Sintra, 1980

Respeitável leitor,

Recuando o original deste estudo aos idos de 1976-78 mas agora revisto e aumentado, trago-o novamente a lume porque a Lei Divina, inflamando a minha consciência, impele-me a abordar aqui um assunto que, confesso, desagrada-me profundamente, apesar de saber ser da máxima importância devido à enormíssima influência que tem nas mentes d´hoje, impúberes e despreparadas, mesmo assim comportando-se como “sorvedouros” de tudo quanto consigam captar de fontes tradicionais em comunicação com o grande público, nomeadamente a TEURGIA e TEOSOFIA. Refiro-me ao dilema psíquico. Tentarei explicar, apesar de parcialmente e sempre à luz da Tradição do Colégio Iniciático Teúrgico cuja origem ou inspiração recua ao próprio Professor Henrique José de Souza, o mecanismo oculto desse obscuro dilema psíquico, vulgarmente chamado espiritismo, e qual a verdade ou a mentira que possa haver por detrás dele, e também por que os Grandes Seres do Passado e do Presente, verdadeiros Mahatmas ou “Grandes Espíritos”, todos eles, desaconselham severa e vivamente o seu exercício ou culto como gravíssimo entrave à evolução verdadeira do aspirante ao Adeptado (seja ele cristão, maometano, judeu, budista, hindu, etc.), mesmo acaso possuído das melhores e mais honrosas intenções.

Gostaria que, invés dum estudo formal, este fosse antes uma conversa informal de mim para si, leitor anónimo que me lê e julga, sem que haja da minha parte quaisquer intenções veladas de censuras destrutivas e condenações hieráticas ao que quer que seja… Não, pois esse não é o meio justo e perfeito de informar, muito menos de afirmar quanto se pretenda para maior Glória Espiritual do Género Humano.

O Homem, como resultado final da Obra Antropogénica das Hierarquias Criadoras, fixa-se no palco cénico da existência como “Vida-Energia” individualizada – Jiva. Assim sendo, ele possui um Espírito que é revestido pela potencialidade psicomental da Alma a qual se manifesta através dos sentidos do Corpo.

Estando a Alma de permeio ao Espírito e ao Corpo, ela recebe do primeiro um fluxo de Vida de característica evolucional ou centrífuga, chamado Prana Solar, e do segundo um fluxo de Vida de característica involucional ou centrípeta (que puxa para baixo…), chamado Apana ou Prana Terrestre. Este assiste às funções da Morte, aquele preside à mecânica da Vida.

Consequentemente, o palco cénico da evolução real é a Alma, ela que deve manter o ritmo ou equilíbrio perfeito para que essa mesma evolução verdadeira aconteça. O problema consiste em focar os sentidos no nível evolutivo pela sublimação dos desejos da personalidade que é a mesma Alma no seu conjunto mental, emocional, vital e motor, por um esforço de boa Vontade aliada ao Conhecimento exacto das Leis da Vida, juntamente com o abnegado e impessoal Amor por tudo quanto vive, nascido da compreensão e apreensão da soberana Vontade do Eterno presidindo a tudo e a todos.

Tal esforço justo, se disciplinado natural e gradualmente, sem imposições de espécie alguma, será a semente que irá dar o fruto da espiritual “Vida-Consciência” individualizada – Jivatmã. Isso realiza-se pelo alinhamento da humana Personalidade à espiritual Individualidade que é a Tríade Superior ou Mónada Divina: Espírito – Intuição – Mente Abstracta. Consequentemente, o corpo psíquico ou emocional da Alma é tão-só um meio e nunca, jamais, um fim!…

De maneira que a Alma Humana, “ponte” ou antahkarana entre o Espírito e o Corpo, ambos em formação, foram todos os três formados pelas 7 Grandes Hierarquias Espirituais, a saber:

Durante os largos anos da minha perambulação pelos círculos espiritistas luso-brasileiros (antes do meu encontro definitivo e decisivo com a TEURGIA, ou melhor, com a TEOSOFIA de JHS), dentro da linha da Codificação Kardecista na qual cheguei a obter nome ou fama como dirigente de trabalhos, principalmente de doutrinação, foram inúmeros e variados os fenómenos a que assisti. Houveram momentos em que detectei puro charlatanismo, tanto consciente como inconsciente; consciente, através de truques circenses, desde os mais elaborados aos mais simples; inconsciente, por se acreditar em algo querendo-se real mas que não passava de irreal, tal qual uma criança ou jovem que vê um filme de ficção ou lê uma banda desenhada e acredita que tudo isso é verdade!… Mas também houveram acontecimentos absolutamente verídicos. Ainda assim, confesso, as explicações espíritas para esses mesmos fenómenos eram uma grande “dor de cabeça” para mim, pois no meu íntimo havia uma recusa viva em aceitá-los tais como eram apresentados e interpretados. De maneira que enquanto a maioria pasmava rendida e crente, unanimemente dando o seu “amém ao Além”, contrariado eu “franzia o cenho” e intentava perscrutar além do véu da carne e saber como é realmente…

E soube… ainda que desde então fossem necessários muitos anos para efectivamente saber alguma «coisita».

Nos tempos da 3.ª Raça-Mãe Lemuriana, faz 22 milhões de anos, as Hierarquias Criadoras (com os seus nomes portugueses de Arqueus, Arcanjos, Anjos, etc.) ante a Humanidade nascente com os seus veículos de consciência completamente desajustados ou desalinhados entre si, deram a esta as técnicas da Hatta-Yoga, composta de 84 asanas ou “posturas” fundamentais, cuja finalidade era então muito semelhante ao método de «incorporação de espíritos» praticado entre os espíritas de hoje, mas que nessa época longínqua tão-só objectivava encausar e alinhar entre si os veículos da personalidade humana, ajustando-os uns aos outros de forma harmónica a fim de receberem os fluxos de Vida do Ego Espiritual e virem a tomar percepção deste ao nível imediato. Esse foi o esquema da táctica evolucional de então, quando o homem não passava de um troglodita semelhante ao símio.

Na 4.ª Raça-Mãe seguinte, a Atlante, a Hatta-Yoga foi suplantada por uma disciplina mais vasta e completa: a Bhakti-Yoga, esta destinada a desenvolver e refinar o Corpo Emocional, Psíquico, Anímico ou Astral (este último termo foi criado por Paracelso, devido à luminosidade desse veículo assemelhar-se ao de uma “estrela”), enquanto aquela se destinava unicamente ao Corpo Físico, Vital e Denso.

Na actual 5.ª Raça-Mãe, a Ariana, procura-se o desenvolvimento integral da Mente Humana, e para isso se utiliza a Jnana-Yoga como parte integrante da Raja-Yoga que é a “Real”, justamente por ser aquela, segundo o Professor Henrique José de Souza, “da união real da Alma com o Espírito”.

Assim, tem-se:

Por sua vez, a Raja-Yoga aliada à da “Acção” (aliás, presente em todas as formas de Yoga ou “União”, antes, “Religação” – donde “religião”, do latim religare – ao Espírito Divino), Karma-Yoga, praticada pelo Aspirante à Verdadeira Iniciação, pretende, por uma prática correcta física-psicomental, face a si mesmo e à Humanidade, conduzi-lo à superação da limitação dos sentidos humanos, à sua expansão e por fim integração no seu Eu Divino. Tal é a definição do Excelso Mestre Takura-Bey, avatara espiritual do 5.º Luzeiro e por sua vez avatarizando humanamente o Traixu-Lama, para a sua Taraka ou Takura-Raja-Yoga, esta a praticada, não importa sob que nuance seja, em todos os verdadeiros Colégios Iniciáticos, fiéis depositários e garantes da Sabedoria Iniciática das Idades promanada à Face da Terra desde o “Santo dos Santos” (Sanctum Sanctorum) desta – Salém, Walhallah, Shamballah a Mansão do Rei do Mundo, Melkitsedek – e os quais estão espalhados oculta e estrategicamente pelo orbe, constituindo essa mesma, alegoricamente falando, “Igreja Secreta de São João”.

Volvendo ao assunto que aqui me traz, devo afirmar que, segundo e seguindo a lógica mais elementar da sucessão dos acontecimentos ou ciclos, quando se aplicam no Presente técnicas físico-psicomentais que só foram viáveis para uma Evolução passada há milhões de anos, isso converte-se num “espiritualismo impúbere”, inferior, doentio pelo seu teor nitidamente involucional o que… pode conduzir à perda irreversível da própria Alma.

O grande dilema do chamado “espiritismo cristão” é o de ser um «caminho» de massas humanas inconformadas com a rigidez e limtes da religião oficial, as quais saídas do catolicismo – ou de derivados deste – e levadas pela sua inteligência afectiva (não raro igualmente aflitiva porque, também não raro, afectada por alguma tragédia pessoal gerada pelo seu karma afim ao do grupo familiar a que pertençam)  vêm a ser fascinadas e convencidas pelos fenómenos do “Além”, deixando-se levar por um devocionalismo ou pietismo castrante mal ou nada informado nas coisas da Vida Espiritual acabando enredadas nas malhas falazes do Mundo Psíquico, o qual não deixa de possuir multivariadas formas de vida, nem todas as mais saudáveis cuja relação hiperfísica seja recomendável à evolução verdadeira do ser humano.

Devido a esse perigo bem real, desde sempre os verdadeiros Mestres e Iniciados, como todos os autênticos Colégios de Sabedoria Divina, inclusive as religiões reconhecidas tradicionalmente, desaconselham vivamente as ditas práticas e cultos animistas de índole absolutamente contrária à natureza da Divindade no Homem, ademais estando a Salvação dentro dele e jamais fora, como já dizia Jesus Cristo: “O Reino de Deus está dentro de vós”, ou “Feche-te em teu quarto (alma) e ora a teu Pai (Tríade Superior) em silêncio”. Isto não é um inconsistente e desvairado ataque aos adeptos espíritas, ou melhor, animistas, mas antes um conselho fraterno dum tão-só discípulo da Augusta Loja Branca a todos(as) aqueles(as) que aspiram ao Caminho da Espiritualidade Verdadeira a não desperdiçarem, inglória e até tragicamente, energia e tempo, inclusive contraindo ainda mais karma ou débitos que aqueles que já portam, por incorrerem em métodos involucionais que assim só atraem seres pouco ou nada evoluídos, mormente ondas subhumanas de “espíritos da Natureza”, os elementais, que agem pelos quatro elementos naturais constituintes da Natureza física: o Ar para os silfos (MENTAL), o Fogo para as salamandras (EMOCIONAL), a Água para as ondinas (VITAL) e a Terra para os gnomos (FÍSICO).

Houve, no entanto, nesta Era uma excepção da Grande Fraternidade Branca à permissão das manifestações psíquicas: foi durante a Revolução Industrial no século XIX, altura em que a Europa e a América do Norte foram tomadas por uma cega e esmagadora vaga de ateísmo pela exorbitância do materialismo dialéctico. Então, nessa ocasião, súbita e abruptamente, começaram a acontecer fenómenos inexplicáveis em várias partes da Europa e da América do Norte (incorporações mediúnicas, materializações de seres psíquicos, toques misteriosos, desaparições de objectos ou então levitações dos mesmos, etc.), com a finalidade única de travar o avanço destruidor do materialismo insano. Foi quando apareceu uma plêiade de intelectuais que se dedicou a estudar esses fenómenos misteriosos, dentre eles Hypolite Leon Rivail, com o pseudónimo de Allan Kardec, estudioso do magnetismo e maçom, acabando a maioria deles por atribuir esses mesmos acontecimentos inexplicáveis a almas humanas de falecidos vivendo no “além-túmulo”.

Hypolite Leon Rivail (Allan Kardec), 3.10.1804 – 31.3.1869

O movimento psiquista iniciado pelas irmãs Fox na América do Norte e por Kardec na Europa, seria para ser procedido por Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica Euro-Americana, cuja Missão era reintegrar num nível harmónico de pensamento e acção, sob a chancela da Grande Loja Branca, os espiritualistas do século XIX, dando assim fim aos fenómenos mediúnicos que invadiram os dois continentes nessa penúltima centúria, justapondo a Teosofia, esclarecedora e iluminadora, a qualquer tipo de culto psico-anímico, às religiões falidas e ao materialismo feroz, a fim da Europa – América acercarem-se da Verdadeira Iniciação Colectiva, com isso acelerando o advento da Sinarquia ou Concórdia Universal da Humanidade.

Mas, lamentavelmente, o Movimento Espiritista insubordinou-se, fez “finca-pé”, ignorou e desobedeceu ao Plano previamente estabelecido pela Excelsa Fraternidade Branca (a partir da sua Loja Oculta ou Posto Representativo de Itchen-Itza, no México), e, não raro aliado aos metodistas e jesuítas, passou a forjar «provas irrefutáveis» contra Blavatsky perseguindo-a e injuriando-a de um modo muitíssimo abaixo da crítica, o que levou Mário Roso de Luna a considerá-la “a maior mártir do século XIX”, mesmo assim considerada por todos, a começar pelos seus inimigos impenitentes, “a maior sábia de Oitocentos”. De maneira que o espiritismo codificado por Allan Kardec manteve a sua «filosofia» toda ela inspirada mediunicamente pelos “mortos do Além” – qual «fantasmosofia» substituta impúbere da Teosofia, para o Venerável Mestre Morya Rajput –, ela que, apercebe e sabe todo e qualquer espírito lúcido e imparcial, possui lacunas enormes suscitadoras de dúvidas maiores sobre as que já existem, lacunas essas acabando por cimentar-se no íntimo quando são ignoradas e esquecidas pela «recompensa» dos fenómenos.

A função do espiritismo foi a de abrir caminho ao advento da Teosofia. Ele foi um “mal necessário” que teve por principais objectivos:

A) Combater o materialismo iconoclasta, bravio e ateu do século XIX.

B) Demonstrar a existência de vida e consciência autónomas em estados subtis além do mundo imediato, visível e tangível, portanto, demonstrando existirem outros Planos da Natureza.

C) Provar, ainda que de forma simples, a teoria da reencarnação de um princípio consciente individual em sucessivos corpos diferentes, ou a Lei da Evolução da Alma através de vidas sucessivas – Lei da Reencarnação.

D) Comprovar, de maneira simples e directa, a evidência da Lei do Karma ou da Causa e Efeito, Acção e Reacção, Distribuição e Retribuição, enfim, o princípio da lógica que dá sentido e explica as sentenças bíblicas: “Olho por olho, dente por dente”, “quem com ferro fere, com ferro será ferido”.

Portanto, como já disse, foi perto da metade do século XIX, ante o materialismo descomunalmente crescente da Revolução Industrial e a «morte de Deus» era praticamente ponto assente, ameaçando alastrar ao mundo inteiro, que a Fraternidade dos Adeptos de Itchen-Itza (México), sob o auspício planetário da Lua suscitadora do processo etérico ou akáshico ilusório dos sentidos chamado MAYA, permitiu uma rara excepção à Lei: a de entreabrir o portal proibido do Mundo Astral e permitir a manifestação física, visível e tangível, de criaturas do mesmo. Foi assim que surgiu o surto espiritista, antes, animista, como também já disse, na América do Norte, esta que está para o México, países lunares, como o Peru para o Brasil, países solares. Digo “animista” e não “espiritista” porque o Espírito é a Essência Divina que todo o Yogui ou Místico verdadeiro demanda em seu âmago profundo, e não nos labirintos escabrosos do exterior por via do materialismo mais perigoso porque mais subtil e insinuoso: o psíquico.

Por esse processo «escabroso» a Grande Fraternidade Branca travou o avanço do materialismo insano e bravio, obrigando os sábios académicos a ponderar e investigar a possibilidade da vida incorpórea e de que, afinal, «Deus poderia não estar morto»!… Também como já disse, o movimento psiquista, iniciado pelas irmãs Fox na América do Norte e por Kardec na Europa, estava destinado a dissolver-se pouco depois na Teosofia representada por Helena Petrovna Blavatsky, esta que por sua vez era Arauta, como deixou impresso na Introdução da sua A Doutrina Secreta, «daquele que no século XX iria dar as Revelações que a ela não eram permitidas desvelar», por ainda não ser a altura, por tudo estar ainda em formação nas mentes virgens e frágeis para a Nova Luz do Mental, num momento de intenso puritanismo e preconceito vitorianos que cinicamente castravam física e psicomentalmente a sociedade a-priori.

A Blavatsky “oriental” referia-se claramente, nesse trecho de A Doutrina Secreta, ao “ocidental” Henrique José de Souza, o Mestre brasileiro, sendo a ponte ou ligação entre ela (Upasika) e ele (Ptah) o insigne Mário Roso de Luna, o Mestre ibérico. É assim que as iniciais do nome dela, H.P.B., também valem por Hespanha – Portugal – Brasil.

Observe-se agora quais os tipos de consciência individual e grupal com que a Teosofia de JHS e de HPB actuam e com que classe de entidades incorpóreas, assim como o tipo de consciência e entidades predominantes no movimento espírita:

Fica exposta a razão por que a totalidade das religiões tradicionais e movimentos iniciáticos desaconselham vivamente os cultos e práticas psico-anímicas, aqui, no Ocidente, tomando por base aquela afirmação peremptória de Jesus o Cristo: «Deixai os mortos enterrar os seus mortos!», isto é, deixai os mortos fisicamente serem idolatrados pelos mortos espiritualmente.

Isso mesmo diz o Preclaro Adepto que se oculta no pseudónimo Fra Diávolo, no seu livro Memórias de Vivos e Mortos, aquando descreve o epitáfio de um túmulo: «Não ouses evocar-me, porque eu não te ouvirei. Este túmulo está vazio. E se cheio estivesse, eu também não te ouviria. Nós não aparecemos àqueles que não se assemelham connosco. Não evoques também as almas dos mortos vulgares, porque elas, temendo a si mesmas, temem àqueles que com elas se parecem. Lê, medita e segue o teu caminho».

Seja como for, pessoalmente devo respeito às crenças e práticas de cada um e cada qual, o que não significa forçosamente concordância com elas, pois bem sei que a evolução de cada um e cada qual vai se fazendo por “patamares psicológicos”, o chamado “quod” da consciência, até, um dia, chegar ao “quid” dessa mesma consciência, ou seja, à essência dela em que já não careça de «bengalas» ou apoios externos e busque verdadeiramente o esclarecimento do quê e por quê da Vida. É aqui que entra, inevitavelmente, a Teosofia, a “Mãe de todos os Saberes”. Mas até que isso se dê, é dever maior de quem se pretende Discípulo da Grande Loja Branca respeitar as crenças e liberdades de expressão do alheio, sejam quais forem, desde que não vão contra os códigos legais de todos os países civilizados que punem os crimes. Sim, porque se me afigura impossível tolerar as práticas nauseabundas do satanismo e de toda a espécie de magia negra, que implicam crimes à integridade humana.

Quando mais jovem, fiz vários périplos conferenciando publicamente por quase toda a região algarvia. Foi quando conheci a Maria de Lurdes em Faro, na época ocupando cargo destacado no Secretariado Espírita do Algarve. Ficámos amigos. Depois, com o passar dos anos e a vida do dia-a-dia, perdi-a de vista. Recentemente reencontrei-a: estava às portas da morte num Lar para a terceira idade, na capital algarvia. Alguns dos seus familiares, com ela ainda viva, descaradamente foram saqueando-lhe os seus haveres, e só o mínimo conseguiu levar para esse quarto reduzido no dito Lar. Os inúmeros amigos e conhecidos que outrora a bajularam e lhe furtaram favores, muitos ainda hoje sendo praticamente vizinhos de uma rua para a outra, passaram a desprezá-la, a esquecê-la na solidão infame dos últimos dias. Fiquei revoltado. Chorosa, a mulher que fora de têmpera rija, estendeu-me a mão esquálida no leito dos últimos momentos e balbuciou: – Vitor, apesar de todos terem abusado de mim, mantenho-me espírita até ao final. Como será depois?… Respondi: – Certamente depois, atendendo a quanto se fez de bom e desinteressadamente fez na vida, acreditando na pureza do seu ideal, será atendida pelo Céu e pelos seus santos Mensageiros, pois não é a nossa crença humana que muda a realidade do Espírito. O que muda, sim, é o corpo, ficando a Alma por cujo valor imperecível, se fez da vida terrena uma pluma, certamente se elevará às Alturas sem pena de coisa alguma que deixa para trás. Minha amiga e irmã no Pai Único, aqui me despeço com um até breve. Sursum corda – coração ao Alto – ao Amor Eterno a todos indistintamente nos envolvendo na sua Divina misericórdia e protecção.

Cerca do ano de 2001 recebi uma carta de um senhor brasileiro, afigurando-se-me relativamente jovem, creio que morador em Santo André, Estado de São Paulo, o qual a dado passo e em conformidade com as suas crenças pessoais, questionou-me sobre o que pensava do movimento espiritista (kardecismo, umbandismo, quimbandismo, etc.), ao que respondi:

Satya Nasti Paro Dharma!

Sim, é bem verdade que “Não há religião superior à Verdade”!

Contudo, a Teurgia e Teosofia mais que pela compreensão pauta-se pela aceitação das diferenças alheias, visto “não ser a religião que faz o homem mas o carácter”, na expressão magistral do Senhor JHS.

Se uma pessoa dedica-se à prática do Bem a favor dos seus irmãos em Humanidade, lógica e consequentemente contrairá um karma positivo favorecendo a sua evolução pessoal que, em síntese, consiste na “transformação da vida-energia em vida-consciência”, conforme disse o Mahatma Koot Hoomi Lal Sing.

Isso independentemente do «Espiritismo», melhor dito, Animismo que acaso professe. O único inconveniente é ter, pós-morte, de passar algum tempo no Mundo Astral – o Purgatório dos cristãos, como Lugar de Purga ou Purificação – de maneira a limpar-se das multivariadas formas psíquicas que acaso tenha atraído mediúnica ou mesmericamente à sua aura etéreo-astral, e só depois poder transpor livremente os Portais do Céu, o Devakan ou Mundo Mental.

O senhor Francisco Cândido Xavier foi um “teósofo impúbere”, como se atesta pela sua vasta obra psicografada, isto é, ditada mediunicamente pelos silfos elementais (considerados erroneamente “seres humanos desencarnados”) sob os nomes André Luiz, Emmanuel, Irmão X, etc., etc. Nela se encontram algumas verdades e muitas inverdades sobre as realidades espirituais. E é bem natural que assim seja, pois o Reino Elemental Aéreo (silfos) é limitado, mesmo que aja sobre o mental concreto dos que são afins com ele.

Mas isso não invalida o valor próprio dessa pessoa ou de qualquer outra afim com esses cultos, porque, uma vez mais, aqui se aplica a já citada expressão magistral do Senhor JHS.

O que uma Escola Iniciática, de teor claramente Mental, não deve é confundir-se com crenças animistas, astrais, porque senão correrá o risco de invés de dar um passo adiante dar dois atrás, ou seja, invés de impelir à subida ao Mundo da Pura Espiritualidade precipitar para o plano da mais ferina e perigosa (porque invisível… e extremamente insidiosa) materialidade… que é a psíquica.

O respeito e aceitação das crenças alheias é ponto assente da Teurgia e Teosofia, isso não implicando, repito, que tenha de imiscuir-se nas mesmas. Todos têm as suas experiências a fazer, maiores ou menores, de acordo com a sua evolução pessoal já alcançada, até que transponham derradeira e decisivamente o Portal d´Oiro da Iniciação… que é a Realização Verdadeira, Integral do Corpo – Alma – Espírito, enfim, a Conquista Real de Deus Uno-Trino.”

A invocação dos mortos, contudo, é um grave atentado à Lei da Evolução e ao respeito que os chamados «mortos» devem merecer dos chamados «vivos», e isso está muito bem expresso na consagrada legenda tumular: “Que a sua Alma descanse em Paz” (Anima requiesco in Pacem), epitáfio por norma respeitado em toda a parte.

Pela Lei da Evolução, as almas individualizadas, os chamados «espíritos dos mortos», têm a sua outra parte ou fase da existência a percorrer nesses outros mundos subtis, atravessando diversos estados de consciência até se recolherem ao seu Ego Espiritual ou Corpo Causal (o Mental Superior como “Veste do Espírito Santo”, onde está o átomo-semente dos restantes corpos da personalidade que gera a cada nova reencarnação, donde o seu nome Causal), comunicando-lhe e transformando toda a experiência alcançada na última vida terrena em possibilidades futuras. Entretanto, aguarda a hora de iniciar o novo processo de reencarnação, tal como a semente no âmago do fruto, pelo que: Anima requiesco in Pacem. Não é, pois, permitido pela Lei Maior, por ser de lesa-Evolução, perturbar esse ritmo. Fazê-lo constitui um atentado, além do mais, contra o princípio da liberdade individual.

Outro motivo de palmar contradição aos próprios ensinamentos espíritas é o de que o «espírito» invocado, pela indiscriminação de convites, poderá já ser uma alma reencarnada… e, ao que a experiência vivida me diz, não serão os espíritas na sua quase totalidade que terão a capacidade de o reconhecer.

Conforme ensinam os Grandes Mestres, as almas consciencialmente evoluídas, já possuídas de um considerável padrão vibratório áurico, difícil ou mesmo impossivelmente manifestam-se nos “terreiros”, “centros” e “mesas” mediúnicas. Quando acontece uma manifestação verídica e rara de almas humanas desencarnadas, geralmente são as que ainda estão possessivamente agarradas à crosta astral terrestre, portanto, sendo criaturas de parca evolução espiritual. A disposição psíquica passiva dos médiuns, portadores de tremendas chagas kármicas expressas em rupturas na sua malha etérica (ao nível dos chakras inferiores ou os abaixo do coração), acaba atraindo-as a si indo originar os fenómenos de «incorporação» mediúnica (ou seja, a tomada de posse da aura astro-etérica do «vivo» pelo «morto») através do centro gástrico (o fígado, o emocional, psíquico ou astral), aliando-se a isso o descontrolado excesso anímico dos sensitivos, funcionando em padrões nitidamente emocionais, e tudo indo provocar um aumento do karma para eles mesmos e para os “invocados”, causando um desnecessário acrescimento de nidanas ou “tendências” francamente materiais portadoras dos maiores vícios para os de «cá» e para os de «lá», tanto mais que, repito porque não é demais, o materialismo psíquico é muitíssimo mais perigoso e falaz que o materialismo propriamente material. Tudo isso é completamente lamentável e perfeitamente evitável. Poder-se-ia evitar definitivamente se os espiritualistas e espíritas se dispusessem a uma disciplina sã, séria e verdadeiramente mental ou espiritual.

No Mundo Astral actuam numerosas hostes de Auxiliares Invisíveis acudindo aos desencarnados aflitos, e ninguém é esquecido porque o Amor é Lei Universal! A melhor maneira técnica dos chamados «vivos» colaborarem com as Forças da Luz de Deus é pela boa disposição da meditação e do ritual consignados pelas suas respectivas Ordens ou Religiões, e não por «uma coisa à solta» sem suporte seguro de Egrégora alguma; ou, então, bastando ter sempre a mente e o coração direccionados para a única e firme vontade de fazer o Bem aos seus semelhantes em Humanidade, já que “a energia segue o pensamento”, na expressão magistral de Koot Hoomi.

Essas hostes de abnegadas almas santas e sábias, ao serviço consciente e directo da Grande Fraternidade Branca, compõem-se de homens e de anjos inteiramente vocacionados para o desígnio evolucional do Eterno, sendo elas quem ensinam que se deve subir aos entes queridos já partidos, tal como eles sobem na escala da Evolução, e nunca, jamais o inverso, porque a Natureza não dá passos para trás!…

Homens desencarnados, sim, mas também encarnados, acrescente-se, que podem deixar conscientemente o seu corpo físico denso levando consigo a consciência física contida nos dois éteres superiores do duplo-etérico, deslocando-se em alma no espaço subtil em missões e actos de grandiosidade tais que só os Iniciados conhecem e ensinam à Humanidade comum para que esta, pelo exemplo dado, se torne como eles.

Os três últimos parágrafos vêm contradizer a frase predilecta tanto dos kardecistas como dos umbandistas: «Toda a falange de espíritos tem o seu guia ou instrutor». Neste caso, para quê invocar aqueles que no “Além” têm guias mais práticos, sábios e amorosos do que no mundo, este mesmo mundo onde cometeram erros e crimes cuja memória os faz sofrer?

Acredito, sim, não nas manifestações induzidas mas nas manifestações espontâneas, genuinamente Jinas, pois que a História acha-se repleta das mesmas desde a mais remota Antiguidade. Essas, porém, por motivos superiores que ao homem vulgar não é dado compreender.

A classe de seres que geralmente actua nos círculos animistas pertence à dos elementais do Ar, os silfos. Sobre isto, correndo o risco de vir a surpreender muita gente, direi algumas palavras em defesa da razão, ou melhor, da boa saúde psicomental.

Os silfos superiores, dirigidos por alguma alma humana de índole igualmente superior, podem funcionar como guias aos que morrem de repente, a fim de os proteger das alucinações astrais. Como actuam na mente concreta do homem, eles são as energias volitivas guardiãs de tudo aquilo que os Profetas e Iniciados disseram e escreveram no Passado e se encontra registado na Memória Etérica da Natureza (à qual os sábios orientais chamam Livro do Kamapa), e é assim que detêm os segredos mais sigilosos de todos os Colégios Iniciáticos. Para os obter, mister se faz usar os sinais e senhas secretas quer desse Reino Elemental, quer do respectivo Colégio. E tanto uns como outros só são conferidos a quem seja realmente Iniciado. Os chamados “pontos riscados” da umbanda e da quimbanda acabam sendo uma desfiguração grotesca dessa realidade da qual, a mais próxima, é a ciência matemática e geométrica dos “quadrados alfabéticos e numéricos mágicos” dos cabalistas judeus e das “mandalas e yantras místicos” dos brahmanes e lamas orientais. De maneira que, acredite o respeitável leitor, «sacar» esses segredos aos silfos é tarefa impossível e perigosíssima (eles inspiram à loucura e ao suicídio quando desafiados), não sendo demais lembrar que hoje em dia ninguém ingressa numa Ordem Iniciática por simples e exclusiva inscrição, antes e só por convite… que leva à inscrição e consequente vinculação efectiva à Egrégora da Ordem.

O mundo inferior dos silfos simpatiza com a feitiçaria e a necromancia. Os silfos inferiores penetram à-vontade o ovo áurico astro-etérico dos médiuns e demais pessoas muito sensitivas no pendor mediúnico e podem, em certos casos de fenómenos profundos e autênticos de mediunidade, assumir a identidade de qualquer personagem histórico, imitando a sua voz, a sua caligrafia, as suas feições e até, algumas vezes, falando a sua língua de origem. Resulta de tudo isso produzirem perturbações psicomentais, à-vontade, nas suas vítimas, destruindo a fluidez do corpo emocional pela ingerência de elementos estranhos no corpo mental, assim provocando os estados neuropatológicos, francamente psíquicos, de alucinações, histerismo, esquizofrenia e, até, podendo chegar à loucura irreversível e mesmo a morte, seja provocada pelo suicídio, seja acelerada pela doença.

Nesse último vector inscrevem-se hoje, ainda que de maneira «adocicada» por uma certa e colorida infantilidade psíquica, os ditos «canalizadores» de Mestres e Seres elevados que, afinal, não passam de silfos. Além de se denotar nesse tipo de pessoas uma grande ingenuidade humana e ignorância espiritual, observa-se também muito preconceito sócio-religioso e vaidade psicomental… Se assim não fosse, certamente aperceberiam de imediato que um Adepto Perfeito nada tem em comum e logo é incontactável pelo homem imperfeito.

Os discípulos em iniciação nos Mistérios Sagrados eram, antigamente, educados de forma conveniente a fim de despertarem correctamente as suas faculdades internas (sidhis), de maneira que as psíquicas ficassem subordinadas às espirituais, sempre sob a supremacia atenta dos Hierofantes desses Colégios Iniciáticos, acompanhando par e passo o desenrolar natural dos discípulos aos poucos estabelecendo consciente, harmonicamente e saudavelmente a “ponte de luz” ou antahkarana entre os Reinos Humano e Espiritual, entre a Terra e o Céu. Mas actualmente, com grande desgraça, os desusados métodos lunares ou psico-passivos do animismo, sob que nome se apresente mas de forte importação afro-sul-americana, permitem sem defesa alguma que os seus aderentes se treinem como médiuns de quaisquer tipos de entidades, sem que de facto saibam realmente quem elas são.

A meu ver, e conforme postula todo e qualquer Colégio de Tradição Iniciática, os sensitivos de nascença deveriam ser treinados a ter controlo total de si mesmos e aprenderem a responder somente aos influxos do Mundo do Espírito, cultivando e mantendo a pureza de mente e de coração, de intenções e de acções, esta a defesa mais eficaz contra as investidas, mais ou menos argutas, das forças sinistras, internas e externas, para todos os efeitos, opositoras permanentes da evolução verdadeira de tudo e todos.

Esse treino e autocontrole baseia-se na rede de nadhis ou “linhas de força” estruturadas que constituem a essência vital de todo o órgão físico, os quais são reflectidos pelas veias. A Ciência Iniciática chama nadhis primários, primordiais ou de atributo àqueles distendendo-se pelos três sistemas nervosos ligados directamente à coluna vertebral, a saber:

1) Sistema Simpático. Actualmente é o mais utilizado pelo Homem, pois relaciona-se com a sua natureza física, inclusive a mental, devido à energia necessária ao funcionamento do seu cérebro ser-lhe fornecida por este sistema – através dos nervos que enervam, excitam ou activam as células cerebrais. O domínio deste sistema possibilita ao Homem tornar-se de Pensador a Ocultista. E isto pelo desenvolvimento do respectivo nadhi solar, ou canal direito da coluna espinhal etérica, de nome Pingala.

2) Sistema Vago ou Vegetativo. Quando em funcionamento transmite ao Homem todas as impressões emocionais e psíquicas ou astrais – através do enervamento das células cardíacas. O domínio deste sistema nervoso possibilita ao Homem tornar-se de Devoto a Místico por via do desenvolvimento do respectivo nadhi lunar, o canal esquerdo da coluna espinhal etérica, chamado Ida. Este deverá estar em equilíbrio com Pingala, pois senão haverá desequilíbrio com o predomínio anormal deste sistema indo dotar a criatura humana do factor passional ou passivo da mal-grata mediunidade ou exorbitância anormal psico-anímica, tornando-a vaga ou vegetativa. Esta é a verdadeira razão da mediunidade e de todas as formas de animismo, desde sempre, repito, vivamente desaconselhadas por todas as verdadeiras Escolas Iniciáticas e religiões tradicionais (catolicismo, judaísmo, islamismo, budismo, hinduísmo, etc.).

3) Sistema Cérebro-Espinhal. Quando desperto ou desenvolvido, confere ao Homem a consciência espiritual e o pleno domínio dos três mundos do Pensamento, Emoção e Acção, não perdendo ele a consciência em nenhum deles e logo não perdendo a solução de continuidade – devido ao equilíbrio central para os outros dois gerando a neutralidade, auto-enervando as células de todo o sistema cérebro-espinhal, do cóccix ao crânio. Isto acontece pelo desenvolvimento, em estado neutro (“nem bem, nem mal”… chave da Iluminação, estado em que se deve estar quando se medita, por exemplo), do nadhi central ou andrógino da coluna espinhal etérica, conhecido como Sushumna. Este possibilita ao Homem tornar-se Adepto Perfeito, desde o Físico ao Emocional até chegar ao Mental Superior ou Espiritual, jamais, em momento algum, perdendo a consciência psicofísica e mesmo mental, por já ter dominado ou conquistado toda a consciência desses níveis, de maneira que, por essa neutralidade como “terceira coisa” gerada do equilíbrio masculino-feminino, torna-se Andrógino, isto é, Adepto Perfeito.

A ver com o que acabo de dizer, transcrevo de seguida a consideração mais que avalizada de um Mestre Vivo, Koot Hoomi Lal Sing, cujas palavras foram escritas no final do século XIX:

«Felizes, três vezes felizes, em comparação, são as entidades desencarnadas que dormem um longo sono e vivem em sonho no seio do Espaço! E infelizes daquelas que trishna (“desejo de viver”) atrai aos médiuns, e infelizes destes últimos que as tentam por um upadana (“meio material”) tão fácil. Porque apoderando-se delas e satisfazendo-lhes a sua sede de viver, o médium contribui para lhes desenvolver um novo grupo de skandhas – um novo corpo de tendências e de paixões bem piores que aquelas que tiveram no corpo que perderam. De facto, ele é a causa dessas skandhas (“tendências”) e desse novo corpo. E todo o futuro daquelas será determinado não somente pelo karma (“causa e efeito” ou “lei de retribuição”) de demérito do conjunto ou grupo precedente, mas ainda pelo novo grupo da futura criatura encarnada. Se os médiuns e os espíritas somente soubessem, como já disse, que por cada “anjo-guia” que acolhem entusiasticamente lançam sobre ele um upadana que será gerador de uma quantidade de males indizíveis para o novo Ego que nascerá sob a sua sombra funesta, e que em cada sessão (sobretudo de materialização) eles multiplicam as causas de miséria (causas que mancharão o nascimento espiritual do infortunado Ego e o farão renascer numa existência pior que nunca), poderia ser que fossem menos prodigiosos na sua hospitalidade.»

Médium materializando o “ectoplasma” do seu próprio corpo vital ou duplo-etérico

Respeitante ao espiritismo doutrinário e às «coisas belas» que nele se diz e faz, ainda assim ficando-se pelo ambiente emocional com pouco ou mesmo nada de mental, coisa que conheço muito bem por no passado e por largos anos eu próprio ter militado na codificação espírita de Allan Kardec, ou melhor, Hipollyte Leon Rivail, o mesmo Mestre Vivo é peremptório:

«No Devakan (“Mundo Celeste ou Plano Mental”) […] o Espírito está inteiramente absorvido na sua beatitude pessoal, sem dar atenção alguma aos elementos que lhe sejam intrusos. Já afirmei que ele não pode regressar.

«Lamento contradizer-vos. Eu não tenho conhecimento dos “melhores espíritos” que aparecem nos círculos espiritistas e “ensinam a moral mais elevada”, e desde logo seguramente não conheço nenhum círculo “perfeitamente puro”. A verdade obriga-me a declarar que Allan Kardec não é um ser vivente totalmente imaculado, pelo que, desde logo, não é um Espíritomuito puro. No que respeita ao ensinamento da “moral mais elevada”, vive não muito longe da minha residência um Shamar Dugpa (“feiticeiro”) que é um homem verdadeiramente notável, pouco poderoso como feiticeiro, mas sendo-o excessivamente como bêbado, ladrão, mentiroso e orador. Neste último papel, ele pode bater aos pontos Mrs. Glastone e Bradlaugh, e mesmo o Reverendo H. W. Beacher, como o mais eloquente predicador moralista e o maior transgressor dos mandamentos do Senhor dos Estados Unidos da América. Esse lama Shapa-toung, quando tem sede pode extrair de um largo auditório de laicos “barretes amarelos” toda a sua reserva anual de lágrimas, ao contar-lhes pela manhã o seu arrependimento e os seus sofrimentos, depois de se ter embebedado durante a noite e roubado todos os habitantes da povoação após  tê-los, por mesmerismo, imerso num sono profundo. Portanto, pregar e ensinar a moral com um objectivo interesseiro, não prova grande coisa.»

Ainda segundo os Mestres Reais que são os verdadeiros Homens Perfeitos, e porque não quero falar da minha experiência pessoal no assunto, os grandes frequentadores das sessões espíritas, ou psíquicas, são os cascões etéricos dos mortos e os elementais ou forças inconscientes da Natureza, muitíssimo abaixo do estado humano, e ainda os suicidas e as vítimas de mortes violentas, estas as criaturas humanas «entaladas» no umbral astralino entre a Terra e o Céu. Nenhuma outra criatura, senão as citadas, manifesta-se em tais sessões, por razões exclusivas da Lei de Evolução – em que o curso natural de tudo e todos é ir avante, e não retroceder, seja a que nível for. O Mundo Material é um, e o Mundo Espiritual bem outro: interpenetram-se mas não se imiscuem. O espiritismo, em suas todas as suas modalidades, acaba não passando do «apêndice», da sombra da Teosofia, da verdadeira Ciência Oculta ou Esotérica, e esta jamais deve ser confundida, como hoje acontece a nível quase geral, com quaisquer «ocultismos populares». Ademais o Ocultismo é uma ciência exacta, por ser a «ciência exacta das energias do Universo». Portanto, caríssimo e respeitável leitor anónimo que me lê e julga, deixe-se os “mortos” na sua paz e volte-se de vez para a Pax Viva do nosso Cristo Interno, esse mesmo Espírito ou Atmã Universal, procurando na Terra o Samadhi, a Beatitude, para que no Céu se alcance o Nirvana, a Unidade com o Divino.

O próprio hipnotismo (do grego hypnos, “sono”) tem grande similitude com a mediunidade. Em minha opinião, o hipnotismo deveria ser utilizado somente para fins médicos e por médicos diplomados responsáveis. Quando o hipnotizador dedica a sua ciência a demonstrações teatrais ou à invasão da vida alheia pelo domínio forçado que a atracção mesmérica impõe sobre o mecanismo psico-etérico do “sujet”, ficando este para sempre ligado a ele por um fio astro-mental que poderá a qualquer momento ser reactivado e controlado pela vontade daquele, mesmo a grande distância, as leis violadas da Natureza castigam-no com um karma severíssimo, cabendo aos silfos a execução dessa justiça… o que já se viu acontecer há poucos anos atrás a hipnotizador famoso na tv, falecendo inesperadamente.

Os silfos inferiores representam, na maioria das vezes, o papel de um ente querido que a morte levou: pai, mãe, esposo, esposa, irmão, irmã, um político, um religioso, etc. Em seguida, começam a ditar discursos e a dar conselhos morais aos quais emprestam muito poder de falsificação por se aliar ao animismo inconsciente do sensitivo, impregnando com as suas impressões psicomentais (kama-manásicas) essas mesmas mensagens, tanto pela voz, como pelo estilo e pela letra. Os destinatários dessas mensagens não deixam de se render ao extraordinário do fenómeno e exclamam maravilhados: «Tudo isso é verdade! Só eu e o morto sabíamos desse segredo, e agora o médium revelou-mo!» A bem da verdade, a essas pessoas sugestionadas por promessas e maravilhas do «mundo dos espíritos superiores», especialmente aos jovens portugueses e brasileiros navegando, apesar de bem-intencionados, nas águas turbulentas de um psiquismo do qual nada sabem excepto que os excita e agita, tenho a dizer o seguinte: os silfos ou forças elementais do Ar podem ler os Anais Akáshicos (porque são parte da sua matéria) contidos no Éter Reflector que constitui a Memória da Natureza, no que diz respeito a tudo que esteja relacionado com a pessoa que faz perguntas e com aquela que partiu do seu corpo físico. Basta que um indivíduo esteja ligado a uma pessoa desencarnada ou a alguma ocorrência passada, ainda que não esteja pensando nela no momento mas estando gravada a sua memória no subconsciente, para esses elementais estabelecerem uma ponte de comunicação entre os dois e lerem os seus respectivos arquivos no corpo etérico, conhecendo os seus segredos bem como os daquele que estava em contacto com ela.

Os silfos podem impregnar, com a sua atmosfera etérica, qualquer imagem ou objecto que tenha sido adorada ou reverenciada por mentes devotas, magnetizando-a de forma a essa imagem ou objecto resplandecer, parecer maior do que é na realidade, quando não faz que os seus olhos abram e fecham, que escorram lágrimas ou a figura mova a cabeça de um lado para o outro. Tais fenómenos de pura maya-vada, espelhismo ou “ilusão dos sentidos”, observados por sensitivos e não-sensitivos, são comumente rotulados de «milagres»…

Nessa classe estão dois «milagres» a que assisti pessoalmente: um na Ladeira do Pinheiro, com a multidão extasiada ante a «santa» daí (afinal, “médium de efeitos físicos” com o corpo etérico desfeito por causa do imenso ectoplasma – éter materializado provindo do seu próprio corpo vital – constantemente despendido, provocando-lhe a famosa doença do “ângulo esplénico” e graves anomalias gástricas, como eu próprio assinalei à «santa» Maria da Conceição possuir esses sintomas de doença grave, o que ela reconheceu, adiantando que «os médicos não a conseguiam curar»…), com a energia psíquica grupal originando a maya-vada de “o Sol estar em movimento de um lado para o outro”, como eu e todos os presentes o vimos, comigo sabendo que isso não passava de ilusão de óptica, de miragem idêntica à que acontece com os viajantes nos desertos tórridos, indo o calor extremo excitar-lhes a fibras ópticas de maneira que acabam vendo o que realmente não existe!… O outro «milagre» que também presenciei, foi o seguinte: numa pequena igreja cristã ortodoxa de Lisboa há uma imagem da Virgem que, a dado momento, «milagrosamente» começou a verter lágrimas, para espanto e comoção dos fiéis. O caso deu brado, os jornais noticiaram e a ciência interviu e reconheceu a veracidade do fenómeno. Muitos ainda devem estar lembrados. Agora, o que raros sabem porque só a eles lhes disse directamente, é que tal fenómeno psicofísico foi desencadeado pelo próprio padre ou pope, estudioso de certa literatura ocultista por inconformar-se aos dogmas eclesiais vigentes, dessa maneira estabelecendo uma ponte fluídica com o mundo dos silfos, apesar de inteiramente inconsciente de tal. Se os cientistas compararem as suas lágrimas com as que a imagem da santa verte, verificarão o extraordinário do seu composto químico ser igual.

Até aqui falei da influência dos silfos no espiritismo, para generalizar, porque senão teria de falar também dos cascões ou corpos subtis abandonados pela alma quando se transfere a Planos mais elevados (e os quais, dissolvendo-se lentamente na matéria ambiente, não raro são ocupados pelos mesmos silfos inferiores quando operam nas sessões mediúnicas), e igualmente das larvas ou “escórias psíquicas” que o médium atrai inconscientemente a si. De maneira idêntica as formas-pensamento são animadas e animam o animismo de certos médiuns, termo este provindo do greco-latino “passivo, sujeito, receptivo”.

O exemplo mais notável de um cascão é aquele do corpo etérico dissolvendo-se na matéria ambiente de um cemitério e pairando por cima do respectivo cadáver, porque a alma quando se desprende do corpo físico denso também se desprende do seu duplo etérico, passando ao Astral. Os cabalistas judeus, assim como toda a religião judaica, chamam a esse corpo etérico em dissolução de Harbim de Garbal, “fantasma dos ossos”. Na realidade é mesmo um fantasma, podendo tomar a forma do extinto pouco depois da sua morte, enganando aos que pensam ser ele mesmo. Mas o verdadeiro ente subiu ao Céu e o falso está na Gehena, isto é, na “região etérea da podridão, do apodrecimento”.

Como disse mais atrás, do ponto de vista didáctico será mais correcto chamar ao Movimento Espiritista de Medianimismo que propriamente Espiritismo. O Espírito, a imortal Centelha Divina, jamais se manifesta em qualquer tipo de materialismo psíquico… Ele é a Meta Suprema de todos quantos demandam a Verdadeira Iniciação, o Luminário Maior da própria Vida e Consciência. Nada tem a ver com quaisquer cultos incorpóreos da personalidade…

Fora os casos excepcionais também já referidos dos agarrados à crosta astro-etérica da Terra, e no fundo mesmo estes, as almas humanas jamais voltam… no sentido que lhes dá a doutrina espiritista.

Gostaria ainda, respeitável leitor anónimo que me lê e julga, de abordar um outro tópico dentro desta temática.

Os espiritistas ingleses e norte-americanos invés de usarem o termo espiritismo, substituem-no por espiritualismo. Bem, entendendo o conteúdo, no fundo vai dar ao mesmo… Nesses ditos meios «espiritualistas» continua-se a considerar a ideologia espiritista como a razão primaz de tudo o mais, e alguns deles, desde os meados dos anos 40 a 70 do século XX, indo «colori-la» com a mistura das mais diversas filosofias ou tão-só ideias (espiritismo, umbandismo, teosofismo, yoguismo, óvnis, extraterrestres, teorias da conspiração, realismo fantástico, etc.) a que se conviu chamar… «síntese espiritual», «doutrina cósmica», «quantum estelar», etc., etc.

Que posso dizer de tal?… As intenções são compreensíveis mas o erro é crasso, e quem faz isso obriga-me a considerar que do Conhecimento Oculto apenas conhece retalhos soltos dados a público e desconhece o poder das Egrégoras, as “formas vivas de uma mente colectiva”, dos Colégios Iniciáticos e mesmo das religiões tradicionais, consequentemente, parece desconhecer por completo o perigo advindo daí ao misturar doutrinas várias e métodos absolutamente diversos. É uma enorme imprudência grave e perigosa e muito poderia dizer a respeito, inclusive abordando o fenómeno do cérebro humano pelo aspecto clínico, mas não o farei e tão-só pergunto: uma pessoa que saltita dos conhecimento de Escola “x” para ensinamentos de Escola “y”, sem se fixar em algum, durante o estado de sono, quando a sua alma se evola temporariamente do corpo físico, para que Escola Interna vai? Para qual, se a nenhuma tem acesso efectivo e logo nada sabe delas excepto acaso ter lido uns quantos textos públicos sobre as mesmas? E na vida física, a de vigília imediata, como se comportará o seu cérebro com tanta informação desencontrada, e que apoio efectivo terá para se manter coerente num Caminho verdadeiramente Espiritual, se afinal de contas a coisa alguma, realmente capaz de a apoiar com inteira segurança nesse Caminho, está efectivamente vinculada?

E desde quando “ciências divinatórias” são Ciência Iniciática? Desde quando o Esoterismo tem a ver com o “ocultismo popular”? Seria bom que os órgãos de comunicação social e igualmente as firmas editoriais já renomeadas na praça pública, começassem a separar o “trigo do joio”, a apurar o seu vocabulário respeitante à Ciência Iniciática de maneira a passarem uma melhor informação ao grande público invés de contribuírem para aumentar ainda mais a ignorância, a superstição e o erro. Será que alguém lúcido acredita poder misturar-se Teurgia, Teosofia, Rosacrucianismo, Maçonaria e outras Correntes de Iniciação consignadas pela Tradição das Idades com quimbandismo, vodismo, umbandismo, etc., e tudo o mais similar animista que se vende e apregoa em «feiras místicas» populares? O que resulta dessa pretensão psíquica e populista de querer colar-se indiscriminadamente aos Colégios detentores dos Mistérios Sagrados? Absolutamente nada, excepto embater em portais ferreamente fechados e tenazmente defendidos pelos guardiões desses mesmos Colégios os quais, por norma, mantêm-se encobertos nos bastidores sociais. É, pois, uma perda de tempo precioso, com laivos de triste e ridículo, pretender penetrar o impenetrável para logo, sem nenhum preparo nem noção de responsabilidade, ir assim profanar o improfanável… Ipsum facto!

Pois bem, para se puder penetrar o âmago espiritual de um Colégio de Sabedoria Divina, credenciado pela Grande Fraternidade Branca dos Irmãos Maiores da Humanidade, mister se faz possuir a chave de acesso ao interior do mesmo. Na Terra, neste plano objectivo, visível e tangível, essa chave chama-se filiação efectiva, a que se segue, sem dispersão, percorrer a via ministrada por esse Colégio levando ao Altar da Verdadeira Iniciação.

O chamado interior ao Caminho da Espiritualidade acontece com o amadurecimento da alma. Então, quando se iniciam esses sublimes passos, não mais se pára!… De maneira que o espiritismo, como fragmento, em sua essência, da Doutrina Secreta, pode ser bem-intencionado e possuir em seu meio pessoas igualmente bem-intencionadas e de grande valia espiritual em sua essência, mas é quase inteiramente incorrecto no seu corpus teórico e técnico. Daí que a Iniciação Verdadeira e a consequente Realização Espiritual seja impossível de conquistar nesse ambiente. O «espiritualismo» foi, é e será, quanto muito, um degrau preliminar na Evolução Discipular, ainda assim prescindível, visto nem todos os Aspirantes e Discípulos terem passado por ele. De maneira que, caríssimo leitor, a ordem é avançar para o pleno domínio do Mental, pois permanecer no animismo depois de pressentir a Luz, é um suicídio da alma.

Termino com um último apontamento, porque o dever sacerdotal se me impõe e com ele a Verdade do Espírito, ainda dentro deste tema do psiquismo, umbral inconstante entre o Homem da Terra e os Mistérios Celestes.

Trata-se das mensagens mediúnicas, telepáticas ou «canalizadas» de pretensos Adeptos Reais ou Mestres Perfeitos a idealistas místicos ou a aspirantes ao Aspirantado. Importando-me tão-só a ideia e não a pessoa que possui o livre-arbítrio de fazer o que muito bem entender, repara-se nessas mensagens orais, escritas, etc., a inteira fantasia fruto precoce de um misticismo anímico que pode ser ou não consciente, para todos os efeitos redundando do próprio autor; se é inconsciente, ele traz o melhor de si mesmo à superfície e atribui-o a uma entidade externa, a quem chama «Mestre» e identifica-o por nomes igualmente inventados (Lanto, Rowena, Nada, Azambur, Astar Sheran, etc., etc.), repito, neste caso inconscientemente. Acaba-se criando uma forma-pensamento que se vai alimentando ou fortalecendo com o tempo, dando-lhe certa autonomia, para todos os efeitos, não deixando de ser uma ilusão psíquica fantástica feita à imagem e semelhança dos seus limitados criadores. É assim que também se vêem Excelsos Seres do Panteão dos Avataras que deixaram o brilho da sua Sabedoria e Devoção singulares nas páginas imortais da História do Progresso da Humanidade, virem se «manifestar» de forma ingénua e simples, para não dizer, simplória, a a médiuns psicógrafos, telepatas ou «canalizadores», destoando completamente o que dizem ou escrevem agora com o que foram, disseram e escreveram em vida. É assim que aquele renomeado cientista na sua última encarnação apresenta-se, através do médium, pouco mais que autodidacta repleto de preconceitos religiosos, o que tem levado muitos a perguntar: –  Será mesmo ele?… É assim também que muitos iniciantes na Via Espiritual, quando afectados ou actuados  pelo excesso da sua própria emotividade anímica, acabam começando a receber cartas ou mensagens deste ou daquele «Mestre». Obviamente que não é Mestre algum comunicando, antes a transfusão inconsciente do que está no Subconsciente superior ou Intuicional não desenvolvido da pessoa, trazendo à tona dos sentidos o que tem de melhor e verdadeiramente espiritual, e quando acontece – muitíssimo raramente – a aproximação psíquica a algum Adepto Real, este cujo Plano comum de vivência é o Espiritual, poderá muito bem ser só à sua chaya ou “sombra psíquica” volitando no Astral, algo vazio e destituído de valor maior, como qualquer observador lúcido e imparcial pode verificar pelo conteúdo catequista o mais primário, ingénuo e simplório das mensagens recebidas dela.

Não pode haver relação afim ou íntima entre o Adepto Perfeito e o homem imperfeito, este predicado plural e aquele sujeito singular. Para se conseguir o contacto interno efectivo com o Mestre e a recepção dos seus ensinamentos reais no Plano Físico, é obra magna que demora muitos anos e mesmo muitas vidas, não é «do pé para a mão»; ademais, os Mestres são como são e não como se pretende que sejam, tal como o Mundo Espiritual é como é e não como se quer que seja…

Isso mesmo já o disse em carta privada enviada para São Lourenço de Minas Gerais, Brasil, no início do ano de 2006, da qual reproduzo aqui a parte seguinte:

“Isso e as “facilidades” espiritualistas, antes, PSIQUISTAS ou ANIMISTAS, geralmente induzidas por auto-sugestão, como essas de “ler as vidas passadas de outrem” ou “veicular a Consciência dos Mestres Perfeitos”, quando não os «incorporar». Bem, quanto a ler as vidas passadas de alguém só se for um elevado Adepto em relação ao seu discípulo e a ver exclusivamente com o trabalho íntimo entre ambos. Ou então o discípulo por si mesmo, à medida que se desenvolve interiormente e vai tomando cada vez mais consciência do seu Ser, acabando por fundir os seus passado e futuro no ETERNO PRESENTE, e aí, sim, mais tarde ou mais cedo consoante a evolução alcançada, acabará por se lembrar de quem foi na reencarnação anterior que, indubitavelmente, está na formação da natureza e carácter posterior, ou seja, a presente. Este processo acontece à medida que se desenvolvem positivamente os “Centros Vitais” ou Chakras, estes a quem o Excelso J... chamou de “os sete Olhos, as sete Pautas do Odissonai”.

Poder-se-á objectar que não é preciso tanto: basta a hipnose regressiva para o sujeito lembrar-se da vida anterior, senão mesmo até de outras mais. Pois sim, mas acaso alguém já se lembrou que todas essas memórias resgatadas ao inconsciente poderão ter a ver exclusivamente com a vida presente, numa amálgama de sensações e imagens oníricas vividas até ao momento esquecidas, pois que a memória regista tudo quanto ouviu, viu, sentiu e se pensou, e que assim reavivadas sem mais de maneira violentadora dos sentidos poderão descambar em traumas maiores ainda que aqueles que esse sujeito já carrega no consciente, e, portanto, desde logo nada disso ter a ver com a lembrança de vidas anteriores? Com o mesmo processo  têm as ver os métodos de “viagem astral consciente”, que até qualquer psiquiatra ou  psicólogo de “terceira categoria” pode provocar no paciente provocando a florescência da sua consciência onírica e o domínio desta sobre a consciência imediata.

Ademais, ainda sobre a lembrança imediata das vidas passadas, nenhum psíquico ou animista vulgar consegue ler o átomo-semente BÚDHICO ou INTUICIONAL, que é onde está registado todo o passado da pessoa. Além disso, nenhum Adepto Real nem nenhum Discípulo verdadeiro gosta de se dedicar à «bisbilhotice transcendental» de saber das vidas do alheio, ademais por haver o risco permanente dele ficar dependente do que se lhe diga a respeito e faça depender a sua evolução presente exclusivamente do passado morto e enterrado. De maneira que o que se observa publicamente sobre o assunto não passa de invenção, mais ou menos consciente, consoante as imagens mais ou menos induzidas por analogias exteriores; além disso, e sobretudo, ler ou pretender ler as vidas d´outrém não deixa de ser uma grande violação da privacidade alheia, logo, uma positiva demonstração de parca ou nenhuma sabedoria, de pouca ou nenhuma evolução verdadeira, mas havendo muita superstição e crendice redundando para o foro psiquiátrico ou de afectação mental da parte de quem toma tais iniciativas, mas também de quem se deixa levar por «cantos de sereias», estas que são, segundo a crença dos antigos marinheiros… devoradoras de carne humana, depois de fascinarem as suas vítimas. Aqui, transpondo o exemplo, devoradoras de almas humanas, do que têm de melhor e mais positivo.

Respeitante a «veicular» ou até «incorporar» a Consciência de um Mestre Real (quando se entra num templo cristão, por exemplo, e se vê em algum quadro o Criador Todo-Poderoso no topo de uma montanha faiscando luzes e raios, como seja, Fohat e Kundalini, pode concluir-se com exactidão que essa é a imagem antropomórfica mais pálida e imperfeita do Adepto Verdadeiro em seu Corpo Causal. E se mesmo assim é representado Todo-Poderoso, imagine-se o que será na realidade!), não sei como é possível acreditar-se em tal, quando as próprias e vulgares almas humanas raramente manifestam-se nos meios animistas (excepto, mas também muito raramente segundo Koot Hoomi, as mais agarradas à crosta terrestre, como, por exemplo, os suicidas, os alcoólatras e os drogados), o que levou o próprio Allan Kardec (Hypolite Leon Rivail, magnetizador, maçom e escritor do século XIX, para cuja “codificação espírita” baseou-se no antiquíssimo livro hindu Agruchada Parikchai que contém todos os ensinamentos fundamentais do espiritismo oriental, mas aí reconhecido como manual invocatório dos “devas naturais” e não de quaisquer almas humanas…) a reconhecer no seu Livro dos Espíritos: «Em cem manifestações espíritas, às vezes uma é verdadeira»!

Em boa verdade, essas «veiculações», «incorporações», etc., etc., muitíssimo raramente são um pouquinho mais que auto-sugestões induzidas por factores externos onde a esfera afectiva tem papel determinante no resultado final das mesmas experiências psíquicas que, realmente, não vão além do aparelho psíquico do próprio. Recordo o famoso Francisco Cândido Xavier psicografando mensagens do falecido Humberto Campos, a dada altura dizendo coisas plenamente de acordo com a Teosofia de Henrique José de Souza. Assombroso! Pois sim, só que uma semana antes o Professor enviara-lhe alguns exemplares da revista “Dhâranâ”, tendo ele absorvido o conteúdo, disformando-o de forma mais ou menos consciente e, por fim, ei-lo: «psicografando» as palavras do falecido jornalista e político Humberto Campos, conforme haviam sido literalmente escritas em “Dhâranâ”. Se nisso acaso não houve falta de boa-fé, então os silfos ou elementais do Ar (os mesmos que São Bernardo de Claraval indica nos primeiros parágrafos do seu Louvor à Nova Milícia do Templo) retiraram do seu mental concreto tudo o que lera e depois devolveram transmitindo por super-excitação nervosa, provocando a epilepsia momentânea dos braços, o que redundou na «escrita automática». Fosse como fosse, o Professor Henrique admoestou-o pessoalmente e ele… nunca mais recebeu mensagens mediúnicas de Humberto Campos. Que se pode deduzir de tudo isso?

Outro exemplo é aquele dos médiuns «psicografando» e «incorporando» o «espírito» chamado «Ramatis» (mistura filológica fantasiosa de Rama com til), nomeadamente o seu primeiro autor e criador, Hercílio Maes, que após circular por vários movimentos espiritualistas, como foram o “Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento” e a Sociedade Teosófica Brasileira, deteve-se na corrente kardecista, não no formato doutrinário ortodoxo desta mas na feição liberal que deu à mesma, juntando as mais variadas correntezas filosóficas donde subtraiu o travo «universalista»,  dando forma, por via «psicográfica», a essa personagem novelística «Ramatis», a qual preenche páginas e páginas pelo sistema pergunta-resposta, que bem me parecem ser do autor a si mesmo, arrancando ao seu subconsciente tudo quanto ouvira e lera antes. Como um de muitos exemplos cuja fonte de informação conheço qual foi, a dado passo aparecem nessa vasta obra literária mediúnica mensagens psíquicas do “Espírito Guardião do Brasil”, ou seja, HELIL. Quem é este? É aquele de quem os médiuns espíritas, particularmente Hercílio Maes, ouviram algumas e esparsas coisitas, certamente por indiscrição deles ou de membros da Sociedade Teosófica Brasileira, ou então de ambas as partes, pois que descodificando esse nome claramente fantasista, HELIL, vimo-lo inspirado numa mistura de HENRIQUE, HELIUS e ISLIL, palavra esta que faz parte do ODISSONAI.

Enfim, acaso alguma boa alma já pensou o quão difícil e trabalhoso é chegar aos pés do Mestre e ser Um com Ele? Acaso alguma boa alma já cogitou que a maioria dos que têm relações directas com o Mental do seu Mestre elas só se realizam ao nível superior do mesmo, e que muitíssimo raramente, só com ordens superiores, transmitem ao exterior o que acaso esse Mestre tenha a dizer e a fazer através do discípulo ante os outros? Acaso, enfim, já se concebeu por um instante que é necessária uma grande e prolongada disciplina iniciática para tanto e um forte cabedal de conhecimentos exactos das leis da Natureza? Se já é difícil a comunicação com uma alma humana vulgar, imagine-se então como será com um Adepto!…”

Posto quanto tenho a dizer, reitero em desfecho que não é a religião que faz o homem mas o carácter, e cada um pode, desde que queira, candidatar-se à ressurreição espiritual no seu mais alto e primordial estado: o de DIVINO.

Tenho dito.

Bijam

 OBRAS CONSULTADAS

Henrique José de Souza, Exteriorização da Motricidade. Revista “Dhâranâ”, n.º 85, 1935.

George O´Bourke, As enfermidades dos médiuns e os perigos que correm. Artigo traduzido e comentado (em chamadas numeradas) por Henrique José de Souza, transcrito da revista teosófica “Sophia” (números de Setembro e Outubro de 1913) e traduzido para a revista “Dhâranâ” n.º 71, Março de 1932.

Henrique José de Souza, H. P. Blavatsky e seus detractores. Revista “Dhâranâ”, n.º 107/108, 1941.

António Castaño Ferreira, Adeptos. Revista “Dhâranâ, n.º 78, 1933.

António Castaño Ferreira, A Teosofia e as Doutrinas Orientais. Revista “Dhâranâ, n.º 138/140, 1949.

Mário Roso de Luna, A Grande Loja Branca. Tradução e comentários de H. J. Souza. Revista “Dhâranâ”, n.º 91/92, 1937.

H. M. Portella, Egrégoras. Revista “Dhâranâ”, Série Transformação, Ano LIII, n.º 3, 1.º e 2.º trimestre 1978.

 

 

 

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