Imagem cabeçalho do Porto

A cidade invicta do Porto, capital do Norte de Portugal, possui origem e tradição que se perdem nas brumas das próprias origens da Península Ibérica, de onde a historiografia ver-se em trabalhos dobrados, quantas vezes gorados, para especificá-la cronologicamente num começo geográfico e demográfico. Toda ela se fecha num manto de mistério perpassando suave ou diáfano os milénios feitos de séculos desde a sua origem, em franca contrariedade à escassez historiográfica e às muitas especulações costuradas sobre complexos intelectuais de algumas demasiadas mentalidades barrocas de cátedra.

Recuando no tempo e no espaço, seguindo as vagas menções de Estrabão e Plínio, encontra-se a vaga migratória celto-galaica 3000 a. C. provinda do Norte da Europa, atravessando os Pirinéus e povoando toda a Península Ibérica edificando, dentre vários pontos do mapa da Lusitânia, junto à foz do Rio Douro um porto de mar (portus), e na sua margem esquerda um castru (castro) fortificado que mais serviria de cabouco a um castelo (calle) romano, e esse castro muito possivelmente estenderia a sua influência à margem direita do rio ocupando o espaço do actual morro da Sé, desde então perdurando o onomástico Pena Ventosa, havendo ainda nas cercanias o Monte das Antas. O documento de doação do couto do Porto aos seus habitantes, os portucalenses, pela rainha D. Teresa (1120) e a posterior confirmação de D. Afonso Henriques (1138), assim como o foral de 1123 de D. Hugo, bispo do Porto (1), registam a existência no burgo de várias arcas, penhas e mamoas (2).

O povoamento não resultou de um acto individual mas de uma acção natural autóctone favorecida pelas condições locais, seguindo a norma dos tempos arcaicos com raízes, por certo, na Era Neolítica, cuja última metade corresponde à Era dos Metais (3). Diversos restos achados na primitiva cividade e copiosa toponímia de monumentos megalíticos, guardada em documentos dos séculos XVI a XVII (além das referências de Salústio, século I a. C., e de Plínio, século I d. C.), provam a existência de íncolas naquele tempo remoto e demonstram definitiva e claramente que a primitiva povoação de Calle ficava no centro do actual Porto e não em Gaia, como é uso crer-se.

Foral do Porto

Essas obras megalíticas evidenciam irrevogavelmente uma população indígena vinda do Paleolítico Inferior, passando o Neolítico e adentrando o Calcolítico, este a Era dos Metais de definidos aspectos celto-galaicos, ante-porta da Proto-História.

Em inteira concordância com o professor Batalha Gouveia (4), pessoalmente considerando-o o maior etimologista contemporâneo, direi que o Noroeste ibérico, aquando do domínio Romano, era conhecido por Gallicia, no natural celto-astur, e Calaecia em latim, sendo os seus habitantes – os gallaici ou calaecios, posteriormente aportuguesado calaicos e finalmente galegos – a principal tribo celta da Lusitânia. Calaecia é a prosódia latina do original celta Calacia, nome aglutinante dos termos cala e aku, respectivamente, “caminho” e “santo”. O nome Calaecia ou Gallicia significa, portanto e por extenso, “Terra do Caminho Santo”.

Conforme já disse algures (5), o nome Portugal mergulha a sua origem lexical nas concepções teo-escatológicas celtiberas relacionadas com a vida além-morte na qual a condição ctónica fúnebre equivalia à “Morada dos Imortais” no seio mesma da Terra, consequentemente, esses seriam, nas palavras eminentíssimas de Mário Roso de Luna (6), cultos dos Jinas ou Antepassados o que dispõe no termo sumério Avarat, os “Nossos Maiores”.

Todo o Ocidente ibérico estava impregnado desse culto necrolático psicopompo de almas, sobre-humano e subterrâneo, melhor dito, geoceleste (como actualmente pode-se verificar na curiosa evocação artística patente na estrutura da igreja de S. Francisco, nesta cidade do Porto, cujo interior gótico é revestido de talha dourada barroca e rococó dos séculos XVII e XVIII, estendendo-se aos tectos, pilares, arcarias e retábulos dos altares, dando-lhe o aspecto de uma grande gruta dourada), em que os rios correndo para o mar oceano além de servirem de vias fluviais eram também os caminhos linfáticos percorridos pelas almas a caminho do Outro Mundo, do Paraíso Terreal onde só os heróis, os bardos, os arúspices, enfim, os bem-aventurados entravam, esse o Gaedhil celta, o Hades grego, o Duat egípcio, ou ainda o incompreendido Inferno cristão, do latim Inferius ou “Lugar Inferior, Subterrâneo”.

subterrâneos do Porto

Subterrâneos da cidade do Porto

Essa remota crença teo-escatológica esteve na génese sagrada da cidade ligure-galaica de Ura-Gaedhil (“Luz da Pedra Santa”, esta identificada à Pedra Lusa sobre a qual adormeceu e sonhou Jacob, ou então à Pedra Dhara sobre a qual sofreu e martirizou Jesus), posteriormente a cristianizada Santiago de Compostela, capital da Galiza durante muitos séculos dependente da capital hispânica, Braga ou a Braccara Augusta, cidade portuguesa donde para aí foram os Construtores-Livres ou Monges-Construtores, a primitiva Maçonaria Operativa, os quais lavraram nesse primitivo burgo centralizado na sua catedral, todo um corpus de simbologia esotérica que só a Tradição Iniciática, assumida na Idade Média como Kaballah judaico-cristã, tem as chaves da sua leitura definitiva fatais para a condição profana até do vulgar crente (7). Aliás, convém não esquecer que os Monges-Construtores, na sua maioria beneditinos e cistercienses, vieram a originar no século XIV uma outra Ordem Iniciática não menos importante, hoje revestida de bruma e lenda: a da Rosa+Cruz.

Pelo Porto passa o caminho português para Compostela, cidade ligada à estrela pelo próprio nome, ou seja, a stella do compostum, do campo ou, como formulam os alquimistas do compost, que é a estrela que se forma na superfície do crisol numa das primeiras operações da Grande Obra.

Se Campus Stellae é o “Campo da Estrela”, como Compost Stellae já significa a “Estrela Composta” dispondo-a amplamente no plano do Hermetismo o que leva a consigná-la como Estrela Hermética, a mesma de Vénus cujo símbolo é a concha vieira, sendo o bordão a régua de medição do peregrino, esse mesmo Mestre-Construtor que calcorreou toda a Europa levantando à Glória de Deus as grandes maravilhas arquitectónicas do continente. Os bascos chamam-lhe Jaun-Gori, os galegos Jaunak e os cristãos Yakob, Jacob ou simplesmente Tiago, o Maior. Enfim, Jaun, Jaunak, Yakob, Jacob, Jauna e Jina, é esse mesmo Iniciado gallaici ou solar do País Subterrâneo onde assenta a Igreja Invisível de São João, patenteando a Sabedoria-Luz ou Lusofia nas maiores e mais significativas catedrais, palácios e castelos marcando o corpus sagrado da Europa.

PEREGRINO[1]

Além disso, na astrologia tradicional o Caminho para Compostela é a “Estrada do Pastor”, a Via Láctea como nome desse rasto imaginário de estrelas que perpassa o céu indo até Sirius, estrela alfa da constelação do Cão Maior.

Cão que é o guia e guardião do peregrino sendo louve, a loba, a fiel companheira do Apóstolo de Cristo, tanto podendo ser um animal quanto a força anímica feminina. Diz a lenda que a barca trazendo o corpo inerte de Santiago desde a Palestina, dirigida pelo Anjo de Deus (Mikael), encalhou em Padrón, na Galiza, a 8 das calendas de Agosto, no reino da Loba (em francês, louve). Nessa altura havia na Hispânia uma rainha com esse nome: Louve ou Lupe, cuja tradição se prende à epopeia secreta de Santiago Maior e dos seus discípulos.

Certamente por isso a Galiza é etimologicamente a “Terra do Caminho Santo” desde Sagres a Compostela, situando-se na latitude e longitude 41º 9’0 N/8º 37´0 W o Porto ou Portus-Calle banhado pelo Rio Douro ou D´ouro tendo na margem defronte Gaia ou Ghea designativa da própria Terra, tudo no enquadramento geosófico ou de geografia sagrada infligindo condição privilegiada ao antigo burgo dispondo-o entre as civitas de eleição.

A cidade do Porto é assim Portus-Calle, literalmente “Porta do Caminho”, que se começa na fachada do obradoiro ou “obra do oiro” (a crisopeia alquímica) da Catedral de Santiago de Compostela, encimada pela Santíssima Trindade, desfecha em Lagos, no Algarve ou Allah-Garden, o Jardim de Deus, na fachada lateral alquímica da igreja de São Sebastião, omphalo da cidade. Sagres, término promontorial da Estrada do Fim do Mundo e começo do Oceano dos Mortos em cuja margem se plantou medieva caneça, carvoaria ou bafometaria moçarábica, é prolongamento ou “pedúnculo” geográfico como final sagrado, tal qual acontece no Norte, na Corunha plantada junto ao Finisterra defronte ao Mar dos Mortos, entendidos aqui como culto dos Mistérios celebrados pelos galos-celtas fundadores de Bendoma ou Bandoma, hoje Baiona em Pontevedra, e que na Baixa Idade Média chegou a ser título de Par de França em lugar do da Normandia (8).

O Porto é a “Cidade das Portas” e a sua divina Padroeira, a Vandoma, só flanqueia os Invictos Mistérios de Calle aos realmente peregrinos no Caminho da Verdadeira Iniciação. Era esse o sentido maior e mais profundo do Arco de Vandoma hoje desaparecido, posto que transpor o Arco equivalia a penetrar o Arcano do Porto Hermético. Vandoma provém do topónimo celta Bendoma, “Elevada”, associada ao sentido de “monte ou elevação” (doma ou domus, em latim), mas como divindade “a mais subida ou elevada” o que teologicamente vem a associá-la à Soberana Mãe de Deus como Santa Maria Maior. Se bem que o nome exista em França como Vendôme, foi em Portugal que o seu uso mais se propagou e fixou a partir do século XII através do francês D. Hugo, bispo do Porto (1113-1136), na instituição do culto a Nossa de Senhora de Vandoma, “a mais Subida” em importância e género tal qual o seu Arco ou Porta desaparecida mas que foi a principal da cidade, dela havendo notícia seiscentista (9): “Prazo da torre de Bandoma que é da nossa Mesa Pontifical feito a Gonçalo Alvarez abade de Jovim e a duas pessoas. (…) A nossa torre da Bandoma que a Mesa Pontifical tem nesta cidade junto da Sé sobre a porta que se chama da Bandoma”. Por tudo isto, o Porto é desde o medievo a “cidade da Virgem”, donde as suas cores virginais branco-azul.

Sé_Catedral_do_Porto_IX[1]

Também o termo céltico cala, igualmente fonetizado gala, está presente no topónimo gaulês burdicala ou burdigala, o qual encerra a acepção de “caminho (cala ou gala) do burro” (burdu), este o animal totémico designativo da Pax Universal. Burdicala é a actual Bordeaux, em português Bordéus.

De Bordéus, do radical burdi, originou-se o termo burgo. Terá sido desse burgo luxemburguês que terão vindo os primeiros Cavaleiros do Pelágio para fundar o primeiro de Reino de Portucale a pedido de Afonso III das Astúrias e Leão, o Grande (c. 852 – 20.12.910), cabendo ao conde galego Vímara Peres ou Vímara Perez (c. 820 – 873) no ano 868 a presúria e governação do burgo portuense por ele refundado na função de conde e presor de Portucale. Este lugar constitui-se num pólo de irradiação para a organização e recuperação da terra portucalense, posto o seu valor estratégico ser de suprema importância levando em atenção a defesa do Entre-Douro e Minho, e a possibilidade de ali organizar-se uma base de arranque para a recuperação das terras ao sul do Douro em poder dos muçulmanos.

Já mesmo antes, no final do século Nono, o território ao sul do Rio Lima era o mais organizado e o com maior importância geoestratégica no âmbito galaico. Sobre o assunto, Oliveira Marques escreveu (10):

“A nova unidade política tinha por sede Portucale, uma das primeiras cidades a ser repovoada e acaso a maior de todas na época. E também o seu nome tornou-se gradualmente Portucale, aparecendo esta palavra pela primeira vez, com sentido lato, em 938. O Território (igualmente chamado Terra e Província) de Portucale – Portugal no dialecto que realmente se falava – estava além disso dividido em pequenos Condados, da mesma forma denominados Terrae ou Territória.

“Um dos primeiros governadores nomeados para a nova Unidade, se não o primeiro de todos, foi um nobre castelhano de nome Diego Fernandez. Casou com Onega Lucidez, filha de Lucio Vimaraniz neto do famoso Vímara Perez.”

Julgo ser também de interesse transcrever uma breve passagem da História Concisa de Portugal, de José Hermano Saraiva (11):

“Desde os finais do século IX começaram a aparecer referências a um Condado Portucalense, de fronteiras muito imprecisas, mas que abrangia terras do Minho ao sul do Douro. A designação provinha de a principal povoação ser Portucale situada próxima da foz do Douro, que foi restaurada e povoada nos meados do século IX pelo conde Vímara Peres. Foi uma descendente desse conde, a célebre condessa Mumadona, quem fundou um convento em Guimarães e mandou construir o castelo de S. Mamede; (…) o filho, o neto e trineto de Mumadona governaram Portucale sucessivamente.”

Filho do conde Pedro Theon e casado com a galega de estirpe nobre Trudildi, como disse, Vímara Peres foi o primeiro conde partícipe directo do Pelágio ou Pelayo – a Reconquista cristã peninsular – a fundar o Condado Portucalense muito antes do Conde D. Henrique de Borgonha, calculando-se que tenha falecido em Guimarães no ano 873, sendo sucedido por seu filho Lucídio Vimaranis (literalmente, “filho de Vímara), que ficou à frente dos destinos do Condado instituindo-se uma dinastia condal que governaria a região até 1071. Não poucos historiadores atribuem ao nome Vímara a origem do possível berço da Nacionalidade Portuguesa: Vimaranis Guimaranis – Guimarães.

Sobre a questão dos dois Condados Portucalenses, já tive oportunidade de dizer (12):

“É na Lusitânia que Portugal se acha, ou melhor, Portucale. Com efeito, houve no actual território nacional, ao longo do processo de Reconquista, dois Condados Portucalenses distintos: o Condado de Portucale e o Condado Portucalense. O primeiro foi fundado pelo vimaranense Vímara Peres após a presúria de Portucale (Porto) no ano 868 e incorporado no Reino da Galiza em 1071, após a morte do conde Nuno Mendes, sendo sensivelmente equivalente ao actual Entre-Douro-e-Minho. O segundo, constituído cerca de 1095 em feudo do rei Afonso VI de Leão, foi oferecido ao conde Henrique de Borgonha que o veio auxiliar na Reconquista da Península aos Árabes, recebendo ainda a mão da filha do monarca, Teresa de Leão. Este Condado Henriquino era muito maior em extensão, já que abarcava também os territórios do antigo Condado de Coimbra, suprimido em 1091, partes de Trás-os-Montes e ainda o Sul e Centro da Galiza (mormente a Diocese de Tui, dependente do Primaz de Braga). De notar que Condado é o termo genérico para designar o Território Portucalense, já que os seus chefes eram alternadamente intitulados Comite (Conde), Dux (Duque), Princeps (Príncipe), e só depois, com a independência nacional, Rex (Rei).

“O nome do Condado vem do topónimo Portucale, com o qual no século IX se designava a cidade junto à foz do Rio Douro, chamada Portus Cale ou “Porto dos Callaicos” ou Galaicos (Callaeci ou Gallaeci), povo proto-histórico que será a provável origem do galego actual cuja principal cidade de intercâmbio marítimo seria o actual Porto, portanto, fazendo parte do primitivo território galaico-portucalense, geo-cultural e idiomaticamente distinto limitado ao Norte pela terra bracarense e ao Sul pelo Rio Vouga, tendo por centro e cabeça a cidade castreja de Portucale.

“Há indicações históricas atestando a positividade da existência de Portucale. As Histórias de Salustio, do século I, referem a Cales Civitas localizada na Callaecia; o Itinerário de Antonino, do século IV, fala da povoação de Cale ou Calem, enquanto Idácio de Chaves, no século V, escreveu sobre um Portucale Castrum (13). Desse tempo sobrevive até hoje o topónimo Antas. Embora a existência da povoação na foz do Douro durante o Período Romano se encontre confirmada, o mesmo só nos últimos anos, graças a investigações acuradas, se sabe quanto à sua localização exacta. Com efeito, o Paroquial Suévico de São Martinho de Dume refere um povoado designado como Portucale Castrum Antiquum, na margem esquerda do Douro, e que já sabe ser Gaia, e outro, o Portucale Castrum Novum, na direita, e que é o actual Porto.

“Os callaici celtas teriam dado o nome de Portucale ao território inspirado naquele outro de Cailleach, “Deusa Primordial”, que os Milésios importariam daqui para a Irlanda cerca do ano 1000 a.C.

“Quando se deu a invasão Árabe da Península Ibérica por Tarique, no século VIII, de Portucale já era, desde a segunda metade do século VI, a sede da Diocese Portucalense, sendo metropolita o bispo de Braga, onde estava o Primaz da Gallaecia e de toda a Hispania desde os finais do século IV. Portanto, Igreja proto-cristã ou visigótica onde militaram os maiores vultos do Pensamento proto-português lançando ao terreno mental a semente do que viria a ser a Filosofia Portuguesa, como notavelmente fê-lo, por exemplo, Paulo Orósio (c. 385 – c. 420), historiador, filósofo, teólogo, sacerdote e apologista cristão na Hispânia Romana, possivelmente natural de Bracara Augusta (Braga), então cabeça da Província da Gallaecia. Essa diocese não sobreviveu à Invasão Árabe e só foi restaurada após a conquista do Porto por Vímara Peres, no ano 868.

“Esse foi o território que em 1095 o conde D. Henrique recebeu de D. Afonso VI de Leão, mas alargando-o do Porto até Coimbra, e de Borgonha (no actual Luxemburgo, nome que, significativamente, também é “Lugar de Luz”, Luxburgus) trouxe consigo povo, nobres cavaleiros e religiosos da Ordem de Cluny de cujo fundador, São Hugo de Cluny, D. Henrique era sobrinho-neto. Juntos aos galegos e moçárabes viriam a ser a população original do Condado Portucalense, o qual assumiu-se só Portucale após a batalha de Ourique em 1139, na qual D. Afonso Henriques, após o famoso milagre cristológico que teve no campo de lide ao árabe, se assume rei publicamente e ao território herdado e conquistado país independente, ele que já antes, após a batalha de S. Mamede em 1128, declarara o Condado Portucalense independente dos condes galegos autonomicamente sujeitos ao rei de Leão.”

Mas, à luz da Tradição Iniciática que representava realmente o conde Vímara Peres? Para Marius Labrator (14) “Vímara Peres, cujo enigma, por letras e números se descerra o seu próprio nome trissilábico, anagramático e multissimbólico, não tem descendência terrestre”. Com isso dispõe-no em condição igual à de Melki-Tsedek como descreve o Apóstolo Paulo na sua Carta aos Hebreus (7:1-3), consequentemente, pertenceria à Dinastia Solar (Surya-Vansa) dos primitivos Reis-Sacerdotes (Pitris-Rishis). Como um Manu Volante Vímara Peres seria então o mesmo terrível e iracundo Príncipe do Norte, o Avatara de Marte (Mitra-Deva na expressão terrena de Akdorge) nesta Pátria então nascente, desbravador do caminho à Obra de Fundação Pátria por El Rike, isto é, por Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.

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Estátua equestre de Vímara Peres junto à Sé Catedral do Porto

Correlacionando o nome Vímara Peres com idênticos etimólogos sânscritos, jogando com analogias filológicas de natureza teosófica, ter-se-á:

VI ou VRIL e VAHAN – Vril é o Akasha ou Éter e Vahan o Veículo, portanto, o Veículo Akáshico ou Flogístico por onde se manifesta o Princípio Causal ou Mental Superior.

MARA, MARU, MANAS – Mara e Maru encerram o sentido de Força, e Manas designa o Mental.

VÍMARA – O Portador do Poder Mental Iluminado, igual a Manas-Taijasi.

PERES, PRESTE, PIRIS, PITRI – O mesmo que Pai, Progenitor.

VÍMARA PERES – O Pai Espiritual e Temporal como o Primeiro Ser ou Assura da Hierarquia Primordial na função de Manu-Semente ou Semeador do que viria a ser Portugal. Correspondeu a uma manifestação avatárica de Mikael como “Anjo do Fogo Primordial”, o que se ajusta ao nome Mitra-Deva.

Se o belicoso mas também bondoso Marte predomina na natureza de Vímara Peres, também isso vai bem com a natureza da cidade do Porto afligida astrologicamente por Marte (em sânscrito, Kuja) que lhe dá a natureza centrípeta de Tamas, a qualidade mais densa da Matéria de cor vermelha, sendo a terceira cidade do Sistema Geográfico de Tomar (sob a égide de Mercúrio ou Budha e Satva, a energia centrífuga amarela) que se estende até Santiago de Compostela, como atesta a Tradição Teúrgica Portuguesa.

Em memória de Vímara Peres fundador do burgo portuense, em 1968 foi inaugurada a sua estátua equestre sobre uma base de cantaria, paralela à Sé Catedral e sobre a ribeira. Obra do escultor Barata Feyo, o cavaleiro aparece vestido de armadura segurando o escudo com a mão esquerda e empunhando o estandarte triflamado com a direita, e na cinta traz a espada embainhada.

Quanto à velhinha Sé ela remonta a muito antes da Nacionalidade. Aí se situou o castro de Calle que Salustio (século I a. C.) chamou de Civitas, a cidade sueva, e a Urbs da crónica de Sampaio (século IX). Foi em redor desta catedral que a primitiva urbe de Portus Calle se desenvolveu e transformou, com a evolução psicossocial e o crescimento demográfico, no empório do Norte alcançando a preponderância e grandeza que actualmente logra em plena prosperidade, pertencendo já ao número privilegiado e merecido de Património da Humanidade pela Unesco.

Essa magnífica obra de origem românica terá recebido a primeira pedra por volta de 1145 da rainha D. Teresa, ao início não passando de escassa e modesta ermida. D. Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques, favoreceu-a muito. D. Sancho I, cumprindo o testamento de seu pai, continuou a construção. Durante o reinado de Afonso III ficou concluída a parte mais antiga, ou seja, a frente (testeira) e o deambulatório com as capelas laterais (absidíolas). Em pleno reinado de D. Dinis, com a edificação das naves do corpo da igreja, ficou concluída a construção desta Sede devocional portuense.

A sua talha barroca deve-se ao artista florentino e cavaleiro da Ordem de Malta, Nicolau Nasoni (século XVII), o qual desenhou e construiu a galilé (parte alpendrada sustentada por colunas) e fez, dentre outras, as pinturas murais da capela-mor. Naturalmente, com o passar do tempo os traços primitivos da Sé foram desaparecendo.

Este templo reparte-se em três naves, sendo a central mais elevada que as restantes. O seu sentido canónico é o de referência às Três Idades da Santíssima Trindade, cuja última do Espírito Santo revela-se como Vox Clamantis da Igreja em que se encerra o espírito de civitas Calle. Isso não deixa de estar assinalado na decoração fitomórfica do templo, ou seja, os motivos vegetalistas (folhas, caules, ramos…) alusivos à Natureza-Mãe, que prodigiosa e fecunda é afinal o Corpo manifestado do Divino Espírito Santo.

As naves estão cobertas por abóbadas ogivadas (apontadas) e os seus arcos, também ligeiramente apontados, assentam em pilastras dispostas em feixes. Ao fundo da nave central há um coro alto apoiado num arco-de-volta inteira. Através da bela rosácea gótica e das frestas altas do clerestório do transepto (conjunto de janelas altas na nave transversal), a luz penetra indo iluminar a nave central, contrastando com a luz muito discreta distribuída pelas frestas das naves laterais.

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A catedral possui várias capelas laterais. Além da capela do Santíssimo Sacramento, há a capela de S. João Evangelista (onde está o túmulo de João Gordo, cavaleiro da Ordem dos Hospitalários – depois de S. João de Malta – e almoxarife de D. Dinis), a capela de S. Pedro e a capela de S. Vicente.

Em tudo isso, naves e capelas, no conjunto inteiro, perpassa um sentido de enigma despercebido ao geral comum com isso escapando à vista profano desatenta do “espírito que vivifica”. Apercebe-se as brumas de um qualquer mistério cuja mensagem sibilina os monges-construtores originais parecem ter deixado na disposição da pedra talhada, cuja forma origina a símbolo e a conformação a sua leitura.

Quando atrás falei atrás das 3 Idades ou Tempos, inspiração devida ao pensamento iluminado de Joaquim de Flora, monge cisterciense da Calábria, Itália, do século XII-XIII (1132-1202), que se distinguiu pela sua ideia da translatio imperii (“trasladação dos impérios”) acompanhando os Ciclos do Pai, do Filho e com o futuro advento da Idade do Espírito Santo, relacionei-os ao subtentendido simbólico das três naves desta sé catedral, tema trinitário que talvez seja a principal mensagem “encriptada” neste espaço.

Joaquim de FloraTábua XIb do Liber Figurarum do Abade Joaquim de Flora, representando em três círculos a Santíssima Trindade

A Obra da Trindade vai-se definindo progressivamente no decurso das cinco Idades determinantes de cinco situações diversas do Género Humano: “antes da Lei” (Ante Legem), “sob a Lei” (Sub Legem), “sob o Evangelho” (Sub Evangelio), “sob a Inteligência espiritual” (Sub Spirituali Intellectu) e “na Pátria” (In Patria).

As quatro primeiras Idades são realmente e como disse, Tempos; a última, ou quinta Idade, sucederá ao Fim dos Tempos, e por esse motivo escapa ao entendimento humano (15). As duas primeiras podem fundir-se numa única, e efectivamente Joaquim de Flora referir-se-á exclusivamente a 3 Idades ou Tempos: o Tempo ante Gratiam (anterior à Graça), o Tempo sub Gratiam (da Graça) e o Tempo quod e vicino expectamus, sub ampliori Gratia (que esperamos em breve, sob maior Graça).

Ao Tempo da “Lei Natural” sucede o Tempo da “Lei Evangélica”, que por sua vez deverá dar lugar ao “Tempo sob a Inteligência espiritual”. O primeiro foi na Ciência, ou na Luz; o segundo na Sabedoria, ou na Beleza; o terceiro será na plenitude do Espírito, ou no Amor. O primeiro foi o Tempo dos Velhos, o segundo o Tempo dos Homens maduros, o terceiro será o Tempo dos Meninos.

É possível estabelecer um paralelismo entre as 3 Idades e os 7 Dias da Criação, ou os 7 Períodos do Mundo: o Tempo do Pai abrange os 5 primeiros Períodos, o do Filho o 6.º Período e o Tempo do Espírito Santo abrangerá o 7.º.

Cada uma das 3 Idades Terrestres conhece uma dupla data de origem: a da sua inauguração antecipada e a da sua efectiva fundação ou confirmação, isto é, a data da “iniciação” ou “germinação” e a data da “clarificação” ou “frutificação”, como sementeira e colheita no começo e fim de cada Ciclo do Mundo marcado por o que a Tradição Iniciática consigna de Manu (Semente) e Yama (Colheita), Vida e Morte para suceder o Renascimento numa nova Etapa.

A primeira Idade, inaugurada por Adão, foi confirmada pelos Patriarcas e por Moisés; a segunda, inaugurada pelo rei Oseias, frutificou a partir de Jesus Cristo e dos Apóstolos; quanto à terceira, inaugurada pelo Bem-Aventurado São Bento, cuja instituição é simbolizada pela Senhora do Ó, só frutificará “nos tempos do fim”, a seguir ao regresso de Elias “segundo o Espírito” e à derrota do Anti-Cristo (16).

As Idades entrelaçam-se umas nas outras. Quando a seguinte começa a “germinar” a precedente ainda “frutifica”, conforme o esquema seguinte:

Esquema 1

Quando à estrutura interior da Sé portuense, intui-se a sua auferição escatológica conformada às Idades do Mundo:

Esquema 2

Assim como cada uma das três Idades se subdivide em sete Períodos, também o conjunto das três se articula num único grande Septenário: cada Idade corresponde a uma das três Pessoas da Trindade e o conjunto de todas elas à Unidade Divina.

Esquema 3

Poderei assim dispor a analogia do esquema fiorentino com a arrumação desta sede prelatícia:

1 – 1.ª Nave

2 – 2.ª Nave

3 – 3.ª Nave

4 – Capela de São Pedro

5 – Capela de São João Evangelista (17)

6 – Capela de São Vicente (18)

7 – Capela do Santíssimo Sacramento

A segunda Idade é dupla, característica que lhe advém do facto de existir, por um lado, a Igreja do Oriente com São João Evangelista e a Virgem, e por outro, a Igreja do Ocidente com São Pedro e São João Baptista (este que só por «acaso» é o Orago do Porto). Deus assim o ordenou para estabelecer, simultaneamente, a Ordem Sacerdotal e a Ordem Monástica; a vida activa e a vida contemplativa; o magistério da predicação doutrinal e a religião virginal e casta.

As primeira e segunda Idades são denominadas por Joaquim de Flora, respectivamente, de Velho e Novo Testamentos. Embora o Novo Testamento seja superior ao Velho em dignidade (19), o “acordo” existente entre ambos não equivale à harmonia referida pelos Padres da Igreja: não se baseia numa correspondência alegórica, mas numa “semelhança segundo as proporções”.

Assim se apercebe o triteísmo da mensagem encriptada ainda assim universal e canónica não transgressora do dogma vigente mas levando-o mais além, ao terreno heterodoxo das interpretações hieráticas sem cair em apostasias heréticas, da Sé Catedral do Porto, no século XII o famoso burgo episcopal da Freiria de São Bento (a cuja Regra o cisterciense Joaquim de Flora estava sujeito), a partir do qual a cidade irradiou a jusante.

Nela patentearam honras de obras Diomedes, rei da Etólia, o dúbio Gatelo, rei de Atenas, o famoso Júlio César da Roma imperial, e no século V Hermenerico, rei dos suevos, do qual consta o levantamento de um castelo e de muralhas, além do célebre Calais, filho de Bóreas, e de um descendente lendário do velho pai Noé: Elissa, que é o mesmo Ulisses grego que, no sendeiro da Intra-História, merece maior comento nesta singela homenagem ao burgo berçal de Portus Calle.

Há um mito, uma lenda, uma tradição sagrada que corre na boca do povo tripeiro primo-irmão do alfacinha lisboeta. Refere-se à história mítica de Ulisses que, vindo da Grécia e aportando a estas praias extremo-ocidentais da Europa, fundou Ullisibona (Lisboa). E depois, desejando repousar dos trabalhos pesados da penosa, longa e aventurosa viagem marítima, dirigiu-se para a cidade do Porto (Ulissipono), capital do Norte, onde se deu de aventuras amorosas com uma escrava chamada Gaia cujo senhor era tirano de grandes ciúmes. Diz-se mesmo que Ulisses raptou-a a coberto da noite com a ajuda dos seus companheiros e a cumplicidade de alguns naturais, e com ela numa barca cruzou o Rio Douro em direcção a onde esteve o Palácio de Cristal (1865-1961), no antigo campo da Torre da Marca na freguesia de Massarelos, tendo aí selado o seu amor.

Ulisses poderá ser Elissa (“Filho do Sol”), bisneto do Patriarca Noé (anagramaticamente Éon, “Ciclo de Manifestação Universal”), da narrativa bíblica. Também poderá ser um Rei ário-atlante colonizador todo o litoral do extremo-ocidente europeu, irrompido do Mediterrâneo (“Meio da Terra”, além do significado latino de Mare Nostrum) pela Grécia. O seu nome: Ur-Gardan, cujos feitos de civilizador sobrehumano depois seriam depois associados ou tão-só comparados aos de Vímara Peres.

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No mito cosmogénico Ulisses é nome de Sol, Solis em latim. Nesse sentido, ele cruza o espaço na sua nau Argos que é simbólica do Sistema Solar, coadjuvado pelos seus companheiros que no caso são os planetas. Na lenda, Gaia era escrava moura, e aqui os mouros tão-só representarão as “forças primárias da Natureza”, os elementais ou esses “pedreiros-livres silenciosos” (“espíritos da Natureza”) comparticipando do desígnio construtivo ou evolutivo do Logos Solar. Gaia ou Ghea é a Terra mesma, aqui fecundada pelo Astro-Rei de cujo conúbio cósmico irrompeu o terceiro elemento: a Humanidade. Estando Mira Gaia sobre a invicta cidade ligada a Ulisses-Sol, conclui-se que a sua mensagem oculta seja: Mira a Terra da Luz, isto é, a Lux-Citânia!

Será então o ex-burgo portuense o alter-ego masculino do país Portugal, como sempre o terá sido Lisboa, a sua contraparte feminina como cidade geminadas? As inúmeras referências documentais, pictóricas e monumentais da História Mítica e sobretudo da Geosofia Nacional dão avalo afirmativo à interrogação.

Camões, em comum sentido com Homero na Ulisseia grega, diz nos Lusíadas: “Ulisses é quem faz a Santa Casa, aqui brilha, além abrasa». Ora a “Santa Casa” (Beth-Lheem) é a própria Terra fecundada pelo Sol que a vivifica.

Sendo o Sol representado por um leão na Astrologia, é precisamente Leo o signo natal do Porto, com descendente em Virgem (Mercúrio) e ascendente em Escorpião (Marte).

O Sol (Ulisses) rapta Gaia (Virgem) acabando por a colocar fora da cidade como algo passado, descendente. Na simbólica “Coluna de Hércules” (Monumento à Guerra Peninsular, obra de 1912 cuja primeira pedra foi lançada por D. Manuel II em 1909) que se ergue no centro do Jardim da Boavista, vêem-se o leão (da casta forte peninsular, a lusitana) e a rapinadora águia (do imperialismo napoleónico, também como antigo símbolo de Scorpio) engalfinhados em luta encarniçada pelo predomínio da situação, onde o primeiro parece vencer ou ascender sobre segunda à mercê do destino fatal que a espera… Realmente é necessária boa vista para entender a mensagem cósmica desta simbólica “Coluna de Hermes ou Hércules”, outro designativo associado a Ulisses.

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No emblemático e mártir Palácio de Cristal, que o ignaro e torpe vandalismo destruiu, existiu outrora um leão que, à solta, guardava o velho recinto, quando uns facínoras desalmados lançaram fogo à jaula onde estava. O velho leão que guardava a cidade, preso e queimado vivo, chamava-se Sofala.

O Palácio de Cristal que na geosofia do Porto seria expressão simbólica da Essência Cristalina, Cristina ou Crística, na esteira analógica do pensamento esotérico de Marius Labrator, representaria assim o coração emitindo para todo o organismo os fluxos vitais (assinalados nos vitrais desse antigo edifício) da Energia Divina (Prana, Alento Vital) promanada do Sol mesmo. Assim, o Leão assinalava a própria presença do Cristo latente sobre o centro cardíaco. O seu nome Sofala em guinéu, em grego é Sophia e em português, Sabedoria. Tal como o Sol rege o coração, rei dos orgãos, músculo da vida, o mítico mas bem real Palácio de Cristal representava aí a Luz Bendita do Cristo (Segundo Aspecto do Logos Solar manifestado), o que os sábios hindus chamam de Budhi-Taijasi.

O Rio d’Ouro, por sua vez, Rio de Sangue Real (ou Sang Greal, donde Santo Graal), fronteira do Norte com o Sul, cruzando a cidade e tendo nela a sua foz, pelo seu nome, sistema de vasos, artérias e corrente de leva e traz, vivifica o organismo psicossocial nortenho, senão mesmo o do Norte peninsular por inteiro. Já o famoso Vinho do Porto, adocicado como todas as coisas relacionadas ao Plano de Amor-Sabedoria do Cristo Cósmico ou Segundo Trono, também enquadra-se perfeitamente nas analogias geosóficas portuenses, cujas gentes apodadas de “tripeiras” igualmente remete para a função orgânica do Chakra ou Central Gástrico, lenda quinhentista aparte, sob a influência de Marte e que tem por alter-ego o Centro Vital Cardíaco, este mais expressivo do Graal-Consciência que do Graal-Objecto.

Tanto assim será que o rei D. Pedro IV, primeiro imperador do Brasil, ofereceu o seu próprio coração à cidade do Porto, que desde 1837 está depositado na capela-mor da igreja da Lapa dentro de um vaso de prata dourada com o respectivo estojo. O túmulo onde se guarda tão precioso relicário apresenta, num lado, a bandeira de Portugal, e, no outro a bandeira do Brasil (neste onde em São Paulo, na cripta do Monumento do Ipiranga, jazem os seus restos mortais), ostentando ainda na parte cimeira as Armas aspadas do Ducado de Bragança (20).

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D. Pedro IV nasceu no Palácio de Queluz, concelho de Sintra, em 12 de Outubro de 1798 onde faleceu em 24 de Setembro de 1834, tendo-lhe sucedido a sua filha D. Maria II, que viria a casar com o príncipe bavárico D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha, passando a ser D. Fernando II de Portugal. Coube a D. Amélia Augusta Napoleona de Beauharnais, duquesa de Bragança, o honroso e singular dever de transmitir oficialmente à cidade do Porto, através da Câmara Municipal, o desejo manifestado pelo marido de doar o seu coração “ao povo portuense como prova de afeição e reconhecimento” (21). O vaso canópico contendo o músculo vital possui duas inscrições, uma em latim e outra em português. Diz a primeira:

“D. Pedro, Duque de Bragança, fundador da liberdade pública, seu doador e vingador havendo, por impulso da Divindade e com a sua grandeza de alma, aportado às praias do Porto e tendo ali, com o seu exército e pela grande e quase incrível ajuda que lhe prestaram os Portugueses, vingando ao mesmo tempo e com justas armas, a Portugal, tanto de tirano que o oprimia como de toda a sua facção, elegendo o Duque, por isto mesmo, e ainda em vida, aquele lugar onde tão magnanimamente expôs a própria vida pela Pátria, para nela, depois da morte descansar o seu Coração, Amélia Augusta, amantíssima consorte do Duque, querendo, de boa vontade, cumprir o voto de seu Esposo, colocou, reverentemente, nesta urna, os despojos mortais de seu marido.”

A inscrição em português, no mesmo vaso de prata, é um pequeno texto da proclamação dirigida por D. Pedro IV ao povo portuense, aquando da sua visita à cidade invicta em 1834:

“… Eu me felicito a mim mesmo por me ver no teatro da minha glória, no meio dos meus amigos Portuenses, daquelles a quem devo, pelos auxílios que me prestaram durante o memorável sítio, o nome que adquiri, e que, honrado, deixarei em herança aos meus filhos. Porto, 27 de Julho de 1834. Ass.) D. Pedro Duque de Bragança.”

Com tudo, indiscutivelmente a cidade invicta do Porto é afim ao invicto coração humano, este que cumpre dentro do nosso corpo a mesma função vital que esta cidade cumpre dentro da nação.

Quanto ao patamónio douro é de origem celta, duwl, significando “porta”. Douro deriva da mesma matriz que o inglês door, que, como se sabe, quer dizer “porta”. Sendo o Douro o rio da Porta do Além, esta tinha por porteira ou guardiã uma deusa celta chamada Vandoma, à letra “Mãe Branca”, um dos muitos epítetos outorgados à Lua, astro que o Cristianismo antropomorfizou em Nossa Senhora da Conceição, a Patrona, Padroeira ou Porteira do Porto. Postada à entrada da “Porta do Além”, Vandoma foi uma santa particularmente venerada pelas gentes da cidade invicta também conhecida, como já disse, por Cidade da Virgem. Vandoma, “a mais elevada”, igualmente sugere o orográfico “Vem-do-Mar” (e Portugal Mariano é regido pelo signo de Peixes) ou “Senhora da Verdade”, completando-se ambos os honoríficos.

Como porteira da porta do mar, Vandoma, tal como a Perséfona grega ou a Proserpina romana, fiscalizava as almas em ordem a só permitir a passagem para os Campos Elíseos daquelas que haviam logrado tal direito. Para atingirem essa porta as almas tinham de escolher um estreito caminho (“estreito é o caminho que leva à vida eterna” – S. Mateus, 7:14) que as levaria à “Porta de Vandoma”. Esse caminho chamava-se cala em língua celta (cale no genitivo). Assim se terá formado o topónimo céltico-latino Portus-Calle, a que corresponde o significado de Porto ou “Porta do Caminho”, uma das vias de acesso ao Outro Mundo, do mesmo modo que Ulissipa, no masculino Olysipo (Lisboa), era a Via (em grego Odus, latinizado Olys) para o Pai (Ipo, corrupção do camítico-copta Abu, helenizado Apys).

Nas Armas heráldicas da cidade do Porto encontra-se representada a sua própria Alma Sinergética, os símbolos principais do exercício de sua missão mais que psicossocial, espiritual no corpo nacional e no todo do mundo.

Parece que o primeiro brasão conhecido como Armas do Porto representava “uma cidade de prata em campo azul sobre um mar de ondas verdes e douradas”. O segundo brasão encontra-se numa iluminura da portada do foral de D. Manuel I (1517). Aparece nele a imagem de Nossa Senhora de Vandoma com o Menino Jesus nos braços, entre duas torres sobre fundo azul. Em 13 de Maio de 1813 este segundo brasão foi modificado. A imagem da Senhora de Vandoma com o Menino e a legenda Civitas Virginis (“Cidade da Virgem”), ainda aparecem ladeadas por duas torres, mas já encimadas uma por um braço com uma espada e outra por um braço com uma bandeira.

No ano de 1834 D. Pedro IV mandou substituir esse brasão, conferindo ao Porto o título honorífico de Antiga, Mui Nobre e Sempre Leal e Invicta Cidade, e atribuindo ao segundo filho dos reis de Portugal o título de Duque do Porto. Este novo brasão constituía-se de um escudete esquartelado cercado pelo colar da Ordem da Torre e Espada, tendo no primeiro e quarto quartéis as Armas do Reino de Portugal, e no segundo e terceiro quartéis as antigas Armas do Porto. Encimava o escudo o dragão verde dos Lusos assente numa coroa ducal. Atada ao pescoço do dragão, sobressaía uma longa faixa com a legenda Invicta.

Mas esse brasão d’Armas da cidade invicta tomaria nova forma, pois após a morte de D. Pedro IV acrescentou-se no centro do escudo o escudete de púrpura com um coração de ouro, representando a homenagem do Porto à memória do rei que legara o seu coração ao povo invicto que o havia amado como ele o amara.

Basão Porto

Finalmente e tendo em consideração o parecer da comissão heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, por portaria n.º 9513 de 25 de Abril de 1940, o então Ministro do Interior, Mário Pais de Sousa, por ordem do Governo da República Portuguesa aprovou a constituição do actual brasão representativo das Armas da cidade do Porto. Da citada portaria, transcreve-se o seguinte:

“Armas: de azul com um castelo de ouro, constituído por um muro ameado e flanqueado por duas torres ameadas, aberto e iluminado de vermelho, assente num mar de cinco faixas ondadas, sendo três de prata e duas de verde. Sobre a porta, e assente numa mísula de ouro, a imagem da Virgem com diadema na cabeça segurando o manto, tendo o Menino Jesus ao colo, vestidos de vermelho com manto azul, acompanhados lateral e superiormente por um resplendor que se apoia nas ameias do muro. Em chefe, dois escudos de Portugal antigo. Coroa mural de prata de cinco torres e colar da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Listel branco com os dizeres “Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto” a negro.”

O fundo azul tanto designa a realeza da civitas quanto é a cor tradicional de Vénus e da própria Mãe Divina assinalada na Virgem Vandoma, cujos predicados associam-na a Nossa Senhora da Conceição (a Conceptione ou Concepção alquímica do espesso em subtil, de uma sociedade profana e leiga em sociedade espiritual e fiel), de quem a cidade descende, sendo mesmo de se perguntar que ligação secreta acaso haverá entre Ela e o fabuloso Vímara Peres, já que vímara provém do latim fonetizado vêmera e esta palavra da variante ática hêmara, significativa de “Senhora do Dia” ou “da Luz”, em referência ao planeta Vénus. O castelo em dourado, assinalando o desaparecido castelo medieval que estaria no morro de Penha Ventosa, à falta desse acabou sendo substituído simbolicamente pelo Palácio de Cristal, como domicílio do Leão do Norte; o fundo vermelho (cor de Marte), denotando-se além da porta e ameias, designa o oculto, o porvir, aquilo a que se pretende ascender. A Virgem sobre a porta e assente numa mísula de ouro, é a divina Porteira do Duat ou Amenti, o Mundo Subterrâneo dos Mortos-Vivos da primitiva teologia egípcia exportada pelos fenícios e romanos para aqui, ou seja, o Mundo dos Eleitos como esses mesmos Goros ou Sacerdotes do Rito de Melkitsedek expressado como Ordem do Santo Graal, consequentemente, ligados à Igreja Secreta, Invisível, de São João. A mísula sugere uma vieira e nisso, mais uma vez, insere-se o tema jacobeo do Caminho de Compostela, que afinal todo o português deverá fazer ao menos uma vez na vida. Peregrinar a Santiago de Compostela é ir ao encontro das origens da Lusitanidade: é ascender ao topo da “Cabeça do Dragão” (Caput Draconis) patente nas Armas do Porto.

As quatro ameias, a porta, a Virgem e o Menino vestidos de vermelho com manto azul em aura dourada, apontam a já referida mensagem parúsica de Joaquim de Flora que subjaze no simbolismo do esquisso da Sé devocional.

Como Portus-Calle esta é a Cidade das Portas, heraldicamente Portas d’Ouro, o que transfere para o mito atlante da Cidade das Cem Portas d’Ouro chamada pela Tradição Iniciática de Aptalântida e Muakram, à imagem da qual, diz-se, foi construído o primeiro Templo de Salomão, com o qual o modelo topográfico da urbe portuense apresenta severas similitudes.

Aptalântida ou Muakram, Templo de Salomão e tudo o mais inserto nos mesmos cânones sagrados, não deixam de ser expressões do Centro Primordial Único a que a tradição transhimalaia chama de Shamballah e a exegese bíblica de Salém. Santo Agostinho de Hipona, um dos quatro Doutores da Igreja, ex-neo-platónico, autor das duas obras literárias Cidade de Deus e Centro do Mundo, é o próprio a aceitar e divulgar o preceito geosófico do Áxis-Mundi  ou Eixo do Mundo a que chama Civitas Dei, a Cidade de Deus, como parte indispensável das mais profundas doutrinas esotéricas como a da Jerusalém Celeste ou do Paraíso Terreal, e até, nas suas derradeiras consequências, identificada como a Agharta das tradições da Ásia Central.

Tudo isso bem parece estar marcado, apesar de modo velado, na carta topográfica do Porto (22). A cidade tem quatro portas principais, cada qual na respectiva direcção cardeal e todas concorrendo para o Morro da Penha ou Penha Ventosa, onde está a Catedral de Nossa Senhora da Conceição e da antiga Vandoma, aparelhando com o equestre Vímara Peres.

Nas celebérrimas muralhas fernandinas rasga-se em quatro portas a cinta de muros, robustecida com torres e cubelos, que protegia o burgo de acometimentos inimigos. A Oriente, fronteira à Chã das Eiras alçava-se a Porta da Senhora de Vandoma, a principal; a Ocidente a Porta de S. Sebastião, entalada entre o palácio de D. Teresa (Aljube velho) e a casa da Câmara (de que ainda existem portas ogivais); virada ao Norte ficava a Porta de Sant’ana (celebrizada por Almeida Garrett num romance encantador); e ao Sul, a cavaleiro do Barreto, abria-se a Porta das Mentiras, depois Porta de Nossa Senhora das Verdades.

Quadratura do Porto - Cópia

O Porto como uma Cruz Filosófica, um Burdi-Calle Majorem, edificado à semelhança do III Templo de Salomão da visão do Profeta Ezequiel

No burgo, partindo da , “omphalo” do Porto, sai-se para a Porta de Vandoma a Oriente pelo Arco da Esperança, rumo ao Rio Douro. Para Ocidente, para a Porta de S. Sebastião pelo Arco de St.º Elói. Rumo ao Norte sai-se pela Porta Nobre pelo Arco dos Carros, em direcção à Porta de Santana, a noroeste de Miragaia que é a Vera Calle Majorem (como a certificaram os bispos de Afonso III e Afonso IV), o alter-ego do Porto. Saindo do Centro ou pelo Sul, pela Porta do Sol atravessando o Arco do Olival, alcança-se a Porta de Nossa Senhora das Verdades (ex-Mentiras).

Posto assim, qual será o sentido, a mensagem da pressuposta tétrade filosófica portuense subjacente na sua topografia, melhor dito, na sua geosofia ou geografia sagrada?

A cidade do Porto cerra-se sobre si mesma como um livro sibilino repleto de sinais de mistérios donde se intuem ou tão-só pressentem as intimidades dos seus Maiores a ainda mais misteriosa Cruzada do Santo Graal, primitiva Massenia como Cavalaria Espiritual que em seu tempo a Ordem de S. João de Malta incarnou aqui, com a qual o Infante Henrique de Sagres neste Portus-Calle berço de seu humano nascimento destinado à grande aventura de unir pela gesta dos mares nunca dantes navegados toda a Humanidade, de quem ele foi capitão à proa da nau crúzia tal qual se vê no monumento que a civitas lhe dedicou.

Sendo Vandoma a divina Porteira do Porto, a entrada principal no burgo sagrado só poderia ser a Oriente, pela banda donde nasce o Sol sobre águas genesíacas do Rio Douro. É assim Solis Vitae (tal qual o belíssimo quadro Fons Vitae pintado em 1518 por Colijn de Coter, e que D. Manuel I ofereceu à Confraria da Misericórdia de S. Francisco desta cidade), cuja mensagem de Esperança contida na Catedral só se pode aperceber depois de transposto o Arcano ou Arco do mesmo nome, o da Esperança de Vandoma, a Verdade conceptual da Mãe Divina Primordial já aqui cristianizada.

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Fons Vitae – A Família de D. Manuel I (pintura de Colijn de Coter, 1518)

S. Sebastião tradicionalmente associado à pragmática da casta militar ou kshatriya – nisto sendo o padroeiro dos artilheiros – como santo eclesial acaba sendo associado ao sebástico homónimo real, passado a Encoberto mas Desejado no que as trovas e prosas proféticas nacionais dão-no como a advir a Ocidente, indo transpor figurativa ou simbolicamente o Arco, Arca ou Barca Solar de Santo Elói (Elion ou Helius, o Sol) para ocupar o seu Retro-Trono sob a rosácea gótica do Templo da Virgem, aclamando à Portugalidade e ao Mundo o derradeiro Ex Occidens Lux.

Ainda hoje S. Sebastião é celebrado nos Festejos do Império Popular do Divino Espírito Santo mantidos vivos em diversas povoações em volta do grande Porto, por exemplo, Miragaia e Valadares.

Vizinha do Porto é a freguesia de Santa Maria de Lamas, no concelho de Santa Maria da Feira. Ora, da terra (ocidente) com a água (oriente) nasce a lama ou barro, este a matéria primordial com que o Criador moldou a animou o primeiro Homem soprando-lhe nas narinas o Alento Vital (Prana). Nisto, barro é sinónimo de Adão ou Adam, o “Homem feito da terra vermelha primordial”, figurado no puro portuense do burgo original que deu nome de baptismo ao Condado Portucalense e depois ao País Portugal, assim moldado à mística nobre de Portus-Calle que é de carácter solar, logo, verdadeiramente espiritual, cuja Criação Divina vale por Teurgia ou Obra de Deus plantada na Face da Terra no que de mais elevado expressa esta capital do Norte.

Já a lama, simbólica mas também efectivamente, expressa a extravasão animista dos variadíssimos cultos idolátricos de cunho necrolático acontecendo arredor da cidade, como por exemplo na Praia da Granja onde está a capela do Senhor da Pedra, todos esses cultos invariavelmente relacionados à água e à Lua por uma qualquer tendência psíquica de teor involucional por norma revestida por uma mistura de crenças misticistas urbanas onde finca-pé o intragável travestido credo espiritista com crença catolicista.

É pela Porta do Ocidente que se sai do Porto, mas a entrada deve ser sempre pelo Oriente, a fim do barro não se converter em lama, do “coração” não descer às “tripas”. Ao bom entendedor…

Falando em “tripas”, a lenda dos tripeiros de que nasceu o apodo é a seguinte (23):

“No ano de 1415, construíam-se nas margens do Douro as naus e galés que haveriam de levar os portugueses, nesse ano, à conquista de Ceuta, e, mais tarde, à epopeia dos Descobrimentos. A razão desse empreendimento era secreta e nos estaleiros os boatos eram muitos e variados: uns diziam que as embarcações eram destinadas a transportar a Infanta D. Helena a Inglaterra, onde se casaria; outros diziam que era para levar El-Rei D. João I a Jerusalém para visitar o Santo Sepulcro. Mas havia ainda quem afirmasse a pés juntos que a armada se destinava a conduzir os Infantes D. Pedro e D. Henrique a Nápoles para ali se casarem…

“Foi então que o Infante D. Henrique apareceu inesperadamente no Porto para ver o andamento dos trabalhos e, embora satisfeito com o esforço despendido, achou que se poderia fazer ainda mais. E o Infante confidenciou ao mestre Vaz, o fiel encarregado da construção, as verdadeiras e secretas razões que estavam na sua origem: a conquista de Ceuta. Pediu ao mestre e aos seus homens mais empenho e sacrifícios, ao que mestre Vaz lhe assegurou que fariam para o Infante o mesmo que tinham feito cerca de trinta anos atrás aquando da guerra com Castela: dariam toda a carne da cidade à armada portuguesa e comeriam apenas as tripas. Esse sacrifício valera-lhes mesmo a alcunha de “tripeiros”. Comovido, o Infante D. Henrique disse-lhe então que o apodo “tripeiros” era uma verdadeira honra para o povo do Porto. A História de Portugal registou mais esse sacrifício invulgar dos heróicos “tripeiros” que contribuiu para que a grande frota do Infante D. Henrique, com sete galés e vinte naus, partisse a caminho da conquista de Ceuta.”

Voltando à geosofia portuense, transpondo a Norte a Porta Nobre, de costas para o Santíssimo Sacramento da Sé, atravessando o Arco dos Carros de Bois (e o boi ou Bhumi, em sânscrito, representa a própria Mater-Rhea ou Mãe-Terra) chega-se à Porta de Santana, esta alegórica da Substância Universal geradora da Mãe Soberana, ou seja, de Maria como a mesma Ísis simbolizada por Io, a “Virgem-Novilha” da tragédia grega de Ésquilo, Prometeu Agrilhoado, expressiva da Mónada peregrina pelas artárias do caminho tradicional que leva o seu nome, Itinerário de Io.

A Sul, transpondo a Porta do Sol levando na destra um ramo de oliva (símbolo da Concórdia Universal), o candidato transpõe o Arco do Olival já não na condição de profano mas de Iluminado por seus próprios esforços, onde a perfídia e a mentira morrem na Porta de Nossa Senhora das Verdades.

E tudo concorre para o Centro, para o Omphalos, a Catedral de Vandoma, onde sobre a fachada principal talhada em rococó por Nicolau Nasoni, distingue-se a rosácea gótica com a vieira aureolada de Santiago Maior um pouco adiante. O culto jacobeo é o deste Apóstolo que reza a tradição local teima que pisou Calle. Sobre isso, ter-se-á de recuar quase dois mil anos ao tempo da lenda áurea do Apóstolo Santiago que também foi marinheiro depois de morto, cuja barca coberta de vieiras atracou em Padrón, na Galicia que um dia foi terra portuguesa.

Relacionado com a Sé do Porto está São Basileu (que diz-se ter sido sagrado primeiro bispo do Porto pelo próprio Santiago), um dos sete Discípulos ou Padres Apostólicos ibéricos do Apóstolo, tendo-o auxiliado na sua missão evangelizadora da Hispânia.

A velhinha catedral portuense é um templo basicamente românico, andando, como já disse, ligada às origens do primitivo burgo. Nas traseiras da sacristia ainda subsistem restos de uma capela de Santiago, que foi o primeiro templo da Misericórdia do Porto. No século XVI, com a saída da Misericórdia desse lugar para a Rua das Flores, a capela entrou em abandono. Uma imagem de Santiago ali existente, em madeira policromada, com 1,53 m de altura, parece ter sobrevivido ao abandono, pois passou a figurar na Sé colocada num dos seus seis altares, precisamente o de Santiago Maior. Com o restauro da sé catedral nos anos 30 do século XX, a imagem do Apóstolo foi parar a uma velha arrecadação, e coberta de pó foi recuperada pelo cónego Castro Meireles que a mandou expor à devoção pública. Trata-se, segundo esse sacerdote, da imagem mais importante do culto jacobeo ou santiaguista da cidade do Porto, e no entanto é praticamente desconhecida.

Sé e pelourinho

Sé Catedral e Pelourinho (artístico) do Porto

Na escadaria frontal à entrada no templo, em guisa de corrimão artístico, estão esculpidas duas serpentes ondadas expressivas do tellus-draconis, ou seja, das correntes telúricas que perpassam o subsolo da catedral deixando o subentendido desta ter sido plantada aqui propositadamente a partir de conclusões geomânticas. Cada serpente enrosca-se em três círculos mais um quarto incompleto, possivelmente aludindo às 3 Idades ou Ciclos de Manifestação. A quarta incompleta é mistério porvir, quiçá o fiorentino “Fim do Mundo” coincidente com o “Julgamento Universal dos homens e das nações”… Não falta o bastão para que essas serpentes alegoricamente se enrosquem em volta dele: representa-o o pelourinho no adro adiante da catedral, aí postado colocado em 1945. Assim e figurativamente, revela-se assim o tirso tripeiro, o caduceu de Toth, Hermes ou Mercúrio, o deus mensageiro da Sabedoria Ancestral avatara de Vímara Peres, ainda ele, guarda eterno do edifício sagrado como espécie de São Jorge do Norte, expressão terreal do São Miguel celeste que, aliás, figurava em escultura do século XIX coroando o edifício da Câmara Municipal na Praça da Liberdade.

Ora São Miguel ou Mikael é o Arcanjo do Porto junto com a Virgem da Conceição, preanunciados por São João Baptista. Para os antigos celto-portucalenses seriam Vímara Peres e Vandoma, antropomorfização heroica e pátria dos antiquíssimos deuses iberos Endovélico e Atégina, esta a Grande Deusa-Mãe.

Sussuram certas tradições em segredo, sabidas de escasso escol de Iniciados que além de reservarem o segredo privilegiam-se em secreto, que sob a Sé existe uma vasta cripta secreta ou cerrada (crypta ferrata) onde alguns raros Eleitos da Cavalaria de São João de Malta reuniam-se para “obras maiores reservadas só aos invictos Maiores”, e que dessa cripta partem quatro galerias subterrâneas (que o escritor, poeta e Iniciado Guerra Junqueiro bem conheceu… ficando depois Sampaio Bruno pela suspeita, e os serviços camarários da cidade pela admiração, quando muitos anos depois deram com alguns subterrâneos que atribuíram aos romanos, mesmo não sendo essas as galerias a que me refiro…) comunicando com vários pontos nevrálgicos da cidade: um com a Sala do Capítulo da “Casa do Infante”; outro, passando debaixo do Rio Douro, comunica com o Mosteiro da Serra do Pilar, sítio primitivo do insólito templo votivo do deus Endovélico agora soerguido cristão, cujo esquisso lembra em parte o de Santa Maria Majorem em Roma, que é templo-tumular dos bispos da Igreja do Ocidente antes da de S. Pedro de Latrão ter tido essa função funerária, e este da Serra do Pilar, de planta circular, foi construído em 1598 e teve tendo por detrás, dizem as vozes sussurradas, a mão directora da secretíssima e soberana Ordem de Mariz.

Terminei. Aqui concluo a minha singela homenagem à cidade invicta do Porto a qual, tanto no espiritual como no material, com nobre pujança e alto-relevo galhardeia honras de primazia entre as primeiras de Portugal.

NOTAS

1) Foral dado ao Porto por D. Hugo; e Doações que lhe fez a Sñr.ª D. Tereza e seu Filho o Sñr. D. Affonso Henriques: E também a Carta de Couto da Igreja de Cedofeita, e Confirmações posteriores da mesma. Porto, 1822.

2) Mendes Corrêa, As Origens da Cidade do Porto. Fernando Machado e C.ª Editores, Porto, 1935.

3) Acharam-se algumas pedras lascadas nos arredores da cidade. Todavia, o malogrado dr. Rui Serpa Pinto (1907-1933) não aceitou a sua origem paleolítica e classificou-as como da Cultura Austeriense (Época Mesolítica) em O Austeriense em Portugal, Porto, 1928.

4) Batalha Gouveia, A origem do nome Portugal. Jornal do Incrível, n.º 67, 24 de Fevereiro de 1981.

5) Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2003.

6) Mário Roso de Luna, De Gentes del Outro Mundo. Librería de la Viuda de Pueyo, Madrid, 1917.

7) Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa. Editora Dinalivro, Lisboa, 2011.

8) Pedro Salazar de Mendoza, Monarquia de España, Tomo II. Madrid, 1770.

9) Livro de Prazos da Mitra, fls. 125vº-126vº, Setembro de 1534.

10) António Henrique de Oliveira Marques, História de Portugal. Lisboa, Ed. Palas Editores, s/d mas que presumo ser 1974, data da impressão gráfica.

11) José Hermano Saraiva, História Concisa de Portugal. Publicações Europa-América, Mem Martins, 1978.

12) Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição da Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

13) José Leite de Vasconcelos, Cale e Portucale. Opúsculos, Vol. V – Etnologia (Parte I). Lisboa, Imprensa Nacional, 1938.

14) Pseudónimo do portuense Mário José dos Ramos Rodrigues (1918-1999), in Geografia Sagrada de Portugal, Edições Nova Acrópole, 1997.

15) A divisão clássica em 4 Idades pertence a St.º Agostinho. Se bem que desse a exclusividade aos 3 Tempos, ainda assim Joaquim de Flora acrescentou uma 4.ª e 5.ª Idades, conforme atesta no seu Evangelho do Futuro. Esta idéia paraclética ou messiânica foi depois prosseguida magistralmente, dentre outros, pelo pensamento de Advento através da translatio imperii do Padre António Vieira e de Fernando Pessoa, não esquecendo Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno e Dalila Pereira da Costa, espíritos lúcidos do Norte, para não falar dos saudosos António Telmo e Agostinho da Silva, este provavelmente o principal promotor do ensino superior alavancado nas “Esperanças do Futuro onde Portugal é Espírito Santo determinante dos destinos do Mundo” em universidades de África e do Brasil.

16) Manuel J. Gandra, Martinets de Pasquallys e a Tradição Quinto-Imperial. Edições 70, Lisboa, 1979.

17) À capela de São João Evangelista, gótica, Carlos de Passos atribuiu-lhe também o evocativo de capela de São Martinho.

18) Nesta capela esteve em tempos uma escultura policrómica representando Nossa Senhora de Vandoma, que actualmente encontra-se no transepto direito.

19) Num vitral do transepto meridional da Catedral de Chartres, França, os quatro Profetas transportam aos ombros os quatro Evangelistas, para evidenciarem o facto do Novo Testamento ser superior ao Velho.

20) G. Cesário Leite, A Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa Erecta na Cidade do Porto. Porto, 1939.

21) Francisco Ribeiro da Silva, D. Pedro IV e a Venerável Irmandade da Lapa. In O Tripeiro, Porto, 1999.

22) Sant’Anna Dionísio, Guia de Portugal, volume IV. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1994.

23) Gentil Marques, Lendas de Portugal, Volume II. Edição Círculo de Leitores, Lisboa, 1997.

OBRAS CONSULTADAS

– ALVES, Maria da Conceição Rodrigues, Porto Monumental e Artístico. Edições Asa, Porto, 1983.

– BROCHADO, Abílio Augusto Ferreira da Costa, A Memória do Pampelido. Tip. Leixões, Matosinhos, 1958.

– CORRÊA, Mendes, As Origens da Cidade do Porto. Fernando Machado e C.ª Editores, Porto, 1935.

– COSTA, Padre Agostinho Rebelo da, Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, 1788-1789. Edições Frenesi, Lisboa, 2001.

– COUTINHO, Bernardo Xavier, Documentos e Memórias para a História do Porto – XXXVI. A Igreja e a Irmandade dos Clérigos. Apontamentos para a sua História. Edição da Câmara Municipal do Porto, 1965.

– COUTINHO, Bernardo Xavier, Nicolau Nasoni, Arquitecto da Igreja dos Clérigos, Pintor em Siena, La Valetta e Porto. Edição da Academia das Ciências, Lisboa, 1972.

– FERREIRA, Simão Rodrigues, Antiguidades do Porto. Typographia Lusitana, Porto, 1875.

– GIL, Júlio, e Nuno Calvet, As mais belas igrejas de Portugal – I. Editorial Verbo, Lisboa/São Paulo, 1988.

– IMAGEM, Enciclopédia pela, Porto. Lello & Irmão – Editores. Porto.

– MONTEIRO, António Luiz, Antiguidades Curiosas. Nova Typographia de Silva e Valbom, Porto, 1870.

– PATRÍCIO, Padre Francisco José, Archeologia religiosa: noticia dos ultimos conventos de religiosas no Porto. Livraria Portuense, Porto, 1882.

– PEREIRA, Esteves e Guilherme Rodrigues, Portugal Dicionário Histórico. José Romano Torres-Editor, Lisboa, 1904.

– PEREIRA, Firmino, O Porto d´outros tempos (Notas históricas – Memórias – Recordações). Livraria Chardron, de Lelo & Irmão. Porto, 1914.

– PINTO, J. M., Apontamentos para a História da Cidade do Porto. Porto, 1869.

– REIS, Sousa, Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da Cidade do Porto, I Volume. Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1984.

– RODRIGUES, Carlos Gil e João, Por Caminhos de Santiago (Itinerários Portugueses para Compostela). Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1997.

– SALGUEIRO, A. J., Petit Bouquet ou Preliminar do Livro Prophetico, oferecido a Suas Altezas Reais Príncipe D. Carlos e Princesa D. Maria Amélia pelo autor. Lisboa, 1887.

– VASCONCELOS, Joaquim de, Arte Religiosa em Portugal, Volume 1 de 2. Emílio Biel e Cª Editores, Porto, 1914.

 

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