Senhora do Amor

Sintra, 2015 – Dia dos Reis Magos

A raia portuguesa é alfobre de lendas e tradições insólitas mas que a História quase por norma traz no esquecimento, mesmo campeando os usos e costumes etnográficos inscritos no programa de um peculiar calendário religioso festivo, animado por populações inteiras.

A maioria dessas celebrações sazonais caracteriza-se pela integração etnográfica-religiosa de elementos celtas, ditos «pagãos», e sobretudo bíblicos da Escritura Velha de foro judaico, ajuntando elementos coreográficos insolitamente atribuídos à Ordem dos Templários, apesar de revestidos pela aparência da dogmática católica mas tudo ao gosto e conformidade da chamada “religião popular”[1]. Não raro e quase por norma tudo isso acaba trescalando a heresia e apostasia ante o dogma romano da religião dominante, esta que hoje é muitíssimo diferente na exegética e hermenêutica da dos tempos medievos onde o Cristianismo, como iniciação e confissão, dificilmente seria reconhecido tanto pelos eruditos como pelos simples contemporâneos.

Prova flagrante disso tem-se em Escalhão, aldeia da raia na Beira Interior pertencente ao concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda, sobre a qual renomeados autores falam com ligeireza e pressa tamanhas que chegam a surpreender pela negativa, como foi o caso em 1922-24 do ilustre Raúl Proença[2]. Contudo, Escalhão é a maior aldeia de Portugal em termos de área e também a maior freguesia (70 km2), tendo sido vila e sede de concelho até ao início do século XIX, com foral e honra que D. João IV lhe deu em 1650 por seu papel determinante na Guerra da Restauração, com subidas vitórias das armas portuguesas sobre as espanholas do jugo filipino. Com a extinção da Diocese de Pinhel em 30 de Setembro de 1881, por bula do Papa Leão XIII, Escalhão passou a pertencer à Diocese da Guarda, mas mantendo-se Vigairaria alternada da Santa Sé e do Bispado de Lamego como já acontecia desde o século XIV[3], facto atestado por Pinharanda Gomes[4]:

“Escalhão (N.ª Sr.ª dos Anjos). Inicialmente curato da apresentação do vigário de Castelo Rodrigo, depois, do Padroado Real e ainda reitoria da apresentação alternada do Papa e do Bispo, no termo de Castelo Rodrigo.”

Mas a antiguidade de Escalhão como pólo civilizacional de grande importância ibérica já é reconhecida desde cerca de 100 a. C., altura da sua anexação ao Império Romano quando ela era a Caliábria dos originais celtas gallaici. Segundo Antero de Figueiredo[5], o topónimo latino Caliábria derivará de Scalanis ou Scalarius, classificando “os montes penhascosos que se escalonavam”, referindo-se à configuração geográfica do terreno em socalcos, descendo para o Rio Águeda. Mas segundo a interpretação popular, dada a interpretações fáceis para mais fácil memória futura, o termo Escalhão derivará do vocábulo Secalhão, referindo-se à aridez que noutros tempos caracterizou a região[6]. Depois, o desbravamento de terrenos incultos e a arborização terão contribuído para a fertilização da freguesia.

Desses tempos antigos sobrevive a ponte romana sobre a Ribeira de Aguiar, numa via aproveitada posteriormente pelos peregrinos a Santiago de Compostela que beneficiavam da assistência e protecção dos cavaleiros da Ordem do Templo, e depois também dos cavaleiros da Ordem de Cristo, num tempo inóspito em que as feras e os salteadores campeavam ao longo da raia.

Ponte romana Escalhão

A assistência militar e hospitalar do Templo às peregrinações religiosas, sobretudo a jacobeia como a mais importante do Cristianismo peninsular e sul europeu, estava compreendida nos seus Estatutos caracterizando o seu carácter assistencial e beneficente no exercício pragmático da virtude primaz da caridade. A Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão (Ordo Pauperes Milites Christi et Templique Salomonici), fundada em 1118 em Jerusalém por Hugo de Payens mais oito companheiros, todos de alta nobreza, e reconhecida em 1128 no Concílio de Troyes por intervenção directa de Bernardo de Claraval, monge de Cister que subiu aos altares de santidade, mesmo antes do seu reconhecimento oficial já estava instalada em Portugal, em 1125, tendo a rainha D. Teresa lhe doado Fonte Arcada (Penafiel) em 1126, tomando posse da igreja de São Tiago, e no ano da sua oficialização D. Afonso Henriques doou-lhe Soure[7].

Em breve a Ordem de monges-cavaleiros expandiu-se pelo território nacional, contudo sem reconhecer fronteiras geopolíticas, fossem as luso-árabes, fossem as luso-castelhanas e leonesas. A sua guerra era exclusiva contra os mouros em que parte do território ibérico estivessem. Os seus Estatutos proibiam-na de dar combate a outras forças cristãs: à Milícia de Cristo era proibido combater e matar outros cristãos. Mas mercê da interpretação dos mesmos Status sujeita à pragmática da política do tempo, haviam excepções que na prática não foram poucas: se fosse atacada por outros exércitos cristãos tinha o dever de defender-se, assim como defender religiosos e peregrinos dos bandos de salteadores, fossem ou não baptizados. Igualmente não ingeria nas contendas entre reinos e príncipes cristãos, mantendo a neutralidade militar, mas podia muito bem favorecer este ou aquele partido, por movimentos diplomáticos, que considerasse mais favorável aos seus propósitos geopolíticos e religiosos. Para tudo isso evocavam-se os Status (Estatutos) mas nunca a Regula (Regra), que essa era inalterável in littera, estava acima dos interesses e incidentes temporais e espaciais, fossem quais fossem. A Regra era o cimento da Ordem, e os Estatutos as paredes da Casa feita com o mesmo[8].

Templários

A fim de impor ordem e restringir as lutas entre os príncipes e nobres cristãos separados em feudos rivais, a partir dos meados do século XI a Igreja impôs a Trégua de Deus e a Paz de Deus. Por esta, impedia a violência em determinados locais, nomeadamente nos santuários, hospícios e estradas, o que os cavaleiros templários cumpriram ciosamente desde o século XII até aos inícios do XIV, quando foram abolidos; pela Trégua de Deus a Igreja negava os combates entre cristãos desde a tarde de quinta-feira a domingo, sobretudo nos dias da Semana Santa. Ao mesmo tempo, canalizou as sinergias da cavalaria sedenta dos triunfos e glórias das batalhas e o seu ímpeto belicoso para objectivos mais conformados ao espírito cristão: a promoção da Cruzada contra a Crescentada, a guerra santa aos “infiéis”, nisto tendo primazia e exclusividade a Ordem do Templo cujo duplo carácter militar e religioso satisfazia os interesses e necessidades da nobreza conformada à mentalidade da época.

A Idade Média existiu de motu próprio e, particularmente o Feudalismo (séculos X-XV), encerrou um momento em que a sociedade europeia era regulada pela Respública Christiana. Uma sociedade normalizada onde as três ordens ou classes interagiam e evoluíam de forma interdependente. O Clero (Oratore) ocupava o topo da pirâmide social, classe letrada que efectuava a ligação de Deus à Humanidade, velava pela ordem social e controlava o poder político. A Nobreza (Bellatore) cingia a sua actividade primária à prática política e ao manejo guerreiro, detendo, com o Clero, o usufruto de bens patrimoniais. O Povo (Laboratore) trabalhava a terra, o feudo das autoridades eclesiásticas e nobiliárquicas. Ou seja, o Clero garantia a segurança espiritual, a Nobreza a segurança espacial e o Povo o bem-estar[9].

O notável desse quadro geral da sociedade medieval é o da Ordem dos Templários ter agido sobre as três classes em simultâneo: com os Oratores do Templo encomendados a Cister e Cluny, proviam as necessidades espirituais e promoviam a alfabetização geral; com os Bellatores fortemente brasonados e temperados na arte militar, impôs uma disciplina castrense que fez da Milícia uma força bélica de elite; Oratores e Bellatores Tempreiros deram assistência espiritual e temporal, cultural e técnica, aos Laboratores, protegendo-os das prepotências dos poderosos e provendo-os de conhecimentos capazes de tornarem a sua vida diária mais fácil, desde técnicas agrícolas a cuidados médicos e inclusive facilitando-lhes o acesso à instrução.

Cedo os templários instalaram-se na Beira Interior distenderam-se raia abaixo, de Norte a Sul, acompanhando e participando na Reconquista. Já em 1170 regista-se a sua presença na Guarda (cuja Diocese distende-se até Idanha-a-Velha, a primitiva Egitânia), em Pinhel, em Barca d´Alva, em Mata de Lobo, em Escarigo, etc., e particularmente em Escalhão, onde no “Alto da Sentinela” subjazem as ruínas de muralhas e de uma torre ou atalaia de alvenaria possivelmente da época de D. Dinis (1261-1325), se não de D. Sancho I (1154-1211) que fora educado no Templo e deu foral a Escalhão em 11 de Setembro de 1209, privilégio confirmado por D. Dinis em 1316 que antes, em 1310, mandara construir ou reconstruir o castelo de Escalhão, que a Guerra da Restauração (século XVII) reduziu a um monte de escombros.

castelo escalhão

Com a abolição da Ordem do Templo no início do século XIV (1312), a sua sucessora e herdeira universal, a Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, tomou posse dos antigos domínios beirões dos templários, incluindo Escalhão, fundando comendas novas no espaço primitivo das comendas velhas, como informam os seus Estatutos e Definições[10]:

“No Bispado de Lamego há as Comendas velhas e antigas da Ordem, que são as seguintes: a Comenda de Nossa Senhora do Pereiro da Vila da Reigada, avaliou-se em duzentos e vinte mil reis há muitos anos. As três Comendas de Longroiva, Muxagata e de Vila da Meda, em um conto de reis. Neste Bispado de Lamego há somente quatro comendas velhas, e andam traz dela unido[11] e valem todas um conto e duzentos e vinte mil reis. Há neste Bispado de lamego quatro Comendas[12] das cinquenta do Padroado Real, que também pagam os três quartos à Ordem, como as velhas, e rendem seiscentos e oitenta mil reis.”

Por sua vez, inscrita como comenda nova (por certo a partir do espaço indeterminado da velha), encontra-se na Lista de todas as Comendas da Ordem de Cristo[13]:

“Lamego. Santa maria descalhão comendador dom alvaro gh´detaide avaliada em cento e seis mil trezentos e quarenta reis no anno de 1552.”

“Lamego. A comenda de santa maria descalhão; é comendador joão de mendoça; avaliada em 60 mil reis; ano é: (1)602.”

Tratava-se, portanto, de uma comenda rica, o que justificava a sua importância político-económica no espaço concelhio e diocesano. Tal progresso também se deveria à forte presença activa económico-social da comunidade judaica em Escalhão, cuja maioria dedicou-se à profissão de ourivesaria e filigrana. Convém dedicar algumas palavras à alfama sefardita escalhense (sediada no hoje chamado “bairro dos galegos”), sobretudo por nela assentarem muitas tradições bíblicas que passaram aos usos e costumes civis e religiosos locais, muitas delas de cunho hermético ou esotérico mas engenhosamente disfarçadas no mais ortodoxo e rigoroso credo católico.

Que os “saberes proibidos” sefarditas – indo vazar-se no criptojudaísmo – revelam-se ao longo da raia nas tradições, usos e costumes populares, é facto incontornável. Mas também é facto indesmentível que já em 1209 registava-se forte presença judaica em Escalhão, a qual os templários tanto protegeu como policiou os seus saberes, sobretudo os cabalísticos de foro messiânico, não deixando a fácies heterodoxa do rabinismo propagar-se indiscriminadamente, mesmo que por certo usufruíssem da mesma dando-lhe adopção para sempre ficando assinalada na heterodoxia doutrinal que os distinguiu. Os privilégios concedidos aos sefarditas escalhenses seriam confirmados por D. Dinis em 1316, rigorosamente assegurados pela Ordem de Cristo[14].

A partir dos meados do século XVI, a Inquisição aumentou a censura e perseguição eclesiástica aos judeus obrigando-os à conversão em “cristãos-novos”, no que não obteve o êxito desejado apesar de todos os suplícios que lhes infligiu e tão-só originando o criptojudaísmo. Nos meados do século XVII já só haviam marranos ou b´nei anussim (“filhos de forçados”) na Diocese de Pinhel[15], descendentes de sefarditas obrigados à conversão mas que em segredo cumpriam escrupulosamente os preceitos da Torah, inclusive muitos deles dedicando-se secretamente ao exercício da Cabala e da Alquimia[16]. Dos 200 processos que a Inquisição moveu aos judeus figueirenses, todos acusados de “heresia e apostasia”, mais de metade foi contra os de Escalhão. Mesmo assim debalde, tanto em Pinhel como nas restantes dioceses, a ponto de D. André Furtado de Mendonça, bispo de Miranda, queixar-se numa carta ao Papa em 1675: “Não achei erro algum acerca da fé a não ser a heresia judaica que, nesta diocese, cresce diariamente, por culpa dos nossos pecados.”

Escalhão - sinais judaicos

As repressões censórias das autoridades eclesiásticas, até então desconhecidas na ferocidade que as caracterizou, eram consequência da Contra-Reforma delineada no Concílio de Trento, a que não escapou a própria Ordem de Cristo alterada de claustral em clausural pela reforma censória de frei António Moniz, mais conhecido por frei António de Lisboa, capataz de D. João III, o “rei papista”. O Concílio de Trento, convocado pelo Papa Paulo III, realizou-se de 1545 a 1563 como reacção à Reforma Protestante, iniciada com Martinho Lutero, a partir de 1517. Saiu dele um Tribunal do Santo Ofício com poderes reforçados (só anulados no tempo do Marquês de Pombal), o qual logo moveu autos-de-fé e prohibitorum a tudo (homens, literatura e obras de arte, inclusive ermidas, capelas e igrejas) que considerasse apostasia e heresia como contrário ao credo oficial e à infabilidade papal[17].

Todavia o movimento persecutório dos inquisidores à escala nacional não foi inteiramente bem-sucedido, pois muito escapou à sua delapidação censória, por descuido ou ignorância do sentido encoberto do exposto, como é o caso notável de Escalhão, notoriamente na sua igreja matriz a começar pelo nome do Orago que se celebra em 2 de Agosto: Nossa Senhora dos Anjos, evocação de origem franciscana beguina ou espiritual.

Com efeito, Nossa Senhora dos Anjos é a Patrona da Ordem Terceira de São Francisco desde que apareceu a ele numa noite de 1216, na igreja de Porciúncula, ao lado de Cristo e circundados de uma multidão de Anjos. Prontamente o santo rogou a indulgência plenária da Virgem Mãe pelas almas dos crentes, para que todas fossem mandadas ao Paraíso. Nossa Senhora acedeu ao pedido do Poverello com a condição de que o Papa (Honório III) desse primeiro reconhecimento à indulgência. Assim foi feito e satisfeito, mas Francisco recusou do Sumo-Pontífice qualquer documento escrito alegando não se tratar de um indulto temporal mas intemporal por almas subidas ao Céu, acrescentando: “Deus cuidará de manifestar a Sua Obra, pelo que não necessito de qualquer documento. Esta Carta deve ser a Santíssima Virgem Maria, Cristo o Escrivão e os Anjos as Testemunhas”. Desde então a festa de Nossa Senhora dos Anjos ficou conhecida como Dia do Perdão, Perdão de Assis ou Indulgência da Porciúncula[18].

N. S. dos Anjos

Igualmente subentende-se, pela negação de documento escrito, a exclusividade da tradição oral como primitiva fórmula de transmissão do conhecimento espiritual (de certeza a razão principal do dédalo da Inquisição não a ter alcançado), aqui no tocante à fórmula de subida das almas ao Paraíso que, nesta matriz escalhense, representa-se na torre figurativa da Turris Eburnea (“Torre de Marfim”), epíteto da Virgem Maria retirado do Cântico dos Cânticos (7:4), aliás, assinalada em três letras gravadas no primeiro degrau de subida ao campanário: A M P – Ave Maria Pronobis, “Ave-Maria por nós”. Consequentemente, a “Torre de Marfim”[19], simbólica da nobre Pureza, é tão cara a cristãos como a judeus por se inscrever na Escritura Velha, onde para esses últimos Ester (a Santa Ester dos criptojudeus) faz as vezes de Maria, indicativo matricial de Iniciação Feminina que, aliás, continha-se numa singular tradição local expectiva de bom parto.

Em Escalhão era tradicional a peculiar e espiritual fórmula de implorar uma boa hora para a mãe expectante, quando as condições aparentes indicassem possíveis dificuldades para dar à luz. Sete jovens virgens, todas Marias de seus nomes, subiam à torre sineira da matriz e, a espaços que davam tempo, cada uma fazia soar uma badalada no “augusto bronze”. E cada toque era sinal a quantos escutassem para rezarem uma Ave-Maria e rogarem a Nossa Senhora que intercedesse pela felicidade do parto. Sete orações de louvor e petição à Mãe de Jesus rogadas por sete donzelas, também Marias, e repetidas por muitas e muitos de qualquer idade e condição em suas casas, nos campos, pelos caminhos, por certo eram bem acolhidas pela Virgem Maria[20].

Igreja de Escalhão

Essa tradição popular terá origem medieval inspirada no poema épico Psychomachia, de Prudêncio (348-410), poeta latino cristão, que foi dos mais difundidos na Alta e Baixa Idade Média, inclusive encenado como a batalha moral da Alma (Psicomaquia) dividida entre virtudes e vícios[21]. As sete virgens escalhenses representarão as sete virtudes que por graus ou degraus vão se acercando do elevado Céu até ao derradeiro toque viril do badalo que faz vibrar os Portais do Paraíso que as fará plena de Graça. É um momento presente expectante de uma feliz realização futura. As sete virtudes (virtus) tradicionais, são: castidade (castitas) oposta à luxúria; generosidade (liberalitas) oposta à avareza; temperança (temperantia) oposta à gula; diligência (diligentia) oposta à preguiça; paciência (patientia) oposta à ira; caridade (humanitas) oposta à inveja; humildade (humilitas) oposta à soberba. Tais virtudes tomaram forma nas mulheres profetizas reconhecidas Sibilas pela Igreja, prenunciantes do Advento às quais a hermenêutica heterodoxa – inclusive dando-as como expressões humanas das siderais sete Mamas, Krittikas ou Plêiades, estrelas desta constelação configuradas como progenitoras de Kartikeya, o Paladino ou Guerreiro Celeste tanto associado a Kalki como a Maitreya pelos orientais, no Ocidente reconhecido Cristo Pantocrator, “Todo-Poderoso” – dispõe no plano da mais profunda ou esotérica Tradição Espiritual, sendo também elas expectantes de um Tempo futuro de Deus e Ideia, ou Ideia Divina saída do parto de uma nova e mais ampla consciência no Género Humano.

O Cristianismo dá um especial enfoque às Sibilas de Cumes (Cumana), de Delfos (Délfica), de Elesponto ou Helesponto (Heliopolis), de Samos (Samo), de Eritreia, da Líbia (Líbica), da Pérsia (Pérsica) e da Suméria (Siméria). De todas, a que parece mais importante relativa ao Cristianismo será a Sibila de Cumes, a mesma que profetizou o Advento de Cristo, e o seu símbolo iconográfico é uma taça de ouro. A Sibila de Delfos previu a vinda da Idade de Ouro para a Terra, e tem por símbolo uma coroa de louros (às vezes, uma coroa de espinhos). A Sibila de Helesponto profetizou a queda do Império Romano e o nascimento de uma Nova Civilização, aparecendo carregando uma cruz. A Sibila de Samos ditou que o futuro Salvador do Mundo nasceria numa manjedoura dentro de uma gruta, e por isso carrega nas mãos uma manjedoura. A Sibila de Eritreia fez o anúncio do nascimento do Messias, Messiah, Mashiah ou Avatara Jesus Cristo, razão do seu símbolo ser a flor do lírio. A Sibila da Líbia registou as suas profecias sobre o Advento do Salvador, sendo o seu atributo simbólico um pergaminho. A Sibila da Pérsia vaticinou de forma nebulosa que a verdadeira Luz haveria de iluminar a noite dos homens, e aparece representada com um rolo ou pergaminho fechado. A Sibila da Suméria, simbolizada com um espelho ou um vidro, fez vaticínios sobre a Virgem Divina, a maior das Sibilas do Templo de Jehovah ou Júpiter, assim identificada pelos antigos, e Serva do Altíssimo Senhor Deus Único e Verdadeiro (a qual é aqui representada na própria igreja ou assembleia de Escalhão, particularmente na sua torre sineira posta sob o evoco de Maria)[22].

As Sibilas são descritas como Mulheres-Oráculos da Grécia e Roma antigas possuídas de poderes proféticos sob a inspiração de Apolo ou Helius, o Logos Solar, projectando o seu Raio de Luz do Céu à Terra através dos Anjos que vinham aportar às mentes delas os prognósticos divinos. As Sibilas, nome grego dórico significando “Vontade de Júpiter” (Zeus ou Deus), eram originalmente sacerdotisas virgens e sábias desse deus que é tido pelos poetas como o rei dos deuses e dos homens, e que lá do Olimpo agita o Universo com um simples mover da sua cabeça… mais tarde, porém, transformaram-se de imaculadas sacerdotisas em famosas profetisas, e o dom da adivinhação por clarividência intuitiva espalhou-se por toda a Grécia alastrando aos países mais distantes. Os gregos também davam o título de Pitonisa ou Pythia às mulheres preparadas em Escolas Iniciáticas para serem Oráculos, ou seja, Profetisas. Isto porque, segundo a mitologia grega, Apolo, filho de Júpiter e Latona, nascera na Ilha de Delfos onde veio a matar a serpente Python, alegorizando a tomada da Sabedoria Divina pelo Fogo da Razão, já que a serpente representa o Fogo Criador que crepita e se agita no escrínio de tudo e todos. Era com a pele da serpente píton se recobria o trípode onde ardia o Fogo Sagrado e se queimavam folhas de loureiro, sobre o qual se inclinava a Pitonisa perscrutando dos segredos do futuro.

Hoje, com o declínio da ordem do sistema tradicional tanto espiritual como social, aumentando a eterna ansiedade humana que a impele a procurar saber do seu futuro por obscuras e confusas sendas, vêem-se homens e mulheres de vidas estraçalhadas a quem resta só a esperança na resposta certa de adivinhos e adivinhas, a quem recorrem como último recurso numa vida ausente de verdadeira cultura espiritual. Mas tais adivinhos e adivinhas, frutos da ignorância sem ordem nem regra que só gera impuberdade psicofísica, em nadíssima podem ser comparados e tampouco assemelhados aos Magos, Pitonisas e Sibilas de antanho. Em suma, o original sacerdócio feminino todo ele expressando pureza física e moral e espiritualidade esclarecida, tem actualmente como oposto caótico as famosas bruxas cujas práticas divinatórias, inteiramente psíquicas não raro falíveis e até falsárias, correspondem com inteira justeza ao termo bruxaria, isto é, confusão.

Registam-se no interior da igreja de Escalhão (datada do século XVI, embelezada no século seguinte e com restauros no século XVIII, mas cuja origem recuará ao período medieval de D. Dinis e a Ordem de Cristo de que sobrevive a fachada frontal e a torre) sinais inequívocos dela ter escapado às visitações e correções da Contra-Reforma, dispondo-a na classe dos templos hieráticos e apócrifos aparente e enganadoramente pressupostos hereges e apóstatas, se confrontados com os símbolos oficiais da religião dominante, estes perpassados de longo pelo erudito espiritual de um, direi assim, Supra-Cristianismo, nos moldes tradicionais e iniciáticos da Tradição Espiritual do Ocidente como era antes do Concílio de Trento.

Sobretudo há a relevância do simbolismo da rosa e da cruz juntos, repetidos com insistência significativa nos frescos decorativos do templo, o que recambia para a presença velada da Ordem Rosa+Cruz sucessora directa da Confraria dos Monges-Construtores beneditinos que aqui intervieram em Trezentos. A Ordem Rosa+Cruz foi fundada na Alemanha por Christian Rosenkreutz (“Cristão Rosacruz”) no século XIV, e depressa espalhou-se por toda a Europa incluindo Portugal, provocando a Reforma Protestante e até o início da Renascença e do Iluminismo. Durou até aos inícios do século XVIII, onde veio a dissolver-se tanto no Movimento Iluminista (iniciador da moderna Academia sob o apodo “Colégio dos Invisíveis”) como na Maçonaria Especulativa, fundada em Londres no dia de S. João de 24 de Junho de 1717. Acerca dos Rosa+Cruzes, escreveu Anselmo Caetano Munhoz de Abreu no século XVIII (começando com um elogio e terminando numa censura, por certo para despistar o dédalo inquisitorial, pelo que prescindo transcrevê-la)[23]:

“Parece que a este género de felicidade aspirarão os Irmãos chamados da Rosa Cruz. Há uns anos que em Alemanha se erigiu com este título uma Irmandade de Filósofos, que também se chamavam os Invisíveis, e eles o eram de sorte que com inviolável fidelidade observavam as Leis e Regras da sua Instituição; carteavam-se com enigmas e se prezavam de saber segredos ainda mais notáveis que o da Pedra Filosofal; porém a sua invisibilidade era o seu maior mistério, porque com ela não ficavam expostos à perigosa curiosidade dos Grandes (…). Eu aqui não faço menção deles senão para confirmar o prudente recato com que devem viver os que tiverem a fortuna de conseguir algum notável descobrimento em Arte, ou Ciência, porque necessitam de outro anel, como o de Gyges, para se fazerem invisíveis, enquanto houver Magnates no Mundo. A reputação desta tão recôndita Ciência muitas vezes prejudica muito a vaidade dos que com razões sofísticas, experiências aparentes e apócrifas tradições, quiseram certificar a sua existência. A estes apaixonados padrinhos do Lapis tenho às vezes ouvido provas, que até na Sagrada Escritura pareciam solidamente fundadas.”

Pramantha

No interior da matriz escalhense, junto à porta lateral está uma antiga pia de água benta decorada com um listel com as figuras esculpidas de uma rosa, um coração, uma ave e um ramo (talvez de oliva), deixando o subentendido da frase latina Ave Cordo Maris: “Ave, Coração do Mar” (água, aqui a benta, benzida ou sagrada), pressupondo ainda o eventual conhecimento e talvez presença ocultada da misteriosa Ordem de Mariz que a historiografia traz no completo desconhecimento, mas que terá actuado por artistas e mestres da heterodoxia hierática, dita ciência secreta ou Gnôsis (Gnose, “Sabedoria Perfeita”), ou por outra, Theosophia (Teosofia, “Sabedoria Divina”) sob feição judaico-cristã.

pia água benta

No lado oposto, no lugar do Evangelho ou da Palavra, encontra-se o púlpito pelo Anjo da Trombeta ribombando o anúncio de Advento do Sol Salvífico (gravado na cimalha exterior da respectiva porta lateral) de uma nova Idade redentora do Mundo, motivo transferindo para o texto inicial do Apocalipse (1:1): “O Apocalipse de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para descobrir aos seus servos as coisas que cedo devem acontecer, e que ele manifestou, enviando-as, por meio do seu anjo, a seu servo João”[24]. A palavra apocalipse tem origem na grega apokálypsis, “revelação velada ou secreta” (apo, “exposta, revelada”, e kalumna, “véu, encoberta, secreta”), e nisto deixa o subentendido de Parusia ou Advento Final velado sob a exclusividade aparente da função do púlpito como lugar da ministração da Palavra, da expressão do Verbo Divino, confirmando a justificativa das palavras da Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios (3:6): “Foi Ele que nos tornou aptos para sermos sacerdotes de uma Nova Aliança, não pela letra mas pelo Espírito, porque a letra mata e o Espírito vivifica”[25].

Porta do Sol - Escalhão

A grande abóbada comprida e alta, dando feição medieval ao interior do templo, apresenta-se decorada com pinturas de motivos geométricos claramente herméticos importados da tradição clássica pitagórica dos construtores livres da Renascença, os liberi muratori cuja arquitectura sagrada desenvolveu-se a partir dos escritos vitruvianos de 1521, ou seja, os de Lúcio Vitrúvio que, por sua vez, inspirou-se na geometria sagrada medieval constante no pequeno livro On the Ordination of Pinacles, do arquitecto alemão Mathäus Röriczer (falecido em 1492), baseado no rombus ou vesica, ou seja, em círculos concêntricos onde o quadrado e o hexágono são desenhados mostrando a relação do ad altum (elevação) com o ad quadratum do plano básico: em uma vê-se a Roda da Vida (chamada Rota Mundi pelos antigos Rosacruzes), em outra a Flor da Vida (Flos Vitae) inspirada na vesica piscis (“bexiga de peixe”, como alusão geométrica ao Ciclo de Piscis no qual o Cristianismo nasceu), e noutra ainda a swástika ou suástica clavígera dos pontos cardeais irradiando de Sol central[26], motivo assinalado no Hinduísmo como Pramantha ou “Ciclo de Evolução Universal”.

Suástica clavígera - Escalhão

Sem dúvida a maior jóia artística desta igreja é o seu altar-mor, com rico retábulo de dois andares em talha dourada apoiados e enquadrados por colunas salomónicas de seis espiras cada, sendo do “estilo nacional” dos fins do século XVII e início do seguinte, como revelam os seus elementos maneiristas junto a barrocos. Sobre o entablamento domina a imagem do Orago, Nossa Senhora dos Anjos. No patamar superior, enfileiram-se as imagens dos 4 Profetas (Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel) assinalando a Escritura Velha ou Antiga Tradição (Patriarcas). No patamar inferior, apresentam-se os 4 Evangelistas (Mateus, João, Lucas e Marcos) representado a Escritura Nova ou Nova Revelação (Apóstolos). Mas o mais interessante e insólito de tudo quanto há nesta igreja são os dois baixos-relevos laterais, do estilo flamengo do século XVII, representando Jesus a caminho do Calvário e a deposição de Jesus no sepulcro, que remetem sem delongas para interpretações abertamente heterodoxas do Hermetismo cristão.

Mesmo que aparentemente tão-só exprimam as 2.ª e 14.ª estações da Via Crucis – solenidade pascal evocativa da Paixão e Morte do Senhor iniciada no século XV pela Piedade franciscana – contudo há outra leitura mais profunda no esconso do figurino piedoso. A 14.ª estação – Jesus depositado no sepulcro – remete para o tempo futuro da apoteose e confirmação da Fé: trata da descida da alma de Jesus aos Infernos, Inferius, Inferiores ou Mundos Interiores, Subterrâneos, como antelóquio da ressurreição (anástase) corporal ao terceiro dia. Neste painel aparece o dono do sepulcro, José de Arimateia, ao lado de Maria de Cléofas, considerada tia de Jesus, Maria Mãe de Jesus, Maria Madalena, João Evangelista e Nicodemos. O sepulcro onde Arimateia e Nicodemos depositam o corpo inerte do Senhor sobre o sudário, apresenta no frontal as efígies dos rostos de três homens: um rosto barbado ligeiramente de lado – possivelmente o próprio José de Arimateia, membro do Sinédrio e pressuposto discípulo secreto de Jesus (João, 19:38) – oposto a um outro rosto barbado que porventura será Nicodemos – também membro do Sinédrio e que o Talmude identifica como Nicodemos Ben Gerion. Entre ambas as efígies aparece uma terceira semiencoberta pelo sudário de um jovem imberbe: assinalará aquele que há-de ressuscitar do véu da morte num corpo novo, jovem e glorificado em “corpo pneumático”, para usar a expressão paulina (I Coríntios, 15:44). Pneuma é literalmente o “Sopro da Vida”, ainda que se interprete correntemente como “Espírito”. Ora a ressurreição é predicado do Espírito Santo pela qual Cristo ressurgiu em seu corpo espiritual vivificado e revelado ao terceiro dia, como triunfo da Vida sobre a Morte[27].

Descida ao sepulcro

O outro baixo-relevo revela-se o mais insólito de tudo quanto aqui há: vêem-se nele dois Jesus, um carregando a cruz e outro por cima e ao lado observando-o. Poderia ser identificado ao “bom ladrão” que no conjunto aparece ao lado de uma terceira figura desnuda sem aura de santidade, portanto, o “mau ladrão”, que com o outro acompanharam o Senhor no derradeiro martírio. Poderia muito bem ser, se não fosse o desmentido cabal de aparecer num fresco setecentista na sacristia a Senhora do Leite amamentando duas crianças, pelo que serão efectivamente dois Jesus e não quaisquer ladrões condenados à morte como narram os Evangelhos sinópticos, mas isso talvez ou decerto tenha servido de pretexto para velar o flagrante das correções inquisitoriais, tema que aliás parece ter sido comum antes da Contra-Reforma[28].

dois Jesus

O próprio Leonardo da Vinci foi convidado a pintar novo quadro depois da sua primeira versão da Senhora das Rochas (1483-1489, quadro no Museu do Louvre, Paris), onde aparecem duas crianças indistintamente junto da Virgem Maria e do Anjo Gabriel. Na segunda versão (1495-1508, quadro na Galeria Nacional de Londres) já aparece o menino João Batista adorando o menino Jesus. Os dois Jesus também estão retratados num quadro do século XV no Museu Nacional de Borgonha, em Dijon, onde um aparece sentado no trono de Israel fitando o outro que se oculta sob o manto da Virgem Maria, tema repetido em O Mistério feito Memorial (peça em mármore policromado do início do século XVI que fez parte da Exposição de Arte Sacra da Diocese de Aveiro), onde aparecem dois meninos sentados no regaço da Virgem Mãe cruzando os braços à altura do peito dela, assim apontando a sua progenitora.

dois Cristos

O caso da Senhora ter dado à luz duas crianças e não uma só como é aceite universalmente hoje em dia, poderá parecer mais que estranho e escandaloso: será remetido para a pura fantasia apócrifa! Mas também poderá não ser, atendendo às duas naturezas de Jesus (o iracundo que expulsou a vergastadas os vendilhões do Templo, e o amoroso que proferiu o sermão da Montanha; o que diz não trazer a paz mas a espada – Mateus, 10:34 – e o que aconselha os homens a amarem-se com Ele ama a Humanidade – João, 13:34) e às suas correspondentes funções: o Jesus Davídico destinado a Rei de Israel, e o Cristo Messias que assistiu àquele na vida e à distância o contemplou na morte, sem da mesma participar por ser impossível ao Homem matar Deus, o Mashiah ou Avatara, a manifestação do próprio Espírito de Verdade.

O tema dos dois Jesus (Deus-Homem e Homem-Deus) é constante nos Evangelhos apócrifos, a maioria deles contemporâneos dos Evangelhos sinópticos que ganharam força de lei a partir do Concílio de Niceia (ano 325), quando foram queimados cerca de 4000 outros Evangelhos considerados heréticos à margem da catequese imposta e afirmada no Credo de Niceia: “Àqueles que afirmam que o Filho de Deus é uma Hipóstase ou Substância diferente, ou foi criado, ou é sujeito à alteração e mudança, a esses a Igreja anatematiza”, repetindo-se no Credo de Atanásio e com isso preanunciando o início da Idade Média que no seu pior foi “Idade de Trevas”, isto é, de intolerância, censura, perseguições e crimes em nome do fundamentalismo e exclusividade de uma religião de prepotência e domínio das almas e dos Estados[29].

Consultando os Evangelhos apócrifos constantes da Biblioteca de Nag Hammadi editados em Portugal[30] e no Brasil[31], procurando neles a presença ou tão-só a sugestão dos dois Jesus, respigo:

Evangelho de Filipe

“«Jesus» é um nome oculto. «Cristo» é um nome revelado. Por isso, «Jesus» não existe em nenhuma (outra) língua, mas sim o seu nome é «Jesus», como é denominado. No que respeita a «Cristo», o seu nome é, em siríaco, «Messias» e em grego Christos. Certamente todos os outros o têm, segundo a língua de cada um. O «Nazareno» é o (nome) manifesto do que está oculto. Cristo possui tudo em si mesmo, seja nome, anjo, mistério e (mesmo) o Pai[32].

“Mediante água e fogo todo o lugar é purificado: o manifesto mediante o manifesto, o oculto mediante o oculto. Há algumas coisas ocultas mediante as manifestas. Há água na água, há fogo na unção.”

Livro de Tomé, o Atleta

“Por isso, assim, tu és meu irmão, Tomé. Viste o que está oculto aos homens; ou seja, aquilo em que tropeçam ao não conhecê-lo.”

Apocalipse de Pedro

“– Que vejo eu, oh Senhor? És tu aquele a quem agarram e és tu o que te agarras a mim? Ou quem é esse (que) sorri alegre sobre a árvore[33]? E há outro a quem batem nos pés e nas mãos?

“O Salvador disse-me:

“– Aquele que viste sobre a árvore alegre e sorridente, esse é Jesus, o vivente. Mas este outro, em cujas mãos e pés espetam os cravos, é o carnal (sarkinos), o substituto, exposto à vergonha, o que existiu segundo a semelhança – olha para ele e para mim!”

Segundo Tratado do Grande Seth

“A minha morte, com efeito, que crêem que aconteceu, existiu para eles equivocada e cegamente. Cravaram o seu homem para a morte deles. Porque os seus pensamentos não me viram, porque eram surdos e cegos. Fazendo isto, porém, julgam-se a si mesmos. Por um lado, viram e castigaram-me, (mas) foi outro, o seu pai[34], o que bebeu o fel e o vinagre, não fui eu. Foi a outro a quem colocaram a coroa de espinhos. Eu, no entanto, regozijava-me nas alturas sobre o domínio total dos arcontes e da semente (spora) do seu erro, da sua vã glória, e zombava da sua ignorância. Todos os seus poderes, no entanto, eu os submeti à servidão.”

Sabe-se que os textos apócrifos dos gnósticos cristãos eram do conhecimento e consulta das autoridades eclesiásticas do século IV e que circularam nos meios eruditos e fechados tanto das instituições religiosas e militares (como foi o caso da Ordem do Templo) como nas sociedades ilustradas do Renascimento, tando praticamente chegado aos inícios do século XIX. Agora convirá estabelecer um comparativo histórico entre evangelhos sinópticos e apócrifos, e em que destoam, se destoam, uns dos outros.

Os títulos dos evangelhos não provêm dos evangelistas, porque antigamente não se costumava exornar as obras históricas com os nomes dos autores, mas remontam aos tempos dos Padres Apostólicos, e tanto assim é que já os conhecia o autor do Fragmento Muratoriano (2.º século), bem como Santo Irineu (+ 202) e Clemente de Alexandria (+ 217). Os três primeiros evangelhos, ainda que literariamente autónomos e independentes, por apresentarem concordância no conteúdo e exposição foram recebidos no cânone do Novo Testamento com um quarto evangelho, o de S. João, posterior. No intuito de pôr em relevo essa concordância, traçou-se um paralelo sistemático entre os três primeiros textos evangélicos dando como resultado uma interessante sinopse. Daí, esses escritos vieram a chamar-se de “evangelhos sinópticos”, e os seus autores, “os sinópticos”.

Os evangelhos gnósticos faziam parte da mesma corrente de tradição que os sinópticos, estes, mesmo assim, só aceitos oficialmente no século IV, quando do Concílio de Niceia, que afirmou decisivamente a Igreja como uma “religião de Estado” com sede definitiva em Roma, ou seja, quando Silvestre e Constantino firmaram a união entre o Papa e César, e a corrente gnóstica passou a ser marginalizada pelo novo cânone, quando não perseguida de maneira implacável. Esse foi um contrassenso total, visto a corrente gnóstica ser a postulada em reservado por Jesus Cristo que a terá ensinado aos Apóstolos e estes aos seus discípulos, os citados Padres Apostólicos (Santo Irineu, São Clemente de Alexandria, São Timóteo e ainda Orígenes, Jâmblico, etc.).

Havia, pois, um conhecimento público ou popular (catequese e confissão dos simples) e uma sabedoria reservada ou restrita (teologia e perfeição dos sábios) para o entendimento e promulgação do Cristianismo. Isso mesmo é explícito claramente nos evangelhos sinópticos: “E quando se achou só, os que estavam junto dele com os doze apóstolos o interrogaram acerca do sentido desta parábola. Ele disse-lhes: A vós é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas para os que estão de fora, todas estas coisas se dizem por parábolas”. E mais adiante: “Assim, lhes anunciava a Palavra por muitas parábolas semelhantes, conforme os que eram capazes de o ouvir. Ele não lhes falava senão por parábolas, mas quando estava em particular explicava tudo aos seus discípulos” (Marc. IV, 10, 11, 33, 34; Mat. XIV, 11, 34, 36; Luc. VIII, 10). E mesmo com os discípulos mostrava a reserva ou contenção na revelação da Sabedoria: “Muitas coisas tinha ainda que vos dizer, mas estão muito acima do vosso alcance” (Jo. XVI, 12).

Orígenes viria a servir-se dessas palavras para fazer alusão ao ensinamento secreto mantido pela Igreja, ou seja, a Gnose. S. Clemente de Alexandria, nos Stromatas ou “Miscelâneas”, declara que a Gnose “comunicada e revelada pelo Filho de Deus é a Sabedoria… Ora, a Gnose é um depósito que chegou a alguns homens por transmissão: ela tinha sido comunicada oralmente pelos Apóstolos” (Stromata I, VI, cap. VII). E adianta: “O homem familiarizado com todos os géneros de Sabedoria será o Gnóstico por excelência” (Stromata I, VI, cap. XIII), rematando: “O Apóstolo, distinguindo a fé ordinária da Perfeição gnóstica, chama à primeira a fundação e, às vezes, o leite” (Stromata I, XII, cap. IV)[35].

Consequentemente, como os quatro evangelhos sinópticos faziam parte de inúmeros outros remetidos à fogueira sob pretexto de heresia, acaba verificando-se haverem inúmeros “hiatos” nas suas narrativas, por certo só encontrando comutação nos textos daqueles marginalizados. Tratar-se-á de algo assim como um “puzzle” completo ao qual retiraram várias peças, com o resultado de ficarem decisivamente incoerentes.

A doutrina oficial católica como hoje é entendida, por conseguinte a leitura e interpretação da sua catequese e confissão, ficou a dever-se à acção pastoral dos consignados 4 Doutores da Igreja (Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Jerónimo, São Gregório Magno)[36], termo comum nas obras dos escolásticos, tendo o Papa Bonifácio VIII ordenado em 1298 que fossem festejados aos pares pela Igreja do Ocidente, como aliás estão retratados em pintura no tecto da sacristia da matriz de Escalhão, com São Gregório Magno tendo estampada a rosa rubra no peito, sinal de Divino Amor que a Pomba do Espírito Santo lhe insufla. No centro do fresco quadrangular, em guisa de “fecha de abóbada” (fingida), está a rosa suportando a cruz com uma swástika no meio, motivo remetendo novamente para a presença da influência Rosa+Cruz, a qual como símbolo de Iluminação pelo Amor transmite a ideia de Igreja do Amor (oposta à de Roma), para onde o movimento destrocêntrico ou solar da swástika parece querer mover o pensamento dos máximos eclesiais, como prenúncio de um novo ciclo de Cristandade tal qual seria originalmente[37]. Por baixo de Santo Agostinho aparece um outro fresco, o já referido da Senhora do Leite amamentando os seus dois filhos, tema decerto conhecido desse bispo de Hipona que antes de ser cristão fora neoplatónico, isto é, gnóstico ingresso no Maniqueísmo[38].

4 doutores

A afirmação do Amor como Sabedoria maior revela-se nas três virtudes teologais retratadas no fresco da Senhora da Caridade (ou Amor) ostentando os símbolos da Fé (Cruz) e da Esperança (Cálice), vendada como sinal de virtude indiscriminada. Encima o belo lavabo dúplice, datado de 1761, de onde a água saía da boca de dois Anjos (um Querubim, Senhor da Sabedoria, à direita; um Serafim, Senhor do Amor, à esquerda).

lavabo Escalhão

Bem parece que a Rosa+Cruz como ideal e filiação fechada ou hermética terá sido perfilhada pelos terços mendicantes (sendo este o significado – mendicância – da imagem invulgar de Santo António com a sacola a tiracolo e o Menino Jesus ao colo, como se vê num altar lateral desta matriz escalhense) da Ordem Terceira de São Francisco da Província de Portugal (assinalada na presença de Fernando Bulhões e Taveira de Azevedo, mais conhecido por Santo António de Lisboa e Pádua, coevo e companheiro de São Francisco de Assis), posto a presença franciscana ser constante neste espaço sagrado, repetindo-se ainda na sacristia em pinturas em madeira (dos fins do século XVIII), em uma das quais vê-se a imposição dos estigmas a São Francisco de Assis, em outra Santo António com o Menino e ambas ladeando uma Senhora aureolada de santidade em oração com um livro ao lado. Vestida com trajes ricos sinal da sua riqueza e nobreza, trata-se de Santa Maria Madalena lendo o Livro das Horas, tema retratado por vários artistas desde a Idade Média, talvez sendo o mais notável Maria lendo, retábulo do século XV (terminado entre 1435-1438) do pintor holandês Rogier van der Weyden, exposto na Galeria Nacional de Londres.

O culto medieval e renascentista a Santa Maria Madalena teve a primazia dos terços franciscanos, reconhecendo na santa não a devassa mas a mulher apóstola dos apóstolos, corrigindo as hagiografias dos antigos doutores e escolásticos acerca dela – nibilominus Magdalenam meretricem fuisse calumniosum est – tendo-lhe dedicado páginas do maior brilhantismo historiográfico e teológico[39], dizendo ainda Anselmo Caetano Munhoz de Abreu (ob. cit.) em 1732: “Quando os Sacerdotes estiverem na presença das Senhoras mais ilustres hão-de estar assentados, e elas em pé, por eles serem Anjos e elas mulheres. Muito ilustre mulher era a Magdalena, por ser uma das mais nobres Senhoras da Corte de Hierusalém, e quando no sepulcro esteve na presença dos Anjos, e conversando com eles, ela esteve em pé e os Anjos assentados.”

Maria Madalena, a escusada se bem que adorada, incarnará o sentido do Feminino Sagrado que ungiu o Verbo Divino confirmando a sua realeza de Christus, malquista por uma Igreja mais patriarcal e menos matriarcal que leva a não esquecer o famoso Sínodo de Mácom no século VI (ano 585), aquando Maria foi finalmente reconhecida “Mãe de Deus” e a Mulher, por consequência, ganhou o direito efectivo “a ter alma”. As constantes correções e alterações sinodais e conciliais acabariam por retirar a assunção ou direcção da Ala Feminina da Igreja a Maria, consorte de Cristo Deus, Mater Dei desde logo Theotokos ou Christotókos – o “Verbo testemunho de Cristo” –, função que assume com a descida do Espírito Santo como Fogo, acto do Pentecostes. Ele que antes descera sobre o Pantocrator mergulhado na Água baptismal. Fogo e Água, ambos Baptismos – Sacramentos de Espírito Santo – cujo encontro ou fusão ir-se-á fazer pela consorte de Cristo Homem: Maria Madalena, “porta-voz” de Maria a Mãe, consequentemente, bem merecendo o título de Odighitria, “Aquela que indica o Caminho” às “mulheres de Jerusalém”, início do Marialis Cultus.

Maria Madalena

Poderá se objectar: como poderia ser Maria Madalena personagem tão distinta se não passava de uma prostituta que se arrependeu diante do Salvador, ungindo os seus pés com bálsamo e secando-os com os cabelos, portanto, uma mulher ordinária, vulgar? Ainda hoje se diz, na vox populi, “chorar como uma Madalena arrependida”…

Poderei opor: em nenhuma parte dos Evangelhos se escreve que Maria Madalena fosse prostituta. Isso ficou a dever-se a imprecisões das leituras de St.º Agostinho e S. Jerónimo – identificando Madalena como mulher abastada casada com um nobre distinto de Jerusalém a quem enganara para seguir Jesus, sem explicar em que consistira tal engano e quem era esse nobre, como comenta frei Isidoro de Galves (ob. cit.) – feitas por S. Gregório I, o Magno (c. 540 – 12.3.604), expostas na sua compilação dos Sete Pecados Capitais, partindo das oito tentações descritas pelo monge Euagrios Pontikos dois séculos antes. Foi ele e a Igreja Latina, celebrando-a a 22 de Julho, que a identificaram à pecadora anónima de S. Lucas (VII, 36:50) e a Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro. Um capítulo antes de falar de Madalena ou Magdala (cidade da Galileia), Lucas alude a uma mulher que ungiu a Jesus. No Evangelho de Marcos há uma unção parecida por parte de uma mulher cujo nome não se indica. Nem Lucas nem Marcos identificam explicitamente essa mulher como sendo Maria Madalena. Porém, Lucas diz tratar-se de uma “mulher caída”, de uma “pecadora”. Comentadores e exegetas posteriores supuseram que fosse Madalena, dado que, segundo parece, tendo saído dela “sete demónios” (no texto grego: “sete génios, sete forças”, algo assim como os sete atributos da Energia Criadora latente no Homem, que os cabalistas cristãos chamam Fogo Criador do Espírito Santo e os sábios hindus de Kundalini) só poderia ser uma pecadora. Baseando-se nisso, a mulher que unge a Jesus e a Madalena foram consideradas a mesma pessoa. Na realidade, é possível que a fossem. Se Maria Madalena tinha a ver com um culto pagão, marginal ao dos fariseus e saduceus da capital Jerusalém onde estava o grande Templo, possivelmente essénio já na época ostracizado, certamente por isso haveriam de convertê-la numa “pecadora” aos olhos não só de Lucas, mas também dos autores posteriores[40].

A verdade é que as crenças essénias andavam próximas das fenícias no tocante à astrolatria e, ao tempo de Jesus, os cananeus davam o nome da deusa fenícia Astarte às prostitutas e sobretudo às apóstatas e hereges, estas as mulheres contestadoras do ministério oficial exercido pelos levitas junto do povo. Recebiam o dito epíteto ou um outro por qual também se conhece Astarte: Astoreth, feminino de Astaroth, o “deus da perdição”, na realidade, o Deus da Inteligência, das “diáblicas interjeições mentais” que obrigam à Pureza e à Inteligência, ou seja, à posse efectiva da Gnose.

Sinais de saberes ocultados que, enfim, a igreja matriz de Santa Maria dos Anjos de Escalhão reserva como notável testemunho beirão da Igreja do Amor cujos Maiores, velados no anonimato e desvelados no testemunho monumental, um dia chamaram a Humanidade a um Novo Tempo de Espírito, ao regresso ao Cristianismo original e ao mais sublime da Palavra de Cristo: a Iluminação pela Sabedoria do Amor, havendo Amor na Sabedoria e Sabedoria na Palavra final.

NOTAS

[1] Luis Thayer Ojeda, La Prehistoria de España a través de los Mitos. Imprenta y Escuadernación Roma, Valparaíso, 1932.

[2] Raúl Proença, Guia de Portugal: Beira II – Beira Baixa e Beira Alta, p. 972. Edição Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Março de 1994.

[3] M. Gonçalves da Costa, História do Bispado e Cidade de Lamego – II. Idade Média: Paróquias e Conventos. Lamego, 1979.

[4] Pinharanda Gomes, História da Diocese da Guarda, p. 100. Editora Pax, Braga, 1981.

[5] Antero de Figueiredo (Coimbra, 28.11.1866 – Foz do Douro, 10.4.1953), Espanha: páginas galegas, leonesas, asturianas, vasconças e navarras, p. 309. Livrarias Ailland e Bertrand, Paris-Lisboa, 1923.

[6] Júlio António Borges, Escalhão – a terra e as gentes. Edição da Casa de Freguesia de Escalhão, Julho de 2003.

[7] Frei Bernardo da Costa, História da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo. Lisboa, 1771.

[8] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Edição do autor, Lisboa, 1997; edição Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, 2007; edição Madras Editora Ltda., São Paulo, 2011.

[9] Abílio Pires Lousada, A Estratégia Militar dos Templários em Portugale. In Revista de Administração Militar, N.º 4, Ano 1, 3.ª Série, Outubro-Dezembro de 2003.

[10] Diffiniçoens & Estatutos dos Cavalleyros e Freyres da Ordem de Nosso Senhor Jesu Christo, com a Historia da Origem & Princípio della. Lisboa Occidental: na Officina de Pascoal da Sylva, 1717.

[11] Quer dizer, o Bispado possui-as em conjunto como se fossem uma só.

[12] Comendas de S. Pedro de Marialva, S. João do Pinheiro, St.ª Maria do Azevo e S. Martinho de Arranhados.

[13] Ordem de Cristo: Lista de todas as Comendas que ha em estes Reynos de Portugal, da Ordem de Cristo, da apresentação de S. Magest. E do Duque de Bragança… (feita em Junho de 1615). Letra da época. Com outras peças. 1 vol. In fol. De 78 fls. Cod. 412, Biblioteca Nacional de Lisboa.

[14] Cf. Maria José Ferro Tavares, Os judeus na Beira Interior. In Guarda, história e cultura judaica. Guarda, 2000.

[15] Cristãos-Novos na Beira Interior. Edição Agência para a Promoção da Guarda, 2014.

[16] Cf. Amílcar Paulo, A Dispersão dos Sephardim. Judeus hispano-portugueses. Editora Nova Crítica, Porto, 1978.

[17] Pedro Arellano y Sada, Catálogo de la Exposición Bibliográfica del Concílio de Trento y Conferencias leídas durante la misma Exposición. Barcelona, 1947.

[18] Augusto Drago, Palavra de Deus, Sagrada Escritura. Dicionário Franciscano. Editora Vozes, Petrópolis, 1983.

[19] “Torre de Marfim” se chama a Maria na Ladainha Lauretana ou Ladainha da Santíssima Virgem, composta no final da Idade Média e aprovada pelo Papa Sisto V em 1587, destinada aos fiéis do santuário da Santa Casa de Loreto, Itália.

[20] Júlio Gil, As mais belas igrejas de Portugal, vol. I, p. 196. Editorial Verbo, Lisboa/São Paulo, 1988.

[21] José Martínez Gásquez y Ruben Florio, Antología del Latín Cristiano y Medieval – Introduccion y textos. Editorial de la Universidad Nacional del Sur, Argentina, Mayo 2006.

[22] Vitor Manuel Adrião, Guida de Milano Insolita e Segreta. Edizion Jonglez, Versailles, Maggio 2012.

[23] Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal. Lisboa Ocidental, 1732.

[24] Bíblia Sagrada, traduzida em português segundo a Vulgata Latina pelo padre António Pereira de Figueiredo. Depósito das Escrituras Sagradas, Lisboa, 1911.

[25] Bíblia de Jerusalém. Edições Paulinas, São Paulo, 1981.

[26] Cf. René Guénon, A Grande Tríade. Editora Pensamento, São Paulo, 1989.

[27] D. J. Furley, From Aristotle to Agustine, p. 29. Routledge, London, 1999.

[28] Hella Krause-Zimmer, Le Problème des deux enfants Jesus et sa trace dans l´Art. Editions Triades, Paris, 1989. Rudolf Steiner, Le mystère des deux enfants Jésus, conference 1909. Editions Antroposophiques Romandes, Neuchâtel, 1999.

[29] J. H. Burns, Histoire de la pensée politique médiéval. 350-1450. Édition Léviathan, Paris, 1993.

[30] Biblioteca de Nag Hammadi, três volumes. Editora Ésquilo, Lisboa, 2005.

[31] James M. Robinson, A Biblioteca de Nag Hammadi – A tradução completa das Escrituras Gnósticas. Madras Editora Ltda, São Paulo, 2006.

[32] As valências Jesus e Cristo mostram-se trocadas ou invertidas, talvez por tradução deficiente, como aliás se repara na última frase do texto contrariando o que antes fora dito, ou seja, dispondo Cristo Deus como superior a Jesus Homem, um para o Mistério do Espírito e outro para a Revelação da Carne.

[33] Ou seja, a cruz.

[34] Ou o seu rei legítimo descendente em linha varonil de David, ao contrário de Herodes Antipas (4 a. C. – 39 d. C.) que depusera ilegitimamente Arquelau usurpando o trono com o apoio de Roma, pelo que o Jesus humano, senhor do Poder Temporal, era efectivamente o ascendente efectivo à Coroa de Israel. – Cf. Bruce M. Metzger & Michael D. Coogan, Dicionário da Bíblia – As pessoas e os lugares, vol. 1. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2002.

[35] Andrew C. Itter, Esoteric Teaching in the Stromateis of Clemente of Alexandria (Supplements to Vigiliae Christianae). Brill, Leiden-Boston, 2009.

[36] Epítome Chronologico, Genealogico & Historico, dividido em quatro livros e composto pelo padre Antonio Maria Bonucci da Companhia de Jesu, missionário na Província do Brasil. Lisboa, 1706.

[37] Jean Huscenot, Os Doutores da Igreja. Editora Paulus, Lisboa, 1998.

[38] Santo Agostinho, Confissões; De Magistro. Nova Cultural, São Paulo, 1987.

[39] Historia de la vida de Sta. María Magdalena, dividida en quince capítulos. Compuesta en frances por un Religioso del Real Convento de S. Maximo del Orden de Predicadores, traducida ao castellano por el P. Fr. Isidoro de Galves, Capuchino de la Provincia de Andalucía, e ilustrada com varias notas del traductor. Madrid, en la Imprenta de Benito Cano, 1786.

[40] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum Novalis, Carcavelos, Maio de 2006.

 

 

 

 

 

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