O Companheirismo e os Boémios – Por René Guénon Quinta-feira, Jun 19 2014 

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Publicado em Voile d´Ísis, Outubro 1928

Num artigo de M. G. Milcent publicado na revista Le Compagnonnage de Maio de 1926 e reproduzido no Voile d´Isis de Novembro de 1927, anotámos esta frase: “O que me surpreendeu e me deixou mesmo um pouco céptico, foi quando o C∴ Bernet disse que preside anualmente, nas Saintes-Maries-de-la-Mer, à eleição do Rei dos Boémios”. Não há muito tempo havíamos feito a mesma observação, porém, não quisemos abordar o assunto. Mas agora que foi apresentado assim tão publicamente, não temos nenhuma razão para não dizer algumas palavras, tanto mais que poderão contribuir para elucidar alguns pontos que não deixam de ter interesse.

Em primeiro lugar, não é um Rei que os Boémios[1] elegem mas uma Rainha, e em segundo lugar essa eleição não se repete todos os anos. O que se realiza anualmente é somente a reunião, com ou sem eleição, dos Boémios na cripta da igreja de Saintes-Maries-de-la-Mer[2]. Por outro lado, é muito possível que alguns, mesmo sem pertencerem à raça boémia mas em razão das suas qualidades ou das suas funções, possam ser admitidos a assistir a essa reunião e aos ritos que então se realizam. Mas quanto a “presidi-los” já é outro assunto, e o mínimo que podemos dizer é que tal parece-nos extremamente esquisito. Porém, como essa afirmação apareceu pela primeira vez numa entrevista publicada há bastante tempo no Intransigeant, queremos acreditar que as imprecisões que contém devem simplesmente imputar-se ao jornalista que, como é costume acontecer, terá forçado a nota para picar a curiosidade do seu público, tão ignorante como ele mesmo no que se refere a estes assuntos, e por conseguinte incapaz de aperceber os seus erros. Assim, não tencionamos insistir mais do que o necessário mais sobre o assunto, pois o verdadeiro interesse reside na questão mais genérica das relações que possam haver entre os Boémios e as organizações do Companheirismo.

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M. Micent, no seu artigo, prossegue dizendo “que os Boémios praticam o rito judeu, e que nisso poderão existir relações com os C∴ Canteiros Estrangeiros do Dever da Liberdade”. A primeira parte desta afirmação parece-nos conter uma imprecisão, ou pelo menos um equívoco: é verdade que a Rainha dos Boémios porta o nome, ou melhor, o título de Sarah, que também é o nome dado à santa que eles reconhecem como sua padroeira, cujo corpo repousa na cripta das Saintes-Maries. Também é verdade que esse título, forma feminina de Sar, é hebraico e significa “princesa”. Mas será isso suficiente para poder-se falar a propósito de um “rito judeu”? Ora o Judaísmo pertencendo a um povo cuja religião é estreitamente solidária da raça, certamente os Boémios, qualquer que possa ser a sua origem, nada têm em comum com a raça judaica. No entanto, apesar de tudo, será possível que tenham existido relações devido a afinidades de ordem mais misteriosa?

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Quando se fala dos Boémios é indispensável fazer uma distinção muito frequentemente esquecida: a de que na realidade há dois tipos de Boémios, que parecem ser absolutamente estranhos entre si e inclusive chegam a tratar-se como inimigos – não têm as mesmas características étnicas, não falam a mesma língua, nem exercem os mesmos ofícios. De um lado estão os Boémios orientais ou Zíngaros, que são sobretudo domadores de ursos e caldeireiros; do outro lado estão os Boémios meridionais ou Ciganos propriamente ditos, chamados “Caraques” no Languedoc e na Provença, sendo quase exclusivamente comerciantes de cavalos, e são estes os únicos que se reúnem em Saintes-Maries. O marquês de Baroncelli-Javon, num curioso estudo sobre os Boémios de Saintes-Maries-de-la-Mer, indica numerosos traços que lhes são comuns com os Peles-Vermelhas da América, e não hesita, em virtude dessas semelhanças e também pela interpretação das suas próprias tradições, em atribuir-lhes uma origem atlanteana. Apesar de não passar de uma hipótese, de qualquer modo é digna de ter em conta. Mas há outra coisa que nunca vimos assinalada em parte alguma e que não é menos extraordinária: tal como há dois tipos de Boémios, também há dois tipos de Judeus, os Ashkenazim e os Sephardim, aos quais podem aplicar-se considerações análogas no que respeita às diferenças de traços físicos, de língua, de aptidões e que ademais nem sempre mantêm as relações mais cordiais, pois cada parte pretende representar por si só o puro Judaísmo, seja no aspecto racial, seja no da tradição. Há, inclusive, no que respeita à língua uma semelhança bastante surpreendente: nem os Judeus nem os Boémios têm, a dizer verdade, uma língua completa que lhes pertença propriamente, pelo menos na do uso corrente. Tanto uns como outros servem-se das línguas das regiões onde vivem, entremesclando algumas palavras que lhes pertencem, hebraicas no caso dos Judeus, e no caso dos Boémios palavras que lhes vêm também de uma língua ancestral da qual são os últimos restos. Estas particularidades podem explicar-se pelas condições de existência de povos forçados a viver dispersos entre estrangeiros. Porém, já é mais difícil explicar o facto das regiões percorridas pelos Boémios orientais e pelos Boémios meridionais serem precisamente as mesmas onde habitam respectivamente os Ashkenazim e os Sephardim. Não será uma atitude demasiado “simplista” aquela que se limita a não ver nisso senão uma pura coincidência?

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Estas considerações levam a pensar que não se tratam de relações étnicas entre os Judeus e os Boémios, mas talvez de outro tipo de relações que, sem necessitar deter-nos na sua natureza, poderíamos qualificar de tradicionais. Tudo isso reconduz-nos directamente ao assunto em pauta, de que não nos afastámos senão aparentemente: as organizações do Companheirismo, nas quais a questão étnica evidentemente não se põe, por isto mesmo não poderiam elas próprias manter relações do mesmo teor seja com os Judeus, seja com os Boémios, seja mesmo com uns e outros ao mesmo tempo? Não temos a intenção, pelo menos de momento, de procurar explicar a origem e a razão dessas relações, contentando-nos em chamar a atenção para alguns pontos muito precisos: não estão os Companheiros divididos em muitos ritos rivais, estando frequentemente de hostilidades mais ou menos abertas? Não comportam as suas viagens itinerários segundo diversos os ritos e com pontos de ligação igualmente diferentes? Não têm elas de algum modo uma linguagem especial, cujo fundo é seguramente formado pela língua corrente mas que se distingue dela pela introdução de termos particulares, tal qual acontece no caso dos Judeus e dos Boémios? Não é certo que se usa o vocabulário “jargão” para distinguir aquela linguagem convencional usada em certas sociedades secretas, particularmente no Companheirismo, tal como às vezes os Judeus o usam para denominar o seu próprio? Por outro lado, em certas regiões rurais os Boémios não são conhecidos pelo nome de “passantes” pelo qual acabam confundidos com os bufarinheiros, que é, como se sabe, uma designação aplicada igualmente aos Companheiros? Finalmente, a lenda do “Judeu Errante” não teria, como muitas outras, origem no Companheirismo?

Sem dúvida poderíamos multiplicar estas interrogações, porém consideramos que as colocadas são suficientes e que as pesquisas dirigidas nesse sentido poderão esclarecer singularmente certos enigmas. De resto, poderá acontecer que nós próprios voltemos ao assunto trazendo ainda algumas indicações complementares. Mas os Companheiros de hoje em dia interessam-se verdadeiramente por tudo que toca às suas tradições?

NOTAS

[1] Ou Ciganos, etnia a que se refere o autor neste estudo (nota do tradutor).

[2] Santas Marias do Mar (Maria Madalena, Maria Salomé e Maria Jacobé), pretexto para a festividade cigana anual, de 22 a 25 de Maio, em honra de Santa Sara ou Kali, celebrada no dia 24 de Maio, cuja imagem negra está na cripta dessa igreja da capital da Camarga, próxima do delta do Rhône e vizinha da cidade de Arles, na Occitânia Provençal, no Sul de França (nota do tradutor).

TRADUZIDO DO ORIGINAL FRANCÊS POR VITOR MANUEL ADRIÃO

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Acerca das Peregrinações – Por René Guénon Segunda-feira, Jun 16 2014 

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Publicado em Voile d´Ísis, Junho 1930

 A recente reimpressão, no Voile d´Ísis, do notável artigo de M. Grillot de Givry acerca dos lugares de peregrinação, faz-nos voltar a esse assunto sobre o qual já fizemos aqui várias referências, como M. Clavelle lembrou na apresentação desse artigo.

Desde já apontamos que a palavra latina peregrinus, donde procede “peregrino”, por sua vez significa “viajante” e “estrangeiro”. Esta simples observação desde logo dá lugar a vários paralelismos bastante curiosos: com efeito, por um lado entre os Companheiros alguns se reconhecem como “viajantes” e outros como “estrangeiros”, o que corresponde exactamente aos dois significados de peregrinus (que além do mais também se encontram também no termo hebreu gershôn); por outro lado, na própria Maçonaria moderna e “especulativa” as provas simbólicas da iniciação são chamadas “viagens”. Além disso, em muitas e diversas tradições os diferentes estados iniciáticos são frequentemente descritos as como etapas de uma viagem, às vezes tratando-se de uma simples viagem que também às vezes poderá ser uma navegação, conforme assinalámos noutras ocasiões. Este simbolismo da viagem parece estar muito mais difundido que aquele da guerra, de que já falámos no nosso último artigo. De resto, um e outro não deixam de apresentar uma certa relação entre eles, que várias vezes chegou mesmo a reflectir-se exteriormente nos factos históricos. Nisto estamos pensando na ligação estreita que na Idade Média existiu entre as peregrinações à Terra Santa e as Cruzadas. Acrescentamos ainda que mesmo na linguagem religiosa mais comum, a vida terrena é considerada como um período de provas frequentemente assimilada a uma viagem, e mesmo muito expressamente qualificada de peregrinação, de que o mundo celeste é a meta, sendo assim identificada simbolicamente à “Terra Santa” ou “Terra dos Viventes”[1].

O estado de “errância”, se assim se pode dizer, ou de migração, é então, de um modo geral, um estado de “provação”, e com efeito observa-se ser precisamente essa a natureza de organizações como o Companheirismo. Por outro lado, o que é verdade para esse respeito para os indivíduos também pode ser, pelo menos em certos casos, para alguns povos considerados colectivamente, sendo um exemplo muito claro disso o dos Hebreus que vaguearam durante quarenta anos no deserto antes de alcançarem a Terra Prometida. Desde já deve-se fazer aqui fazer uma distinção, porque esse estado essencialmente transitório não deve ser confundido com o estado nómada que é normal em certos povos, e mesmo depois de terem chegado à Terra Prometida – e até aos tempos de David e Salomão – os Hebreus foram um povo nómada, porém, esse nomadismo não tinha evidentemente o mesmo carácter da sua peregrinação no deserto[2]. Além disso, pode-se observar um terceiro caso de “errância” que se pode designar com maior propriedade pelo termo “tribulação”, como foi aquele dos Judeus após a sua dispersão e também, parecendo semelhante em tudo, o dos Boémios, mas isso iria levar-nos demasiado longe, pelo que somente acrescentamos que tal caso é aplicável tanto às colectividades como aos indivíduos. Por aqui pode-se perceber como estas coisas são complexas e como podem haver distinções a fazer entre homens que se apresentam exteriormente sob as mesmas aparências, confundidos com os peregrinos no sentido comum do termo, faltando ainda acrescentar o seguinte: acontece que às vezes alguns Iniciados, inclusive “Adeptos”, já chegados à meta, por motivos especiais voltam a retomar essa mesma aparência de “viajantes”.

Porém, voltemos aos peregrinos. Sabe-se que os seus sinais distintivos eram a concha vieira (chamada de Santiago) e o bordão. Este último, que também tem uma estreita relação com a cana do Companheirismo, é naturalmente um atributo do viajante, mas tem outros significados, e talvez um dia dediquemos um estudo especial a esse assunto. Quanto à concha vieira[3], em algumas regiões francesas ela é chamada “creusille”, palavra que se aproxima daquela “creuset”[4], o que nos conduz novamente à ideia das provas, considerada mais particularmente segundo um simbolismo alquímico, e entendida no sentido de “purificação”, a Katharsis[5] dos Pitagóricos, que era precisamente a fase preparatória da iniciação[6].

Sendo a concha vieira tomada muito especialmente como o atributo de Santiago, somos levados a fazer a esse propósito uma consideração respeitante à peregrinação a Santiago de Compostela. As rotas que outrora os peregrinos seguiam eram frequentemente chamadas, e ainda hoje, “caminhos de Santiago”, mas esta expressão tem ao mesmo tempo outra aplicação totalmente distinta: o “caminho de Santiago”, na linguagem campesina, é também a Via Láctea, e talvez isto talvez se perceba se observar-se que Compostela, etimologicamente, não significa outra coisa senão o “campo estrelado”. Nisto encontramos uma outra ideia, a das “viagens celestes”, desde logo em correlação com as viagens terrestres. Este também é um ponto sobre o qual não nos é possível deter-nos presentemente, e somente indicaremos que poderá pressentir-se aí uma certa correspondência entre a situação geográfica dos lugares de peregrinação e o próprio ordenamento da esfera celeste. Nisto, a “geografia sagrada”, a que temos feito alusão, integra-se então numa verdadeira “cosmografia sagrada”.

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Ainda a propósito das rotas das peregrinações, é oportuno lembrar que M. Joseph Bédier teve o mérito de destacar a relação existente entre os santuários que marcam as suas etapas e a formação das canções de gesta. Parece-nos que esse facto generalizou-se, podendo-se dizer a mesma coisa sobre a propagação de uma infinidade de lendas cujo verdadeiro conteúdo iniciático infelizmente é quase inteiramente desconhecido dos modernos. Na razão da pluralidade dos seus significados, os relatos desse género podiam destinar-se simultaneamente à multidão de peregrinos e comuns e… aos outros. Cada um compreendia-os na medida da sua própria capacidade intelectual e somente alguns penetravam o seu significado mais profundo, como ocorre para com todo o ensinamento iniciático. Deve-se também reparar que por mais diversas que fossem as pessoas que percorriam as rotas, incluindo os mercadores ambulantes e até mesmo os mendigos, estabelecia-se entre elas, por razões sem dúvida muito difíceis de definir, uma certa solidariedade que se expressava pela adopção comum de uma linguagem convencional especial, o “argot da Vieira” ou a “língua dos peregrinos”. Coisa interessante, M. León Daudet observa num dos seus livros recentes que muitos dos termos e locuções pertencentes a essa linguagem encontram-se em Villon e em Rabelais[7], e a respeito deste último também indica, facto digno de ser destacado nesta perspectiva, que durante muitos anos “ele peregrinou atravessando o Poitou, província célebre pelos mistérios e pelas farsas que então ali se interpretavam, e também pelas lendas que corriam nela, encontrando-se no Pantagruel vestígios dessas lendas, dessas farsas e um certo número de vocábulos próprios dos habitantes do Poitou”[8]. Citamos esta última frase porque, além de fazer menção às lendas de que falámos atrás, destaca ainda uma outra questão relacionada com o que aqui é tratado, ou seja, a das origens do Teatro: desde logo, por um lado ele foi essencialmente ambulante, e por outro revestiu-se de um carácter religioso, pelo menos nas suas formas exteriores, carácter religioso esse destinado a aproximar daquele os peregrinos e as pessoas que assumiam a sua aparência. O que dá ainda mais importância a este facto é ele não ter sido particular à Europa da Idade Média, pois a história do Teatro na Grécia antiga é inteiramente análoga, podendo-se também encontrar exemplos similares na maioria dos países do Oriente.

Não querendo alongar-nos, abordaremos somente ainda um último ponto a propósito da expressão “nobres viajantes” aplicada aos iniciados, ou pelo menos a alguns deles, precisamente pelo motivo das suas peregrinações. A este respeito, M. O. V. de Milosz escreveu o seguinte: “Os “nobres viajantes” era o nome secreto dos iniciados da Antiguidade, transmitido por tradição oral àqueles da Idade Média e dos tempos modernos. Foi pronunciado pela última vez em público a 30 de Maio de 1786, em Paris, no decurso de uma sessão do Parlamento dedicada ao interrogatório de um célebre imputado (Cagliostro), vítima do panfletário Théveneau de Morande. As peregrinações dos iniciados não se distinguiam das viagens de estudo comuns senão pelo facto do seu itinerário coincidir rigorosamente, sob a aparência de um trajecto aventuroso, com as aspirações e aptidões mais secretas do Adepto. Os exemplos mais ilustres dessas peregrinações são-nos oferecidos por Demócrito, iniciado nos segredos da Alquimia pelos sacerdotes egípcios e pelo mago Ostanes nas doutrinas asiáticas durante a sua estadia na Pérsia, e, segundo alguns historiadores, na Índia; Thales, formado nos templos do Egipto e da Caldeia; Pitágoras, que visitou todos os países conhecidos dos antigos (e muito possivelmente a Índia e a China), cuja estadia na Pérsia foi marcada pelos seus encontros com o mago Zaratas, na Gália pela sua colaboração com os Druidas, e finalmente na Itália pelos seus discursos à Assembleia dos Ansiães de Crotona. A esses exemplos convém acrescentar as estadias de Paracelso em França, Áustria, Alemanha, Espanha e Portugal, Inglaterra, Holanda, Dinamarca, Suécia, Hungria, Polónia, Lituânia, Valáquia, Carniola, Dalmácia, Rússia e Turquia, assim como as viagens de Nicholas Flamel em Espanha, onde o Mestre Canches ensinou-o a decifrar as famosas figuras hieroglíficas do Livro de Abraham, o Judeu. O poeta Robert Browning definiu a natureza secreta dessas peregrinações científicas numa estrofe singularmente rica de intuição: “Vejo o meu rumo como a ave a sua rota sem rasto; algum dia, um dia feliz, chegarei. Ele me guia, ele guia a ave”. Os anos de viagem de Wilhelm Meister possuem o mesmo significado iniciático”[9]. Achámos oportuno reproduzir inteiramente essa passagem, apesar da sua extensão, pela razão dos vários exemplos interessantes que contém. Sem dúvida podem-se encontrar muitos outros mais ou menos conhecidos, porém esses são particularmente característicos, apesar de talvez não se reportarem todos ao mesmo caso que assinalámos mais atrás, não se devendo confundir as “viagens de estudo”, mesmo quando são realmente iniciáticas, com as missões especiais dos Adeptos ou mesmo de certos iniciados de menor grau.

Voltando à expressão “nobres viajantes”, queremos sobretudo chamar a atenção para o epíteto “nobres”, que parece designar não toda a iniciação indistintamente mas propriamente uma iniciação de Kshatriyas[10], ou aquela que se pode chamar de “Arte Real”, segundo o vocábulo conservado até aos nossos dias pela Maçonaria. Em outras palavras, tratava-se então de uma iniciação relacionada não com a ordem metafísica pura mas com a ordem cosmológica e as aplicações que se ligam a tudo que, no Ocidente, é entendido sob a designação geral de “Hermetismo”[11]. Se isso é assim, então M. Clavelle tem toda a razão quando diz que enquanto São João corresponde ao ponto de vista puramente metafísico da Tradição, São Tiago corresponderá sobretudo ao ponto de vista das “ciências tradicionais”, e mesmo sem evocar o paralelismo, apesar de bastante plausível, com o “Mestre Jacques” do Companheirismo, vários indícios concordantes tendem a provar que essa correspondência é efectivamente justificável. É precisamente a este domínio, que se pode qualificar de “intermediário”, que com efeito se refere tudo o que tem propagado por via dos peregrinos, como também pelas tradições do Companheirismo e aquelas dos Boémios. O conhecimento dos “Pequenos Mistérios” que é aquele das leis do “Futuro”, adquire-se percorrendo a “Roda das coisas”, mas o conhecimento dos “Grandes Mistérios que é aquele dos Princípios imutáveis, exige a contemplação imóvel na “Grande Solidão” do ponto fixo que é o Centro da Roda, o Pólo invariável em torno do qual se cumprem, sem que ele participe, as revoluções do Universo manifestado.

NOTAS

[1] No que respeita ao simbolismo da “Terra Santa” remetemos para o nosso estudo sobre o Rei do Mundo, e também para o nosso artigo no número especial do Voile d´Ísis consagrado aos Templários.

[2] A distinção entre povos nómadas (pastores) e sedentários (agricultores) que remonta às próprias origens da Humanidade terrestre, é de grande importância para a compreensão das características especiais das diferentes formas tradicionais.

[3] Veneris, em espanhol, donde o termo latino venerabilis, “venerável”, e até se encontrando nela o símbolo estelar de Vénus (nota do tradutor).

[4] Crisol, em português (nota do tradutor).

[5] Catarse, em português (nota do tradutor).

[6] Pode-se indicar aqui tudo quanto dissemos em O Rei do Mundo acerca da indicação dos iniciados, em diversas tradições, mediante termos reportando-se à ideia de “pureza”.

[7] Os Horrores da Guerra, pp. 145, 147 e 167.

[8] Idem, p. 173.

[9] Os Arcanos, pp. 81-82.

[10] Guerreiros, cavaleiros, a casta nobre ou Nobreza englobando a Realeza medieval (nota do tradutor).

[11] Sobre a distinção das duas iniciações sacerdotal e real, remetemos para o nosso último livro Autoridade Espiritual e Poder Temporal.

TRADUZIDO DO ORIGINAL FRANCÊS POR VITOR MANUEL ADRIÃO

 

 

Maria Madalena (a santidade prostituída) – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Jun 5 2014 

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Sintra, 20.3.2005

Se há “calcanhar de Aquiles” no corpus teológico da Igreja Católica, ele só poderá   chamar-se Maria Madalena. É a personagem mais controversa do santoral cristão e o que foi e originou é algo, repito o que venho dizendo há tantos anos, capaz de abalar e derruir essa mesma Igreja pelos seus alicerces. Por isso a temem, e temem-na por ser a própria expressão hagiográfica e iconográfica da tão propalada como mal-entendida “Linhagem Sagrada do Santo Graal”, ademais e também representação da Apóstola dos Apostólos canonicamente investida, da Hierofantisa em que se retêm os Mistérios do Cristo, por um lado, e por outro do laico espírito livre da Mulher, estando tudo isso reunido na sua pessoa expressiva do “Eterno Feminino” junto ao Homem como expressão directa, pentecostal ou revelada do Espírito Santo, que é Sabedoria, Amor e Iluminação. Estes predicados contêm-se em Maria Madalena, a Santa Mulher pervertida “santa prostituta”, mesmo que “arrependida” ainda assim ostracizada, pela própria Igreja de Roma, avessa à do Amor ou Livre, esta que teve a sua maior expressão em Portugal e a quem o Real Convento de Mafra, enttre os séculos XVIII e XIX, serviu de abrigo seguro aos seus mais insignes pensadores e místicos do tempo, Casa de Deus, Domus Dei levantada à imagem e semelhança do primitivo Templo de Salomão mas aqui destinado à Parúsia Universal, ao tempo do Advento de uma Nova Idade que se quer V Império do Espírito Santo, unindo a “Velha Lusitânia” à “Nova Lusitânia”, no dizer de Pedro de Mariz, ou seja o Brasil.

Servindo de pretexto um certo Código de Da Vinci, sucesso literário com vários milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, romance ou “novela de cordel” que desaprecio sobretudo por ser decalcado de outras obras muitíssimo mais sérias e criteriosas que o seu autor não cita mas plagia e perverte ao sabor da aventura novelesca, mas que também aprecio quando obriga a Igreja a repensar Maria Madalena, como pressuposta esposa do próprio Jesus e já dita Apóstola dos Apóstolos (esta tradição é corrente no meio sinagogal de Jerusalém, e por isso o dito autor não fez senão “descobrir a pólvora”, antes, a “galinha dos ovos de ouro”, que, contudo e sem o saber, favorece a Tradição Iniciática e o Portugal Hermético, direi assim), dizia, servindo esse livro de pretexto acabo de presenciar, nesta data de 20.3.2005, na televisão um concilium inquisitorium reunido em mesa censória de dignitários da Igreja romana discutindo e censurando essa obra à porta fechada na… Biblioteca do Real Convento de Mafra. Chama-se a isso “atacar o ‘Mal’ na fonte”; chama-se a isso “descaramento não disfarçado”, mas também e sobretudo… medo! Sim, o velho medo que Maria Madalena inculca na consciência de Roma, a “babilónia do Ocidente” ameaçada de morte – mercê dos seus crimes de prostituição, homossexualidade e pedofília  que têm pervertido o sacerdócio de alter Christus em  inferius satanicus – pela “Senhora cheia de Graça” (Repanse de Schoye).

Não comentarei os queixumes (injustos…) desses pobres vigários apontando a sua “Igreja como eterna perseguida”, e que os “maiores malfeitores foram sempre os Magos, como já as próprias Escrituras se queixam”. Mas, a ir-se por aí, terei a replicar que foram os Magos Reis, isto é, Adeptos da Magia Real, os primeiros a adorar e proteger o Menino-Deus, como descreve o próprio Apóstolo Lucas!.. Mas logo os ilustres vigários, em alta berraria mal disfarçando o “amargo de boca” e nada disfarçando o descontrole emocional, reiteraram “perdoar aos ofensores”, porque, aumentando mais ainda a berraria, a “Igreja é toda Amor”… Pois sim, quão amorosa foi a sua “Santa” Inquisição cujos actos caridosos enviaram milhares de desgraçados e desgraçadas para os “anjinhos” através da tortura e da fogueira, a maioria só por pensar diferente do Eclesiástico possuído da eterna mania de ser “dono da verdade absoluta e só a verdade absoluta ser ele e o que resta, se resta, não passar de quimera e paganismo pecador onde se incluem todas as demais religiões tradicionais e correntes de Tradição”, vício secular nascido da arte e manha de conseguir conseguir apropriar-se de políticas estatais e respectivos governos, por vias de conflitos armados e conspirações sombrias, até ela mesma tornar-se “religião de Estado”, com uma catequese a mais filodoxa ou incoerente possível, inclusive no aspecto humanitário extensivo ao político-social. Tampouco comentarei os ainda presentes “autos-de-fé” de recambiar para o “Índex” proibitivo quantas obras artístico-culturais pareça ameaçar a catequese da sua teologia. Poderia citar vários exemplos recentes, não só com esse livro mas também com outros, não esquecendo filmes, pinturas, esculturas e músicas. Mas não o farei, ainda que, a despeito de tudo, esse concilium inquisitorium tenha se reunido sobre o “sol dourado” da Razão no solo literário da maior Biblioteca do Mundo de livros proibidos, declaradamente ocultistas ou hermetistas, dos primeiros séculos do Pensamento greco-romano ao Iluminismo europeu do século XVIII. Muitas dessas obras descrevem a saga de Santa Maria Madalena ao Ocidente, e vários dos altares laterais do Templo igualmente o fazem. Por isso chamei não anacronismo mas intenção não disfarçada de “atacar o ‘Mal’ no seu reduto ou fonte”, nesta Casa não por poucos eclesiásticos considerada “igreja de sarracenos”, isto é, de hereges, sim, por ser Domus Dei Fidelis ou IGREJA DOS FIÉIS DE AMOR plantada à beira da Montanha Sagrada de SINTRA… onde tudo começou e onde tudo haverá de desfechar, para Maior Glória do Género Humano.

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Resta-me esperar para ver o efeito do que, em termos ocultistas, se chama “choque de retorno”, pois que esses senhores ao plantarem-se sobre o Sol do Esclarecimento tomando atitude absolutamente contrária – medievalista e reaccionária crendo que ainda estão no período do Estado Novo quando a Igreja romana dominava tudo e todos por só ela ser a única e exclusiva detentora da verdade a que ninguém mais tinha direito, e se algum direito sobrava para quem se revoltava contra esse estado de coisas, era o de ser “graciosamente” recambiado para alguma prisão política por ordem do Clero junto do Governo de Salazar e de Caetano – encadearam-se psicomentalmente ao “Cone da Lua”, à “Zero Dimensão” ou o “Baixo Astral” que é o “Inferno” teológico, atraindo o contrário ou a sombra funesta de MAFRA que é RAFAK (ARFAK), aquela para a IGREJA DO AMOR, a Grande Loja Branca, esta para a IGREJA DA MORTE, que tanto vale por Grande Loja Negra.

fogo astral

Não resta dúvida que a mentalidade eclesiástica mantém-se igual a si mesma através dos séculos, medievalista e não progressista, hoje mais do que nunca temerosa quanto ao futuro do seu império temporal. de domínio das riquezas e das almas. Aparte o povo inculto de fé cega, não esclarecida, simples mas sincero na sua ingenuidade que perfaz o número maior do séquito da Igreja que, como Estado soberano, o Vaticano, necessariamente defende os seus próprios interesses temporais, mantendo catequese afim em todas as partes do mundo onde esteja, todos sabem que a escritura dos evangelhos canónicos é muito posterior ao período da vida de Jesus tendo sido realizada por via dos discípulos de S. Paulo, que não conheceu o Senhor pessoalmente, logo, são coevos da maioria dos evangelhos ditos gnósticos, depois heréticos e apócrifos.

Com efeito, os títulos dos evangelhos não provêm dos evangelistas, porque antigamente não se costumava exornar as obras históricas com os nomes dos autores; remontam, todavia, aos tempos dos Padres Apostólicos, e tanto assim que já os conhecia o autor do Fragmento Muratoriano (2.º século), bem como Santo Irineu (+ 202) e Clemente de Alexandria (+ 217). Os três primeiros evangelhos, ainda que literariamente autónomos e independentes, por apresentarem concordância no conteúdo e exposição, foram recebidos no cânone do Novo Testamento com um quarto evangelho, o de S. João, posterior. No intuito de pôr em relevo essa concordância, traçou-se um paralelo sistemático entre os três primeiros textos evangélicos dando em resultado uma interessante sinopse. Daí, vieram a chamar-se esses escritos de “evangelhos sinópticos”, e os seus autores, “os sinópticos”.

Os evangelhos gnósticos faziam parte da mesma corrente de tradição que os sinópticos, estes, mesmo assim, só aceitos oficialmente no século IV, quando do Concílio de Niceia, que afirmou decisivamente a Igreja como uma “religião de Estado” com sede definitiva em Roma, ou seja, quando Silvestre e Constantino firmaram a união entre o Papa e César e a corrente Gnóstica passou a ser marginalizada pelo novo cânone, quando não perseguida de maneira implacável. Esse foi um contrassenso total, visto a corrente Gnóstica, que quer dizer Sabedoria Perfeita, tanto valendo por Teosofia, ser a postulada por Jesus Cristo que a ensinou aos Apóstolos, a qual havia recebido dos Essénios agregados em comunidades religiosas, autónomas do poder estatal de Jerusalém, instaladas ao longo das margens do Mar Morto, cuja fundação histórica atribui-se a Zadock, 1.º Grão-Sacerdote do Templo de Salomão, junto dos quais Jesus terá aprendido as primeiras letras sacras. Por sua parte, a corrente Essénia deu os primeiros eruditos cristãos que, depois e por influência grega aliada à Mística judaica, seriam chamados Gnósticos ou Perfeitos, como os consignam vários Padres Apostólicos nas suas cartas epistolares às diversas igrejas locais (Santo Irineu, São Clemente de Alexandria, São Timóteo e ainda Jâmblico, dentre outros).

Havia, pois, um conhecimento público ou popular (catequese e confissão dos simples) e uma sabedoria reservada ou restrita (teologia e perfeição dos sábios) para se entender e promulgar o Cristianismo. Isso mesmo é explícito e claro nos evangelhos sinópticos: “E quando se achou só, os que estavam junto dele com os doze apóstolos o interrogaram acerca do sentido desta parábola. Ele disse-lhes: A vós é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas, para os que estão de fora, todas estas coisas se dizem por parábolas”. E mais adiante: “Assim, lhes anunciava a Palavra por muitas parábolas semelhantes, conforme os que eram capazes de o ouvir. Ele não lhes falava senão por parábolas, mas quando estava em particular explicava tudo aos seus discípulos” (Marc. IV, 10, 11, 33, 34; Mat. XIV, 11, 34, 36; Luc. VIII, 10). E mesmo com os discípulos mostrava a reserva que, como se verá adiante, não tinha com Maria Madalena: “Muitas coisas tinha ainda que vos dizer, mas estão muito acima do vosso alcance” (Jo. XVI, 12).

Orígenes viria a servir-se dessas palavras para fazer alusão ao ensinamento secreto mantido pela Igreja, ou seja, a Gnose. S. Clemente de Alexandria declara que a Gnose “comunicada e revelada pelo Filho de Deus é a Sabedoria… Ora, a Gnose é um depósito que chegou a alguns homens por transmissão: ela tinha sido comunicada oralmente pelos Apóstolos” (Stromata I, VI, cap. VII). E adianta: “O homem familiarizado com todos os géneros de Sabedoria será o Gnóstico por excelência” (Stromata I, VI, cap. XIII), rematando: “O Apóstolo, distinguindo a fé ordinária da Perfeição gnóstica, chama à primeira a fundação e, às vezes, o leite” (Stromata I, XII, cap. IV).

Consequentemente, como os quatro evangelhos sinópticos fazem parte de inúmeros outros remetidos à heresia, verifica-se haver inúmeros “hiatos” nas suas narrativas os quais só encontram comutação nos textos dos vários postos à margem. Trata-se de algo assim como um “puzzle” completo a quem retiraram várias peças, com o resultado de ficarem decididamente incoerentes.

Mesmo assim, a Igreja faz celebração do que não vem em parte alguma dos “evangelhos canónicos” e só exclusivamente nos “evangelhos apócrifos”, mais precisamente no Protoevangelho de Santiago, texto adaptado e resumido no escrito do século IX, e no Livro da Natividade de Maria: a Assunção da Virgem Maria.

Com efeito, se são numerosos os textos apócrifos que ressaltam a personalidade de Maria como mãe do Menino Jesus – e com um grau de protagonismo muito maior que nos evangelhos canónicos – são ainda mais numerosos os que incidem nesse acontecimento que o Novo Testamento nem sequer menciona, ou seja, o Trânsito ou Dormição da Virgem, a sua morte e a sua proclamada Assunção à Glória em corpo mortal, para que ele não padecesse a decomposição ou corrupção corporal igual a outros humanos defuntos, que assim não alhearia a santidade do pecado mortal. Isto vale pelo Mistério da Transubstanciação da Carne em Espírito, a desintegração molecular pura e simples como efeito da antimatéria sobre a matéria, algo assim como um “Sol Negro” engolir um “Sol Branco” e respectivo Sistema.

Detenhamo-nos um instante sobre a palavra Assunção, que parece definir de modo ortodoxo o que, nos outros escritos, aparece mencionado como Adormecimento, Dormição ou Trânsito da Virgem e que se diferencia essencialmente da Ascensãocom que se define a subida do Filho aos Céus. Quando é mencionada nos primeiros tempos, muito especialmente nas cópias que se conservaram desses apócrifos assuncionistas, a palavra aparece escrita uma vezes como Adsuntio Sanctae Mariae(in Codex Silensis Secundus), e outras vezes como Assumptio Sanctae Mariae. Curiosamente, em latim não existe nenhuma destas acepções com o sentido que a ortodoxia quis-lhe dar. Adsuntio não é mais que um arcaísmo de Assumptio e esta palavra tem significados distintos, a maioria deles cultos e próprios da expressão filosófica e, sobretudo, da lógica, como antecedente de um silogismo. Em linguagem processual, expressa a acção de apropriar-se de algo ou de usurpar uma função, ou seja, algo assim como um equivalente jurídico do termo assumir (ou, excepcionalmente, assunção, tal como se emprega ainda hoje, apesar de muito raramente). Unicamente os autores eclesiásticos, tendo à sua dianteira S. Jerónimo, foram quem associaram esse termo ao sentido que actualmente se lhe dá na Igreja, como próprio da subida ao Céu da Virgem Maria.

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Essa usurpação indesmentível dos textos apócrifos e consequente fantasia do Mistério da Transubstanciação, de maneira a melhor encantar as massas populares, eternas devoradoras de estórias sobrenaturais que por serem mistério descarecem de explicação ficando-se pelo deleite lúdico, mas não nos esquecendo que só no século V, no Concílio de Maçom, Maria foi reconhecida “Mãe de Deus” e a Mulher, por consequência, então ganhou o direito efectivo “a ter alma”, dizia, essa usurpação e deturpação do Mistério acabou, segundo entendo, por retirar a assunção ou direcção da Ala Feminina da Igreja ou Asembleia a Maria, consorte de Cristo Deus, Mater Dei desde logo Theotokos ou Christotókos – o “Verbo testemunho de Cristo” –, função que assume com a descida do Espírito Santo como Fogo, acto do Pentecostes. Ele que antes descera sobre o Pantocrator mergulhado na Água baptismal. Fogo e Água, ambos Baptismos – Sacramentos de Espírito Santo – cujo encontro ou fusão ir-se-á fazer pela Consorte de Cristo Homem: Maria Madalena, “porta-voz” de Maria a Mãe, consequentemente, bem merecendo o título de Odighitria, “Aquela que indica o Caminho” às “mulheres de Jerusalém”, início do Marialis Cultus.

Poderá se objectar: como poderia ser Maria Madalena personagem tão distinta se não passava de uma prostituta que se arrependeu diante do Salvador, ungindo os seus pés com bálsamo e secando-os com os cabelos, portanto, uma mulher ordinária, vulgar? Ainda hoje se diz, na vox populi, “chorar como uma Madalena arrependida”…

Poderei opor: em nenhuma parte dos evangelhos se escreve que Maria Madalena fosse prostituta. S. Gregório I, o Magno (c. 540 – 12.3.604), na sua compilação dos Sete Pecados Capitais, feita a partir das oito tentações descritas pelo monge Euagrios Pontikos dois séculos antes, e a Igreja Latina, que a celebra a 22 de Julho, é que a identificaram à pecadora anónima de S. Lucas (VII, 36-50) e a Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro. Um capítulo antes de falar de Madalena ou Magdala (cidade da Galileia), Lucas alude a uma mulher que ungiu a Jesus. No evangelho de Marcos há uma unção parecida por parte de uma mulher cujo nome não se indica. Nem Lucas nem Marcos identificam explicitamente essa mulher como sendo Maria Madalena. Porém, Lucas diz tratar-se de uma “mulher caída”, de uma “pecadora”. Comentadores e exegetas posteriores supuseram que fosse Madalena, dado que, segundo parece, tendo saído dela “sete demónios” (no texto grego: “sete génios, sete forças”, algo assim como os sete atributos da Energia Criadora latente no Homem a que os hindus chamam Kundalini) só poderia ser uma pecadora. Baseando-se nisso, a mulher que unge a Jesus e a Madalena foram consideradas a mesma pessoa. Na realidade, é possível que a fossem. Se Maria Madalena tinha a ver com um culto pagão, marginal ao dos fariseus e saduceus da capital Jerusalém onde estava o grande Templo, possivelmente essénio já na época ostracizado, certamente por isso haveriam de convertê-la numa “pecadora” aos olhos não só de Lucas, mas também dos autores posteriores.

A verdade é que as crenças essénias andavam próximas das fenícias no tocante à astrolatria e, ao tempo de Jesus, os cananeus davam o nome da deusa fenícia Astarte às prostitutas e às hereges, estas as mulheres contestadoras do ministério oficial exercido pelos levitas junto do povo. Recebiam o dito epíteto ou um outro por quem também se conhece Astarte: Astoreth, feminino de Astaroth, o “deus da perdição”, na realidade, o Deus da Inteligência, das “diáblicas interjeições mentais” que obrigam à Pureza e à Inteligência, ou seja, à posse efectiva da Gnose.

Se Madalena era uma pecadora, está muito claro que também era algo mais que a prostituta vulgar da tradição popular. Salta à vista que era uma mulher de bens. Diz Lucas, por exemplo, que entre as suas amizades se contava a esposa de um alto dignitário da corte de Herodes e que ambas as mulheres, juntas com várias outras, utilizavam os seus recursos económicos para apoiar Jesus e os seus discípulos. Também a mulher que ungiu a Jesus era pessoa de posses. No evangelho de Marcos insiste-se que o unguento aromático que ela utilizou no ritual era muito caro.

Madalena, por vezes a “mulher anónima”, é quem acompanha Jesus na Morte e quem testemunha a sua Ressurreição. Na função de ungir com ricos e raros óleos ao Salvador, de todos a única com autoridade para isso, e sendo esse um Rito de Passagem, então ela faz papel psicopompo, o que testemunha a sua presença na Morte e Ressurreição. É, pois, a Odighitria, função que prossegue após a Ascensão de Cristo aos Céus, instruindo os Apóstolos nos mistérios da doutrina que o Senhor confiara só a ela e a João. Ademais, a unção era a prerrogativa tradicional dos reis sagrados por ela, neste caso, a do Messias legítimo, ou seja, do Ungido, palavra esta que traduzida do grego, dá exactamente Cristo (Kristós e Christus, em grego e latim). Disto se depreende que Jesus se converteu num Messias autêntico em virtude da sua unção. E a mulher que o consagra em tão augusto papel impossivelmente poderá ser insignificante. Tanto mais que seria associada à Torre da Fé como coluna ou suporte da acção pastoral sobretudo no Ocidente europeu, onde o sobrenome da sua origem galileia, Magdala, foi associado ao diminutivo hebraico Migdal, significando precisamente Torre.

Em todo o caso, fica claro que Madalena, até ao final do ministério de Jesus, era figura de grande importância. Nos três evangelhos sinópticos o seu nome encabeça constantemente as listas de mulheres que seguiram Jesus, do mesmo modo que Simão Pedro encabeça as listas dos discípulos masculinos. Isso tem a ver com as duas Alas do primitivo Movimento encetado por Jesus Cristo, assim dispostas:

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Se fosse hoje, a essas Alas se chamaria a das Filhas de Allamirah e a dos Filhos de Akbel, segunda a estrutura interna da Ordem do Santo Graal, que se interiorizou ou ocultou e ficou só a Igreja de Roma, com a secularização desta e a sua cada vez mais notória queda espiritual e consequentemente psicossocial.

Esse binómio também explica o “antagonismo de Pedro em relação a Madalena”, se alguma vez o houve, e igualmente o facto de Madalena ser confundida com João, o “discípulo amado”.

Denota-se ao longo dos evangelhos sinópticos que Jesus instrui e ama Madalena como se sua esposa fosse, porque “Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será retirada” (Luc. 10, 38-42). O mesmo encontra-se na Pistis Sophia, a “bíblia” gnóstica, mas de maneira mais frisante: “Sucedeu, quando Jesus acabou de falar aos seus discípulos, que Maria Madalena se adiantou e beijando-lhe os pés disse: `Meu Senhor, tem paciência comigo e não te aborreças se te interrogo. Mostra-nos a tua misericórdia, meu Senhor, e revela-nos todas as coisas que te perguntamos´.” (Livro II, cap. 98). “Quando Maria Madalena disse isto, Salomé aproximou-se de Maria e abraçou-a de novo, dizendo-lhe: `O Salvador tem a faculdade de fazer-me entender, como faz contigo´. E aconteceu que, quando o Salvador escutou as palavras de Maria, lhe chamou Imensamente Bendita.” (Livro II, cap. 132).

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Tudo quanto expus até aqui e o mais que se seguirá, desmente cabalmente os doutos vigários do concilium inquisitorium na noite soturna de Mafra, quanto a afirmarem que os “hereges” acaso discordarão dos factos apresentados pela Igreja mas sem nunca contestarem as palavras dos evangelhos. Ora, em abono da verdade, declaro que o “herege” escritor destas linhas contesta tanto os factos como as palavras. Estas deturpadas do seu sentido original em centenas de traduções e interpretações que se têm feito da Bíblia, começadas com a transposição do aramaico ao grego e daqui, por S. Jerónimo, à vulgata latina, até chegar à versão autorizada do rei Jaime I de Inglaterra, de 1611, que é a utilizada actualmente pela maioria, senão a totalidade, dos movimentos evangélicos carismáticos, a qual foi o ponto de partida para cada país fazer a tradução bíblica na sua língua respectiva.

Além da última citação feita a Lucas, há vários outros indícios claros apontando Myriam Ben Magdala como esposa do homem Jesus, Jeoshua Ben Pandira, levando em conta que as Bodas de Caná poderão ter sido as suas, e o versículo 61 do evangelho de S. Tomé: “Disse Maria: Quem és tu, ó Homem? Como saído de Um só? Tu que usavas a minha cama e comias à minha mesa?”. Ou então as palavras flagrantes do evangelho de S. Filipe, 63:31: “E a companheira do Salvador é Maria Madalena. Cristo a amava mais que a todos os discípulos e beijavam-se na [boca]constantemente. O restante dos discípulos se ofendia com isso e manifestava desaprovação. Diziam-lhe: `Porque a amas mais que a nós outros?´ O Senhor replicava-lhes dizendo: `Porque não vos amo a vós como a ela?’” Também na Imitação de Cristo, de Tomás de Kêmpis (1379-1471), há algo parecendo indicar o autor conhecedor deste mistério ocultado pela própria Igreja, quando diz no Livro Segundo, VIII – A amizade familiar com Jesus: “Não vês como se levantou logo Madalena do lugar em que chorava, quando Marta lhe disse: `O Mestre está aqui e chama-te?’”  Nos vectores pictórico e escultórico, há uma significativa pintura vitral, datada de 1906, de Stephene Adams, na igreja de Kilmore, na Escócia, onde se vê Jesus e Madalena de mãos dadas como esposais enamorados.

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Há ainda aquele trecho do Livro dos Evangelhos depositado em Biblioteca Jina (Secção VII – Códice VIII) que relata as palavras de Jeoshua à “mulher adúltera” (inteiramente ignoradas pela Igreja):

“Retira o punhal que atravessa o teu coração, mulher arrependida. Tu estás salva, porque acreditaste em Mim, nas minhas Palavras que, em verdade, são de meu Pai. Não há pecado que não se apague com a esponja do arrependimento e da razão. Em verdade, em verdade te digo, mulher de Cafarnaum! Que teu coração está dentro do Meu, estando dentro do de meu Pai. Nada digas a ninguém. Caminha sem olhar para trás. E vive feliz com a tua consciência. Se ainda o amor quiser tomar posse de ti, busca um filho, seja teu ou de outra, mas cuida dele, como se fora o teu próprio arrependimento, o teu próprio coração.”

Maria Madalena, na interpretação mística, revela-se a Alma. Nesta é que se processa toda a evolução, pois o Espírito é alimentado por ela e o Corpo a ela suporta. Sendo Alma, participa da natureza espiritual (esposa, esposal) e da natureza material (prostituta, antes, prostituída). A Igreja preferiu esta última, mesmo sabendo-a falsa. Tornou Madalena referência exclusiva da mulher perdida que se reacha no arrependimento e salvação na Igreja. Com isso, o Direito Canónico da Igreja Latina impôs o celibato sacerdotal a partir de 1123 (propagado devido à posterior campanha celibatária de Tomás de Aquino (1225-1274), talvez para castrar os insaciáveis apetites sexuais dos ministros da sua Igreja, do pároco ao bispo), argumentando com a pior e mais literal interpretação do espírito ortodoxo judaizante referente à mulher promanado em algumas epístolas de S. Paulo, assim  reduzida à condição servil da Igreja por incondição varonil do seu ministério. Por este motivo medievalista descontextualizado do Cristianismo original, é que os nossos santos padres da mesa censória mafrense em breve saltaram do livro maldito para o maldito preservativo… por o sexo ser coisa impura e diabólica. Pois seja, mas então eles terão nascido da impureza diabólica, ou não teriam almas reveladas tão polutas com tudo isso renegando e até amaldiçoando, mesmo que indirectamente, em primeiro lugar aos próprios progenitores.

A tudo o dito se liga a pressuposta Linhagem Secreta de Jesus-Madalena e de sua suposta filha Sara Magdala, a “Negra”, antes, a “Morena”, como fui o primeiro a revelar nos anos 70-80 do século passado e aqui repito, a qual na Idade Média seria correlacionada à mítica fada-sereia Melusina de um nobiliárquico conto encantado, a qual também se chamou Lusina e foi geradora sobrenatural da Linhagem Lusignan, esta que parece ter andado de relações com os Saxe Coburgo-Gotha, se der fé à tradição franco-germânica dos Chevaliers au Cygne – “Cavaleiros do Cisne” – cantados e prosados nos lais medievais, herança da tradição céltica do Norte (veja-se o Nascimento de Conchobar, canção de gesta alusiva ao lendário rei do Ulster, e o conto irlandês Os Filhos de Finn, narrando a relação deste com uma fada que queria tomar o seu reino), que depressa chegou a Inglaterra e tomou forma no tema cavaleiresco da Távola Redonda e da fada Morgana, irmã encantada do druida Merlim, tema esse já cristianizado (nele o Celticismo de Merlim funde-se no Cristianismo de Artur) e onde a sempre presente fada Melusina acaso poderá ser a expressão romanceada da Apóstola Madalena.

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A Lenda de Dourada, de Jacobo Vorágine (1230-1298), obra medieval reunindo todas as tradições bíblicas ou tão-só cristãs chegadas à Europa, descreve precisamente a diáspora apostólica da Linhagem Sagrada desde a Terra Santa ao continente europeu, e se tudo isso não passa de simples imobiliário de lendas sagradas sem outro fundamento, então, por exemplo, a Igreja terá de reformular a sua posição oficial relativa à pressuposta chegada de Santiago Maior numa barca às costa da Galiza, vinda da Palestina, atracando em Padrón a escassos 60 km de Compostela. E até mesmo a muitíssimo constestada ida de S. Pedro a Roma para aí sofrer o martírio que pressupunha certo.

Segundo a mesma Lenda Dourada, quando aconteceram as primeiras perseguições aos cristãos na Palestina, José de Arimateia, que havia recolhido o Sangue de Cristo na tarde da Sexta-Feira Santa (assim consignado dia do Sangue Real, Sang Greal, Grial ou Graal), decidiu fugir juntamente com Lázaro, Máximo, Sidónio, Marta, Sara a “Negra”, Maria Madalena e as santas mulheres Maria Jacobé e Maria Salomé. Poderá situar-se essa viagem em torno do ano 40 d. C., por parecer certo que Lázaro encontrava-se em Marselha no ano 44 de nossa Era.

Todas as versões unem-se quanto à chegada apostólica no delta do Rhône, na Provença, onde iria nascer a pequena cidade que acolheria os discípulos sob as denominações sucessivas de Notre Dame de la Barque, Notre Dame de la Mer e depois, por fim, Saintes-Maries-de-la-Mer.

Maria Jacobé de Cléofas, Maria Salomé e Sara fixaram-se aí. A última, por seus feitos e prodígios, alcançou notoriedade superior às outras: acolheu em si os “judeus errantes” da Europa, esses mesmos ciganos que, desde então, vêm prestar-lhe homenagem todos os anos por meio de uma peregrinação no mês de Maio, que é o de Maria, aquando eles escolhem entre si uma rainha. O ritual cigano, apesar de poucos deles mesmos entenderem hoje o seu verdadeiro significado, ainda assim não deixa de ser bastante significativo: na aurora, um grupo importante se dirige para a cripta obscura onde está a imagem de Santa Sara (nome que em hebreu significa “Princesa”). À dianteira vai uma “velha”, a decana do grupo, acompanhada por um “velho”, uma “jovem bonita” e uma “criança”. A “mulher velha” tira água do poço que está na cripta, enche o recipiente que aperta conta o coração, iniciando assim a marcha precessional. São vários os significados herméticos desse ritual, mas um só me salta à vista agora: o casal de velhos, com ela detendo a frasqueira representativa do antigo vaso do bálsamo da unção do Senhor, acaso representará Jesus e Madalena, a jovem a própria Sara sua filha, e o menino a jovem dinastia que teve início aí… indo propagar-se por toda a Provença e Marselha, trespassando os Pirinéus até Aragão e as Astúrias atingindo a Galiza e daí descendo ao Sul, a Portugal, sempre com os Kara-Maras ou ciganos por perto, como se verifica em Sintra, em cujo Chão das Maias, que era fossa imensa, essa etnia deserdada ou perdida de sua Pátria original se fixou durante largo tempo. Hoje é o Largo de S. Pedro, lugar da feira mensal, com St.ª Eufêmia e a Sr.ª do Ó logo acima, isto é, a Mãe Soberana e Filha fruto da “heresia”.

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Na igreja de Saintes-Maries-de-la-Mer, com a aprovação papal, foram ordenadas escavações pelo rei René da Provença em 1448, indo permitir a descoberta de placas de mármore onde se podia ler: Hic jacet Maria Salomé et Hic jacet Maria Jacobé (“Aqui jaz Maria Salomé e Aqui jaz Maria Jacobé”). Debaixo encontravam-se as relíquias das santas mulheres, e, muito perto dali as de Santa Sara, recolhidas pelo cavaleiro de Arlatan antes da Assembleia Real de 2 de Dezembro de 1448 (compreendendo o rei, a rainha, o legado do Papa, cardeal de Albano, assim como numerosos bispos, abades e cavaleiros) contestasse por processo verbal a autenticidade das relíquias de Maria Jacobé e Maria Salomé, que seriam depositadas na capela superior da mesma igreja.

Por Maria Salomé chega-se a João Evangelista e Tiago Maior, por ser considerada mãe de ambos, e assim também se chega à Gnose cristã na Europa e ao sacro mito de Santiago de Compostela, como Coroa de Luz – Kether – do Portugal Jacobeo, o seu primeiro Orago antes de São Jorge, ambos simbólicos de Iniciação activa ou móvel, própria de Iniciação Senhorial ou Mariana afim ao tema Guerreiro ou Kshatriya, o que também explica o sentido iniciático da peregrinação.

Quanto a José de Arimateia acaso ter-se-á tornado S. Trófimo da Gália, possuindo grande importância na História da Provença. A cidade de Arles e a sua magnífica catedral prestam homenagem à sua memória.

Já Lázaro terá se transferido para Chipre, onde teria passado trinta anos como seu primeiro bispo e sendo aí enterrado. Após terem-se descoberto as suas relíquias no século IX, elas foram trasladadas para Constantinopla. Mais tarde, os francos as fariam chegar a Marselha, hipótese que parece inteiramente confirmada pelo facto de ter sido instituída uma importante peregrinação cipriota à basílica de São Lázaro.

Maria Madalena, Sidónio e Máximo irão para Aix, que esse último honrará com a dignidade episcopal, enquanto Marta irá evangelizar o baixo vale do Rhône, onde travará combate com a Tarasca, o terrível dragão que ela aprisionará, conforme a lenda acentua, e que dará o seu nome à cidade de Tarascon. Tem-se nisso o sinal Georgiano da tomada de posse da Tradição “Herética”, melhor dito, Hermética ancestral, por via da Ala Feminina da Cristianismo assumida por ela. Esse facto assinala-se na fundação aí de um mosteiro para mulheres pela própria Santa Marta. O seu túmulo acha-se numa igreja da cidade, datando do século XIII, consagrado por Jubert, arcebispo de Arles, e por Rostaing, arcebispo de Avignon.

Segundo a Lenda Dourada, Maria Madalena sentirá o seu destino atraí-la para uma solidão maior. Despedindo-se de Máximo, ela tomará o caminho cenobítico. Levará consigo “o Relicário tão querido, cheio de terra embebida do Sangue Divino que piedosamente recolhera ao pé da Cruz”. Sal ou Lágrimas de Maria e Sangue ou Seiva de Cristo preenchendo o Saint Vaisel, o Santo Vaso. Ela vai ungir a Dinastia que perpetuará a sua Linhagem a partir do Sul da França. O seu recolhimento significará o segredo e o secreto, e para os assegurar nada melhor que a Cripta Secreta ou Crypta Ferrata onde antes a Tarasca vivera. Tudo isto é simbolismo mais que evidente de uma Linhagem transitando entre a Face da Terra e o seu Interior, por meio de uma Ordem de que Maria Madalena se assume líder no Ocidente proto-cristão, a do Santo Graal.

Com efeito, ainda segundo a Lenda, a alguns quilómetros dali ela viu-se diante de uma imensa massa rochosa de 120 metros a pique. Nos dois terços dessa massa, justamente acima de uma magnífica floresta de coníferas, encontra-se o lugar de eleição divina que, pacientemente, a esperava. Vê-se que é uma cavidade natural: a Gruta Santa, ou na toponímia local, Saint Baume. A Lenda conta que a Tarasca vivia ali anteriormente, mas que os Anjos (ou Santos Jinas) expulsaram para que deixasse livre o lugar. Então o dragão fugiu para Tarascon, onde Santa Marta o abateu.

Na impressionante gruta de Saint Baume, Maria Madalena viverá trinta anos. A lenda piedosa informa que estando desprovida de mantimentos e sem água, Maria retirou-se em oração logo que chegou a esse sítio adverso. Então apareceu uma fonte jorrando água abundante logo abaixo da entrada da gruta. Vem a ser o sinal hermético do Elixir da Vida Eterna, da Fonte da Eterna Juventude como propriedade miraculosa afim ao próprio Graal, atributo do Espírito Santo que, no final de contas, expressa o Eterno Feminino. Mas a “fonte miraculosa” de Saint Baume  é igualmente sinal do início da acção pastoral dando a Água da Vida que é a Palavra da Salvação aos que dela se fazem merecedores e assim se tornam Imortais. Santa Catarina de Sena informa que “Maria Madalena recebia diariamente abundantes orvalhos da Graça, que as Escrituras denominam as Doçuras celestes, as quais fortificavam o seu espírito e o seu corpo”.

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Frequentemente ela subia, com a ajuda dos socorros angélicos, até ao cume da montanha, para ali se entregar à oração diária das sete horas canónicas. Aí encontra-se a pequena capela de Saint Pilon; uma rocha ainda marcada com o sinal dos seus joelhos,  é prova indesmentível do acontecido para o povo simples e crente.

A História “oficial” considera que “o seu corpo foi colocado no túmulo de Sidónio, em Saint-Maximin, e que reciprocamente o corpo deste ocupou o túmulo de alabastro da penitência” (possivelmente os monges pensavam que assim as relíquias da santa escapariam às pilhagens dos bárbaros). Esse túmulo foi reencontrado no século XIII graças às diligências do conde da Provença, Charles d´Anjou, sobrinho de São Luís, rei de França, em cuja época se começou a falar da demanda do Reino do Preste João.

Fala-se de que uma bula autêntica do Papa Pascoal II, datada de 28 de Março de 1102, autorizava o arcebispo Pierre III a levar o paládio a uma vintena de festas do ano, em particular às festas de Santa Madalena e de São Máximo. Acaso poderá ver-se nisso o reconhecimento papal da autenticidade das relíquias da santa? Se assim for, então será óbvio a Igreja saber deste “grande segredo” que, afinal, foi criado por ela própria, e para o manter assassinou milhares e milhares de pessoas. Estou lembrando aqui os infelizes cátaros da célebre Cruzada contra os Albigenses e a frase “piedosa” de Simão de Montfort, delegado do Papa Inocêncio III, o comandante das forças que cercaram Béziers em 21 de Julho de 1209 que proferiu a terrível sentença: “Matai-os a todos, Deus escolherá os seus!”

Porém, a lenda retoma os seus direitos e diz que sete dias após a sua morte, Santa Madalena visitou em sonho Santa Marta, conforme lhe prometera antes da sua separação ocorrida trinta anos antes… Na iconologia cristã, Maria Madalena é frequentemente representada com  um precioso Vaso de alabastro contendo o bálsamo que serviu para ungir Cristo e legitimar o seu reconhecimento como Rei de Eleição ou Messiah manifestado garante da salvação da humanidade dos fiéis, função crucial exercida pela Apóstola incarnando o mais belo exemplo de uma Alma que se purifica até à Perfeição, irradiando a Luz Divina – Shekinah – que à maneira de um “Vaso” ela acolheu plenamente.

Perante tudo isso, também a Igreja acaba acolhendo a Apóstola dos Apóstolos, a que investe Cristo Rei pelo Rito da Unção, que é de Pessah ou “Passagem”. Assim, para a celebração da santidade de Maria Madalena, apesar da sua memória hagiográfica estar muito alterada, encontra-se o seguinte no Missal Romano:

“22 de Julho – Santa Maria Madalena. Dúplice – Paramentos brancos. A Igreja celebra hoje a conversão da pecadora e depois grande santa, hoje venerada em toda a Cristandade. O arrependimento sincero dos nossos pecados há-de atrair a misericórdia de Deus como fez com Santa Maria Madalena. Missa: – Intróito da Missa Me expectaverunt (47). Prefácio comum. Glória sem credo.”

O facto de não haver credo na Missa de Santa Madalena acaso não será sinal de, mesmo aceitando-a, ela estar à margem dos cânones da catequese da Igreja e, consequentemente, à margem do que hoje crê ou pretende fazer crer a mesma Igreja?

Curioso que 22 de Julho é mês tocado por dois signos, um de Água e outro de Fogo, ou seja Caranguejo e Leão, um expressando a Unção balsâmica do reconhecimento como Rei e outro a Unção ígnea ou pentecostal de reconhecimento como Messias. Em ambos está presente Maria Madalena, a Iniciadora, a Vénus-Urânia que era a Stella Matutina como a ela e a Sara as pretendem os ciganos, ambas incarnação de Kali, a “Virgem Negra”, espécie de Ísis ou Deusa-Mãe Primordial – de onde o valor do dia do mês que taroticamente é o do Arcano 22, “A Vitória” – cujo culto concorreu em pleno para o Porto-Graal, ou seja, o Portugal Central, a Estremadura, cuja Mama fecunda é Sintra, afinal, a hindustânica Kala-Sishita.

Por isso, num momento em que Maria Madalena era quase ignorada pela Igreja, sobretudo no período do Iluminismo esclarecido europeu, contudo observa-se a devoção a ela no Convento de Santa Cruz dos Capuchos na Serra de Sintra, postada à entrada do mesmo como se fosse a guardiã dos mistérios que o lugar e a serra ocultam. Eis aí presença franciscana fortemente ligada a Madalena, o que prossegue em Mafra e em Lisboa, em meio a uma Europa católica romana e protestante de silêncio comprometedor ao seu culto.

Igualmente não são poucas as santas mulheres muito ou pouco conhecidas, como se fossem frutos ideológicos da Árvore de Madalena que a Igreja Católica Portuguesa assumiu, não raro malquista pela de Roma, geradas em Terra Lusitana e boa parte no seio de uma Monarquia Divina porque sagrada por Cristo no campo de lide em Ourique (1139), dispondo Portugal como país mais cristão do que católico, porque nele primeiro assentou Cristo e só depois o Eclesiástico. Também nisto e sempre, é a Mulher quem mantém a linhagem, seja sagrada ou profana. Passo a enumerar algumas do florigério de santidade:

Acácia da Paixão. Franciscana natural de Alenquer, falecida em 1578.

Adeodata ou Deodata. Santa portuguesa, natural de Santarém.

Adosinda. Filha de St.ª Aldara ou Ilduara e de D. Guterres Arias, conde de Águeda e governador do Porto, irmã de S. Rosendo. Viveu no século X no Condado Portucalense.

Águeda. Virgem e mártir, natural de Lisboa.

Alda, Aldonsa ou Dulce. Santa portuguesa natural de Alenquer.

Aldara ou Ilduara. Mãe de S. Rosendo e Santa Adosinda. Viveu no séc. X no Condado Portucalense.

Alsanda ou Assanda. Santa portuguesa natural de Braga.

Ama. Santa portuguesa natural de Setúbal.

Ardinga. Santa portuguesa natural de Lamego.

Bataça ou Vataça. Princesa bizantina aia da Rainha Santa Isabel. Jaze na Sé Velha de Coimbra.

Beatriz da Silva. Irmã de João de Meneses (Beato Amadeu), terá nascido em Campo Maior em 1424. Acompanhou, como dama de honor, a princesa D. Isabel, que casou com D. João II de Castela. Fundou a Ordem da Conceição de Maria, seguindo a Regra da Ordem de Cister, após a Virgem Maria lhe ter aparecido durante uma experiência mística. Morreu em 1490 após vida exemplar.

Comba (20 de Julho). Santa de origem portuguesa. Virgem e mártir em Coimbra. Foi sepultada na igreja de Santa Cruz dessa cidade.

Comba e Anonimata. Santas alentejanas, que sofreram perseguições no tempo do imperador Diocleciano. Eram irmãs de S. Jordão, que era bispo. Foram martirizadas em Tourega.

Dumia. Santa portuguesa natural de Coimbra.

Elvira de Lisboa (25 de Janeiro). Os restos mortais desta virgem foram achados em Lisboa em 1587, juntamente com os de outros santos. Nada de positivo se sabe sobre ela.

Godinha. Portuguesa, abadessa do Convento de Vieira, e tia de Santa Senhorinha.

Iria de Santarém (20 de Outubro). Religiosa portuguesa, nascida em Tomar no século VII. É padroeira de Tomar e de Santarém.

Isabel de Portugal (4 de Julho). A rainha que se fez franciscana santa (1271-1336). É padroeira de Coimbra, Saragoça e Portugal.

Joana, princesa de Portugal (12 de Maio). Filha de D. Afonso V e da rainha D. Isabel. Faleceu em 1490, com 38 anos, no seu convento em Aveiro.

Mafalda, princesa (2 de Maio). Princesa portuguesa filha de D. Sancho I de Portugal e de Dona Dulce de Aragão. A sua memória religiosa, assim como a das suas irmãs Teresa e Sancha, celebra-se desde 1692 a 20 de Junho.

Olaia ou Eulália. Santa peninsular nascida em Braga.

Placência. Santa peninsular, mártir em Coimbra.

Quitéria de Coimbra (22 de Maio).

Sancha, infanta (13 de Março). Filha de D. Sancho I e de Dona Dulce de Aragão.

Senhorinha (22 de Abril). Nasceu em Vieira do Minho no ano 924. Chamar-se-ia Domitília ou Genoveva, mas ficou conhecida pelo diminutivo carinhoso que o pai lhe pôs quando enviuvou, pois passou a chamar-lhe “a sua Senhorinha”. Morreu em 982 e foi sepultada no Convento de S. Jorge de Basto, para onde se transferira.

Teresa, infanta de Portugal (17 de Junho). Filha de D. Sancho I e de Dona Dulce de Aragão.

Teresa de Vila Nova de Ourém. Santa portuguesa casada com S. Zambujal.

Para terminar, passarei de imediato a palavra ao preclaro Juan García Atienza (vd. bibliografia no final) que entendo ser o melhor hagiógrafo de Maria Madalena, e muito do que escreve fica claro nas palavras que me coube escrever.

– Há um longo caminho a percorrer entre as costas palestinas e as praias de Marselha, quase tanto como de uma a outra das Marias que – aparte Nossa Senhora – vão aparecendo esporadicamente nas páginas dos evangelhos. Nunca houve nenhum documento que pudesse provar, sem dar lugar a dúvidas, quantas Marias houve e que caminhos teve de transitar essa personagem aparentemente múltipla e oblíqua, porém é certo que, analisada desde a perspectiva das manipulações que sofreu para que se cumprissem as verdades emanadas de uma Igreja fundamentalmente empenhada em urdir as suas próprias certezas, esta Maria Madalena que aparece sob os aspectos mais distintos nos relatos evangélicos será já para sempre um mistério impenetrável, um segredo sem solução, uma suspeita que, quanto mais se trate de esclarecer, com mais véus haverá de se cobrir. Como uma espécie de contraponto histórico à Salomé que se descobriu para obter o seu desejo de ver morto o Baptista, a Madalena se vela e se revela para ocultar, talvez, que Jesus não se totalizou em si mesmo e em sua mensagem, mas que deixou atrás dele uma dinastia que poderia reclamar o seu património, acumulado ao longo de dois mil anos de silêncio.

Haverá de fazer constar como, aparte os estudos mais recentes em torno da verdadeira função de Maria Madalena no contexto evangélico, há toda uma tradição paralela – que a Igreja tem silenciado, mas não desmentido – dessa Madalena presumida – e só presumida – pecadora com a Maria irmã de Marta e Lázaro. E é igualmente desta tradição de onde parte a lenda de uma também presumida viagem sua desde a Palestina às terras do Golfo de Lyon, em que supostamente as acompanharia também aquele José de Arimateia que recolheu o Cálice da Cena com o Sangue Real do Crucificado e o trouxe ao Ocidente, originando com esse acto o mito graálico cristão, que comoveu como nenhum outro a espiritualidade esotérica da Idade Média europeia.

A esta Maria de Magdala ou de Betânia a encontramos nos evangelhos lançando-se aos pés de Jesus para lavá-los, perfumá-los e secá-los com os seus próprios cabelos; a vemos seguindo-o em suas viagens, alojando-se em sua casa, presenciando a sua morte, velando junto ao sepulcro e descobrindo, a primeira dentre todos, a desaparição do seu corpo. Maria é também a primeira a ver o Mestre novamente, depois da sua Ressurreição. Certamente nenhum apóstolo nem nenhum discípulo, nem sequer a sua própria mãe, teve ante si tantas oportunidades de encontrar-se com Ele, de permanecer à sua beira, de conviver em cada instante fundamental da sua missão. Se esta for a realidade, ninguém com mais autoridade que esta personagem poderia converter-se em porta-voz da Mensagem Crística. Aqui pode residir o silêncio da Igreja, as suas reticências na hora de definir a sua personalidade, incluso o seu empenho em degradá-la ao papel de pecadora arrependida que, ao longo da História, haveria de converter-se em patrona de cortesãs e prostitutas.

Algo por demais significativo: o que a Igreja oculta tão zelosamente, o que se tem tratado de escamotear à obediente freguesia, o que poderia ser posto como subentendido, com ares de induvidável verosimilhança, todo o grande enredo fabricado sobre os textos evangélicos manifestamente manipulados, pode chegar a aclará-lo uma aparente lenda a que a autoridade romana jamais concedeu crédito, apesar de tampouco poder evitar que o povo a aceitasse como certa e que incluso membros do colectivo eclesiástico fora de toda a suspeita, como Jacobo de Vorágine, a incluíssem em suas recompilações da história dos santos cristãos.

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A viagem ao Ocidente da família de Lázaro e José de Arimateia, seja certa ou não, dá razão e sentido aos silêncios mantidos pela postura ortodoxa romana e, por detrás da sua aparência de fábula piedosa, esconde toda uma série de chaves – simbólicas – que podem ser esclarecedoras. A que dentre elas que resulta mais significativa é a da coincidência entre o Cálice que transporta supostamente José de Arimateia – o Santo Graal – e a própria pessoa de Maria Madalena, a qual, se foi esposa de Jesus, haveria herdado dele o Sangue Real da sua ascendência Davídica. Neste sentido, a viagem milagrosa sobre uma barca sem timão, conduzida pelas forças celestiais, seria como a peregrinação da própria essência do Cristianismo original, a exportação ao Ocidente de uma ideia transcendente – e até, eventualmente, de uma realidade transcendente e palpável – que haveria de se unir à tradição atlântica para engendrar o ideário graálico, possivelmente a mensagem simbólica mais profunda dos que se criaram a partir da comunhão espiritual entre a tradição ocidental arcaica e a síntese transcendente aportada pela mensagem cristã original.

Vários acontecimentos significativos rodeiam a história mítica de Maria Madalena em sua singradura ocidental. Em primeiro lugar, é aqui onde se materializa a sua suposta penitência, o seu retiro para a solidão do deserto, porém, não por arrependimento ante a vida dissoluta que lhe engajou a Igreja, mas sim por estar mais perto de Deus. Jacobo de Vorágine, citando um texto de que ouvira falar, que atribui duvidosamente a Josefo ou a Hegesipo, conta que Maria Madalena “fosse já pela intensidade do seu amor a Cristo, fosse já pela tristeza e vazio que a ausência do Salvador produzia em sua alma, não queria ver ninguém, e que quando chegou à terra de Aix refugiou-se num deserto em que, escondida e isolada do mundo, viveu trinta anos, ao longo dos quais sete vezes a cada dia um Anjo subia-a ao Céu para que assistisse à celebração das Horas canónicas que em Glória se cantavam”.

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Neste lugar e nesta situação, tanto em vida como depois do seu trânsito, a Madalena não é em absoluto invocada como tem sido a pecadora arrependida que a Igreja tem-se empenhado em mostrar-nos, e sim, significativamente, como veladora ante o Céu para proporcionar partos felizes e para conceder a fertilidade às mulheres estéreis. Mal desembarcou, intercedeu – sempre segundo a lenda – pela fecundidade da esposa do governador de Marselha, em cuja terra penetrou. Depois de morta, Gerardo, duque de Borgonha, pediu relíquias da santa porque “carecia de descendência e ansiava vivamente que a sua esposa lhe desse um filho”. Em outra ocasião, salvou uma parturiente que se estava afogando e a qual lhe prometeu consagrar o seu filho num mosteiro se chegasse a tê-lo.

Sem dúvida tratam-se apenas de meras suspeitas, impossíveis de esclarecer porque a manipulação dos textos ou a sua própria obscuridade têm tornado impossível qualquer raciocínio válido. Contudo, é significativo que o movimento graálico converta indirectamente estes temas em chave simbólica, e que os textos mais obscuros desta aventura espiritual nos dêem chaves tais como chamar a Parsifal o Filho da Viúva, ou fazer constante alusão sobre a Família guardadora da Relíquia.

Atributos iconográficos de Santa Maria Madalena:

Cabelo (longo) A largura do cabelo, como a da barba, é sinal de identificação com o meio ambiente cósmico, e a negação em transformar de fora o contexto natural em que se vive e se crê em consciência. Simbolicamente, o cabelo crescido (por exemplo, o de Sansão) confere força, enquanto que o seu corte debilita a quem sofre a amputação. Os anacoretas que se envolviam no seu próprio cabelo como única vestimenta buscavam uma identificação com o meio ambiente e com a Consciência Universal, enquanto a sua era um meio para alcançar, mediante aquela prática, o estado de Consciência Transcendente que perseguiam.

Crânio – Com duplo significado, ainda que o Cristianismo lhe tenha dado unicamente o de lembrança da morte. O crânio contém o cérebro e está situado no cume do ser humano. É por isso o lugar sagrado do nosso corpo e o sinal da descoberta daquilo que se mantém secreto: o Saber Supremo.

BIBLIOGRAFIA

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Vitor Manuel Adrião, Guide de la Provence Insolite et Secrète. Editions Jonglez, Versailles, France, 2014.

 

A “Abadia” de Lisboa e os seus Arcanos – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jun 1 2014 

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O Clube dos Makavenkos marcou a época republicana dos anos finais do Dr. António Augusto Carvalho Monteiro (Rio de Janeiro, 27.11.1848 – Sintra, 25.10.1920), o proprietário original da Quinta da Regaleira de Sintra, de posição religiosa e política assumidamente oposta à dos sócios daquele, a maioria deles ficando famosos na vida boémia de Lisboa e nos anais da Maçonaria, mas também pelas suas obras de beneficência social. Se a maior parte dos makavenkos perfilava as hostes maçónicas com a exclusiva motivação ideológica de criar um estado social laico e fraterno, contudo alguns deles além de perfilharem esse ideal político de sociedade fraterna, igualmente desejavam que na mesma houvesse espiritualidade, mesmo que alheia à secular da Igreja, para assim, com novas pessoas superiormente formadas, o novo regime político fosse poupado à tentação de cair no obscurantismo e na ditadura. Essa classe de maçons, diversa da maioria dominante, desde cedo revelou empatia e militância nas chamadas ciências herméticas, com isso assegurando à Maçonaria o seu halo de Ordem Iniciática e Espiritual. Para ter-se uma ideia mais vasta do que seriam as pretensões veladas de alguns maçons dessa época, quando parte da Maçonaria Portuguesa recuperou o legado tradicional deixado pelo antigo regime no tocante à metafísica da Portugalidade, chega agora o momento de resgatar para o conhecimento público alguma iconologia sobrevivente do chamado espiritualismo maçónico dos fins do século XIX e primeiras duas décadas do seguinte.

Certamente que o melhor lugar para encontrá-la, em plena Lisboa, será no Palácio Foz. Nisto, lembro já terem passado vários anos desde que o jornalista Victor Mendanha publicou no jornal Correio da Manhã (3.ª feira, 12.12.1995) um interessante artigo com o título no cabeçalho: Palácio Foz “oculta” Mistérios Maçónicos, e com o subtítulo nas páginas centrais: O Palácio Foz tem cave misteriosa. O assunto interessou-me vivamente e tomei a iniciativa de visitar pessoalmente essa misteriosa cave do Foz, cujo resultado da investigação feita depois veio a ser motivo de reportagem jornalística assinada por Manuela Gonzaga[1]. Nessa ocasião foi-me guia o Dr. Avelino Soares, generosamente facilitando-me os acessos necessários à realização da análise do imóvel, que ainda hoje não é do acesso público. A única falta que esse senhor director do Palácio apontou, foi a ausência de enquadramento e identificação do significado verdadeiro dessa dependência subterrânea que vai além dos fins imediatos de antiga pastelaria e restaurante. Sendo um exemplar demonstrativo da interpretação que os arquitectos e decoradores portugueses então faziam do gosto belle époque, onde o revivalismo de sabor medieval europeu mas dominado pelos símbolos manuelinos bem conformado ao romantismo neomedieval português, este espaço único aparece sobrecarregado de formas e repassado de elementos claramente herméticos, e é precisamente nisto que os estudiosos de História da Arte calam por ausência dos conhecimentos esotéricos necessários à sua leitura exacta para puder concluir-se a sua real finalidade[2].

O Palácio Foz foi a residência mais importante da baixa de Lisboa até aos finais do século XIX, mandado construir em 1777 pelo 4.º Conde e 1.º Marquês de Castelo Melhor, D. José Vasconcelos Sousa Câmara Faro e Veiga, sob o risco do arquitecto italiano Francisco Xavier Fabri, numa época em que a actual Praça dos Restauradores deixara há pouco de ser um extenso terreno cultivado das hortas “de Valverde” e “da Cera”, entretanto desaparecidas com a construção do Passeio Público do Rossio, jardim gradeado concebido pelo arquitecto paisagista Reinaldo Manuel, que ia do largo do mesmo nome até à Praça da Alegria, entre as ruas chamadas “Oriental” e Ocidental”, sendo inaugurado em 1764 e demolido em 1879 para a abertura da Avenida da Liberdade.

O palácio foi posteriormente modificado tendo as obras só ficado concluídas em 1858, ano da sua inauguração, especialmente da sua capela consagrada a Nossa Senhora do Amor de Deus, situada na ala norte do edifício, e que era o mais rico templo privado da Lisboa de então abrilhantado pelas decorações de Rambois e Cinatti. Em 1889, na sequência das transações de terrenos e imóveis para a construção da estação dos caminhos de ferro, a 6.ª Marquesa de Castelo Melhor, D. Helena, vendeu o palácio ao grande proprietário e rico financeiro Tristão Guedes de Queirós Correia Castelo Branco, 2.º Conde e 1.º Marquês da Foz[3].

Após essa transação, mais uma vez o palácio foi alvo de grandes modificações, tanto internas quanto externas, tornando-se então a residência mais sumptuosa de Lisboa, situação que revelou-se efémera na medida em que o Marquês da Foz, devido à sua precária condição financeira, em 1901 foi obrigado a desfazer-se dos seus bens, num leilão que prolongou-se por dez dias sendo constante o desfile de carruagens de curiosos e compradores, tanto portugueses como estrangeiros, à porta da sua casa. Com isso, o palácio foi numa primeira fase alugado a Manuel José da Silva, proprietário do “Anuário Comercial”, e em 1908 estava hipotecado ao Crédito Predial, tendo dois anos depois sido adquirido pelo 1.º Conde de Sucena, empresário com negócios no Brasil, amante de Sintra e próximo do rei D. Carlos que lhe concedeu esse título (9.9.1904). O Conde de Sucena arrendou o edifício para ocupações comerciais (de ourives e alfaiates, de fotógrafos e modistas, de ginásio e oficina, etc.), datando dessa época o Club Maxim´s, o Clube dos Restauradores, o Salão Foz, o Central Cinema, a Pastelaria Foz e o Restaurante Abadia. Como o 2.º Conde de Sucena, com nome igual ao do pai, José Rodrigues, também não conseguisse satisfazer os seus compromissos financeiros, os seus bens foram postos em leilão. A Caixa Geral de Depósitos, em 12.7.1939, arrematou em hasta pública o palácio, e em 1940 vendeu-o à Fazenda. Integrado no Património Nacional em 1944, o Palácio Foz recebeu grandes obras de beneficiamento. Em 1947 o Secretariado Nacional de Informação instalou-se nele, e depois a Direcção-Geral da Comunicação Social[4].

De maneira que em Abril de 1917 foi inaugurado neste antigo palácio dos Castelo Melhor a Pastelaria Foz, propriedade da firma Leitão & C.ª, ocupando grande parte do andar térreo e sendo servida por três das cinco portas da fachada (já demolidas) executadas por Domingos Costa em cantaria e ferragens, ornamentadas com motivos zoomórficos e de carácter vegetalista. Nelas trabalharam igualmente Jesus Peres Mora, Emílio Campos e operários das oficinas Jacob Lopes da Silva & C.ª. A pastelaria comunicava com o Restaurante Abadia, inaugurado em 1916, instalado nas antigas cocheiras e arrecadações do palácio. Obra dominada pelo estilo misto de neogótico e neomanuelino, tudo ao gosto da Arte Nova característica da belle époque, teve a intervenção do escultor José Neto devendo-se o esquisso ao arquitecto Rosendo Carvalheira[5].

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A Abadia está reparte-se em três secções: o Claustrum (com a sua “taberna vínica”, como se lê num dístico em ferro forjado), o Refectorium (inspirado nos claustros do românico cisterciense peninsular) e o Coro (suspenso sobre o primeiro e agregando as “celas”, pequenas dependências de carácter reservado). Há ainda uma outra contingência, pequena de abóbada de berço, hoje desnuda do aparelho de azulejaria e que presumo ter sido arrecadação, apesar da sugestão imaginária de fazer as vezes de capela (aliás, iluminada desde o Refectorium por uma imitação de vitral reproduzindo em motivo vegetalista a Cruz do Santo Graal, o que é muito significativo).

A aparência de mosteiro desta espécie de cripta decorada vai bem com o nome que lhe impuseram, Abadia.Não parece que a sua serventia fosse exclusivamente a de restaurante privado exclusivamente por certa classe abastada da cidade, mas também a de pretender deixar nele algum tipo de mensagem velada à posteridade, atendendo à sua decoração com forte simbolismo hermético e às próprias filiações esotéricas, nomeadamente maçónicas, dos seus intervenientes.

Na Abadia realça um florilégio evocativo de alguns dos principais monumentos míticos portugueses, sendo impossível não reparar haver nela excertos importados das configurações dos Mosteiros de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha, de Santa Maria de Belém, vulgo Jerónimos, e até de Convento de Cristo, em Tomar, medrando o revivalismo neomanuelino[6] no encómio e exaltação da Portugalidade e da Tradição Espiritual que lhe é afim, corrente comum na época mas copiada da corrente tradicional que já vinha dos fins do século XVIII empática à Parúsia e ao mito do V Império Lusitano. Talvez o 1.º Conde de Sucena tenha simpatizado com esses conceitos míticos que o levariam para Sintra onde compraria o Palácio de Seteais cerca de 1899, vizinho da Quinta da Regaleira cujo início das obras em 190 terá sido testemunhado por ele, tal como pelo arquitecto Rosendo Garcia de Araújo Carvalheira que faleceu nesta vila em 1919. Talvez, ainda, a Abadia pretendesse ser uma imitação em miniatura da própria Quinta da Regaleira, mas aqui transpondo os seus símbolos para o plano do maçonismo, não recusando a Bíblia mas escusando a Igreja.

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Para assinalar alguns dos maçons mais influentes presentes no Palácio Foz, devo começar no próprio 1.º Marquês da Foz, Tristão Guedes de Queirós Correia de Castelo Branco, gremista, filantropo e maçom do Rito Escocês Antigo e Aceite assim como o seu pai, o cónego Eleutério Francisco de Castelo Branco (Beja, 19.10.1803 – Lumiar, Lisboa, 17.6.1856). Este último, sacerdote e jornalista, foi vigário geral do Bispado de Elvas, cónego da Sé de Lisboa desde 1844 e redactor dos jornais Restauração (1842-46), Diário do Governo (1846-48), Estandarte (1847-51) e Imprensa e Lei (1853-56). Liberalista, foi perseguido durante o reinado de D. Miguel sendo recluso, com outros sacerdotes liberais, no Seminário de Elvas (1829) e em S. Julião da Barra (1831). Mais tarde, aderiu ao Cabralismo. Iniciado maçom com o nome simbólico de Ganganelli, ascendeu ao Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite, de cujo Supremo Conselho fez parte. Pertenceu à Loja lisboeta Concórdia I, n.º 600, do Grande Oriente Lusitano. Foi um dos fundadores da chamada Grande Loja Portuguesa sendo eleito seu primeiro Grão-Mestre, cargo que desempenhou em 1849-50, segundo Oliveira Marques[7]. Adianto que esta Grande Loja Portuguesa inscrevia-se na linha do hermetismo egípcio iniciado cerca de 1805 pelo neto do Marquês de Pombal, Sebastião José de Sampaio e Melo e Castro Lusignan.

Eleutério Francisco de Castelo Branco alcançou o posto de marechal de campo de D. Pedro IV, e depois as funções de ajudante do rei D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha. Ora D. Pedro IV, I do Brasil, em 1842 era Grão-Mestre do Rito Escocês Antigo e Aceite[8], e igualmente D. Fernando II, iniciado no Rito Adonhiramita, cuja liturgia orbita entre o simbolismo bíblico e o egípcio. Tantas e notáveis personalidades, a começar pelas régias, afiliadas à Maçonaria marcaram fortemente a pessoa do Marquês da Foz que deixaria os sinais herméticos da sua afiliação neste seu palácio, que por certo abrigou, talvez com regularidade, reuniões maçónicas entre 1889 e 1901, e certamente esses antecedentes maçónicos serviram de pretexto aos maçons e makavenkos de 1916 para fundarem na cave deste edifício a sua “abadia vínica”, evocação irreverente talvez da abadia eclesial, talvez da sede maçónica palacial, ou talvez ambas as coisas, mas sabendo-se que em 1867 a Grande Loja Portuguesa fundiu-se no Grande Oriente Lusitano que passou a ser Grande Oriente Lusitano Unido, então dirigido por José da Silva Mendes Leal, de que faziam parte Francisco de Almeida Grandella e Rosendo Carvalheira[9].

Rosendo Garcia de Araújo Carvalheira (1864 – Sintra, 21.1.1919), diplomado pelo Instituto Industrial de Lisboa, foi arquitecto, funcionário público e escritor; dedicou-se à restauração de monumentos históricos e foi autor de vários edifícios públicos, como o Liceu Passos Manuel em Lisboa. Publicou numerosos artigos sobre história, arte, literatura, etc., tendo igualmente cultivado a poesia. Exerceu os cargos de vereador da Câmara Municipal de Lisboa, vice-presidente da Associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses, presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes e chefe de gabinete do Ministro do Comércio (1919). Iniciado na Maçonaria em data desconhecida com o nome simbólico de Rómulo e regularizado em 1893 na Loja Tolerância, de Lisboa, pertenceu depois às Lojas Fénix (1905), Fiat Lux (1906) e Liberdade e Justiça (1913), todas nesta cidade. Em 1906 ascendeu ao Grau 33.º do Rito Escocês Antigo e Aceite, de cujo Supremo Conselho fez parte. Desempenhou altos cargos no Grande Oriente de Portugal e no Grande Oriente Lusitano Unido, entre os quais o de Presidente do Grande Tribunal Maçónico[10].

Francisco de Almeida Grandella (Aveiras de Cima, Azambuja, 23.6.1852 – Foz do Arelho, Caldas da Rainha, 20.9.1934), comerciante e grande capitalista, veio jovem para Lisboa, empregando-se como marçano. Depois passou a caixeiro, conseguindo em 1879, mercê do empréstimo de um amigo, estabelecer-se com uma loja de fazendas. Prosperando rapidamente, fundou a “Loja do Povo” (1881) e depois, sucessivamente, o “Centro Comercial”, o “Novo Mundo” (1886) e os “Armazéns Grandella” (1891). Utilizou técnicas revolucionárias de comercialização e publicidade, tendo estudado em Paris e em Londres os métodos comerciais aí utilizados. Também teve papel de relevo na extensão dos benefícios sociais aos trabalhadores, tendo fundado em 1904, na Estrada de Benfica, na capital, um bairro operário, uma creche e uma escola primária, adoptando como divisa a estrela (maçónica) de pontas e por lema “Sempre por bom caminho e segue”. Activista republicano, contribuiu para a obra de demolição da monarquia subsidiando numerosas iniciativas do seu partido, e foi grande amigo de Afonso Costa a quem chegou a doar uma casa de habitação[11].

Francisco Grandella – iniciado no Rito Escocês Antigo e Aceite em data desconhecida com o nome simbólico de Pilatos, estando filiado em 1910 na Loja José Estevão, de Lisboa – já havia subsidiado várias obras destinadas a fins humanitários, sobretudo o seu sanatório destinado a raparigas tuberculosas, em Cabeço de Montachique, Loures, cujo esquisso invulgar, riscado por Rosendo Carvalheira, configura uma estrela de sete pontas que, pelo seu fim utilitário, expressa exclusivamente a Spes Stella, a “Estrela da Esperança” na cura do doença que então dizimava a população do país, sobretudo as camadas mais desfavorecidas. Ademais, teria ocupado cargo distinto numa Loja maçónica em Fanhões, mantendo-se a suspeita de não ter sido Loja mas Venda carbonária, e juntamente com o maçom vinicultor Camilo Alves, de Bucelas próxima, foram patrocinadores do Clube dos Makavenkos (palavra esta talvez inspirada naquela outra palavra sagrada hebraica do 3.º Grau do Rito de Mênfis e Misraim: Maka Mahana ou Mack-Benah). A empresa ou divisa do Clube dos Makavenkos era um punho fechado acompanhado pelo mote da Ordem da Jarreteira, Honni soit qui mal y pense (“Envergonhe-se quem nisto vê malícia”), e o seu patrono foi o veterotestamentário Noé, célebre prior da vinicultura, tendo plantado a primeira videira pós-diluviana. Nisto, as videiras que adornam a Abadia evocam as ligações enológicas, e como no Génesis Noé recebeu de uma pomba um ramo de folhas de oliveira como prova de terra seca, aqui os cachos de uvas apresentam-se com folhas de oliva, sendo a alegoria de duas luzes: a das candeias alimentadas por azeite cuja luz afasta as trevas, e da que proporciona o domínio da natureza agreste através da vinicultura.

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Reinando ainda D. Luís I, o Clube dos Makavenkos foi fundado em 1884 por 13 sócios (rapidamente subindo de número chegando ter mais de 100 filiados) cuja principal ocupação aparente não passaria da comensal e boémia: o prazer da boa mesa, da “alegre rapioqueira” e a compensação dos “pecados” com actos de benemerência. Todos eram iguais perante a sopa, o copo e as makavenkas, e nenhum podia namoriscar com a mesma por mais de 15 dias. Findo esse período, ela seria declarada “praça aberta” e ele, se insistisse, levava o título de “lamechas” e a intimidação para pôr fim ao relacionamento em 24 horas. Nisto ficou famoso o makavenko Santos Joya, que exercia “extraordinário poder magnético sobre as mulheres, convidando-as às dezenas para os jantares”, e por essa razão já merecera “as honras dum festim à romana e respectiva coroa de louros, para se lhe exaltar as suas qualidades de macho”. Quando ele não aparecia, faltavam “damas e melhores exemplares da raça luso-espanhola” que “abrilhantassem a encantadora festa, porque as flores animadas são sempre bem cabidas e apreciadas”. Foi o próprio Francisco Grandella quem fundou o clube, e o seu presidente honorário, depois de 1898, foi Ferreira do Amaral, e após a sua morte o cargo foi ocupado pelo dr. Azevedo Neves. Em Lisboa, “quando começaram (os makavenkos) iniciaram as suas reuniões em Santa Isabel, no palacete do Conde das Antas, no quintal onde se achavam vários animais, denominado Parque Zoológico, (…) que às sextas-feiras jantavam no dito parque”[12]. Todavia, os makavenkos não deixaram de saltitar por outras casas e restaurantes, até que Francisco Grandella comprou o terreno do velho Teatro Condes e mandou reconstruir este em 1888, reservando a cave para implantar a sede makavenkal (que a partir de 1916 seria partilhada com a Abadia, do outro lado da avenida). Apesar de levemente ligada à dramaturgia, não obstante a cave do Condes vulgarmente enchia-se de autores, actores e actrizes para jantares, festas e banquetes, tendo passado por ele uma boa parte da alta sociedade e da intelectualidade masculina da Lisboa de então, sobretudo nobres com títulos de fancaria comprados a outros titulares arruinados.

Os “trabalhos revolucionários” – como se lia nas convocatórias escritas pelo punho do advogado dos makavenkos e Grão-Mestre adjunto da Maçonaria, José de Castro – nunca deviam ser realizados numa sexta-feira, dia reservado às makavenkadas, nem tampouco às terças, em que as noites talvez estivessem ocupadas pela Academia Real dos Camelos, uma subdivisão do clube presidida pelo ex-padre e republicano João Bonança, transformando-se a cave do Condes a preceito, com panos de Arraz a tapar as paredes, e nos lambrins desenhos alusivos a caravanas no deserto, para que os discursos pós-refeição estivessem bem enquadrados.

Grandella fez inimigos no clube por ele fundado, e não lhes perdoou, como a um certo Sebastião, escrivão do Tribunal da Boa-Hora, castigado por mau comportamento. É que esse sócio, a seguir a um banquete, atravessou as salas e meteu-se na última com a sua Chica dos Camarões, “sem se importar do que pudessem dizer… e ouvir”. Grandellla não gostou e fez queixa formal à direcção. Foram nomeados o juiz (o médico patologista Azevedo Neves), os advogados e os jurados, e o réu foi condenado a ver o seu retrato pendurado na sala do crime, tapado por uma parra da faiança do makavenko Bordalo Pinheiro. O queixoso ficou satisfeito, embirrava com o homem desde que dissera mal de uma das suas sopas e das suas palavras. Fora-lhe, portanto, aplicado o Degredo da Parra, mas o castigo podia ter sido o de se pintar a óleo o seu retrato num banco para que todos se sentassem em cima dele. Ou o Suplício do Penico, que constava de colocar o retrato do condenado no fundo de um bacio. Ou, ainda, obrigá-lo a beber, quase sem respirar, 12 capilés de cavalinho, o xarope de avencas, água fresca, casca de limão e gelo, que se sugava por um tubo de lata com a figura colorida de um cavaleiro tauromáquico e era considerada uma bebida de gente fraca. Sebastião teve sorte, porque podia ter ficado sem as ligas como a que escorregou da perna de uma amante de D. Luís enquanto dançava com ele num salão de baile repleto de gente, episódio burlesco – quase de certeza inventado – que serviria para o mote dos makavenkos[13].

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 Passados quatro anos da revolução republicana, o Clube dos Makavenkos internacionalizou-se. Há muito que os makavenkos desejavam fundar, nas possessões portuguesas em África, uma cidade que começaria “como todas as outras, por uma casa, depois por outra e logo a seguir por muitas”, e a oportunidade surgiu quando se tornou sócio Alfredo Ribeiro da Fonseca, que se preparava para uma missão africana. Fundar uma Makavenkopólis revelou-se a outra missão do “novo Colombo”, como cognominaram o militar, por ser “um nome simbólico e sugestivo, composto por duas coisas que a natureza das mesmas pôs em seguida uma à outra”. O capitão partiu levando uma credencial que o habilitava a içar, em nome do clube, “a bandeira bicolor no primeiro ponto propício à fundação de uma colónia Makavenkal”. Souberam mais tarde que o nome do clube tinha sido dado a uma escola e que “mais de cem rapazes, que mais pareciam makavenkikos”, a frequentavam no distrito da Lunda, no Kuela, “capitania-mor dos bandas e bangalas”[14].

As atitudes boémias e boçais desse clube traziam a sociedade conservadora lisboeta, católica e monárquica, engrossada pelo Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, chocada em estado constante de escândalo, motivo dele ter ignorado e desapoiado todas as iniciativas sociais dos makavenkos e seus afins[15]. Estes não eram tão inocentes nos seus propósitos como aparentavam: andavam de ligações à Maçonaria e à Carbonária, aliás, a bandeira verde e vermelha do Clube dos Makavenkos era a mesma da Carbonária Portuguesa. Ao fim de 26 anos de existência o clube quebrou uma das suas regras, ou quase de certeza nunca a terá cumprido: não se imiscuir em política e religião. Com efeito, na sede dos makavenkos, onde a prioridade era dar “largas à alegria e elasticidade à tripa”, conspirou-se a realização da revolução de 5 de Outubro de 1910. Nessa cave do Teatro Condes, reuniram-se os republicanos e maçons Francisco de Almeida Grandella, José António Simões Raposo, José Cordeiro Júnior, José de Castro, Machado dos Santos e Miguel Bombarda, conspirando contra a Monarquia e o rei D. Carlos. Dos encontros da Comissão de Resistência, cujos trabalhos são difíceis de descortinar, já que durante a revolução de Outubro ninguém parecia coordenar alguém, não seu conta Francisco Grandella no livro que editou em 1919. Nem sobre as reuniões dos maçons com “plenos poderes para velar pela segurança dos irmãos, defender a Maçonaria dos ataques da reacção política e religiosa, guiando o trabalho dos obreiros no mundo profano no interesse superior da pátria e da segurança dos cidadãos”, nem sobre outros episódios por poderem “causar escândalo”, como confessou ao seu amigo arquitecto, em dada altura presidente dos makavenkos, Rosendo Carvalheira.

Com efeito, como escreveu Raul Brandão[16], no Condes arquitectou-se a destruição da Monarquia e a implantação da República, e na Abadia ter-se-á conjecturado a fundação de uma sociedade ideal, utópica mas possível de realizar. Contudo, após feita a sementeira revolucionária teve-se a colheita a condizer: a ruína do Marquês da Foz e do Conde de Sucena, a falência de Francisco Grandella acompanhando a do Teatro Condes e a do Restaurante Abadia que fechou portas até hoje.

Sob a aparência do convívio comensal, assim mesmo ocultando o sentido último do ágape ou “ceia ritual”, na realidade a Abadia terá servido como lugar discreto de encontros maçónicos para discutir assuntos afins à Ordem e ao País. Ela estaria reservada às tertúlias de Mestres e Mestras da Maçonaria, talvez dos Sublimes Mestres Eleitos dos vários Ritos, masculinos e femininos, como se denota no “testamento simbológico” que decora o espaço.

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Como disse, o ágape é a “refeição ritual” que se realizou no espaço subterrâneo da Abadia, onde nesses momentos a Maçonaria tornava-se Andrógina ou Mista, sem distinção de sexos tal qual era nos seus inícios e veio a prossegui-la o Rito Copta ou Egípcio instituído por Cagliostro em Lyon, Sul de França, no século XVIII. Se o Egipto é considerado o berço da Tradição Iniciática do Ocidente, tal como a Índia a é da Tradição Mística do Oriente, ficando Portugal entre os dois extremos geográficos, em breve ele foi assumido arca ou repositório do melhor e mais elevado de ambas as Tradições como ponto de encontro de uma única Tradição Primordial, querendo-se reservada ao nosso País e alheia às fortes convulsões político-revolucionárias que marcaram a época aqui descrita. Pois bem, a Maçonaria Moderna herdou do judaico-cristianismo a tradição do ágape a quem chama banquete, numa linguagem mais laicizada, costume que se vulgarizou durante as campanhas napoleónicas. No seu sentido mais puro, tem-se o ágape nos Festejos Populares do Império do Divino Espírito Santo, de origem portuguesa e que em Lisboa foram celebrados em Alfama e S. Sebastião da Pedreira, onde após a Missa do Divino todos se sentam à mesma mesa do bodo, sem distinção social e de sexos[17].

A Abadia apresenta o seguinte esquisso:

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A planta tanto sugere a forma da swástika, como cruz solar ou evolucional, como a da chave, por cero a dos arcanos contidos neste espaço. A toda a volta da ombreira do Claustrum vêem-se cachos de videira, assinalando o espaço não só como o de apreciadores vínicos mas também, e sobretudo, como “Lugar de Sabedoria”, da mesma Gnose representada pela vide cujo suco do fruto é o Sang Greal ou Sangue Real que todo o Adepto Perfeito ou Superior Incógnito possui, e que deve ser o exemplo máximo a imitar, a realizar pelo Mestre-Maçom, tanto que em seu Grau ele é, na essência última, o seu pálido reflexo.

Na mesma contingência, vê-se a escultura em corpo inteiro de um arquitecto medieval – evocativo da primitiva Maçonaria Operativa – com barrete frígio (emblemático do Adeptado), que suporta uma coluna em esquadria tendo no cimo com duas cabeças de elefantes com as trombas enlaçadas. Representa o Grão-Arquitecto (Arche-Tekton, em grego) do Templo da Virtude e da Sabedoria, esta assinalada pelo elefante (em duplicado, para designar fisicamente a Sabedoria do Espírito e a Virtude da Alma) animal iconográfico do deus Ganesha, filho de Shiva, que é o patrono da Gupta-Vidya ou “Sabedoria Secreta”, afinal, a mesmíssima Teosofia como “Saber Divino”. Ganesha equivale a Cristo no Ocidente, por também este incarnar por Obra e Graça do Espírito Santo.

Abaixo e à direita desse escultórico está um poço que leva aos subterrâneos de Lisboa, ilustrado por uma linda fonte de corais, a qual conectada à ao simbolismo anterior descrito torna-se indicativa da Fons de Sée, a “Fonte da Sabedoria” de onde irrompe a Acqua Vitae que purifica o corpo e sacia a alma de quem assim se torna Adepto Perfeito (Mahatma, “Grande Espírito”, em sânscrito, o mesmo que Jivamukta ou Jivatmã, o verdadeiro Santo e Sábio de que fala a Igreja ao referir-se à “Comunhão dos Santos”), assinalado no dito Grão-Arquitecto[18].

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No lado oposto da mesma parede, esquinando ou em quina, no sentido nordeste, observa-se um pombal tendo adiante quatro pombas dispostas em cruz. Elas suportam o pombal como quinto elemento do conjunto, e sendo as aves simbólicas da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade o pombal vem a representar a Casa do Divino Espírito Santo, o que remete para a ideia sebástica do V Império Lusitano como tema já assumido pelos coevos setecentistas da Maçonaria em Portugal, traçando e talhando a Baixa Pombalina de Lisboa como imago mundi dessa Idade do Futuro.

Na esquina oposta da parede em frente, no sentido sudoeste, em alinhamento diagonal com a cena das pombas, vêem-se quatro andorinhas esvoaçando em torno de um ninho feito num tramo de videira semiencoberto por parras. Diz-se que elas são as mensageiras da Primavera, época em que a Terra é fecundada pelo Sol jucundo, após a noite invernal. Simbolizam, pois, o anúncio de um Novo Ciclo de Humanidade, o da “Primavera dos Deuses”, como diriam os românticos e como dizem os sábios hindus, apodando-a de Satya-Yuga ou “Idade de Ouro”, por certo a mesma do Espírito Santo, e com isso expressam o Eterno Retorno e o prenúncio da Ressurreição. Por tal são negras, pertencem à noite que antecede o dia a advir, este assinalado nas pombas do Cruzeiro de Portugal, as quais estão para o Céu como aquelas para a Terra, aqui de esperança revigorada pelo anúncio do Futuro desejado feliz.

Esse Dia da Utopia, esse Futuro desejado, vem a ser parido pelo grifo fêmea, escultórico representando-a em pleno acto de parto enlaçada por cordame de marear, postada sobre o corrimão que leva ao coro, ficando assim no umbral entre duas cenas (andorinhas e pombas) igualmente representando o Passado e o Futuro do Género Humano. A figura repete-se na direcção das andorinhas, mas só com meio corpo, como se estivesse engolindo o Passado. Esta dragona ou mulher-dragão como grifa, simboliza o valor da inteligência artística e na mitologia greco-romana domina os céus, por isto que aqui a sua figura está como que suspensa no ar. É a antiga representação do signo de Libra ou Balança e que o Cristianismo adoptou para expressa as duas naturezas do Salvador, Jesus como Homem e Cristo como Deus, ficando a concha de prata da Balança para o Poder Temporal (Cristo Rei) e a concha de ouro da mesma para a Autoridade Sacerdotal (Cristo Sol), duas funções distintas unidas na pessoa única e verdadeira do Messias que é quem, afinal, a grifa está dando à luz.

A ocidente e sob a grifa, o varandim do Coro, ricamente talhado e esculpido em madeira de carvalho, apresenta na “fácies” colunelos e alcachofras enleadas por cordames de marear com roldanas, tendo logo abaixo, em relevo, um nó de marinheiro. Isto vem confirmar o transcendental sentido parturiente da grifa posta em relação com os símbolos da navegação, que sendo mística é sinónima de demanda do Centro Espiritual Supremo, do Sanctum-Sanctorum, do Lugar da Arca ou Agharta sobre a qual se manifesta a Shekinah ou “Presença Real de Deus Espírito Santo”, Julgador (Encoberto) e Pacificador (Desejado) das Nações.

A presença do rodízio e o seu significado faz parte do imobiliário simbólico da Alquimia sobre o qual já escrevi em outro lugar[19]: “Por sua vez, o rodízio (pertencente ao simbolismo hermético da Via Húmida ou dos Navegantes, que é assim uma Via Andrógina ou Macho-Fêmea) é chamado pelos hermetistas de fogo de roda. Ou seja: o fogo alimentado, constante e igual, que o filósofo-artista mantém dia e noite no decurso da operação necessária à cocção da matéria filosofal, é chamado, por esta razão, fogo de roda. No entanto, além do calor necessário à liquefacção da Pedra dos Filósofos é preciso ainda um segundo agente, chamado fogo secretoou filosófico. É este último fogo, estimulado pelo calor vulgar, que faz girar a roda”.

A entrada ogival do Claustrum para o Refectorium é suportada por quatro colunas verdes aos pares, mais pequenas que as espessas colunas vermelhas toscanas atrás delas, também aos pares, cujos capitéis de um par reproduzem a ilustração da famosa fábula de La Fontaine: a raposa olhando impotente os cachos apetecíveis no cimo da latada. Aqui e em conformidade ao sentido de ordem e regra, significa a sagacidade na transmissão do conhecimento iniciático sempre interdito aos profanos, ajustando-se bem aos ditos “não atireis bagos aos despreparados” porque “estão verdes, estão verdes”…

No segundo par de colunas, tem-se nos seus capitéis a ilustração de um melro pousado num ramo de alcachofra e trocando olhares com um cão. É a alegoria da melodiosa Voz de Deus Espírito Santo instruindo a quem Dele é guardião. Logo no capitel oposto vê-se uma garça depositando o alimento da boca de um cão. Aqui e exclusivamente no sentido esotérico cujos símbolos preenchem o espaço da Abadia, a alegoria traduz-se como o nascimento iniciático e o consequente alimento espiritual de quem se fez depositário e guardião das Verdades eternas, neste caso, os raros maçons detentores dos ainda mais raros segredos da Arte Real já não simbólica mas efectiva, por ser na sua essência a Verdadeira Iniciação, como transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência[20] .

Ainda a norte mas na direcção oeste, observa-se permeio a uma roda de leme as efígies de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral, como os mais célebres das Descobertas Marítimas da Gesta Dei per Portucalensis chegados às Índias Oriental e Ocidental assim unindo aos dois hemisférios do Globo encontrados em Portugal, o que equivale à Conquista Espiritual do Mundo pela lusitana ”Cavalaria do Mar”. Isso mesmo é indicado pela roda de leme, indicativa do piloto ou guia expressivo da Autoridade Suprema representada nas cabeças Caprinas ou Kumaras por cima dela. Mas aqui e em nova versão, a demanda espiritual de um Mundo Novo ficaria a cargo da Maçonaria, a “roda de leme” da barca social, e é por isso que se vêm por cima dela 24 pequenos bustos de makavenkos maçons de ambos os sexos, alguns com a jóia do seu grau sobre o peito, postados nos frisos das paredes norte e sul deste Refectorium. Com isto, fica resumida a mensagem encriptada da Abadia onde também, entre goles e garfadas, sonhou-se a utopia da sociedade ideal capaz de unir todos os povos, a começar pelo português, através do melhor que a República Maçónica tinha para dar. Até hoje aguarda a desejada realização.

NOTAS

[1] Manuela Gonzaga entrevista Vitor Manuel Adrião, Lisboa do Quinto Império. In Revista 3 do semanário O Independente, 8 a 14.10.1999.

[2] Carlos Schneeberger Ataíde, Palácio Foz. Direcção-Geral da Divulgação, Lisboa, 1984.

[3] Raul Proença, Guia de Portugal – I (Lisboa e Arredores). Lisboa, 1924.

[4] Francisco Santana e Eduardo Sucena, Dicionário da História de Lisboa. Lisboa, 1994.

[5]A Pastelaria Foz e o seu anexo A Abadia. In “A Construção Moderna”, n.º 16, Ano XVII, Lisboa, 25 de Agosto de 1917.

[6] O arquitecto Raul Lino, considerado o “pai” da “casa portuguesa”, desapreciava abertamente a corrente estética do neomanuelino apodando-a de “estilo neomanuelinho”. Teve seguidores na desapreciação, e Raul Proença fez eco das suas palavras alcunhando a Quinta da Regaleira de “mau gosto pastiche”, ou seja, uma amálgama de estilos pressupostamente sem ordem nem regra estilística. Por um motivo qualquer só do seu conhecimento, Raul Lino achou por bem hostilizar o neomanuelino ostracizando-o como o prolongamento final do revivalismo romântico associado à mitologia portuguesa e à ideia medievalista do regresso ao campo, à Natureza, dispondo o homem como um equivalente de Deus pela sua capacidade de criar por meio da imaginação, recusando os limites da racionalidade, a finitude e o carácter efémero da existência, motivo para o romântico fazer da arte uma expressão do pensamento espiritual, do infinito e do eterno. Marcado pela impressão forte e abstracta da saudade, o revivalismo romântico impôs-se como um desafio à usura do tempo, convidando os fiéis a um sentimento de melancolia estética, cujo período de glória final foi precisamente o neomanuelino, como retorno ideal ou utópico ao Passado no Presente desejado igual ao que foi e se quer que seja no Futuro, tomando como exemplo as glórias passadas de Portugal, sobretudo as marcantes de carácter mítico.

[7] A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, volume I. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[8] D. Pedro de Alcântara I foi aclamado Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil na sua 17.ª sessão realizada em 4 de Outubro de 1822. Foi iniciado no Rio de Janeiro, na Loja Comércio e Artes na Idade do Ouro em 2 de Agosto de 1822, recebendo o nome simbólico de Guatimozin, como consta da acta da 9.ª sessão do G.O.B., sendo Grão-Mestre José Bonifácio de Andrada e Silva, com o nome simbólico Pitágoras.

[9] Borges Grainha, História da Franco-Maçonaria em Portugal (1733-1912). Editorial Vega, 4.ª edição, Lisboa.

[10] A. H. de Oliveira Marques, ob. cit.

[11] A. H. de Oliveira Marques, ob. cit.

[12] Francisco de Almeida Grandella, Memórias e Receitas Culinárias dos Makavenkos, Lisboa 1919. Obra reeditada pela Marginália Editora, Lisboa, Dezembro de 1994.

[13] Anabela Natário, A sociedade secreta dos Makavenkos. Jornal “Expresso”, Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010.

[14] Victor Luís Eleutério, Grandella. Edição do Montepio Geral, Lisboa, 1997.

[15] A rivalidade entre monárquicos católicos e republicanos maçónicos não deixou de registar-se em Sintra através de duas associações distintas: a Sociedade Real União Sintrense, fundada em 8 de Maio de 1877, de que foram obreiros, dentre outros, José Simões, Joaquim Barreto, António Marçal da Silva Rosa e Domingos Santos e Silva, e o Centro Republicano de Sintra, ou melhor, da entidade que por ele se manifestava, a Loja “Luz do Sol” n.º 241 do Grande Oriente Lusitano Unido, perfilhando o Rito Francês e instalada nesta vila em 1904 com extinção em 1916, depois de no ano anterior (1915) ter sido Casa Capitular. A sua sede primitiva situava-se na Rua Francisco Rodrigues Ferreira, na Estefânia, no prédio conhecido por “Torresão”, do lado esquerdo, descendo para a Portela de Sintra. Depois foi transferida para o prédio n.º 40 da Rua Alfredo Costa. Foi Venerável desta Loja o dr. Gregório de Almeida, o “pai dos pobres”, falecido em 1920, e à mesma pertenceram Virgílio Horta e José Alfredo da Costa Azevedo, 1.º presidente de Sintra pós 25 de Abril de 1974.

[16] Raul Brandão, Memórias, volume II, Lisboa, 1925, e volume III, Lisboa, 1933.

[17] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita e Secreta. Editorial Jonglez, Versailles, Abril de 2010.

[18] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta (Capital do Quinto Império). Bubok Publishing S. L., Lisboa, 2012.

[19] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, Setembro de 2009.

[20] Vitor Manuel Adrião, Quinta da Regaleira (Sintra, História e Tradição), Editora Dinapress,Lisboa, Abril de 2013.