A Ordem do Tosão de Ouro “teve o desígnio secreto de restabelecer os laços iniciáticos entre o Ocidente e o Oriente, rompidos pela destruição da Ordem do Templo”, segundo o tradicionalista René Alleau. Tal afirmação é corroborada por vários factos que a História regista: o primeiro deles será o de estarem presentes no momento da fundação desta Ordem vários nobres belgas e francos que andaram de ligações íntimas com a antiga Milícia Templária, abolida em 1312, afirmando o Diploma de Constituição desta Ordem que se destinava a “honrar os antigos cavaleiros que por seus altos e nobres feitos mereciam ser recomendados”, que não deixa de ser uma referência clara, apesar de encapotada, aos primitivos caveleiros templários; o outro facto, revela a aproximação da religião cristã dos cavaleiros do Velocino, Velo ou Tosão de Ouro às ideias hetorodoxas e mesmo herméticas das religiões judaica e islâmica, o que poderá interpretar-se como um restabelecimento dos laços iniciáticos ou espirituais entre o Ocidente e o Oriente.

No dia 10 de Janeiro de 1429, para celebrar o seu casamento com a infanta D. Isabel de Portugal, filha do rei D. João I, o Duque de Borgonha, Filipe III, o Bom, fundou esta Ordem de Cavalaria do Tosão de Ouro “em reverência à Santa Virgem Maria e ao Bem-Aventurado Apóstolo Santo André”, segundo o diploma de constituição da mesma. O acto solene passou-se na Catedral do Precioso Sangue em Bruges, Bélgica, e nessa ocasião passeou-se entre os convivas “um carneiro vivo pintado de azul com os chifres dourados a ouro fino”, segundo Baron Reinffenberg, sendo emblemático do Agnus Castus, o “Cordeiro Casto” ou “Imaculado”, expressivo do mesmo Agnus Dei que tollis peccata mundi (“Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo”), que é o Cristo.

A Ordem do Tosão de Ouro chegou a ter 22 Capítulos Gerais antes de aos poucos se converter no que hoje é: exclusivamente honorífica, despossuída de qualquer significado e finalidade espiritual ou iniciática, o que começou registar-se após a morte de Carlos II de Espanha (1661-1700) e a consequente Guerra da Sucessão Espanhola, quando a Ordem dividiu-se em duas até à actualidade: a facção espanhola e a facção austríaca, cada uma reclamando para si a legitimidade histórica, fazendo uso comum da língua francesa. O actual rei Alberto II da Bélgica é um caso raro de ser cavaleiro de ambas as facções.

Originalmente, a Ordem do Tosão de Ouro cimentava-se fortemente na Tradição Hermética, muito particularmente na Alquimia, transpondo o mito grego do argonauta Jasão que recolheu a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo pendurada num carvalho sagrado na Cólquida, ao sul das montanhas do Cáucaso, como já contava Homero no século VIII a. C. Ora o carneiro, ou melhor, o velocino de ouro tonsado (donde tosão) por Jasão, aponta a demanda do tesouro espiritual, o da sabedoria divina em que assenvam os vereditos ou ordálias reais, de acordo com a natureza real desta Ordem de Tonsura. Jasão vem a ser tanto o ordálio quanto o alquimista ou adepto do fogo real capacitado a fabricar a Pedra Filosofal, ou seja, a atingir a quintessência da Matéria e com ela iluminar-se física e espiritualmente. Se o carvalho é indicativo do templo filosófico que é o laboratório alquímico, Jasão é o protótipo do Sábio Iluminado, e posteriormente o mito de fundação da Ordem do Tosão de Ouro associaria esse herói grego à pessoa do próprio Apóstolo Santo André, pondo os predicados mitológicos daquele neste que igualmente evangelizara o país onde Jasão estivera em busca do Velocino, assim transformado em padroeiro dos alquimistas e construtores livres, enquanto Santa Maria seria associada à própria Matéria-Prima e o Cristo ao cordeiro de ouro expressivo da Pedra Filosofal.

Já no século IX o grego Suídas, no seu Lexicon, propusera uma interpretação alquímica para Jasão. Em 1730, na Alemanha, Ehrd de Naxágoras escreveu um tratado de Alquimia a que deu o título de Aurum Velus, Order Goldenes Vliess, e uns anos depois, em 1749, também na Alemanha, Hermann Fictuld publicou, com o mesmo título, novo estudo sobre Alquimia, nele expondo de modo preciso e sistemático o simbolismo alquímico do périplo de Jasão, com uma análise do conteúdo e significado hermético dos cenários próprios da Ordem do Tosão de Ouro. Segundo Cornelius Agrippa (1486-1535), Filipe, o Bom, teria criado a Ordem do Tosão de Ouro precisamente para honrar os santos mistérios alquímicos. O simbolismo de todo o ritual prescrito para os usos e cerimónias da Ordem é analisado por Fictuld como dando o melhor suporte ao testemunho de Agrippa.

De acordo com as primeiras Ordenanças, a Ordem realizava anualmente o seu Capítulo Geral no dia de Santo André (30 de Novembro), em Dijon. A reunião decorria sob a evocação de Santa Maria e de Santo André. No primeiro dia das festas em que se traduzia a celebração do Capítulo Geral, na sua visita obrigatória ao soberano, os cavaleiros vestiam-se de púrpura, representando o citredo ou a afirmação da sua dignidade espiritual; no segundo dia, comemorando Santo André, vestiam-se de negro, expressando o nigredo ou cor original da Matéria-Prima; no terceiro dia, festejando os esplendor da Mãe de Deus, vestiam-se de branco, cor do albedo ou da purificação da alma. O vermelho, ou rubedo, era a cor comum do hábito usado nos outros dias do ano.

Púrpura é a cor usada pelos penitentes que com jejum e oração se purificam, antes de iniciarem a sua participação em qualquer grande celebração de comunhão com o Divino. Preparados, transformam-se durante a própria celebração: começam com o negro, passa mao branco e finalmente ao vermelho. Esta é, precisamente, a sequência cronológica das cores do processo alquímico, a sequência de cores sempre afirmada para os mistérios sagradas da Grande Obra ou Arte Magna : o negro, o branco, o vermelho (nigredo, albedo, rubedo). Na preparação da Grande Obra, a Matéria-Prima começa por apodrecer, sujeita a total putrefacção, tornando-se negra; com o calor a que é sujeita, de seguida torna-se branca, a cor da Luz, da Prata, da Vida do Caos que em si contém a Matéria-Prima; sob a acção continuada do Fogo Secreto (simbolizado pelo Carneiro) dos Filósofos, o branco da Perfeição torna-se vermelho, que empalicedendo num púrpura translúcido vem a assinalar a fábrica final da Pedra Filosófica.

Impõe-se também notar que a insígnia distintiva da Ordem do Tosão de Ouro, pela qual os seus cavaleiros eram reconhecidos em qualquer parte, era um colar de ouro composto por oito elementos em ouro maciço, cada um deles revestido por duas pedras de fuzil em aço. Dele pendia o sinal da Ordem, uma medalha revestida dum Velo de Ouro com a divisa do Mestre.

Todos os cavaleiros da Ordem deveriam trazer obrigatoriamente esse colar, sob pena de serem multados, e a ninguém mais era permitido usá-lo. Em batalha, o colar poderia ser usado sem o Velo pendente. Quando danificado, deveria ser prontamente reparado pelo ourives, e durante o tempo da reparação o cavaleiro estava dispensado do seu uso, sem pena de multa. O referido colar não devia ser adornado com quaisquer outras jóias nem ornamentos, nem podia ser vendido, dado ou alienado, fosse qual fosse a necessidade ou causa. Se algum dos cavaleiros o perdesse, deveria arranjar outro a suas expensas; se dele fosse despojado em batalha, o soberano deveria providenciar para lhe dar outro. Em caso de morte ou expulsão da Ordem, deveria o colar ser restituído ao tesoureiro da mesma, no prazo de três meses.

No Velo de Ouro pendente no colar, Hermann Fictuld viu o símbolo do rolo feito de pele de carneiro sobre o qual os antigos escreviam, em letras de ouro, dentre outras altas ciências a da Arte da Crisopeia, ou seja, o método de se fabricar o Ouro Alquímico representado pelo Cordeiro de Deus, Jesus Cristo.

Com o colar de ouro donde pendia o Velo, os cavaleiros da Ordem do Tosão de Ouro usavam ainda, sobre o peito, uma estrela de seis pontas formada por dois triângulos de ápices opostos, que aqui é um símbolo alquímico elementar com duplo sentido, pois nele estão representados, simultaneamente, os quatro elementos naturais (Terra, Água, Fogo, Ar) e o casamento da Água “Rainha” (triângulo de vértice para baixo) com o Fogo “Rei” (triângulo de vértice para cima). Para os Alquimistas, o hexalfa é a Estrela Flamejante do Azoth, o “Mercúrio dos Filósofos”, com o Ignis, o Fogo Filosófico que tudo transforma, de acordo com o clássico aforismo Ignis mutat res, “O Fogo transforma tudo”.

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