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Publicado originalmente, sem assinatura, em La France Antimaçonnique, n.os 20 de Novembro e 4 Dezembro 1913. Republicado em Études Traditionnelles, Junho 1952

As nossas investigações sobre o Regime Escocês Rectificado levaram-nos a empreender, como complemento indispensável, um estudo sobre a Estrita Observância tão profundamente quanto o permite um assunto tão obscuro propício a tantas controvérsias. Consideramos interessante juntar à edição deste estudo os documentos que apareceram noutra parte sobre o assunto, relacionando-os com os que já conhecíamos.

Em primeiro lugar, destacamos na Bastille de 6 e de 13 de Setembro de 1913, um notável artigo intitulado “Alguns impostores F∴ M∴: Strack e Coucoumous”, de Benjamin Fabre, autor da recente obra sobre Franciscus, Eques a Capite Galeato. Fala-se aí especialmente dos Clérigos da Lata Observância, sobre a qual dissemos algumas palavras a propósito do Rito fundado em Malta em 1771 pelo mercador jutlandês Kolmer. Eis aqui os termos com que Eques a Capite Galeato falou, “como um dos comissários dos Arquivos dos “Philatethes”[1], acerca dos Clérigos da Lata Observância[2]:

“Estes “clérigos” constituem no entanto um problema para quem seja observador imparcial. Tem-se dito que foram os “jesuítas” (!) quem, querendo perpetuar-se secretamente, formaram a “classe eclesiástica da ordem interior do Regime da Estrita Observância[3].

“Diz-se que se tratou de uma nova “Confederação” que, impulsionada por motivos de orgulho e cobiça, queria dominar no dito Regime por meio de algumas formalidades e de algumas ideias científicas recolhidas dos manuscritos e dos livros raros dos Rosa-Cruzes do século XVII[4].

“Tem-se dito que era o “Clero da Ordem dos Antigos Templários” que se haviam perpetuado e que, com exclusão dos simples “cavaleiros”, possuíam “a doutrina e a prática das Ciências Ocultas, das quais cada um desenvolvia o catálogo segundo o alcance das suas ideias e segundo os seus próprios gostos”[5].

“Na realidade, estes “Clérigos” favoreciam qualquer opinião que se quisesse formular sobre eles, dada a ambiguidade das suas respostas, da sua constituição e da astúcia da sua conduta”. E Benjamin Fabre acrescenta: “A finalidade que perseguiam havia sido a de “sobrepor-se” ao Regime da Estrita Observância[6] para assumir a direcção das suas Lojas estabelecidas em toda a Europa, inclusive no Novo Mundo. Exigiam dos seus adeptos que possuíssem todos os graus outorgados pela Estrita Observância.”

Foi em 1767 quando a dita cisão, “que parecia ter desencadeado um “Poder Oculto” que se manifestou primeiramente em Viena, ocorreu no Regime da Estrita Observância. A partir de então “parece que, por uma ou outra razão, o barão von Hundt, Eques ab Ense[7], perdeu a sua proeminência e o que até esse momento havia constituído a sua força, ou seja, a comunicação com os Superiores Incógnitos”. Quando se reuniu a Assembleia Geral Maçónica de Brunswick, em 1775, “o barão von Hundt, representante do Grão-Mestre Eques a Penna Rubra[8]… já não era mais que “a sombra de uma sombra”. É possível que a desgraça tenha golpeado mais além do chefe da “Estrita Observância” e haja alcançado a esse mesmo Grão-Mestre, intermediário entre von Hundt e os verdadeiros Superiores Incógnitos[9].

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Um dos líderes do cisma foi o I∴ Starck, pregador da corte da Prússia, doutor em teologia (protestante) e… em ciência maçónicas, nas quais teve como mestres a Gugumus e ao taberneiro Schroepfer. O primeiro (cujo nome também se escreve Gugomos, Gouygomos, Kukumus, Cucumus, etc., já que a ortografia é muito incerta), figura na lista dos membros da Estrita Observância com o nome de Eques a Cygno Triomphante[10] e com o título de “lugar-tenente ao serviço da Prússia”. Segundo uma carta do I∴ príncipe de Carolath ao I∴ marquês de Savalette de Langes[11], “Coucoumus (sic) ou Kukumus, proveniente de uma família procedente da Suábia, passou por quase todos os serviços na Alemanha, tanto militares como civis, foi admirado pelo seu talento, mas ao mesmo tempo também foi desapreciado pela sua inconstância e má conduta (…); foi camareiro do duque de Wirtemberg”.

“Gugomos – conta o I∴ Clavel[12] – havia aparecido na Alta Alemanha e dizia-se enviado de Chipre[13] pelos Superiores Incógnitos da Santa Sé (?). Ele se assinava com os títulos de grande sacerdote, de cavaleiro, de príncipe. Prometia ensinar a arte de fabricar ouro, de evocar os mortos e de indicar os lugares dos tesouros escondidos dos Templários. Porém, bem depressa se desmascarou. Quando quis fugir agarraram-no e obrigaram-no a retratar-se por escrito de tudo o que havia afirmado, a confessar não passar de um simples impostor[14].”

O que se segue não nos permite compartilhar inteiramente dessa conclusão: se com efeito Gugomos possa ter sido um impostor, no entanto também deverá ter sido outra coisa, pelo menos durante parte da sua carreira. Isso é o que parece depreender-se da continuação da carta já citada do I∴ príncipe de Carolath: “Já fazia muito tempo que professava as ciências ocultas, tendo sido em Itália que se formou nesse assunto. Pelo que se assegura, regressou à sua pátria possuidor dos mais extraordinários conhecimentos que nunca deixou de praticar. Por meio de certos caracteres, que sem dúvida não eram os verdadeiros, e de fumigações convocava os espíritos, os espectros. Inclusive assegura-se que possuía uma espécie de raio sob o seu controle”.

Pois bem, de acordo com testemunhos de que não temos nenhuma razão para duvidar, ainda existem no Norte de África certos rabinos[15] que possuem precisamente “uma espécie de raio sob o seu controle”, e que por meio de caracteres ou de figuras cabalísticas produzem, no espaço onde realizam tal “operação”, uma espécie de tormenta em miniatura, com a formação de nuvens, relâmpagos, trovões, etc.[16] Era pouco mais ou menos era isso que fazia Gugomos, e essa semelhança, significativa do ponto de vista de certas influências judaicas, por outro lado faz-nos lembrar esse “misterioso Adepto oculto sob o nome de Valmont, que frequentemente viajava desde África a Itália e a França, e que iniciou o I∴ barão de Waechter”[17].

Teria sido interessante contar com informação um pouco mais detalhada acerca dos “caracteres” de que se servia Gugomos nas suas “operações”. Ademais, tanto entre os “Philatethes” como entre outros II∴ de “Regimes” diversos e rivais que se esforçavam com muito fervor e tão pouco êxito em fazer surgir “a Luz das Trevas” e “a Ordem do Caos”, quem poderia vangloriar-se, sobretudo em tal época[18], de possuir os “verdadeiros caracteres”, vale dizer em suma, de remontar à emanação de uma “Potência legítima” aos olhos dos verdadeiros Superiores Incógnitos? Às vezes eram destruídos ou desapareciam arquivos muito oportunamente, demasiado oportunamente como se pretendesse não levantar suspeitas. Acaso a Grande Loja de Inglaterra não foi, desde os seus começos (1717-1721) e por inspiração do Rev. I∴ Anderson (ex-capelão de uma Loja Operativa), a primeira a dar o exemplo de semelhante procedimento?[19] Mas terminemos a citação: “A notícia de tantas coisas maravilhosas atraiu a atenção de todo o mundo, isto é, do mundo maçónico, pois deve-se reconhecer ele que nunca se dirigiu aos profanos”.

Tratava-se, por parte de Gugomos, de uma conduta conformada às regras da mais elementar prudência. De qualquer modo, mesmo nos ambientes maçónicos deveria ter-se mostrado mais circunspecto, no seu próprio interesse e no da sua “missão”, mas a ostentação que fez dos seus “conhecimentos” e poderes possivelmente foi uma das causas da desgraça que o esperava, como se verá de seguida: “Com uma permanente autoconfiança teve coragem para convocar um Congresso Geral, onde devia propagar os seus conhecimentos raros. Porém, prodigiosamente as suas forças abandonaram-no e deixou de estar em condições para produzir as coisas de que se havia vangloriado. Em consequência, foi expulso da Ordem pela sua má conduta. Hoje em dia o seu estado é o de um errar contínuo, apesar de assegurar que recuperou parte dos seus conhecimentos. Ignora-se o seu actual paradeiro”.

Gugomos, manifestamente abandonado por aqueles Superiores Incógnitos dos quais não havia sido mais que um instrumento, perdeu todos os seus poderes justamente no momento em que mais necessitava deles. É muito possível que recorresse então a certas fraudes com a intenção de manter a credibilidade daqueles títulos que já não podia justificar por poderes verdadeiros, dos quais não havia sido mais que o depositário momentâneo, e esses títulos não eram daqueles que podiam comprovar-se por algum documento escrito, o que por outro lado nunca foram capazes de decifrar aqueles II∴ dos Altos Graus[20]. Em tais circunstâncias, Gugomos, pressionado por questões indiscretas, não pôde subtrair-se delas senão declarando-se “impostor” e ser “expulso da Ordem”, ou seja, dos Altos Graus “conhecidos” da organização “interior” em relação à Maçonaria Simbólica, porém, sem dúvida ainda “exterior” em relação a outras, aquelas a que o mesmo Gugomos não conseguira manter-se ligado, apesar de mais como simples auxiliar do que como verdadeiro Iniciado.

Tal desventura não deve surpreender-nos, tanto mais que a Alta Maçonaria de então proporciona-nos vários outros exemplos: aproximadamente o mesmo aconteceu ao barão von Hundt, a Starck, a Schroepfer, etc., sem falar de Cagliostro[21]. Ademais, sabemos que mesmo na nossa época aconteceu algo parecido a alguns enviados ou agentes de certos “Superiores Incógnitos”, verdadeiramente “Superiores” e verdadeiramente “Incógnitos”: aqueles que se haviam comprometido e, mesmo sem cometerem outra falta, fracassaram na sua missão, imediatamente foram-lhes retirados todos os poderes[22]. Ademais, a desgraça, poderá ser somente temporal, e possivelmente esse foi o caso de Gugomos; mas o correspondente do I∴ Savalette de Langes equivocou-se ou expressou-se mal quando escreveu que, acto seguido, “recuperou parte dos seus conhecimentos”, pois apesar dos “poderes” poderem ser retirados ou desenvolvidos conforme a vontade dos “Superiores Incógnitos”, evidentemente o mesmo não acontece com respeito aos “conhecimentos”, que uma vez adquiridos é para sempre através da iniciação, por mais imperfeita que tenha sido.

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O príncipe de Carolath, tão severo com Gugomos, no entanto vacila em acusá-lo de impostor. Se bem que evite pronunciar-se parece duvidar mais da qualidade de tais “conhecimentos” que da sua realidade, pois diz: “Nesse Congresso Maçónico (de 1775) Waechter acaba por confundir a Kukumus[23]. Parece que Kukumus não possuía a “verdadeira Luz” e que persistiu na ligação que possivelmente teve com alguns “espíritos impuros”, contribuindo assim para aumentar a sua própria perversidade e a dos demais, criando novos encadeamentos invés de libertar-se deles”. Com efeito, parece que Gugomos seduzia sobretudo pela posse de certos poderes de ordem muito inferior e se dedicara quase exclusivamente a praticá-los. É possível que essa fosse uma das causas da sua desgraça, já que poderia muito bem não concordar com as determinações dos seus “Superiores Incógnitos”[24].

Em outra carta dirigida ao I∴ Savalette de Langes, em referência a Gugomos ou Kukumus, o I∴ barão de Gleichen chega a declarar que “é um impostor”, porém apressa-se a adiantar: “Todavia nada sei da sua “doutrina”, o que talvez parecesse menos interessante apesar de constituir um “conhecimento” bastante real, como sem dúvida acabou por compreender às suas próprias custas. De quem recebeu ele essa “doutrina”? A pergunta, muito mais importante que o tema do valor moral, eminentemente suspeitoso, de Gugomos, reduz-se exactamente ao seguinte: quem foram os seus “Superiores Incógnitos”? Certamente não podemos aceitar a solução que propõe o barão de Gleichen, atormentado pela obsessão de que já conhecemos exemplos: “A maioria acredita que ele foi um enviado dos jesuítas (!), os quais realmente tentaram várias vezes unir-se à Maçonaria”. Tentativa de igual teor pôde ser realizada no caso de outros que não eram jesuítas, por exemplo, os judeus, apesar de serem excluídos por uma parte da Maçonaria, como ainda o são na Suécia e em várias Grandes Lojas da Alemanha. Foi justamente neste país que viu a luz a maioria dos “Regimes” cujo protótipo foi a “Estrita Observância”, o que não significa que todos tenham tido a mesma origem “de facto”, o que nos parece pouco credível. Porém, compreende-se facilmente como se apoderando dos Altos Graus por intermédio de emissários destituídos de qualquer mandato oficial, se pudesse chegar a dirigir “invisivelmente” toda a Maçonaria, o que para todo o efeito é suficiente para explicar a multiplicidade de tentativas feitas para o conseguir[25].

Abramos agora um parêntesis: por vezes tem-se censurado alguns que pretendem ver a influência dos judeus em toda a parte. Isso poderá dever-se a uma maneira exclusiva de ver, mas no entanto há outros que, caindo no extremo oposto, não querem vê-la em parte alguma. Foi isto que ocorreu particularmente a respeito do misterioso Falc (assim o escreve o I∴ Savalette de Langes), que alguns “acreditavam que era o chefe de todos os judeus”[26]. Quis-se identificá-lo já não com Falk-Scheck, grande rabino de Inglaterra, mas com o I∴ Ernest Falcke (Epimenides, Eques a Rostro), burgomestre de Hannover, o que não explica minimamente os rumores que na época corriam acerca dele. Por outro lado, quem quer que tenha sido esse enigmático personagem, o seu papel, como o de muitos outros, aguarda clarificação, parecendo um assunto ainda mais difícil que o caso de Gugomos.

No que se refere a Falk-Scheck, encontramos numa Notícia histórica sobre o Martinesismo e Martinismo, a que voltaremos mais adiante, um facto que merece ser citado: “Mme. De la Croix, exorcista de possuídos, por sua vez ela mesma demasiado frequentemente possuída, gabava-se sobretudo de ter destruído um talismã de lápis-lazúli que o duque de Chartres (Philippe-Egalité, mais tarde duque de Orleans e Grão-Mestre da Maçonaria Francesa) havia recebido de Inglaterra da parte do célebre Falk-Scheck, grande rabino dos judeus, e esse um talismã que deveria ter conduzido o príncipe até ao trono, segundo ela dizia, foi destruído sobre o seu peito em virtude dos seus rogos”. Tenha ou não justificação tal pretensão, não é menos certo que a história resulta singularmente esclarecedora de algumas influências ocultas que contribuíram para preparar a Revolução Francesa.

Benjamin Fabre dedica a continuação do seu artigo[27] ao I∴ Schroepfer, “que teve uma carreira agitada” terminada em suicídio[28] mas “que, sob um aspecto muito curioso, oferece-nos a correspondência de Savalette de Langes”.

O I∴ Bauer descreve uma das suas evocações testemunhada por ele próprio “numa assembleia de II∴, tanto em Leipzig como em Frankfurt, composta por gente de letras, ciências, etc. Depois de haver ceado numa Loja ordinária, fez com que nos despojássemos de todos os metais e ele preparou-se numa mesinha aparte sobre a qual havia uma pintura que continha todo o tipo de figuras e caracteres, desconhecidos para mim. Fez com que recitássemos uma oração bastante extensa e “muito eficaz”, e encerrou-nos num círculo. Cerca da uma da manhã ouvimos um ruído de cadeias, e pouco depois três grandes pancadas de maneira assombrosa, na mesma sala onde estávamos estendidos no piso. Depois começou a recitar uma espécie de oração com a sua sineta “numa linguagem que eu não compreendia”. Logo pela porta, que antes fora fechada com ferrolho, entrou um fantasma negro que ele chamava “o espírito malvado” e com o qual “falou na mesma linguagem”. Por sua vez espírito respondeu-lhe e retirou-se à sua ordem. Cerca das duas, apareceu outro com as mesmas cerimónias, desta vez branco chamado “o espírito bom”, que se despediu do mesmo modo. Depois de tudo isso, cada um saiu entusiasmado com a cabeça cheia de quimeras…”

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“Ecques a Capito Galeato” declara que outro testemunho “deu-lhe a entender que todos esses feitos, de tanto renome, não eram senão o resultado prestígios físicos, com a ajuda da prevenção ou da credulidade dos espectadores”. No entanto, o Dr. Koerner confessa “todavia não ter conseguido conciliar os relatos contraditórios que se fizeram acerca deste homem”, e o I∴ Massenet assegura “que foi este mesmo homem que manifestou ante o príncipe Charles de Courland[29] o mariscal de Saxe[30], na presença de seis testemunhas que, na sua totalidade, declararam as mesmas circunstâncias e asseguraram a realidade do acontecimento, apesar de que antes não terem nenhuma tendência para acreditar em nada semelhante”.

Por nossa parte, que devemos acreditar de tudo isso? Seguramente nos é mais difícil que aos seus contemporâneos formar uma ideia clara e definida sobre a natureza das “obras pneumatológicas” de Schroepfer, cujos próprios alunos, como o barão de Benst, camareiro do Eleitor de Saxe, ainda se encontravam, a acreditar em Savalette de Langes, “no mesmo ponto” que os “Philatethes” na busca da “verdadeira Luz”. Logo, “perante tantos Doutores, Teósofos, Herméticos,Cabalistas,Pneumatólogos”, trata-se na realidade de um resultado muito medíocre![31]

Tudo o que pode dizer-se com certeza é que, se em algum momento Schroepfer possuiu alguns poderes reais, tais poderes foram de uma ordem mais inferior que os de Gugomos. Em resumo, personagens como esses evidentemente não foram senão iniciados muito imperfeitos, e de uma ou outra maneira desapareceram sem deixar rasto logo depois de jogarem um papel efémero como agentes subalternos, e possivelmente indirectos, dos verdadeiros “Superiores Incógnitos”[32].

Como disse muito justamente Benjamin Fabre, “cabalistas judaizantes e magos, “ao mesmo tempo” impostores e velhacos, tais foram os mestres de Starck”. E acrescenta: “De tão boa escola este inteligente discípulo pôde tirar proveito, como veremos em seguida”.

Consequentemente, esse artigo[33] é dedicado ao I∴ Starck (Archidemides, Eques a Aquila Fulva”), o qual encontramos na Assembleia Geral de Brunswick (22 de Maio de 1775) enfrentando-se com o barão von Hundt (“Eques ab Ense”), fundador da “Estrita Observância”, e contra o qual “contribuiu para afastá-lo da presidência da Ordem” apesar de não conseguir que as suas próprias pretensões prevalecessem. Como voltaremos a este ponto mais adiante, por agora não insistiremos nele. Indicaremos antes que em 1779[34] Starck promoveu outra tentativa que tampouco resultou, a que Thory refere-se nestes termos: “O doutor Stark (sic) convocou em Mittau aos “Irmãos” e aos “Clérigos da Estrita Observância”. Apesar de ter tentado conciliar os seus debates, esse projecto fracassou”[35].

“Eques a Capite Galeato” assim relata o final, real ou suposto, dos “Clérigos da Lata Observância”:

“Numa das “Assembleias Gerais Provinciais” na Alemanha do “Regime da Estrita Observância”, pressionou-se os membros com questões que não souberam ou não quiseram contestar. Pelo que se diz, dois deles (Starck e o barão de Raven), que disseram ser os últimos (destes “Clérigos” ou “Clerici”), um e o outro apresentaram a demissão e renunciaram totalmente a propagar a sua Ordem Secreta.

“Alguns consideram que tal demissão foi simulada, porque não tendo encontrado na “Estrita Observância” propagadores do seu agrado fingiram renunciar, com o objectivo de não seguirem as suas pisadas e se os puderem esquecer. De qualquer modo, o I∴ Starck, sábio maçom e sábio ministro do Santo Evangelho, o qual foi-me assegurado ter sido um dos “Clerici”, publicou grande quantidade de obras nas quais não é possível deixar de apreciar, até certo ponto, os conhecimentos e o objectivo da sua Ordem Secreta. As suas obras de que tive conhecimento, são: A apologia dos F∴ M∴; A finalidade da Ordem dos F∴ M∴[36]; Sobre os Antigos e os Novos Mistérios. Há traduções das duas primeiras.”[37]

Falta acrescentar que em 1780 “atacou publicamente o ‘sistema dos Templários’, como contrário aos governos e sedicioso, num folheto intitulado ‘A pedra que entrava e a pedra do escândalo’[38].”

É possível que os “Clerici”se tenham perpetuado secretamente. Em todo o caso, Starck não desapareceu da cena maçónica, pois vemos ter sido convocado para a “Assembleia Geral Maçónica de Paris” em 1785[39]. Apesar da sua desventura conservava uma grande autoridade. Acaso devemos surpreender-nos quando vemos que, ao falecer o barão von Hundt, mandou-se cunhar uma medalha em honra deste outro “sábio maçom”[40], que por seu lado foi no mínimo suspeito de impostura e mistificação?

Quanto aos conhecimentos particulares que os “Clerici” pretendiam possuir exclusivamente, citamos o que disse a respeito o I∴ Meyer[41] numa carta a Savalette de Langes em 1780: “Vós sabeis que houve ‘Clerici’ no Capítulo de certa Ordem que não nomeio[42], e pretende-se que foram os únicos depositários da ciência ou do segredo. Isto não conforma os Maçons modernos que se roem de curiosidade: logo depois de terem sido armados “Cavaleiros” pedem, além da espada, o incensório. A facilidade com que se comunica este grau certamente não abona a seu favor, e ademais os que o possuem não sabem senão algumas palavras enigmáticas extras”. Portanto, os II∴ já admitidos nos Altos Graus que ingressavam nesse “sistema” mais “interior”, ou assim se autointitulado, sem dúvida que maioritariamente não encontravam o “segredo da Maçonaria” e assim não se transformavam em “verdadeiros Iniciados”.

Isso lembra-nos estas palavras do I∴ Ragon: “Nenhum grau conhecido ensina nem desvela a ‘Verdade’. Somente ‘roçará’ o véu… Os graus que se praticam até hoje produzem Maçons e não ‘Iniciados’[43]”. Portanto, só mais além dos diversos “sistemas”, e de nenhum modo em um ou outro deles, se pode descobrir os “Superiores Incógnitos”. Não entanto, no que respeita às provas da sua existência e da sua acção mais ou menos imediata, não são difíceis de achar senão para quem não as quer ver. Isto é o que queríamos destacar muito especialmente, e de momento abstemo-nos de formular outras conclusões.

NOTAS

[1] O mesmo foi secretário-geral da “Assembleia Geral de Paris” em 1785, e em tal oportunidade foi encarregue, primeiro só ele e depois junto com o I∴ barão de Gleichen, de iniciar contactos com Cagliostro para sondar as suas intenções. Não deixa de ser importante assinalar que partiu precipitadamente mal se o encarregou de escrever certa carta à “Loja-Mãe do Rito Egípcio”, tendo de ser substituído pelo I∴ de Beyerlé (Eques a Fascia, na “Estrita Observância”). Os documentos relativos a Cagliostro na “Assembleia Geral de Paris” foram publicados pelo I∴ Thory nas suas Acta Latomorum, tomo II, pp. 102-127.

[2] Ou “da Alta Observância” (?), segundo Thory (idem, tomo I, p. 103).

[3] O I∴ Ragon e vários outros autores maçónicos, inclusive o I∴ Limousin, encarregaram-se de propagar esta lenda, assim como aquela outra que atribui aos jesuítas a criação da “Estrita Observância”. O I∴ de Ribeaucourt também se refere aos “Superiores Incógnitos” de “jesuítica memória”. Com efeito, tem-se pretendido que as iniciais S. I. ou S. J. devem ser interpretadas como “Societas Iesu”, chegando-se até a criar uma espécie de jogo de palavras, provavelmente sabendo-as, sobre “clerici”, termo que deveria interpretar-se mais ou menos com o sentido de “sábios”, possuidores de certos conhecimentos particulares, em lugar daquele de “eclesiásticos”. Alguns chegaram até a ver igualmente os jesuítas na origem do “Grande Oriente de França”. Na verdade, parece tratar-se de uma verdadeira obsessão.

[4] Trata-se dos “Rosacrucianos” que publicaram cerca de 1610 a Fama Fraternitatis, seguida de vários outros manifestos, os quais Descartes procurou inutilmente por toda a Alemanha. Muitas sociedades modernas com pretensões iniciáticas, não se fundamentam mais que sobre o estudo das doutrinas e das teorias contidas em tais escritos. Os seus adeptos (?) acreditam que dessa maneira ligam-se “misticamente” com aqueles que foram os seus autores. As tendências destes foram muito claramente “protestantes” e “antipapais”, a tal ponto que Krauzer interpretou as três letras F. R. C. (“Frater Roseacrucis”) como “Frater Religionis Calvanistae”, “visto que decoram as suas obras com textos apreciados pelos Reformistas” (citado por Sédir, Histoire des Rose-Croix, p. 65). Tal explicação pode ser, se não mais exacta literalmente, pelo menos mais adequada que aquela outra que identifica os “Superiores Incógnitos” com os jesuítas, e daquela opinião do I∴ Ragon que atribui aos mesmos jesuítas a invenção do grau maçónico que leva precisamente o nome de “Rosacruz”.

[5] Queremos destacar esta passagem por ser particularmente importante no que respeita à “adaptação” do ensinamento iniciático às capacidades, intelectuais ou outras, de cada um daqueles que eram admitidos. Certos ocultistas contemporâneos, sempre perseguidos pela mesma obsessão, sustentam que os verdadeiros sucessores dos “Templários” nessa época foram os “Jesuítas”, que haviam retomado por sua conta o plano de vingança contra a Realeza e cujos agentes mais activos em tal empresa foram Fénelon (!) e Ramsay (ver Papus, Martinésisme, Willermosisme, Martinisme et Franc-Maçonnerie, pp. 10-11). Sob a influência de semelhantes ideias chegou-se, contra toda a verosimilhança, a converter os jesuítas nos inspiradores e chefes secretos dos “Iluminados da Baviera”. Por outra parte, é certo que nem sequer se vacila em apresentar o barão von Hundt como “o criador da Alta Maçonaria alemã” ou “Iluminismo alemão” (idem, p. 67). Maneira singular de escrever a História!

[6] Como por sua vez esse último se “sobrepunha”, como todos os demais “sistemas de altos graus”, à organização exterior da “Maçonaria Simbólica”.

[7] “Cavaleiro pela Espada” (nota do tradutor).

[8] “Cavaleiro da Pena Vermelha” (nota do tradutor).

[9] O misterioso Grão-Mestre de que se trata e que não deve ser confundido com o “Superior Geral” das Lojas da Estrita Observância, é o duque Frederico de Brunswick-Oels, Eques a Leone Aureo (“Cavaleiro do Leão de Ouro” – nota do tradutor), subido a tal dignidade em 1772 na Assembleia Geral de Kohlo, perto de Pforten, na Baixa-Lausitz (Acta Latomorum, tomo I, p. 103, e tomo II, p. 296). Tampouco se trata do “Grão-Mestre dos Templários”, reconhecido oficialmente pela Estrita Observância depois da “Reforma de Wilhelmsbad”, pois esse último personagem foi de 1743 a 1788 o pretendente Carlos Eduardo Stuart, Eques a Sole Aureo (“Cavaleiro do Sol Dourado” – nota do tradutor), que teve como sucessor o duque Fernando de Brunswick, Eques a Victoria, de 1788 a 1792, e a partir desta data o príncipe Charles de Hesse, Eques a Leone Resurgente (idem, tomo I, p. 283, e tomo II, p. 195, 333 e 384).

[10] (“Cavaleiro do Cisne Triunfante” – nota do tradutor) Thory (ob. cit., tomo II, págs. 136 e 328) escreveu “Cyano” em vez de “Cygno”, tratando-se sem dúvida de um erro.

[11] Citada no artigo de Benjamin Fabre.

[12] Histoire pittoresque de la Franc-Maçonnerie, p. 187.

[13] Talvez seja um erro tomar ao pé da letra a designação “Chipre”, já que a Alta Maçonaria do século XVIII tinha toda uma geografia convencional a que voltaremos oportunamente.

[14] O I∴ Clavel tomou quase textualmente esta passagem das Acta Latomorum de Thory (tomo I, pp. 117-118, ano 1775).

[15] Os judeus do Norte de África são “sefarditas”, ou seja, descendentes de judeus espanhóis e portugueses, e pretendem possuir a “Tradição” (Kaballah) muito mais pura que a dos “ashkenazim” ou judeus alemães.

[16] A este respeito lembramos a existência dos “fazedores de chuva” em grande número de povos, sobretudo entre os negros de África, contados entre os membros mais influentes de várias sociedades secretas.

[17] “O barão de Waechter, embaixador dinamarquês em Ratisbona, foi um ardente custódio do “Sistema da Estrita Observância” onde era conhecido pelo nome de Eques a Ceraso” (Thory, ob. cit., tomo II, p. 392). Benjamin Fabre dedicou outros artigos a este personagem.

[18] A carta do príncipe de Carolath data de 1781, o ano previsto para a Assembleia Geral de Wilhelmsbad.

[19] Podemos adiantar que esse exemplo ainda é seguido na nossa época, sempre que a ocasião se apresenta, por várias Obediências maçónicas.

[20] O próprio barão von Hundt não conseguia explicar a sua própria carta-patente cifrada. Mais tarde, os membros do “Grande Oriente de França” tiveram que renunciar à tentativa de ler as duas colunas de sinais convencionais que figuravam sobre o “título constitutivo” do “Rito Primitivo” (ver o cap. V da primeira parte da obra de Benjamin Fabre). A esse respeito, Eques a Capite Galeato disse “… que tais colunas encontrando-se em uma das nossas Lojas, por outro lado não possuem nenhum certificado nem indício da sua qualificação” (p. 63).

[21] Em relação a Cagliostro, essa opinião é exclusiva de René Guénon, porque segundo os documentos disponíveis aos quais o mesmo Guénon pôde aceder, esse personagem misterioso era ele próprio um mandatado dos Superiores Incógnitos, senão mesmo um Superior Incógnito agindo no palco do século XVIII europeu sob diversos disfarces ou mayas-vadas, como diriam os sábios hindus (nota da tradutor).

[22] Certamente tudo isto parecerá fabuloso a certo anti-maçons e historiadores escrupulosamente fiéis ao “método positivista”, para os quais a existência dos “Superiores Incógnitos” não é senão uma “pretensão maçónica conclusivamente falsa”. Porém, temos as nossas razões para não subscrever tal juízo demasiado… definitivo, e temos plena consciência de não propor aqui nada que não seja rigorosamente exacto. Os que não quiserem remeter-se senão a documentos escritos, são donos de defender todas as suas “convicções”… negativas!

[23] Nessa data, depois de falar de Gugomos (que lembramos ter recebido pelo menos uma parte da sua iniciação em Itália), Thory acrescentou: “O barão de Waechter (“Eques a Ceraso”) era deputado em Itália pela antiga “Grande Loja Escocesa da Francónia”. O motivo oculto dessa viagem foi o de reunir os maçons italianos com os da Francónia; o motivo aparente foi buscar o segredo da Ordem, que se dizia conhecido em tais paragens. Instituiu alguns Capítulos” (ob. cit., tomo I, p. 118).

[24] Citamos uma única frase de uma segunda carta do príncipe de Carolath que revela a inspiração judaica de Gugomos: “No Congresso de Wilhelmsbaden, Kukumus pretendeu realizar um sacrifício que seria consumido pelo fogo do céu no ardor da sua súplica”. Ideias semelhantes poderão ser encontradas quando se estuda tanto os curiosos ensinamentos dos “Élus Coens” como o “Rito Egípcio” de Cagliostro.

[25] Para finalizar este assunto de Gugomos, acrescentamos ainda que, segundo “Eques a Capite Galeato”, ele exigia “provas de todos os seus discípulos, que consistiam principalmente “em grandes jejuns e em proporcionar a solução de problemas muito subtis”. Deve-se lembrar a aplicação desses dois procedimentos iniciáticos, pois permite estabelecer analogias instrutivas às quais teremos oportunidade de voltar. Parece que, como disse o barão von Hundt, “Kukumos mostrou uma patente extraordinária” que, como vimos anteriormente, nada prova a favor ou contra a realidade da sua “missão”, como igualmente a negação esgrimida pelos II∴ dos Altos Graus em reconhecer os “Superiores Incógnitos” e comprometer-se na sujeição a eles (sem conhecê-los), não implica forçosamente a negação da sua existência, apesar do que possam dizer os historiadores “positivistas”.

[26] Ver página 84 da obra de Benjamin Fabre.

[27] La Bastille, número de 13 de Setembro de 1913.

[28] Thory escreve o seguinte: “1768, 29 de Outubro, Schroepfer estabelece-se como proprietário de um café que abriu em Leipzig. Numa Loja da cidade instituiu o seu sistema, baseado em evocações e magia. Na continuação, foi perseguido e denunciado como impostor e vigarista. Seis anos mais tarde (em 8 de Outubro de 1774), fez saltar a caixa dos miolos no “Rosenthal”, perto de Leipzig, com a idade de 35 anos” (ob. cit., tomo I, p. 94).

[29] Carlos, duque de Corland, membro da “Estrita Observância” com o nome característico de “Eques a Coronis” (idem, t. II, p. 304).

[30] O facto deve ter ocorrido entre 1768 e 1774. O mariscal de Saxe, morto em 1750, também foi maçom e obteve (tal como o príncipe de Conti) numerosos votos para o Grão-Mestrado (da Maçonaria Francesa) na assembleia de eleição do conde de Clermont em 1743 (idem, t. II, p. 378).

[31] Pode fazer-se um juízo por meio das questões (“Proponenda”) submetidas à Assembleia Geral de Paris, convocada pelos “Philatethes” em 1785 (ver Thory, ob. cit., tomo II, pp. 98-99). Nos nossos dias, certos ocultistas trataram das mesmas questões de maneira demasiado fantasiosa, o que ademais comprova que também eles se encontram “no mesmo ponto”.

[32] Parece que o mesmo pode aplicar-se a Kolmer, já mencionado, e inclusive a Schroeder, mestre dos Rosacruzes de Wetzlar, por vezes erroneamente confundido com Schroepfer, que Thory descreve com estas palavras breves: “Schroeder, alcunhado o “Cagliostro da Alemanha”, introduziu na Loja de Sarrebourg, em 1779, um novo sistema de Magia, Teosofia e Alquimia” (ob. cit., tomo I, p. 141, tomo II, p. 379).

[33] La Bastille, número de 20 de Setembro de 1913.

[34] Precisamente o ano em que apareceu Schroeder, ou pelo menos o seu sistema. Talvez não passe de uma coincidência, apesar de também ser possível que houvesse uma ligação entre todos esses personagens, inclusive sem terem consciência disso.

[35] Ob. cit., tomo I, p. 141.

[36] Uber den Zweck des Freymauser Ordens, 1781 (Thory, ob. cit., p. 368).

[37] Thory cita ainda as seguintes obras: Saint-Nicaise, ou Lettres remarquables sur la Franc-Maçonnerie (“São Nicásio, ou Cartas notáveis sobre a Franco-Maçonaria”), Leipzig, 1785-1786 (idem, p. 373); Sur le catholicisme caché des Jesuites, et leurs machinations pour faire des prosélytes (“Sobre o catolicismo escondido dos Jesuítas, e as suas maquinações para fazer prosélitos”), (“Uber Kripto-Katholicismus, etc.”), Frankfurt, 1787-1789 (idem, p. 376).

[38] Der Stein des Antosses… etc. (Thory, ob. cit., t. II, págs. 146 e 367).

[39] Ver a lista proporcionada por Thory (ob. cit., t. II, p. 95).

[40] Thory (ob. cit., p. 123) acrescenta que a dita medalha “tem um retrato muito parecido do célebre maçom”.

[41] Este I∴ Meyer foi convocado para a Assembleia Geral de Paris em 1785, e Thory descreve-o deste modo: “de Meyer, major russo, de Estrasburgo” (ob. cit., t. II, p. 95). O mesmo autor identifica-o, talvez equivocadamente, com o escritor que traduziu do inglês para o alemão uma obra intitulada A Franco-Maçonaria não é mais do que um caminho para o inferno (idem, t. I, p. 153, e t. II, p. 354).

[42] Trata-se evidentemente dos “Templários”.

[43] Ritual do Grau de Mestre, p. 34. Ragon cita em continuação as palavras muito conhecidas do J. J. Casanova sobre “O segredo da Maçonaria”, que não fazem senão confirmar tal declaração.

Traduzido do original francês por Vitor Manuel Adrião

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