Abadia de Westminster e a Tradição Esotérica

Diz-se à boca pequena, em sussuro, em certos meios esotéricos que a Colegiada de São Pedro da Abadia (Real) de Westminster manteve durante séculos uma relação secreta com a realeza galesa de quem os seus descendentes actuais dizem que possuíam poderes sobrenaturais que lhes eram conferidos pelo Alto no momento das suas entronizações, e que igualmente mantinham (e mantêm) relações estreitas com a nobreza britânica (que aqui celebra até hoje os casamentos reais) e a Maçonaria Anglo-Escocesa. Resta confirmar a possibilidade de haverem sinais neste templo que corroborem tão grandes e insólitas afirmações.

Sendo já de si significativo que a Abadia de Westminster (ou west minster em inglês, “igreja do mosteiro”, que era beneditino e estava localizado a oeste do Palácio de Westminster) seja o Centro Espiritual de Londres, próximo da Sede do Governo britânico, e seja conhecida no meio esotérico restrito como Templo da Justiça (do Trono de Deus) corroborado pelo outro título, também restrito, de Espada Flamígera (evocativa daquela empunhada pelo Arcanjo São Miguel postado à entrada do Paraíso, aqui a desta catedral gótica), esses dois títulos interligados vêm a ser confirmados, à entrada do templo, pela figura hierática de Cristo Rei sentado no Trono de Deus, ladeado por Anjos rendendo homenagem à Justiça Divina, tendo logo abaixo os doze Apóstolos predicantes do mesmo Senhor da Justiça Universal, e ainda mais abaixo o clero e a nobreza londrinos relacionados a esta catedral e à Justiça de Deus que devem representar entre os homens. Sob o pórtico, tradicionalmente chamado da Glória, vê-se Santa Maria de Westminster com o Menino no colo, representativa da própria Domus Dei, a “Casa de Deus” que é esta igreja matriz londrina.

Com a Virgem de Westminster relaciona-se o próprio topónimo Londres. Com efeito, o actual nome inglês London tem origem na expressão céltica Llun-Dunum, “forte do pântano”, fonetizado Londinium na época da presença romana na Grã-Bretanha, quando no ano 43 da nossa Era o imperador Cláudio I ocupou a maior parte da ilha, tendo o seu lugar-tenente Aulus Plautius conquistado aos naturais uma praça-forte na margem direita do rio Tamisa, a cerca de 70 quilómetros da sua foz, tendo rebaptizado o lugar com esse nome latino. Com o passar do tempo, o termo foi alterado e encurtado ficando como hoje é pronunciado e escrito, London. Conta-se que os povos primitivos cultuavam aqui a Deusa-Mãe, num santuário erguido nesta zona então pantanosa conhecida com Ey Thorn (Ilha de Thorn), e que tal santuário foi substituído por um templo cristão fundado na época de Mellitus (falecido no ano 624), bispo de Londres, depois de ter sonhado com a Virgem Maria e um pescador chamado Aldrich tido a visão de São Pedro que mandou construir o templo, confirmando o sonho profético do bispo. Por este motivo, é que a Abadia de Westminster é consagrada a São Pedro e Santa Maria. E tão grande era o culto local desde a primeira hora à Mãe de Deus, que já na segunda metade do ano 900 havia aqui uma comunidade de menges beneditinos fundada por Saint Dustan e protegida pelo rei Edgar. A abadia começou a ser construída entre 1042 e 1052 por odem de Edward I, sendo consagrada em 28 de Dezembro de 1065, apesar de só ficar concluída em 1090 no estilo românico, sendo as obras prosseguidas em 1245 onde se acrescentou o estilo gótico dos mestres construtores dessa época, o que remete para a presença efectiva aqui da Maçonaria Operativa.

Em 1272 o bispo de York, de nome Giffard, era líder da corporação de mestres-construtores da Abadia de Westminster, sendo proibida em 1370 a instalação da sua Loja Santo Estêvão no palácio de Westminster. O nome Loja aparece pela primeira vez num documento inglês de 1292, e foi aplicado para substituir o de Oficina dos Sculptores lapidum liberarum (documento de Londres, 1212), “Escultores livres da pedra”, depois chamados Magister lathomus liberarum petrarum (documento de Oxford, 1391). Esta expressão equivale a “Mestre livre (franco) talador de pedra”, e o significado prende-se tanto ao material trabalhado como propriamente ao homem que trabalha e é livre nas suas expressões artísticas, isento de restrições tanto da cúria como da corte. Numa Acta do Parlamento inglês, de 1350 reinando Edward III, aparece o nome free mason, “homem livre que trabalha a pedra de ornamentação”, diferenciando-o de roughstone mason, o “pedreiro grosso ou comum”. Tratava-se de uma ordenança que estabelecia um salário máximo e outras disposições. Numa Carta de Edward III de 1354, permite-se com as companhias ou corporações de free masons, “pedreiros livres” elejam anualmente os seus vigilantes de ofício (magister opera). Mas é só em 3 de Agosto de 1376, no Livro da cidade de Londes, que o nome free mason aparece publicamente para identificar os maçons da Loja de Londres, ou melhor, de Westminster.

Adentrando o templo e passando junto à câmara (real) de Jerusalém, esta traz à memória um facto aí ocorrido com o rei Henrique IV (3.4.1366 – 20.3.1413): os astrólogos da corte predizeram ao monarca que morreria em Jerusalém. Ele tomou o cuidado de jamais pisar na Palestina, mas adoeceu subitamente nesta Abadia de Westminster e aqui morreu na câmara de Jerusalém…

É no pavimento Cosmati, defronte ao altar-mor, que se encontra a prova maior da presença da Tradição Esotérica nesta igreja colegial. Foi estabelecido em 1268 por ordem de Henrique III que para o efeito mandara vir de Roma o mestre-canteiro Odoricus Cosmati, pertencente a uma família distinta romana de artesãos possuidores de um estilo único cuja técnica chamava-se sectile opus, “cortar trabalho”, diferindo do trabalho de mosaico romano antigo e anterior medieval que consistia em pedras quadradas de tamanhos iguais. Cosmati deixou aqui uma diversidade de tamanhos, formas e cores numa peça única de 7,58 metros. Crê-se que o desenhista dessa peça foi o famoso alquimista Roger Bacon (1214-1294), porque muitas das figuras expressas neste pavimento estão representadas no tratado alquímico Liber Secretum Secretorum (Livro do Segredo dos Segredos) que o famoso personagem tinha como um dos mais importantes da Arte Real por descrever a própria Pedra Filosofal.

O desenho do pavimento compõe-se de um quadrado exterior com quatro rectângulos direccionados ao Norte, Sul, Leste e Oeste e entre cada um deles cinco rodelas. No quadro interior aparecem novas quatro rodelas maiores que as exteriores donde despendem cordões que vão formar um quadrado perpendicular, ou melhor, um losango, dentro do qual surgem novas quatro rodelas donde irromper cordões que vão ligar-se a uma quinta rodela central. No todo, as rodelas e os rectângulos perfazem o número 33 que é o da idade do Cristo, assim também chamado na Maçonaria Anglo-Escocesa, com os seus 33 Graus, o número do Mestre Perfeito. Cada rectângulo representa uma porta da Jerusalém ou Paraíso Celeste que na igreja tem no altar-mor a passagem do Plano Humano ao Divino. O facto das rodelas mais pequenas agruparem-se em número de cinco, indica os cinco “hálitos vitais” ou elementos naturais que animam o Universo manifestado: Éter, Ar, Fogo, Água, Terra. Estes princípios interligados (donde a presença do cordão) vão dar vida aos globos intermédios representando as várias fases da manifestação da Terra, desde etérica, aérea, ígnea, aquosa e física, cada um dele provido de um “Sol” ou Força Central (os globos do centro do desenho) que os anima e todos todos pelo globo azul ao centro, representando a Quintessência da Natureza, o Quinto Elemento que é o Akasha ou Éter com que se fabrica a Pedra Filosofal. A Tradição Iniciática dá como cor do Éter o azul, que é o que se vê no globo central.

Estranhas ao estilo Cosmati, aparecem neste pavimento tês cartelas de latão com inscrições danificadas referentes ao fim do mundo em 1212 (que alguns milenaristas modernos crêem referir-se ao “apocalipse final em 2012”, recorrendo para isso a deduções numerológicas e matemáticas fantásticas). Essas inscrições latinas foram copiadas no século XV pelo cronista abade John Flete, podendo ser traduzidas como: “No ano de Cristo de 1212, mais 60 menos 4, o terceiro Henrique, Odoricus e o abade (Richard de Ware) juntos mandaram colocar estas pedras de pórfiro”. A explicação é simples apesar de engenhosa: 1212 mais 60 é igual a 1272, data da morte de Henrique III (em 16 de Novembro desse ano), e 60 menos 4 é igual a 56, a duração do seu reinado. Tudo indica que as inscrições foram adicionadas após a morte do monarca.

Scone, a Pedra Mágica do Destino

Por certo o maior e mais controverso mistério na Abadia de Westminster é a Scone of Destiny, a “Pedra do Destino”, cuja origem ou destino ninguém sabe ao certo qual era e porque ficou como base do assento do trono da coroação do rei Eduardo, o Confessor, em 3 de Abril de 1043, estando aí desde 1296. Diz-se que esta pedra possui propriedades mágicas e transmitia poderes sobrenaturais aos reis recém-coroados que se sentavam sobre ela.

Trata-se de um bloco de arenito que mede 80 cm de comprimento por 50 cm de largura e 35 cm de altura, pesando 152 kg. Apesar de despretensiosa, esta pedra tem sido reverenciada ao longo dos séculos como relíquia sagrada, disputada por povos e usada pelos monarcas ingleses e escoceses como peça mais importante das cerimónias de coroação. Tendo apenas uma inscrição, ou melhor, uma cruz latina que não dá pista alguma sobre a sua origem, mantém-se assim a interrogação de sempre: de onde veio esta pedra mágica?

A sua origem lendária confunde-se entre factos bíblicos e acontecimentos pré-célticos da Ilha Britânia acontecidos nas regiões montanhosas do Norte onde hoje é a Escócia. Com efeito, conta-se que a Pedra de Scone é a mesma que serviu de travesseiro ao patriarca Jacob quando repousou a sua cabeça perto de Betel e sonhou com a escada do Céu por onde subiam e desciam Anjos, como conta o capítulo 28 do Génesis. A lenda adianta que no ano 906. A. C. a Pedra do Destino foi levada para a Escócia por Scota, filha de um faraó do Egipto casada com um obscuro Haitebeques, que a entregou a Fergus, fundador da monarquia escocesa, sendo depois instalada num local chamado Scone por Keneth II, rei escocês descendente dessa princesa egípcia; desde então, os reis da Escócia passaram a ser coroados sentados nessa Pedra Sagrada. Com o passar dos tempos, a realeza escocesa foi enfraquecendo e a inglesa fortalecendo, a ponto dos reis britânicos encararem os escoceses como seus vassalos, condição inaceitável para eles até hoje.

Nos finais do século XIII, a Inglaterra viu-se em guerra com a França e convocou as forças escocesas para participarem. Estas desafiaram a convocação e procuraram antes um tratado com os franceses. Isso bastou como desculpa para invadir a Escócia. O rei escocês John Balliol foi aprisionado e trazido a ferros para Londres, e os símbolos nacionais da Escócia (a coroa, o ceptro, a espada e a Pedra do Destino que estava na Abadia de Scone que fora fundada pelo próprio Saint Patrick, que apesar de irlandês fora parar na Escócia) também foram confiscados e trazidos para a capital britânica em 1296, por ordem de Eduardo I Plantageneta (1272-1307). Desde então, os reis britânicos passaram a ser coroados no Trono da Coroação sob o qual ficou a Pedra de Scone, nesta Abadia de Westminster. Ainda em 1328, os escoceses recuperaram a sua Pedra Sagrada sob o Tratado de Northampton, mas ela nunca saiu debaixo do Trono da Coroação de Westminster, já que a Inglaterra não cumpriu o Tratado. Entretanto, um rei escocês iria sentar-se novamente na Pedra do Destino: em 1603 Jaime IV da Escócia tornou-se Jaime I da Inglaterra, e uniu as duas Coroas. A última coroação sob a Stone of Destiny foi em 1953, quando subiu ao trono a rainha Elizabeth II.

A Pedra de Scone terá sido ainda objecto de culto por uma confraria de monges construtores sediada em Kilwinning, na Escócia, fundada cerca de 1300 sob o nome de Ordem de Heredom (donde séculos depois surgiria o ramo maçónico com o mesmo nome), palavra composta dos dois termos grego e latino, ou seja, Hieros, “sagrado”, e Domus, “casa”, portanto, Casa Sagrada ou Santa, o Templo onde certamente o pomo de devoção litolátrica seria essa mesma Pedra do Destino, que teria prosseguido aí mesmo depois ter sido retirada para Londres.

Finalmente, vem a parte mais controversa e misteriosa da história recambolesca da Pedra do Destino: no Natal de 1950 um grupo de estudantes escoceses conseguiu retirá-la fortuitamente da Abadia de Westminster e levá-la para a Escócia. Foi encontrada quatro meses depois em Arbroath enrolada na bandeira escocesa, sendo devolvida a Westminster sem que fossem precessados os estudantes pelo seu acto nacionalista. Contudo há rumores que a Pedra já não é a original: os que a retiraram de Westminster fizeram uma réplica que deixaram num lugar fácil de ser descoberta em Arbroath, na Escócia. Se é ou não apenas um rumor, o facto é que a dúvida permanece, e também a certeza de como os escoceses do século XX se sentiam em relação aos símbolos da sua nação em poder dos ingleses, sendo talvez a razão do discurso inesperado do Primeiro-Ministro britânico na Casa dos Comuns do Parlamento, em 3 de Julho de 1996:

“A Pedra do Destino é o símbolo mais antigo da realeza escocesa. Foi utilizada na coroação dos reis escoceses até ao final do século XIII. Exactamente há 700 anos atrás, o rei Eduardo I trouxe-a da Escócia para hospeda-la na Abadia de Westminster. A Pedra é propriedade da Coroa. Quero informar a esta Casa que, aconselhada pelos seus ministros, a Rainha concordou que a Pedra deve ser devolvida à Escócia. É claro, a Pedra continuará sendo usada nas tradicionais cerimónias dos futuros soberanos do Reino Unido.”

Esta Pedra da Coroação também era conhecida entre os antigos gálicos e irlandeses (estes dizendo que antes de chegar à Escócia a Pedra pertenceu aos primitivos reis irlandeses e estava em Tara ou Tat-Erim, o que abre novo capítulo e torna ainda mais complexa a sua origem) como Lia Fail, a Pedra Falante, pois dizia-se que falava sempre que era preciso designar um rei, o que a tornava animada como um terafim, isto é, um génio invisível incarnado ou encadeado na mesma pedra pela qual se manifestava. Na simbologia tradicional a pedra ocupa um lugar distinto, por considerar-se existir entre ela e a alma humana uma relação estreita. Segundo a lenda grega do deus deus Prometeu, o Iniciador da Humanidade a quem deu o Fogo Celeste, as pedras conservam um odor humano, por a pedra e o homem apresentarem um movimento duplo de subida e de descida. O homem nasce de Deus e retorna a Deus. A pedra bruta desce do Céu, e após transmutada, polida, ela se ergue na sua direcção. Segundo a tradição bíblica, em função do seu carácter imutável a pedra simboliza a Sabedoria, e será por isso que Cristo enunciou a transformação das pedras (brutas) em pães (salvíficos). Estes pães de vida e sabedoria contextualizam-se no simbolismo da pedra polida e finalmente pedra cúbica pontiaguda, representativa da Pedra Filosofal (Lapis Exilis, para os alquimistas), a da Matéria tornada Ouro e Luz, o que a torna símbolo do Cristo Rei, do Supremo Imperador do Mundo, descido dos Céus para cumprir a Lei e os Profetas (destes, no referente à Escócia, o maior deles foi Saint Patrick, tendo profetizado que a monarquia escocesa duraria enquanto possuísse consigo a Pedra de Scone). Por esta razão é a Pedra da Finalização, da Coroação Soberana. Daí o carácter sagrado ancestral dado a esta Pedra de Scone.

Servindo a Pedra Sagrada de base ao Trono da Coroação, simbolicamente este torna-se representativo do Trono de Deus manifestando na Terra a grandeza e a glória do rei consagrado figurando a própria Divindade (cf. Apocalipse, 4:1.11). Por isto o trono real possui um carácter temporariamente divino, enquanto ocupado pelo monarca legitimamente reconhecido pelos pares de corte e sobretudo pela autoridade espiritual da religião predominante. Nisto, há a reter que a infabilidade pontifícia só se exerce ex-cathedra.

O Senhor do Trono (Arah) é um dos nomes dados frequentemente a Allah (Deus) no Alcorão, sendo também chamado de o Senhor dos Céus e do imenso Trono e o Mestre do Trono, identificando-se este com a Ciência Divina. É assim que no Islamismo, como igualmente em certos escritos cristãos, o Trono Divino é supostamente apoiado por oito Anjos correspondendo às oito direcções do espaço (oeste, sudoeste, sul, sudeste, leste, nordeste, norte, noroeste) e à subordinação de todo o Universo a Deus. É assim que o Trono engloba todas as coisas expressando o Espírito Universal na sua manifestação ou florescimento total, contendo o equilíbrio e a harmonia. Na Terra é o suporte da manifestação gloriosa de Deus, da Sua Misericórdia e Beatitude.

Significado oculto do túmulo de Newton (to Westminster Abbey)

A contemplação do túmulo de Isaac Newton (Woolsthorpe, 4 de Janeiro de 1643 – Londres, 31 de Março de 1727) na Abadia de Westminster, pela disposição das suas figuras monumentais leva a suspeitar que possa encerrar alguma mensagem secreta ou oculta por norma passando desapercebida à quase totalidade dos visitantes.

A haver algum tipo de mensagem esotérica neste túmulo monumental, por certo não caberá em certas teorias extravagantes pseudo-místicas completamente alheias ao pensamento, vida e obra deste grande cientista inglês, reconhecido físico e matemático, embora também tenha sido astrónomo, filósofo natural, teólogo e alquimista, aspectos muito pouco conhecidos ou explorados do mesmo.

Newton foi sepultado nesta Abadia em Abril de 1727, pouco tempo após a sua morte. John Conduitt, o marido da sua sobrinha, encomendou o memorial fúnebre, elaborado por William Kent e Michael Rysbrack, que só ficou concluído em 1731. O sarcófago de mármore negro tem a dianteira ilustrada por um baixo-relevo mostrando meninos (simbólicos das novas descobertas pelo sábio, na infância virgem da ciência experimentalista), um deles com o prisma reflector da luz e das cores, como referência a ter descoberto o telescópio reflector, e outro junto de uma fornalha como possível alusão ao seu passado alquímico, além de outros dois meninos carregando dinheiro recém-cunhado, insinuando a ligação de Newton à Casa da Moeda. Sobre o sarcófago está a escultura de Newton recostada sobre quatro grossos volumes alusivos às suas obras principais que trataram de Teologia, Cronologia, Óptica e Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Ao seu lado estão dois Anjos com rolos de pergaminho, representando o génio e a inspiração, e tudo sob o Globo Mundi sobre o qual está postada a figura imponente da deusa da Astronomia, chorosa e com um ceptro na mão (por ser considerada a “rainha das ciências”), fechando o fundo em pirâmide do conjunto uma estrela no topo.

A deusa da Astronomia encarna o empório celeste retratado sobre o Globo, enquanto a estrela solitária no topo da pirâmide vem a ser Vénus, a estrela-guia dos iluminados pelo pensamento superior e que fica bem no topo da pirâmide por esta ser catalisador das energias celestes (e também terrestres) de acordo com o pensamento esotérico dos antigos arquitectos egípcios. Todo este conjunto monumental não deixa de ser uma justa homenagem ao interesse de Newton pelo Hermetismo e a prática do mesmo, sem nunca entrar em colisão com a crença religiosa comum, antes aprofundando-a e esclarecendo-a pelas luzes da Ciência como “intérprete assíduo, sagaz e fiel da Natureza, da antiguidade e das Sagradas Escrituras, afirmando em sua filosofia a majestade de Deus e demonstrando com a sua conduta a simplicidade do Evangelho”, como reza em latim a sua inscrição tumular.

Isaac Newton terá se relacionado com uma Sociedade Secreta de Místicos Rosacruzes que terão existido entre os séculos XIV até aos fins do século XVII, e que por ser tão secreta também foi chamada de Colégio dos Invisíveis de quem se diz que alguns dos seus membros fundaram a Sociedade Real de Londres, matriz da Ciência Experimentalista e Empírica moderna, a que esteve ligado o mesmo Newton. O que se sabe é que ele tomou contacto com a Alquimia através de Isaac Barrow (Outubro de 1630 – 4 de Maio de 1697) e sobretudo de Henry More (12 de Outubro de 1614 – 1 de Setembro de 1687), ambos alquimistas e filósofos da Escola Platónica de Cambridge, onde Newton viveu antes de mudar-se para Londres em 1696. Em 1693 escreveu a sua Praxis, obra totalmente diferente da filosofia mecanicista aceite commumente, refutando o “engenho cego do Universo” com ideias cosmogónicas da Alquimia. Terá dedicado a maior parte da sua vida a esta, e quando morreu a sua biblioteca continha 169 livros alquímicos, pressupondo-se que haveriam mais que entretanto terá vendido por ocasião da sua mudança para a capital britânica.

Newton terá procurado através do raciocínio acurado e do experimentalismo laboratorial escalar os graus da Alquimia, ou seja, realizar as suas diversas operações graduais que se representam na própria pirâmide até a alcançar a luz do composto (a estela no topo) com que se fabrica ou realiza a Pedra Filosofal, também sinónima de Realização Espiritual, por alguns também chamada Iluminação RosaCruz, ou seja, a do Homem que se identifica ao seu Cristo Interior tornando-se Iluminado pela Mente e o Coração. Então, a estrela-guia no túmulo pode muito bem ser a representação da Pedra Filosofal, e assim mesmo a deusa Astronomia representar igualmente a Ciência Real dos Filósofos do Fogo, ou seja, a dos Alquimistas. Na mesma direcção, a estátua jacente de Newton sobre os livros e os Anjos ao seu lado conterão o significado oculto do lege, ora et labora tão caro à tradição alquímica, ou seja, lege como “estuda” (representado pelos livros), ora ou “medita” (assinalado pelos Anjos) e labora ou “trabalha” que foi o que Isaac Newton fez toda a sua vida.

Também se interessou pelas profecias e o milenanismo. Na sua obra Escatologia, Newton dedicou-se a investigar a filosofia teológica relacionada com o Apocalipse (último acontecimento na História do Mundo, ou o derradeiro destino da Humanidade), vulgarmente chamado o “Fim do Mundo”. Para isso recorreu à matemática fazendo contas complicadas inspirado em profecias bíblicas e não bíblicas que relacionou com a história política e religiosa do seu tempo, tudo de acordo com o tema tradicional da translatio imperii, ou seja, da trasladação ou mudança dos impérios, onde um fenece outro se levanta. Mas nisto não foi preciso e deixou somente hipóteses matemáticas sobre o eventual “Fim do Mundo”, também este assinalado no Globo que ilustra o túmulo do seu corpo finado.

Num manuscrito que ele escreveu em 1704, Observations upon the Prophecies, está descrita a sua tentativa de extrair informações científicas a partir da Bíblia, partindo dos seis anos que ela dá à criação da Terra, acabando por estimar que o Mundo não iria acabar antes de 2060, mas deixando a hipótese em aberto como possível de acontecer ou de não acontecer, prova da sua dúvida quanto à possibilidade. Nesse documento, após analisar as profecias constantes no Livro de Daniel (no Antigo Testamento), Newton conclui evasivo que o Mundo deverá acabar por volta de 2060 mas “ele pode acabar além dessa data, e não há razão para não acabar antes”! Ou seja, está nas mãos do próprio Homem o seu destino pelo trato que dá à Mãe-Terra.

Numa outra análise, o sábio interpreta as profecias bíblicas sobre o retorno dos judeus à Terra Prometida antes do Apocalipse: “A ruína das nações más, o fim do choro e de todos os conflitos, e o retorno dos judeus ao seu próspero reino”. Nisto acertou: o Estado de Israel existe desde 1948.

Adquirindo fama como cientista, Newton foi influenciado pela política e acabou não se ordenando clérigo, mas permaneceu fiel à sua crença no Universo criado por Deus cujas leis podem ser explicadas pela lógica recional, e comportou-se como um bom cristão anglicano prestando serviços na capela do Trinity Colege de Cambridge, e depois em Londres. Considerava que a mecânica celeste era governada pela gravitação universal e, principalmente, por Deus, sobre o qual relata: “A maravilhosa disposição e harmonia do Universo só pode ter sido originada segundo o plano de um Ser quer tudo sabe e tudo pode. Isto fica sendo a minha última e mais elevada descoberta”.

Não poderia ser mais justo e ajustado o epitáfio a Isaac Newton que o poeta Alexander Pope escreveu:

A Natureza e as leis da Natureza estavam imersas em trevas. Deus disse: “Haja Newton”, e tudo se iluminou.

A múmia «viva» do Museu Britânico (British Museum)

No British Museum (Museu Britânico), na sala 63 do nível 3, há uma múmia «viva», ou melhor, o corpo embalsamado de uma pessoa que foi mumificada viva, diz a Tradição Esotérica em susurro pelas bocas de Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, e de Mário Roso de Luna, fundador do Ateneu Teosófico de Madrid.

Trata-se da Mummy of Katebet (Múmia de Katebet ou Katsbeth), sobre quem pesam várias histórias sinistras que a tornam das mais desprezadas e temidas até pelos próprios funcionários do Museu. Para saber mais sobre esta múmia sem a danificar, os cientistas do British Museum usaram um scanner CAT que revelou tratar-se de uma mulher idosa com apenas dois dentes e cujo cérebro não fora removido, facto absolutamente anormal no processo da mumificação. Identificada como originária de Tebas, Egipto, onde viveu durante a 18.ª Dinastia, cerca de 1300-1280 a. C., terá sido uma princesa devota do deus Amon cantora de hinos no templo do mesmo.

Tanto o sarcófago como as decorações desta múmia são bastante incomuns. Quer o sarcófago, quer a forma da peruca e igualmente a posição das mãos, foram originalmente concebidos para um homem e não para uma mulher. Alguns dos objectos colocados sobre a múmia foram igualmente destinados a um homem, dizendo-se sem certeza nenhuma que pode ter sido o seu marido de nome Quenna cuja múmia, apesar de aventar-se estar ao lado desta originalmente, nunca foi encontrada e até se duvida seriamente que alguma vez tenha existido.

Baptizada Katebet pelos investigadores egiptólogos, o corpo desta múmia mantém-se preservado envolto em panos. No sarcófago está pintado um rosto dourado usando peruca, brincos brancos e anéis reais nas mãos cruzadas esboçando sinais mágicos de características fálicas. Sobre o seu estômago há um escaravelho pequeno e escuro tendo por cima uma figura humana de asas abertas, representando a sua alma (o Ka, em egípcio), e dois personagens masculino e feminino, possivelmente sacerdotes de Amon, laterais ao escaravelho destinado a oferecer-lhe protecção mágica. Mais abaixo, sobre os joelhos, vê-se uma pequena estatueta em forma de múmia, um shabti, indicativa desta de Katebet ter sido mumificada com todas as regras necroláticas da religião dominante em Tebas.

A história esotérica sobre esta múmia misteriosa vai muito além do que se conta correntemente, confirmando e também também rectificando as conclusões sobre ela dos investigadores egiptólogos. No meio teosófico fala-se da irmã de Tutmés II, quarto rei da 18.ª Dinastia Egípcia, que era uma princesa lindíssima de grande vivacidade anímica e espiritual. O seu nome: Kali-Beth, “Princesa Negra”, descendente afastada de um rei ante-diluviano chamado Baal-Iman, “Rei Corvo”, que se diz ter pautado a sua vida em práticas necromânticas de magia negra e que acabou vítima de tais práticas maléficas. Por causa dessa descendência e também pela sua beleza e vivacidade, as tíbias forças sinistras de Tebas, os magos negros que então tinham a sua sede aí, arquitectaram o plano diabólico de raptar a princesa para mumificá-la viva. Assim fizeram.

Raptaram Kali-Beth arrastando-a para o seu antro tenebroso onde procederam ao terrível ritual necromântico mumificando-a viva, prendendo por processos de magia negra o seu Ka ao corpo embalsamado, fazendo dela estátua animada psiquicamente, enquanto a vida espiritual e física da bela e infeliz princesa ia-se apagando. Só a alma, o veículo psíquico ou Ka, restou aprisionada no corpo mumificado vivo. Sem vida orgânica e espiritual, em breve se tornou um monstro terrível sedento de vingança.

O desejo dos seus algozes em perpretarem crime tão bárbaro era fazê-la sofrer a ponto do ódio, a dor e a revolta conservarem-se no Ka, e as vibrações emanadas do corpo trucidado servirem de poderoso emanador de energias maléficas. Assim Kali-Beth tornou-se Kats-Beth, “Pedaço de Princesa”. Foi tal o poder sinistro desta múmia que onde ela se encontrava toda a má-sorte de desgraças caía sobre o povo, e através do terror que infundia os magos negros dominaram Tebas em todos os sentidos, desde o político, económico, militar e social até ao religioso.

Entretanto subiu ao trono do Egipto Tutmés III que casaria com a princesa Satiah, ambos seres de elevada dignidade espiritual e humana que abjuravam as práticas nabalescas dos magos negros apoiantes do partido de Hatchepsut, meia-irmã madrasta do monarca que na menor idade deste governou o país como déspota terrível. Pouco antes de tornar-se o sexto rei da 18.ª Dinastia, a vida de Tutmés III, e também a de Satiah, correu perigo de morte semelhante à sofrida pela malograda princesa Kali-Beth: Hatchepsut ordenou aos magos negros da sua corte que raptassem o casal e o mumificassem vivo pondo-o no mesmo sarcófago de Kali-Beth, transfundindo as energias psíquicas maléficas desta para ele, podendo deitar fora o corpo podre já sem préstimo psíquico da antiga princesa, substituído por estes novos. Assim fizeram: raptaram o casal real e na presença da madrasta megera quando iam dar início ao ritual necromântico de os embalsamar vivos, irrompeu no covil dos magos negros um grupo de guerreiros e sacerdotes fiéis a Tutmés III que impediu o acto matando os indignos sequazes do mal, incendiando o seu templo e aprisionando a velha Hatchepsut de quem se diz ter sofrido sorte igual à de Kali-Beth, cujo despojo mortal foi consumido no fogo que purificou esse lugar de perversão.

Isto é o que conta, em linhas gerais, a Teosofia Ocidental de Souza e de Luna. E com tal narrativa nunca antes dada ao público geral com tais pormenores, fica explicada a razão do sarcófago destinar-se a um homem mas quem nele está ser uma mulher velha.

O facto é que os símbolos apresentados neste sarcófago de Katebet são francamente do imobiliário simbológico da magia negra. O escaravelho sobre o estômago, ligado ao sistema psíquico, é a representação da deusa Khepra que presidia à Harmonia Cósmica. Esta torna-se desarmonia ao ser contrariada pelos sinais sinistros esboçados pelos dedos das mãos. A mão direita reflecte o símbolo fálico de Saturno presidindo à função psíquica e passional ao mesmo tempo que emite mensagem ofensiva a quem contempla. Aqui o espiritual e o amor puro são abjurados em prol da desarmonia sensorial, onde domina o psíquico e o ódio. Nisto, sendo também o escaravelho símbolo do renascimento da alma torna-se aqui indicativo da mesma agrilhoada ou encadeada artificialmente ao corpo, que é a maior prova de realmente ter havido uma mumificação viva. Os dedos da mão esquerda de Katebet esboçam os cornos do touro que apesar de serem símbolo de virilidade, esboçados com a sinistra igualmente indicam infidelidade. Ambas as mãos encerram a mensagem caótica de infidelidade sexual, de paixão caótica, sempre geradora de ódios, o que obviamente nada tem a ver com harmonia de espécie alguma.

O shabti ou estatueta de múmia sobre os joelhos de Katebet, reforça ainda mais o sentido de encadeamento à matéria corporal do Ka da vítima. Independentemente dos seus outros significados artísticos e simbólicos posteriores, como o de ser simples estatueta funerária, a sua finalidade mágica é fornecida pelo próprio Livro dos Mortos, capítulo VI, do Antigo Egipto: “Oh, shabti, se eu for julgado e condenado a fazer trabalhos forçados no submundo, vai lá por mim e faz tu”. Ao que o shabti respondeu: “Aqui estou, e irei onde mandar-me e farei o que ordenar-me”.

Assim procedeu a múmia viva de Katebet, de sinistra memória do desconhecido Egipto mágico e esotérico mas cuja presença testemunhal é hoje motivo de visita a este Museu Britânico após ter sido descoberta, abandonada à sua própria maldição, entre as areias e rochas que restam da grandeza desse antigo império do Nilo.

A necrópole dos cavaleiros da Igreja do Templo (Temple Church)

Por certo a Igreja do Templo (Temple Church), situada entre Fleet Street e o Rio Tamisa, é o monumento funerário da Ordem dos Templários (1128-1312) mais significativo de toda a Europa que sobrevive até hoje nessa parte de Londres.

Esta necrópole templária ocupa a parte mais antiga da Igreja do Templo, a rotunda, e foi com esse formato circular original que em 10 de Fevereiro de 1185 Heráclio, Patriarca de Jerusalém, a consagrou à Santíssima Virgem Maria. Vêem-se no chão desta rotunda tampas de sepulturas com as estátuas jacentes de nove cavaleiros templários, dispostos em pares menos um, o Mestre do Templo que era ímpar, incomparável ou sem par.

Com efeito, o Mestre Geral da Ordem Templária era considerado pouco menos poderoso que Deus e assim chegava a ser mais importante que o próprio rei e o papa, apesar de ser vassalo deste como chefe de uma Ordem militar professa reconhecida pela suma autoridade da religião católica. O número nove destas efígies funerárias evoca os nove fundadores originais da Milícia de cavaleiros-monges que foram a Jerusalém fundá-la nas ruínas do Templo de Salomão, reinando Balduíno II (1118-1131), sendo seu líder o nobre Hughes de Payens, o mesmo que escolheria High Holbom como a primeira morada dos templários em Londres. Mas com o rápido crescimento da Ordem, em breve mudaram-se para aqui após comprarem o terreno indo construir instalações muito maiores. Tal área continha, originalmente, não apenas a presente igreja mas também alojamentos para os cavaleiros, instalações para treino militar e terrenos de cultivo. Os noviços da Ordem vindos doutras comarcas, não podiam entrar no espaço reservado do Templo de Londres sem a autorização prévia e estrita do próprio Mestre Geral.

O complexo da Igreja do Templo foi utilizado como alojamento para os núncios papais, reis e dgnitários de toda a Europa, funcionando também como um banco onde os nobres e os cavaleiros de todo o reino depositavam os seus bens, confiando-os aos cuidados da Ordem. O Mestre do Templo, como convinha a uma Ordem poderosa, sentava-se no Parlamento como Primus Baro, o primeiro barão do reino. Depois de 13 de Outubro de 1307, quando se iniciaram as prisões em massa dos templários na França e o confiscar dos seus bens móveis e imóveis, o rei Eduardo III de Inglaterra tomou o controle desta igreja dispondo-a como posse da Coroa. Mais tarde foi doada à Ordem dos Hospitalários, que por sua vez alugaram o complexo da Igreja do Templo a duas universidades de advogados colectivamente conhecidas como Colégios de Jurisconsultos da Corte, e individualmente como os Templos Interior e Central. Este partilhavam a utilização vitalícia da igreja que se mantém até hoje, tendo James I a reconfirmado em 1608. Vítima de um bombardeamento alemão em 1941 que incendiou o telhado da igreja circular, destruiu o seu órgão e danificou as colunas de mármore Purbeck que tinham uma ligeira inclinação para fora, após ser restaurado este templo foi reconsagrado em Novembro de 1958.

Compreendendo duas secções separadas, o edifício é formado pela área conhecida como a igreja circular, baseada no esquisso da igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, e uma secção rectangular adjacente chamada o coro, que foi acrescentado no Dia da Ascensão da Virgem de 1240, portanto, depois da construção da igreja ainda hoje encantando pela sua maravilhosa acústica. A nave da rotunda tem 16 metros de diâmetro, colunas com sabor oriental e as paredes estavam originalmente pintadas de cores vivas retratando cenas religiosas.

Este Temple Church é o exemplo notável acabado de uma basílica martyrium, “basílica de mártires”, edifício geralmente de formato octogonal ou circular que reúne a função religiosa com a tumular, de que terá sido o primeiro exemplo a igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém. Esta foi alvo de restauro no ano 326, a mando do imperador romano Constantino, resultando num grande monumento comemorativo de forma circular, que guardava o Túmulo do Senhor, chamado Anastasis, envolto num deambulatório de forma irregular associada a uma basílica de cinco naves com pórtico e ábside saliente.

É neste contexto que surgem os mausoléus de planta centrada – círculo mágico – na medida em que a forma circular “criava” uma espécie de cordão de defesa psíquica à volta das urnas para não permitir a “penetração” de inimigos do além-vida, demónios e almas errantes (representados nas cabeças bucólicas sobre as colunas neste redondo templário). De entre todas as organizações religiosas e militares estabelecidas, na Idade Média, na Europa, foi a dos templários quem mais representou este modelo arquitectónico, e a razão é óbvia atendendo que a Ordem do Templo foi fundada no Médio Oriente, na Terra Santa. É assim que este Temple Church aparece com a sua planta em rotunda com uma cúpula sustentada por uma colunata de seis colunas de base redonda formando um hexágono e uma nave circundante de doze lados, representando o Universo por inteiro (assinalado pelos 12 signos do Zodíaco) cujo redondo levou alguns autores religiosos a associá-lo ao formato da hóstia sagrada como Corpo de Deus que na Sua grandeza é todo o Empório.

O medalhão central da cúpula mostra uma rosácea que aliada ao formato hexagonal do conjunto, prefigurando a estrela de seis pontas, é indicativa de Stella Maris, isto é, da Estrela-do-Mar evocativa de Santa Maria protectora dos que navegam no oceano dos vivos e dos mortos. Era a Maria, Mãe de Misericórdia, que os templários se encomendavam na hora da morte (também esta assumida com forma feminina na iconologia medieval) rogando a Sua protecção contra os inimigos invisíveis tal qual os protegera dos inimigos visíveis na guerra justa aos infiéis.

De mãos postas em prece ou sobre a espada prestes a ser desembainhada, assim se vêem as estátuas jacentes estes templários londrinos. As posturas representam a encomenda da alma à Virgem Santíssima e igualmente usar a espada de cavaleiro honrado para afrontar a morte e vencê-la sob o agasalho de Maria, Mãe da Fé, e assim também derrotar a todos os demónios penantes e almas penadas que tentem impedir a sua assunção ao Reino do Pai, ao Paraíso Celestial. Este poder sobre os homens e as almas está representado no leão jacente aos pés do cavaleiro que o calca ou domina, representando aqui a autoridade e a força invencível das inteligências santas (a dos templários), cujo esforço soberano, indomável, foi sempre dirigida a imitar a Majestade Divina representada em Cristo, o Leão de Judá. Também o facto dos cavaleiros estarem aos pares remete para o simbolismo feminino do número dois. Na Antiguidade este algarismo era atribuído à Mãe, indicando o equilíbrio da alma com o corpo e a evolução corporal e espiritual, o que os templários expressavam pela sua dupla função de cavaleiros e de monges.

Nestas estátuas jacentes tem-se o exemplo mais notável do guerreiro jacente prestes a desembainhar a espada e calcando aos pés o dragão da concupiscência pecaminosa, naquela de Gilbert Marshal Earl of Pembroke, falecido em 1241. Não sendo templário mas querendo ser sepultado como tal nesta igreja, foi aceite na Ordem e ordenado em 1167, abandonando a sua profissão de cavaleiro andante consumado campeão de justas, vencendo torneios por todo o país, nunca tendo sido derrotado em cerca de 500 assaltos. Marshal teve também um papel político essencial ao lidar com os barões revoltosos que fizeram o rei João assinar a Magna Carta (a Grande Carta, destinada a restringir os poderes do monarca) em Runnymede em 1215, sendo a Igreja do Templo o importante local das negociações. Este nobre templário acabou tornando-se conselheiro real durante o reinado do filho do rei João, Henrique III, o qual também expressou o desejo de ser colocado em repouso nesta igreja após a sua morte, o que não aconteceu e foi sepultado na Abadia de Westminster.

Dois templários num só cavalo (Knights Templars)

No exterior da Igreja do Templo (Temple Church) vê-se no topo de uma coluna dois cavaleiros templários montados no mesmo cavalo, o dianteiro empunhando a bandeira da Ordem feita em farrapos, sinal da sua aparente decadência e consequente abolição.

Este motivo de dois templários para um só cavalo é sobejamente conhecido dos estudiosos da Ordem dos Templários por ele aparecer impresso em antigos documentos e até moedas cunhadas da mesma Milícia. O tema é conhecido, sim, mas o seu significado não tanto e é deste que nos ocuparemos agora.

Tudo começou na ocasião do processo de julgamento dos templários que se arrastou desde 1307 até praticamente à condenação à morte na fogueira do seu último Mestre Geral, Jacques de Molay, em 18 de Março de 1314 na ilha dos Judeus, em Paris.  Durante esse controverso processo foi inventada a lenda dos “dois cavaleiros adoradores do diabo”, inspirada na figura de dois guerreiros para um só cavalo, tal como estava gravada nos selos templários dos séculos XII-XIII, tendo um cercadura a sigla latina: Sigillum Militum Xpistii (“Selo da Milícia de Cristo”). Esse selo, que foi igualmente gravura de numerosas cartas e bulas passadas pelo Templo assim como moeda corrente que percorreu a Europa e o Médio Oriente por meio do sistema bancário fundado por ele, acabou servindo aos inquisidores de prova cabal e argumento positivo de terem havido práticas sodomitas e demoníacas por parte dos acusados. A lenda é a seguinte:

Dois cavaleiros cruzados marchavam para a guerra montados em um só cavalo, por serem muito pobres, e como bons amigos compartilhavam a mesma montada. Pouco antes de se baterem com os terríveis inimigos infiéis, um deles encomendou-se a Jesus Cristo e o outro, a Lúcifer. Aconteceu que o cavaleiro que se encomendara a Jesus Cristo ficou ferido, enquanto o seu companheiro, que se entregara a Lúcifer, saiu ileso da batalha. Então, convenceu o amigo ferido, em face do ocorrido, do poder superior que tinha um amo como o Diabo, e logo aquele entregou-se nas mãos de tão poderoso senhor. Depois, como ambos buscavam poder e glória, fundaram uma Ordem de Cavalaria que puseram sob a protecção de Lúcifer, alcançando em pouco tempo honras e riquezas como nunca se vira em toda a Terra.

Apesar do óbvio sentido malévolo que os inquisidores lhe incutiram, a lenda não deixa de igualmente sugerir o entendimento duplo que os templários tinham da sua Ordem : desde o mais imediato e público (exotérico), confessional rendendo graças ao Papa e a Deus, ao mais transcendente e restrito (esotérico), sapiencial prestando obediência ao Mestre e o Diabo, isto é, à Sabedoria Diáblica ou Iniciática, que nem por isso deixa de ser igualmente tanto ou mais Divina, comparando com o entendimento limitado da Fé concebida pela mente estreita da religiosidade comum. Um e outro entendimentos estavam interligados, pois não raro quem se ligava a uma religião confessional aprofundava o seu entendimento da mesma por igual afiliação a uma Ordem Iniciática, como se esta fosse o fruto sob a casca daquela. Esses dois cavaleiros da lenda chamavam-se Hugues de Payens e Geoffroy de Saint-Aumer, aquele “convertido” por este. Ambos acabaram “convertendo” os seus sete companheiros que, todos os nove, foram os fundadores originais da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, vulgo, Ordem dos Templários.

Os nomes desses nobres cavaleiros que juntaram as armas à religião, são os seguintes: Hugues de Payens, Payns ou Paganis; Geoffroy de Saint-Aumer (Godofredo de Santo Omer); André ou Andreas de Montbard (tio de São Bernardo de Claraval); Payen, Payn ou Pagan de Montdidier (Pagano do Monte Desidério); Archimbalde Saint-Agnan ou Archambaud de Saint-Armand; Geoffroy Bisot, Brissol, Bisol ou Bizol; Gondemare, Gondomare ou Gondemas; Rossal, Roral, Ruralo ou Roland; Arnoldo ou Arnaldo da Rocha (português).

Se todos esses eram sodomitas procurando a satisfação sexual entre os seus pares, é coisa que não passa pela cabeça de ninguém, muito mais sabendo-se que a sodomia era considerada o pior e mais anormal dos actos que a própria lei do direito canónico evitava pronunciar e só autoridade diocesiana podia manifestar-se após consulta directa ao Papa. Todavia, não custa admitir que ocasionalmente entre alguma soldadesca contratada pelo Templo para servir no Ultramar tivesse ocorrido excessos anormais, que após descobertos eram severamente punidos. Também não custa admitir que os mais velhos tivessem aconselhado a alguns jovens noviços o recurso à mastusbação como medida profiláctica, conselho que hoje qualquer médico dá aos jovens mais fogosos, mas que isso fosse regra geral já custa admitir. Não é possível descortinar como um cavaleiro de estirpe nobre, com o manto de Cristo pesando sobre os ombros que voluntariamente aceitara a Regra da Fé afirmada pelas Armas, viesse depois a quebrar os seus votos de perfeição espiritual pelo gosto bizarro da carne de sexo igual, ou seja, praticando a sodomia e até a pedofilia com os mais jovens. Nada disso foi provado oficialmente e, para não restar qualquer dúvida, os Estatutos do Templo são claríssimos neste ponto:

“572. […] se um irmão faz qualquer coisa contra a Natureza e contra a Lei de Nosso Senhor, perderá a Casa”. Isto é, era expulso da Ordem e punido severamente.

Essa acusação de sodomia, junta àquela outra dos beijos lascivos na boca, no pénis, no ánus, etc., os inquisidores pretenderam-na comprovada por aquela supradita ilustração antigatemplária: dois cavaleiros para um só cavalo, mesmo sabendo-se de antemão que isso era tão-só simbólico, pois cada cavaleiro tinha direito a três cavalos e a cinco noviços ajudantes!

Simbolicamente, será uma alegoria do Androginismo Primordial representado pelos Gémeos do Zodíaco, sendo o cavalo símbolo zoomórfico de Tradição, de Sabedoria Divina. Tanto assim é que, filologicamente, Kaballah grafada com K significa Tradição, mas se for com C tem o sentido de cavalo. Ademais, sabe-se que astrologicamente Sagitário (o cavalo) está em oposição a Gémeos (o andrógino), mas se tornando dócil ou domiciliário quando as qualidades superiores de ambos os signos imperam sobre as inferiores. Esta representação hermética dos Gémeos remete para o sentido do Andrógino Perfeito que equilibrou em si as duas polaridades sexuais, passando a ter tanto de poder criador como de força afectiva revelados como mente e coração (cultura e carácter) em perfeito equilíbrio, sinal do Homem Perfeito ou Lunissolar que é todo o Mestre Verdadeiro ou Adepto Real, o mesmo a quem os orientais chamam Mahatma, “Grande Espírito” (Maha+Atma), dominando, “cavalgando” a Sabedoria Iniciática das Idades ou Ciclos por que se manifesta a Vida Universal onde se processa a evolução geral dos seres viventes. Ao mesmo tempo e em conformidade com a Missão Templária, também representa a simbiose Oriente-Ocidente por via da Escrita Velha (Profetas, Oriente, cavaleiro dianteiro da alegoria) e da Escritura Nova (Apóstolos, Ocidente, cavaleiro traseiro da alegoria).

Quanto aos beijos lascivos acompanhando a sodomia, prova de corrupção corporal e heresia espiritual para os acusadores dos templários, também esses não ficaram provados. O “beijo da paz” era dado nas faces, como consta nas Escrituras Sagradas, e não no extremo oposto do corpo como “beijo de sodoma”, inversão e perversão da virtude em vício, prática satânica que os carrascos do rei da França quiseram para os templários, fazendo correr o boato na voz do povo: “Todas as crianças dizem abertamente e a cru umas às outras: livra-te dos beijos dos templários”. Essa acusação ter-se-ia baseado no texto formal do artigo n.º 678 dos Estatutos do Templo: “E aquele que o faz irmão deve erguê-lo e beijá-lo na boca; é costume que o irmão capelão também o beije”. É pleonástico esse “na boca”, porque ósculo significa boca, tornando o texto dicotómico, arrevesado, ou por má tradução ou por acréscimo, alterando o sentido original, pois “na boca” está a mais.

O dragão de Temple Bar (Fleet Street)

Temple Bar, em Fleet Street, está bem assinalado pela estátua do dragão junto à Royal Courts of Justice (Corte Real de Justiça), no topo do pedestal que tem abaixo as estátuas da rainha Victória e do príncipe de Gales, Eduardo VII. Feito de bronze em 1880 por Charles Bell Birch (1832-1893), é o emblema oficial da cidade de Londres genericamente conhecido como Griffin (Grifo), apesar do seu aspecto assemelhar-se mais a um dragão.

Erecto sobre o escudo da Casa de Gales, o animal mítico parece exercer a função de totem londrino catalizador das sinergias da cidade, postado estrategicamente aqui (em Royal Courts of Justice) à dianteira da Londres política (Palácio de Westminster) e da Londres religiosa (Catedral de Westminster). O próprio lugar onde está o pedestal do Griffin foi o principal das antigas sete portas da cidade (Ludgate, Newgate, Aldersgate, Cripplegate, Moorgate, Bishopsgate e Aldgate) como ponto axial da mesma, tradição geognósica esta que aqui recua ao período dos templários.

Com efeito, Temple Bar herda o seu nome da Igreja do Templo que ocupava a área sul de Fleet Street que pertencia à Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão. Vem dessa época a tradição do monarca parar no Temple Bar antes de entrar na cidade, para que o mayor pudesse oferecer-lhe a Espada do Estado como símbolo de lealdade, mas que na altura consistia na recepção real na Igreja do Templo pelo Mestre da Ordem com os cavaleiros perfilados apresentando armas.

Esse acto político-militar em chão sagrado vem a corresponder ao duplo significado do grifo (griffin), ave fabulosa com bico e asas de águia e corpo de leão, ou seja, detém o poder terrestre do leão, representado no rei, e a energia celeste da águia, assinalada no Mestre do Templo. Deste modo, inscreve-se na simbólica geral das forças da salvação, neste caso, de Londres protegida pela corte e pelos templários.

Pela duplicidade da sua natureza que faz do grifo um partícipe da Terra e do Céu, na Idade Média ele foi associado às duas naturezas – humana e divina – do Cristo, como Senhor da Espada (Mateus, 10:9) e como Senhor da Palavra (João, 14:6), logo, associado à dupla qualidade de Força e Sabedoria correspondentes ao Poder Temporal (Realeza) e à Autoridade Espiritual (Sacerdócio).

O grifo parece ter sido para os antigos hebreus o símbolo da Pérsia – que sempre fez largo uso dessa figura – e consequentemente da doutrina que a caracterizou: a doutrina de Zoroastro ou a ciência dos Magos, assente sobre dois os dois princípios do Bem e do Mal ou de Ahura-Mazda (Deus) e Angra-Mainyu (Diabo).

Talvez por esse motivo o grifo fosse interpretado num sentido desfavorável segundo uma tradição cristã mais tardia, puritana e tendenciosa, onde à sua natureza híbrida foi-lhe tirada a franqueza da águia e a nobreza do leão, para representar exclusivamente a força cruel. É assim que aparece em alguma simbologia cristã como a imagem do demónio, a tal ponto que certos escritores sacros impuseram-lhe a expressão dúbia hestisequi, sinónima de Satanás. Mas no domínio civil designa apenas a força maior, o perigo iminente, que aqui em Temple Bar o seu griffin sendo realmente a força maior, contudo protege a cidade de todo o perigo afastado ou iminente. Razão de ele ser uma espécie de catalizador psíquico ou tótem das sinergias de Londres, nisto sendo justificado pela antiga cultura grega atribuindo ao grifo a função de guardião do tesouro material e espiritual da Grécia apolínea, motivo porque simbolizava a força e a vigilância, assim também o temível obstáculo a superar para chegar ao tesouro.

Com esses últimos significados do grifo ele acaba por associar-se ao sentido do dragão, que realmente o é. Aparecendo essencialmente como um guardião severo ou um símbolo do mal e das tendências demoníacas, o dragão, na verdade, é o guardião dos tesouros ocultos, e, como tal, o adversário que deve ser eliminado para se ter acesso a eles. Nisto, o seu adversário será São Jorge cuja cruz e espada figuram na bandeira de Londres, mas neste particular quem afrontou o dragão, símbolo das forças telúricas da Terra, e o venceu ou dominou, foi a Ordem dos cavaleiros-monges templários, cujos mais eruditos e iluminados tinham tanto os conhecimentos do mundo como a sabedoria do céu. No Ocidente, o dragão guarda o Tosão de Ouro e o Jardim das Hespérides, sendo que a lenda germânica de Siegfried confirma que o tesouro guardado pelo dragão é a imortalidade.

São Jorge, expressão terreal do celestial São Miguel onde ambos dão combate ao dragão, ilustra bem a luta perpétua do bem contra o mal, da fé contra a heresia, esta que não é somente as crenças desviantes mas também todas as expressões que se oponham ao verdadeiro progresso espiritual e humano, e aqui, sim, o dragão identifica-se à  apocalíptica besta escarlate que todo o paladino do bem deve vencer com a espada da verdade e da justiça, como esse Gládio Flamejante de São Jorge por certo arquétipo das espadas da coroa britânica: a Espada do Estado, a Espada de Jóias do Estado, a Espada da Misericórdia ou Curtana (conhecida como a de Eduardo, o Confessor), a Espada da Justiça Espiritual, a Espada do Tribunal de Justiça.

O dragão vermelho é o emblema do País de Gales. O Mabinogi de Lludd e Llewelys narra a luta do dragão vermelho e do dragão branco, este simbolizando os saxões invasores. Finalmente, os dois dragões, bêbados de hidromel ou a bebida dos deuses, são aprisionados e enterrados pelos anglos no centro da Ilha de Bretanha, em Oxford, numa arca enorme de pedra. Ficou a tradição de que enquanto eles não fossem descobertos, a Ilha nunca sofreria outra invasão. Por este motivo, além deste dragão de Temple Bar há um outro no extrmo oposto da cidade como seu complemento, assim dispondo Londres como a cidade do dragão que protege-a. O dragão enclausurado é o símbolo das forças ocultas retidas no seio da Terra, e também expressa as faces de um ser velado pronto a reaparecer iracundo tal qual Saint-George: o dragão branco mostra a cor lívida da morte, e o dragão vermelho as da cólera e da violência. Ambos os dragões enterrados juntos significam a fusão do seu destino: tendo a cólera amainado por não haverem novos inimigos invasores, contudo permanece o poder virtual dessa parelha temível que poderá ressurgir junta, pronta a lançar-se violentamente semeando a morte entre quaisquer novos invasores.

O eixo dos dragões, no tema astrológico, é também chamado eixo do destino. A cabeça do dragão (caput draconis), que indica o lugar onde se deve construir a sede da existência consciente, opõe-se à cauda do dragão (cauda draconis), que revolve todas as influências vivas do passado, o que os orientais chamam karma (a causa geradora de efeito) que é preciso resolver, anular de vez. Essas duas partes do dragão celeste são igualmente chamadas nódulos ou nós lunares, 14 a norte e 14 a sul. Tratam-se de 28 casas ou pontos nos quais a trajectória da Lua cruza com a do Sol.

Finalmente, na Alquimia o dragão é o símbolo do mercúrio filosófico. Dois dragões que se dão combate designam as duas matérias da Grande Obra Filosofal, o enxofre e o mercúrio. Um dos dragões é alado enquanto o outro não, para significar justamente a fixidez de um e a volatilidade de outro. Quando o enxofre, fixo, transmutou em sua própria natureza o mercúrio, volátil, esses dois dragões deixam de estar como guardas temíveis à porta do Jardim das Hespérides (representado pela operação de fusão desses elementos) e dissolvem-se um no outro indo dar origem à Árvore dos Pomos de Ouro, ou seja, à própria Pedra Filosofal sinónima de Iluminação Espiritual e consequente estado de Imortalidade. Vencidos os dragões e tomando posse do pomo dourado, o Alquimista ou Adepto do Fogo torna-se ele mesmo um Dragão de Sabedoria, por certo sendo esta a mensagem derradeira do londrino Griffin.

A torre heráldica da igreja de São Jorge (Saint George Bloomsbury)

A igreja de Saint George Bloomsbury não é das mais antigas de Londres pois recua aos inícios do século XVIII, quando o Parlamento aprovou em acta o projecto-lei da sua construção em 1711 e foi nomeado para o efeito o projectista Nicholas Hawksmoor, decorrendo as obras entre 1716 e 1731 mas que em 28 de Janeiro de 1730 Edmund Gibson, bispo de Londres, procedeu à sua consagração.

O pórtico desta igreja foi inspirado naquele do Templo de Baco em Baalbeck, no Líbano, e a sua torre, que recebeu a influência da descrição do Mausoléu de Halicarnasso pelo naturalista romano Plínio, o Velho (23 – 25.8.79 d. C.), é encimada por uma estátua do rei George I (28.5.1660 – 11.6.1727) trajado como imperador romano, tendo abaixo o leão e o unicórnio disputando a coroa entre eles.

A explicação imediata dessas figuras reporta exclusivamente para o domínio da simbologia política, posto o unicórnio representar a Escócia e o leão a Inglaterra cuja coroa é a do Reino Unido de Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda, e assim ficou até hoje como as suas Armas oficiais assinaladas nesta torre heráldica. Essa rivalidade representada pelos dois animais inspirou uma famosa nursery rhyme no início do século XVII, chamada The Lion and the Unicorn: “O Leão e o Unicórnio pela real coroa pelejaram: / Deram um belo espectáculo para todos que assistiram. / Com pão branco, preto e bolo de passas os regalaram. / Até que, cansados, a toque de tambor os expulsaram”. Essa disputa política terminou com a coroação de Jaime VI da Escócia como Jaime I de Inglaterra, unindo-se os dois países e criando-se um novo brasão com ambos os animais como suporte das armas régias.

Contudo, o simbolismo do leão e do unicórnio, animal já por si mítico, não fica somente pelo factor imediato da heráldica política por pertencer ao imobiliário simbológico da Tradição Esotérica conhecida, adoptada e adaptada às conveniências imediatas pelos antigos hermetistas britânicos, principalmente por aqueles iluminados da Sociedade Secreta Rosacruz que marcaram o período da corte iluminista da rainha Elisabeth I (1533-1603).

Astrologicamente, o leão heráldico representa o próprio signo do Leão, casa do Sol, enquanto o unicórnio expressa o Capricórnio, casa de Saturno. Como politicamente o leão venceu o unicórnio anexando a Escócia à Inglaterra, isso equivale esotericamente ao Sol ter mergulhado nas entranhas de Saturno, expressivo do seio da Terra, tornando-se o Sol da Meia-Noite, Sol Ctónico ou Suberrâneo que dá luz às profundezas escuras do Globo terrestre. Por isto, considera-se tradicionalmente o signo da Inglaterra como sendo Capricórnio/Saturno tendo por ascendente Leão/Sol.

O próprio etimólogo Britânia contém algo de natureza saturnina afim ao elemento mineral e ctónico, pois que além de significar “terra dos bretões” também significa “lugar da pedra”, remetendo para o simbolismo graálico da litrolátrica Lia-Fail ou “Pedra do Destino”, e assim também o nome Inglaterra ou England, que não é só a “terra dos Anglos” (tribo germânica da Alta Idade Média estabelecida na Ilha) mas também a “terra interior”, mais uma vez com o sentido ctónico ou subterrâneo do Sol Saturnino ou da Meia-Noite, isto é, o mesmo Núcleo Central da Terra apelidado de Valhalah no Ocidente e de Shamballah no Oriente, neste dando-o como Morada dos Deuses a quem chamam Cumaras e dispõem sob a influência do signo de Capricórnio.

Por essa relação mineral do ponto de vista oculto, é que a iconografia alquímica representa o unicórnio relacionado ao mercúrio e o leão ao sulphur ou enxofre, sendo comum a aparição desses dois animais em simultâneo para ilustrar essa união hermética da Alma (representada pelo volátil mercúrio) com o Espírito (assinalado pelo inflamável enxofre). A união desses dois princípios é representada na cripto-linguagem alquímica como a “núpcia filosofal do Rei e da Rainha”, mas enquanto não se unem representam-se opondo-se um ao outro em atrito permanente sinónimo de actividade criadora dessas duas matérias-primas da Alquimia, ou seja, da acção material e da acção espiritual chamadas de fixo e volátil. O enxofre é o princípio fixo, activo, masculino, representando as propriedades de combustão e corrosão dos metais, ou seja, de dissolvição de todos os elementos em si como princípio ígneo dos mesmos. O mercúrio é o princípio volátil, passivo, feminino, que deixa de ser inerte quando é animado pelo princípio masculino, o que se representa pela alma passional tornando-se espiritualmente activa quando unida ao Espírito que a tudo anima. Também nisto vê-se o leão vencendo o unicórnio (por vezes substituído pelo veado) na iconografia alquímica, e essa vitória leonina é sobretudo sinónima de União do Espírito com a Alma, do Sol com a Lua, como também às vezes são representados.

O Filho, o sal da Terra como Corpo da mesma gerado da união do Pai com a Mãe, está representado no topo da torre desta igreja de Bloomsbury na pessoa real de Jorge I corporificando o Orago local, São Jorge. Chamado Akdorge e Vaidorge por hindus e tibetanos, São Jorge (padroeiro da Inglaterra) é associado à pessoa mítica do Rei do Mundo chamado na cultura oriental Chakravarti e na ocidental judaico-cristã Melkitsedek, o que está mais próximo de Deus e na cumeeira dos Santos e Sábios de todas as religiões do mundo (certamente por isto postou-se Jorge I no topo da torre). O próprio nome Jorge adapta-se a essa função de soberano universal, atendendo à sua formação de dois temas gregos, Ghea e Ergon, como sejam “Terra” e “Obra”, isto é, a Obra da Terra cuja evolução é por Ele dirigida. Outros etimologistas dizem que este antropónimo inglês George provém do grego Gargaron ou Garga-Oros, “salta montes” ou “aquele que está no cume dos montes”, estes representando o mundo em cujo cume espiritual está Aquele. De gargaron procedeu gregorus que se transformaria em gregório, termo relacionado com a úvula emissiva do vómito mas também do verbo, da fala que pela Boca Divina transforma-se em Sabedoria revelada.

Com isso relaciona-se o simbolismo medieval do unicórnio, que com o seu chifre único no meio da fronte expressa a flecha espiritual, o raio solar, a espada de Deus, a Revelação Divina, a penetração do Divino na criatura humana. Representa na iconografia cristã a Virgem fecundada pelo Espírito Santo, facto que na Idade Média tornou-o símbolo da encarnação de Deus no seio da Virgem Maria, o que torna o unicórnio para os hermetistas ocidentais indicativo do caminho para obter o Ouro Filosófico, ou seja, a Realização Espiritual quando a Androginia Primordial (união do Rei com a Rainha) é restaurada.

Se o leão, rei dos animais, é poderoso e soberano, com estes predicados servindo para representar o Pai de Poder e Justiça Universal, já o unicórnio é o “veículo” desses atributos como Revelação e Amor (que é Roma ao contrário, e por isto deve-se entender o rei “à romano” no topo da torre como sinal encoberto da Igreja do Amor, a dos Santos e Sábios como Assembleia Apostólica dos Invisíveis ou Espirituais ocupando o santo mesmo nome o trono mais alto), temas afins ao Espírito Santo e à Santa Virgem.

Isso vai bem com a antiga Albion, “Terra Branca”, epíteto da Virgem Branca ou da Assunção (Alba, em gaélico) dado à primitiva Escócia, cujo nome latino Scotia aparece pela primeira vez na Crónica Anglosaxónica do século X, generalizando-se o termo na Baixa Idade Média. Ora Alba tinha por símbolo mítico o unicórnio mas que com a cristianização foi substituído por Santo André, até hoje Orago da Escócia. Este Apóstolo, padroeiro dos construtores e arquitectos, junto ao nome primitivo “Terra Branca” foi interpretado como o Mestre-Construtor do País dos Scotis ou “homens livres”, nome gaélico dado tanto aos escoceses como aos habitantes da Hibérnia, actual Irlanda. Talvez por isto no século XVIII a Maçonaria Especulativa tenha originalmente se cognominado de Escocesa e posto a Arte Real (simbolizada pelo leão) sob o padroado de Santo André (substituto do unicórnio).

Necrópole das deusas gregas em São Pancrácio (St. Pancras Church)

A igreja paroquial de São Pancrácio, também chamada igreja nova (para distingui-la da igreja velha do mesmo Orago cerca de um quilómetro de distância na Street Pancras, já noutra paróquia), encontra-se em Euston Road, no limite norte de Bloomsbury. Acordada a sua construção em 1816 pelo arquitecto William Inwood com a colaboração do seu filho Henry William Inwood, lançada a primeira pedra pelo duque de York em 1 de Julho de 1819 e finalmente consagrada pelo bispo de Londres em 7 de Maio de 1822, esta igreja segue o estilo do renascimento grego, usando a ordem jónica, e para isso inspirou-se no Erectéion da antiga Atenas.

O Erectéion, cujas ruínas conservam-se na Acrópole de Atenas, era um templo grego consagrado a Atena, Hefesto e Erecteu que foi construído entre 421 e 406 a. C. pelo arquitecto Mnesicles, tendo marcado uma busca de novas soluções arquitectónicas na concepção do espaço, do suporte do entablamento e das mentalidades, impondo um novo estilo. Na Ilíada de Homero, conta-se que no interior do Erectéion vivia uma serpente à qual se oferecia um bolo sagrado, cuja recusa era tomada como sinal de mau agouro pelos atenienses. Possivelmente tratar-se-ia de um lugar de culto necrolático à memória dos antepassados e cuja serpente representaria as forças telúricas da Terra envolventes dos corpos jacentes descidos à morada final. Foi neste Erectéion que pela primeira vez se usaram cariátides, ou korés (“raparigas de Cárias”, em Esparta, vizinha de Atenas), fazendo as vezes de colunas, tradição arquitectónica e artística que em breve se propagou universalmente.

Na abside do extremo leste da igreja de São Pancrácio tem-se a sua característica mais original: duas tribunas imitando o Erectéion com entablamentos suportados por quatro cariátides, cada uma suportando uma tocha apagada e um jarro vazio, expressando a extinção da vida numa simbologia apropriada às suas posições por cima da entrada para o jazigo fúnebre, a cripta que se estende a todo o comprimento da igreja projectada para conter dois mil caixões, apesar de menos de quinhentos enterros terem tido lugar nela até 1854, quando esta prática funerária foi abolida em todas as igrejas de Londres, ainda que esta cripta tenha servido com abrigo anti-aéreo em ambas as guerras mundiais e hoje seja usada como uma galeria de arte.

Estas cariátides em terracota de São Pancrácio modeladas por John Charles Felix Rossi (1762-1839), encontram justificativa bíblica no trecho seguinte do Livro de Salmos (144, 12): “Sejam os nossos filhos como plantas novas, / bem crescidos desde tenra idade; / as nossas filhas como colunas angulares, / esculpidas para ornamentos de palácios”. Colunas angulares são as cariátides cujo simbolismo dispõe-nas como intermediárias entre o Céu e a Terra, medianeiras entre a morte corporal e a imortalidade espiritual que as almas dos justos, as “plantas novas”, haverão de gozar após transporem as cariátides ou colunas do portal celeste, também esta tradição bíblica em conformidade com os antigos autores sacros gregos.

Na arquitectura, cariátide designa a figura feminina que sustenta uma cornija ou arquitrave, como já referia Vitrúvio no século I a. C. no seu 1.º Livro de Arquitectura, e vem a representar a própria Deusa-Mãe grega, Ghea, como elo de ligação entre a Matéria e o Espírito, motivo da sua postura de domínio do entablamento inferior (cripta) e de suporte do entablamento superior (arquitrave), e por este carácter psicopompo ou intermediário entre dois mundo também à Virgem Mãe cristã, Maria, seria reconhecida a função de intercessora entre Deus e a Humanidade, acudindo misericordiosa às almas dos que partem e a Ela se dirigem.

Diferente do pórtico do Erectéion que apresenta seis cariátides, este de São Pancrácio só mostra quatro e nisto também se mostra em conformidade com a exegética bíblica, atendendo ao simbolismo do número quatro.

Os significados simbólicos do quatro ligam-se aos do quadrado e da cruz. Desde a Proto-História que o quatro foi utilizado para significar o sólido, o tangível, o sensível. A sua relação com a cruz fazia dele um símbolo incomparável de plenitude, de universalidade, um símbolo totalizador. Existem quatro pontos cardiais correspondentes aos símbólicos quatro pilares do Universo, e assim também as quatro fases da Lua, as quatro estações, os quatro elementos naturais, as quatro letras do Nome de Deus (YHVH) e as do primeiro Homem (Adão), como igualmente os quatro Evangelistas e os quatro braços da cruz. O quatro simboliza a Terra, a totalidade da Criação e da Revelação.

A Natureza criada é Obra de Deus como Supremo Criador no seu Terceiro Aspecto ou Hipóstase que, na Santíssima Trindade, vem a ser o Espírito Santo, também com as suas quatro funções tradicionais: Iluminação, Sabedoria, Revelação e Criação. Tudo isto era representado na mitologia grega pelo deus Pan, o fauno que representava a própria Natureza manifestada e que era filho de Zeus (ou Dyaus, donde Deus), Pai dos deuses, que depois dele morrer veio a imortalizá-lo como a constelação de Capricórnio, onde é reconhecido com a sua forma meio humana e meio caprina. Para os antigos gregos Pan era, pois, a representação do próprio Espírito da Natureza, possuído dos atributos idênticos do Espírito Santo conforme reconhecidos pelo Cristianismo. O martirológio cristão dos primeiros séculos viria a associar a personagem mitológica Pan ao mártir mítico Pancrácio.

Pancrácio (do latim, Pancratius) é separável em dois termos: Pan e Cratius ou Gratias, significando a Graça de Pan, ou por outra, a Graça do Espírito Santo. Por isto é que o Papa Leão X instituiu em 6 de Julho de 1517 o título cardinalício de São Pancrácio, por ocasião do aumento dos cardeais no consistório. Em 28 de Fevereiro de 1550, foi unido ao título de São Clemente pelo Papa Júlio III, criando o título de Santos Clemente e Pancrácio, tendo sido divididos novamente e restabelecidos com os seus nomes em 4 de Dezembro de 1551.

Segundo o martirológio, Pancrácio nasceu por volta do ano 290 em Roma, numa família nobre frígia, tendo morrido em 12 de Maio de 304 com 14 anos de idade. Órfão ainda muito novo, foi morar com um tio chamado Dionísio, aqui não se sabendo se era um familiar ou um culto de família ao deus Dionísio, de exportação grega para Roma onde foi assumido como Baco. O que se sabe é que Pancrácio fez um retiro espiritual na mesma casa comunitária utilizada pelo Papa Marcelino, e acabou convertendo-se ao Cristianismo. O imperador Diocleciano tentou demover o jovem primeiro com promessas astutas, e depois com ameaças ferozes. Como o adolescente lhe respondesse invariavelmente que não temia a morte, porque ela o conduziria a Deus, o imperador romano perdeu a paciência e mandou decapitá-lo na Via Aurélia, em Roma, ficando o seu corpo no cemitério de Ottavilla onde no século VI o Papa Símiaco mandaria construir uma igreja em sua homenagem, existente até hoje.

O culto a São Pancrácio iniciou-se desde o dia do seu martírio, tendo a devoção a ele se propagado pelo Ocidente e o Oriente no decorrer dos anos, em boa parte graças à narrativa da sua paixão e de dois atractivos que ajudaram à sua veneração: a sua tenra idade por ocasião da morte, e os milagres que por sua intercessão lhe foram atribuídos. A sua devoção expandiu-se inclusive na Inglaterra, onde em Londres nos meados do século VI Santo Agostinho de Canterbury dedicou-lhe um templo, a mesma igreja velha de Saint Pacras.

São Pancrácio é considerado padroeiro dos jovens e das crianças (como jovem era quando morreu, e também como Pan o era quando Zeus o postou no empório celeste), o amparo dos idosos e o intercessor dos enfermos (como era Pan, cuja música da sua flauta mágica – expressando o Som da Natureza – a todos encantava, rejuvenescia e curava). Apesar do padroeiro dos trabalhadores ser São José, São Pancrácio é também outro dos santos a quem muitos devotos desempregados recorrem para encontrar trabalho.

Grande Salão dos Franco-Maçons (Freemasons Hall)

Sabe-se que salões maçónicos existem um pouco por toda a parte da Europa e do mundo, mas este de Londres não é mais um salão maçónico: é a sede da Grande Loja Unida de Inglaterra, o ponto de encontro das Lojas maçónicas na área de Londres e a casa-mãe da Maçonaria britânica. Mais que isso: foi perto daqui, a Great Queen Street, que em Covent Garden fundou-se em 24 de Junho de 1717 a Maçonaria Especulativa sob o nome Rito Escocês Antigo e Aceite, que deu continuidade à tradição esotérica dos antigos maçons operativos construtores de castelos e catedrais que abrilhantam o património artístico imóvel europeu.

Por essa razão aparecem sobre a entrada exterior no edifício as datas 1717 – 1967, esta última assinalando os 250 anos de existência da Maçonaria Especulativa nas Ilhas Britânicas, País de Gales e Escócia, não se tratando da data de fundação do Grande Salão que foi inaugurado em 1933 após a construção iniciada em 1927. Este é o terceiro Grande Salão Maçónico, pois que os outros construídos no mesmo local entretanto desapareceram. É um edifício imponente construído no estilo Arte Deco seguindo os projectos dos arquitectos Henry Victor Ashley e F. Winton Newman como um memorial aos 3.225 maçons que morreram no serviço activo na I Guerra Mundial. Por isso era inicialmente conhecido como Memorial Maçónico da Paz, sendo mudado o nome para Grande Salão dos Franco-Maçons com a eclosão da II Guerra Mundial, em 1939.

Ainda na fachada, por cima das datas assinaladas, vê-se um escudo ladeado por dois seres angélicos com pés de cabra cujas asas direitas envolvem um brasão central encimado pela Arca da Aliança do Antigo Testamento. Dispõem-se em triângulo três palavras latinas, duas ao lado de cada Anjos e a terceira sob o brasão: Audi Vide Tace (Ouve, Vê, Cala). Trata-se das Armas e divisa da Grande Loja de Inglaterra, divisa essa extraída do brocardo latino Audi, vide, tace, si vis vivere in pace (Ouve, vê e cala, se queres viver em paz). Esta frase intimidatória evoca o juramento de silêncio sobre os Mistérios Iniciáticos da Maçonaria que o maçom conhecedor deles jamais deve quebrar fora do meio sagrado da Ordem, que é secreta pelos seus conhecimentos esotéricos e ritualísticos intransmissíveis a quem seja profano ou nunca tenha recebido a luz da iniciação maçónica. Os Anjos “caprinos” encerram a mensagem de Audi Tace, ou seja, “Ouve e Cala”, dando a entender haver neles um sentido profundamente iniciático: a maneira como são representados é a mesma que no Oriente se atribui aos Kumaras saídos do Fogo Primordial da Mente de Deus para dirigir a Evolução Planetária, segundo a teologia védica, e por isso são são considerados “Puros, Castos, Virgens”, que é o significado literal de Kumara, cuja iconologia tradicional representa-os como “Jovens de 16 Primaveras” com corpo de bode da cintura para baixo, porque o bode, cabra ou caprino é o animal que consegue sobre aos picos das montanhas mais íngremes, com isto significando que também o iniciado maçom deve ser como os Caprinos ou Kumaras: o de ter capacidade de escalar a Montanha da Iniciação a fim de alcançar o topo e abraçar a Luz do Infinito como um Iluminado Perfeito, ouvindo a Palavra de Deus e calando-a fundo em seu ser.

A Arca da Aliança (de Deus com o Homem) guardada pelos Anjos Kumáricos, representa o repositório do Saber Oculto a que só os Eleitos (neste caso, os Mestres Maçons) poderão ter acesso. Chamada Tebah em hebraico, a Arca é associada simbolicamente à Barca ou Argha dos Mistérios Sagrados, representada pela naveta das missas cristãs, e que é uma forma de expressar o Paraíso Terreal chamado nas tradições hindu e tibetana Agharta, o Reino dos Imortais que a Maçonaria apelida de Jerusalém Celeste e Oriente Eterno, e o Cristianismo de Nova Jerusalém. Nisto, é curioso e significativo que tal como este é o terceiro Grande Salão dos Franco-Maçons, também em Jerusalém ouveram três Templos Maiores: o Tabernáculo do Deserto levado para aí pelos patriarcas seguidores de Moisés; o seu sucessor Templo de Salomão, construído no Monte Moria e destruído em 587 a. C.; finalmente o terceiro Templo, reconstruído no mesmo local do segundo após o cativeiro babilónico do povo hebreu e destruído no ano 70 d. C. pelas legiões romanas comandadas pelo general Tito. Desde então até hoje o povo hebraico aguarda a reconstrução do Grande Templo, enquanto a Maçonaria afirma que ele já está sendo edificado mas como um novo estado de consciência que os símbolos decorativos do antigo Templo salomónico já indicavam. Daí o sentido da legenda hebraica que se vê por cima da Arca no brasão maçónico na fachada deste edifício.

Transpostas as duas maciças portas de bronze, cada uma pesando mais de uma tonelada e imitando as primitivas do Templo de Salomão, tem-se acesso à câmara do Grande Templo (Grand Temple), com 37 metros de comprimento por 27 de largura e 19 de altura, com capacidade para 1.700 lugares. Além das Armas do Príncipe Arthur, Duque de Connaught e Strathearn, filho mais novo da Rainha Vitória, Grand Master (1901-1939) por cuja sugestão foi construído o Memorial Maçónico da Paz, vêem-se diversas alegorias e símbolos maçónicos com destaque para a extraordinária representação no tecto do Universo Maçónico, isto é, da Jerusalém Celeste com as suas quatro entradas cardeais para ela assinalada pela Grande Luz do Sol Central, o que leva a extrapolar o filólogo Maçonaria como Maha-Sun (em sânscrito e inglês), significando precisamente “Grande Luz”. Cada entrada tem nos ângulos, como custódio ou guardião, um Anjo, que no conjunto representam as quatro Virtudes Cardeais: Prudência, Temperança, Fortaleza e Justiça, predicados morais de que se deve dotar todo o maçom. No seu significado sapiencial, os quatro Anjos ou Arcanjos descrevem os quatro Governadores do Universo postados nos quatro pontos cardeais tendo ao centro o Sol Espiritual do Grande Arquitecto Do Universo, segundo a tradição esotérica ou cabalística hebraica: para o Norte, o Arcanjo Rafael; para o Sul, o Arcanjo Miguel; para o Oriente, o Arcanjo Gabriel; para o Ocidente, o Arcanjo Auriel. Estes Arcanjos têm os seus representantes imediatos que são figurados pelos próprios portais, por serem princípios e inteligências espirituais das forças naturais que cada um representa segundo a mesma Kaballah, ou seja: o Anjo Paralda para o Norte e o Ar; o Anjo Djin para o Sul e o Fogo; o Anjo Niksha para o Oriente e a Água; o Anjo Ghob para o Ocidente e a Terra.

Além do Grande Templo, existem mais 23 Templos maçónicos dentro do edifício, todos profusamente decorados não havendo dois iguais. São dignos de nota os seguintes: Templo n.º 1, muito espaçoso (com capacidade para 600 pessoas), contendo uma série de retratos dos ex-Grãos-Mestres da Inglaterra e País de Gales; Templo n.º 10, construído no estilo clássico da Arte Deco mas combinado com o design egípcio, inclui um impressionante tecto abobadado; Templo n.º 17, utilizado pelas Lojas mais antigas de Londres e que é coevo (reconstruído) de 1717 e da formação da Grande Loja Unida de Inglaterra, possuindo uma espaçosa ante-sala (local de preparação e paramentação dos maçons antes de entrarem no Templo, algo semelhante à sacristia da igreja, que é onde o sacerdote se prepara e paramenta); Templo n.º 23, apesar de menor (com assentos para cerca de 25 pessoas), contém uma série de retratos de ex-Grandes Secretários da Inglaterra e País de Gales. Além desses 23 Templos e do Grande Templo, há ainda vários outros Templos mais modestos reservados para “Lojas de Instrução” (no conhecimento maçónico) e “Lojas de Ensaio” (na ritualística maçónica). Ao contrário do Grande Templo, os outros 23 Templos não estão normalmente abertos ao público, por serem periodicamente utilizados pelas Lojas londrinas.

Acessíveis ao público e dignas de visita, a Biblioteca e o Museu da Maçonaria neste edifício, sendo a entrada gratuita. A Biblioteca contém uma vastíssima colecção de livros impressos e manuscritos sobre todas as facetas da Maçonaria na Inglaterra e no mundo, além de temas associados com tradições místicas e esotéricas. O Museu possui uma enorme colecção de objectos maçónicos ou com decoração maçónica, incluindo relógios, móveis, jóias, porcelanas, paramentos, etc. Os itens incluem pertences a maçons famosos, como o Rei Edward VII e o Primeiro-Ministro Winston Churchill.

 

 

 

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