O mistério português do Delfim de França – Por Vitor Manuel Adrião Sábado, Dez 27 2014 

 

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Se houve episódio marcante que tenha levado à transformação radical do contexto sócio-político da Europa, dos últimos 200 anos para cá, sem dúvida que foi o da Revolução Francesa, desencadeada no Inverno de 9 de Novembro de 1779 e desfechada pouco depois da morte na guilhotina do rei Luís XVI e de rainha Maria Antonieta.

Com efeito, diante da multidão enorme cega de excitação feroz alimentada pelo vendaval do Terror enraivecido exigindo vingança de morte aos antigos senhores, Luís XVI é guilhotinado num cadafalso levantado na Praça da Revolução, hoje da Concórdia, em Paris, a 21 de Janeiro de 1793, por decisão dos Montagnards regicidas que se opunham aos Girondinos que pretendiam salvar o rei, opção que custou a estes a sua extinção pela morte dos seus líderes sob a lâmina mortífera da guilhotina, de uso imparável pelos insaciáveis anti-Girondinos, os Jacobinos, cujo Clube tinha uma filial: a Sociedade Popular, que veio a executar Marat, idealista Montagnard.

Após o monarca seguiu-se a condenação à morte, com rápida execução, da sua esposa Maria Antonieta, também em Paris, a 16 de Outubro de 1793.

Até à data do começo da Revolução, o casal real francês tivera quatro filhos: Maria Teresa Carlota Capeto (1778-1851), Madame Royal e duquesa de Angoulême, que conseguiu escapar ao regicídio e à prisão; Luís José Xavier Francisco Capeto (1781-1789), 1.º Delfim de França que morreu precocemente; Luís Carlos Capeto (1785-?, não sendo certa a data oficial do seu desaparecimento, 1795), duque da Normandia e futuro Luís XVII; Sofia Beatriz Capeto (1786-1787), falecida precocemente.

Ora o Delfim Luís Carlos Capeto não subiu ao cadafalso, antes foi arrastado pelos revolucionários para a Bastilha, antiga Casa Forte da Ordem dos Templários depois convertida em Prisão do Estado de tenebrosa fama, a qual Napoleão Bonaparte mandaria abater pedra por pedra, hoje só restando a sua memória funesta num bloco de pedra sobrevivente da mesma encrostado numa parede da estação de metropolitano La Bastille, em Paris. Diz-se que o jovem Delfim veio a morrer aí aos oito anos de idade, vítima de doença e maus-tratos.

Louis XVII a la prison du temple vers 1792-1795

Com a pressuposta morte do infante que deveria ser o rei Luís XVII de França, o conde da Provença, o seu tio Luís Estanislau Xavier (17 de Novembro de 1755 – 14 de Setembro de 1824), após a Revolução tomou o título real de Luís XVIII, restaurando a Monarquia e o Catolicismo mas cujas alterações profundas eram irreversíveis, acentuadas ainda mais durante o Regime Napoleónico que se seguiu ao Terror.

Segundo a fonte fidedigna da Tradição Iniciática das Idades, houveram três Correntes tradicionais que concorreram para a Revolução Francesa, desencadeada com o fim de destronar a Flor-de-Lis dos Bourbons e RESTAURAR A VERDADEIRA FLOR-DE-LIS DE AGHARTA, inicialmente trazido a França por Joana d´Arc, a Jina da Arca ou Agharta, como “Donzela de Lorena” e “Dama de Lis”, surgida com a missão de restaurar a dinastia perdida dos reis merovíngios de quem o monarca da sua época, Carlos Capeto o I, descendia (de cuja geração saiu a Bourbon). Com o crime perpetrado na donzela valquíria sem igual, manifestação deífica ou avatárica do Arcanjo Mikael, só por ela ser de Catarina ou Cátara, “Pura”, muito mais do que por motivos político-militares, pelos franceses e ingleses, sobrou um pesado dividendo, um gravíssimo Karma a pagar, justiça saldada nos terríveis acontecimentos da Revolução Francesa pela acção oculta das ditas três Correntes tradicionais:

1.ª) A Rosacruz Templária de KALEB (Síria), de relações próximas com a Ordem de São João de Malta, chefiada pelo Conde Saint Germain (LORENZO PAOLO DOMICIANI) e a sua contraparte feminina (Shakti), a Condessa Lorenza Paola Domiciani, que agiram pelo Aspecto PAX da Fácies do Eterno, procurando a transformação dos acontecimentos através do amor e da compreensão, o que infelizmente não lograram devido à resistência oposta pelos principais implicados. Já antes o digníssimo Conde e preclaro Adepto havia alertado os monarcas francesas para a tragédia próxima, que não lhe deram ouvidos e deixaram a situação arrastar-se a um mar de sangue onde acabou se misturando o deles.

2.ª) A Maçonaria Copta de LUXOR (Egipto), de proximidades com a Igreja de São João dos Padres do Deserto, dirigida pelo Grão-Copta o Conde Alexandre Cagliostro acompanhado da sua contraparte feminina, a Condessa Serafina Bálsamo, tendo agido pelo Aspecto LEX da Fácies do Eterno na faina implacável de destruição da flor-de-lis dos Bourbons, símbolo de injustiça e tirania, e restauração da verdadeira FLOR-DE-LIS DE AGHARTA, expressiva da CONCÓRDIA E DA CONSCIÊNCIA UNIVERSAL. Assim, trabalharam sempre e incansavelmente para depor a nobreza decadente que gastava fortunas incomensuráveis em festins e mais festas enquanto o povo, miserável e faminto, perante tanta fartura e esbanjamento, amontoava-se junto às grades do palácio de Versailles suplicando aos de dentro uma simples côdea de pão… recebendo em resposta risos e chacotas.

3.ª) A Franco-Maçonaria, herdeira simbólica ou tradicional da primitiva Ordem dos Templários, dirigida pelo Conde José Bálsamo, co-irmão de Cagliostro que actuava como Aspecto EXECUTIVO da mesma LEI ou JUSTIÇA DIVINA, exercendo a sua acção vingadora sobre o clero e a realeza, tanto por causa da destruição do Templo como sobretudo pelas consequentes perseguições e injustiças que essas duas classes haviam promovido desde então aos seus opositores. A Franco-Maçonaria tinha ramificações por toda a Europa, particularmente na Alemanha onde actua como Franco-Juíza, sendo ela quem esteve na direcção oculta dos principais implicados na sanha sangrenta em que desfechou a Revolução Francesa cujo auge mereceu o justo epíteto de Terror.

SAINT GERMAIN – LORENZA – CAGLIOSTRO (Mercúrio – Vénus – Marte) formaram uma Divina Tríade cuja MISSÃO AVATÁRICA ou REDENTORA seria a de transformar pacificamente o modelo sócio-político da Europa a partir de França, “coração” do continente, mas a sede de vingança da Franco-Maçonaria, inimiga declarada do trono e do altar, abortou essa Missão, inicialmente apóstola da concórdia entre todas as classes e iluminadora das inteligências, aprimorando o carácter e a cultura do Colectivo Humano procurando levar à transformação verdadeira de dentro para fora (jamais o inverso…) do Homem.

Adianto ainda que, segundo informa a Tradição Iniciática, na época essa Divina Tríade representava o próprio GOVERNO OCULTO DO MUNDO (G.O.M.), em cuja cumeeira está o próprio Imperador Universal ladeado dos seus dois Ministros ou Colunas Vivas, com os nomes tradicionais de BRAHMATMA, MAHANGA e MAHINGA, ou por outra, RIGDEN-DJYEPO, POLIDORUS INSURENUS e MAMA-SAHIB.

Revolução Francesa

Advindos SAINT GERMAIN e CAGLIOSTRO ambos do Oriente (Tibete) para o Médio Oriente (Kaleb e Luxor) e daí para a Europa, a sua Missão aqui era preparar o terreno humano, as mentes, os corações e os corpos dos homens de maneira a ficarem condignos com à Parúsia ou Advento Final e consequente Nova Era de Paz e Prosperidade para o Mundo, numa derradeira e suprema tomada da Bastilha Universal centralizada no Advento do CRISTO UNIVERSAL, em conformidade ao despertar do CRISTO MÍSTICO em um e todos.

Será que a sublime Missão desses dois preclaros Adeptos Independentes, Colunas J e B do mesmo CRISTO DE AQUARIUS na pessoa do “Homem do Manto Vermelho das Tulherias”, ou seja, AKDORGE, foi totalmente destroçada? Ou será que ela teve continuidade nos bastidores ou caminhos secretos da História? Inúmeros sinais apontam para essa última opção, distendendo os seus misteriosos fios de aranha d´ouro desde França até… Portugal!

Ademais, adianta a mesma Tradição Iniciática das Idades, era função da Divina Tríade SAINT GERMAIN – LORENZA – CAGLIOSTRO preparar os melhores da actual Raça Teuto-Anglo-Saxónica para o ingresso e chefia da futura Raça Euro-Americana, já então tendo a sua Sede Oculta em EL MORO, na América do Norte, enquanto a Raça actual tem o seu Foro Secreto em SINTRA, Portugal, como QUINTO SISTEMA GEOGRÁFICO dando projecção ao subsequente SEXTO SISTEMA GEOGRÁFICO, ou seja, AKDORGE dando lugar a AKGORGE, tal qual, numa “oitava superior”, MITRA-DEVA cede lugar a APAVANA-DEVA, pois que Estes são BUDHAS REALIZADOS manifestando-se por Aqueles, BODHISATTVAS DE REALIZAÇÃO.

Certamente por essa razão oculta e mesmo antes de rebentar a Revolução em França, decerto já a prevendo por estarem ao par dos planos secretos da sua urdidura, é que CAGLIOSTRO veio a PORTUGAL em 25 de Abril de 1787, e SAINT GERMAIN em 1788, por diversas razões que não vêm ao caso apontar, excepto essa de acaso fomentarem a criação de condições propícias ao recebimento de algum sobrevivente do holocausto próximo da família real francesa.

Mas terá havido algum sobrevivente dentre os membros da família real que foram presos e recambiados para a Bastilha? Não poucos indícios apontam que sim e na direcção do Delfim Luís Carlos Capeto, à volta do qual se criaram mitos realengos de Advento – um pouco à imagem do Sebastianismo português – por toda a Europa e até nas Américas.

Contudo, o mito da sobrevivência do Delfim de França parece ter sido esboroado no dia 20 de Abril de 2000, com a revelação dos resultados do exame de ADN a um fragmento de menos de um grama do coração dessecado da criança que morreu na Bastilha, conservado numa urna na cripta da família real na Basílica de Saint-Denis, Paris, sendo comparada a sua assinatura genética com uma mecha autenticada dos cabelos de Maria Antonieta, e, para maior segurança, comparou-se esses resultados com os obtidos em duas irmãs dessa rainha e em dois membros actuais dessa família: todos os dados concordaram entre si, indo confirmar tratar-se do próprio Luís Carlos Capeto de Bourbon, pelo menos no entendimento médico-legal, pois que no plano da investigação histórica a aparência nunca é sinónima de concludência.

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O ADN é a abreviatura de Ácido Desoxirribonucleico e é onde está contida toda a nossa informação genética. Na investigação histórica, que assenta frequentemente na pesquisa em descendentes da pessoa que se pretende identificar, o ADN mitocondrial é o tipo de ADN mais importante, uma vez que é herdado em linha directa exclusivamente através da mãe. Este ADN contém as sequências fáceis transmitidas de uma geração a outra, quase não sofrendo mutações e nunca se misturando aos genes do pai. Porém, ressalve-se, o ADN não constitui uma resposta milagrosa a todos os problemas de identificação, posto possuir limitações. No caso de catástrofes com milhares de vítimas em que os corpos estão em muito mau estado, acaba por ser extremamente difícil, se não quase impossível, proceder à sua identificação. Há também que ter em conta as estruturas de que cada país dispõe para efectuar este tipo de exame e, em alguns casos, os motivos de saúde pública que levam as vítimas a serem enterradas com a maior brevidade possível.

De maneira que a escolha do método de identificação a utilizar tem, assim, de ter em conta as condições em que essa identificação vai ser feita. No caso da identificação do Delfim de França, o teste de ADN revela-o inquestionavelmente como filho de Maria Antonieta, mas nada diz da paternidade do menino, lendo-se no relatório: “ESTE ADN NUNCA SE MISTURA AOS GENES DO PAI”. Donde se conclui DESCONHECER SE LUÍS XVI ERA REALMENTE O PAI DO MENINO MORTO NA BASTILHA, e assim continuando de pé, com toda a legitimidade das dúvidas não esclarecidas, a tese de MARIA ANTONIETA, universalmente famosa pelas suas frivolidades sexuais, ser MÃE DE FILHO DE PAI INCÓGNITO.

O próprio Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, atesta esse facto quando diz: “Os jornais vêm falando ultimamente da descendência de Pio XII ser directamente de Luís XVII, aquele infeliz Delfim que foi ter às mãos do sapateiro SIMON, como eu mesmo apontei a primeira vez que fiz a leitura a alguns Irmãos, o referido “sapateiro” e ainda as suas tendências para essa arte… No artigo em relação a Pio XII e o seu parentesco com o Delfim, que era filho de Maria Antonieta… mas não o era de Luís XVI… fala-se em NOSTRADAMUS, interpretando passagens ligadas ao mesmo caso” (in Livro do Graal, Carta-Revelação de 1.04.1950).

Fica provado à saciedade que na Bastilha morreu um filho de Maria Antonieta, e fica a improvada à saciedade que o filho legítimo de Maria Antonieta e Luís XVI foi quem realmente morreu na prisão. Assim, a história volta ao início e o enigma mantém-se…

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Pressuposto túmulo de Luís XVII no Cemitério Saint-Margarite, Paris, ocupado pelo corpo de um jovem desconhecido de 15 ou 18 anos

Igualmente mantêm-se indesmentíveis as inúmeras profecias antes e após a pressuposta “sobrevivência e fuga do Delfim”, como essa de São Cesário (470-542) vaticinando sobre a Revolução Francesa: “Os Capetíngios tremem, ignominiosamente traídos, e a criança predestinada é impelida ao exílio por uma soldadesca furiosa…”. Ou aquela de Miguel de Nostradamus na sua Epístola a Henrique o Invencível, referindo-se à Revolução Francesa e ao Delfim filho de Maria Antonieta: “E haverão dois, um que não teve o mesmo pai…”.

Essa frase enigmática de Nostradamus vem a ser clarificada no livro manuscrito sobre a vida do chamado Delfim de Évora, escrito no início do século XX pelo falecido professor José Cerqueira Moreirinhas. Segundo este autor, o Delfim teria sido arrancado secretamente do cárcere no dia 19 de Janeiro de 1794, escondido sob a roupa suja num grande cesto de verga e posta no seu lugar uma criança doente, raquítica, transportada para ali da Escola de Cirurgia parisiense e introduzida na cela dentro de um cavalo de papelão.Se assim foi, e perante as provas médicas recentes, concluo que possivelmente seria um desses deserdados da sorte abandonados pela mãe, a própria rainha Maria Antonieta, aos infortúnios do mundo, e como talvez fosse parecido com o Delfim foi feita a sua troca em segredo.

Ainda segundo o professor José Moreirinhas, poucos, excepto o carcereiro Simon (Antoine Simon, sapateiro de ofício, nascido em Troyes em 1736 e morto guilhotinado em 28 de Julho de 1794, em Paris, tendo antes o Comité da Saúde Pública lhe confiado os cuidados na Bastilha do filho de Maria Antonieta, em 3 de Julho de 1793) e sua mulher, Marie-Jeanne Aladame (Paris, 25 de Junho de 1746 – Paris, 10 de Junho de 1819), conheciam de perto o infante. Talvez por isso escassos tenham dado pela troca. Enquanto Simon distribuía rodadas de vinho aos seus colegas carcereiros e restante guarnição, embriagando-os, a sua mulher carregava discretamente o cesto de verga para uma carroça fora dos muros da prisão, conduzida por um indivíduo misterioso de nome Ojardias (nome esquisito, mas que para mim é o anagrama português de Jaro ou Jairo Dias, ou então Urisk, nome secreto de José Bálsamo, hoje o Adepto KADIR). Depois, os três desapareceram na noite sem deixar rasto, abandonando para sempre a tormenta de França e dando início ao mistério do desaparecimento do Delfim.

Esta história recambolesca viria a ser contada pela própria Marie Aladame na primeira pessoa, abonada por pessoas da maior credibilidade dentre as quais quatro freiras da Congregação de S. Vicente de Paula, em Paris, que conviveram com ela de 1810 a 1819, quando já professava o internato religioso. Essas quatro freiras atestaram o seu depoimento por escrito, tendo a mulher do sapateiro Simon forçado a carcereiro, repetido a história da evasão do filho de Maria Antonieta à própria irmã do pequeno evadido, a duquesa de Angoulême, que a visitou no mais rigoroso sigilo.

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Quem teria arquitectado a fuga do Delfim de França seria a própria ORDEM DE MALTA por intermédio do cardeal Emmanuel de Rohan-Polduc (1725-1797), na época seu Grão-Mestre, o qual chega a ser apontado como o pai incógnito do próprio Alexandre de Cagliostro. Ora, segundo a narrativa, Luís Carlos Capeto foi trazido para Portugal, precisamente para a região alentejana de Fronteira, onde mais tarde casaria com uma senhora espanhola de apelido Vasconcelos, união da qual resultaram filhos que deram origem à muito pequena e fechada família dos Capetos, que reside principalmente em Fronteira e Borba, por «acaso» antigos domínios da Ordem de São João de Malta.

Perto daí encontra-se Vila Viçosa, espaço ducal e real significativamente frequentado desde o começo pela família Capeto portuguesa, particularmente a sua igreja da Senhora da Lapa, que não sei foi o lugar escolhido para o casamento do Delfim exilado, mas sei que defronte a ela está o Cruzeiro do Carrascal com a Serpente da Sabedoria enroscada nele, exemplar iconográfico raro no país que além de ser referência bíblica à Serpente de Moisés, é também e sobretudo o emblema hermético dos SERAPIS ou “Senhores do Seio da Terra” (Lapa), que universalmente se sabe ser o adoptado para ex-libris de CAGLIOSTRO.

Essa Cruz Serpentária ou Dracónica é quinhentista originária do Convento dos Agostinhos, relativamente próximo daqui, sendo imposta sobre peanha de pedra em 1850 defronte desta igreja. A sua singularidade reside na representação de um reptil serpentiforme, alado, com patas e língua em forma de seta, talvez a representação invulgar do Lusus Draconis, que se apresenta enrolado à Cruz. Segundo Túlio Espanca, “trata-se de uma raríssima e estranha representação moisaica do Salvador que pretenderia, talvez, figurar o símbolo da redenção do pecado, a esperança da salvação” (in Património Artístico do Concelho de Évora. Edição da Câmara Municipal de Évora, 1957).

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Além de saber há muitos anos que a História é em grande parte feita no escrínio de Ordens Iniciáticas Secretas para as quais até os mais doutos e ilustres de praça pública não passam de meros profanos de mental estreito e estreitada moral, também tive a oportunidade feliz de conhecer a família Capeto de Borba, em Abril de 1990. O seu biógrafo, Marco António Capeto Coelho, conta terem recebido em 31 de Agosto de 1985 uma carta do conde Xavier de Roche du Teilloy, professor da Universidade Católica de Paris e autor de um livro com o título Luís XVII, no qual diz que o Delfim de França casou em Portugal em 1803 com a idade de 18 anos e recebeu a protecção de D. João VI, na ocasião fazendo-lhe uma grande doação de terras. O acordo dessa doação da Coroa Portuguesa ao Delfim teria sido assinado no palácio ducal de Vila Viçosa.

O escritor francês considera essa fase da vida de Luís XVII como a mais feliz, adiantando ter o Delfim visto nascer o seu primeiro filho em 1804 no nosso país, sendo desse casamento que descendem os Capetos portugueses.

Marco António Capeto conta ainda que nunca houve ramos familiares dos Capetos em Portugal senão no início do século XIX, quando apareceram subitamente no país sem terem antepassados nele. Nessa ocasião surgiu em Fronteira um senhor chamado Copetto, mas esse senhor Copetto era filho de ninguém!… Embora na altura os registos de nascimentos fossem muito minuciosos, inserindo a ascendência até aos avós, todavia neste caso nada consta sobre os seus antecedentes. Os filhos desse senhor Copetto passaram a chamar-se Capeto, sendo interessante o facto de coincidir com as Invasões Francesas a Portugal o uso do nome Copetto, como se tais pessoas pretendessem esconder algo perigoso para as suas vidas, passando a chamar-se Capeto logo que o perigo passou.

Tais indícios conferem viabilidade ao pressuposto dos antepassados dos Capetos portugueses serem os Capet da linhagem real francesa. Essa família alentejana aparecida subitamente em Portugal, em Fronteira (Alto Alentejo), no começo de Oitocentos, recebeu protecção directa da Coroa portuguesa e da Ordem de São João de Malta, o que é mais que significativo. Outros Capetos portugueses que hajam do século XVIII para trás, certamente não correspondem à linhagem que apareceu no país no dito século e o rei D. João VI deu protecção, o que nem ele nem nenhum dos seus antecessores fizera antes mesmo já havendo a família Copeta, mas não a Capeto.

Tudo isto tão-só significa, em arremate e sendo verídico o facto, que em 1990 o varão primogénito da família Capeto portuguesa, senhor José Capeto, descendia em linha directa e masculina de Luís XVI através do Delfim Luís Carlos, pelo que nada mais era que o ascendente legítimo ao desocupado trono de França, o verdadeiro candidato à Coroa dos Capetos com que o grande rei Hugo foi coroado no ano 987 d. C., cuja linhagem recua ao século V com o baptismo cristão do rei Clovis I, o que não deixa de associar-se à Linhagem Apostólica da Pastoral iniciada por Maria Madalena em França após a Tragédia do Calvário de Jesus Cristo, aquando os divinos esposais foram separados.

O pressuposto Delfim de França, na altura que o conheci, era um português alentejano de 77 anos de idade, contabilista de profissão por não poder ser rei.

Fig 04

Será como disse o senhor Roche du Telloy na carta endereçada à supradita família: “A ascendência de Luís XVI, o “Rei Mártir”, e de seu filho Luís XVII está representada pela família Capeto de Portugal, que, por direito, é a actual Casa Real de França. Por direito vós (família Capeto de Portugal) sois todos Príncipes e Princesas de França”.

O distinto professor francês contou ainda que antes de passar a Portugal o Delfim ficou algum tempo no Oeste de França, na Bretanha e na Vandeia, ocasião em qe se editou uma gravura com o seu rosto e um “Coração de Jesus” acorrentado, precisamente nos fins de 1795, altura em que é composta a Canção do Delfim, que todo o bretão sabia de cor e salteado. Com efeito, a França rural, a Bretanha e a Vandeia, canta la Chanson du Dalphin em 1795, e o povo retrata-o jovem em pinturas simbólicas sobre um delfim empunhando a bandeira do Império Divino da “raça real”, identificando-o ao próprio Espírito Santo na pessoa de Cristo, que é quem haverá de “lavar a França dos seus pecados”; ao mesmo tempo, aparecem profecias francesas mencionando o sang de la Cape, isto é, o ramo esquecido da linhagem dos Capetos que em segredo teria sobrevivido fora da França, nisto a própria palavra capeto indo ao encontro de “encoberto” sob o capote, que tanto resguardava da chuva como escondia a identidade.

Fig 05

Em Portugal, Luís XVII ter-se-á relacionado com um sapateiro de Elvas que o acolheu. Este sapateiro e o outro que o resgatou ao cárcere deixam-me muitas dúvidas. Essa poderá ser uma maneira encapotada de designar um grau profético ou bandárrico (vulgo “sapateiro” ou o que trabalha na tripeça, símbolo da interpretação profética relativa ao passado, presente e futuro assinalado no calçado ou caminhar seguro no entendimento de qualquer dos tempos, isto é, “com os pés defendidos ou calçados”) da Ordem dos Cavaleiros do Espírito Santo, facção da Ordem de Malta (que patrocinou a fuga do Infante) com forte sabor maçónico, talvez relacionada a essa corrente tradicionalista francesa na altura chamada Sagrado Coração – Grande Ocidente. Ainda hoje sobrevivem resquícios dessa corrente mas destoando do que ela fora primitivamente e sobretudo fortemente imbuídos de senso xenófobo e sentido nacionalista (inclusive com uma Igreja “nacional” de catolicismo muito discutível) com os quais se dão foros de primazia universal ao chamado “esoterismo francês”, o que explica alguns dos seus fenómenos literários recentes, por mais incoerentes, para não dizer farsantes, que sejam.

Vários e destacados membros da nobreza francesa pertenceram à Ordem dos Cavaleiros do Espírito Santo, como foi o caso do duque de Orleans, Louis Philippe Egalité (nascido no castelo de Saint-Cloud em 13 de Abril de 1747 e morto na guilhotina em Paris, em 6 de Novembro de 1793), que num seu retrato, conservado em quadro no Museu do conde de Chantilly, é visto portando as insígnias dessa Instituição juntas a um esquadro e um triângulo maçónicos, alusivos à Ordem do Sagrado Coração – Grande Ocidente.

Ora o Grande Ocidente do continente europeu é a Lusitânia, ou “Lugar da Luz” (Mental), e o Sagrado Coração do mesmo é precisamente a França, cujo Restaurador da mesma haverá de sair de Portugal e que as profecias reconhecem como o Grande Monarca, com um certo número delas mencionando o Sang de la Cape, o sangue esquecido de Capet e que parece dar fundamento às pretensões dos Capetos portugueses.

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Mas o MONARCA UNIVERSAL é-o de toda a Terra, não só de um ou dois países, ou desta ou aquela organização (acreditar no contrário é disparate completo), pois Ele está acima e aparte de tudo isso por ser a própria manifestação física do ESPÍRITO DE VERDADE, o Senhor Soberano do Mundo, MELKI-TSEDEK, CHAKRA-VARTIN, ROTAN, ENCOBERTO, etc., pelo que o Sangue Real de BORGONHA (português) e de CAPETO (francês) é tão-só a representação física e simbólica da Dinastia Eleita ou a ELITE DO AVATARA EMMANUEL, MANUEL ou EL-MANU, MAITREYA, neste GRANDE OCIDENTE (unindo a Mente, Portugal, ao Coração, França, assim se realizando a Eucaristia das Nações) no qual, segundo as profecias seculares e até milenares tanto nacionais como estrangeiras, haverá de implantar-se o SOBERANO IMPÉRIO DO DIVINO ESPÍRITO SANTO, para quem todas as Ordens Iniciáticas de França e da restante Europa trabalharam na altura… havendo ainda quem persiga com Ordem e Regra, nos bastidores da sociedade humana, a materialização desse Sonho maior aqui mesmo, em Portugal.

Há-de ser como profetizou Nostradamus:

Do mais fundo do Ocidente da Europa,

De pobres gentes um Menino nascerá,

Que por sua língua seduzirá grande grupo,

Sua fama no reino d´Oriente mais crescerá.

Centúria III, XXXV

Trata-se, portanto, do Avatara ou Messias que os judeus ainda aguardam na Sua forma humana e O qual, colectivamente, é o ECCE OCCIDENS LUX como o GRANDE OCIDENTE IBERO-AMERÍNDIO que tem, enfim, por alter-ego a “supra-cristã” (imensamente além da hermenêutica do catolicismo confessional, e assim mesmo das hodiernas visões e profecias cuja validade é exclusiva da experiência pessoal em que o colectivo poderá ou não crer, e crendo pode e é comum descambar nas especulações oníricas afins ao religiosismo popular, neste sendo presença constante o elemento mariano ou feminino sagrado como fórmula de afirmação do oprimido “sexo fraco”) Augusta e Soberana ORDEM DO SANTO GRAAL, ou por outra, CULTO UNIVERSAL DE MELKI-TSEDEK.

OBRAS CONSULTADAS

A Ordem de Malta e o Mundo. Direcção de Martim de Albuquerque. Edições Inapa, S.A., 1998.

A Revolução Francesa. Lello & Irmão Editores, Porto.

Adrião, Vitor Manuel, Lisboa Secreta (Capital do Quinto Império). Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Abril de 2007.

Branco, Camilo Castelo, Compêndio da vida e feitos de José Bálsamo. Livraria Chardron, Porto. O autor recebeu a encomenda e o prefácio desta obra dos jesuítas portugueses a mando de Roma, destinada a denegrir pela infâmia Cagliostro e a sua esposa Serafina, cujo nome ele troca por Lorenza. Neste livro oitavado o insigne Adepto é descrito como embusteiro e gatuno, e a sua digníssima contraparte como cúmplice e meretriz. Por ter escrito este livro com plena consciência da injustiça que cometia lesa-Lei, e ignorando os avisos do notável Guerra Junqueiro, preclaro Membro da ORDEM DE MARIZ, para que não o escrevesse, o autor acabou cegando e ensandeceu de desespero, pouco tempo depois suicidando-se com um tiro de pistola na cabeça. Esta obra só vale pelas referências históricas à presença do Conde e da sua esposa em Lisboa, vindos de Itália para Santiago de Compostela e daí descendo à capital portuguesa.

Cagliostro, Ritual de Maçonaria Egípcia. Editora “O Pensamento”, São Paulo.

Cooper-Oakley, Isabel, O Conde de Saint Germain. Editora “O Pensamento”, São Paulo.

Dias, Carlos Malheiro, O Grande Cagliostro. Livraria Bertrand, Lisboa. Nesta “novela romântica”, o autor prossegue a triste escola de difamação e estropio da honra e pessoa de Cagliostro iniciada por Camilo Castelo Branco.

Dumontier, Michel, Sur les pas des Templiers à Paris et en Ile de France, capítulo Le Mystere Louis XVII. Edition Copernic, Paris, 1991.

Germain, Conde de Saint, A Santíssima Trinosofia. Prefácio de Manly P. Hall. Editora Mercuryo Ltda., São Paulo, 2003.

Guénon, René, Études sur la Franc-Maçonnerie et la Compagnonnage, volumes I-II. Editions Traditionnelles, Paris, 1983. Tradução portuguesa de Vitor Manuel Adrião, Lisboa, 2014.

Haven, Marc, Cagliostro – O Grande Mestre do Oculto. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2005.

Lucíola, Roberto, A Marcha das Civilizações. Revista “Aquarius”, n.º 24, 1981, Rio de Janeiro.

Mendanha, Victor, A vida misteriosa do chamado “Delfim de Elvas”. Jornal “Correio da Manhã”, 28 e 29/4/1990, 13 e 14/5/1990. Desconheço haver outros textos jornalísticos do autor sobre o assunto, pois os publicados nas datas indicadas são os únicos de que disponho.

Souza, Henrique José de, Cagliostro e São Germano. Revista “Dhâranâ”, 28-9-1941, São Paulo.

Wenzler, Claude, Généalogie des Rois de France. Editions Ouest-France, 13, Rue du Breil, Rennes.

 

 

 

 

 

Sintra e a “Fala dos Pássaros” – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Dez 19 2014 

cabeçalho

legenda

Em diversas tradições fala-se frequentemente de uma linguagem misteriosa chamada “linguagem dos pássaros” ou “fala das aves”, designação evidentemente simbólica de algo mais mais elevado ou transcendente, pois a importância atribuída a ela, como prerrogativa de uma elevada Iniciação, não permite que seja tomada de forma literal no aspecto imediato. É óbvio que as aves não falam… mas também é óbvio que esse designativo tem algo de mais profundo. Tanto assim é que se lê ainda no Alcorão: “E Salomão foi o herdeiro de David; e disse: Ó homens, temos sido instruídos na linguagem dos pássaros (ullimna mantiqat-tayri) e cumulados de todas as coisas…” (surata XXVII, sura 15). Por outro lado, vê-se que os heróis vencedores do dragão, como Siefried na lenda nórdica, compreendem também a linguagem dos pássaros, o que permite interpretar facilmente o simbolismo em questão. De facto, a vitória sobre o dragão tem por consequência imediata a conquista da Imortalidade, representada por alguma virgem donzela ou por algum tesouro fabuloso que o dragão defendia da aproximação de algum paladino ou cid disposto a combatê-lo e triunfar da Tarasca, ou seja, a matar a besta bramadora, esse mesmo Tritão, Adamastor ou Mostrengo que um qualquer São Jorge lusitano dobrará, conquistando o Tesouro da Imortalidade, a Donzela Sempre Virgem.

Siegfried

Talvez resida nisso o propósito velado de substituir, conforme uma descrição de 1848, o Cavaleiro S. Jorge pelo Tritão no Palácio da Pena de Sintra, passando a ocupar o lugar daquele que, incarnado em todo o paladino da Serra Sagrada, haverá de volver do Morro do Trigante para o destronar e reocupar o seu legítimo lugar nesse mesmo “Palácio do Rei do Mundo”.

Essa conquista da Imortalidade implica essencialmente a reintegração do Homem no seu estado primevo de Consciência Superior, que é dizer, na Individualidade Espiritual, com a qual passa a comunicar directamente por na mesma comungar permanentemente na mais excelsa metástase Avatárica, onde o Divino e o Humano são Um na mais perfeita das uniões. Tal comunicação é representada pelo entendimento da Fala dos Pássaros, de cujo domínio não era alheio São Francisco de Assis, por exemplo. De facto, os pássaros são frequentemente tomados como simbólicos dos Anjos, isto é, da Onda de Vida que expressa precisamente os estados superiores do Quinto Reino Espiritual, imediatamente ulterior ao Quarto da Humanidade.

Nesse sentido, vê-se na parábola evangélica os “pássaros do céu” vindo pousar nos ramos da árvore, a mesma Árvore Bodhi, ou seja, a da “Inspiração” superior externa provinda dos altos Céus ao Homem, que é dizer, dos Anjos ao seu ouvinte. Mas também Árvore Budhi, a da “Intuição” superior interna manifestada desde o Espírito Divino à pessoa mortal. Essa é a Fons Vitae, a da Sabedoria Divina que tanto vale por Teosofia, sendo também a Árvore das Hespérides como representação do canal espinhal etéreo do Homem animando os pomos d’ouro ou “centros vitais” (chakras) desde o cóccix ao alto da cabeça, ligando entre si os diversos estados de consciência do mais denso físico ao mais subtil espiritual.

Tanto assim será que as sete diferentes etapas na Via Mística são simbolizadas pelo sufi Attar, no seu célebre poema intitulado A Linguagem dos Pássaros, por “sete vales”: o primeiro, é o da busca (talab); o segundo, o do amor (eshg); o terceiro, o do conhecimento (ma’rifat); o quarto, o da independência (istigna); o quinto, o da unidade (tawhid); o sexto, o do maravilhamento (hayrat); e o sétimo, o do desenlace (faqr) e o da morte mística (fana). – In Henri Corbin, L’homme de lumière dans le soufisme iranien. Paris, 1961.

CHAKRAS E SIGNOSObserva-se, assim, no simbolismo medieval do Peridexion (corruptela de Paradision), pássaros sobre os ramos da árvore e o dragão, como guardião do umbral, a seu pé. Num estudo sobre o simbolismo do “pássaro do paraíso” (in Le Rayonnement intellectuel, Maio-Junho, 1930), L. Charbonneau-Lassay reproduziu uma escultura em que esse pássaro está figurado apenas pela cabeça e asas, forma sob a qual os Anjos, particularmente os Querubins ou Cherub, que em hebraico significa “Tesouro”, por extenso “Guardiões do Tesouro”, são muitas vezes representados. – Cf. René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora “O Pensamento”, São Paulo, 1984.

No texto do Alcorão reproduzido no cabeçalho deste estudo, o termo eç-çâffati designa literalmente “os pássaros”, mas é aplicado simbolicamente aos Anjos (el-malaïkah). Já a palavra çâff (“fila, ordem”) está na origem dos termos Çufi (Sufi) e Taçawwuf (Sufista), algo equivalente aos ocidentais Rosacruz e Rosacruciano.

Assim, sou reconduzido ao que disse inicialmente sobre a “Fala dos Pássaros”, que também poderei chamar “Fala dos Anjos” (Senzar – a Fala Búdhica ou Voz da Intuição, a Fillia Vocis, esta muito mais atrevida que a inteligência…), cuja imagem ou expressão no Mundo Humano é a linguagem ritmada (saída da Gematria ou Cabala Fonética, como ciência das comutações e combinações das letras, palavras e números, o que está simbolizado no papagaio – ou “Papa-Gaia” ou “Ghea”, a Terra, ou seja, a conquista do entendimento subtil do mundo, ave palradora essa que se vê pintada nos ladrilhos do soalho da “sala de caça” do Palácio da Regaleira de Sintra), pois é na “ciência do ritmo” (Rajas), a qual comporta múltiplas aplicações fonéticas como verbo em acção, que se baseiam definitivamente todos os métodos que possam ser activados para estabelecer a comunicação com a Tríade Espiritual, representada pelo Mundo Angélico, Hierarquia esta que se expressa por símbolos, cores e perfumes.

Será por isso que uma tradição islâmica diz que Adão, no Paraíso Terrestre, falava em versos, isto é, em linguagem ritmada. Trata-se da “linguagem siríaca” (loghah sûryâniyah), devendo ser vista como tradução directa da “Língua Solar” ou “Angélica” (Purushica, “Espiritual”) na consciência humana. Por isso, os Livros Sagrados são escritos em linguagem ritmada, o que os torna completamente diferentes de simples “poemas”, no sentido profano do termo como o quer o preconceito antitradicional dos “críticos” modernos. Aliás, a poesia não era, na origem, essa vã “literatura” que surgiu da degradação que se explica pela marcha descendente do Ciclo Humano (Pravriti-Marga) e maior afastamento do Princípio Divino, e tinha um carácter verdadeiramente sagrado. A propósito, recordo aqui o que escrevi antes sobre o assunto (in Autores Lourenhos. Loures, 1995):

“Pela lucerna aberta escorre para o fontanário a água, “fogo líquido” vital à sobrevivência de quanto existe sobre a Terra. Pela lucerna ou candeia os antigos greco-romanos alumiavam o caminho adiante de si na descida aos crípticos hipogeus onde a Poesia era musa sagrada.

“Por seu sentido de luz, de alumiar, o nome Lucerna ou Lucena foi conectado pelos primitivos lácios a Lúcifer, pelos helénicos a Fósforos, pelos latinistas tardios a Vénus, Estrela d’Alva, enfim, àquele “Portador do Facho do Mental” com que alumiou a Razão da Humanidade; Fogo Prometaico arrebatado aos Deuses por amor dos homens…

“Assim, Lucena significa o “Portador da Luz”, esta Luz intuicional que, quando descida à mente, torna-se Poesia Épica ou então Sacra, e, quando volvida à mesma intuição, revela-se como Feminino Poético ou Saudade.”

poetas

Vestígios do que acabo de dizer poderão ser encontrados na Antiguidade Clássica ocidental, quando a Poesia era ainda denominada “Língua dos Deuses”, isto é, dos Anjos como representação da Consciência Espiritual.

Em latim, os versos eram denominados carmina, designativo referindo-se à sua utilização no cumprimento dos ritos; a palavra carmen é idêntica à sânscrita carma, aqui tomada no sentido de “acção ritual” ou “rítmica”. A própria palavra poesia deriva igualmente do verbo grego poiein, com o mesmo significado da raiz sânscrita kri, donde provém carma, e que se encontra no verbo latino creare, entendido em sua acepção primitiva. Desta maneira, o poeta, intérprete da “Língua Sagrada”, através da qual transparece o Verbo Divino (Filia Vocis), era o vate, termo caracterizando-o como dotado de inspiração profética a qual é, diz a Tradição, o maior Dom do Espírito Santo ao Homem que Dele se torna “porta-voz” ou “professante” (profeta), um “rouxinol do jardim do Amor” de que fala o poeta místico árabe Farid Ud-Din Attar (1121-1229): “Saudações, ó Rouxinol do jardim do Amor! Projecta as tuas notas plangentes, filhas das feridas e das dores do Amor. Resgata ao coração meigos lamentos, como David. Franqueia a tua garganta melodiosa e canta as coisas do espírito. Mostra aos homens, com as tuas canções, o verdadeiro Caminho. Funde, como cera indolente, o duro ferro do teu coração e serás como David, ardente no amor a Deus.” – In A Conferência dos Pássaros, Marcador Editora, Barcarena, 2013.

Se o domínio da “Fala dos Pássaros” significa o retorno do Homem ao Paraíso Original, com a consequente integração no Quinto Reino Angélico ou Espiritual, e se o “Paraíso Terreal”, parafraseando Gil Vicente, é no Ocidente da Europa representado em Sintra (Al-Shantara), vê-se então no Parque da Pena tanto a significativa lucerna quanto os oito passarinhos ordenados (çâff) no beiral interior da Fonte “Caábica” que lhes leva o nome, por cima do Jardim da Torre dos Lagos, representação edénica do Reino de Agharta (a Paradhesa) que D. Fernando II de Saxe-Coburgo Gotha (Viena de Áustria, 29.10.1816 – Lisboa, 15.12.1885) aqui reconstituiu paisagística e monumentalmente com grande mestria, inspirado nas tradições medievais referentes ao Santo Graal. É assim que a tradição islâmica do Al-Hajarul Aswad – a pedra negra, talvez meteórica, guardada na Ka´aba no centro da mesquita grande ou de Masjid Al-Haram em Meca, que se diz ter sido entregue pelo Arcanjo Gabriel (Jîbrail) ao Patriarca Abraão – encontra eco pleno nesta Fonte dos Passarinhos sintrã, aliás, patenteando o símbolo maior do Islão nas suas grades, e onde a “pedra negra” é aqui sinónima de Tradição Primordial representada nas aves que cantam nas ramagens verdejantes e voam céus adentro.

fontedospassarinhos[1]

O uso da escrita arábica, siríaca ou solar, em legenda debruando o exterior da cúpula da Fonte dos Passarinhos, afirmando-se por ela o monarca como Sultão e continuador da obra expansora de D. Manuel I o Venturoso, parecendo menos um devaneio romântico de D. Fernando e mais uma intencionalidade esotérica ou velada, talvez incorporando em si o paradigma do Avatara, Messias ou Venturoso Emmanuel da Tradição Lusófica ao tomar por centro charneiro Sintra, que aliás ele quis “Capital Espiritual da Europa”, aponta-o como um desses Insignes Homens Representativos da Irmandade dos Mouros, Mórias, Maurus, Marus, Marizes… Irmandade assinalada simbolicamente pelos cisnes brancos vogando nos lagos próximos, os quais igualmente designam o Divino Amor-Sabedoria.

Assim reza a tradução da inscrição árabe na Fonte dos Passarinhos:

O Sultão D. Manuel construiu esta capela bendita em nome de Nossa Senhora Maria da Pena, no ano de 1503, em comemoração do salvo regresso de D. Vasco da Gama do descobrimento das terras e países que encontrou, isto é, o Cabo da Boa Esperança, a Índia e outros. Pois Sua Alteza o Sultão D. Fernando Segundo, marido de Sua Majestade D. Maria II, construiu desta maneira em muita magnificência real no ano de 1840.”

D. Fernando II árabe (2)

Que D. Fernando II dominava a gematria da “Fala dos Pássaros”, isto é, que era um Rei Iluminado, é facto patente, não só nessa Fonte dos Passarinhos mas também em alguns dos vitrais da sala dos embaixadores (depois sala do bilhar) do seu Palácio da Penha (vulgo Pena), que mandou fabricar na Alemanha em 1852, motivo de análise acurada de Nuno Miguel Gaspar que não se escusa a apodar com justeza D. Fernando de “rei secreto” (in Os vitrais do Palácio da Pena e a colecção de D. Fernando II: contributos para o seu estudo. Universidade de Lisboa / Faculdade de Letras, 2011). Neles vêem-se, por exemplo: num, dois anjos sobre quatro pássaros; noutro, um cavaleiro dirigindo-se para uma dama tendo acima e abaixo pássaros; noutro ainda, o imperador Frederico I, da Alemanha, sentado junto de uma árvore ouvindo o chilrear dos pássaros numa gaiola, isto é, apreendendo a sua linguagem. Vê-se também Anjos empunhando escudos com Escrita Angélica, Vatânica (materialização da espiritual Senzar) ou Jina (cf. Fred Gettings, Dictionary of Occult, Hermetic and Alchemical Sigils. Routledge & Kegan Paul Ltda, London, 1981), de que reproduzo alguns exemplares aí patentes:

esquema 1O conjunto significa “IBÉRIA” ou “IBERICUS”, mas também “JAKIM-BOHAZ”, tendo ao centro o CHAKRA-VARTIN como “Senhor da 4.ª Ronda” (assinalada na Cruz Swástika do segundo espécime, representativa do Pramantha ou “Ciclo de Manifestação Universal”, o 4.º em que todos estamos), assim valendo por “Senhor do Mundo” – MELKI-TSEDEK.

vitral vatan

Por cima desse conjunto e num outro vitral, vê-se a Coroa Imperial encimada pela Rosacruz (Çufî), grau hierárquico maçónico do Rito Adonhiramita possuído por D. Fernando II, simultaneamente sendo o emblema tanto da Pedra Filosofal como do Homem Cósmico: Adam-Kadmon, o Segundo Logos em manifestação no Terceiro, o que equivale ao Espírito Santo sob cuja égide Sintra está.

Em outro vitral, encontra-se:

esqeuma 2

Significa “HERMES, o Mental, o Mercúrio Filosófico”, o Mare Nostrum da Alquimia Lusitana. Abaixo dele vê-se o “Ancião dos Dias”, o Logos Planetário, e no vitral imediatamente inferior:

esquema 3Significa “ENXOFRE, o Espírito Filosófico”, e igualmente “VISVANKARMAN, o GRANDE ARQUITECTO DO UNIVERSO”, afinal e mais uma vez, o Logos Planetário ou Deus da Terra em Seu Terceiro Aspecto de Actividade Inteligente.

Noutro ainda, para terminar e ficando imensos por assinalar, uma rã como prolongamento do hieróglifo vatânico de ROTA, e ao lado a estrela designativa da Iluminação e da Cavalaria Espiritual, esta a ORDEM DO SANTO Graal, da qual o Rito do Adonhiramita (praticado por D. Fernando possuidor do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite no Grande Oriente Lusitano) se acerca em vários aspectos, pelas suas características bíblicas e rosacrucianas. Não deixo de reparar em três outros vitrais da mesma colecção: num, uma rainha ordenando um cavaleiro, testemunho de Iniciação Senhorial ou Mariana afim à Arte Guerreira ou Kshatriya da Cavalaria; noutro, três cavaleiros jurando com as mãos postas sobre a espada cravada no solo, qual “excalibur” ou “caliburne”,aqui identificado à terra sagrada da Montanha de Sintra, sendo esses guerreiros anónimos na noite jurada os mesmos Kshatriyas ou “Jinas da Arca” ou Agharta de quem são “escudos defensivos”; finalmente, vê-se num terceiro vitral a corte de Cavalaria entrando entrando em uma cidade – que poderá transpor-se figurativamente para a mesma Sintra – com a Taça do Santo Graal em destaque, levantada por um cavaleiro destacado no alto de uma torre (a Turris Fidelis, na ladainha mariana sendo a Turris Davídica).

vitrais 1

Enfim, tal como também se encontram sinais da “Fala dos Pássaros” na simbologia esotérica (de cariz gnóstico cristão) decorativa da Quinta da Torre ou da Regaleira de Sintra, da autoria do Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, igualmente encontra-se a sua expressão intelectual ou racional na Cabala Fonética ilustrativa dos cruzeiros cabalísticos do Reguengo da Carvoeira, no concelho de Mafra.

Tal como a “Fala dos Pássaros” ou “dos Anjos” tem a ver com a Língua Budhi ou da Intuição (o Divinus Intuitio como sexto sentido humano), tanto valendo por Senzar, o Verbum Mutis como “Língua Muda” ou do Silêncio Místico, pela qual os Anjos, Mestres e Iniciados se comunicam silenciosa ou “telepaticamente”, isto é, não por palavras mas por pensamentos, igualmente tem-se a sua expressão directa tanto no Siríaco como no Devanagari, que é a Fala dos Devas ou Anjos, logo a mesma coisa, como expressões exteriorizadas da sua síntese na Terra utilizada nos Excelsos Templos do Mundo de Agharta: a Língua Vatan ou Ígnea (portanto, Sátvica e Purushica, logo, Solar), a cujas formas geométricas (ponto, espiral, recta, em relação com os Reinos Subterrâneos de Badagas, Duat e Agharta) está especialmente ligado o Mantram Búdhico da Obra Divina do Mestre JHS (Professor Henrique José de Souza), que através dele foi oferecido ao Ocidente em 1948 pelo Dhyani Gabriel do Oriente (Srinagar):

“Senzar é minha vida,

vive em meu coração.

Porque viver em Dhâranâ

é buscar a Perfeição.”

A definição de Mantram é a seguinte: composição em que harmonia, melodia e ritmo estão combinados de acordo com as leis da Natureza. Já Dhâranâ significa: a intensa e perfeita concentração da mente em determinado objecto interno, com abstracção completa do mundo dos sentidos. Em suma: o sumo controle do pensamento.

O Professor Henrique José de Souza, no seu Livro do Loto (Carta-Revelação de 29.04.1951), ofereceu aos Discípulos avançados da sua Obra, os Munindras, a chave completa da Língua Vatan, por ele denominada de Alfabeto Assúrico ou Primordial, a partir dos caracteres do Alfabeto Português, para ser utilizada pelos mesmos nas suas correspondências privadas, tanto entre eles como sobretudo deles com o Mestre. Com efeito, JHS rectificou O Arqueómetro de Saint-Yves d´Alveydre (edição de 1934 por Dorbon Aïné, Paris), adiantando a sua Coluna J (António Castaño Ferreira) que “nem Papus ousou mexer no Arqueómetro de Saint-Yves” e que só um o podia fazer: o próprio Mestre JHS. Com efeito, adiantou o Mestre, a Escrita Assúrica representa uma forma velada de comunicação entre os Makaras e Assuras (Sacerdotes e Instrutores) que na sua época entronizavam-se no Sistema Geográfico Sul-Mineiro (Brasil) e no Sistema Geográfico Internacional, com destaque para o Sistema Geográfico Sintrense (Portugal), todos trabalhando na semeadura do Novo Pramantha ou Ciclo de Evolução Universal.

snobre_02[1]

Consequentemente, neste particular contexto tudo isso tem a ver com a Língua Portuguesa, considerada Língua Sagrada pelos Adeptos Perfeitos do Governo Oculto do Mundo (G.O.M.), sobretudo por aquele que se oculta oculto no pseudónimo Fra Diávolo, levando-me a reportar o que disse anteriormente (in História Oculta de Portugal, Madras Editora, São Paulo, 2000, e Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa), Livros Dinapress, Lisboa, 2007):

A Fala de um Povo é a manifestação, em sons vocais conjugados pelo sopro e pela pausa, da Ideia original, arquetípica, a qual regula a sua expressão mental e consequente evolução. Trata-se, afinal, da Ideia-Raiz da Potência Logoidal dirigindo o Corpo Nacional e do qual a Língua, distinta das outras, vai fazer com que aqueles que a falam se agreguem num grupo populacional fonologicamente distinto, intercomunicando-se e desenvolvendo-se dentro dos padrões básicos estabelecidos pela sua Consciência Arquetípica, tendo por forma de manifestação visível o sopro e o som impulsionados pela expressão invisível: a ideia ou pensamento e o cérebro, logo, Verbum Mentis Facundus.

Raciocine-se sobre o fenómeno da linguagem; pense-se um pouco sobre o fenómeno da palavra. Alguém tem uma ideia, uma imagem lhe vem ao cérebro, os órgãos vocais são movimentados e pronuncia-se um som convencional. A vibração transmite-se pelo ar, atinge o ouvido de outro homem, dá-se uma série de fenómenos ainda não bem explicados e aquela vibração, aquele som é interpretado pelo outro homem com a mesma ideia que havia surgido no cérebro do primeiro. Pois bem, nas línguas consideradas sagradas, purushicas, ou seja, nas línguas primevas, havia uma correlação directa do som com o objecto, isto é, o som era a expressão sonora directa e consciente do objecto ou pensamento. Com o decorrer dos tempos e o avanço da Kali-Yuga, o Ciclo Férreo que ora se atravessa, as línguas foram-se deturpando, dessacralizando e assumindo uma condição prakritica de rompimento do arquétipo com o protótipo, ou seja, do pensamento com o som, e hoje em dia são raros os idiomas que ainda mantêm essa ligação. O Latim antigo, o Grego arcaico, o Sânscrito, o Tupi, o Português galaico e também o Hebraico primitivo, são alguns dos que ainda detêm algo desse poder. Daí a razão da Cabala, na sua vertente gemátrica de estudo do poder das letras do alfabeto hebraico. Combinam-se as letras desse alfabeto como se combinam os símbolos da Química e obtêm-se ideias e significados. Todos esses idiomas são oriundos do Vatan, da Língua Universal de Agharta, como Raiz Mental de todas as expressões fonéticas da face da Terra.

sintra em vatan

A Língua Portuguesa (com os seus 40.000 verbos) tem ainda muito desse Poder de Espírito Santo – Verbum Criator – pelo que se a pode considerar em seus fundamentos de Língua Sagrada, tanto mais que é uma fusão fonética e gramatical de diversas línguas de veneranda ancestralidade (fenício, grego, latim, hebraico, árabe, teutónico, bretão e galaico), pelo que é um Idioma sintético do universo falante assim revelando a natureza “ecuménica” própria à expressão evolucional que a posta no estado de solar ou flogística, portanto, sendo Língua Purushica ou Espiritual na sua relação não rompida de arquétipo com o protótipo, de objecto com a expressão.

António Telmo (in Gramática Secreta da Língua Portuguesa, Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 1981) veio demonstrar magistralmente que a Língua Portuguesa é uma verdadeira Cabala Fonética, provando a sua estrutura sagrada e de que por ela se pode alcançar o mais verídico Conhecimento.

Por tudo isso, o insigne Professor Henrique José de Souza dizia que a Língua Portuguesa é o Idioma do Futuro, da vindoura Raça-Gémea Ibero-Ameríndia fixada já em Portugal e projectada no Brasil, na demanda de uma Nova Sociedade mais justa e perfeita para o Mundo.