Lisboa, 1995 e 2001

O RAMO TEOSÓFICO “FIGANIÈRE”

Nos finais dos anos 70 da centúria transacta frequentei, com alguma assiduidade, um Ramo da Sociedade Teosófica de Portugal: o Ramo Alvorada. Apesar de visíveis os parcos conhecimentos teosóficos dos seus comparticipantes, eram notórias e notáveis a sua vontade em aprender, conhecer e progredir espiritualmente. Numa altura em que se discutia calorosamente se “a dor fazia ou não parte da evolução dos seres”, e ninguém chegando a consenso algum mas havendo muito mal-estar no ambiente, comecei então a desviar as atenções para o Cristianismo Esotérico, ou seja, para a faceta ocidental da mesma Teosofia, tanto mais que entre 1972 e 1975-77 eu já havia congregado estudiosos e escritores do tema no Instituto Círculo Esotérico Cristão. Foi quando se fundou a revista “PAX”, destinada a ser posteriormente o órgão oficial da Comunidade Teúrgica Portuguesa. Certamente os mais antigos ainda se lembrarão do trabalho pioneiro iniciado com o C.E.C. Pois bem, ao cabo de algum tempo da minha chegada à S.T.P. o director desse Ramo acusou publicamente o seu escasso conhecimento nas profundezas da Teosofia e demitiu-se, tendo-o abandonado e à S.T., indo de imediato afiliar-se (já então era filiado…) a seita bizarra onde podia «brilhar à-vontade» e a qual, graças aos Deuses, hoje já não existe.

Tendo o director ou pastor de almas abandonado o rebanho que se lhe confiara, deliberou-se extinguir o Ramo e os membros se dispersarem. Mas nenhum deles queria isso. Foi quando que fui nomeado, por unanimidade sem nenhum voto contra, director do Ramo Alvorada, cargo que aceitei contrafeito, confesso, por já nesse ido de 1977-78 estar vinculado a um outro Colégio Teosófico sob a direcção ministerial do Professor Henrique José de Souza, além de que nunca simpatizei com misturas doutrinais tipo «nouvèlle mode esotérique»!… Ainda assim, durante algum tempo até à chegada de novo director, encarreguei-me da direcção espiritual do Ramo, como já fizera, na mesma época, num outro Instituto cujo dirigente me solicitara: o Centro Rosacruciano de Lisboa, neste tendo eu fundado o seu “Círculo Interno”, inteiramente Ritualístico, e alimentado a sua revista “Excalibur” com vários textos da minha lavra. Mas neste último e assim que o pus a funcionar, no sentido verdadeiramente iniciático – e o que humanamente lhe sobreveio depois, talvez originado pelo próprio dirigente, não me interessa –, afastei-me. Como os meus deveres diários humanos e espirituais não me permitiam muito tempo de sobra, decidi despedir-me do supradito Ramo teosófico e, para minha grande surpresa, a maioria dos seus membros acompanhou-me para… vir a ingressar nas fileiras dos primitivos afiliados da 1.ª Loja Teúrgica de Portugal, então instalada temporariamente no segundo andar de um prédio no Cais do Sodré (Santo André), em Lisboa: a Loja Akdorge, activa durante nove meses para depois, um ano após o seu abatimento, ser a alavanca de levantamento da Comunidade Teúrgica Portuguesa, oficializada em 1982 na mesma cidade.

Laços profundos unem, portanto, a TEURGIA à TEOSOFIA, esta o clarim da espiritual ALVORADA daquela.

Nos primeiros anos da década de oitenta do século findado ainda voltei, esporadicamente, à S.T.P., tendo assistido a várias reuniões no Ramo Visconde de Figanière, então dirigido pelo arquitecto Jorge Santos Baptista, migrado do Porto para Lisboa e que, vim a saber pelo próprio, fora membro da Sociedade Teosófica Brasileira e um dos primeiros representantes em Portugal do Professor Henrique José de Souza.

O nome de Figanière ligava-se assim ao de HJS por intermédio de um seu condiscípulo português – HJS o Homem que ao assumir o seu Deus se tornara JHS e o Arauto mais próximo de Maitreya, o Cristo Universal.

Respeitante à Sociedade Teosófica de Portugal, esta fora reconhecida pela dr.ª Annie Besant, então presidente mundial da S.T. sediada em Adyar, Estado de Madras, Índia, em carta credencial de 5 de Setembro de 1921, tendo o Artigo 1.º da Lei do Código Civil de 14 de Fevereiro de 1907 servido de argumento, em 28 de Novembro de 1921, para o Governo Português dar a oficialização à S.T.P. por despacho emitido pelo Governo Civil de Lisboa.

Mas já em Janeiro de 1920 havia em Lisboa um Ramo teosófico, que fora o primeiro em Portugal e levava de nome Ísis. O seu presidente era o arquitecto António Rodrigues da Silva Júnior (1868-1937), um dos fundadores da S.T.P., amigo e condiscípulo do dr. Mário Roso de Luna (Membro n.º 7 da S.T.B. fundado por JHS) que fundara o Ateneu Teosófico de Madrid, a quem teceu elogios rasgados no seu estudo A Atlântida (Subsídio para a sua reconstituição histórica, geográfica, etnológica e política), publicado em Lisboa na revista “A Arquitectura Portuguesa”, de Janeiro de 1930 a Maio de 1933.

No ano da oficialização da Sociedade Teosófica de Portugal (1921),  é fundada nela em simultâneo o Ramo Visconde de Figanière, sendo o seu presidente António Chaves Cruz. Entre 1927-29, o capitão Artur do Nascimento Nunes encontra-se à dianteira do Ramo que, com mais ou menos intensidade, nunca deixou de funcionar. Em 1980 é sua presidente a dr.ª Maria da Glória Pires Firmino, sendo sucedida nos meados de 1981 pelo supracitado arquitecto Jorge Santos Baptista, recentemente falecido. Desconheço quem hoje dirija o Ramo e se acaso ele ainda está activo.

A Sociedade Teosófica de Portugal aparece quase em simultâneo com a Sociedade Teosófica Brasileira sob o primeiro nome de Dhâranâ – Sociedade Cultura-Espiritualista (1924),  e só depois aquela (1928), fundada e liderada por Henrique José de Souza, e esta portuguesa tendo como um dos seus inspiradores o, talvez, mais dilecto dos Filhos Espirituais de JHS: Mário Roso de Luna.

Incontestavelmente, profundíssimos elos causais ligam os primórdios da Teosofia Portuguesa à Teosofia Brasileira, desde Helena Petrovna Blavatsky a Henrique José de Souza, e talvez tenha sido essa a razão para, certa vez, o arquitecto Baptista dizer-me: “HPB foi a Anunciadora e JHS o Anunciado”.

VIDA E OBRA DO VISCONDE DE FIGANIÈRE

Recuando além do ano da fundação do Ramo Ísis (1920), tem-se o primeiro eco importante da existência do Movimento Teosófico em Portugal em 1889, um ano após a publicação de A Doutrina Secreta, de H. P. Blavatsky. Com efeito, nessa data a Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa Editora Lugan & Genelioux, sediada no Porto, editava um livro oitavado volumoso, com 744 páginas, do Visconde de Figanière, que o terminara no ano anterior em Leça da Palmeira, próxima da capital do Norte: Estudos Esotéricos – Submundo, Mundo, Supramundo.

Esse livro fora redigido e terminado antes de publicada A Doutrina Secreta, a partir dos conhecimentos teosóficos do autor, ordenados da forma que lhe pareceu mais lógica. Quando a Casa Editora o mandou imprimir, por sinal na Suíça, o Visconde tomou conhecimento da saída, em Londres, de A Doutrina Secreta, que imediatamente leu com todo o interesse. Daí resultou uma advertência ao leitor, apresentada logo após um glossário de termos teosóficos ao início da obra, redigida nos seguintes e curtos termos:

A QUEM LER

Estando este livro no prelo, publicou-se em Londres THE SECRET DOCTRINE, by H. P. Blavatsky, em dois tomos, contendo recentes e importantes elucidações ministradas no Índice. Do essencial dá-se um sumário no Capítulo Suplementar no fim do presente volume, e será útil consultá-lo em conexão com os caps. III, VI, VIII e XIX […]. Os novos subsídios modificam o apreço de certos aspectos, rectificando a versão aceite até hoje nos círculos teosóficos do Ocidente, a respeito de dois tópicos relevantes.

O  nome dado ao Capítulo suplementar – Novíssima Luz – é sintomático. Este livro é um trabalho de muito mérito e valor histórico incontestáveis, que aliás foi muito apreciado pela própria Madame Blavatsky.

Segundo Pinharanda Gomes (in Pensamento Português, IV – Gnose e Liberdade (Notas à Obra do Visconde de Figanière). Biblioteca da Filosofia Portuguesa, Edições do Templo, Lisboa, 1979), Frederico Francisco Stuart de Figanière e Morão, o Visconde de Figanière (1827-1908), nova-iorquino de nascimento, era filho do conselheiro Joaquim César de Figanière e Morão e da segunda mulher deste, Catherine Stuart Gilfillan, de ascendência escocesa, e sobrinho do polígrafo Jorge César de Figanière (1813-1889), que trabalhou com Alexandre Herculano e Inocêncio Francisco da Silva. Jorge Figanière, bibliógrafo notável, autor da Bibliografia Histórica Portuguesa (1850), teria contribuído para que o sobrinho se interessasse também pela bibliografia. Este casou em 1848 com Josephine Hunt, filha do general do exército dos Estados Unidos, James Hunt.

A sua vida profissional foi preenchida pela carreira diplomática, e os seus interesses políticos, históricos e filosóficos deixou-os expressos numa obra que não é reduzida, nem na extensão, nem no interesse.

Em Paris, tirou vários cursos universitários: licenciaturas em Letras, Físico-Químicas e Ciências Morais e Políticas, tendo-se afirmado como autor de numerosos trabalhos literários de teor histórico de muito mérito. Deles destaco:

Memórias das Rainhas de Portugal – de D. Teresa até Santa Isabel; com documentos, fac-símiles e retratos. Lisboa, Tip. Univers., 1859.

Vasco Peres, the Cooper of Alcobaça, 1861. Romance fundado em incidentes da batalha de Aljubarrota, constando de 18 capítulos.

Elva. Londres, 1878. Poema em cinco cantos, fundado nas lendas biscainhas do “Conde D. Moninho” e da “Dama Pé de Cabra” constantes do Nobiliário do Conde D. Pedro.

 Foi sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa e sócio efectivo da Real Associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses, sócio honorário do Instituto de Coimbra e de várias Agremiações científicas e literárias estrangeiras, dentre as quais sócio e professor correspondente da Academia de Jurisprudência e Legislação de Madrid, e membro do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Rio de Janeiro, Brasil. Foi neste país, onde então o Visconde residia, que recebeu a notícia de ter sido aceite sócio correspondente da Academia Real das Ciência de Lisboa, graças à intercessão pessoal de Latino Coelho a quem escreveu a seguinte carta de agradecimento, a qual faz parte do espólio do Processo da mesma Academia:

Ill.mo e Ex.mo Snr.

Tenho a honra de accusar recebido o Offício que V. Exa. se serviu dirigir-me com a data de 27 de Novembro último, participando-me que a Academia Real das Sciencias de Lisbôa me havia eleito sócio correspondente nacional da mesma Academia, na classe de Sciencias Moraes, Políticas e Bellas Lettras.

Agradecendo a V. Exa. tão grata notícia, rogo a V. Exa. queira fazer constar à Academia o quanto aprecio a subida honra que me fez, admitindo-me no seu gremio. Ao passo que me confesso por estremo lisongeado com tão ambicionado privilégio, medindo as limitadas forças de que disponho, não é sem receio que me vejo elevado a Consocio dos maiores talentos do nosso Paiz, de aqueles que tanta fama adquiriram e gozam nas Lettras e nas Sciencias. Anima-me porem a esperança de encontrar nelles a necessaria indulgencia, que por intermédio de V. Exa. ora peço, e com que desde já ouso contar.

Se durante a minha residência no Brasil eu puder aqui de qualquer modo ser util à Academia Real das Sciencias, levarei nisto summo gosto; e não menos terei offerecendo-se-me occasiões de me occupar no serviço particular de V. Exa.

Deus guarde a V. Exa. Rio de Janeiro em 24 de Janeiro de 1864.

Ill.mo e Ex.mo Snr. José Maria Latino Coelho.

 F. F. de Figanière.

Desempenhou o alto cargo de enviado especial e ministro plenipotenciário de Portugal nos Estados Unidos da América do Norte e na Corte da Rússia, entre 1870 e 1876. Foi Fidalgo-Cavaleiro da Casa Real Portuguesa, Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora de Vila Viçosa e possuiu a Grã-Cruz da Ordem de Santa Ana da Rússia.

Em 1877 afastou-se da vida diplomática que iniciara por volta de 1870, ano em que fora agraciado com o título de Visconde de Figanière, por el-rei D. Luís I.

Em 1882 fixou residência em França, tendo leiloado a sua biblioteca de Lisboa por motivo da retirada. O Catálogo dessa biblioteca decerto foi elaborado pelo próprio Visconde, e por ele se verifica que o proprietário possuía cerca de um milhar de obras, além de gravuras. O leilão foi efectuado por A. O. Guimarães, em 10 de Dezembro de 1882, na Rua do Monte de Santa Catarina, 48, em Lisboa.

Do Catálogo constam as secções de Teologia, Política, Filosofia, Literatura, História, etc., havendo a incluir um considerável número de obras teosóficas e ocultistas, dentre elas a tradução por um Anónimo das Noites de S. Petersburgo, de Joseph de Maistre.

“ESTUDOS ESOTÉRICOS”

Afastado das lides políticas, o Visconde de Figanière ficou com o tempo livre para dedicar-se inteiramente ao Ideal Teosófico. O seu livro Estudos Esotéricos – Submundo, Mundo, Supramundo – pensado em França, na cidade de Pau, onde residia na altura (na Ville Mondego, à Rue Marca), e que terminou em Leça da Palmeira em 30 de Maio de 1888, data constando na dedicatória que faz aí  ao seu primo co-irmão Gustavo Adolfo Serpa Pinto, o célebre explorador da savana africana, que foi quem vivamente o impeliu a escrever a obra, tendo antes movido-o ao interesse pela Teosofia, motivo da sua afiliação na Sociedade Teosófica em Loja de Londres – incontestavelmente é a mais rica jóia teosófica do legado literário português, primaz sobre todas as que se seguiram.

De maneira que Estudos Esotéricos – Submundo, Mundo, Supramundo poderão ser considerados a primeira versão por um português de A Doutrina Secreta. E apesar da obra não ter tido um grande impacto no meio cultural português da época, ainda assim não deixou de influenciar vultos de renome como Antero de Quental, Oliveira Martins e Teófilo Braga, dentre outros.

Admirador e amigo chegado de Helena Petrovna Blavatsky, “ele o discípulo e ela a Mestra”, como me confidenciou o inestimável amigo Pinharanda Gomes, certamente Figanière a terá seguido por toda a Europa e América do Norte. Por sua parte, Blavatsky retribuiu a amizade, aprovou e até citou as teses do português em vários passos da sua The Secret Doctrine, nomeadamente em nota de rodapé no tomo II (pág. 289, Pasadena, 1974), na qual recomenda a leitura de um artigo de Figanière intitulado Esoteric Studies, publicado no número de Agosto de 1887 da revista The Theosophist.

Também na sua “Biblioteca das Maravilhas”, em vários volumes publicados em Madrid entre 1916 e 1920, o dr. Mário Roso de Luna faz diversas observações, citações e comparações do pensamento teosófico do Visconde de Figanière. A supracitada obra-prima deste recebe análise cuidada numa longa anotação nas páginas 303-305 das Paginas Ocultistas y Cuentos Macabros de H. P. Blavatsky, anotados e comentados pelo mesmo Roso de Luna (Editorial Eyras, Madrid, 1982), trabalho que começou em 11 de Novembro de 1918 e terminou em 10 de Setembro de 1919. A dado passo dessa nota, o anotador atribui importância ao facto de A Doutrina Secreta ter sido editada quando os Estudos Esotéricos ainda estavam para sair à luz: “Isto é importante, porque demonstra que a obra de Figanière não está inspirada na última de Blavatsky, mas sim que, para honra da nossa Raça Ibérica, representa, em fundo e forma, uma felicíssima coincidência com a mais fundamental de quantas produções saíram da pena da Mestra”.

Estudos Esotéricos é hoje obra rara de incontestável valor bibliográfico, cujo texto integral, ilustrado por inúmeras tabelas, nunca foi reeditado. Todavia, é sabido haver uma sua reedição brasileira pela “Editora Três”, de São Paulo, mas na realidade tratam-se apenas de fragmentos do texto original e sem quaisquer tabelas, pelo que essa pretendida reedição vale o que vale…

Graças à oferta generosa do saudoso e valoroso amigo José Blanc de Portugal, antigo cônsul do nosso País em Brasília, possuo uma cópia completa da edição original de 1889 dos Estudos Esotéricos – Submundo, Mundo, Supramundo. A obra compreende as partes seguintes:

1.ª Parte – Evolução em geral: Metafísica, Ontologia, Cosmogonia.

2.ª Parte – Evolução humana: Fragmentos Pré-históricos, Ética, Psicomaquia.

Apêndice – Notas, Extractos, Elucidações.

Capítulo suplementar – Novíssima Luz.

Ainda no mesmo ano de 1889, o Visconde editou em França (Pau) um folheto de 10 páginas, intitulado Adiantamento aos Estudos Esotéricos – Submundo, Mundo, Supramundo, no qual reformou parte da nota E, bis, do Apêndice.

Esta obra-mor do teósofo português bebe a inspiração em duas linhas de pensamento, uma filosófica e outra teosófica, ambas padronizadas no Evolucionismo gnóstico ou do entendimento das coisas segundo o Espírito. Na primeira, Figanière perfilou o Pensamento Evolucionista português, de carácter gnóstico ou teosófico, indo descobrir e valorizar a aproximação entre a Sabedoria do Oriente e a do Ocidente, tendência muito significativa na segunda metade do século XIX entre vários autores portugueses. É assim que no ciclo do Positivismo do Curso Superior de Letras, António José Enes defendeu uma tese acerca da Filosofia Religiosa do Egipto (1868), no mesmo ano em que o escritor da Índia portuguesa, José Gerson da Cunha, publicou o ensaio Introdução ao Estudo da Ciência e da Vida. O estudo de G. Vasconcelos Abreu, Sentimento Indiano (1871), insere-se nessa linha orientalista vigente em pleno transformismo que, à volta de 1870, solicitava a atenção de autores como Pedro Gastão Mesnier, Bento Nasica, José Gonçalves da Cruz Viva, Augusto Eduardo Nunes e Ernesto Cabrita. No ano de 1881, o já citado Vasconcelos Abreu publicou umas Notas para a História das Relações entre o Oriente e o Ocidente na Antiguidade, em que definia os aspectos comuns à Filosofia Grega e ao Budismo – duas das fontes que o Visconde de Figanière utilizou no seu livro –, enquanto João Bernardo de Ataíde examinara os temas do Animismo e Vitalismo (1805).

Excepção feita a Vasconcelos Abreu, a Teosofia tinha menor relevo naquelas obras, mas Figanière, beneficiando de um clima favorável a esse género de estudos em Portugal, teve a vantagem de, através das ligações com as Lojas teosóficas europeias, como a londrina, levar até mais longe a aliança do Evolucionismo e da Teosofia.

Na segunda linha de pensamento, o Visconde de Figanière transpõe a Filosofia à Teosofia e bebe, com toda a clareza, a sua inspiração em dois autores renomeados: H. P. Blavatsky (in Ísis Sem Véu, 1876) e A. P. Sinnett (in Budismo Esotérico, 1883). O discurso destes apresenta-se claramente no livro do Visconde, inclusive exposições retiradas das Lettres des Mahamas M. et K.H. recebidas por Sinnett de 1880 a 1884. De Figanière dá o seu próprio testemunho da existência e veracidade dessas cartas na página 609 da sua obra em apreço:

“Nos começos de 1884, vi e tive nas mãos, uma carta, dirigida a certa pessoa em Paris, afiliada à Sociedade Teosófica, a qual a achara na sua mesa pela manhã ao despertar, carta que datada da véspera, vinha assinada pelo Mahatma Kut-Hum [Koot ou Kut-Humi] residente nos Himalayas. Constava de meia folha de papel, de um fabrico desconhecido na Europa; estava escrita a lápis azul em belo caracter e na língua inglesa, sendo resposta a uma comunicação que a dita pessoa lhe havia dirigido pela mala [posta, portanto, o correio normal], cerca de um mês antes. A estas cartas dá-se o nome de precipitadas; são a bem dizer os telegramas dos Adeptos, com a vantagem de trazerem todos os ff e rr sem erro possível.”

Portanto, não poderia ser melhor a Musa inspiradora de Figanière, visto que se tratava da própria Grande Loja Branca dos Bhante-Jauls, “Irmãos de Pureza”, assim chamados no Tibete reunidos em Fraternidade Soberana, que na Índia é conhecida como Sudha-Dharma-Mandalam, a “Excelsa Assembleia da Justiça e Perfeição”, o que se identifica ao apelitivo dado pela Igreja Cristã à Comunhão Invisível dos Santos e Sábios.

Mas o que diferencia esta sua obra literária de todas as outras do género, é a profunda e intensa análise filosófica e matemática que faz do Homem e do Universo espiritual e material à luz da ciência dos tatvas (“vibrações ondulatórias” dos átomos da Natureza) e das gunas (“qualidades subtis” da Matéria). Nisto, em seu tempo, ele foi inédito dentro do Mundo Teosófico e Ocultista.

São os seguintes os tatvas, como “substractum” dos respectivos elementos naturais e consequentes sentidos humanos por eles são formados:

E  as gunas:

Esses estados vibratórios do Universo e do Homem os dispôs em três Planos, Mundos ou Globos a que chamou Submundo, Mundo e Supramundo, interpenetrados e todavia distintos pelas características energéticas que os animam.

Para sintetizar e simplificar o mais possível o intrincado pensamento cosmogónico e antropogónico de Figanière, socorro-me de alguns excertos de textos reservados do acervo dos Graus Iniciáticos da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

Assim, fazendo apelo à elasticidade mental e inclusive intuicional do respeitável leitor, começarei por falar dos tan-mâttras (“vibrações íntimas” dos átomos da Natureza), que são o aspecto interno dos tatvas e que estão na causa dos sentidos físicos por acção de Satva-Guna, accionada por Prakriti, a Matéria Universal. Esta, por sua vez, é impelida por Jiva, a Energia Universal, que ao particularizar-se constitui o Homem, a “Vida-Energia”, e ao incarnar-se cria a consciência física divisória do “Eu” e do “não-Eu”, o que se chama tradicionalmente de Ahamkara, ou seja, o que percebe e o que é percebido, se assim se quiser. Os tan-mâttras são cinco:

Por sua vez, esses elementos subtis das formas subtis da Matéria (ou seja, Jiva accionando Prakriti), pelo impulso dado à latente Satva-Guna pondo-a em actividade, processo original chamado Vaikarika, impuseram a sua vibração a Tamas-Guna que, por agregação dos elementos substanciais tan-mâttricos, originou os Mahabhutãs (“elementos sensoriais agregados”) ou Tatvas, que, como se viu, são cinco patentes e dois latentes (só activos nos Grandes Iniciados).

É da conjunção de Satva com Tamas que surge uma terceira qualidade da Matéria: Rajas-Guna, a qual irá originar e seriar os “órgãos receptores” (Jnanindriyas) e os “órgãos motores” (Karmindriyas). Da conjunção da actividade de Satva com a vibração de Tamas, surge permeio o ritmo luminoso de Rajas, ao qual a Tradição Iniciática chama Taijasi, precisamente a “Luz” promanada de Mahat ou o Mental Cósmico, o Supremo Arquétipo do Universo e do Homem e que é o originador dos Indriyas pela união das Três Gunas ou Triguna.

Assim, tem-se:

O conceito teosófico de Figanière, para o Macro e Microcosmos, fica resumido na exposição que fiz e tentei simplificar o mais possível, por ser tema muito complexo que só é desenvolvido nos Graus avançados do Colégio Teúrgico Português, após os seus membros terem adquirido o necessário traquejo mental levando à manifestação do sentido intuicional.

Quanto tinha a dizer sobre o Visconde de Figanière, está dito. Mas será grande injustiça não lembrar aqui ainda o célebre Félix Bermudes (Porto, 1874 – Lisboa, 1980), desportista, teatrólogo, poeta, escritor e, sobretudo, teósofo, autor da trilogia A Conquista do Eterno – O Homem condenado a ser Deus, Buda instruindo aos seus Discípulos e Aos meus irmãos comunistas. Possuo exemplares das edições originais dessas obras, inclusive a primeira estando rubricada pelo punho do autor com o seu nome. Certa vez, no final de uma sessão esotérica da Comunidade Teúrgica Portuguesa, foi-me denunciado que a casa de Félix Bermudes na Rua dos Goivos, em Birre, Cascais, estava abandonada e sendo alvo de saques constantes. Dirigimo-nos de imediato ao local e deparei com uma cena deveras constrangedora: tudo destruído, a biblioteca fabulosa do autor completamente destruída, nada sobrava inteiro. Ainda assim, no meio dos destroços consegui recuperar alguma coisa, inclusive os diplomas olímpicos de Félix Bermudes. Aguardo o momento certo para encetar conversações com as autoridades desportivas quanto ao destino a dar a esses documentos preciosos, talvez quando estiverem menos preocupadas com a corrupção no desporto e amainarem os receios da detenção policial de alguns dirigentes desportivos. Sabe-se lá porque… Fiz denúncia pública do caso, exclusivamente por respeito à memória venerável de Félix Bermudes que tanto prestigiou o Desporto nacional, as Artes e as Letras portuguesas e, principalmente, deu indiscutível contributo precioso à Teosofia em Portugal. Essa denúncia foi publicada pelo jornalista Victor Mendanha no jornal diário “Correio da Manhã”, de 4.6.97, sob o título Saqueada a Quinta do fundador do Benfica – onde viveu o escritor e desportista Félix Bermudes. Vândalos desfazem vivendas em Cascais.

Lembro também o saudoso amigo Ângelo Maria Guimarães da Costa Cabral, com quem mantive longos e amenas conversas em sua vivenda na Rua de Fanares, no Algueirão. Nascido em Timor no dia 19 de Outubro de 1903 e falecido em hospital de Lisboa no início da década de 90, salvo erro, em 1927 fundou o Ramo Olcott na Sociedade Teosófica de Portugal, e manteve-se fiel ao Ideal Teosófico até ao final da sua vida. Foi escritor e conferencista profícuo, tendo feito repetidos circuitos de palestras por todo o Portugal e Brasil, divulgando o Naturismo e a Teosofia, esta principalmente na sua vertente Ocidental, ou seja, aquela que desenvolve o Cristianismo Esotérico. Neste sentido, fundou em 22 de Novembro de 1930 a Ordem Esotérica Iniciática, que mesmo assim não deixava de ser uma Rama do Ramo Olcott, a qual durou enquanto viveu. Pouco antes de morrer, Costa Cabral lavrou no seu testamento que a sua biblioteca, aliás muito rica e com títulos raros de obras sobre Magia e Ocultismo, principalmente em língua inglesa, seria doada à Biblioteca Municipal de Sintra. Assim fez. Mas, porque Sintra? Sim, visto não haverem acasos para teósofos e ocultistas… Pois bem, das muitas conversas que mantivemos na sua residência, houve uma que me ficou gravada na memória: Ângelo Cabral disse-me que Sintra era uma Montanha “muito especial” e haver “um Templo não só etérico no seu interior”… Quem saiba somar e extrair, certamente perceberá o sentido velado da intenção em legar o seu espólio espiritual e literário à sempre bela e mourisca Vila de Sintra, hoje Património da Humanidade.

Recordo igualmente o inestimável amigo coronel João Miguel Rocha de Abreu, tendo passado juntos longos e agradáveis serões na sua residência em Lagos. Em 1927 fundou o Ramo Leadbeater da Sociedade Teosófica de Portugal, e em 1962 o Ramo Amor, Verdade e Beleza, que dirigiu até ao seu falecimento em 8 de Maio de 1995, às 10.20 horas, fitando o Céu do Algarve e partindo com um sorriso de felicidade no rosto. O nome desse último Ramo, repartido entre Lagos e Setúbal (cidade onde em 1979-80 dirigi vários Ritos e Iniciações em Casa Capitular dos Templários de Kurat, consagrada ao Apavana-Deva, o “Buda Aquático” – Apas-Vaham-Deva), inspira-se numa significativa sentença gravada num quadro da extinta Delegação Teosófica de Lagos, sentença preciosa com a qual encerro este estudo dedicado à memória venerável de Frederico Francisco Stuart de Figanière e Morão, o Visconde de Figanière, “pai” da actual Teosofia Portuguesa:

Espiritualistas de todos os Credos,
Idealistas de todos os Campos,

Uni-vos!
Para criar na Terra
O Mundo Ideal do Espírito,
Onde para sempre imperem
O Amor, a Verdade e a Beleza.