Porta Brademburgo - 2

Simbolismo esotérico da Porta de Brandemburgo

Não há quem não conheça a Porta de Brandemburgo (em alemão, Brandenburger Tor), em Berlim, sim, como monumento artístico, mas igualmente são poucos, raros os que conhecem o seu significado oculto, esotérico, que perpassa a politização deste portal monumental pelas variadas tendências que periodicamente surgiram no cenário político-social germânico e norte-europeu, mas acabaram desaparecendo com a evolução da sociedade acompanhando tempo. A mensagem ocultada, iniciática, desta Porta é intemporal como quis que assim fosse o rei prussiano Frederico Guilherme II (Berlim, 25.8.1744 – Potsdam, 16.11.1797), distinto iniciado nos altos graus da Maçonaria Alemã, que encomendou a sua execução ao arquitecto Carl Gotthard Langhans (Landshut, Silésia, 15.12.1732 – Grüneiche, Wroclaw, 1.10.1808), possivelmente também maçom.

A Porta de Brandemburgo foi construída entre 1788 e 1791, aberta sobre outras portas nos muros medievais de Berlim, entretanto desaparecidos, e levava directamente ao palácio real pela actual Unter den Linden, uma das principais avenidas da cidade. Pela sua posição central destacada no ponto mais ocidental de Berlim, pela sua feição de portal grego inspirado no Propileu da Acrópole de Atenas, Grécia, a Brandenburger Tor expressa a passagem das trevas da ignorância para a luz da sabedoria, esta mesma que pela sua universalidade é representada nos doze signos do Zodíaco gravados no friso superior do monumento assim expressando o Universo inteiro. Para reforçar esse sentido cosmológico, o pórtico é suportado por seis pares de colunas dóricas perfazendo o valor total dos doze signos zodiacais, divididos por dois corpos laterais simétricos, porticados e sobrepujados por frontal triangular, em guisa de representar as Três Pessoas da Santíssima Trindade ou Deus Uno-Trino, o mesmo Grande Arquitecto do Universo. Há cinco vãos centrais por onde passam cinco estradas, aqui interpretadas simbolicamente como passagens das almas de um estado para outro, ou seja, do domínio profano – assinalado extra-muros da cidade – para o espaço sagrado da própria cidade, segundo a concepção maçónica do germanismo iluminado do século XVIII aplicada a Berlim. Mas as almas chegadas aqui, por aqui não ficavam muito tempo: após receberem a luz da sabedoria, partiam a difundi-la pelo mundo, o que acabou extravasando na noção e consequente difusão do imperialismo germânico que, mesmo assim, tinha bases sagradas distantes dos acidentes temporais entretanto surgido no palco da História, donde o epíteto “sacro império”. De maneira que essas cinco artérias passando sob a Porta de Brandemburgo vêm a representar os “cinco regatos vitais” por onde escoa a energia vital dos cinco elementos da Natureza (Terra, Água, Fogo, Ar e Éter) por onde transitam os berlinenses e outros levando o conhecimento vivo ao mundo. Tudo isto, ressalte-se, numa concepção iluminista estritamente estritamente local, mesmo assim extravasada no pangermanismo que no século XIX defendia a união dos povos germânicos da Europa Central.

Porta Brademburgo

É assim que esta Porta também possui o significado de “Arco da Vitória” ou do “Triunfo”, enquandrando-se no sentido da translatio imperii (“transladação de impérios”) que os maiores líteros germânicos encomiaram no seus escritos talvez inspirados no simbolismo deste monumento. Mas sonhando sobretudo um império onde a Paz fosse universalmente vitoriosa, impondo a razão e a concórdia à discórdia belicista, a partir da própria Porta de Berlim. Por isso colocou-se no topo deste monumento uma das deusas Horas da mitologia grega, que são que presidem às estações do ano, portanto, aos ciclos do tempo, precisamente Irene (inspirada na Íris grega e na Ísis egípcia), a deusa da Paz como a mesma Pax latina, filha de Zeus descrita como uma bela jovem que aparece com diversos atributos simbólicos: uma cornucópia, um ceptro, uma tocha ou um rython, recipiente destinado a conter os líquidos usados nas libações rituais dos antigos gregos (retratadas no friso frontal imediatamente abaixo). Aqui Irene carrega o ceptro, ou melhor, o bastão com a Cruz Teutónica (da antiga Ordem de Santa Maria dos Alemães ou Ordem dos Cavaleiros Teutónicos de Santa Maria de Jerusalém, em latim, Ordo Domus Sanctae Mariae Theutonicorum) fechada no laurel sobrepujado pela águia imperial que também fazia parte das Armas do Grão-Mestre da Ordem Teutónica, fundada em S. João de Acre, na Palestina, no final do século XII e que desde 1809, quando Napoleão Bonaparte decretou a sua extinção, só sobrevive como simples ordem honorífica.

O facto da deusa Irene deslocar-se numa quadriga puxada por quatro possantes cavalos, é alusão ao movimento, à deslocação no sentido do eixo berlinense para outras partes geográficas até onde a ideia anímica (donde ánima e animal) de império chegasse e se impusesse, mas pela Paz incarnada nesta deusa que também era a Porteira do Olimpo ou o Paraíso mitológico. Por tudo isso, este conjunto escultórico leva o nome de Quadriga da Vitória.

Estátua equestre de Frederico II e a Maçonaria

Postada no Unter den Linden, a estátua equestre do imperador Frederico II, o Grande, está entre os projectos artístico-monumentais mais grandiosos de Berlim e é conhecida vulgarmente entre os locais como Alte Fritz, sendo pomo de inúmeras discussões intelectuais por suspeitas justificadas da mesma ocultar algum tipo de mensagem esotérica que passa desaspercebida à maioria daqueles que a contemplam.

Estátua equestre Frederico II - 1

Esta estátua de bronze com 13,5 metros de altura, por incrível que pareça demorou quase 70 anos para ser determinada como deveria ficar, envolvendo 40 artistas e 100 projectos, até que por fim o escultor Christian Daniel Rauch iniciou a sua construção em 1839 e concluiu-a em 1851, dedicando quase 20 anos da sua vida à obra deste projecto único. Por aqui deduz-se que poderia ser uma estátua qualquer a que figurasse Frederico, o Grande, rei da Prússia de 1740 a 1786. Este monumento está maravilhosamente ornamentado com o monarca trajado com o uniforme oficial no topo montando o “Conde”, seu cavalo favorito. Mais abaixo, apresentam-se outras tantas estátuas em tamanho real a cavalo em cada ângulo, representando os quatro comandantes de cavalaria de Frederico II: o Príncipe Henrich da Prússia, o Duque Ferdinand de Brunswick, aliás, muito famoso nos meios maçónicos germânicos, o General Friedrich Wilhelm von Seydlitz e o General Hans Joachim von Ziethen. No mesmo nível destacam-se outras 21 estátuas de figuras notáveis da época deste grande rei da Prússia que se destacaram nas armas, na política, na ciência e na arte. Mais acima e próxima da estátua equestre do monarca, aparecem em relevos cenas da sua vida acompanhadas das virtudes e musas alusivas às mesmas que iluminaram e inspiraram a sua vida de que deixou provas sobejas, a principal, porventura, a de ter dado modernizado Berlim mudando-lhe a feição medievalista que ainda havia. Para isso, como se vê neste monumento onde aparece um arquitecto em postura hierática – quase ou mesmo sinalética secreta maçónica – apresentando o esquisso da nova Berlim, alterou a estrutura urbana, ordenou a construção de monumentos que vieram a abrilhantar a cidade, respeitou a liberdade de culto, cultivou as arte e letras, tendo fundado um jornal de língua alemã e francesa e ordenado a construção da Casa Real de Ópera, inaugurada em 1742. Além disso, mandou reduzir os preços dos bens alimentares, sobretudo do milho, e ordenou a abolição da tortura. Independentemente das vicissitudes que acompanham sempre as vidas dos homens notáveis, ele foi realmente Grande, e boa parte desse comportamento cívico deve-o à sua formação moral e cultural no seio da Maçonaria onde é respeitado e até cultuado como a personagem principal dessa Ordem Iniciática por ele marcada até hoje. O aspecto marcial deste monumento acaso significará a força avassaladora da Maçonaria por que Frederico II agiu secretamente mudando os rumos político-económicos e sócio-culturais da Alemanha, particularmente de Berlim.

Frederico II Maçom

Frederico II (Berlim, 24.1.1712 – Potsdam, 17.8.1786), segundo As Constituições da Maçonaria ou Ahiman Rezon, publicada pela Grande Loja da Irlanda em 1858, foi iniciado nessa Ordem em 1738 e depois, em 1744, fundado e sido Grão-Mestre da Grande Loja “Três Globos”, a qual aparentemente finalizou a actividade em 1747, e não o monarca ao contrário do que se diz. Em 1761 pediu ao seu representante que convocasse um Grande Consistório de Príncipes do Segredo Real em Paris, a fim de dar uma patente ao maçom francês Stephen Morin para que apresentasse ao mundo as virtudes e luzes do sistema maçónico. Esse acto levou a que Frederico II fosse interpretado como um dos principais instigadores da Revolução Francesa, talvez por sua intimidade com dois personagens controversos do mundo esotérico até hoje mas que andavam próximos dos monarcas franceses: o Conde de Saint-Germain e o Conde de Cagliostro. Por fim, em 1762, Frederico, rei da Prússia, foi proclamado Grande Inspector-Geral Soberano do 33.º Grau para a Europa e América do Norte.

O nome de Frederico II é encontrado com frequência nos rituais dos Rito Escocês Antigo e Aceite, atribuindo-se-lhe a autoria dessa Ordem com os seus 33 Graus por as suas Grandes Constituições de 1.º Maio de 1786 terem sido redigidas pelo próprio monarca, já acamado no leito de morte como derradeira tentativa de valorizar a Maçonaria na América e estancar a quebra de credibilidade que a venda dos seus Graus provocara na Europa. Poderá ser, mas quanto a ter sido fundador da Maçonaria Escocesa não passa de mito para nobilitar mais ainda a sua pessoa e acção no seio dessa Ordem. Os altos Graus do Rito Escocês tiveram início em Paris, em 1758, com a criação do Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente que instituiu o Rito de Perfeição ou de Heredom, com 25 Graus, influenciado pela aristocracia culta e pelo clero através de alguns membros distintos da Companhia de Jesus, portanto, jesuítas.

Independentemente de todos esses elementos históricos desconhecidos da maioria das pessoas, fica o monumental desta estátua de Frederico II a cavalo na feição marcial de quem esmaga as trevas do passado social e conduz o povo às luzes do progresso e da cultura hoje reconhecidas universalmente em Berlim. Esta será a derradeira mensagem maior da Alte Fritz.

Simbologia esotérica do Domo de Berlim

O Berliner Dom ou Domo de Berlim, construído entre 1894 e 27 de Fevereiro de 1905, encontra-se na Ilha dos Museus e é vizinho do Lustgarten e do Berliner Stadtschloss (sede do governo municipal de Belim), sendo a maior igreja evangélica da Alemanha comparada e considerada como contrapeso protestante à basílica de São Pedro de Latrão no Vaticano, Roma, isto pelas suas dimensões monumentais de 114 metros de comprimento, 73 metros de largura e 116 metros de altura. Por ser igualmente igualmente a principal referência monumental do luteranismo que por sua leitura e interpretação livre e reformista das escrituras sagradas, figuram neste templo as estátuas dos principais teólogos protestantes alemães e, sobretudo, alguma simbologia maçónica na sua estatuária e arquitectura que se explica por muitos dos maçons cristãos dos séculos XVIII e XIX igualmente postularem o evangelismo mais aberto às suas ideias particulares que o catolicismo exegético que não permite leituras nem interpretações heterodoxas estranhas aos cânones ortodoxos, oficiais, da sua teologia.

Tanto assim é que alguns maçons do Rito de Heredom chegam a associar esse nome ao significado de Domo como “Casa de Santidade”, ou seja, Hiero, “Santo”, e Domo, “Casa”, donde Heredom. Poderá ser, mesmo com essa interpretação filológica trescalando a tendenciosismo que, aqui e ali, repara-se neste templo berlinense. O certo é que o domo representa universalmente a abóbada celeste. O conjunto deste edifício com a sua cúpula torna-se assim a imagem do Mundo manifestado. A cúpula repousa sobre quatro pilares de construção de base quadrangular, o que transfere para o simbolismo tradicional segundo o qual o Céu cobre e a Terra sustenta, porque na concepção dos antigos o Céu era redondo e a Terra era quadrada, o que transfere para o sentido geométrico da “quadratura do círculo”, ou seja, um círculo dentro de um quadrado e cuja mensagem derradeira é a de que a Terra (quadrado) contém o Céu (círculo) que a anima como Espírito interior da mesma que assim expressa o Corpo, a Matéria.

Domo de Berlim - 3

Tal como na Maçonaria a abóbada do Templo é o seu domo expressando o Céu e as suas Potências Espirituais reflectidas no estrelado dourado sobre fundo azul onde aparecem os planetas e os signos do Zodíaco, donde o seu nome abóbada celeste, também na abóbada do Domo de Berlim a Luz do Sol ou do Logos como Espírito Santo projecta-se do alto pelo seu óculo central e os oito janelões laterais cada um dividido em três partes (3×8 = 24), cujo valor numérico evoca os 24 Anciãos do Apocalipse centrados à mesa do Cordeiro de Deus, aqui representado pelo vitral central com a Pomba do Espírito Santo expressiva de Deus manifestado, isto é, do Céu iluminando a Terra que contém em si o Espírito de Deus, presente neste templo, e tudo em dourado sobre fundo azul, cores dos raios solares espargindo-se pelo espaço cerúleo.

Tal como os maçons reconhecem e cultuam sete Espíritos Planetários ou Arcanjos (Mikael, Gabriel, Samael, Rafael, Sakiel, Anael, Kassiel) e mais um oitavo síntese de todos a quem chamam IHVE, Adonay ou Senhor, em hebraico, observa-se neste Domo, nos frisos da cúpula cimeira do altar-mor, oito anjos com os seus atributos por certo figurando os mesmos Arcanjos tradicionais, rodeando vitrais apologéticos da Vitória do Cristianismo (protestante, já se vê) mas sujeitos a interpretação mais esotérica: o vitral central retrata o Arcanjo de Deus elevando a Taça Sagrada que na Idade Média associava-se ao simbolismo do Santo Graal, assim dispondo este templo sob a sua evocação e protecção, e logo ao lado num outro vitral o Anjo de Deus carrega desfraldada e triunfante a Bandeira de Cristo. O tema da Taça Sagrada suportada por dois Anjos Custódios repete-se ainda em baixo, em talha dourada no altar-mor.

Sabendo-se que a Maçonaria cristã é afinal o Grau de Rosacruz que o rei Frederico Guilherme II, descendente de Frederico II, o Grande, desejou e quis como exclusivo na Alemanha, particularmente em Berlim, sabendo-se que este Domo nasceu no lugar da primitiva capela quinhentista de Santo Erasmo, e que Erasmo de Roterdão (1466-1536) apesar da sua formação católico ter se distinguido como filósofo humanista e grande crítico das vicissitudes da Igreja Romana, é fácil aperceber porque o Protestantismo e a Maçonaria andaram juntos em parceria anti-católica e deixaram as suas marcas neste edifício religioso cuja grandeza, afinal, foi feita para ofuscar a de Roma. Nele, todas as decorações que ilustram episódios do Novo Testamento recorrem sobretudo ao Evangelho de S. João, aliás, o predilecto do esoterismo cristão da Maçonaria por ser aquele que melhor reflecte “o espírito que vivifica sob a letra que mata”. As principais figuras importantes da Reforma Protestante substituem aqui os tradicionais doutores da Igreja, como não podia deixar de ser atendendo à confissão professada neste lugar de culto.

O Berliner Dom contém ainda o maior órgão de tubos da Alemanha, mais de 7.200 tubos, que é uma belíssima obra de arte construída por Wilhelm Sauer (1831-1916). Abriga também a cripta da família Hohenzollern contendo mais de noventa tumbas e sarcófagos, incluindo as do rei Friedrich I e da rainha Sophie Charlotte, ricamente trabalhadas.

O Obelisco da Vitória e o Genius Loci

A Coluna que é o Obelisco da Vitória (Siegessäule) oculta um significa mais profundo além daquele aparente de monumento comemorativo da vitória militar da Prússia sobre a Áustria, Dinamarca e França entre 1864 e 1871. Com efeito, o simbolismo deste conjunto arquitectónico dispõe-se no plano dos conhecimentos esotéricos relacionados à chamada geografia sagrada, na qual Berlim ocupa lugar cimeiro como centro difusor do pan-germanismo que mais de proezas militares era sobretudo cultural e espiritual por via dos seus mais consignados autores, com destaque para o filósofo Johann Wolfgang Goethe.

Este Obelisco da Vitória foi construído de 1864 a 1873 com 66,89 metros de altura e no seu topo o escultor Friedrich Drake dispôs a estátua de bronze, pintada em dourado, da deusa Vitória, evocativa dos triunfos militares, que tem cinco metros de altura e pesa 35 toneladas. Erigido originalmente no Reichstag, em 1937 o obelisco veio a ser transportado para o seu local actual, na Strasse 17 Juni, no centro do Grosser Tiergarten, um grande parque público.

Obelisco da Vitória - 4

Por sua altura elevada e imponente este obelisco berlinense situado em zona central da cidade associa-se ao simbolismo do axis mundi expressivo do Centro o Mundo no qual o Céu e a Terra encontram-se cerceados pelos quatro pontos cardeais do Universo, a partir do qual o Mundo Humano pode ascender ao Divino (e é isto que representa a escaria que leva ao topo da coluna) e o Divino descender as suas Bênçãos dirigidas a todos, facto representado pela estátua dourada da deusa. Assim sendo, este monumento plantado estrategicamente aqui expressa o omphalo ou “umbigo”, que no simbolismo tradicional é o ponto de início da Criação, pois para ele confluem todas energias celestes e dele espargem-se todas as forças terrestres tal qual acontece com o plexo solar situado na zona gástrica do corpo humano, mais ainda por na geografia sagrada da Europa os antigos cartógrafos medievais e renascentistas desenharem o continente como um corpo humano e disporem a Alemanha como o plexo solar, gástrico, do mesmo.

Obelisco da Vitória - 3

Pelo motivo solar que é o supremo do conjunto monumental é que a deusa aparece dourada, como se fosse a projecção deífica do Astro-Rei vindo abençoar Berlim com o laurel da vitória na destra, mas carregando na sinistra a lança que lhe dá foros de Genius Loci, isto é, Anjo Tutelar protector da cidade. Nas antigas tradições, acreditava-se que tal como cada homem igualmente cada colectividade possuía o seu Daimon ou Génio Tutelar, espécie de “anjo da guarda” protector e conselheiro, representando o Ser Espiritual cuja Consciência anima e norteia a cada um e todos nos mais sólidos e rectos princípios sociais. Por isso os Genius Loci eram considerados os arquétipos da ordem social estabelecida por Deus, geralmente representados por uma divindade feminina expressiva da Mãe Criadora do Universo visível e invisível representado na urbe sagrada pela sua presença. Neste Obelisco da Vitória a divindade feminina é a “Elsa de Ouro”, como é conhecida localmente, e carrega a lança mágica que cura todas as enfermidades, objecto inscrito no enredo germânico do libreto e ópera Parsifal de Richard Wagner, no qual descreve as aventuras fantásticas dos cavaleiros da Távola Redonda do rei Artur, chefe bretão, que partiram à demanda do Santo Graal, a Taça Sagrada onde foi vertido o Sangue de Cristo no Gólgota, neste onde o centurião romano Longuino trespassou o corpo do Senhor com uma lança que veio a mesma de Elsa, que a adquiriu depois por artes mágicas ou outras que a História não conta e só contam as razões inexplicáveis da lenda, contudo, mantendo-se as virtudes miraculosas da lança sagrada cujo simples toque sarava de imediato as doenças corporais e espirituais.

Tal como aqui, exercendo o papel de deusa tutelar, também no mito graalístico Elsa (de Brabante) era virgem e pura, que para comprovar esses predicados exigia a submissão ao julgamento de Deus através do combate, da “guerra justa”, como diria S. Bernardo de Claraval no século XII, ou seja, o de uma acção dinâmica de combate do Homem Superior sobre si mesmo, à sua condição mortal inferior de modo a transformá-la e imortalizá-la espiritualmente, o que na Idade Média era apodado de Iniciação Mariana, Senhorial ou Cavaleiresca, e afinal esse vem a ser o sentido último e supremo do aparente encómio às vitórias bélicas germano-prussianas neste Obelisco da Vitória.

Os ursos protectores de Berlim

Em Bärenbrunnen, num jardim entre a faculdade de Arquitectura e a igreja Friedrichsweder no mercado Werderscher da capital berlinense, encontra-se uma fonte singela obra do escultor Hugo Lederer (Znaim, 16.11.1871 – Berlim, 1.8.1940) em 1928. Retrata quatro pares de pequenos ursos brincando sob o olhar atento da mãe ursa ao centro. Aparentemente, o conjunto é o mais inocente possível, e no entanto é dos mais significativos de Berlim, posto que esta cidade tem como símbolo “totémico” o próprio urso que remonta às suas origens míticas.

Com efeito, Berlim formou-se da reunião de dois lugares, um existente na margem direita do Rio Spree, então chamado Berolino, e outro situado numa ilhota no meio do rio, conhecido por Kolin. Com base nesses elementos geográficos, a maioria dos etimologistas alemães explicam o locativo Berlim como significativo de “dique”, em alemão vehr, ou “lugar do açude”. Mas o significado é bem outro que esse de aparelho fluvial, e remonta directamente à povoação na margem direita do Spree que era então domínio de um príncipe polaco exilado do seu país que ali tinha uma residência acastelada. O príncipe chamava-se Albers e tinha por alcunha o “Urso”, isto porque andava sempre acompanhado de um pardacento urso domesticado, segundo a tradição berlinense que é mais significativa apesar de lendária. Por via dessa circunstância, o brasão de Berlim tem como chefe um urso em posição erecta.

Fonte dos Ursos - 2

O antigo dialecto alto-alemão dispunha da palavra bero para nomear o urso. Bero foi encurtado no médio alto-alemão ber, a que se juntou o locativo lin para indicar o lugar ou “castelo”, donde Berlin ou Berlim ser traduzido como “Castelo do Urso”, alcunha do supradito príncipe polaco. A variante bero do nome do uso deriva da palavra germânica bar, donde brunne, que por sua vez procede do teónimo védico Baruna, isto é, Varuna. Este deus soberano do panteão brahmânico incorpora em si dois aspectos cosmológicos: o céu crepuscular e o céu nocturno. O deus Varuna tinha o seu domicílio privilegiado nas águas – representadas nesta fonte dos ursos em Bärenbrunnen – e por isso os doentes de hidropisia consideravam-no seu protector. Da simbiose cromática entre o alaranjado (do crepúsculo) e o negro (da noite) resulta a cor a que se dá o nome de parda ou pardacenta, tal qual a do urso de Berlim possuído dos atributos do dito deus védico.

Com efeito, Varuna ou Baruna é a “Água Primordial” a que se refere o livro sagrado hindu Rig-Veda (10.129), elemento matriz de todas as formas de vida. Cromaticamente acinzentada por se situar entre o crepúsculo e a noite, o tema var ou bar passou a denominar o urso, animal que envolto numa alta e cabeluda pele representa bem o primitivo bípede que saído das águas primordiais haveria de transformar-se no deus que assiste à vida na Terra.

Por esse sentido de acção dinâmica, vivificadora e protectora, o urso, com os seus atributos de coragem e ferocidade, tornou-se símbolo da força guerreira sustentando o poder temporal dos reis e demais governantes entre os antigos povos do Norte e Centro da Europa. Esse atributo de protecção é o que ilustra esta fonte dos ursos de Berlim: a mãe ursa, representativa da Força e Poder Divino, protegendo atentamente os seus filhotes que brincam despreocupados, simbolizando a própria população berlinense posta sob o cuidado da Grande Ursa, que no céu, como constelação, é também símbolo sideral das forças anímicas da Natureza em evolução progressiva quando “domadas”, ou seja, quando a Humanidade age em conformidade com a evolução natural, tornando-se então susceptíveis de impor a ordem e o progresso, mas também em contraste, quando contrariadas, capazes de terríveis regressões psicossociais tal qual as de um urso indomado e feroz, mas para ambos os casos, protegendo sempre as suas crias.

Símbolos telúricos na Arnswalder Platz

A Fonte da Fertilidade é o monumento mais marcante da Arnswalder Platz e dos mais insólitos de Berlim. Obra do escultor alemão Hugo Lederer (1871-1940) inaugurada em 1934, este conjunto monumental é composto de dois pujantes touros de costas um para outro, em posição de domínio, um dos cornúpetos tem aos pés uma ceifeira com com um feixe de trigo e um pescador com uma rede (lado nordeste), enquanto o outro domina protector sobre um pastor com um cordeiro e uma mãe com a sua criança no colo (lado noroeste). Antes das remodelações desta fonte em 2008, o acesso à sua bacia central em forma de cogumelo fazia-se por um patamar de escadaria de 14 degraus, sendo hoje apenas 9.

Símbolos telúricos - Berlim - 2

Atendendo a que Hugo Lederer inspirou-se nos símbolos tradicionais do chamado “Ocultismo Germânico” para a composição dos seus trabalhos artísticos, possivelmente tendo bebidos nas fontes do movimento antroposófico do esoterista e pedagogo austro-húngaro Rudolph Steiner (1861-1925), é nos símbolos da Tradição que se pode encontrar a explicação para o significado oculto desta Fonte da Fertilidade que está muito além das explicações vulgares dadas à mesma, que por serem pobres deixam o enigma intacto. Mantendo a fidelidade aos arquétipos da alma colectiva berlinense, distinguida por símbolos próprios afins à sua idiossincrassia característica, onde se destaca o urso heráldico ou “totémico”, Lederer associa-o aqui ao touro no sentido que os antigos egípcios davam à constelação da Ursa Maior: situaram-na próxima do Pólo Norte celeste e configuraram-na como um touro guiado por um homem, motivo para ser considerado na mitologia nórdica como o “Carro do deus Odin”, motivo que na Europa medieval se manteve sob o apodo “Carro” ou “Carruagem”, mas que os primitivos britânicos chamavam “Arado”. Assim sendo, tem-se no touro a expressão cosmológica da própria Ursa Maior, assim encapotada por um artifício muito inteligente. Como touro é o animal que evoca a ideia de força e arrebatamento irresistíveis, cuja energia vital ou telúrica, que ele corporiza simbolicamente, fertiliza a Terra, motivo para ser considerado o animal divino expressivo da Força Criadora, chegando os antigos hebreus a representarem o Deus Supremo El sob a forma do touro alado, provável herança da religião egípcia que lhe chamavam Ápis. Mas é na tradição grega que este animal aparece inteiramente associado à água, por ao deus dos oceanos, rios, lagos e fontes Poseidon, motivo para esse bovino figurar nesta Fonte da Fertilidade como motivo principal, em par para reforçar o sentido de força viril. Animal altivo, também sob a sua forma que Zeus, Deus Supremo do panteão grego, seduziu e raptou a virgem Europa, levando-a nos ares até Creta onde a fecundou e deu origem à progénie que habitaria o continente que herdou o nome da progenitora, Europa, significando este mito grego que a civilização europeia tem origem na Grécia mas desenvolvida, por uma “agricultura” cultura, na Alemanha puxada pelo pujante touro, ou melhor, pela poderosa Ursa Maior, isto na interpretação exclusivamente germânica, motivo para o escultor Hugo Lederer tem imposto cinco bidas d´agua sob cada touro, em guisa de cinco pontos dispostos em forma de triângulo invertido que assim representam a Força Criadora Feminina assinalada nas Águas que nutrem não só a Berlim mas também, num exclusivo amplexo ideológico, a toda a Europa a partir desta cidade.

Sendo aqui o touro a forma encapotada da constelação da Ursa Maior, então os personagens postados aos pés do par de cornúpetos serão igualmente expressões veladas de constelações subalternas daquela a quem expressam por suas qualidades ou atributos. Assim, ter-se-á: a ceifeira com o feixe de trigo, além de representar a classe campesina ou rural igualmente representa, pelos seus atributos iconográficos, a constelação da Virgem, esta que na mitologia grega viveu na Idade de Ouro, a mesma perseguida e idealizada pelo idealismo metafísico germânico nem sempre com os resultados mais felizes, pois a mesma será a de um período feliz da Humanidade e não uma só raça, no mau entendimento da Utopia. O pescador com uma rede, indicador das fainas marítimas e fluviais, é também expressivo da constelação de Peixes, representativa da potência procriadora e da geração tão bem assinaladas nas águas abundantes desta Fonte da Fertilidade. O pastor com um cordeiro, símbolo imediato da pastorícia, representa a constelação do Carneiro, cujos predicados psíquicos de impetuosidade mas igualmente de bondade são os mesmos da Alemanha e particularmente de Berlim, onde o povo é empreendedor mas também solidário e amigo da paz. Por fim, a mãe com o menino no colo, além de aludir à força própria da Humanidade gerando-se entre si, é indicativa da constelação da Balança em afinidade com Vénus, o planeta do amor e da geração por excelência.

Finalmente, o prato central da fonte tem o formato de um cogumelo. Entre os povos antigos do Norte e Centro da Europa o cogumelo simbolizava a longevidade e a imortalidade, e pelo formato abobadado do seu chapéu era tido como uma imagem do Céu primordial donde caíram as primeiras águas que fertilizaram a Terra fazendo com que nela houvesse continuamente vida. Por tudo o dito, fica bem nesta Arnswalder Platz o nome Fonte da Fertilidade.

A Ordem do Espírito Santo no Museu Huguenote

A Französischer Dom, isto é, a catedral francesa de Berlim situa-se na Gendarmenmarkt e foi construída pela comunidade huguenote entre 1701 e 1705 destinada a acolher os huguenotes franceses refugiados nesta capital alemã depois da revogação do Édito de Nantes por Luís XIV em 1685. Huguenote é a denominação dada aos calvinistas franceses pelos seus inimigos católicos nos séculos XVI e XVII, cujo antoganismo resultou em guerras dilacerantes que levaram os protestantes de França a procurar refúgio noutros países, nomeadamente na Alemanha.

Para conhecer melhor a vida e saga dos huguenotes refugiados em Berlim, torna-se obrigatório visitar o Museu Huguenote instalado na torre da igreja dos franceses nesta cidade alemã, o qual é extremamente interessante pelo seu espólio contando a vida dos huguenotes em Berlim e os horrores que passaram antes de aqui chegarem, havendo quadros raros, peças imobiliárias, estatuária, documentos raríssimos, emblemas e símbolos em metais preciosos e, sobretudo, a Cruz Huguenote que se repete exaustivamente como se fosse o elemento mais importante de todo esse espólio museológico, em guisa de conter algum segredo só conhecido alguns raros, talvez de carácter paraclético ou messiânico.

Cruz Huguenote

O facto é que João Calvino, fundador do Calvinismo, acreditava na vinda próxima do Reinado do Espírito Santo que haveria de derrubar os muros da “morada da besta apocalíptica” (Roma) e fazê-la desaparecer da face da Terra, em parceria com ideias idênticas de Erasmo de Roterdão, numa violenta campanha anti-papal. Mas também havia quem entendesse o Reinado do Espírito Santo num sentido mais amplo e profundo, como um período de paz e concórdia universal dos povos e religiões. É neste sentido que se increve o espiritualismo evangélico que se afasta do chamado radicalismo protestante, entendendo a Cruz Huguenote num sentido esotérico muito particular afim à ideia universalista de Advento. Isso terá sucedido aqui em Berlim, onde os huguenotes eram chamados Eid Genossen, “companheiros de juramento” (in jure aeternum), indicando esses religiosos ligados entre si por juramento secreto e inclusive chegando a reunir-se em segredo, factores que a Maçonaria aproveitaria no século XVIII para a sua estruturação original, tanto mais que muitos dos maçons originais germânicos eram ou haviam sido huguenotes.

Os Eid Genossen saberiam muito bem que a Cruz Huguenote ou de São João derivava directamente daquela insígnia da Ordem dos Cavaleiros do Espírito Santo, fundada em França em 1578 por Henrique III, por sua vez derivada da anterior Ordem de São Miguel fundada cem anos antes defendendo-se que essa última tivera por inspiração directa a Ordem de São Miguel da Ala em Portugal, dizendo-se até em murmúrio que esse Milícia medieval portuguesa serviria de cobertura a uma outra muito mais secreta de que a História pouco ou nada diz: a Soberana Ordem de Mariz, possuída, diz-se, de cruz idêntica a esta huguenote e com igual finalidade messiânica de natureza universal.

Cruz Ordem do Espírito Santo

A adopção da Grã-Cruz da Ordem do Espírito Santo pelo movimento huguenote aconteceu cerca de 1688 por um certo Mystre de Nîmes que lhe deu o formato que hoje apresenta. Os diversos elementos dessa jóia expressavam um significado tanto político como espiritual, permitindo ao seu portador afirmar ao mesmo tempo uma verdadeira lealdade ao rei (“mal aconselhado”) e ao Estado, e uma verdadeira fé evangélica. Sendo esta cruz pátea um símbolo eminentemente cristão por remeter para a morte propiciatória de Jesus Cristo, refere-se também à sua vitória sobre a morte e a impiedade. Os oito boleados nos extremos dos seus palos fazem referência às oito Bem-Aventuranças do Sermão da Montanha por Cristo (Mateus, 5:3-10), adoptadas como regra de vida pelo cristão sincero, igualmente associadas aos Dons do Espírito Santo latentes na alma do crente que busca sinceramente a Iluminação Interior de maneira a revelar em si e de si ao exterior o Reino de Concórdia da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Isso patenteia-se entre os braços da cruz nas flores-de-lises (que nos escudos franceses representavam a Santíssima Trindade) como simbólicas da Consciência Universal. Evocam também, pela sua disposição concêntrica, a coroa de espinhos de Cristo como “Rei dos Judeus” ou da Realeza de David, delimitando junto aos braços da cruz quatro corações, que é a morada mística de Deus no Homem. Esses quatro corações concêntricos são igualmente a evocação do Amor de Deus Pai, o Criador, cujos raios irradiam do centro aos braços da cruz. Os três elementos da Santíssima Trindade ficarão assim representados: o Pai (raios, corações), o Filho (a cruz, as flores-de-lises) e o Espírito Santo (a pomba), este que desceu como “Língua de Fogo” sobre os Apóstolos no dia de Pentecostes, conferindo-lhes a Sabedoria do Amor com que deveriam construir uma Era Nova para o Mundo, e foi isto mesmo que os huguenotes espiritualistas tentaram realizar no Norte e Centro da Europa, particularmente em Berlim, fazendo da sua cruz o mais belo sinal de que eram obreiros do Templo do Espírito Santo que é a Terra inteira, portanto e em desfecho, sendo essa tão-somente a Cruz Parúsica ou do Advento Final que já outros muitos mais antigos esquecidos na poeira dos Tempos haviam usado com fim igual.

Anúncios