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Significado oculto da Fonte Gefion

Esta fonte repleta-se de alusões míticas às origens de Copenhaga e até da Dinamarca, fundada por uma deusa que é das mais caras nas sagas dos Eddas ou escrituras sagradas nórdicas celebrizadas pelos antigos vikings: Gefion.

Vê-se aí a deusa numa biga dirigindo um arado puxado por quatro potentes bois de cujas narinas espirram água, aumentando a impressão da sua força vital. Força vital da Terra é o que significa o boi, animal venusiano cujo planeta é representado na própria vane ou “deusa da fertilidade” que é Gefion. Ela representa assim a Grande Deusa-Mãe que semeia e fecunda a Terra, donde a presença da Água como elemento feminino sempre associada à geração e manutenção da Vida, e por isso Grande Deusa que se serve para o acto da criação da sua energia anímica que vem a ser representada pela pujança do touro. O arado atrelado à biga constitui o movimento agrícola de semeadura e fertilização para que os seres animados possam ter solução de vida, a começar pelo Homem, marcando o número de quatro cornúpetos o “compasso quaternário” da Terra assinalado pelas quatro estações anuais que marcam os períodos sazonais de semeadura, crescimento, amdurecimento e colheita dos frutos da terra. A deusa erguendo o chicote para incitar as bestas a avançarem, vem a representar o mesmo impulso vital dado por ela.

Gefion

Esta fonte retrata a lenda de fundação de Zelândia, onde Copenhaga está localizada, e aparece descrita pela primeira vez em Ragnarsdrapa, poema do século IX, e depois em Ynglinga, poema do século XIII, contando-se que o rei sueco Gylfi prometeu a Gefion todo o território que ela pudesse lavrar numa noite e num dia: a deusa transformou os seus quatro filhos em bois e o território que ela lavrou e tomou da terra foi então lançado ao mar, entre a Suécia e a Ilha de Fyn, na Dinamarca. O buraco deixado por esse pedaço de terra tornou-se um lago chamado Vänern, ao norte de Guthemburg, na Suécia. Olhando no mapa, é possível perceber que o contorno da Ilha de Zelândia combina com o contorno do lago. Tanto o Edda em prosa quanto o Heimskringla dizem que Gefion veio a desaparecer nas águas do lago Vänern, também chamado Mälaren, e que da terra arada ou tomada formou-se a Ilha de Zelândia, ficando a tradição desta deusa virgem que decretou que morressem virgens todos os seus descendentes, havendo nisto mais um sentido moral que físico, pois o mesmo Heimskringla afirma que ela foi casada com o rei Skjöldr, para que houvesse descendência.

Essa virgindade de Gefion refere-se sobretudo à natureza incorruptível e imaculada da Grande Deusa-Mãe, motivo presente até no seu nome. Com efeito, Gefion ou Gefjun é um dos diversos nomes eslavos dados à deusa Freya, que significa “aquela que provê (prosperidade ou felicidade)”. Como Freya, nos Eddas é também a deusa da Magia, da Riqueza (as suas lágrimas transformavam-se em ouro, segundo o mito) e da Sabedoria, e líder das Valquírias (condutoras das almas dos heróis mortos em combate). Com isto, Gefion ficou como a mãe mítica da Dinamarca, da Suécia e da Noruega, memória dos mitos ancestrais eslavos que sobrevivem até hoje em muito graças a esta fonte evocativa do seu nome e façanhas sobrehumanas.

Esta imponente Fonte de Gefion  (Gefionspringvandet) está localizada na entrada do Churchillparken sendo um dos maiores monumentos de Copenhaga, e uma das fontes mais bonitas do Norte da Europa. Esta obra artística é criação do escultor dinamarquês Anders Bundgaard (1864-1937) e foi doada pela Fundação Carlsberg como um presente para a cidade na ocasião do 50.º aniversário da cervejaria em 1897. As figuras da fonte foram criadas entre 1897 e 1904. Mas toda a completa só foi apresentada ao público em 14 de Julho de 1908. Em 1999 começou uma série de renovações e reformas na fonte que finalizaram em 2004.

A mensagem secreta da Fonte do Dragão

Na Praça do Hôtel de Ville, em pleno centro de Copenhaga onde está o seu quilómetro zero, está uma fonte inabitual que causa a maior estranheza a todos que a vêem : trata-se da escultura em bronze, com sete metros de altura, figurativa da luta entre o touro e o lindwurm, o “dragão serpente”, assim associado à “serpente marinha” ou jormungand da mitologia nórdica, que os vikings temiam entalhando na proa dos seus navios o lindwurm para esconjurá-la.

Obra do escultor dinamarquês Thorvald Bindesboll em 1901, a Fonte do Dragão (Draqespringvand) encerra um significado todo especial evocativo das antigas tradições religiosas dos povos nórdicos muito antes do Cristianismo se implantar entre os eslavos. Além do dragão engalfinhado com o touro, aparecem mais três dragões menores na base querendo saltar para a fonte, sendo também “dragões serpentes”. O touro era o símbolo primitivo do Deus Supremo que para manifestar-se entre os homens muitas vezes tomava essa forma, como aconteceu quando Thor ou Júpiter deu combate a Jormungand, deus do Walhallah ou o Paraíso nos Eddas desterrado na Terra e que tinha forma serpentária, com isso possuindo o nome alternativo de Serpente do Midgard, isto é, “Serpente do Mundo”, sendo tão grande que envolvia-o inteiramente acabando engolindo a sua própria cauda. Durante o Ragnarök, o “destino final ou crespúsculo dos deuses”, que nos Eddas equivale ao Dia do Juízo Final ou o Apocalipse na Bíblia, o dragão serpente haverá de libertar-se do touro ou Thor que o domina, tal qual vê-se nesta fonte com o cornúpeto sobre o réptil.

Fonte Dragão

Os três dragões menores subindo para dentro da fonte, igualmente inscrevem-se no sentido mitológico édico: representam os três filhos Jormungand, Fenris e Hel do gigante Loki com a gigante Angrboda, ele como semi-deus do Fogo e ela como semi-deusa da Terra, que apesar de não pertencerem à corte dos Aesir ou Assuras em sânscrito, isto é, “deuses perfeitos” segundo os Vedas hindus, contudo convivem com eles mesmo não tendo acesso ao Wallallah, o mesmo “Paraíso Celeste” como “Vale de Allah ou Deus” (Wall+Allah), com sentido idêntico à Shamballah transhimalaia.

Com isso, o touro representa a Força Celeste de Urano, cuja natureza de irresistível força e arrebatamento vem a fecundar a Terra. Nisto, os seus dois chifres simbolizando a Lua torna esta o símbolo sideral do elemento líquido como alimento vital da Terra, que aquele Deus Supremo derrama nela através daquela. O touro é assim a expressão da força impetuosa geradora e dominadora das forças ígneas ctónicas ou terrestres representadas pelo dragão, submisso no escultórico desta fonte.

Junto da fonte ergue-se um pedestal onde estão as estátuas de dois vikings tocando trombetas. A lenda local diz que eles tomarão vida e todos ouvirão as trombetas no dia do “destino final dos deuses”, ou seja, quando as forças celestes e as energias terrestres estiverem perfeitamente equilibradas entre si e o touro e o dragão fizerem as pazes, com isso a Terra unindo-se com o Céu para felicidade dos deuses e desfrute dos homens, restaurando-se a primitiva religião como derradeiro volvimento às origens espirituais dos povos do Norte. Esta é a mensagem final do Ragnarök.

A própria Bíblia (Neemias, 2:13) faz referência à Fonte do Dragão (em hebraico, ´ên hattainnîn) em Jerusalém, dizendo que os seus muros haviam sido fendidos pelo fogo para deixar sair o dragão que devoraria ou envolveria o mundo, com o mesmo significado do Jormungand, indo animá-lo e iluminá-lo sobretudo espiritualmente, por ser igualmente simbólico da Sabedoria Oculta ou Secreta revelada nos verdadeiros e incomuns Iluminados, naturalmente muito acima das crenças confessionais afins à religiosidade simples da comum condição humana. Nisto, o dragão e o touro simbólicos também um dia haverão de deixar de combater-se, quando a fé e a sabedoria estiverem finalmente equilibradas como mente e coração unidos.

A Valquíria encantada

No Churchill Park de Copenhaga está a estátua singular de uma cavaleira Valquíria que de imediato evoca a memória das origens míticas da Dinamarca e de todo o Norte da Europa, facto ignorado nos tempos actuais pela maioria das gentes sufocadas pela sociedade consumista.

Essa estátua em bronze da guerreira Valquíria nua, só coberta por uma capa e fluindo o cabelo, montando um cavalo furioso e carregando uma lança em riste, tem o nome de Sinding Valkyrie. É obra do escultor norueguês Sthephan Abel Sinding (1846-1922) feita em 1908 e colocada neste parque em 1910. As linhas diagonais da composição dão-lhe o sentido de tempestade e drama, fazendo a mente recuar às batalhas dos heróis e deuses dos Eddas e até, perante o realismo da peça, que por um milagre qualquer ela tome subitamente vida e movimento.

Valquíria

Essa Valquíria é Gunnr ou Guör, nome significando, na mitologia nórdica, “lança de batalha”. O termo Valquíria, na antiga língua eslava, deriva de Valkyrja, literalmente “guia dos mortos” (para outros, “a que elege os caídos na batalha”), e nos séculos VIII e IX a palavra usada era Woelcyrge. Por suas ocupações de guerreiras imbatíveis e guias apaixonadas, as Valquírias são frequentemente comparadas às Amazonas. Divindades menores servas do deus Odin ou Votan, as Valquírias eram belas jovens mulheres que montadas em cavalos alados e armadas com elmos, lanças e espadas sobrevoavam os campos de batalha, escolhendo os guerreiros mais bravos recém-caídos para conduzir as suas almas ao Walhallah, o Paraíso, sendo essas almas heróicas conhecidas como einherjar, “espíritos guerreiros”. As Valquírias faziam-no por ordem e para benefício de Odin, necessitado de muitos guerreiros corajosos para a batalha final do Ragnarok, algo semelhante ao Juízo Final nas escrituras judaico-cristãs, onde ajudariam a defender Asgard, o “reino dos deuses”, algo semelhante à Agharta das tradições orientais. Devido a um acordo de Odin com a deusa Freya, que chefiava as Valquírias, metade dos guerreiros mortos em batalha e todas as mulheres tombadas na refrega eram levadas para o palácio dessa deusa.

As Valquírias cavalgavam nos céus com armaduras brilhantes e ajudavam a determinar a vitória nas batalhas e o curso das guerras. Servindo como mensageiras de Odin, enquanto cavalgavam as suas armaduras faiscavam de tal modo que causavam o estranho fenómeno atmosférico das auroras boreais, segundo a mitologia nórdica.

Mensageiras dos deuses, guias dos combatentes, as Valquírias conduziam os heróis após a morte e, uma vez no Paraíso, serviam-lhes cerveja e hidromel. Elas excitavam os guerreiros, pelo amor que o seu charme inspirava no seus corações, pelo exemplo da sua bravura à frente nas batalhas, montadas em cavalos rápidos como as nuvens e como as ondas empurradas pela tempestade. Simbolizam, ao mesmo tempo, a embriaguez dos arrebatamentos e a ternura das recompensas, a morte e a vida, o heroísmo e o descanso do guerreiro. Talvez menos selvagens e cruéis que as Amazonas, mas igualmente ambíguas, as Valquírias representam a aventura do amor, concebido como uma luta, com as suas alternâncias de êxtase e de queda, de vida e de morte.

A passagem do guerreiro ao Walhallah, o Paraíso do herói, era a recompensa final e suprema que recebia das Valquírias. A morada dos falecidos e a terra dos vivos, o Midgard, se parecem, uma reflectindo a outra como um jogo de espelhos que só reproduziriam cenas de alegres combates. A diferença é que uma é visível e a outra é invisível. A Valquíria passa de uma à outra conduzindo o herói morto na batalha ao Paraíso do seu sonho. O Walhallah era imaginado segundo o modelo dos locais de combate, em que se afirmava o extravasamento da energia em virtudes guerreiras amorosas, com as quais o guerreiro sonhava neste mundo.

A pequena sereia no mito mágico

A pequena sereia (den lille havfrue) é talvez o ex-libris de Copenhaga, localizada junto ao mar sobre algumas rochas em Langelinje. A estátuazinha foi presente de Carl Jacobsen, filho do fundador da famosa Cervejaria Carlsberg, para a cidade em 1913. Foi esculpida pelo até então pouco conhecido escultor Edvard Erichsen. A ideia da escultura fazia parte da tendência na época de usar figuras clássicas, históricas e mitológicas para decorar os parques e áreas públicas de Copenhaga.

A história desta pequena estátua é interessante. Em 1906, Carl Jacobsen assistiu no Teatro Real ao solo da bailarina Ellen Price na peça A Pequena Sereia. Ele ficou tão fascinado que a convidou para posar para a estátua. Ela concordou inicialmente, porém, desistiu da ideia devido ao facto de ter que posar nua para uma escultura que se tornaria pública. Assim, a mulher do escultor Edvard Erichsen foi quem posou para o corpo.

A Pequena Sereia, escrita por Hans Christian Andersen, conta a história de uma pequena sereia que se apaixonou por um príncipe. Desde então, ela vinha sempre à superfície procurando por ele. A história não tem um final feliz, porque a sereia procurou uma feiticeira que lhe pediu a sua voz em troca das novas pernas que lhe daria. Além de perder a voz a sereia também sentiu muita dor quando caminhava, como se estivesse pisando lâminas. Apesar de todo o seu sacrifício, o príncipe desprezou-a, negando o seu amor por ela. Um conto nem um pouco de fadas, cuja moral é a de que entre os seres humanos e as criaturas sobrenaturais não deve existir ligação de espécie alguma, sobretudo as dos consórcios amorosos inaturais que perdem tanto os homens como os seres elementais da Natureza, neste caso, as sereias…

pequena sereia

A escultura retrata a sereia olhando para o mar, lembrando a sua juventude nele e sem a ele poder voltar. O escultor usou de “licença poética” na criação: a pequena sereia possui pernas e cauda parciais, embora que o conto de Andersen separe bem as partes onde ela possui cauda de peixe e quando possui pernas. Essa mistura, porém, revela claramente as duas fases da vida da sereia misturadas num único corpo, uma sobrenatural e outra humana inatural, bem como a sua divisão interior entre a saudade do mar e o amor e sacrifício pelo príncipe insensível. O seu olhar triste em direcção ao oceano, completa a impressão sobre o sentido dado à escultura.

A palavra portuguesa sereia e as suas equivalentes em língua latina derivam da grega seiren, donde sirena e sereia. Seres metade humanos e metade peixes, dotados de grande poder de fascinação pelos seus cantos vaporosos, atraíam os marinheiros e outros que se deixassem encantar por elas para a perdição no fundo dos oceanos onde os devoravam. As crenças antigas, inspiradas na mitologia grega, dão como equivalentes masculinos das sereias os tritões, homens-peixes, apesar de não terem relação directa com o simbolismo delas. Com os seus talentos de belo canto, as sereias tinham o poder de provocar ou acalmar as tempestades à-vontade, e baseados nessa crenças ainda hoje os marinheiros costumar “assobiar às sereias” quando o mar mostra-se revoltoso.

A iconografia cristã medieval desde cedo adoptou a figura da sereia, e é assim que nos bestiários e nos sermões ela é comparada com a atracções fatais da riqueza, do sexo e da bebida. Por esta razão, a sua presença é relativamente comum na arte sacra como decoração de igrejas e altares. Frequentemente a sereia aparece segurando um peixe, simbolizando o cativeiro da alma do cristão arrastado para o pecado por encantos e pela adulação. Foi, como símbolos de vaidade que a sereia adquiriu pente e espelho, sendo comum a representação heráldica da “sereia em sua vaidade”, segurando esses apetrechos, para expressar a eloquência atribuída ao portador do brasão ou aos seus antepassados.  Embora participasse da inteligência humana, a sereia não tinha alma. Podia, no entanto, adquirir uma parcela do Espírito imortal despendida pelo humano que com ela se afeiçoasse, ou então, segundo a crença antiga, conseguiria uma alma se aceitasse o baptismo cristão ou se casasse com um ser humano, tal qual na história desta pequena sereia rejeitada saída do conto infantil.

O grifo embalsamado do Museu Zoológico de Copenhaga

Parece mentira mas é verdade: no Museu Zoológico de Copenhaga está exposto um grifo mitológico embalsamado. É a maior singularidade deste museu.

Mas se os grifos nunca existiram realmente, então como aparece aqui esse exemplar? Trata-se de uma produção por taxidermia, que é a arte de montar ou reproduzir animais para exibição ou estudo. É a técnica de preservação da forma da pele, planos e tamanho dos animais. É utilizada para a criação de colecções científicas ou para fins de exposições, bem como sendo uma importante ferramenta de conservação, trazendo igualmente a alternativa de lazer e cultura para a sociedade. Tem como principal objectivo o resgate de espécimes em risco de extinção ou já extintos, reconstituindo as suas características físicas e, às vezes, simulando o seu habitat o mais fielmente possível, para poderem ser usados como ferramentas de educação ambiental ou como material didáctico. Popularmente, o termo “empalhar” já foi usado como sinónimo de “taxidermizar”, mas actualmente não se usam mais manequins de palha e barro para substituir os corpos dos animais.

Para a criação deste grifo utilizou-se a taxidermia pária. Esta consiste na criação de animais embalsamados que não possuem forma real no seu todo. Peças resultantes desta prática, normalmente são compostas por partes de dois ou mais animais embalsamados representando híbridos irreais como quimeras, figuras mitológicas ou criaturas simplesmente provindas do imaginário colectivo ou pessoal do autor. Além de serem utilizadas partes distintas de diferentes animais nas peças de taxidermia pária, também é recorrente o uso de materiais artificiais mais duráveis que permitam resultados mais diversificados. Muitos taxidermistas consideram esta prática a verdadeira taxidermia.

grifo

O grifo é uma criatura lendária da mitologia grega, com cabeça e asas de águia e corpo de leão. Fazia o seu ninho em bolcacas (nome utilizado para o ninho do grifo, conforme a mesma mitologia) e punha ovos de ouro nesses ninhos também de ouro. Outros ovos são frequentemente descritos como sendo de ágata. Para os antigos gregos, os grifos tinham por função guardar os tesouros ocultos do deus Apolo e simbolizavam a força e a vigilância, e também as provas a superar para chegar às riquezas divinas. Igual significado tem na Índia, como animal simbólico da Shakti, isto é, do Princípio Feminino Criador.

No Cristianismo medieval, por participar do simbolismo do leão e da águia o grifo expressava a duplicação da sua natureza solar. Na realidade, ele participava da Terra e do Céu, o que fazia-o simbólico das duas naturezas – humana e divina – do Cristo. Evocava, igualmente, a dupla qualidade divina de Força e Sabedoria. Quando se compara a simbologia própria da águia e do leão, pode dizer-se que o grifo liga o poder terrestre do leão à energia celeste da águia.  Inscreve-se, desse modo, na simbólica geral das forças da salvação.

O grifo foi para os hebreus o símbolo da Pérsia – que sempre fez largo uso dessa figura – e, em consequência, da doutrina que a caracterizou: a ciência dos Magos, ou a doutrina de Zoroastro sobre os dois princípios fundamentais da Natureza, o Bem e o Mal. Contudo, o grifo é interpretado também num sentido desfavorável segundo uma interpretação cristã muito tardia e de origem luterana (século XVII), indicando que a sua natureza híbrida tira-lhe a franqueza e a nobreza de uma e de outro (águia e leão), tornando-o símbolo da imagem do demónio, a tal ponto que alguns escritores sacros utilizam o seu nome hebraico hestisequi como sinónimo do latino Satanás, o que constitui uma interpretação particular alheia ao significado universal do animal mítico. No domínio civil, designa apenas a força maior, o perigo eminente. Por possuir muitas virtudes e nenhum vício, o grifo figura nos brasões e armas heráldicas desde, no mínimo, o século XIII, como insígnia da franqueza e nobreza de quem o ostenta.

Os elefantes sagrados de Carlsberg

Diz-se que quem bebe em exagero “acaba a ver elefantes”… sejam “cor-de-rosa” ou “voadores”. A verdade é que tais elefantes existem mesmo: estão à entrada da Fundação Carlsberg (Ny Carlsberg Glyptotek), do famoso industrial cervejeiro Jacob Christian Jacobsen (2.9.1811 – 30.4.1887), que deu o nome Carlsberg à famosa marca de cerveja baseado no nome do seu filho Carl mais a palavra Berg que significa on a Hill, isto é, “na colina”.

Homem de rara cultura dotado dum nobre espírito filantrópico, Jacob C. Jacobsen reuniu a maior colecção de arte que rivaliza com as melhores do mundo e que o seu filho, Carl Jacobsen, dotaria da condição museológica a partir de 1899, postando à entrada do edifício as estátuas desses dois corpulentos elefantes como se fossem “figuras de convite”, que pelos seus adornos e disposição causam o maior assombro aos visitantes intrigados com o simbolismo dos mesmos.

Carlsberg

Um elefante carrega a cruz swástika e o outro um bastão em forma de flor-de-lis, enquanto as suas trombas retêm uma bola. Iconologia claramente hindu por certo exportada da Índia para aqui, o simbolismo apresentado é muito rico e significativo. Na religião hindu, o elefante é a montaria dos rishis ou “reis divinos”, sobretudo do deus Indra que é o soberano celeste. Ao contrário de no Ocidente onde onde o elefante é a imagem viva do peso, da lentidão e da falta de jeito, no Oriente é o símbolo vivo não do peso bruto mas da estabilidade, da imutabilidade. A Yoga costuma atribuir a sua figura ao Chakra Muladhara, isto é, o “Centro Vital” situada na base na coluna vertebral, indo corresponder ao elemento Terra e à cor laranja. É também disposto junto às entradas principais como às colaterais, realçando o seu sentido de imutabilidade ao ser-lhe atribuído o domínio do centro real sobre todas as direcções do espaço terrestre.

O elefante evoca ainda a imagem de Ganesha (deus hindu da Ciência e das Letras, igualmente o Patrono da Sabedoria Iniciática sendo representado com a cabeça desse animal), filho do Deus Shiva cujos atributos são iguais ao do Divino Espírito Santo na religião cristã. O corpo de homem de Ganesha representa o Microcosmos, a Manifestação Universal, a Matéria (Prakriti), enquanto a sua cabeça de elefante expressa o Macrocosmos, a não-Manifestação, o Espírito (Purusha). Segundo esta interpretação o elefante é, efectivamente, o princípio e o fim, aquilo que se depreende a um só tempo do desenvolvimento do Mundo manifestado a partir da sílaba divina Om (e, portanto, do não-manifestado) e da realização interior ou espiritual do Yogui. É assim que Ga-ja, o elefante, é o alfa e o ômega da Criação, e por esta razão aparece duplicado na entrada da Fundação Carlsberg, com as bolas seguras pelas trombas assinalando a Terra imanifestada e manifestada, num todo de quatro bolas para cada elefante, marcando as quatro imanifestações (Pralayas) e manifestações (Manvantaras) por que o Globo Terrestre já passou até hoje, segundo a Cosmogonia hindu.

elefante carlsberg

Esse sentido cosmogónico é realçado pela iconologia carregada pelos paquidermes: um apresenta a cruz swástica que é o símbolo da Manifestação Universal em determinado Ciclo ou Pramantha, em hindu. Outro revela o bastão de Shiva em hastes, simbólico do áxis-mundi e do Centro Primordial imanifestado donde irrompeu a Manifestação. Expressa o Espírito que dá luz e vida à Matéria, tal qual a Luz Espiritual irrompe do interior ou base pelo “bastão” ou coluna vertebral do Yogui Iluminado, superado da sua condição ordinária de simples mortal.

Com tudo isso, o elefante foi assumido como instrumento da acção e da bênção do Céu. Às vezes ele é figurado só, para significar a Concepção Divina. Noutros lugares, é colocado no topo de uma pilastra, para desse modo evocar a Despertar Espiritual, o que reporta novamente ao simbolismo da Sabedoria Divina representada por Ganesha, incarnação do Poder Activo da Sabedoria, justificando que o sábio é forte e o ignorante é fraco.

A deusa Electra e o Grande Telégrafo

Em 1893 fundou-se em Kongens Nytorv a sede do Grand Telegraph Company North, fundada em Junho de 1869 pela dinamarquês Carl Frederik Tietgen, cujo objectivo era estabelecer a ligação por telégrafo a todo o mundo a partir de Copenhaga. Para corporizar essa utilidade universal da electricidade, nesse mesmo ano da inauguração foi colocada no topo do edifício a estátua da deusa Electra, obra do escultor Stephan Sinding (1846-1922), reconhecido modernista de tendência simbologista.

A escultura no cimo do edifício apresenta a deusa Electra de cabelos esvoaçantes com braço direito erguendo o facho da luz, estando levantada sobre o globo do mundo. Ladeiam-na um homem velho e um homem novo, aquele representando o tempo passado e este o tempo novo do progresso, estando ambos encadeados por uma corrente permeio a rodas dentadas de relógio. Escolheu-se a deusa grega Electra para representa o progresso que o telégrafo trazia porque, segundo o mito grego, era ela quem possuía o fogo frio celeste, isto é, a electricidade, que da mesma herda o nome.

Electra é uma das sete Plêiades (Electra, Maia, Taigete, Alcione, Celeno, Asterope e Merope) filhas de Atlas e Peiona, na mitologia grega. A mesma conta que quando Pleiona estava passeando pela Beócia com as suas sete filhas, foram perseguidas pelo caçador Orion durante sete anos até que Júpiter, apiedado delas, apontou-lhe o caminho para as estrelas e assim foram fazer parte do grupo estelar da constelação do Touro. Elas são facilmente visíveis a olho nu nos dois hemisférios e consistem de vários estrelas brilhantes e quentes de espectro predominantemente azul. Electra casou com Júpiter ou Zeus, e o seu mito adianta que desde então ela aparece em forma cometária, com os cabelos soltos tal qual nesta estátua em Copenhaga, sobre o círculo árctico.

Electra

A retratada aqui é, pois, a Electra sideral, e só indirectamente, no sentido moral e psicológico, a outra Electra humana – esta e aquela sendo a mesma na Terra antes de subir ao Céu – de Micenas filha do rei Agamemnone da rainha Clitemnestra. Esta Electra foi celebrizada na tragédia grega como personagem principal de uma peça homónima de Sófocles e de outra de Eurípides, além da paródia de Ésquilo.

O enredo conta que Electra, amargurada e impulsiva, levada mais pela fúria do que pela maldade, induziu o seu irmão Orestes a assassinar a sua mãe, vingando a morte de seu pai morto pelo amante de Clitemnestra. Esse seria um acto do qual ambos se arrependeriam, pois antes da sua morte a rainha confessara que amava os filhos, e que tratava mal Electra para que Egisto, o seu amante e também inimigo e assassino de Agamemnon, não desconfiasse dos seus sentimentos pela filha, e assim não lhe fizesse mal. Mas a princesa não se deixando levar pela compaixão, mata-a impiedosamente. Mais tarde, Electra desposa Pílades, amigo de Orestes e seu primo, o filho primogénito do rei Estrófio.

O termo complexo de Electra é utilizado na psicanálise como a contraparte feminina do complexo de Édipo, para designar o desejo da filha pelo pai. Tal termo foi proposto por Jung, mas Freud preferiu usar complexo de Édipo tanto para o homem como para a mulher. Seja como for, no mito Electra simboliza o amor passional pelos pais, indo ao ponto de reduzi-los à igualdade pela morte. E nessa espécie de equilíbrio fúnebre, ao pedir aos deuses “justiça contra a injustiça”, Electra acaba por unir-se ao símbolo do mito, pois restabelece a harmonia desejada pelo destino.

No conjunto escultórico em questão, o homem velho representa Agamemnon, expressivo de Saturno conservador, o homem novo expressa Orestes, representativo de Júpiter progressista, ambos ligados pela corrente fatal do Tempo, e no centro, erecta, a luz de Electra sendo o próprio progresso que a electricidade trazia à Humanidade.

A Torre de Babel de Copenhaga

A Torre de “Babel” de Copenhaga pertence à Vor Frelsers Kirke ou “Igreja do Nosso Salvador”, na Rua Sankt Annae Gade, transversal à Prinsessegade. Do seu alto tem-se uma visão panorâmica deslumbrante de toda a cidade, mas é sobretudo a sua arquitectura insólita que mais surpreende e intriga o visitante, não raro por certo suspeitando haver nela secretas ou esotéricas intenções, as mesmas que terão levado o escritor Júlio Verne a dispô-la no seu romance “Viagem ao Centro da Terra”.

A Torre de Nosso Salvador é obra do arquitecto Lauritz Thurah (4.3.1706 – 5.9.1759), possivelmente inspirado na lanterna espiralada da igreja de Sant´Ivo alla Sapienza, em Roma, e foi inaugurada em 28 de Agosto de 1752 pelo rei Frederik V que a escalou até ao topo, sendo a escadaria íngreme, estreita e escura. Construída em formato espiralado com base octogonal, a torre levanta-se em três andares acima do braço transversal ocidental da igreja atingindo a altura de 90 metros, com a particularidade da sua escadaria externa girar no sentido anti-horário que, segundo a lenda urbana, levou o arquitecto a suicidar-se atirando-se do alto dela ao descobrir o erro. Não há fundo de verdade na lenda, pois Lauritz Thurah morreu na sua cama sete anos depois de concluído a torre.

O arco da torre tem aberturas e janelas redondas com molduras compósitas, havendo um total de 400 degraus para alcançar-se o cimo, sendo o último lance feito do lado de fora com 150 degraus. Em torno da base estão as estátuas dos 4 Evangelistas (Marcos, Mateus, Lucas e João) e no topo, sobre um globo dourado e com quatro metros de altura, está a estátua erecta do Nosso Salvador, Cristo, carregando a bandeira da sua Missão. Em baixo, ao nível da rua, de cada lado da torre existe um portão que conduz às duas criptas da igreja. Essas também envolvem-se em lendas ainda mais misteriosas, contando alguns que são acessos para o mais interior da Terra onde tudo é a antítese do que há na superfície, e foi por isso que se construiu a torre no sentido anti-horário. Lenda ou facto o enigma permanece, mas não deixando de influenciar Júlio Verne.

Torre

No plano simbólico, a construção espiralada desta torre sagrada por Cristo no topo e os Apóstolos em baixo, evoca imediatamente Babel, a “Porta do Céu”, cujo objectivo era, como o desta, restabelecer por um artifício o eixo primordial rompido pela corrupção humana cujo olhar perdeu a visão dos deuses e desse modo deixou de poder elevar-se à morada dos mesmos, motivo figurado qaui pela assunção gradual, espiralada, das almas dos crentes ao nível de Cristo com a bandeira da Salvação. Os quatro Evangelistas são os transmissores da Palavra, os crentes, os propostos, e Cristo o fim comum a alcançar.

O simbolismo é universal: a Torre de Babel era um zigurate ou “templo-observatório astronómico” dos babilónicos, assírios e caldeus, substituindo o sentido idêntico do Monte Meru associado ao Kailasa na Índia, quase na fronteira com o Tibete, dizendo-se que é a Morada de Deus desde a qual criou o Mundo, e por isso possui o sentido de Montanha Primordial. Também no cimo de um Monte, em Cafarnaum, na Palestina, Cristo deu as Bem-Aventuranças à Humanidade para que por elas alcance a condição Crística. Com efeito, os andares minguantes da torre até ao seu cume evocam efectivamente a montanha. Diz-se que a Torre de Babel prolongou-se solo adentro tal qual o Monte Meru, e assim também esta Torre de Nosso Salvador que é uma perfeita representação sua desta maneira unindo os Três Mundos: o Céu representado por Cristo no topo; a Terra como a própria Torre; o Inferno, Inferius ou Mundo Subterrâneo assinalado pelas criptas na base. É assim que, na tradição cristã, a torre tornou-se símbolo de vigilância e ascensão, na sua relação entre a Terra e o Céu recordada pelos degraus. Cada degrau da escada, cada andar da torre, marca uma etapa na ascensão para o Divino. É assim que a torre reflecte o mito ascensional e, tal como o campanário, traduz a energia solar geradora transmitida à terra, aqui, a presença de Cristo dominando toda a cidade de Copenhaga.

A mensagem secreta da igreja Frederik (Marmorkirken)

A igreja Frederik, também conhecida por “templo de mármore” (marmorkirken), situa-se no centro de Copenhaga e será das maiores da cidade dominada pelo seu domo com 31 metros de altura, inspirado no da basílica de S. Pedro em Roma ao qual parece servir de oposto e, em certa medida, até de opositor moral. Veja-se como:

É uma igreja de fundação real e não sacerdotal ao contrário da de Roma, pois foi o rei Frederik Vquem lançou a sua primeira pedra em 31 de Outubro de 1749 para comemorar os 300 anos da primeira coroação de um membro da Casa de Oldemburgo. O projectista foi o arquitecto Nicolai Eigtved em 1740, e por sua morte as obras ficaram interrompidas quase 150 anos, até que o arquitecto Ferdinand Meldahl, financiado pelo industrial Frederik Tietgen, concluiu-as ficando o templo com o aspecto actual, sendo inaugurado em 19 de Agosto de 1894. Se na basílica de S. Pedro de Latrão domina o trono do Apóstolo de Cristo, aqui domina a própria palavra de Cristo, como se lê na inscrição sobre o pórtico de entrada: Herrens ord bliver evindelig (“Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre”, I Pedro, 1:25).

Frederik

Enquanto a basílica de S. Pedro está exclusivamente rodeada pelas estátuas dos apóstolos que a decoram exteriormente, os fundamentos circundantes desta igreja Frederik, pelo contrário, além dos evangelistas apresentam uma série de estátuas de teólogos proeminentes e figuras eclesiásticas de renome, incluindo a do filósofo e teólogo dinamarquês Soren Aabye Kierkegaard (5.5.1813 – 11.11.1855), que até ao final da sua vida foi muito crítico da Igreja estabelecida, apontando os vícios de Roma e realçando as virtudes de Lutero. Há nisto, além do sentido confessional, o racional inspirado no estudo e aprofundamento das escrituras sagradas até comparadas com o que deixaram escrito Platão e Sócrates, como o fez Kierkegaard.

Não ficam por aí os opostos religiosos, com este Marmorkirken reclamando para si a primazia do Advento Final do Divino Espírito Santo não em Roma mas aqui mesmo em Copenhaga. Por isso, o interior do domo desta igreja Frederik mostra o Sol do Espírito Santo irradiando sobre os 12 Apóstolos, num afresco maravilhoso que retém o olhar, e mais abaixo, sobre o dossel do altar, um Anjo aponta o medalhão loureado da pintura em mosaico do Agnus Dei ou Cordeiro de Deus, representação tradicional do Senhor esperado. O conjunto transmite a ideia de esperança na Salvação final dos fiéis crentes nos prodígios Divinos do Espírito Santo e na Sua promessa de Advento.

Igreja Frederik

O motivo do Advento repete-se no tecto abobadado do altar, onde vê-se a Pomba do Espírito Santo em resplendor projectando raios e estrelas tudo num hausto brilhante dourado com fundo azul. Sobre o arco de entrada da “caverna” do altar-mor, aparece a cabeça de um Querubim alado servindo de arauto da Parúsia ou “Retorno” da Divindade sobre a Terra.  Dos lados, em duplicado para reforçar o sentido, vê-se  o painel com o motivo de um veado ou cervo bebendo num ribeiro e de cujas hastes irrompe a videira com fartos cachos. O cervo é muitas vezes comparado e associado à Árvore da Vida por causa da sua alta galhada, que se renova periodicamente. Simboliza a fecundidade, os ritmos de crescimento, os renascimentos. Estes valores simbólicos, por sua universalidade, encontram-se não só nos templos cristãos mas também muçulmanos, fazendo do cervo uma imagem arcaica da renovação cíclica. Aqui, nos painéis em mosaico desta igreja e em conformidade com o simbolismo medieval, o cervo vem a representar o próprio Cristo de cuja cabeça irrompe a Árvore da Sabedoria representada na vide de quem Ele é o divino Vinhateiro, isto é, Aquele em cuja Palavra o crente se sacia e encontra a certeza da Salvação final.

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