peregrinos[1]

Publicado em Voile d´Ísis, Junho 1930

 A recente reimpressão, no Voile d´Ísis, do notável artigo de M. Grillot de Givry acerca dos lugares de peregrinação, faz-nos voltar a esse assunto sobre o qual já fizemos aqui várias referências, como M. Clavelle lembrou na apresentação desse artigo.

Desde já apontamos que a palavra latina peregrinus, donde procede “peregrino”, por sua vez significa “viajante” e “estrangeiro”. Esta simples observação desde logo dá lugar a vários paralelismos bastante curiosos: com efeito, por um lado entre os Companheiros alguns se reconhecem como “viajantes” e outros como “estrangeiros”, o que corresponde exactamente aos dois significados de peregrinus (que além do mais também se encontram também no termo hebreu gershôn); por outro lado, na própria Maçonaria moderna e “especulativa” as provas simbólicas da iniciação são chamadas “viagens”. Além disso, em muitas e diversas tradições os diferentes estados iniciáticos são frequentemente descritos as como etapas de uma viagem, às vezes tratando-se de uma simples viagem que também às vezes poderá ser uma navegação, conforme assinalámos noutras ocasiões. Este simbolismo da viagem parece estar muito mais difundido que aquele da guerra, de que já falámos no nosso último artigo. De resto, um e outro não deixam de apresentar uma certa relação entre eles, que várias vezes chegou mesmo a reflectir-se exteriormente nos factos históricos. Nisto estamos pensando na ligação estreita que na Idade Média existiu entre as peregrinações à Terra Santa e as Cruzadas. Acrescentamos ainda que mesmo na linguagem religiosa mais comum, a vida terrena é considerada como um período de provas frequentemente assimilada a uma viagem, e mesmo muito expressamente qualificada de peregrinação, de que o mundo celeste é a meta, sendo assim identificada simbolicamente à “Terra Santa” ou “Terra dos Viventes”[1].

O estado de “errância”, se assim se pode dizer, ou de migração, é então, de um modo geral, um estado de “provação”, e com efeito observa-se ser precisamente essa a natureza de organizações como o Companheirismo. Por outro lado, o que é verdade para esse respeito para os indivíduos também pode ser, pelo menos em certos casos, para alguns povos considerados colectivamente, sendo um exemplo muito claro disso o dos Hebreus que vaguearam durante quarenta anos no deserto antes de alcançarem a Terra Prometida. Desde já deve-se fazer aqui fazer uma distinção, porque esse estado essencialmente transitório não deve ser confundido com o estado nómada que é normal em certos povos, e mesmo depois de terem chegado à Terra Prometida – e até aos tempos de David e Salomão – os Hebreus foram um povo nómada, porém, esse nomadismo não tinha evidentemente o mesmo carácter da sua peregrinação no deserto[2]. Além disso, pode-se observar um terceiro caso de “errância” que se pode designar com maior propriedade pelo termo “tribulação”, como foi aquele dos Judeus após a sua dispersão e também, parecendo semelhante em tudo, o dos Boémios, mas isso iria levar-nos demasiado longe, pelo que somente acrescentamos que tal caso é aplicável tanto às colectividades como aos indivíduos. Por aqui pode-se perceber como estas coisas são complexas e como podem haver distinções a fazer entre homens que se apresentam exteriormente sob as mesmas aparências, confundidos com os peregrinos no sentido comum do termo, faltando ainda acrescentar o seguinte: acontece que às vezes alguns Iniciados, inclusive “Adeptos”, já chegados à meta, por motivos especiais voltam a retomar essa mesma aparência de “viajantes”.

Porém, voltemos aos peregrinos. Sabe-se que os seus sinais distintivos eram a concha vieira (chamada de Santiago) e o bordão. Este último, que também tem uma estreita relação com a cana do Companheirismo, é naturalmente um atributo do viajante, mas tem outros significados, e talvez um dia dediquemos um estudo especial a esse assunto. Quanto à concha vieira[3], em algumas regiões francesas ela é chamada “creusille”, palavra que se aproxima daquela “creuset”[4], o que nos conduz novamente à ideia das provas, considerada mais particularmente segundo um simbolismo alquímico, e entendida no sentido de “purificação”, a Katharsis[5] dos Pitagóricos, que era precisamente a fase preparatória da iniciação[6].

Sendo a concha vieira tomada muito especialmente como o atributo de Santiago, somos levados a fazer a esse propósito uma consideração respeitante à peregrinação a Santiago de Compostela. As rotas que outrora os peregrinos seguiam eram frequentemente chamadas, e ainda hoje, “caminhos de Santiago”, mas esta expressão tem ao mesmo tempo outra aplicação totalmente distinta: o “caminho de Santiago”, na linguagem campesina, é também a Via Láctea, e talvez isto talvez se perceba se observar-se que Compostela, etimologicamente, não significa outra coisa senão o “campo estrelado”. Nisto encontramos uma outra ideia, a das “viagens celestes”, desde logo em correlação com as viagens terrestres. Este também é um ponto sobre o qual não nos é possível deter-nos presentemente, e somente indicaremos que poderá pressentir-se aí uma certa correspondência entre a situação geográfica dos lugares de peregrinação e o próprio ordenamento da esfera celeste. Nisto, a “geografia sagrada”, a que temos feito alusão, integra-se então numa verdadeira “cosmografia sagrada”.

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Ainda a propósito das rotas das peregrinações, é oportuno lembrar que M. Joseph Bédier teve o mérito de destacar a relação existente entre os santuários que marcam as suas etapas e a formação das canções de gesta. Parece-nos que esse facto generalizou-se, podendo-se dizer a mesma coisa sobre a propagação de uma infinidade de lendas cujo verdadeiro conteúdo iniciático infelizmente é quase inteiramente desconhecido dos modernos. Na razão da pluralidade dos seus significados, os relatos desse género podiam destinar-se simultaneamente à multidão de peregrinos e comuns e… aos outros. Cada um compreendia-os na medida da sua própria capacidade intelectual e somente alguns penetravam o seu significado mais profundo, como ocorre para com todo o ensinamento iniciático. Deve-se também reparar que por mais diversas que fossem as pessoas que percorriam as rotas, incluindo os mercadores ambulantes e até mesmo os mendigos, estabelecia-se entre elas, por razões sem dúvida muito difíceis de definir, uma certa solidariedade que se expressava pela adopção comum de uma linguagem convencional especial, o “argot da Vieira” ou a “língua dos peregrinos”. Coisa interessante, M. León Daudet observa num dos seus livros recentes que muitos dos termos e locuções pertencentes a essa linguagem encontram-se em Villon e em Rabelais[7], e a respeito deste último também indica, facto digno de ser destacado nesta perspectiva, que durante muitos anos “ele peregrinou atravessando o Poitou, província célebre pelos mistérios e pelas farsas que então ali se interpretavam, e também pelas lendas que corriam nela, encontrando-se no Pantagruel vestígios dessas lendas, dessas farsas e um certo número de vocábulos próprios dos habitantes do Poitou”[8]. Citamos esta última frase porque, além de fazer menção às lendas de que falámos atrás, destaca ainda uma outra questão relacionada com o que aqui é tratado, ou seja, a das origens do Teatro: desde logo, por um lado ele foi essencialmente ambulante, e por outro revestiu-se de um carácter religioso, pelo menos nas suas formas exteriores, carácter religioso esse destinado a aproximar daquele os peregrinos e as pessoas que assumiam a sua aparência. O que dá ainda mais importância a este facto é ele não ter sido particular à Europa da Idade Média, pois a história do Teatro na Grécia antiga é inteiramente análoga, podendo-se também encontrar exemplos similares na maioria dos países do Oriente.

Não querendo alongar-nos, abordaremos somente ainda um último ponto a propósito da expressão “nobres viajantes” aplicada aos iniciados, ou pelo menos a alguns deles, precisamente pelo motivo das suas peregrinações. A este respeito, M. O. V. de Milosz escreveu o seguinte: “Os “nobres viajantes” era o nome secreto dos iniciados da Antiguidade, transmitido por tradição oral àqueles da Idade Média e dos tempos modernos. Foi pronunciado pela última vez em público a 30 de Maio de 1786, em Paris, no decurso de uma sessão do Parlamento dedicada ao interrogatório de um célebre imputado (Cagliostro), vítima do panfletário Théveneau de Morande. As peregrinações dos iniciados não se distinguiam das viagens de estudo comuns senão pelo facto do seu itinerário coincidir rigorosamente, sob a aparência de um trajecto aventuroso, com as aspirações e aptidões mais secretas do Adepto. Os exemplos mais ilustres dessas peregrinações são-nos oferecidos por Demócrito, iniciado nos segredos da Alquimia pelos sacerdotes egípcios e pelo mago Ostanes nas doutrinas asiáticas durante a sua estadia na Pérsia, e, segundo alguns historiadores, na Índia; Thales, formado nos templos do Egipto e da Caldeia; Pitágoras, que visitou todos os países conhecidos dos antigos (e muito possivelmente a Índia e a China), cuja estadia na Pérsia foi marcada pelos seus encontros com o mago Zaratas, na Gália pela sua colaboração com os Druidas, e finalmente na Itália pelos seus discursos à Assembleia dos Ansiães de Crotona. A esses exemplos convém acrescentar as estadias de Paracelso em França, Áustria, Alemanha, Espanha e Portugal, Inglaterra, Holanda, Dinamarca, Suécia, Hungria, Polónia, Lituânia, Valáquia, Carniola, Dalmácia, Rússia e Turquia, assim como as viagens de Nicholas Flamel em Espanha, onde o Mestre Canches ensinou-o a decifrar as famosas figuras hieroglíficas do Livro de Abraham, o Judeu. O poeta Robert Browning definiu a natureza secreta dessas peregrinações científicas numa estrofe singularmente rica de intuição: “Vejo o meu rumo como a ave a sua rota sem rasto; algum dia, um dia feliz, chegarei. Ele me guia, ele guia a ave”. Os anos de viagem de Wilhelm Meister possuem o mesmo significado iniciático”[9]. Achámos oportuno reproduzir inteiramente essa passagem, apesar da sua extensão, pela razão dos vários exemplos interessantes que contém. Sem dúvida podem-se encontrar muitos outros mais ou menos conhecidos, porém esses são particularmente característicos, apesar de talvez não se reportarem todos ao mesmo caso que assinalámos mais atrás, não se devendo confundir as “viagens de estudo”, mesmo quando são realmente iniciáticas, com as missões especiais dos Adeptos ou mesmo de certos iniciados de menor grau.

Voltando à expressão “nobres viajantes”, queremos sobretudo chamar a atenção para o epíteto “nobres”, que parece designar não toda a iniciação indistintamente mas propriamente uma iniciação de Kshatriyas[10], ou aquela que se pode chamar de “Arte Real”, segundo o vocábulo conservado até aos nossos dias pela Maçonaria. Em outras palavras, tratava-se então de uma iniciação relacionada não com a ordem metafísica pura mas com a ordem cosmológica e as aplicações que se ligam a tudo que, no Ocidente, é entendido sob a designação geral de “Hermetismo”[11]. Se isso é assim, então M. Clavelle tem toda a razão quando diz que enquanto São João corresponde ao ponto de vista puramente metafísico da Tradição, São Tiago corresponderá sobretudo ao ponto de vista das “ciências tradicionais”, e mesmo sem evocar o paralelismo, apesar de bastante plausível, com o “Mestre Jacques” do Companheirismo, vários indícios concordantes tendem a provar que essa correspondência é efectivamente justificável. É precisamente a este domínio, que se pode qualificar de “intermediário”, que com efeito se refere tudo o que tem propagado por via dos peregrinos, como também pelas tradições do Companheirismo e aquelas dos Boémios. O conhecimento dos “Pequenos Mistérios” que é aquele das leis do “Futuro”, adquire-se percorrendo a “Roda das coisas”, mas o conhecimento dos “Grandes Mistérios que é aquele dos Princípios imutáveis, exige a contemplação imóvel na “Grande Solidão” do ponto fixo que é o Centro da Roda, o Pólo invariável em torno do qual se cumprem, sem que ele participe, as revoluções do Universo manifestado.

NOTAS

[1] No que respeita ao simbolismo da “Terra Santa” remetemos para o nosso estudo sobre o Rei do Mundo, e também para o nosso artigo no número especial do Voile d´Ísis consagrado aos Templários.

[2] A distinção entre povos nómadas (pastores) e sedentários (agricultores) que remonta às próprias origens da Humanidade terrestre, é de grande importância para a compreensão das características especiais das diferentes formas tradicionais.

[3] Veneris, em espanhol, donde o termo latino venerabilis, “venerável”, e até se encontrando nela o símbolo estelar de Vénus (nota do tradutor).

[4] Crisol, em português (nota do tradutor).

[5] Catarse, em português (nota do tradutor).

[6] Pode-se indicar aqui tudo quanto dissemos em O Rei do Mundo acerca da indicação dos iniciados, em diversas tradições, mediante termos reportando-se à ideia de “pureza”.

[7] Os Horrores da Guerra, pp. 145, 147 e 167.

[8] Idem, p. 173.

[9] Os Arcanos, pp. 81-82.

[10] Guerreiros, cavaleiros, a casta nobre ou Nobreza englobando a Realeza medieval (nota do tradutor).

[11] Sobre a distinção das duas iniciações sacerdotal e real, remetemos para o nosso último livro Autoridade Espiritual e Poder Temporal.

TRADUZIDO DO ORIGINAL FRANCÊS POR VITOR MANUEL ADRIÃO

 

 

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