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Sobre a “dimensão oculta” Vitor Manuel Adrião recua 400 anos e considera que a questão, posta hoje, começa em D. Sebastião.

P. – O que se pode entender, do ponto de vista histórico, por “Portugal na dimensão oculta”?

R. – Após a morte do malogrado rei D. Sebastião em Alcácer-Quibir, em 4 de Agosto de 1578, até então tendo sido um jovem sonhador apaixonado por coisas efémeras presumidas ocultas, a questão da Portugalidade Iniciática ou Oculta assumiu determinadas proporções por iniciativa de alguns mais cultos da sociedade erudita portuguesa e até espanhola, nesta onde já dominava a ideia do Messianismo, que assim encontrou naquela o seu Messias, ou seja, D. Sebastião que afinal era sobrinho do rei Filipe II de Espanha, mas aqui sendo o Sebastianismo algo realengo misturado ao santoral, de maneira a prefigurar simbolicamente uma realidade muitíssimo mais profunda que ultrapassa largamente a da míngua personagem do monarca impúbere desse nome.

Poderei ainda adiantar que o “Portugal dimensão oculta” consubstancia a análise, o retrato de Portugal na sua outra fácies, a fácies espiritual que foi realmente motivo de abordagem e reflexão pelo padre António Vieira, profeta do V Império, tal como fora por Luís de Camões, Fiel de Amor, dentre tanto outros nomes que chegam a recuar ao século IV d. C. onde brilhou a figura magistral do primeiro filósofo hispânico, Paulo Orósio de Braga.

Presentemente, dentro das Artes, das Letras, da História e da Filosofia e até mesmo dos conhecimentos herméticos, melhor dito, da tradicional Sabedoria Iniciática das Idades, apresentam-se vários personagens perfilados ou dimensionados na perspectiva oculta ou velada, não contada de Portugal, sobre quem reflectem e inclusive dão notícias das suas reflexões.

P. – Quer referir nomes?

R. – Por exemplo, Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes, Agostinho da Silva, António Sérgio, Pinharanda Gomes, Dalila Pereira da Costa, António Telmo, António Quadros, etc., dentre uma plêiade de excelentes autores que têm feito o Pensamento Português e o expandido, numa espécie de diáspora mental iluminada, pelas várias partes do Mundo, assim mantendo o sentido real de Portugalidade.

Há, com efeito, uma série extensa de pensadores dotados do crédito da Tradição, muitos deles igualmente creditados pela Academia e já despidos dos velhos e corruptores preconceitos intelectuais ditos “académicos”, os quais têm abordado o lado oculto de Portugal como bojo, como áxis de uma Cavalaria Espiritual, “Massenia”, portanto, irradiando à Europa e ao Mundo desde este mesmo “Porto-Graal”, conforme o dito inscrito por D. Afonso Henriques no sinal rodado das suas cartas de doação de Tomar e de Sintra à Ordem dos Templários, no século XII, então representada na pessoa do seu Mestre Provincial, D. Gualdim Pais.

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P. – Essa é a “dimensão oculta” de Portugal?…

R. – Lamento desiludir no descarte à-priori do pensamento emocional onírico pressuposto «new age» relativo ao nosso País, o Mundo e a Tradição Primordial, mas sim: essa é a maneira exacta por que se aborda a “dimensão oculta” de Portugal, o Portugal Espiritual, o Portugal da Mensagem, o Portugal da Parúsia ou o Advento.

P. – Em sua opinião, qual tem sido a acção desses pensadores em termos do “Portugal da Mensagem”?

R. – Ainda na sapa trabalhosa de descarte de equívocos nascidos de facilitismos imaginários saídos das lavras de fantasias desenfreadas, direi que hoje em dia, aparte de toda essa plêiade de pensadores renomeados que têm feito pela Academia, por exemplo, um meio de divulgação expansiva da Sabedoria Tradicional Portuguesa ou Lusofia, neologismo meu, também tem surgido uma série de arremedos feitos de vazios “historicistas” e enchimentos “psiquistas” por parte de outras pessoas, agregadas ou singulares, para todo o efeito, avulsas, mas desde já destacando nesta confissão o respeito devido a toda a criatura humana, posto o pensamento humano ser livre e dever-se respeitar todas as pessoas como é do mais elementar civismo. Ainda assim e nesta classe onde a quantidade é superior à qualidade, reconheço igualmente o aparecimento no território do Pensamento Português, Formula Mens Portucalense, de uma série de personagens mais ou menos carismáticas que se têm dado ao trabalho fácil de reproduzir as obras dos autores consignados, quando não o plágio in littera, nisto particularmente para com a minha obra, e a partir daí lançarem-se com toda a imprudência nas mais extraordinárias especulações, umas mais fantásticas que as outras, contudo nenhuma delas conferindo com a realidade tanto imediata como subjectiva, isto apesar de tal quantidade de pessoas merecer-nos muito carinho e respeito.

P. – Se as qualifica como especulações fantásticas, como explica o respeito e o carinho?

R. – Respeito, porque são seres humanos, logo, são livres de utilizarem o seu livre-arbítrio como entenderem, e nisto, afinal de contas, vivemos num sistema democrático, politicamente falando. Carinho, por se interessarem pela Portugalidade. Quanto às ideologias doutrinárias ou paradoutrinárias de “pensamento único”, discriminatório de outras formas de pensar que contrariem aquele, da sua adopção e militância, sobretudo entre os mais jovens que são sempre imprevisíveis e inconstantes por ainda estarem em formação psicomental, isso inibo-me comentar restando-me a tolerância do ser humano tal como ele é e só, ademais sendo o ser humano como é, por igual é a mente humana: infinitamente pródiga capaz de criar os mais impensáveis paradoxos, do género “o homem é uma árvore, logo, uma árvore é um ser cósmico”. Mas o homem não é uma planta, é uma criatura racional, penso eu, porque acaso poderei estar equivocado…

P. – Publicou recentemente a obra A Ordem de Mariz, Portugal e o Futuro. O que é a Ordem de Mariz?

R. – Ordem de Mariz é o nome de uma Confraria Oculta verdadeiramente supra-secreta, igualmente supra-iniciática, cuja acção imediata de carácter público hoje está cerrada ao século ou o ciclo, e a qual foi fundada em São Lourenço de Ansiães junto do Rio Tua, em Trás-os-Montes, reinando Afonso I de Portugal, portanto, constituída nos primórdios da Nação que entretanto já tinha fronteiras preestabelecidas.

Ela é considerada, pelos teúrgicos e teósofos adiantados da antiga Sociedade Teosófica Brasileira, como sendo a 5.ª Rama das 7 que constituem a Grande Loja Branca dos Mestres Espirituais do Mundo. Estes estão dispostos estrategicamente, com ordem e regras, as “Regras do Pramantha” ou Ciclo de Manifestação Universal, nos cinco continentes, apesar de encobertos da vã curiosidade profana que é sempre de ímpetos mais destrutivos que construtivos, e nisto estou falando de homens e mulheres de carne, sangue e ossos, portanto, de coisa concreta e não fantasmagórica, dizia, humanamente a Ordem de Mariz é de estrutura maçónica, e espiritualmente de vocação templária. Pelo que sei, congrega em si a pura essência ou quintessência (“o espírito que vivifica oculto pela letra que mata”) das três religiões tradicionais do Livro: a judaica, a cristã e a islâmica. Sendo assim, pode considerar-se a Ordem de Mariz como a própria quintessência dessas correntes tradicionais na Península Ibérica, especificamente em Portugal que se formou sob a sua influência directa, apesar de ser secreta ou fechada, por vezes só discreta se algum trabalho que devesse realizar implicasse uma aparição semi-pública.

P. – Quem esteve na origem da constituição da Ordem de Mariz?

R. – A constituição da Ordem de Mariz teve como verdadeira “pedra de Midas” o melhor que o Género Humano na ocasião tinha para oferecer: um escol privilegiado de homens e mulheres cujo valor interior, espiritual, revelado como cultura e carácter, tão elevado e adiantado era para o tempo que se torna facto passível de só puder compreender-se tamanha desenvoltura à luz da Lei da Reencarnação. Consequentemente, eram, e são, pessoas que progrediram ao longo do vasto corolário das vidas sucessivas até alcançarem o patamar supremo caracterizado pelo despertar da Consciência Espiritual, tanto valendo por Iluminação Interior, indo dispô-las na posição privilegiada de vanguarda e guia do mesmo Género Humano.

P. – Há figuras históricas a integrá-la?

R. – Dando crédito à Tradição Iniciática pertinente à Raça dos Lusos, houveram vários nomes históricos integrantes dessa Congregação de Eleitos, ou a Elite como os Principais ou Príncipes da Humanidade. Por exemplo, revelo pela primeira vez publicamente, sabe-se que Afonso Henriques era na época o Grão-Chefe da Ordem de Mariz, de que também era partícipe Egas Moniz, seu aio, tutor, padrinho, paraninfo ou pai espiritual. Este último aparece mais tarde como D. Dinis ao lado de uma Rainha Santa (Ysibel ou Isabel, a Bela Ísis como alto portento Mariz), e depois como o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira, posteriormente reencarnando como o Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves, já no século XIX-XX, que com o nome secreto de Malachim ou Malaquias assumiria os destinos da Ordem Soberana como seu Grão-Chefe, cuja regência ficou marcada por tê-la encerrado definitivamente ao século em 20 de Novembro de 1944, através de um Ritual de elevada transcendência chamado Jina-Masdhar. Adianto ainda que o Infante Henrique de Sagres corporizou para essa Milícia Secreta uma espécie de Divindade incarnada, portanto, correlacionado ao Terceiro Aspecto Deus Espírito Santo, o qual também está profundamente ligado à pessoa do Professor Henrique José de Souza, brasileiro de ascendência lusitana que fundou a Sociedade Teosófica Brasileira em 8 de Maio de 1928.

P. – Quer explicitar melhor essa “ligação” do Infante Henrique de Sagres com Henrique José de Souza?

R. – Para isso tenho a dizer que o Barão Henrique da Silva Neves não era a reencarnação do Infante Henrique de Sagres, mas a Consciência Superior (Malaquias) que vibrava por processo de Tulkuísmo, direi assim, em uma das Colunas Vivas daquele e que se chamou Pedro Álvares Cabral. O Infante Henrique de Sagres (I ou JHS, pois o I vale por J no alfabeto antigo) aparece como El Rike, “o Sol Esplendoroso de El Rike”, ou seja, o Segundo Trono ou Logos na Terra tomando a feição de Terceiro… Com isso quero dizer que o Infante Henrique de Sagres, a sua Essência Imortal ou Partícula Divina promanada do Segundo ao Terceiro Logos, mais tarde se manifestaria como Henrique José de Souza, conforme o próprio revela em uma sua obra reservada de nome Diário Estranho. Já Cristóvão Colombo, na época, era a outra Coluna Viva do Infante Henrique de Borgonha, dito de Sagres.

Esses Seres Representativos são a “cabeça de Tibes” de outros mais que constituem a supradita 5.ª Rama da Grande Fraternidade Branca.

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P. – Com que nomes? Essas afirmações não podem também ser passíveis de especulações?

R. – Primeiro que tudo: trato aqui de abordar a História Oculta ou Iniciática e não tanto os dados cronológicos conhecidos da vulgar historiografia, mesmo não os descartando. Em seguida, esses Seres têm nomes orientais e têm nomes ocidentais, em conformidade às suas funções e aos lugares onde estão ou estiveram manifestados no Mundo, nisto sempre em conformidade à marcha precessional da civilização do Oriente ao Ocidente, não deixando de ficar assinalados na memória dos povos pelos nomes mais marcantes que possuíram nas vidas em que desempenharam as suas missões, tanto noutros continentes como neste. Seja como for, afirmo serem todos eles completamente alheios, tanto nas suas vidas como nas suas missões, ao que hoje muitos especulam embrenhados na selva densa das especulações fantásticas ou fantasistas, portanto, absolutamente irreais a todos os níveis, tanto físico, como emocional e mental ou espiritual. Ademais, repito, o que seja realmente lidar, directa ou indirectamente, com essa Ordem Soberana, não passa algo fantasmagórico ou alienígena, muito pelo contrário, é algo bastante concreto e objectivo, mas sempre passível de Iniciação verdadeira. Os seus preclaros Membros, reservados na maior discrição, ainda assim têm as suas casas e comendas sobre a Terra. São pessoas como nós, só que diferentes. Foi por causa de toda essa confusão que por aí campeia, desde que comecei a falar publicamente dos Marizes a partir de 1985 pelo jornal matutino “Correio da Manhã”, com o fito de angariar membros para a Comunidade Teúrgica Portuguesa, e não, de maneira alguma, dar fermento a gurus nascidos de matutinos, que segui os conselhos de alguns personagens ligados directamente a essa Ordem sibilina, críptica, em escrever e editar, primeiro do meu bolso, uma monografia sobre ela, a qual depois foi revista, aumentada e dada à estampa como livro pela Editora Novalis-Angelorum, A Ordem de Mariz, Portugal e o Futuro.

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Enfim, a Ordem de Mariz vem a ser lídima expressão da própria Maria ou Moriah, a Excelsa Mãe Divina corporalmente identificada ao Terceiro Aspecto de Deus Espírito Santo, a Ave rara na Terra (Avis raris in Terris…), pomo da devoção de todo o povo português, povo mariano e mareante dotado de alma franciscana lampejada por algum ideal messiânico, como a daquele Frei Henrique Soares, de Coimbra, que nas areias douradas de Vera Cruz, em Quinhentos, abriu o ciclo sagrado da Brasilidade.

P. – Existem outras Ordens Iniciáticas Secretas ligadas à Grande Fraternidade Branca?

R. – Sim, porque no todo existem sete Ramas que compõem a Excelsa Loja Branca. Por exemplo, a Rosacruz dos Andróginos, a Ordem Secreta de Malta, a Maçonaria dos Traixus-Marutas, etc., e de todas elas, repito, a de Mariz é a Quinta Rama.

Neste particular complexo dinâmico vasto e supra-secreto observo, hoje em dia, muitas pessoas com o carisma de líderes mas totalmente ignorantes da realidade profunda e movediça das Ordens Iniciáticas Secretas lançarem-se, aí sim e abertamente, nas especulações oníricas mais desmedidas ou, se quiser, descabidas…

P. – De que tipo?

R. – Do tipo daquela «Lys» pressuposta pelo senhor José Hipólito Trigueirinho Netto, antigo cineasta e actual guru do seu Centro Espiritual Figueira, na cidade de Carmo da Cachoeira no Estado de Minas Gerais, Brasil, país onde conheço os seus movimentos com extensões ambicionadas a Portugal, que também as conheço. Isto para não falar no senhor Rodrigo Romo, chileno, antigo químico metalúrgico e hoje uma das mais aclamadas vozes da gurulatria «new age». Se quiser ainda, pode incluir no rol infeliz ao senhor Samael Aun Weor, aliás, pseudónimo do colombiano Victor Manuel Gómez Rodríguez, com as suas confusões pseudo-gnósticas descambando para o sexualismo mais necromante, com respigos aqui e além de informações da Sociedade Teosófica Brasileira que ele recolheu das edições públicas da mesma. Esses e alguns mais distintos importam para Portugal a bagagem das «novidades» de impressões cinematográficas transformadas em pseudo-ocultismo, mesmo que não passem de simples rasurados de má cinematografia fantástica. O que as pessoas dessa natureza e seus afins pensam ser a espiritualidade, em boa verdade não passa de ficcionismo fantástico saído do plágio e deturpo de autores e obras credíveis, a ponto de o senhor Rodrigo Romo, só para dar um exemplo, ter aplicado a sigla S.G.S.M. como designando uma “nave espacial que transpõe portais cósmicos pelo quantum estelar” (!!!), quando na realidade é tão só a sigla que a S.T.B. utiliza desde há larguíssimos anos para assinalar o Sistema Geográfico Sul-Mineiro. Que loucura! Ademais, fixe-se bem, o cinema não é o Ocultismo e a fantasia não é a Ciência. Isto é fácil de entender, mas parece difícil de aceitar. Além disso, não se vende nem se compra a espiritualidade, por ser algo que se conquista por esforço próprio, tampouco é como se quer que seja: ela é como é!

As tais pessoas que falam de «Lys» como a “cidade interna, subterrânea no espaço português”, por o senhor Trigueirinho ter ouvido de antigos membros da S.T.B. esse termo por menos de metade no seu significado real, posso garantir-lhe que ignoram completamente «Lys» nadíssima de nada ter a ver com o nome da cidade subterrânea de Sintra, o qual aparenta-se mas não é, e tampouco tem a ver com Leiria e o seu Rio Lis, como também é apontado por esse autor. Ainda sobre a cidade subterrânea de Sintra que é o quinto dos sete Montes Santos do Mundo, inclusive reservando no seu interior um Centro Vital ou Chakra Planetário que é o único na Europa, por um lado ela estende-se mais além do Cabo Espichel e da Serra da Arrábida, chegando a Sagres, e por outro lado vai além da Nazaré tocando em Santiago de Compostela e no Finisterra, e ainda para lá das Astúrias, Aragão e Catalunha adentrando os Pirinéus, por uma parte, e por outra indo além das Canárias chegando próximo do arquipélago de Cabo Verde, após abarcar as ilhas dos Açores e da Madeira. Isto porque, revela a Tradição Iniciática, as cidades jinas ou subterrâneas são muito maiores que as cidades que as representam à superfície.

P. – Aparentemente, os vocábulos Lys e Sintra parecem não ter semelhanças…

R. – Mas as têm no sentido iniciático. Isto porque Lis como flor é a signa esotérica de L.isboa Y S.intra, indicadora da realeza suprema do Governo Oculto do Mundo aí expressado pela Soberana Ordem de Mariz, motivo porque a Flor-de-Lis é o emblema de Agharta como símbolo da Consciência Universal. Signa do Segundo Trono na Terra vem a ser a de Melkitsedek, o Rei do Mundo, que como Planetário da Ronda é o que está mais próximo do Logos Planetário, pois está para este como a nossa Personalidade está para a Individualidade, esta o “actor” por detrás da “máscara” onde, no palco do Teatro da Vida, desempenha o papel de dirigente da Evolução geral.

P. – Referiu que Trigueirinho, autor firmado na literatura esotérica, transformou impressões cinematográficas em ocultismo. Porquê?

R. – Não só ele mas outros também, como já disse, e isto, reitero, sem pretender ofender pessoalmente seja a quem for, pois dirijo-me às ideias e não às pessoas neste trabalho doloroso de sapa, talvez infrutífero, de separar a verdade da mentira, o real do ilusório. Quanto ao “porquê”, é porque sem um estudo atento, criterioso da Tradição Iniciática das Idades dentro de uma igualmente criteriosa Escola Iniciática, com regras e princípios de ensino, etc., inevitavelmente acaba-se perdendo em chavões emocionais à mercê de improvisos os mais extraordinários, completamente destituídos de realidade. Esta entrevista é daquelas que me obriga a fulanizar, coisa que detesto e tampouco ocupa o meu interesse, vendo-me forçado a voltar à questão do senhor Trigueirinho: muito do que ele revela, aparte o seu «vocabulário esotérico» arrancado às profundezas da fantasia, tão-só ouviu de membros nossos da antiga Sociedade Teosófica Brasileira (hoje com o nome Sociedade Brasileira de Eubiose) dos Departamentos do Rio de Janeiro, de São Paulo e até de São Lourenço e Belo Horizonte, pois vivia próximo de Baependi, no Sul de Minas Gerais. Fazendo agora recurso da memória, julgo que esse senhor fez o nosso Curso Vestibular, o Grau Peregrino e não terá chegado a metade do Grau Manu, os quais são transmitidos por apostilas e aulas orais. Adquiriu realmente a «iluminação», direi assim, porque conforme as suas palavras textuais confessadas em antigo número da revista brasileira O Planeta, nessa condição se sentiu após ter lido nos anos 80 do século findado um livro editado em Portugal, a instâncias de teósofos e eubiotas portugueses, em 1975 pela Editorial Minerva. Esse livro fazia parte de uma colecção chamada Cavalo Branco e tinha o título A Terra Oca, de Raymond Bernard, jornalista norte-americano com residência em Santa Catarina, no Sul do Brasil. No final dessa obra aparece um interessante e extenso apêndice, onde se fala da existência junta de intraterrestres e de extraterrestres, da autoria de um coevo do Professor Henrique José de Souza que assina Anónimo de Sintra

P. – Quem era esse anónimo?

R. – Não era eu! Tratava-se de personagem que na época representava o Movimento de Eubiose em Portugal, sediado no Algueirão antes de se trasladar para Sintra. Nesse livro, sobretudo no seu apêndice, constam muitos elementos que se vão descobrir depois na filosofia encetada pelo senhor Trigueirinho, principalmente a partir de 1987 quando fundou o seu Centro no Sul de Minas Gerais. Foi assim que nasceu o seu «ocultismo» que fixou escola para perturbação de muitos brasileiros e de alguns portugueses seus e meus conhecidos.

P. – Porque só refere isso agora?

R. – Muito pelo contrário, há muitos anos que venho dizendo isso repetidamente, eu e todos os que verdadeiramente postulam a Sabedoria Iniciática das Idades, independentemente dos nomes das Escolas de Tradição a que estejamos ligados efectivamente. E torno a repetir aqui para que o leitorado geral não caia e saia da confusão de tomar “a nuvem por Juno”… Tal como há ordem preestabelecida no Universo, reflectida no Logos Planetário como expressão do Logos Solar, assim como igualmente o Homem é a expressão do Logos Planetário, também há desordem estabelecida, e neste particular um “ocultismo selvagem”, se é que lhe posso chamar ocultismo, porque afinal não tem ordem alguma, com a agravante de recusar qualquer ordem alegando ser coisa “institucional” autêntico impecilho à liberdade individual e colectiva, mas deveria dizer antes: a ordem é impecilha do libertinismo onírico, do vogar sem sentido ao sabor da dispersão dos sentidos, ficando-se pelas emoções fortes, as novidades fantásticas e a auto-suficiência que a indisciplina, a irreflexão e a ignorância impõem sempre.

P. – E a Ordem de Mariz? Qual é o seu trabalho em Portugal?

R. – Tanto quanto sei, a Ordem de Mariz trabalhou sobre o solo de Portugal e trabalha no escrínio da Portugalidade, e como sempre fê-lo através de pessoas previamente selecionadas pelos seus próprios valores reais, algumas delas, raras, raríssimas, conscientes da influência directa mental exercida nelas mas adaptada às suas personalidades e vocações naturais, e das quais já saíram grandes obras (literárias, musicais, pictóricas, etc.) que engrandecem a Humanidade. Lembro agora o professor Agostinho da Silva, assumido arauto do Menino do Futuro, que tanto pode ser um Movimento quanto o Dirigente do mesmo, logo, ambos como coisa nova, donde o sentido de Menino.

P. – Concretamente, refere-se a quem e a quê?

R. – Ao prenúncio de uma Idade Nova. A Idade do Espírito Santo. A Idade de Maitreya, o Cristo Universal, aquele que é o Supremo Instrutor da Grande Hierarquia Branca, o “Coração Místico” de Agharta. Agharta como o Lugar da Bem-Aventurança Suprema, o Paraíso Terreal perdido para o homem comum d´hoje, o Éden ou Gan-Éden, e por estar oculto, vedado ou velado não significa que seja algo fantasmagórico, não, é algo bem concreto mas a que raríssimos hoje em dia têm acesso, tal o estado poluto em que se arrasta a condição humana. Com isso não pretendo dizer estar incluindo no número dos que fazem excepção, mas também não quero desdizer. Mantenho o enigma ou mistério, como se quiser, e que a minha vida e obra falem por mim.

DSCI0407 - Cópia

P. – Quais foram as bases de investigação que serviram de apoio A Ordem de Mariz, Portugal e o Futuro?

R. – Escrevi o livro com “cabeça, tronco e membros” baseado quer nos ensinamentos reservados, quer nos publicados do Professor Henrique José de Souza, que foi a primeira pessoa no mundo a falar abertamente sobre a Ordem de Mariz, muito especialmente nos seus Livros-Revelações constituídos por milhares de páginas as quais, infelizmente, pelos motivos já sobejamente apontados, a Humanidade comum tão cedo não conhecerá, excepto os Eleitos (por seus próprios esforços) da Obra do Eterno na Face da Terra em que, neste particular, está empenhada a Comunidade Teúrgica Portuguesa, quando alcançam o nível chamado Grau Interno ou de Integração.

P. – Como é que os não Eleitos poderão realmente conhecer a estrutura da Ordem de Mariz?

R. – Creio que o conhecimento teórico geral, mais ou menos aproximado da estrutura orgânica da Grande Loja Branca, particularmente da sua expressão “lusa”, já está oferecido ao público geral neste livro que escrevi (A Ordem de Mariz, Portugal e o Futuro), cujo objectivo foi e é, confesso, “separar o trigo do joio”, o irreal do real, a mentira da verdade, o obscurantismo do conhecimento. A obra foi construída de maneira a ficar fechada sobre si mesma, pois fora do contexto em que a mesma inscreve a Ordem esta só poderá ser exposta de maneira fantasista pelo delírio de alguns. O próprio livro defende-se do plágio, coisa useira e vezeira nos dias que correm, e quem o plagiar terá que saber o sentido real do que plagiou… e esse eu não o dei. Consequentemente, qualquer leitor, por muito pouco preparado que esteja, percebe que nele não há espaço para extrapolação, e quem o fizer arrisca-se à interpelação. Tudo isto porque foi uma grande responsabilidade que assumi ao pronunciar-me diante do grande público pela primeira vez e como primeiro em 1985, sobre tema tão sagrado e secreto, mas fazendo-o não o fiz de “olhos vendados”!… Portanto, o conhecimento aproximado do que foi ou seja a Ordem de Mariz é, afinal de contas, o conhecimento aproximado do que foi ou seja a estrutura da Grande Loja Branca. É desta que partem as novas facetas do Conhecimento Humano que investigadores notáveis, nos últimos anos, têm propagado desde as cátedras académicas, na sua maioria esmagadora inspirados indirectamente sem que importe não possuírem consciência imediata do facto, pois o que importa é terem a cabeça no lugar, assumindo-se como são e não como pretendem que sejam, tanto mais que um académico de número, tal como um ocultista verdadeiro, não pode ou não deve vogar ao sabor da quimera e fantasia.

P. – Em sua opinião, como deve agir então um ocultista verdadeiro?

R. – Sendo sincero ante o geral e sendo dedicado ante o particular. Servir e não servir-se. Usando as palavras de Fernando Pessoa, há três coisas com que o ocultista verdadeiro não brinca: com Deus, com a Morte e com a Loucura. Realmente, o ocultista verdadeiro funciona numa via mística assaz estreita tal qual o “fio de navalha”, onde a loucura e a morte estão sempre presente e só não o atingirão enquanto for sincero para consigo mesmo e o seu próximo, não pretendendo ser mais do que é realmente, logo, estando em conformidade com a sua Consciência que é Deus em si, é a Lei Eterna em si determinando os seus ritmos físicos e espirituais. Sair fora da Lei, de Deus, é ir cair num lado e outro do caminho estreito: cai-se na valeta da loucura e logo resvala-se para o outro lado, a morte inglória. O ocultista verdadeiro que desatine e se afaste da Lei do Eterno, afogando a sua Consciência na fantasia e na quimera, por naturalmente ter maior noção que o homem vulgar do esquema geral da Evolução, contrai um karma ou dividendo consciencial, como Lei da acção x desencadeando igual reacção x, muito maior que o daquele. É, afinal, como dizia Jesus o Cristo: os que erram mas não sabem, pagam; os que sabem e erram pagam três, quatro, cinco vezes mais.

P. – Mencionou a Comunidade Teúrgica Portuguesa. Qual é a sua relação com a Ordem de Mariz?

R. – A Comunidade Teúrgica Portuguesa, por natureza e vocação desde a primeira hora, expressa um vínculo muito estreito à Tradição Iniciática Portuguesa e com isso à Ordem de Mariz, seja fisicamente, seja sobretudo espiritualmente, por a mesma ser a Mãe Soberana que assiste ao Pensamento e Destino da Raça dos Lusos ou “Filhos da Luz”, nome também valendo pelo sânscrito Assuras, “Filhos do Hálito Divino”. Tal como acontece nas demais Ordens Iniciáticas Secretas de fundação Jiva ou Humana mas de condição Jina ou Sobre-humana, aparece o número cabalístico de 111 Adeptos Independentes na composição da Ordem de Mariz, Marizin, Marisin, Maridj, Al-Massiah ou Messiah, actuando como emissores da Tradição Primordial sob o duplo aspecto de Advento e Avatara, afinal, sendo também as principais valências da Comunidade Teúrgica Portuguesa, mas assumidas no seu último e verdadeiro significado.

P. – Basta ser português para se estar inserido na tão falada Missão Oculta de Portugal?

R. – De modo nenhum, excepto participar do Karma da Raça onde um e todos têm o seu quinhão como karma pessoal inscrito naquele. É necessário algo mais, e o mais é o seguinte: o de estar mandatado ou credenciado pelos Maiores da Raça ao desempenho de determinado trabalho importante junto da mesma. Se tiver essa incumbência, então logicamente estará inserido nos quadros de quantos estão activos na realização da Missão Oculta de Portugal. Isto vale para todos os sectores da sociedade humana: religiosos, científicos, filosóficos, artísticos, humanitários, políticos, económicos, etc. Fora isso, se afinal todos estivessem inseridos na tão falada Missão Oculta de Portugal, então todos teriam uma missão importante a cumprir, e a observação mais elementar diz que assim não é: a missão importante de cada um tem a ver consigo mesmo, a de transformar as suas imperfeições em maiores perfeições humanas, ou como diriam os cristãos, transformar os pecados em virtudes, ou no dizer dos hindus, transformar as nidhanas em skandhas, ou ainda, transformar o Karma em Dharma ou Dever realizado.

P. – Como historiador e porta-voz da Comunidade Teúrgica Portuguesa, que importância atribuiu à organização do Fórum “Portugal na Dimensão Oculta”?

R. – Todas as iniciativas a favor da Portugalidade na sua valência de diáspora espiritual que ainda não se cumpriu inteiramente, são muito válidas. Neste país onde se vive a lamuriar de que “Portugal é Passado e já deu o que tinha a dar”, coisa própria da natureza fatalista do pisciano que é todo o português, é excelente de grande positividade toda a iniciativa destinada a apontar a fácies oculta de Portugal, porque essa fácies é a única verdadeira. Ela é a do Portugal Espiritual, o Portugal do Sonho trazendo em seu bojo a esperança num Futuro melhor. E se hoje é sonho, utopia mas não quimera, isso não significa de modo algum que amanhã não seja uma realidade, pois todos os dias raia um dia novo cada qual precipitando acontecimentos impensáveis que vão se sucedendo em catadupa até que, por certo, dia virá trazendo a solução do maior problema que aflige um e todos: o da Felicidade Humana.

De modo que foi muito boa e positiva a realização desse evento, sobretudo sabendo que as pessoas que acorrem a eventos do género – como aquele meio milhar de presentes – fazem-no por estarem procurando algo, numa busca necessária à satisfação inexplicável de alguma coisa que, absolutamente, não é exterior… por certo a resposta certeira ao porque da sua existência, do seu futuro e do terem nascido em Portugal. De maneira que todas as boas sementes lançadas em bom terreno são válidas. Posso até rematar com a lapidar frase profética de Sintra: “Quem nasce em Portugal é por missão ou castigo”. Pois se nasça de ora avante em Portugal só por missão sem mais castigo, porque a Era de Promissão, a Era de Aquário já começou, e esta é a Idade do Espírito Santo.

Mandala Circunscrita

NOTA DE V.M.A – Canopeia ou Canopo é o nome da estrela de primeira grandeza da constelação Argo ou Arga (de que a Serra de Arga herda o nome) com o significado oculto de “Navio – Arca de Oiro”, a qual faz parte do primeiro dos três Zodíacos do Empório celeste e que tem dez signos correspondentes ao Mundo Divino, logo, ao Primeiro Logos, o Pai, cujo reflexo cósmico é a constelação Orion, precisamente com o significado oculto de “Espírito de Deus”. O termo canopo provém do latim canõpu e do grego kánõbus e kánopos. Associa-se ao vaso canópico ou funerário, destinado a encerrar algo que deixou de viver ou tão-só de exercer funções externamente, tal qual a estrela Canopo está encerrada na constelação Arga. E encerrada de maneira discriminada e predeterminada que leva o etimólogo canópico a acercar-se do sentido de canónico. Sendo o oitavo dos dez signos do primeiro Zodíaco, com isso não deixa de associar-se ao sentido de Tabernáculo de Deus, a Arca da Aliança do Divino com o Humano, como seja a Oitava das Sete Cidades de Agharta: Shamballah, a Mansão do Amanhecer.

 

 

 

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