixal.

Todos esses núcleos maçónicos, onde maçons e carbonários estavam inextrincavelmente misturados, seguiam o Rito Francês, cujos ideais de há muito vinham inspirando os republicanos portugueses até culminar no regicídio e consequente revolução, com a Cabornária à dianteira e a Maçonaria por detrás. E como esta ficasse bem para trás em relação àquela que impunha-lhe a linha política do Partido Democrático segundo o seu entendimento particular, o Grão-Mestre Magalhães Lima do G.O.L.U. contestou em 1914 a autoridade do Supremo Conselho do Grau 33 (a entidade reguladora dos Altos Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite e tradicionalmente tuteladora dos Graus Simbólicos do mesmo Rito), forçando a uma direcção única sob a sua égide (uma direcção «democrática» fortemente politizada, que a um tempo administraria a Obediência e regularia a Ritualística). Magalhães Lima sabendo que o Supremo Conselho coexistia com o largo espectro político, não quis ver-se refém da governação da República. Dessa querela brotou a dissidência esperada e provocada: a generalidade dos membros do Supremo Conselho abandonou o Grande Oriente, acompanhada de várias Lojas, indo formar o Grémio Luso-Escocês, só voltando a reintegrar-se naquele em 1926. Os dois irmãos Martins Gomes teriam seguido, como fez Egas Moniz, o Grémio Luso-Escocês.

António Augusto Louro (1870-1949)

A ser maçom, o “rei do lixo” terá com certeza frequentado a Loja “Boa Viagem”, na Moita, e a Loja “Esperança de Porvir” (… a sociedade republicana), no Barreiro. Esta funcionava no primeiro andar do edifício hoje ocupado por um restaurante no Largo Alexandre Herculano. Tinha como extensão gremial a Sociedade Democrática União Barreirense – Os Franceses. Nesta, os anarquistas, socialistas e republicanos tinham um espaço de favorecimento cultural, não só através do convívio mas também pelo acesso franco a bibliotecas. Este centro republicano tal como outros idênticos foram um dos veículos de infiltração da Carbonária, organização revolucionária armada paralela da maçónica de que existiram vários núcleos ou “vendas” na margem sul do Tejo, nomeadamente no Barreiro, em Palmela, na Moita, em Almada, em Cacilhas, na Aldeia Galega e em Alcochete. A antecipação da proclamação da República pelas 12:30 horas do dia 4 de Outubro de 1910 nos Paços do Concelho do Barreiro, sitos na antiga Rua Albers, eram cabornárias as vozes proclamadoras de Ricardo y Alberty e João dos Santos Pimenta, membros da Junta Revolucionária.

O símbolo mais evidente da porventura afiliação de Manuel Martins Gomes Júnior ao pensamento esotérico está no seu ex-libris (gravado nos objectos pessoais, nas fragatas, nas alfaias agrícolas e até nos badalos do gado, de que é exemplo a foto acima): uma meia-lua erecta com as pontas voltadas para a direita e uma estrela de cinco pontas dentro dela. Símbolo islâmico é muito comum no Alentejo (onde este proprietário possuiu várias herdades próximas a Alcácer do Sal), em cuja etnografia popular encontra-se com frequência e sempre dotado de propriedades mágicas. À meia-lua o povo confere a propriedade de preservar as crianças dos ataques ou doenças da Lua, que aqui Gomes Júnior transpõe para as suas propriedades e bens a modo de protecção dos males psíquicos ou lunares que possam afligir tanto a ele como aos seus familiares, empregados, gados e terrenos. O signo de Salomão, o pentagrama, reforça o sentido de protecção absoluta. Isto é atestado pelo professor Joaquim Roque no seu trabalho sobre Etnografia Alentejana – Rezas e benzeduras populares (Beja, 1946). Aprofundando mais ainda o significado deste emblema fazendo recurso à ciência dos Tatvas ou “vibrações subtis da matéria”, tem-se a meia-lua vertical virada para a direita como o símbolo esotérico do estado Subatómico ou Anupadaka, em sânscrito, sob a influência planetária de Mercúrio (Budha, em sânscrito), enquanto o pentagrama constitui-se na reunião dos cinco elementos manifestados expressando o quinto como gerador de todos eles: o Éter ou Akasha, em sânscrito, sob a influência planetária de Vénus (Shukra, em sânscrito). Mercúrio e Vénus juntos, ou Hermes e Afrodite, donde Hermafrodita, expressam o estado primordial a que um dia o Homem volverá como Ser Perfeito reintegrado à condição Divina. Seria esta reintegração final a mensagem que Manuel Martins Gomes Júnior pretendia afirmar veladamente no seu ex-libris, assim mesmo dispondo-se sob a protecção mágica dos deuses Marus, Marutas, Morias, Marizes, vulgo Mouros?… Talvez, o mistério mantém-se bem cerrado.

 Voltando ao Palácio do Inferno, o sinal mais evidente da sua intenção esotérica está no labirinto, tanto o floral do jardim como o pétreo do palácio, onde circular neste mostrava-se bastante complicado para o visitante, não só como uma demonstração cabal de grandeza e poder pela imponência do edifício em si mas também por ser verdadeiramente um labirinto, cujo significado liga-se inteiramente ao mundo da Tradição Iniciática.

A origem mitológica do labirinto é o palácio cretense de Minos, onde estava encerrado o minotauro e donde Teseu só conseguiu sair com a ajuda do fio-de-Ariadne. O minotauro representa a natureza animal, o labirinto a caminho tortuoso da Iniciação a ser percorrido por Teseu, o Iniciado, e sair triunfalmente do mesmo graças ao fio de Ariadne, ou seja, à ligação permanente à sua Alma ocultada sob a veste carnal. Vencer a besta animal em si equivalia a alcançar o Centro e triunfar na Iniciação. A ver com isso e ao mesmo tempo, os labirintos esculpidos no chão de algumas igrejas medievais eram a assinatura das confrarias iniciáticas de construtores livres, e para os que não tinham posses para viajar substituíam a peregrinação efectiva à Terra Santa. Por isto, às vezes encontra-se no centro do labirinto as figuras ou do próprio arquitecto ou do Templo de Jerusalém, representando o eleito que chega ao Centro do Mundo, assinalado pelo mesmo Templo de Salomão. Assim, o crente que não podia realizar a peregrinação real percorria em imaginação o labirinto, até chegar ao ponto central, ao lugar santo: era peregrino sem sair do lugar, fazendo devotamente o trajecto de joelhos.

Na tradição cabalística, retomada pelos alquimistas, o labirinto preencheria uma função mágica que seria dos segredos atribuídos ao rei Salomão. É por esta razão que o labirinto das catedrais (sendo uma série de círculos concêntricos interrompidos em certos pontos de modo a formar um trajecto bizarro e inextrincável) era chamado de labirinto de Salomão. Aos olhos dos alquimistas, tratava-se de uma imagem do trabalho inteiro da Grande Obra Hermética com as suas dificuldades principais: o caminho estreito mas seguro que o alquimista deve percorrer para alcançar o centro, representando a Pedra Filosofal sinónima de Iluminação ou Realização Espiritual, com a sua natureza superior (representada nos metais nobres, como o ouro e a prata) dando combate à sua natureza inferior (assinalada nos metais impuros, como o chumbo e o ferro); esses conhecimentos equivaliam a vencer e sair incólume do intrincado labirinto da Iniciação. Esta interpretação ia de encontro à professada na doutrina ascética de alguns místicos cristãos e árabes: concentrar-se em si mesmo, em meio dos mil rumos incertos das sensações, das emoções e das ideias, eliminando todo o obstáculo à intuição pura, e volver-se à Luz Espiritual sem deixar-se prender nos desvios das veredas sensoriais e mentais. A ida e volta no labirinto eram representativas da morte e da ressurreição espiritual.

De maneira que o labirinto expressa o caminhar do homem para o interior de si mesmo, para uma espécie de santuário ou cripta misteriosa (representada na cave do Palácio do Inferno) expressando o que há de mais misterioso e sagrado nele. É aí, nessa cripta, verdadeiro templo do Espírito Santo na alma em estado de graça, que se reencontra a unidade perdida do Ser que se dispersara na multidão dos desejos. A chegada ao centro do labirinto, como no fim de uma Iniciação, introduz o Iniciado numa cela invisível, que os artistas dos labirintos sempre deixaram envolta em mistério, ou melhor, que cada um podia imaginar segundo a sua própria intuição ou afinidades pessoais.

O sentido teológico de Inferno merece também abordagem. Sobre este tema do Inferno ou Hades, as crenças antigas – egípcias, gregas e romanas – variaram muito e por isso na Antiguidade eram diversificadas e numerosas. Entre os gregos, Hades era o deus dos mortos que reinava no mundo subterrâneo ocultado aos que vivem sobre a Terra, e por isso chamavam esse deus de o Invisível. Como ninguém ousasse pronunciar-lhe o nome, por temor de excitar a sua cólera, ele recebeu o apodo de Plutão, o Rico, nome que implica um terrível sarcasmo, mais que um eufemismo, para designar as riquezas subterrâneas da Terra que fazem parte do império dos mortos e são guardadas por estes, oque está em conformidade com o sentido de “as riquezas infernais inalcançáveis pela cobiça do homem vulgar”. Esse sarcasmo de o Rico torna-se ainda mais macabro quando é colocada a cornucópia da riqueza nas mãos de Plutão, ainda que, contudo, no simbolismo tradicional o subterrâneo indicativo das jazidas ricas represente o lugar supremo das metamorfoses dos seres, das passagens da morte à vida, da germinação mística dos seres humanos e da germinação natural de toda a vida.

A Gruta do Inferno próxima da Quinta da Torre de Coina

As características de Hades ou o Inferno, também chamado Tártaro, são as mesmas por toda a parte: lugar invisível, eternamente sem saída (salvo pela porta da reencarnação da alma num novo corpo humano, como prova da piedade divina assinalada na Virgem, aqui, Nossa Senhora dos Remédios da capela de Coina que pertencera à Quinta do Manique), perdido nas trevas geladas e no lume da consciência atormentada, assombrado por monstros e demónios que castigam incessantemente as almas dos defuntos que nas suas vidas terrenas caracterizaram-se pela maldade dos seus actos. No Egipto, conforme está ilustrado no túmulo de Ramsés VI em Tebas, o Inferno era simbolizado por cavernas tenebrosas (as mesmas Talas do Hinduísmo ou o Baixo Astral da Teosofia) repletas de almas danadas, chamadas pretas ou porcus, em sânscrito e latim, como os mesmos kama-rupas que talvez ou por certo provocaram a «morte misteriosa» de Manuel Martins Gomes Júnior, vítima do choque de retorno das suas próprias expressões, atendendo ao princípio de que a energia segue o pensamento. Mas nem todos os mortos eram vítimas de Hades: os eleitos, os iniciados, os sábios e heróis conheciam outras moradas que não eram as regiões tenebrosas, pois dirigiam-se para as Ilhas Venturosas, os Campos Elíseos (as mesmas Lokas do Hinduísmo ou o Mundo Mental da Teosofia), onde a luz e a felicidade lhes eram prodigadas. E também nisto se integra Gomes Júnior quando «faz as pazes», quando se «reconcilia» com Igreja depois de 1914. Isto se alguma vez andou desavindo com a mesma…Alguns textos bretões da Idade Média mencionam o Inferno qualificando-o de an ifern yen, “o inferno gelado”. Esta expressão é de tal modo contrária às normas usuais que deve ser considerada como uma reminiscência das antigas concepções célticas relativas ao não-Ser, ou a não manifestação da Vida na Forma.

Segundo a crença dos povos turcos altaicos, chega-se perto dos espíritos dos Infernos quando se caminha do Oeste para o Este, ou seja, no sentido inverso ao do percurso solar, que simboliza, ao contrário, o movimento vital progressivo. Essa caminhada no sentido oposto ao da luz, em vez de ir ao seu encontro, representa a regressão para as trevas, o que se representa na inversão dos valores naturais e dos símbolos tradicionais.

Na tradição cristã, a conjunção luz-treva expressa os dois princípios opostos: o Céu e o Inferno. Plutarco já descrevia o Tártaro como privado de Sol. Se a luz se identifica com a Vida e com Deus, o Inferno significa a privação de Deus e da Vida.

A essência íntima do Inferno é o próprio pecado mortal em que os danados morreram. É a perda da presença de Deus, e como já nada mais pode iludir a alma do defunto, separada do corpo e das realidades sensíveis, o Inferno é a sua desventura absoluta, a privação radical, tormento misterioso e insondável. É a derrota total, definitiva e irremediável de uma existência humana. A conversão do danado já não é mais possível; empedernido em seu pecado, ele está para sempre cravado na sua dor.

Para os cristãos, contudo, resta um ponto de apoio seguro para não tombar na danação eterna, esse ponto é a própria milagrosa Maria Santíssima encarnando o mistério da Misercórdia Divina e a sua prática entre os homens (e a ela, Misericórdia, se encomendou o «ateu» Manuel Martins). Concebida como envolta na Misericórdia infinita do Pai pelo Filho e o Espírito Santo (preservada do pecado demoníaco), o seu agir está assinalado pelo amor efectivo à Humanidade, especialmente aos pecadores e sofredores (o que vai bem com o humanitarismo do mesmo Manuel Martins). Oficialmente, a Igreja Católica aprovou em 15 de Agosto de 1968 o formulário da Missa Votiva “Santa Maria, Rainha e Mãe de Misericórdia”, mas a invocação “Salve, Rainha de Misericórdia” encontra-se pela primeira vez no bispo Adhemar de Le Puy (+ 1098), que destaca a qualidade do olhar materno de Maria, “esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, e conclui com o sentido desta sua Misericórdia: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce, Virgem Maria”. Já o título “Mãe de Misericórdia” crê-se que foi dado pela primeira vez a Maria por Santo Odão (+ 942), abade de Cluny: Ego sum Mater misericordiae (“Eu sou a Mãe de Misericórdia”), Maria lhe teria dito em sonho. Na Igreja Oriental encontram-se testemunhos ainda mais antigos, tendo o padre ou pope Tiago de Sarug (+ 521) aplicado a Maria explicitamente o título de “Mãe de Misericórdia” (Sermo de transitu), o que é considerado por muitos como a sua primeira atribuição em absoluto.

O Palácio do Inferno está disposto em três corpos distintos: a torre sobre o edifício (com três níveis, rés-de-chão, primeiro e segundo andares e a cave, o que constitui uma prefiguração simbólica das Três Pessoas da Trindade dispostas em Planos igualmente distintos, como seja: a torre para o mais alto, o Céu ou o Mundo do Pai; o edifício para a Terra santificada pela presença do Filho; a cave para o Inferno ou Infera, “lugar inferior ou interior”, de onde e de si mesmo o Espírito Santo dá à luz a Criação Universal.

Finalmente, tem-se a torre que é uma espécie de espada cravada na cunha ou coina do Concelho do Barreiro. A espada cravada na rocha ou no chão, é simbolismo que pessoalmente já vivifiquei ou realizei algumas vezes, e que levou alguns a vociferarem sobre o que desconhecem absolutamente, tanto no real como no simbólico, ficando-se pela impertinência beata e simplista característica primária da ignorância cabal das profundezas do mundo iniciático.

Esse é o símbolo tradicional do centro axial dum enclave iniciático (ou sistema geográfico) marcado pela espada cravada na rocha, figurando o símbolo astrológico da Terra (um círculo ou um monte coroado por uma cruz) e igualmente a chave da Sabedoria Iniciática, que aqui em Coina e nas redondezas terão sido seus zelosos custódios os primitivos Templários, a quem São Bernardo de Claraval regulou pela Regra de Cavalaria que lhes deu, onde cavaleiro cristão demandava por essa forma dinâmica a iniciação espiritual tomado de ânimo e coragem no manuseio destemido das armas sagradas, evocando sempre a protecção de Santa Maria e a força de São Miguel, como protótipos celestes do seu ideal terreno que era fazer a guerra santa, a cruzada, cujo sentido maior era o de combater-se a si mesmo, aperfeiçoar-se humana e espiritualmente debastando as suas imperfeições ou vicissitudes mortais, derrotando os seus demónios interiores, e com isso não raro além de guerreiro também era monge, unindo a espada à fé, a acção das virtudes humanas do bom cavaleiro aos dotes da santidade demandada.

Vista como se apresenta, tem-se a espada como símbolo axial e polar que se identifica ao fiel da balança. Entre os citas, o Eixo do Mundo e a Actividade Celeste eram representados por uma espada fincada no cume de uma montanha. A ideia de que a espada cravada na terra possa produzir uma fonte, não deixa de estar relacionada com a actividade produtora do Céu, pela conotação existente entre o relâmpago e a produção da chuva. Como a espada simboliza o fogo em forma de relâmpago, este é atraído pela água da terra, e por isto a têmpera da espada expressa sempre a união dos dois elementos fogo e água, por outras palavras, o perfeito equilíbrio do Espírito e da Alma na própria Matéria.

A espada de fogo designa, segundo Fílon (in De Cherubim), o Logos e o Sol. Quando Deus através de São Miguel expulsou Adão do Paraíso Terreal, ele colocou diante do Jardim do Éden os Querubins e a chama da espada flamejante para proteger o caminho da Árvore da Vida (Génesis, 3, 24). Segundo Fílon, os dois Querubins representam o movimento do Universo, o deslocamento eterno do conjunto do céu, ou ainda, dos dois hemisférios. Numa outra interpretação do mesmo autor, os Querubins representam os dois atributos supremos de Deus: a Bondade e o Poder (que se representariam depois em Santa Maria e São Miguel). A espada refere-se ao Sol, cujo percurso faz a volta do Universo inteiro, marcado pelos 12 signos no prazo de um ano terrestre. A espada relaciona-se também à razão, que reúne a um só tempo os dois atributos de Bondade e de Poder: pela razão, Deus é generoso e soberano ao mesmo tempo (De Cherubim, 21-27).

Nas tradições cristãs, a espada é uma arma nobre que pertence aos cavaleiros cristãos. Ela émuitas vezes mencionada nas canções de gesta. Rolando, Olivier, Turpin, Carlos Magno, Artur Pendragon, Ganelão e o emir Baligant, todos eles possuíam espadas individualizadas que tinham nomes, a guisa de “génios mágicos” encadeados às mesmas, como, por exemplo, Joyeuse (“Alegre”), Durandal, Excalibur ou Cabiburna, Corte, Bantraine, Musaguine, etc. Esses nomes provam a individualização da espada, ademais associada à ideia de luminosidade, de claridade, pois a lâmina é qualificada de cintilante.

Também relacionada à ideia de Verbo, de Sabedoria e Revelação, às vezes a espada designa a palavra e a eloquência, pois a língua, assim como a espada, tem dois gumes.

Relacionada à luz e ao relâmpago, a lâmina da espada brilha, ela é, diziam os antigos cruzados, uma figuração da Cruz de Luz. Na Índia, a espada do sacrificador védico é o raio do deus Indra, correlacionado ao Fogo Celeste. Em termos de Alquimia, a espada dos filósofos é o fogo do cadinho. Ainda na Índia védica, a espada apareceu associada aos deuses Assuras ou da Mente mas empunhada pelo Bodhisattva ou “Buda de Compaixão”, como símbolo do combate pela conquista da Sabedoria e da libertação dos desejos inferiores, pois a espada luminosa corta as trevas da ignorância e do pecado. Do mesmo modo, a espada do Deus Vishnu (equivalente ao Filho na Trindade cristã) é de fogo e expressa a Sabedoria pura e a Virtude absoluta. Quando está dentro da bainha, esta representa a nescidade e a obscuridade, motivo pelo qual jamais um profano poderia tirar a espada da bainha, sob pena dos maiores castigos corporais e espirituais.

Finalmente, a espada é o símbolo do estado militar (kshatriya, em sânscrito) e da sua virtude, a bravura, bem como da sua função, o poderio. O poderio tem um duplo aspecto: o destruidor (embora essa destruição possa aplicar-se contra a injustiça, a maledicência e a ignorância, e por causa disso tornar-se positiva) e o construtor, pois estabelece e mantém a paz e a justiça. Todos esses símbolos convêm literalmente à espada, quando ela é o emblema do rei e da nobreza. Quando associada à balança, ela relaciona-se mais especialmente com com a justiça com a dupla lâmina: premeia o justo e castiga o prevaricador.

Símbolo guerreiro, a espada é também o símbolo da guerra santa (e não das conquistas arianas, tal como pretendem alguns a respeito da iconografia hindu, a menos que se trate de conquistas espirituais). Antes de tudo, a guerra santa é uma guerra interior, e esta será igualmente a significação da espada trazida pelo Cristo (Mateus, 10,34). Sob o seu duplo aspecto destruidor e criador, ela é o símbolo do Verbo, da Palavra. O khitab ou orador islâmico costuma segurar uma espada de madeira durante a sua predicação; o Apocalipse de São João (1, 16) descreve uma espada de dois gumes saindo da boca do Verbo.

Sendo a espada símbolo do Verbo, já a torre expressa aqui a de Babel, que foi onde a Humanidade começou a falar as diversas línguas numa babilónia em que ninguém se entendia, depois de Deus ter sido desafiado e castigado dessa forma as suas criaturas (Génesis, 11 :1-9). Babel ou confusão é também a que provoca a visão imediata da Torre do Inferno no comum das gentes, sejam esclarecidas ou simples, para todos os efeitos, desprevenidas e logo surpreendidas.

O palácio suportando a torre do “rei do lixo”, quer um quer outra repartem-se em três andares, ficando a torre para o Mundo Celeste (Mental, Astral e Etérico) e o palácio para o Mundo Terrestre (Agharta, Duat, Badagas), representando a cave do edifício o ponto de intercessão entre os dois Mundos, ou seja, o Plano Físico, a partir do qual se sobe ou se desce. Por outro lado, o imóvel completo compõe-se de sete andares (incluindo a cave) ou divisões que juntas ao apodo inferno remetem para a tradição oculta da Torre de Babel cuja história é muito diferente da citação bíblica remetendo para os meados da 4.ª Raça-Mãe, a Atlante, anterior à actual 5.ª Raça-Mãe Ariana. O País de Mu, como era então conhecida a Atlântida, dividia-se em sete reinos, regiões ou cantões cada qual com o seu governador próprio, tendo como dirigente máximo um Governo Geral composto de uma tríade imperial ou khou habitando numa Oitava Cidade (Muakram ou Aptalântida), separada das demais por altíssimas muralhas… Nessa Oitava Cidade encontrava-se a representação humana da própria Divindade na Terra, nas pessoas de Mu-Ka, Mu-Ísis e Ra-Mu expressando, respectivamente, os 1.º, 2.º e 3.º Logos. A Bíblia relata que numa tentativa de “escalar o céu” (as altíssimas muralhas) foi construída a Torre de Babel, e que essa tentativa foi interrompida devido à confusão advinda (castigo kármico) dos próprios construtores, os quais passaram a falar línguas diferentes (que também é alusão velada à fundação de sete Colégios Iniciáticos cada qual com Tónica diferente dos outros, e assim mesmo aos sete Ramos Raciais destinados à sementeira da Raça futura, cada qual dirigido por um desses Colégios, cujo quinto levava de nome Kurat-Avarat).

Na verdade, a passagem bíblica refere-se ao que ocorreu com a destruição das altíssimas muralhas da Oitava Cidade. No sentido sentido caótico BABEL significa realmente “confusão” (do hebraico Bavel), por os Nirmanakayas Negros influindo nos Rakshasas da mesma espécie, por sua vez inspirando o povo à cólera e à revolta, terem tentado derrubar a as muralhas da referida Cidade para a destruir. E como não o conseguissem, mataram os dois Tulkus (espécies de sósias) dos Gémeos Espirituais Mu-Ka e Mu-Ísis, aos quais o seu filho, o sacerdote Ra-Mu, deu cobertura defensiva.

A partir desse evento o País de Mu entrou em decadência, muito mais quando a Fraternidade Negra tentou e conseguiu exercer a sua terrível influência sobre o governante da 4.ª cidade atlante, fazendo deste um avatara sinistro liderando o movimento destruidor que varreu do mapa da face da Terra tão portentosa civilização dos finais do Período Terciário e de quase todo o Quaternário. Nisto, vale bem o apodo sinistro Torre do Inferno

Mas no sentido iniciático, evolucional a Torre de Babel como Zigurate (Torre-Templo destinada a culto astrolátrico sobretudo solar) expressava a própria Muakram representativa do Céu na Terra, e por isso BAB-EL mais que tudo quer dizer Porta do Céu, tal qual o acadiano BAB-ILU (donde o termo Babilónia), Portal de Deus. O termo acadiano, passado ao sumério, ao caldaico, ao fenício e ao hebraico, BAB-EL aparece junto a BAAL, este como Senhor, Deus, e aquele com a sua Morada. BAAL ou ADON (ADONAI) era um Deus Fálico, isto é, Gerador da Vida na Forma, e por isso representava-se por uma torre elevada ou por um alto monte onde se plantava um santuário de culto solar, ou então, posteriormente tão-só uma cruz ou uma espada cravada no cimo do monte. “Quem subirá ao monte (o lugar elevado) do Senhor? Quem estará no lugar de seu Kadushu (Sol)?” (Salmos, 24-3). BAAL vem a ser assim o SOL, e quando em certo sentido é devorado pelo ardente MOLOCH, o seu irmão sinistro que vive na cripta do mundo, ou seja, o próprio Deus SATURNO, BAAL assume então o nomitativo BAAL-TZEPHON, o Deus da Cripta, representando o SOL DA MEIA-NOITE, o Saturnino ou Subterrâneo expressivo da própria SHAMBALLAH como Sol Central da Terra. Trata-se do mesmo BAAL-ADONIS dos Sôds ou Mistérios Judaicos pré-babilónicos, que se converteu, graças ao Massorah, no ADONAI, o JEHOVAH posterior com vogais.

BAAL-ADONIS é também herança filológica atlante por se referir a PUSH-ADONIS ou POSEIDONIS, a Morada de Adonis, o 7.º Princípio Espiritual, e que designa a parte do continente atlante que submergiu 9.564 anos a. C. O nome dessa «ilha», a que sobrou do primeiro cataclismo que vitimou a Atlântida há cerca de 850.000 anos, foi-nos transmitido por Platão nas suas obras Timeu (ou a Natureza) e Crítias (ou a Atlântida).

Não creio que Manuel Martins Gomes Júnior soubesse de todos esses conhecimentos iniciáticos, mas possivelmente alguns dos construtores do seu palácio e torre poderiam possuir fragmentos esparsos dos mesmos, pois que a simbologia do imóvel está em conformidade com a Tradição Iniciáticas das Idades, inclusive o Rio Tejo fazendo a vez de “Mar da Atlântida” em cuja margem se levantou a célebre Torre de Babel, que nesta de Coina servia para o “rei do lixo” subir ao seu topo para avistar as suas vastas propriedades no Seixal, diz a vox populi sempre com explicação simples e prática,  mas que não parece verossímil.

Sem dúvida que esta obra foi uma demonstração da sua grandeza e poder, e nisto poderá ter querido celebrar a memória do há muito desaparecido castelo de Coina, destruído durante a reconquista cristã da margem sul do Tejo aos árabes, acontecimento no qual a Ordem dos Templários e a Ordem de Santiago tiveram primazia ainda durante o reinado de D. Sancho I. Como lugar extremo do Concelho do Barreiro, a etimologia de Coina liga-se à sua posição estratégica. Com efeito, em documentos do século XII ao XIV existem registos da grafia cuinha, coinha e coina provindas de cunha, “rochedo isolado cuja forma lembra um cunha”. Coina é também a vassoura feita de hastes secas para limpar o trigo do casulo e do palhiço, sendo que o transitivo coinar significa “limpar o trigo com a coina”. Possivelmente será referência ao palhiço que cresce nos sapais junto às margens pouco profundas e lodosas desta parte do Tejo comunicando com a sua bacia chamada Mar da Palha.

Diversos filólogos dão origem latina ao nome desta localidade afirmando derivar de “Água Boa” (que também não deixa de ser memória ultramarina da Atlântida): Equabona, Quabona, Quouna, Couna e Coina, sendo que o documento mais antigo que a ela se refere é o Roteiro Militar de Antonino Pio, do princípio do Século II d. C., informando que próximo daqui viveu o general e estadista romano Quintus Sertorius (126 a. C. – 73 a. C.). Mário de Sá no tomo VI das Grandes Vias da Lusitânia (O itinerário de Antonino Pio), Lisboa, Sociedade Astória Lda., 1967, descreve:

“(…) Exacta é a posição de Equabona em Coina-a-Velha (no Vale de Coina e junto do “Castelo dos Mouros”) onde houve uma remota localidade romana. Coina (a Nova) no esteiro do Tejo, era o porto marítimo de Equabona, que, desenvolvendo-se adentro da era portuguesa, veio a ganhar foros de vila. E foi das mais notáveis da Riba Tejo, debaixo da simples designação de Coina.

“Na época romana a via de Lisboa a Equabona era, tanto quanto possível, terrestre, e é na deste teor que se marcam as XVI milhas de extensão do cais de Cacilhas a Coina-a-Velha por Cova da Piedade, Torre da Marinha (extremidade do esteiro da Amora), Rio do Judeu, Foros do Perú, Quinta da Conceição. É curso para 13,26 quilómetros, na equivalência das XVI milhas do texto.”

Quintus Sertorius

Ainda sobre Equabona ou Aquabona, o poeta e professor do Liceu de Évora, António Maria de Oliveira Parreira, num trabalho avulso feito em 13 de Novembro de 1882, escreveu o seguinte:

“(…) A situação de Equabona é completamente incerta, não obstante designar-se unanimemente como correspondente a Coina, valendo para isso uma remota semelhança das palavras e a circunstância de haver perto um lugar chamado Coina-a-Velha. Alguns escritores chamam-lhe Abona e num Códice da Biblioteca de Paris pertencente ao século X encontra-se a denominação de Aqua Bona. Pode ser que esta povoação romana estivesse situada nesta região da margem sul do Tejo, apesar de não se lhe poder determinar a situação precisa. O nome Aqua Bona só por ironia poderia convir à Coina moderna, local apaulado e sezonático, mas poderia pertencer a qualquer povoação que demorasse da falda dos montes de Azeitão e que desse o nome a todo esse trato de terreno até ao Tejo. Em Coina-a-Velha, lugar de que fala Hubner, numa propriedade denominada Casal do Bispo, no cimo de um monte existem as ruínas de um castelo que conserva ainda as quatro paredes da torre meridional em perfeita conservação até à altura de mais de três metros, outra torre mais arruinada do lado norte, pedaços de muralha abatidos e uma cisterna, tudo envolto em altas moitas de carrasco. As paredes da cisterna são de uma argamassa composta de cal, areia e tijolo britado, o que lhes dá o aspecto de um só tijolo inteiriço: só desabou a parte da abóbada. Os lanços de muralha abatidos parecem ter sido demolidos expressamente à cunha e não ser a sua ruína obra do tempo.”

Joaquim Pedro da Assunção Rasteiro é de opinião que o castelo de Coina-a-Velha é o mesmo de que fala D. Afonso Henriques num documento de 1184 (in castelo caune), fazendo doação dele a Bernardo Mendes, cónego da igreja de Santa Maria de Lisboa, aparecendo também no testamento do seu filho D. Sancho I (constructione murorum de couna). Alexandre Herculano, na sua História de Portugal, fala na forte linha defensiva dos castelos de Almada, Coina, Palmela e Alcácer do Sal, dizendo que o conquistador árabe Iacub-el-Mansur em 1191 tomou o castelo de Coina arrasando-o, mas em 1195 a região seria reconquistada por D. Sancho I o qual possivelmente mandou reconstruir a fortaleza, para todo o efeito, desaparecida há muitos séculos.

Em resumo, pode dizer-se que há 800 anos no Casal do Bispo existia uma povoação que se chamava Equabona e tinha um castelo. O povo foi mudando o nome até ficar em Coina. O terreno que fica entre a Vala Real e a Ribeira dos Canais também veio a chamar-se de Coina, a de Azeitão começou a dizer-se de Coina-a-Velha e a outra de Coina-a-Nova, ou só Coina. A povoação de Casal do Bispo foi abandonada até que desapareceu, mas nasceu outra mais adiante, com o mesmo nome. No século XVIII a povoação de Coina-a-Velha foi baptizada com o nome de Aldeia de Nossa Senhora da Piedade, ou só Aldeia da Piedade. Isto porque Diogo da Silva de Carvalho, dono da Quinta das Donas, construiu na sua propriedade uma capela privada pondo-a sob o Orago de Nossa Senhora da Piedade, e depressa da capela o nome passou para a aldeia.

Memória sumptuosa dos tempos idos resta a Quinta da Torre de Coina, num avançado estado de degradação. Se não forem tomadas medidas urgentes, este património singular do Concelho do Barreiro e único no País tem morte anunciada, mandando para o lixo mais uma página da História de Portugal como coisa de somenos importância. Deixo o apelo às boas vontades das consciências da autoridade política e da proprietária do imóvel, para que se entendam e acudam rápido a salvar e recuperar a quinta em nome do interesse cultural comum. Por enquanto se mantiver de pé o Palácio de Coina, por certo a memória do “rei do lixo” permanecerá viva!

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