enseigne-marechal-st-paterne-racan[1]

Publicado em Voile d´Ísis, Outubro 1928

Num artigo de M. G. Milcent publicado na revista Le Compagnonnage de Maio de 1926 e reproduzido no Voile d´Isis de Novembro de 1927, anotámos esta frase: “O que me surpreendeu e me deixou mesmo um pouco céptico, foi quando o C∴ Bernet disse que preside anualmente, nas Saintes-Maries-de-la-Mer, à eleição do Rei dos Boémios”. Não há muito tempo havíamos feito a mesma observação, porém, não quisemos abordar o assunto. Mas agora que foi apresentado assim tão publicamente, não temos nenhuma razão para não dizer algumas palavras, tanto mais que poderão contribuir para elucidar alguns pontos que não deixam de ter interesse.

Em primeiro lugar, não é um Rei que os Boémios[1] elegem mas uma Rainha, e em segundo lugar essa eleição não se repete todos os anos. O que se realiza anualmente é somente a reunião, com ou sem eleição, dos Boémios na cripta da igreja de Saintes-Maries-de-la-Mer[2]. Por outro lado, é muito possível que alguns, mesmo sem pertencerem à raça boémia mas em razão das suas qualidades ou das suas funções, possam ser admitidos a assistir a essa reunião e aos ritos que então se realizam. Mas quanto a “presidi-los” já é outro assunto, e o mínimo que podemos dizer é que tal parece-nos extremamente esquisito. Porém, como essa afirmação apareceu pela primeira vez numa entrevista publicada há bastante tempo no Intransigeant, queremos acreditar que as imprecisões que contém devem simplesmente imputar-se ao jornalista que, como é costume acontecer, terá forçado a nota para picar a curiosidade do seu público, tão ignorante como ele mesmo no que se refere a estes assuntos, e por conseguinte incapaz de aperceber os seus erros. Assim, não tencionamos insistir mais do que o necessário mais sobre o assunto, pois o verdadeiro interesse reside na questão mais genérica das relações que possam haver entre os Boémios e as organizações do Companheirismo.

companheiros do dever

M. Micent, no seu artigo, prossegue dizendo “que os Boémios praticam o rito judeu, e que nisso poderão existir relações com os C∴ Canteiros Estrangeiros do Dever da Liberdade”. A primeira parte desta afirmação parece-nos conter uma imprecisão, ou pelo menos um equívoco: é verdade que a Rainha dos Boémios porta o nome, ou melhor, o título de Sarah, que também é o nome dado à santa que eles reconhecem como sua padroeira, cujo corpo repousa na cripta das Saintes-Maries. Também é verdade que esse título, forma feminina de Sar, é hebraico e significa “princesa”. Mas será isso suficiente para poder-se falar a propósito de um “rito judeu”? Ora o Judaísmo pertencendo a um povo cuja religião é estreitamente solidária da raça, certamente os Boémios, qualquer que possa ser a sua origem, nada têm em comum com a raça judaica. No entanto, apesar de tudo, será possível que tenham existido relações devido a afinidades de ordem mais misteriosa?

PELERINAGE-OCTOBRE-2[1]

Quando se fala dos Boémios é indispensável fazer uma distinção muito frequentemente esquecida: a de que na realidade há dois tipos de Boémios, que parecem ser absolutamente estranhos entre si e inclusive chegam a tratar-se como inimigos – não têm as mesmas características étnicas, não falam a mesma língua, nem exercem os mesmos ofícios. De um lado estão os Boémios orientais ou Zíngaros, que são sobretudo domadores de ursos e caldeireiros; do outro lado estão os Boémios meridionais ou Ciganos propriamente ditos, chamados “Caraques” no Languedoc e na Provença, sendo quase exclusivamente comerciantes de cavalos, e são estes os únicos que se reúnem em Saintes-Maries. O marquês de Baroncelli-Javon, num curioso estudo sobre os Boémios de Saintes-Maries-de-la-Mer, indica numerosos traços que lhes são comuns com os Peles-Vermelhas da América, e não hesita, em virtude dessas semelhanças e também pela interpretação das suas próprias tradições, em atribuir-lhes uma origem atlanteana. Apesar de não passar de uma hipótese, de qualquer modo é digna de ter em conta. Mas há outra coisa que nunca vimos assinalada em parte alguma e que não é menos extraordinária: tal como há dois tipos de Boémios, também há dois tipos de Judeus, os Ashkenazim e os Sephardim, aos quais podem aplicar-se considerações análogas no que respeita às diferenças de traços físicos, de língua, de aptidões e que ademais nem sempre mantêm as relações mais cordiais, pois cada parte pretende representar por si só o puro Judaísmo, seja no aspecto racial, seja no da tradição. Há, inclusive, no que respeita à língua uma semelhança bastante surpreendente: nem os Judeus nem os Boémios têm, a dizer verdade, uma língua completa que lhes pertença propriamente, pelo menos na do uso corrente. Tanto uns como outros servem-se das línguas das regiões onde vivem, entremesclando algumas palavras que lhes pertencem, hebraicas no caso dos Judeus, e no caso dos Boémios palavras que lhes vêm também de uma língua ancestral da qual são os últimos restos. Estas particularidades podem explicar-se pelas condições de existência de povos forçados a viver dispersos entre estrangeiros. Porém, já é mais difícil explicar o facto das regiões percorridas pelos Boémios orientais e pelos Boémios meridionais serem precisamente as mesmas onde habitam respectivamente os Ashkenazim e os Sephardim. Não será uma atitude demasiado “simplista” aquela que se limita a não ver nisso senão uma pura coincidência?

achille-zo-bohemiens-en-voy1[1]

Estas considerações levam a pensar que não se tratam de relações étnicas entre os Judeus e os Boémios, mas talvez de outro tipo de relações que, sem necessitar deter-nos na sua natureza, poderíamos qualificar de tradicionais. Tudo isso reconduz-nos directamente ao assunto em pauta, de que não nos afastámos senão aparentemente: as organizações do Companheirismo, nas quais a questão étnica evidentemente não se põe, por isto mesmo não poderiam elas próprias manter relações do mesmo teor seja com os Judeus, seja com os Boémios, seja mesmo com uns e outros ao mesmo tempo? Não temos a intenção, pelo menos de momento, de procurar explicar a origem e a razão dessas relações, contentando-nos em chamar a atenção para alguns pontos muito precisos: não estão os Companheiros divididos em muitos ritos rivais, estando frequentemente de hostilidades mais ou menos abertas? Não comportam as suas viagens itinerários segundo diversos os ritos e com pontos de ligação igualmente diferentes? Não têm elas de algum modo uma linguagem especial, cujo fundo é seguramente formado pela língua corrente mas que se distingue dela pela introdução de termos particulares, tal qual acontece no caso dos Judeus e dos Boémios? Não é certo que se usa o vocabulário “jargão” para distinguir aquela linguagem convencional usada em certas sociedades secretas, particularmente no Companheirismo, tal como às vezes os Judeus o usam para denominar o seu próprio? Por outro lado, em certas regiões rurais os Boémios não são conhecidos pelo nome de “passantes” pelo qual acabam confundidos com os bufarinheiros, que é, como se sabe, uma designação aplicada igualmente aos Companheiros? Finalmente, a lenda do “Judeu Errante” não teria, como muitas outras, origem no Companheirismo?

Sem dúvida poderíamos multiplicar estas interrogações, porém consideramos que as colocadas são suficientes e que as pesquisas dirigidas nesse sentido poderão esclarecer singularmente certos enigmas. De resto, poderá acontecer que nós próprios voltemos ao assunto trazendo ainda algumas indicações complementares. Mas os Companheiros de hoje em dia interessam-se verdadeiramente por tudo que toca às suas tradições?

NOTAS

[1] Ou Ciganos, etnia a que se refere o autor neste estudo (nota do tradutor).

[2] Santas Marias do Mar (Maria Madalena, Maria Salomé e Maria Jacobé), pretexto para a festividade cigana anual, de 22 a 25 de Maio, em honra de Santa Sara ou Kali, celebrada no dia 24 de Maio, cuja imagem negra está na cripta dessa igreja da capital da Camarga, próxima do delta do Rhône e vizinha da cidade de Arles, na Occitânia Provençal, no Sul de França (nota do tradutor).

TRADUZIDO DO ORIGINAL FRANCÊS POR VITOR MANUEL ADRIÃO

Advertisements