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Memória celta de Genève

Os monumentos da época celta não são raros na Suiça e frequentemente são achadas armas e outros instrumentos que pertenceram aos primitivos habitantes da região helvética, havendo também construções líticas testemunhas da religião e cultura celtas, inclusive em Genève (Genebra, em português) e nos arrabaldes desta onde sobressaiem três monumentos cuja memória merece ser conservada: a Pierre aux-Dames, as Pierres e a Maison ou Cave-des-Fées.

A Pierre aux-Dames (“Pedra das Senhoras”) foi achada em Troinex e está hoje no Museu de Arte e História de Genève. Tem esse nome porque estão gravadas nela quatro figuras humanas femininas datadas, provavelmente, do período celto-romano. Tais figuras dando as mãos entre si sugerem o acto de estarem criando uma cadeia energética indo impregnar com as suas energias vitais a pedra, dando-lhe assim um significado especial dispondo-a como sagrada. O facto é que ela fazia parte de um complexo arquitectural com finalidade religiosa ligada a algum tipo de culto necrolático e catalizador das forças telúricas do seio da Terra, isto porque nas suas proximidades existe um tumulus donde foram desenterrados os restos de três seres humanos datados do ano 800 antes da nossa Era, ou seja, da Idade do Bronze, como igualmente foram postos a descoberto vários menires com aproximadamente 5000 anos de idade.

Existe uma lenda relacionada com a Pierre aux-Dames: uma camponesa das margens do Arve que desejava obter um favor das fadas que viviam na “Pedra das Senhoras”, depôs uma jarra de leite entre os rochedos e foi recompensada por isso: uma braçada de folhas de faia apareceu subitamente no seu avental. Embaraçada com esse presente, ela desembaraçou-se dele no caminho de regresso a casa. Quando aí chegou viu que no avental sobrava uma folha de faia que diante dos seus olhos pasmados transformou-se numa moeda de ouro. Uma outra versão diz que as fadas, reconhecidas por um serviço prestado, ofereceram a uma camponesa um cesto coberto com um pedaço de tecido, com ordem de não ver o seu interior senão quando chegasse a casa. Mas a camponesa era muito curiosa e durante o caminho de regresso levantou o pano e viu que o cesto estava cheio de folhas, as quais apressou-se a deitar fora. Chegada a casa, viu assombrada que uma folha colada ao fundo do cesto se transformava numa moeda de ouro.

Pedra das Damas - GenéveCasa das Fadas - Genéve

Memória do passado distante, da Pré-História genevense, igualmente merecem visita os dólmens nos arredores de Genève, entre Voirons e Salève, num conjunto de quatro de que sobrevivem dois, estando alinhados num eixo norte-sul. De todos o monumento megalítico mais septentrional é o dólmen da Cave-des-Fées, em Saint-Cergues. Seis lajes cuidadosamente unidas formam uma câmara rectangular de 3,20 metros por 2,30 metros, e uma abertura a noroeste situada no centro de um dos lados do dólmen permite aceder à câmara sepulcral onde foram descobertas ossadas humanas parcialmente carbonizadas. Os camponeses da região dizem que essa é a “Casa das Fadas”, e assim ficou conhecida até hoje merecendo a visita para quem queira conhecer esta página praticamente desconhecida da História da Suiça e, particularmente, de Genève.

A primitiva população de Genève era a celta da tribo dos Allobroges habitando o território que se estendia dos Alpes ao Rhône e que no ano 121 a. C. foram submetidos ao império romano na época do imperador Júlio César, que escreveu sobre eles nos seus Comentários sobre a Guerra das Gálias. Nessa obra, Júlio César escreve o nome da capital dos Allobroges: Genua, palavra latina inspirada na lígure Gene, raiz do latim Genesus que terá evoluído para o etimólogo actual Genève, cujo significado lacustre é “povo do lago”, ou seja, aquele que vive junto ao Lago Léman sobre as duas margens do Rhône.  A partir do ano 52 a. C., os celtas da tribo dos Helvetes (Helveti, em latim, donde Helvético) vindos do Norte, da actual Alemanha, instalam-se em toda a Gália transalpina, origem da chamada região helvética, e para impedir o seu avanço Júlio César mandou fortificar Genève em 58 a. C., atendendo à sua posição estratégica na região, e foi quando a povoação passou do estatuto de vila a cidade(de vicus a civitas), contudo nunca esquecendo completamente as suas origens ancestrais, sobrevivendo até hoje muitos testemunhos aguardando a visita à, afinal, memória celta de Genève.

O mundo subterrâneo de Genève

Sob Genève há uma outra cidade subterrânea constituída de vastas galerias prolongando-se em várias direcções, aproveitadas no século XIX para guardar e conservar os alimentos devido à frescura permanente nessas cavernas formadas de conglomerados glaciários e sedimentos do rio. Cerca de 1920, com a evolução da refrigeração mecânica, essa utilidade rudimentar cessou, particularmente nas Grutas do Cardeal, situadas a jusante do viaduto ferroviário da Junction, cuja visita não deixa de abismar qualquer pessoa diante da sua estrutura com escadarias, portais comunicando de uma galeria para outra, e abismos que se perdem nas entranhas da Terra. É uma visita obrigatória mas exigindo muita prudência, o que requer a companhia de um guia experiente.

Na colina do Bois-de-la-Bâtie tem-se acesso às Grutas da Torre, cujas vastas galerias subterrâneas vieram a ser cimentadas a partir de 1873 para aí se cultivarem cogumelos. Ao longo de todo o século XX os famosos “cogumelos de Paris” eram originários das entranhas da terra genevense, deixando-se de os cultivar já perto dos anos 80. Estas grutas também são formadas de terrenos do último período glaciário, o Würm, na sua parte superior e pelo Aluvião Antigo na sua base.

O terceiro grupo de cavernas desenvolve-se ao longo do caminho de Chancy, chamadas Grutas de Chancy, situando-se o acesso principal a elas na desembocadura da estrada dos Péniches. Desde a primeira metade do século XIX que fazia-se a exploração de saibro nelas, actividade terminada cerda de 1880.

Apesar de estarem actualmente classificadas como património arquitectónico de Genève, este conjunto de grutas naturais acrescidas de galerias artificiais no século XIX está hoje num estado deplorável com as paredes repletas de grafites e dejectos no solo provocados por grupos marginais que se aventuram nas entranhas da Terra em busca de aventuras impúberes, alguns entregando-se a práticas «esotéricas» mais infantis que sérias, todos tendo em comum a depradação deste património único.

Sem dúvida que as grutas já existiam antes dos genevenses as aproveitarem para fins de utilidade imediata, e pela antropologia das religiões antigas locais descobre-se que o homem primitivo procurava-as como lugares de culto à Mãe-Terra e aos deuses ctónicos, dispondo-as como espécies de hipógeos ou “templos subterrâneos” protegidos por esses mesmos deuses infernais ou do interior da Terra.

Genéve - Gruta de Bois de la Batie (1)Genéve - gruta do cardeal - 1

Com efeito, na simbologia tradicional a caverna é tomada como arquétipo do útero materno, figurando nos mitos de origem, de renascimento e de iniciação de numerosos povos. Sob a designação genérica de caverna, incluem-se igualmente as grutas e os antros, se bem que não haja sinonímia perfeita entre essas palavras. Entende-se por caverna um lugar subterrâneo ou rupestre de tecto abobadado, mais ou menos afundado na terra ou na montanha, e mais ou menos escuro. O antro será uma espécie de caverna mais sombria e mais profunda, situada bem no fundo de uma anfractuosidade sem abertura directa para a luz do dia; no entanto, excluiu-se o covil, guarida de animais selvagens ou de bandidos, cujo significado nada mais é do que uma forma corrupta do símbolo em causa.

A caverna também é considerada como um “gigantesco receptáculo de energia” oriunda do seio da Terra, portanto, de natureza telúrica e não celeste. Por isso, ela sempre desempenhou um papel determinante nas operações mágicas das religiões antigas. Como templo subterrâneo, a caverna guarda as lembranças do Período Glaciário que foi um verdadeiro segundo nascimento da Humanidade. Ela é propícia às iniciações, ao sepultamento simulado, às cerimónias que circundam a imposição do elemento mágico. Simboliza a vida latente que separa o nascimento obstétrico dos ritos da puberdade. Põe em comunicação o homem primitivo com as potências ctónicas (divindades que residem no inerior da Terra) da morte e da germinação ou renascimento.

De maneira que o “mundo subterrâneo” de Genève é um testemunho único da presença humana ancestral cuja religião mágica natural ficou assinalada para sempre neste património absolutamente singular, cuja visita é necessariamente obrigatória.

Temas do Santo Graal em Notre-Dame de Genève

A basílica de Notre-Dame de Genève é o principal santuário católico desta cidade desde que a antiga catedral de Saint-Pierre se tornou templo protestante. Daqui saem os peregrinos que vão a Santiago de Compostela, na Galiza, seguindo a Via Gebennensis ou “Caminho de Genève”, sendo motivo de grande veneração a imagem branca da Virgem Imaculada oferecida a este templo pelo Papa Pio IX em 1937, a qual encontra-se na capela central do deambulatório.

Esta igreja de Nossa Senhora foi construída entre 1852 e 1857 no estilo neo-gótico, em parte inspirada na catedral de Beauvais segundo o desenho do arquitecto Alexandre Grigny. A sua consagração fez-se em 4 de Outubro de 1857 pelo abade Gaspard Mermillod, futuro vigário episcopal de Genève e depois cardeal, e que mais tarde seria expulso da Suiça pelo seu governo. Com efeito, após a chegada ao poder de um governo anti-clerical esta igreja foi ocupada e fechada em 5 de Junho de 1875, acompanhada de manifestações hostis contra os católicos romanos que só a recuperariam em 1911-1912. Finalmente, em 5 de Dezembro de 1954 François Charrière, bispo diocesano, pronunciou em nome do Papa Pio XII a elevação deste santuário ao estatuto de “basílica menor”.

Motivo de grande interesse nesta basílica menor são os seus belíssimos vitrais em Arte Nova que além do sentido confessional relacionado ao culto católico, reservam a mensagem do Sang Greal ou Sangue Real pertinente ao tema do Santo Graal aqui a ver com Clóvis I (466 – 27.11.511) que iluminado pelo Espírito Santo iniciou a Monarquia Sagrada de França como Coração da Europa, motivo este mais que suficiente para o governo helvético repudiar violentamente as pressupostas tentativas encapotadas ou simples simpatias de anexar a Suiça a França.

É assim que aqui aparece retratada num vitral Santa Clotilde (475 – 3.6.545), mulher do rei Clóvis, a quem o Arcanjo São Gabriel terá aparecido e lhe oferecido o lírio (flor-de-lis) como sinal da Providência Divina e da conversão de França ao Cristianismo, motivo para a sua conclamação pela Igreja como modelo da Rainha do Céu na Terra, possuída dos predicatos de Providência e Conversão, ficando reconhecida para sempre como “rainha santa” associada ao Sangue Real de Cristo contido na Taça Sagrada que, aqui, está representada no útero materno da própria rainha de cujo sangue e seiva brotou a dinastia franca dos reis que ao longo das páginas da História a aclamariam Saint Vaisel, ou por outra, o Santo Graal representado nessa mesma Mulher de eleição divina. Por isso, ela aparece neste vitral com o halo da santidade carregando numa mão a cruz da Fé e na outra o ceptro da Realeza, o que se traduz por Realeza Divina e  dando-a como Princesa do Sang Greal, ou por outra, Mãe da geração eleita, portadora do sangue santificado pela Graça do Espírito Santo, que viria a reinar na França desde esse longínquo período merovíngio.

Santa Clotilde - Notre-Dame de Genéve

Se Santa Clotilde é o modelo perfeito da Mãe Divina, esta a Rainha do Sang Greal, Ela aparece num outro vitral onde é coroada pelo Filho, tendo acima a Pomba do Espírito Santo e no topo o Padre Eterno. A Coroação da Virgem equivale à sua proclamação como Rainha dos Céus e da Igreja, a incarnação do Espírito Santo cujo poder manifesta-se pelos sacramentos, sobretudo o da conversão que é o do baptismo, seja pela água da confissão, seja pelo fogo da sabedoria ou entendimento. Neste último sentido, a Coroação da Virgem Maria equivale ao seu reconhecimento como Shekinah, a “Presença Real de Deus na Terra”, tema caríssimo à Cabala judaica incorporado no Cristianismo como “Coroação da Virgem”. A palavra “coroa” é originalmente muito próxima dessa outra “corno”, e exprimem a mesma ideia: a de elevação, poder, iluminação. Uma e outro elevam-se acima da cabeça e são simbólicas do poder e da luz. Este será o significado da coroa crística imposta a Santa Maria pelo seu Divino Filho, pois só se chega a Ele por Ela, tal como só por Ele se chega a Deus Pai. Por esta razão, Maria tinha que ser reconhecida como Rainha do Mundo e do Céu.

A origem do tema “Coroação da Virgem” tem por base o último episódio da vida de Santa Maria, sendo a sequência da Assunção ou Dormição. A sua base bíblica é encontrada no Cântico dos Cânticos (4:8), nos Salmos (44:11-12) e no Apocalipse (12:1-7). O título de “Rainha do Céu” (Regina Coeli) dado a Maria remonta, no mínimo, ao século XII e a São Bernardo de Claraval. O tema foi atraído a partir da ideia da Virgem Maria como o “Trono de Salomão”, que é o Trono de Glória onde a Mãe se senta com o Menino no regaço. Desde então o trono foi assumido cada vez mais como assento da realeza retratando a corte celestial espelhada na corte terrena.

A “Coroação de Maria” é o quinto mistério glorioso do Santo Rosário, cujo fruto é a perseverança, a confiança na intercessão da Mãe de Deus. A Igreja Católica celebra o evento em 22 de Agosto.

Judaísmo macabeu na Catedral de Saint-Pierre

O visitante mais atento da Catedral de São Pedro de Genebra não deixará de ficar surpreendido com a visão geral da capela dos Macabeus repleta de simbolismos e significados ocultos principalmente nas suas pinturas murais, posto estarem em contradição aberta com a religião protestante a que pertence este templo a qual é nada afim ao figurino simbólico característico da religião católica.

Edificada segundo o gosto do gótico flamejante do século XIV quando se a decidiu construir (1397), sendo terminada em 1405-1406, a sua abóbada reparte-se em três corpos com nervuras partindo de medalhões centrais, sendo os seus frescos maravilhosos o que resta do original destinado a capela funerária pelo cardeal Jean de Brogny, que a mandou fazer pondo-a  sob a evocação de Santa Maria, e posteriormente dos Santos Macabeus. Isto quando a catedral era a sede católica do bispado de Genève (Genebra), antes de tornar-se a principal igreja protestante da cidade desde 1535.

Os três corpos da abóbada representam as Três Pessoas da Santíssima Trindade: o Pai é alegorizado no corpo central decorado com Querubins sob um fundo vermelho purpurado, cor indicativa do mais elevado estado de espiritualidade representada por essa Corte celestial a quem se atribui a Sabedoria de Deus, por o seu nome hebraico kerub significar “tesouro” e este ser entendido como o tesouro divino da Sabedoria que dá a potência do entendimento de Deus. O corpo abobadal à direita expressa as qualidades do Filho: sob o fundo azul estrelado em ouro, destacam-se doze Anjos musicais representativos da Harmonia que assiste ao Universo, expressando cada Anjo um signo do Zodíaco simbólico do mesmo Universo. Pelo Som ou Verbo Deus tomou forma, incarnou, como diz logo ao início o Evangelho de São João, “…e o Verbo era o Filho”. É este o significado dos Anjos musicais na abóbada celeste. O terceiro corpo da abóbada, à esquerda, simboliza o Espírito Santo manifestado na Natureza, e por isso o mesmo irradia como Sol Central indo vivificar o Mundo Natural representado por motivos florais multicoloridos sobre fundo azul, esta a cor tradicional da Mãe Divina em quem se manifestou o Espírito Santo, segundo as escrituras sagradas.

Capela dos Macabeus - 1Capela dos Macabeus - 3

O movimento divino impulsionando a actividade terrena está representado abaixo num trabalho em ferro forjado, servindo de grade, onde se vê o circungiração destrocêntrica do Universo tendo ao centro uma flor em cruz representativa da própria Divindade. Tudo isso vem a ser alegoria da cosmogonia cristã desenvolvida pelos padres apostólicos dos primeiros séculos do Cristianismo, ainda muito influenciados pelas ideias metafísicas de Platão e Pitágoras, as principais referências da Antiguidade clássica. Mas também, pelo sentido dominante de movimento, no plano imediato é referência velada a macabeu, isto é, “martelo” (maqqaba), tomando o significado de “acção, movimento”.

Os macabeus eram os “martelos” do Senhor, como alusão à sua força nas batalhas contra aqueles que se opunham ao Deus Único e Verdadeiro de Israel, formando um poderoso núcleo de resistência contra a helenização forçada praticada pelos selêucidas no século II a. C., vindo a fundar a dinastia dos hasmoneus que governou Israel desde o ano 164 a 63 a. C., reimpondo a religião judaica.

A tradição cristã celebra a 1 de Agosto os Sete Santos Macabeus e a sua mãe, cujo martírio é descrito no capítulo 7 do Livro II dos Macabeus, na Bíblia, base da lenda que proveio do Médio Oriente para o Ocidente durante a Idade Média, onde se conta que sete jovens judeus tendo recusado comer carne de porco foram martirizados com a progenitora por ordem do rei selêucida grego Antiochus IV Epiphanio, isto é, recusaram converter-se à helenização preferindo o martírio.

A Bíblia não dá os nomes dos macabeus martirizados nem o de sua mãe, mas as lendas medievais posteriores dão-nos e foi assim que entraram no martiriológio cristão conhecidos como Hanna, a mãe, e Abim, Antoine, Gourias, Eléazar, Eusébon, Akhim (Samonas), Marcel. Esta capela de Saint-Pierre destinou-se originalmente a abrigar as relíquias dos Santos Macabeus, mas a conversão da região helvética ao protestantismo anulou a intenção, ficando só a capela evocativa dos mesmos cujo milagre aqui será o de terem sobrevivido até hoje os maravilhosos frescos que a decoram com magnificência, tornando-a única em Genève.

Os Templários em Genève

O primeiro documento que assinala a implantação da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão em Genève é uma carta de 1196, onde o bispo Anthelme atesta uma transacção entre o convento de Saint-Victor e o templário Nanthelme a respeito de um oratório construído por esse último em Cologny. Sabe-se que o papa havia autorizado os cavaleiros templários a poderem construir livremente oratórios e capelas sem necessidade de as referir às autoridades eclesiásticas. Os terrenos em torno desse oratório ou capela também pertenciam à Ordem do Templo que neles se dedicava à exploração agrícola, e uma outra carta de 1277 cita a presença de um preceptor templário na granja de Bans, dita Cologny, com um capelão ao serviço da Milícia para aí exercer os serviços religiosos.

Com a abolição da Ordem do Templo em 1313 os seus bens imóveis genevenses foram transferidos para a Ordem de São João do Hospital, vulgo dos Hospitalários e depois de Malta, incluindo os da comenda de Cologny, de que ainda sobrevivem alguns edifícios e colunas com gravações da época dos templários, havendo sobre a entrada na granja reconstruída uma cruz de Malta com a data 1636, tendo a desaparecida capela templária desabado em ruínas em 1780. Alguém reconstruiu o portal principal gravando nele a cruz do Templo, em memória do dono original do lugar desde o século XII ao século XIV.

A Casa-Mãe da Ordem do Templo em Genève situava-se nas Eaux-Vives, cujo domínio abrangia a paróquia da Madeleine. Esta importante comandoria templária estava instalada entre a actual Rua de Saint-Laurent e o cruzamento da Rua de Itália e da Rua de Rive. Ela situava-se junto à porta da cidade onde desembocavam os caminhos vindos de Saint-Victor levando a Chêne, e possuía o seu próprio porto privado nas margens junto à colina de Cologny.

Perto da Casa-Mãe do Templo havia a sua Torre-Mãe entretanto demolida em 1864, cuja massa imponente protegia e vigiava todo o espaço entre os portos de Yvoire e de Rive. Haviam canais estreitos entre as casas, os doues, que davam ao lugar um aspecto lacustre. Mais tarde seriam substituídos por ruas pavimentadas : a Rua de la Doue (actual Rua de da Tour-Maîtresse) a Rua du Sange (Rua du Prince) e a Rua du Coq-d´Inde ou do Jeu-de-Paume (Rua du Port). As águas do lago chegavam até à Rua da Croix-d´Or, e da torre templária demolida ficou a memória na palavras esculpidas perto daí: “Genève, cidade de refúgio”.

A igreja de Saint-Gervais, situada na Rua dos Terreaux-du-Temple, terá andado aforada aos bens imóveis religiosos desta Ordem em Genève, facto atestado por várias sepulturas medievais de pressupostos cavaleiros templários que recentemente os arqueólogos desenterraram aí e que podem ser vistas pelo público geral, assim podendo fazer uma viagem desde a História Medieval à Pré-História de Genève.

Templários - Madeleine - GenévePorta com Cruz de Jerusalém - Madeleine - Genéve

A igreja de Santa Maria Madalena também teria sido frequentada pela Ordem do Templo que, inclusive, possivelmente terá colaborado na sua reconstrução prolongada desde século XI aos finais do século XII. Também neste templo genevense pode visitar-se o seu sítio arqueológico onde aparecem sepulcros e restos de construções da época dos templários, além de outras ainda mais antigas. Regista-se ainda numa porta lateral exterior desta igreja a cruz de Jerusalém, por certo evocativa dessa capital da Terra Santa onde a Ordem dos Templários se formou em 1118, com a presença de Hugues de Payens e os seus oito companheiros diante do rei Balduíno II de Jerusalém.

A igreja de Saint-Pierre desta cidade também anda ligada à presença templária, dizendo-se mesmo que terá abrigado nos séculos XII-XIII uma confraria de construtores livres mestres na arte da escultura e da talha, os quais gozariam da protecção da Ordem. Possuindo originalmente a denominação Saint-Pierre-ès-liens, em referência à primitiva basílica romana, a sua cripta data da época dos templários (século XII, quando foi anexada à igreja) e pode ver-se nela vestígios dos mesmos, além de outros da cultura paleocristã da época romano-visigótica. Aliás, na sala do bispo vê-se no chão ladrilhado a cruz pátea igual à do Templo, o que é muito significativo.

Por certo haverão outros vestígios templários nesta cidade que sobreviveram à inclemência do tempo e dos homens, mas descobri-los é aventura que fica ao cargo de quem se perde e se acha no deslumbre único que Genève oferece.

Os bustos misteriosos da Mansão Tavel

Situada no coração da cidade antiga, na Rua do Puits-Saint-Pierre, n.º 6, a Mansão Tavel representa um testemunho único da arquitectura civil medieval na Suiça. É, efectivamente, a habitação privada mais antiga conservada em Genève.

A primeira construção no sítio remonta ao século XII, mas a casa não entrou na posse dos Tavel, família rica da nobreza local, senão no final do século XIII. Em 1334, um grande incêndio consumiu metade da cidade e destruiu a moradia dos Tavel, que a reconstruíram em 1339. A estrutura tomou a feição de casa forte e palácio urbano, e desde então foi considerada a residência mais bela da cidade. Após a extinção desta família no final do século XVI, a mansão passou pelas mãos de diferentes proprietários. Ao nível arquitectónico, as maiores modificações que sofreu deram-se no século XVII e depois no século XVIII, com a demolição de uma das suas duas torres. Classificada como monumento histórico em 1923, a mansão foi adquirida quarenta anos mais tarde pelas autoridades comunais de Genève, transformando-a num museu da história urbana e da vida quotidiana genevense em 1986.

Concebida pelo arquitecto genevense Auguste Magnin, a Mansão Tavel caracteriza-se pelas dez cabeças policrómicas esculpidas na sua fachada dispostas num modelo geométrico (incompleto) que até hoje trazem os estudiosos intrigados. Tais cabeças representarão as dos principais membros da família Tavel  e vêm substituir as tradicionais gárgulas e quimeras que caracterizavam a decoração das fachadas dos edifícios medievais. Assumem aqui, segundo o conceito tradicional, a função de entes protectores do edifício contra as forças do mal e os seus emissários, nomeadamente o Diabo e os seus algozes. Quem era esse Diabo no tempo da família Tavel? Precisamente o Bispado de Genève. Com efeito, na metade do século XIV os Tavel destacaram-se pelo importante papel político-social de oposição à Genève episcopal. Assim, participaram notavelmente de maneira decisiva, por vezes com armas nas mãos, nas lutas de emancipação do Bispado e na constituição da Comuna. Por este motivo, a sua residência era uma casa forte, isto é, um quase castelo.

Mansão Tavel - B

Na fachada destacam-se bustos de figuras masculinas e femininas coroadas, alusivas à nobreza Tavel, e outras não coroadas mas de aspecto distinto e sorridentes, com ar malicioso num trajeito de desdém pelos adversários, no caso as autoridades episcopais, vendo-se também bustos de animais. Do conjunto sobresssai uma expressão de chacota relativa a personagens locais, de crítica social ou dos costumes da época, o que constitui uma maneira de comunicação através de figuras antropomórficas, característica da fase final do período gótico, cujo significado era apreendido pelo povo deduzindo de imediato o conteúdo geral da mensagem assim representada.

As cabeças humanas representam a parte mais elevada e nobre do corpo onde se manifesta a inteligência, e nisto subentende-se  o “encriptado” do seu significado: os Tavel eram mais inteligentes e progressistas que o poder secular episcopal de Genève. Este era denunciado por eles apontando-lhe os seguintes vícios privados tornados públicos pelas expressões escultóricas: luxúria (simbolizada pela cabeça de porco), gula (representada na figura do urso, bastante afectada pelo tempo), orgulho (assinalado na cabeça de leão) e, sobretudo, a ganância (onde a cabeça de cão repete-se duas vezes). Tudo isso sendo uma monstruosidade (representada na cabeça de monstro) psicossocial por parte da Igreja corrupta e corrompida que a família Tavel combateu até finalmente destruir o seu poderio.

O poder Tavel, representado nas três águias armadas do seu brasão, significando a águia a nobreza e o domínio em heráldica, veio a ser a força social mais importante de Genève que a ela deve o impulso vital na marcha avante no caminho do progresso e da emancipação das mentalidades. Nisso tudo reside, afinal, o intrigante significado encriptado dos bustos da Mansão Tavel, até hoje sorrindo desdenhosos da prepotência dos poderosos do mundo que continuam a existir.

Théodore de Mayerne, o alquimista de Genève

Genève foi berço natal de um dos maiores médicos, químicos e alquimistas da Renascença, apóstolo de Paracelso, que deixou a sua marca indelével na Suíça, na França e na Inglaterra: Théodore Turquet de Mayerne.

Nasceu em em Genève no dia 28 de Setembro de 1573 e faleceu em Chelsea, Londres, em 22 de Março de 1654 ou 1655. Nascido numa família protestante genevense, o seu pai Louis, um historiador huguenote francês que fugira de Lyon após o massacre do dia de São Bartolomeu, instigado em 1572 pelos católicos romanos durante as guerras religiososas francesas, promoveu a sua educação nas regras mais estritas do calvismo protestante, encarregando-se disso o seu padrinho que outro não era senão o famoso teólogo Théodore de Bèze, a quem deve o sobrenome. Théodore afirmava que o seu avô chamava-se Jacques de Mayerne, dito Turquet, e que o brasão da sua família remontava ao imperador Frederico Barbarossa (1122-1190).

Mayerne iniciou os seus estudos em Genève, mudando-se depois para a Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Mais tarde transferiu-se para Montpellier, no Sul de França, a fim de estudar Medicina, na qual se formou em 1596 recebendo o doutoramento em 1597. Na sua tese, sob a orientação do médico francês Joseph du Chesne (1544-1609), defendeu o uso de medicamentos químicos no tratamento de doentes. Aqui aparece pela primeira vez a aproximação de Mayerne às teorias de Paracelso (1493-1541), o célebre alquimista, de quem Joseph du Chesne era discípulo e terá influenciado decisivamente o notável genevense de quem foi, por sua vez, mestre nos segredos da Farmacopeia, da Química e da Alquimia.

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Como químico e alquimista, Théodore de Mayerne trabalhou com diversos cientistas no desenvolvimento de novos pigmentos extraídos de substâncias minerais coloridas que artificialmente ele desenvolvia, sobretudo a cor púrpura. Nessa época da sua associação com du Chesne e tendo se mudado para Paris em cuja universidade exerceu entre 1600 e 1606, aumentou o círculo de hermetistas e alquimistas em seu redor. Devotos de Paracelso, todos acreditavam estarem reavivando a sabedoria dos antigos filósofos naturais pré-platónico, conhecidos como theologi prisci, onde se incluíam os nomes de Zoroastro e Hermes Trimegisto. A natureza alquímica das suas experiências foi muito criticada pelos seguidores de Galeno que constituíam a maioria e formavam a opinião geral na Faculdade de Medicina de Paris. Mas a eficácia dos remédios químicos descobertos e utilizados por Mayerne, baseado nos escritos de Paracelso, era tamanha que superava as críticas dos opositores, e dentre os seus inúmeros pacientes curados conta-se Armand du Plessis, mais tarde Cardeal Richelieu, a quem tratou de gonorreia em 1605.

Em 1610 mudou-se para Londres e no ano seguinte já era o médico real de James I. Em 1616 foi eleito reitor do Royal College of Physicians, e sem abandonar as suas experiências físicas foi o primeiro a descobrir o “ar inflamável”, mais tarde chamado hidrogénio. Nessa época ainda fortemente dominada pelo senso religioso, considerou-se o “ar inflamável” como o Sopro Ígneo de Deus com que deu início à Criação, conforme as palavras iniciais do Evangelho de São João: “No Princípio era o Verbo…”. Esotericamente isso está correcto, posto que até hoje os alquimistas, nas suas pesquisas sobre os mistérios ocultos da Química, assinalam a presença da Trindade Divina nos três compostos químicos básicos à manutenção da Vida na Terra, como sejam: o Pai manifestando-se como Oxigénio ou Prana, a “Energia Vital” dos orientais; a Mãe expressando-se como Hidrogénio ou Fohat, a “Electricidade Celeste” presidindo à Manifestação Universal; o Filho revelando-se como Nitrogénio ou Kundalini, o “Electromagnetismo Planetário”. Numa escala menor, essas Forças Cósmicas são expressadas pelos três “espíritos alquímicos”, assim chamados por tratar-se da essência dos respectivos elementos: Enxofre para o Espírito; Mercúrio para a Alma; Sal para o Corpo.

Théodore de Mayern faleceu em Chelsea, bairro londrino, e repousa no cemitério de Saint-Martin in the Fields com a maior parte dos membros da sua família. O seu afilhado, Sir Théodore des Vaux, mandou construir-lhe um monumento e publicou as suas notas médicas no livro Praxeos Mayernian, editado em 1690.

Heráldica falante no Monumento Brunswick

Quem chega ao Jardim dos Alpes, em Genève, depara-se com um monumento neogótico junto à Ponte do Monte Branco virado para o Lago Lemano, e poderá estranhar o figurino cenográfico do mesmo parecendo saído dos antigos romances de cavalaria medieval, cujos símbolos e figuras são de heráldica falante, por os temas apresentados remeterem para a condição nobre de quem o mandou fazer ao mesmo tempo que encerram uma mensagem cifrada cujas linhas gerais são agora motivo de análise.

Esse monumento poligonal é o mausoléu do duque de Brunswick, Charles II d´Este-Guelph (Brunswick, 30.11.1804 – Genéve, 18.8.1873), erigido neste jardim em 1879 por vontade testamentária do próprio que doou à cidade uma importante soma de dinheiro, pedindo que em troca lhe construíssem “um mausoléu situado num espaço eminente e digno, executado segundo a concepção prevista recorrendo aos melhores artistas da época, sem consideração pelo preço”. Este monumento fúnebre, da autoria do arquitecto Jean Franel, veio a ser a representação exacta do túmulo da família Scaligeri em Verona, Itália, datado do século XIV.

São muito ricos os materiais utilizados na construção deste mausoléu onde se mistura a pedra e o metal. De formato poligonal com três níveis, estando no do meio o sarcófago do duque visto numa estátua equestre em baixo, que no início estava no topo mas passou para aí por razões de equilíbrio, ameaçando desabar. Como nos túmulos da Idade Média, a estátua jacente do duque tem aos pés o leão heráldico de Brunswick e é rodeada por anjos com asas de ouro. Se o leão representa a força e o domínio como animal representativo do próprio Sol, o astro-rei no Zodíaco, já os anjos de asas douradas expressam a Luz Divina que se pretende ter iluminado a família Brunswick e particularmente o duque Charles II. No geral, o conjunto representa o domínio temporal apoiado pelos poderes invisíveis do espiritual, e o o facto dessa alegoria estar representada aqui justifica-se por Charles II ser o herdeiro legítimo do ducado de Brunswick e de Hanovre, que a Confederação Germânica não lhe reconheceu em 1827.

Monumento Brunswick - 3

Em volta do mausoléu aparecem dentro de nichos vários personagens da família Brunswick como sendo os ancestrais do duque, distinguindo assim a superioridade secular desta estirpe que, nas armas e nas letras, mostrou-se sempre maior que as outras, conforme o entendimento particular de Charles II.

Dois leões heráldicos da Casa dos Guelfos vigiam a entrada da escadaria de acesso ao mausoléu, reforçados por duas quimeras aladas que também montam guarda, cada uma delas tendo diante de si, entre as patas, uma coroa. O conjunto revela a mensagem seguinte: o duque de Brunswick só não alcançou a realeza (simbolizada do leão) porque a ambição dos poderosos não lhe permitiram, ficando a coroa distante de si como uma quimera.

Segundo a mitologia grega, a quimera era um monstro híbrido com cabeça de leão, corpo de cabra, cauda de serpente ou de dragão e que expelia chamas, sendo filha de Tifão e de Equidna e tendo nascido das entranhas da Terra. Foi vencida e exterminada por Belerofonte, herói assimilado ao relâmpago e montado do cavalo alado Pégaso. Esta alegoria representou-se na estátua equestre de Charles II que estava no topo do monumento, expressando que no final era ele o vencedor de todas as quimeras mostruosas nascidas das ambições políticas da sua época que se voltaram contra ele. Foi o que quis dizer e retratar o duque jacente que, por não ter conseguido vencer de frente a quimera, acossou-a e pegou-a de surpresa, ou seja, o que não pôde fazer em vida representou depois da morte, neste seu mausoléu monumental. Originalmente, tanto os sociólogos como os poetas viam na quimera apenas a imagem de torrentes impetuosas, caprichosas como cabras, devastadoras como leões, sinuosas como as serpentes, não podendo ser estancadas por diques e só se conseguindo secar por meio de artifícios: exaurindo as fontes, desviando-lhes o curso. Foi exactamente isso que Charles II de Brunswick acabou fazendo neste monumento concebido por ele: não podendo mudar os acontecimentos históricos, alterou o sentido dos mesmos a  seu favor e da honra heráldica da sua família.

Túmulo maçónico de Georges Favon

O monumento funerário de Georges Favon que está no Cemitério dos Reis de Plainpalais, em Genève, é marcado por uns símbolos estranhos associados à simbologia da Maçonaria e assim mesmo também o próprio jazigo composto por uma pedra erecta em estado bruto, na qual se gravaram os ditos símbolos do esquadro e compasso entrelaçados tendo abaixo a dedicatória dos seus Irmãos da Loja Fidelidade e Prudência.

Com efeito, Georges Favon (Plainpalais, Genève, 2.2.1843 – Plainpalais, 17.5.1902) foi um distinto franco-maçom suiço, inclusive tendo sido Venerável Mestre (ou o que preside) da Loja “Fidelidade e Prudência” desde 1893 a 1895, pertencendo à Grande Loja Suiça Alpina fundada em 1844. Esta Grande Loja representa na Suiça a chamada Maçonaria Regular, exclusivamente masculina, reconhecida pela Grande Loja Unida de Inglaterra (que não reconhece senão uma só Obediência por país). Possui a sua própria constituição, estatutos e regulamentos adoptando o princípio da liberdade absoluta de consciência, “respeitando todas as convicções sinceras e reprovando toda a oposição à liberdade de pensamento”. É assim que “trabalha para a Glória do Grande Arquitecto do Universo”.

A Maçonaria existe na Suiça desde 1736, quando alguns maçons ingleses fundaram em Genève uma Loja chamada Sociedade dos Maçons Livres ou Franco-Maçons do Perfeito Contentamento, indo em seguida fundar em Lausanne A Perfeita União dos Estrangeiros. Em 1769 uma dezena de Lojas reagrupou-se para formar a Grande Loja de Genève, e dez anos depois (1779) o Grande Priorado da Helvética constituiu-se potência maçónica independente. Só em 1844 seria reconhecida “Regular” pela Grande Loja Unida de Inglaterra, e até hoje mantém o sistema de Altos Graus do Rito Escocês Rectificado. Actualmente, a Grande Loja Suiça Alpina conta com 83 Lojas e perto de 4000 membros.

Túmulo de Georges Favon - 2

Sobre o túmulo de Georges Favon ergue-se a pedra bruta do eterno Aprendiz da Maçonaria Iniciática. Ela é a representação das imperfeições humanas que o maçom deve corrigir sobretudo em si mesmo, usando do esquadro da moral superior e do compasso da sabedoria espiritual, ambicionando tornar-se uma “pedra polida”, um ser perfeito capacitado a tornar-se uma “pedra viva” do Templo da Jerusalém Celeste ou o Oriente Eterno, para onde volveu a alma deste distinto suiço que pautou a sua vida política em conformidade com a ideologia social da Maçonaria.

A pedra bruta pode ser comparada à “rocha mãe”, termo que designa a rocha bruta servindo de base para a formação do solo. Ela, por virtude das várias acções naturais, vai-se fragmentando em pedaços toscos que por sua vez se modificam, refinando-se cada vez mais em grãos até poderem constituir um solo fértil onde germinem as sementes.

A pedra bruta é o objecto do trabalho inicial de qualquer construção. Cada pedra é única e liberta-se da sua forma tosca através de um árduo trabalho de aperfeiçoamento, polindo as suas faces, alisando as suas arestas, para finalmente poder ser uma das peças indispensáveis do edifício geral. Este trabalho de aperfeiçoamento não dilui a sua individualidade, pelo contrário, acresce-a, pois consoante a matéria que a constitui terá um papel diferente no edifício construído.

Como há pedras de diferentes materiais, o trabalhar a pedra bruta igualmente significa aprender a conjugar no verbo “construir” os diferentes tipos de matérias, ou seja, as diferentes expressões da actividade física e mental humana.

A superfície da pedra bruta é rugosa e áspera. A Luz ao incidir numa superfície deste tipo é absorvida, tal qual como o Aprendiz que ainda não reflecte a Luz recebida do Espírito da Maçonaria. Apenas quando a pedra bruta é trabalhada, transformando-se em pedra polida, as suas faces lisas passam a reflectir a Luz que nela incide. Assim, a pedra bruta ao ser trabalhada adquire Força por se poder encaixar com outros blocos, Beleza pelo seu equilíbrio de formas, e Sabedoria porque ao reflectir a Luz torna-se ela própria uma forma de Luz transmitida. Tudo isto constitui a mensagem subjacente no singular túmulo de Georges Favon.

Frankenstein nasceu na Villa Diodati

A Villa Diodati de Cologny, junto à margem do Lago Léman, é célebre por ter sido habitada durante o Verão de 1816 por Lord Byron, Mary Shelley, Percy Shelley, John Polidori e muitos outros amigos seus, tendo sido durante essa estadia que foram redigidas as bases dos romances de terror clássicos Frankenstein e The Vampyre.

A mansão era inicialmente conhecida pelo nome de Villa Belle Rive, mas Byron mudou-lhe o nome para aquele da família Diodati proprietária da mesma. Esta família era descendente afastada daquela do tradutor italiano Giovanni Diodati, tio de Charles Diodati e ele mesmo amigo íntimo de John Milton. Se bem que uma placa comemorativa indique um suposta visita de Milton aqui em 1638, a verdade é que a residência não foi construída senão em 1710, muito depois da morte do poeta. No século XX pertenceu a uma família belga de empresários, que a vendeu em 2000 a um homem de negócios americano.

A Villa Diodati também é vedeta no cinema, onde aparece no filme Gothique  com uma versão moderna da mesma. Mas é na literatura que ela se celebriza, sobretudo graças à britânica Mary Shelley, autora do romance Frankenstein que começou a escrever aí, chamando de “Belrive” (Belle Rive) à mansão de Victor Frankenstein. O livro foi editado em Londres em 1818 com o título Frankenstein ou o Prometeu moderno (“Frankenstein or the modern Prometheus”).

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O romance descreve a tentativa de exploração polar por Robert Walton, mas a maior parte da descrição é constituída pela história da vida de Victor Frankenstein, que Walton recolheu morto num banco de gelo, história que não é senão a narrativa pelo próprio Frankenstein transformado em “monstro”, após aquele ter-lhe dado vida artificial por meio de inúmeros tormentos a que o sujeitou, razão do seu grande ódio ao seu criador.

Frankenstein é claramente um romance ocultista. Mary Shelley ter-se-á baseado nas descrições do alquimista e cabalista Cornélio Agrippa (1486-1535), aliás citando-o na sua obra, sobre a antiga lenda judaica do Golem: uma escultura humana feita de argila a quem um sábio conferiu o dom de viver através de um ritual mágico e cabalístico. Porém, a versão mais famosa dessa antiga lenda do Golem, mais conhecido por Rabin Low, atribui a sua criação a uma época muito anterior remontando aos primeiros antecedentes da Génese bíblica, associando-o ao Homem Primordial, Adão, e também ao primeiro dos grandes Patriarcas, Abraão, que o terá construído com um fim benéfico chamando-o terafim, isto é, “ídolo animado artificialmente”, estando assinalado na Bíblia em Génesis, 31,19, em Juízes, 17,5, e em I Samuel, 15,22 e 19,13.

Frankenstein, enquanto criatura artificial, nasce de um desafio a Deus, como um projecto amaldiçoado de um génio que ultrapassa os limites impostos pela condição humana, cujo sentido é a da Ciência pretender substituir-se à Divindade não olhando a meios para alcançar os fins, resultando o desastre da criação artificial de um ser humano repleto de ódio à Humanidade, ou seja, o contrário do terafim que é o títere, “ídolo monstruoso criado artificialmente”, segundo a Cabala judaica.

Enquanto no primeiro caso há Teurgia ou “Obra Divina”, Magia Branca, conformada às Leis da Natureza onde o Homem não se revolta contra a Divindade, antes colabora com o Criador, no segundo caso trata-se abertamente de Goécia ou “Magia Negra”, inimiga da Natureza e da Humanidade. Esse é o “Prometeu moderno”, reflectindo o avanço tecnológico desacompanhado do freio moral, o que leva a desaguar em descobertas precoces que tornam-se inumanas quando aplicadas para fins bélicos, contrários à paz e solidariedade humanas. Foi neste sentido que Koot Hoomi Lal Sing, um dos Mestres Espirituais de Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, escreveu-lhe em Outubro de 1882 o seguinte: “A Vida enquanto Vida não é somente transformável em outros aspectos ou fases da Força penetrando tudo, mas também pode ser verdadeiramente infundida num homem artificial. Frankenstein não é um mito senão na medida em que é o herói de um conto místico; na Natureza, é uma possibilidade. E os físicos e médicos do futuro longínquo inocularão a Vida e reviverão os cadáveres como hoje se inocula as bexigas e outras doenças mais desagradáveis. O Espírito, a Vida e a Matéria não são princípios naturais existindo independentes uns dos outros, mas os efeitos de combinações produzidas no Espaço pelo Movimento eterno”.

Com tudo isso, merece a visita à bela e agradável Villa Diodati, tendo presente que foi nesse espaço lúdico de Genève que Frankenstein teve o seu berço e onde deu os primeiros passos pesados e trôpegos, saíndo do livro para a celebridade mundial.

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