Visita de estudo em 13.5.2012, organizada pela empresa turístico-cultural Superstitio em parceria com a Universidade Lusófona de Lisboa, e dirigida por Dr. Vitor Manuel Adrião.

Madre de Deus – Símbolos de segredo e silêncio

A igreja do convento da Madre de Deus tem a decorar as suas paredes uma série de painéis de azulejos muitíssimo significativos que a remetem para a classe dos colegiam hermeticae, “colégios herméticos”.

Esta parte da zona oriental de Lisboa, a do Braço de Prata ou Lunar, era sobretudo povoada por mulheres de vocação religiosa e, principalmente, de perfeição espiritual, como parece ter acontecido com algumas franciscanas espirituais ou beguinas deste convento, bem parecendo ter feito dele um Colégio de Tradição Hermética.

A justificar essa prerrogativa, tem-se logo à entrada do edifício a inscrição RER, iniciais latinas de Regina Eleonor Refacit, “A Rainha Leonor ajudou a fazer”, mas que também guarda o sentido do RER alquímico, ou seja, do “Vaso Filosófico” onde se realizam as transformações e sublimações químicas dos elementos naturais. Assume o sentido de Regeneratio (Regeneração) ou Redenção pelo exemplo da vida piedosa da mártir Santa Auta, iconografada com uma flecha cravada no peito, cujo corpo jaze neste convento, encerrado num cofre de madrepérola, desde 2 de Setembro de 1517.

Dentro da igreja, os painéis de azulejos retratam aspectos da vida espiritual não dos Franciscanos, como seria normal neste templo franciscano, mas dos Padres do Deserto da tradição de Santo Antão, possuidores efectivos dos “segredos do deserto” ou do cenóbio anacorético onde se exercita a perfeição espiritual longe dos simples e entre cultos partilhando a ideia comum elevada a ideal de realização interior, exigindo-se o silêncio acautelado entre os mesmos para quem esteja extra-muros do cenóbio, como está retratado num monge que esboça claramente o sinal secreto de sigeh, “silêncio”, levando o indicador aos lábios.

Um outro grande silhar de azulejos mostra a vida de estudo, adoração e trabalho dos Padres do Deserto, alusão ao lege, ora et labora dos “Filósofos do Fogo”, aqui praticantes da Alquimia Mística, Cristocêntrica ou estritamente interior, a da transformação da Alma Lunar em Espírito Solar, que efectivamente é a modalidade alquímica feminina por excelência onde se tomava por Modelo e Orago a Madre de Deus, teoplasmação do Divino Espírito Santo como Terceira Pessoa ou Hipóstase na acto universal de transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência.

O Caminho da Realização Espiritual está representado numa larga e comprida alameda, cercada de árvores cerradas de ambos os lados, por onde caminham dois personagens: o Mestre e o discípulo. Além desse silhar, segue-se um outro com um cedro do Líbano, árvore sagrada da antiga Fenícia expressando a própria Árvore da Vida no centro do Jardim do Paraíso Terreal (onde está um monge ajoelhado em oração rodeado por animais, expressando a pureza e harmonia originais que reinavam no estado edénico), aqui guardado por um crocodilo, símbolo tanto do animal anfíbio assistente à Criação Primordial como da Perfeição Integral do Makara ou Adepto Perfeito que, aqaui, é incarnado na pessoa de Santo Antão, com o Papa ajoelhado ou rendido aos seus pés, como Pedro se vergou a João, como a igreja dos cultos verga ou domina a igreja dos simples… a Fé à crença, o Saber à catequese.

Santa Auta da Madre de Deus

Fundado em 1509 pela rainha D. Leonor, mulher de D. João II, o Convento de Nossa Senhora da Madre de Deus, construída para as freiras franciscanas descalças da primeira Regra de Santa Clara, constituiu-se à semelhança de outros existentes na zona oriental da cidade, como S. Félix de Chelas e S. Francisco de Xabregas, como um pólo dinamizador, pois em seu torno aglomeraram-se populações e quintas de recreio pertencentes à nobreza.

A protecção da rainha ao «seu» convento traduziu-se, ao nível das artes, na encomenda de importantes obras de pintura a oficinas portuguesas e do Norte da Europa. Por outro lado, a acção protectora de D. Leonor funcionou como catalisador e à Madre de Deus afluíram várias e variadas ofertas que enriqueceram o seu património, sendo que hoje esta igreja é um autêntico museu de pintura em quadros raros e de relicários de santos portugueses e estrangeiros, enquanto o restante espaço do convento anexa o Museu do Azulejo, cuja exposição riquíssima desta arte cerâmica abrange desde o século XV à modernidade, fazendo dele o mais importante do mundo no género.

Das muitas preciosidades existentes na Madre de Deus, fazendo dela um templum relicarium, destaca-se o Santo Sudário oferecido pelo imperador Maximiliano I da Alemanha à sua prima D. Leonor, que ficava exposto na 6.ª Feira Santa. Com essa relíquia vieram as de Santa Auta, em 1517, a qual com Santa Úrsula eram as mais famosas do “Martírio das Onze Mil Virgens”. A vinda dessas relíquias de Colónia para aqui teve um enorme impacto na sociedade do tempo, dada a popularidade que já desfrutavam, particularmente entre os navegadores.

A chegada em procissão solene das relíquias da virgem mártir à Madre de Deus, foi motivo de pintura numa das tábuas que integra o Retábulo de Santa Auta, atribuído à parceria de Cristóvão Figueiredo/Garcia Fernandes, e tem o interesse acrescido de mostrar a fachada desta igreja tal como era no início do século XVI. Hoje está exposto no Museu Nacional de Arte Antiga, assim como o magnífico Retábulo da Madre de Deus, mas conservando-se neste convento a célebre pintura Vista de Jerusalém, obra da Escola Flamenga também oferecida por Maximiliano a D. Leonor.

Além dessas, há aqui outras relíquias raras como o Santo Lenho, oferta da imperatriz viúva de Filipe II de Castela à rainha D. Catarina de Portugal, e a tigela de madeira que se diz ter servido a Santo Agostinho.

O “lagarto” da Penha de França

A tradição olisiponense teima em afirmar, em sua lenda, que foi neste lugar alto da Penha de França que Ulisses deu-se de amores com a “deusa-serpente”, Ofiússa, que não era “serpente” mas rainha de uma sociedade mítica de mulheres guerreiras, religiosas e sibilas ou profetisas. A verdade é que nesta igreja de Nossa Senhora da Penha ainda se presta culto à serpente, talvez memória do primitivo culto romano ao deus Esculápio, entrando tardiamente o onomástico Penha de França em lembrança de um monge francês ter descoberto uma imagem da Virgem escondida aqui numa penha, durante o período árabe da ocupação da Península Ibérica.

A fundação do actual convento data do final século XVI e era da Ordem do Eremitas Descalços de St.º Agostinho, sendo ao início uma modesta ermida mandada fazer por um dourador de Lisboa, António Simões, que acompanhou D. Sebastião na expedição a Alcácer-Quibir, tendo feito aí o voto de mandar fazer nove imagens de Nossa Senhora (número expressando o período gestacional da mulher e assim mesmo o do ciclo geracional da Lua) caso se salvasse, e cada uma teria invocação diferente. A promessa foi cumprida e a última imagem teve o nome de N.ª Sr.ª da Penha de França, que ficou na ermida da Vitória até que, numa noite fria de 1597, António Simões que ainda não acabara o edifício, lembrou-se de erguer num mastro uma bandeira com a imagem da Senhora. Como a pintura resplandecesse em plena escuridão, logo se espalhou a notícia e rapidamente cresceu o culto à Virgem da Penha e a sua fama milagreira.

Este templo é dos que mais testemunham em Lisboa a intervenção do sobrenatural, não lhe faltando uma “casa dos milagres” onde se expõe uma curiosa colecção de ex-votos. Sem dúvida que de todas as lendas a principal deste sítio é a do lagarto da Penha. Se uma versão diz que um cansado peregrino, dormindo na encosta do monte, prestes a ser atacado por um lagarto enorme, foi acordado pela Senhora, salvando-se milagrosamente dele, uma outra relata que ele foi acordado por um lagarto por intervenção de Nossa Senhora, livrando-se do ataque de uma cobra. Até 1739 conservou-se na igreja um grande lagarto embalsamado, substituído por um outro de madeira que desapareceu no terramoto. Como a segunda versão da lenda é que vingou, pode-se ainda ver sobre as portas da sacristia um lagarto (mais se parecendo a um crocodilo) e uma cobra de madeira. Repete-se novamente a Senhora da Penha e a lenda do lagarto no painel de azulejos na fachada posterior da igreja. Crê-se que a serpente simboliza a antiga religião “pagã” dos árabes, e o lagarto sendo o dragão dos lusos cristãos miraculosamente salvos daquela, graças a esta Virgem da Vitória.

 Mas tanto o dragão como a serpente em paridade, aquele estará para a Sabedoria desvelada e o Sol expressivo da Energia Celeste que a Tradição Iniciática chama de Fohat, enquanto a serpente é a sinalética da Sabedroia ocultada e da Lua expressiva da Energia Terrestre chamada Kundalini pela mesma Tradição Iniciática. Sol e Lua ligados pelo Prana promanado do Coração da Mãe Divina, a Energia Vital que a tudo e a todos alenta, e nisto tudo se resumem as figuras das Armas Episcopais da Senhora da Penha, com a águia dupla sobre o Sol e a Lua tendo o Coração Sangrento ao centro, atravessado pela flecha martirial fazendo jorrar o Sangue Real de Cristo, mas também a de sua Santa Mãe Maria (Cordo Maris…), a que está no cimo do Gólgota, no alto da Penha… de França… Coração da Europa.

São Gens da Senhora do Monte

A ermida de Nossa Senhora da Visitação do Monte e São Gens situa-se no ponto mais alto do bairro da Graça, junto ao miradouro donde se desfruta a melhor vista panorâmica da cidade e que é o habitual ponto de encontro dos namorados.

A figura de São Gens, envolta em lenda, é dada como o 7.º bispo cristão de Olisipo pouco depois do ano 300 e discípulo de um dos Apóstolos ibéricos de Santiago Maior, que veio para a Hispânia pouco depois da Crucificação de Jesus Cristo. Diz-se que quando nasceu a sua mãe morreu do parto, lenda que deu origem à curiosa tradição das mulheres grávidas de Lisboa desejando ter um parto feliz irem sentar-se na “cadeira de São Gens”, que esteve fora da ermida e agora está no seu interior. Essa tradição parturiente é mantida pelas mulheres do povo e foi assegurada por várias rainhas de Portugal, dentre elas D. Catarina, mulher de D. João III e avó de D. Sebastião, todas tendo-se sentado na “cadeira” milagrosa.

Essa ermida fundada por quatro frades eremitas agostinhos assim que Afonso Henriques tomou Lisboa aos mouros, foi melhorada no início do século XIII por uma nobre dama, D. Susana, agradecida ao santo bispo pelo seu parto feliz, aumentando então a já grande fama milagreira do sítio que logo se consagrou a Nossa Senhora da Visitação do Monte.

Após a entrada na ermida e escondida do público por uma porta de madeira que dá para um pequeno cubículo, encontra-se a célebre cadeira de São Gens (que vale por trono do Santo Jina), a qual é um monólito de mármore polido e de forma ergonómica, desgastado pelo tempo e pelo uso das senhoras grávidas sentarem-se nele para propiciar um bom parto.

Tal costume dá à “cadeira” ou à pedra um carácter litolátrico em tudo semelhante aos cultos e rituais de fecundidade neolíticos, acrescentando-se o facto de São Gens ser um “santo solsticial”, ligado, portanto, aos ciclos produtivos. Aliás, este culto pré e proto-histórico, pagão mas não profano, veio a associar a conceição e o parto a este santo cujo nome é uma contracção latina de Genesius ou Genésio, significando “génese”, sendo a pedra uma verdadeira lapis genetrix semelhante ao shivalinga hindu.

Obviamente a Senhora do Monte, pelo seu atributo de Visitação ou pré-natalidade, enquadra-se na figura e função geradora da Deusa-Mãe Primordial, até hoje tendo papel singular este aspecto do culto matricial dos muitos que teve e tem Lisboa.

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