Templários, os Guardiões da “Terra Santa” – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Jul 30 2015 

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Com este tema da Ordem do Templo considero ser tempo de ir além da historiografia e da cronologia apresentando-se sempre falíveis ante os novos elementos entretanto vindos à luz numa constância permanente quase por regra desdizendo quanto se dissera e escrevera antes, não raro com convicção ferrenha. Adentrarei, pois, o plano do Sagrado, do Iniciático, sim, mas obviamente sem menosprezar o fundamental da História clássica, indo em demanda do entendimento do que seja o Arcanum Secretis Templi sobre o qual tanto se tem dito e escrito por regra ao sabor das tendências pessoais, por vezes não faltando e fartando os equívocos, quiçá por falta de contextualização histórica e religiosa da época de tais acontecimentos.

Sim, dentro das minhas humildes possibilidades irei tentar um esclarecer um pouco sobre o que seria o esoterismo eventualmente postulado e exercido no escrínio fechado da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão (Pauperes Commilitonum Christi Templique Salomonici), igualmente conhecida por Cavaleiros Pobres de Cristo e da Santíssima Trindade (Pauperes Commilitonum Christi Santaeque Trinitatis), esoterismo esse à primeira vista estando em dicotomia conflitual com o credo universalmente aceite católico apostólico romano, e em contradição por a Ordem do Templo estar sob a chancela papal e inscrever-se na fidelidade à catequese e ao rito romano. Porém, não se deve ignorar que a noção de profissão de Fé pode ir da mais elementar ou simples à mais aprofundada ou esclarecida, e nisto poderá estar o entendimento esotérico Templário postulado por alguns da Milícia.

Ademais, a profissão de fé de um saber esotérico ou reservado a alguns raros está inscrita no próprio Louvor da Nova Milícia do Templo por São Bernardo, quando fala “dos homens perfeitos e dos homens imperfeitos”, dos “eleitos” que incluem-se no particípio da “Sabedoria Divina”, e dos seculares numerosos participando do “conhecimento mundano” com recusa a haver mais! Ora esses dois estados são bem os do Iniciado ou Templário e do “templista” profano, isto é, do que “está fora do Templo” (filologicamente, de pro, “antes, adiante, fora”, e fanum, “templo”, quer dizer, o “não-iniciado”, o que se posta diante do Templo e não tem entrada), ou seja, dos Mistérios contidos no mesmo. Aqueles fazem da Jerusalém Terrestre o modelo e partida para a Jerusalém Celeste; estes fazem da Jerusalém Terrestre o protótipo e só chegada. Os primeiros sabem o Mistério da Sabedoria de Deus (Gnose) e conhecem a teologia pública da Catequese (Credo); os segundos conhecem a teologia pública da Catequese mas desconhecem o Mistério da Gnose. Uns têm Fé e Saber, outros têm credo e crença. E tal diferença é tudo. É esta a razão da Igreja ser tanto clausural (secreta, afim a São João) quanto claustral (pública, afim a São Pedro), hoje toda ela claustral e quase nada, nada mesmo, clausural. Ainda assim, há uma terceira vertente eclesial como intermediária entre o silêncio monástico de João e a voz catequista de Pedro: a epistolar e votiva de Paulo. É assunto a quem voltarei num momento próximo.

Tudo isso, ainda, encontrando justificativa primaz na palavra do próprio Senhor conforme a Escritura Nova: “A vós é dado conhecer o Reino dos Céus, mas a eles não lhes é dado. Por isso lhes falo em parábolas, porque eles, vendo, não vêem, e ouvindo, não ouvem nem compreendem.” – S. Mateus 13:11, 13. “E sem parábola nunca lhes falava, porém tudo declarava em particular aos seus discípulos.” – S. Marcos 4: 34. “Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras.” – S. Lucas 24: 45.

Informa a Tradição Iniciática, retida em livros discretos ou secretos ao comum, que a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão veio a constituir-se em seu escrínio mais fechado, oculto ou hermético, como verdadeira Custódia do Santo Graal e, herdeira assumida das tradições Celta e Cátara, tinha esse Saint Vaisel, em língua provençal, como o Farol Supremo guia das almas humanas e a expressão mais perfeita da Sabedoria do Espírito Santo tipomorfizado em Maria, a Mãe Divina, esta que os hindus e budistas chamam Jagat-Ambâ, a Rainha do Mundo, cuja forma física é a Natureza inteira e a Alma o Éter, Akasha ou Mar da Vida sobre o qual paira como Espírito na forma venusta de Estrela (Stella Maris).

São Bernardo, o “Doutor Melífluo”, no seu louvor à Virgem Maria inserto na sua Vitam Mystica, a Ela se dirige: In periculus, in angustiis, in rebus dubiis, Mariam Maris Stella cogita, Mariam invoca (“Nos perigos, nas angústias ou dúvidas, recorre a Maria, Estrela do Mar, invoca Maria”). E na sua Homília II sobre a Virgini Mariam, esclarece: “Maria significa Estrela do Mar e é estrela radiante, a mais brilhante e formosa. É correcto compará-la com uma estrela, pois como todo o astro irradia luz sem se destruir, também a Virgem deu à luz sem lesar ou destruir a sua virgindade. Se se levantam os ventos das tentações, se te vês arrastado contra os rochedos das tribulações e abatimentos, olha a Estrela, invoca Maria. Se és batido pelas ondas da soberba, da ambição, da murmuração ou da inveja, olha a Estrela, invoca Maria. Se as vagas alterosas da avareza e da sedução carnal sacodem com fúria a barca do teu espírito, volta os olhos para Maria. Se A segues, não te desviarás; se recorres a Ela não desesperarás; se A consultas não cairás no erro; se Ela te sustenta e segura não cairás nem te fatigarás. Não temas, se Ela te protege; se te deixares apaixonar por Ela, não te cansarás; com os seus favores e ajudas alcançarás o fim e chegarás a bom porto. Desta maneira, tu mesmo poderás experimentar com quanta razão diz o evangelista: e a Virgem chamava-se Maria”[1].

A Rainha do Mundo (Chakravartine), como contraparte espiritual de Melki-Tsedek, o Rei do Mundo (Chakravartini), pode ser vista exposta, em bela imagem gótica do século XIII, no Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, na Nazaré, levando o nome “A Virgem em Majestade”.

Seja o Graal Arca, Taça, Pedra, Tábua ou Livro, ele não deixa de fazer a trajectória da Evolução Humana, conhecida nos anais iniciáticos como Itinerário de Io. Apareceu na Inglaterra como a famosa Lia Faill, a “Pedra do Destino” na língua gaélica, um dos mais preciosos tesouros da Grã-Bretanha, sendo também denominada de “Pedra da Coroação”, servindo de assento ao trono onde são coroados os monarcas. Ainda existe na abadia de Westminster, em Londres (apesar de haver informações afirmando tratar-se de uma réplica, e a verdadeira não estar mais sobre a da Terra)[2]. Os escoceses do Monte Sagrado de Heredom reivindicam que a Pedra lhes pertence e que lhes foi furtada por agentes da coroa britânica. Quando do seu desaparecimento em Londres, em 1950, foram acusados de autores do rumoroso caso. Contudo, há quem contraponha a sua inocência…

Lia Faill, a "Pedra da Coroação"

Lia Faill, a “Pedra da Coroação”

Por outro lado, para a tradição judaico-cristã, a famosa “Pedra do Destino” ou Luza teria servido de cabeceira ao Patriarca Jacob durante o seu sono e sonho com Anjos descendo e subindo ou intercambiando entre a Terra e o Céu. No entanto, segundo outros a Pedra foi trazida por Moisés quando do êxodo de saída do povo hebraico do cativeiro do Egipto, surgindo daí a Ordem de nome Lápis Faraóni, como também é designada. Era considerada “Pedra Falante”, pois sempre falava e oraculava quando era preciso escolher o novo rei ou faraó!… Foi, igualmente, chamada Anchora Vitae, e, segundo o Professor Henrique José de Souza, a palavra “Âncora” ou “Âncora da Vida” na terminologia dos cabalistas, possui sentido profundamente mágico na linguagem dos Magos[3]. Expressava a ideia de fixação de determinado Movimento ou Trabalho em lugar previamente demarcado[4].

No tocante à Ordem dos Templários, sabe-se que ela desempenhou papel de importância crucial na marcha da Civilização Ocidental, mormente a sua parte vedada ou esotérica de minoria ante a maioria, tão pouco conhecida do «positivismo» dos historiadores contemporâneos possuídos do mau hábito de especular depreciativamente sobre tudo o que desconhecem. Como já disse, a Milícia teve como Supremo Dirigente Espiritual, na época de sua fundação, São Bernardo de Fontaine, Geral dos Cistercienses com Casa-Mãe em Claraval, e já em 1115 ele deu início à construção de uma primeira abadia na floresta de Bar-Sur-Aube, podendo-se considerar que foi a partir daí que tomou a chefia espiritual do Ocidente. Papas, reis, bispos e abades inclinam-se diante dele e o reverenciam como o maior sábio e santo da Cristandade do tempo… Dizia ele: “Os assuntos de Deus são meus, e nada que lhes diga respeito me é estranho”! Possuía um Saber universal. Nossa Senhora não era para ele a Senhora José mas sim a Esposa do Verbo, a Mãe Divina. Rezam as crónicas que bebeu o leite da “Virgem Negra”, quando a Mãe de Deus jactou aos lábios sôfregos de seu filho Bernardo três gotas de leite de seu peito maternal. Em terminologia alquímica, isso respeita ao portentoso Ser de que estou falando: Virgem Negra, Mãe Divina, Senhora da Conceição (a Concepção química do espesso em ígneo), Maha-Shakti, Kundalini, abertura dos canais internos, tudo pode ser enfeixado numa só coisa… desde que corresponda à medida exacta.

Nossa Senhora do Leite. Igreja de Santa Maria do Olival, Tomar

Nossa Senhora do Leite. Igreja de Santa Maria do Olival, Tomar

Terá sido o próprio São Bernardo a convencer os nove originais confrades de Cluni e irmãos de armas a irem a Jerusalém, em 1118, para fundarem uma Milícia de Cavaleiros-Monges no que restava do primitivo Templo de Salomão. Ao falar de Salomão, dizem certas escrituras sagradas ainda assim vedadas: “Grande é o Cálice de Salomão, feito de uma só pedra preciosa. No Cálice existem três versos gravados em caracteres sumérios, que ninguém pode explicar”.

O Cálice terá sido demandado nos subterrâneos do Templo de Salomão, sob pista dada antes por São Bernardo, que creio sabia decifrar o enigma profundo desse objecto sagrado que fora do Rei bíblico que preferira a Sabedoria de Deus à riqueza do século…

Os nove enviados de Cluni certamente não foram à capital da Terra Santa só para fundar uma Milícia de religiosos armados destinada a proteger os caminhos de peregrinação da Cristandade a ela, mesmo que aparentemente fosse só isso, pois a sua presença militar ficou confiadamente assinalada nas estradas que levavam a Jerusalém, sobretudo nas de Jafa e de S. João de Acre, escoltando ainda os peregrinos que se dirigiam ao Jordão. Mas além disso, atendendo a que tomavam a “Terra Santa” por modelo Centro do Mundo e repositório da Tradição Primordial, e também pelos sinais metafísicos e físicos que aí deixaram como manifestação de pura heterodoxia, certamente deverão ter demandado algo de muito maior valor nas criptas salomónicas, tudo levando a crer terem-no encontrado: a Arca da Aliança, as Pedras da Lei, a Taça de Salomão, o nome que se lhe queira dar… desde que corresponda à medida exacta.

Para a Tradição Iniciática, realmente os nove Cavaleiros-Monges demandavam o Cálice da Salvação, o Saint Vaisel ou Santo Graal, com todos os valores transcendentes inerentes a ele. A verdade é que foi a partir daí que se deu o encontro do Oriente com o Ocidente e este começou a sua longa jornada de liderança do Mundo em todos os terrenos, espiritual e temporalmente falando. A Cripta ou Arca, Barca ou Agharta assinala a continuação de transmissão do conhecimento tradicional de uma civilização à que lhe sucederá. E isso sucedeu com o Oriente transferindo-se espiritualmente ao Ocidente por via dos Templários…

Em obra reservada portadora do sugestivo nome de Livro do Graal, conta-se que após várias peripécias o mesmo Santo Graal, em última instância sinónimo de Teosofia como Sabedoria Divina, a partir do ano 985 d. C. peregrinou do Extremo Oriente ao Médio Oriente e daí ao Ocidente, e neste itinerou por sete catedrais em países distintos antes de tomar o rumo definitivo do El-Dorado que é o Novo Mundo, o Quinto Continente, propriamente a América do Sul, o Brasil a quem Pedro de Mariz, no século XVII nos seus Diálogos de Vária História, consignava a Nova Lusitânia, bojo da Utopia do V Império Ibero-Ameríndio cujo advento, já no século XII, os Templários haviam começado ao perseguir o sonho valoroso da Concórdia Universal dos povos do Oriente e do Ocidente, que é dizer a Nova Renascença psicossocial da Humanidade, em suma, a Sinarquia.

Respeitante às sete Catedrais Graalísticas do Ocidente, cada uma com 12 Sacerdotes Perfeitos (Goros, em tibetano), ao todo 84, a Tradição Iniciática diz serem:

Abadia de Westminster (Londres – Inglaterra)

Nome oculto: Templo da Justiça.

Nome sacerdotal aghartino (em português): Espada Flamígera.

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Santa Maria Magiore (Roma – Itália)

Nome oculto: Templo do Anjo Paciente.

Nome sacerdotal aghartino (em português): Senhora ou Rainha das Águas.

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Catedral do Precioso Sangue (Bruges – Bélgica)

Nome oculto: Templo da Ressurreição.

Nome sacerdotal aghartino (em português): A Taça de Deus.

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Sé Patriarcal de Lisboa (Lisboa – Portugal)

Nome oculto: Templo da Luz.

Nome sacerdotal aghartino (em português): As Três Chamas ou Luzes.

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Catedral de Washington (Washington, D.C. – EUA)

Nome oculto: Templo da Penitência.

Nome sacerdotal aghartino (em português): Capacete de Bronze, ou também Portal de Aço.

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Catedral do México (Cidade do México – México)

Nome oculto: O Templo Bipartido, ou Aquele que tem Duas Faces.

Nome sacerdotal aghartino (em português): A Corte Ensombrada ou Envolvida em Águas.

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Catedral de Salvador (Bahia – Brasil)

Nome oculto: O Trono de Deus.

Nome sacerdotal aghartino (em português): As Barbas do Eterno ou do Ancião das Idades.

A ver com a dinâmica do movimento ou marcha cíclica da Civilização de Leste a Oeste, o que se denomina Itinerário de Io ou Yo, que é a Mónada peregrina ou evoluindo pelo longo esteiro das Raças Humanas, os Monges-Construtores às ordens de Cister e Claraval em breve adoptariam significativamente por sigla a letra d´ouro pitagórica, o Y, por vezes inscrito dentro de um círculo, confirmação que me resultou positiva quando estudei no sítio as lápides do cemitério medieval junto à igreja Templária de Íria Flávia, próxima de Padrón, no caminho para Santiago de Compostela, portanto, na Galiza[5]. Esses Monges-Construtores, herdeiros dos Collegiam Fabrorum romanos que eram os colégios de artífices, adoradores primitivos de Lusina e depois de Luzia, em breve abraçariam o Sagrado Coração de Maria, incarnação primordial da Matéria, Mater-Rhea e que é a Mãe-Terra, também lhe chamando Yse ou Ysseth, ou seja a mesma e antiga Ísis cujos Mistérios volitavam na forma da Barca simbológica da Agharta, aqui, trazendo os valores espirituais do Oriente ao Ocidente.

Tal transferência espiritual de valores está figurada num silhar de azulejos na sacristia da igreja da Misericórdia de Cascais, onde se vê a Arca da Aliança carregada triunfalmente para o Ocidente pelos Levitas ou Sacerdotes do Templo de Salomão, os quais serão aqui os Templários, a quem esta igreja ou uma outra desfeita sob ela terá pertencido. Tal alegoria significa, precisamente, a passagem de valores de um para outro hemisfério do Globo[6].

A Arca da Aliança carregada para o Ocidente. Igreja da Misericórdia de Cascais

A Arca da Aliança carregada para o Ocidente. Igreja da Misericórdia de Cascais

Essa devota relação filológica dos Templários com Ísis/Maria está ainda testemunhada numa frase escrita, permeio a estranhos grafitos, numa das paredes das celas da “torre do prisioneiro” (castelo de Gisors, França) que foi, sem dúvida, o último Mestre Geral do Templo, Jacques Borguemundus de Molay, aí encarcerado com os principais dignitários da Ordem, diz-se, em número de 72, por ordem de Filipe IV, rei de França, no mês de Agosto de 1308[7]. Diz a frase: O MATER DEI MEMENTO MEI (“Ó Mãe de Deus, lembra-te de mim”). Como anagrama, lê-se exactamente assim: AMO DEMETER ENIM TIMEO (“Amo Demeter porque a temo”). Demeter, sabe-se, é precisamente o nome grego de Ísis.

Respeitante à Cruz adoptada como insígnia do Templo, era a pátea que havia sido oficialmente reconhecida como a mais santa e perfeita representativa da própria e toda a Cristandade no Sínodo de Constantinopla, no ano 608. Daí se a ver patente em muitos baixos e altos-relevos visigóticos da Península Ibérica, nomeadamente na igreja de S. Gião, perto da Nazaré[8]. Segundo Gerard Serbanesco na sua obra Commentaires sur la regle des Templiers, ela substituía a antiga Cruz Swástika ou Jaina dos Hindus e Budistas e um outro símbolo que, no Médio-Oriente, referia-se ao Equinócio da Primavera (correspondendo ao ciclo anual da Ressurreição da Natureza das trevas do Inverno): o Phalus. Até ao ano 680 os cristãos conservaram esse símbolo Phalus, depois substituído pela Cruz Pátea ou Patada (em francês, patée)[9].

Em 1142 os Templários receberam o emblema da sua Cruz, o qual seria reconhecido em bula apostólica pelo Papa Eugénio III, cisterciense, em 1145, certamente por intercessão de São Bernardo de Claraval, de São Malaquias da Irlanda e do Rei São Luís de França, ou seja, a Cruz da Cristandade, de quem a defesa de toda ela lhes estava confiada. Vermelha da cor do sangue real do Salvador dado por amor da Humanidade, ela sobrepunha-se ao fundo xadrezado branco e negro da bandeira ou balsa (beausant, em francês), decorada com o versículo bíblico Non nobis, Domine, non nobis, sed nomine Tuo da gloriam (“Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Vosso nome dai glória”)[10]. Já o seu grito de batalha, o qual leva para o conceito de Fede Santa que aliás São Bernardo predica no seu Louvor à Milícia, pondo no papel o que já antes seria postulado como ideal primaz, portanto, apenas confirmando o testemunho, era: Para sempre, viva Deus, Santo Amor.

A balsa tinha para os Templários o mesmo valor do Santo Sudário, por figurar o Espírito de Cristo que lhes incumbia difundir pela Guerra Santa (Cruzada) sobretudo à Ignorância, ao Fanatismo e à Tirania, os três grandes flagelos que separam em anarquia a Humanidade e vedam a unidade da Sinarquia, isto é, da Concórdia Universal dos Povos.

O policiamento e protecção da Terra Santa não se cingiria unicamente aos caminhos da Judeia e da Palestina que conduziam a Jerusalém, ainda assim esta tendo a primazia por ser na época o Centro Espiritual Supremo das três grandes religiões do Livro (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo), mas também a todos os lugares destacados com foros de sagrados, portanto, igualmente Terras Santas, condição lhes imposta tanto pela Tradição Iniciática quanto pela tradição popular que, afinal de contas, é a conservadora daquela por via dos seus usos e costumes – etnográficos, folclóricos, religiosos, etc. Lugares Santos sendo como anfiteatros para a mítica Canaã ou “Terra de Promissão” de que fala S. Bernardo no Louvor à Nova Milícia. Estará nisso a razão do especial e aparentemente desconexo, inexplicável, interesse e dedicação dos Templários a determinados lugares da Península Ibérica, criando uma geografia sagrada muito sua, lugares esses dos quais muitos à primeira vista não oferecem qualquer valor político ou estratégico militar por seu isolamento, longe dos caminhos principais de trânsito das tropas e das populações, mas certamente encravados em nódulos de forte intensidade telúrica que lhes conferiam foros sagrados de magia intercambia, na Face da Terra, entre o Céu e o Inferno, destarte os Templários realizando uma Fede Santa e psicopompa assumindo-se como Metraton (com face superior ou voltada para o Céu, incarnada pelo Arcanjo Mikael, e com face inferior ou voltada para a Terra, incarnada pelo Arcanjo Samael) que, tal qual Melki-Tsedek, é o Senhor dos Poderes Espiritual e Temporal, Pax et Lex, Intermediário ao Mistério Celeste da Merkabah e ao Mistério Terrestre da Shekinah, respectivamente, a “Tradição Primordial da Divindade em movimento ou dinâmica, acompanhando os Ciclos de Evolução por que se reparte a Vida Universal”, e a “Presença Real de Deus” no Seio da Terra, o Inferno, Inferius ou “Lugar Inferior, Interior, Subterrâneo”[11].

De maneira que a Jerusalém Celeste, falada pelo mesmo S. Bernardo, como Pólo Espiritual vem a reflectir-se no seu Pólo Material, a Jerusalém Terrestre, ou seja, a Salém como a mesmíssima Shamballah da tradição transhimalaia irradiando de si mesma por todo o Orbe através dos Centros Vitais do mesmo, plantados sob verdadeiros “Jardins do Éden” alindando estrategicamente os pontos nevrálgicos do Globo, um dos quais é Sintra, primitiva Comenda Templária, hoje mesmo Terra de Promissão justificando inteiramente, apesar de maneira rara sibilina e ctónica, porque este País é o Porto-Graal.

É assim que o Santo de Claraval, como Doutor Melífluo, reflecte nas suas palavras a Jerusalém Celeste na Jerusalém Terrestre, por ser esta o módulo daquela, seu modelo, e que a Cavalaria Ideal ou Espiritual é superior à Cavalaria Temporal, mesmo que ambas devam andar juntas, para que o Cavaleiro seja efectivamente “Cordeiro e Leão”, isto é, Santo e Guerreiro, conforme a Regra.

Iluminura medieval mostrando os Templários com guardiões vencedores de Jerusalém

Iluminura medieval mostrando os Templários com guardiões vencedores de Jerusalém

Como disse, a Jerusalém Celeste, ou simplesmente Salém, “Cidade da Paz”, a quem o Sepher-Ha-Zohar chama igual e simplesmente Azul, “Cidade da Luz”, donde a prerrogativa Pax et Lux para essa Morada eterna do Rei do Mundo, Melki-Tsedek, cujos iguais atributos Pax et Lex[12] são precisamente os mesmos que se encontram nos Templários, como Monges assumindo a Pax e como Guerreiros a Lex. Apadrinhados por D. Afonso Henriques, ligado a eles por laços de afiliação e familiares[13], é visto assumir-se como Rei e Templário incarnando em si, desde que se auto-coroou em Zamora em 1143, atributos iguais aos de Melki-Tsedek, como sejam a Pax (Mestre) e a Lex (Rei), tal qual se vê num seu selo rodado, assim se assumindo expressão directa do Rei do Mundo pela Graça de Deus e não dos homens, investidura antecipada pelo Milagre Cristológico de Ourique onde Cristo, “Sacerdote eterno de Melki-Tsedek”, é o seu divino Paraninfo.

Tudo isso leva-me à composição seguinte:

Esquema

Curioso ir encontrar-se nas cercanias de St.ª Maria de Alcobaça, Casa-Mãe de Cister em Portugal, a velhinha localidade de Arcipreste. Ora, o Arcipreste corresponde ao Grande Presbítero, ou seja o Arki-Preste, notoriamente identificado ao Preste João cuja fama começou a correr pela Europa ainda os Templários existiam, no século XIII, e, entre Melki-Tsedek e Preste João a diferença é nenhuma… excepto na tridivisão de saberes e funções da própria Ordem do Templo:

Três Graus

Ainda que interligadas todavia são funções distintas, pois a primeira ministrava a Regra e o seu “espírito sob a letra que mata”, alimentando a vocação sacerdotal e clausural; a segunda mantinha os Estatutos conforme a Regra, formando as almas na religião e deixando entreaberta a vida claustral; e a terceira assegurando o cumprimento dos Estatutos juntos dos claustrais e seculares, com estes, junto do restante Clero e da Nobreza, tornando o Templo empresa administradora confiável dos seus bens temporais, no que se tornou a maior e mais poderosa Banca do tempo, com os dados históricos disponíveis indiciando que realizava um plano secreto, ou só do seu conhecimento, na criação macrocéfala, através do sistema sócio-económico, de uma Sociedade mais justa e perfeita, para não dizer Sinárquica, que abarcasse toda a Europa.

O esforço de implantação da Sinarquia no Ocidente ocupou praticamente o Mestrado dos 22 Mestres Gerais do Templo, ou seja, toda a duração desse, perfilando-se eles numa lista tarôtica de maior grandeza configurada pelos nomes de:

1. HUGUES DE PAYNS, ou de PAYENS, ou PAGANIS (ou BAGANIS?). C. 1070 – 24 de Maio de 1136. Cavaleiro originário da Champagne. 1.º “Magister Militum Templum” de 1118 ou 1119 a 1136.

2. ROBERT DE CRAON. ? – 13 de Janeiro de 1149. Cavaleiro originário da Borgonha. 2.º Mestre do Templo de 1136 a 1149.

3. ÉVERARD DE BARRES. ? – Clairvaux, 25 de Novembro de 1174. Cavaleiro originário da Champagne. 3.º Mestre do Templo de 1149 a 1152.

4. BERNARD DE TREMELAY (ou TREMELAI). ? – Ascalon, 16 de Agosto de 1153. Cavaleiro originário do Condado Franco. 4.º Mestre do Templo de 1152 a 1153.

5. ANDRÉ DE MONTBARD (ou MONTBART). ? – 17 de Janeiro de 1156. Cavaleiro originário da Borgonha. Não entra no cômputo dos 22. S. Bernardo fala dele na Epístola 288. Em todo o caso, mesmo sendo dos Mestres presumíveis, teria sido Mestre de 1153 a 1156.

6. BERTRAND DE BLANQUEFORT (ou BERNARD DE BLANCHEFORT). ? – 2 de Janeiro de 1169. Cavaleiro originário do Berry. 5.º Mestre do Templo de 1156 a 1169.

7. PHILIPPE DE MILLY, ou DE NAPUS ou NAPLOUSE. ? – Constantinopla,?. Cavaleiro franco originário da Síria. 6.º Mestre do Templo de 1169 a 1171, quando renunciou ao cargo.

8. EUDORE (EUDES ou ODO) DE SAINT-AMAND. ? – Terra Santa, 8 de Outubro de 1179. Cavaleiro originário da Champagne. 7.º Mestre do Templo de 1171 a 1179.

9. ARNAU DE TORROJA ou ARNALD DE TORROGE (ou TOUR ROUGE), ? – Verona (Itália), Setembro de 1184. Cavaleiro originário de Aragão, procedente de família catalã. 8.º Mestre do Templo de 1180 a 1184.

10. TERRIC, TEODORICO ou THÉRENCE. ? – ?. Controverso e duvidoso. Aparece como Mestre do Templo em 1188, ano que foi obrigado a renunciar.

11. GÉRARD DE RIDEFORT. ? – S. João de Acre, 4 de Outubro de 1189. Cavaleiro originário da Flandres. 9.º Mestre do Templo de 1185 a 1189.

12. GUALTÉRIO. ? – ?. Estranhamente Campomanes cita-o como sucessor de Ridefort entre 1190 e 1195. Nada mais sei sobre ele.

13. ROBERT DE SABLÉ. ? – 20 de Setembro de 1193. Cavaleiro originário da Borgonha. 10.º Mestre do Templo de 1191 a 1193.

14. GILBERT HORAL, ERAIL ou ERRALL. ? – 21 de Dezembro de 1200. Cavaleiro originário de Aragão ou da Provença. 11.º Mestre do Templo de 1194 a 1200.

15. PHILIPE (ou GILBERT) DE PLESSIS (ou PLAISSIEZ). ? – 12 de Fevereiro de 1209. Cavaleiro originário de Anjou. 12.º Mestre do Templo de 1201 a 1209.

16. GUILLAUME (ou GUILLERMO) DE CHARTRES. ? – Damieta (Egipto), 25 de Agosto de 1219. Cavaleiro originário de Chartres. 13.º Mestre do Templo de 1210 a 1219.

17. PERE DE MONTAIGU (chamado PIERRE DE MONTAGUT). ? – 28 de Janeiro de 1332. Cavaleiro originário de Aragão. 14.º Mestre do Templo de 1219 a 1232.

18. ARMAND DE PÉRIGORD. ? – Gaza, 17 de Outubro de 1244. Cavaleiro originário de Périgord. 15.º Mestre do Templo de 1232 a 1244.

19. RICHARD DE BURES. ? – 9 de Maio de 1247. Cavaleiro originário da Normandia. 16.º Mestre do Templo de 1244 a 1247.

20. GUILLAUME DE SONNAC. ? – Mansourah (Egipto), 8 de Fevereiro de 1250. Cavaleiro originário de Rouergue. 17.º Mestre do Templo de 1247 a 1250.

21. RENAUD DE VICHIERS. ? – 20 de Janeiro de 1256. Cavaleiro originário da Champagne ou de Vichy. 18.º Mestre do Templo de 1250 a 1256.

22. THOMAS BÉRAUD ou BÉRAUT. ? – 25 de Março de 1273. Cavaleiro originário da Inglaterra ou da Itália. 19.º Mestre do Templo de 1256 a 1273.

23. AMAURY DE LA ROCHE. ? – ?. Recomendado para o Mestrado pelo Papa Alexandre IV, enquanto Béraud estava prisioneiro do Islão em Sepahad. Deixa pensar que foi um “Mestre interino” que deixou o seu cargo quando, em 1273, foi nomeado o seu sucessor efectivo.

24. GUICHARD ou GUILLAUME DE BEAUJEU. ? – S. João de Acre, 18 de Maio de 1291. Cavaleiro originário de Beaujolais. 20.º Mestre do Templo de 1273 a 1291.

25. THIBAUD GAUDIN ou TEOBALDO GAUDINI. ? – 16 de Abril de 1293. Cavaleiro originário de Chartres-Blois. 21.º Mestre do Templo de 1291 a 1293.

26. JACQUES BURGUEMUNDUS DE MOLAY. ? – Paris, 18 de Março de 1314. Cavaleiro originário da Alsácia. 22.º e último Mestre do Templo de 1293 a 1314.

Efectivamente a Milícia Templária, a partir das suas Casas, desde o Médio-Oriente aos confins da Europa, Portugal, idealizou e tentou efectivar a realização de um projecto sinárquico que, desgraçadamente, as forças temporais ou cesaristas impediram até desfecharem dramaticamente com o famoso e controverso “Processo contra o Templo”, de que darei notícia mais adiante.

Sinarquia equivale a uma congruência harmónica una e tríplice da Natureza reflectindo-se, direi hipostaticamente, na triplicidade do Homem como Espírito, Alma e Corpo, à qual correspondem três funções orgânicas:

Três funções

Com essa estruturação inter-harmónica do seu princípio tríplice de si para fora, para o exterior, o Homem inevitavelmente afectará o restante tecido do conjunto humano componente do todo Sociedade a qual, com o intercâmbio dessas três funções cujo equilíbrio perfeito é resultante da consciência superiormente desenvolvida, irá se assumir como Sinarquia que, sendo una em sua essência, tríplice em sua expressão e séptupla em sua acção[14], se destaca pelo carácter teleológico ou finalístico das suas três Ordens:

Três ordens

Certamente para os Templários a realização do projecto sinárquico presumido não deixava de estar em conformidade à exposição anterior da ideia sinárquica inscrita na Civitas Dei de Santo Agostinho, afinal, fonte da inspiração Bernardina para a composição da Fórmula de Vida dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão.

Ainda acerca da relação Cister/Templo, acho por bem trazer aqui um excerto da carta que enderecei ao estimado e valoroso amigo da Marinha Grande, Hermínio de Freitas Nunes, datada de 12.7.1999: – “Quanto à igreja alpendrada de St.ª Maria de Seiça, com restos de frescos nas paredes, que o amigo levou-me a visitar. A decoração fitomórfica de todo o templo (de que subjazem restos de frescos nas paredes laterais do altar-mor) obedece aos cânones simbólicos de uma Casa consagrada ao Espírito Santo, em que os motivos vegetalistas aludem à Natureza-Mãe concentrada no espaço sacro. Daí a Virgem trecentista apresentando na destra o Coração (Cordo Maris) e na sinistra, ao colo, o Menino com o Livro aberto, tal como os dos dois Doutores da Igreja retratados nos frescos: St.º Agostinho e St.º Ambrósio. O “livro aberto” é sempre indicativo de conhecimento desvelado, enquanto que “fechado” assinala a sabedoria velada.

“Ademais, os variados sinais analógicos a que se prende o templo indiciam uma Casa de Cister. Começo pelos dois santos retratados nos frescos laterais ao altar-mor.

“St.º Ambrósio (7 de Dezembro) é um dos quatro grandes Doutores da Igreja Latina ou Ocidental. Segundo a hagiografia da sua vida, era filho de um Prefeito das Gálias e teria nascido cerca do ano 340 d. C. Ficou órfão cedo, estudou em Roma e foi para Milão ocupar um cargo público. Por morte do Bispo de Milão, e sendo ele já famoso graças à sua oratória e intervenção apaziguadora na sucessão desse Bispado, foi eleito Bispo milanense. Tem uma obra literária vasta, com temas exegéticos, morais e doutrinais. Também foi liturgista e introduziu o canto alternativo de hinos e salmos. Foi Mestre do ex-platónico St.º Agostinho e terá morrido em Milão no ano 397. Tem como atributos uma criança no berço, ou ossadas, ou ainda um chicote de três rabos, além de uma colmeia, referência à sua oratória “ser doce como o mel”.

“O contexto social do mundo das abelhas simboliza, em muitos casos, uma comunidade coerentemente trabalhada, posta sob a evocação de uma Grande Mãe a cujo seio se acolhem todos os fiéis. Lembro, de passagem, o paralelismo que pressupõe a figura da abelha-mestra com muitas das evocações da Virgem Maria que foi tão especialmente venerada nos tempos medievais, por meio de um contexto tradicional perfeitamente assumido pelos monges de Cister.

“No fresco retratando St.º Ambrósio escrevendo, há a seu lado um documento escrito e assinado que começa em maiúsculas latinas: EST PALMA, “esta mão”, e será, talvez, o “canto alternativo” escrito pelo santo.

“Já em St.º Agostinho (28 de Agosto) encontram-se nele vestígios da Grande Tradição, detectáveis principalmente nas suas obras máximas (representadas nos dois livros patentes no fresco correspondente), “Cidade de Deus” e “Centro do Mundo”. Estudioso das Idades da Santíssima Trindade, inicia esses estudos que mais tarde seriam convertidos, por outro cisterciense italiano da Calábria, Joachim da Fiore (séc. XIII), nos três mais um Tempos, já por influência Bernardina e não Agostinha, sendo acrescentado no século XVII um quinto Tempo ou Império, o Português, pelo padre jesuíta António Vieira.

“Agostinho de Hipona é representado com um coração flamejante (o seu próprio), e neste templo observa-se a Virgem a portar um coração, o que não deixa de ser sintomático na analogia que estou estabelecendo com a presença de Cister, ainda que discreta, no lugar. Já no exterior, a disposição da torre sineira indica o “S” serpenteante ou espiralado por que se ascende à Cidade de Deus, cujo sino dobrando clama à abertura dos portais celestes dessa invisível mas presente Civitas Dei.

“Com todo o sentido cristão às costas, com toda a sua carga mística à flor da pele, St.º Agostinho foi um convencido da universalidade do sentimento religioso e – possivelmente por causa dos seus antecedentes maniqueus e neoplatónicos – da validade intrínseca de todas as crenças, sempre que sejam acolhidas em profundidade e sinceramente. Assim diz nas suas “Retratações”: “Coisa idêntica ao que chamamos agora religião cristã existiu entre os antigos e nunca deixou de existir desde os princípios da raça humana até à vinda de Cristo incarnado, momento em que a religião verdadeira, que já existia, começou a chamar-se cristã” (I, 13, 3). Este sincretismo eminentemente místico, e por isto mesmo transcendente e universal, é o que o leva a aceitar e a exaltar esse conceito do Eixo do Mundo a que ele chama a Cidade de Deus e que faz parte das mais profundas doutrinas esotéricas como a da Jerusalém Celeste, e até, em suas últimas consequências, como a da Agharta das tradições da Ásia Central.

“Ora Cister e Claraval, ambas fundidas quase (ou mesmo) numa só por intercessão de S. Bernardo, o “Doutor Melífluo”, davam grande atenção a esses dois Patriarcas da Igreja, particularmente ao último, cuja ideologia sinárquica veio a influenciar a feitura da Regra e Estatutos da Ordem do Templo, também chamada Ordem dos Cavaleiros Templários da Santíssima Trindade. E onde há Templários há Cistercienses (o Mestre Espiritual de ambos é o mesmo: S. Bernardo de Claraval!): os primeiros vocacionados à acção externa (processo motor) e os segundos à acção interna (processo intelectual); aqueles para a vida claustral e estes para a vida clausural; uns para o Dogma e outros para o Magistério… mas ambos interligados, e não raro ocupando funções contrários às suas, sempre com a Virgo Maris, a Virgini Mariæ, presente (processo vital).

“Quanto aos esqueletos da pressuposta Abadia de Tomaréis, também ela Casa de Cister, cada qual com uma moeda do século XVI (data que antecipei por uma primeira e rápida análise dos restos mortais) sobre o coração, significa, de facto, o pagamento à Morte barqueira da passagem pelo Rio Purgatorial (de purga, limpar, purificar…) rumo ao Céu, de maneira a não afundar no Purgatório e nem, tampouco, no Inferno. Gil Vicente perpetuou esta crença no seu “Auto das Três Barcas” (a celeste levando a Deus os Templários ou Soldados de Cristo tombados no campo da honra). Mas tal crença pertencente aos cânones da religião popular não é mais velha que os inícios do século XV, época em que se perde a noção de Cristandade Iluminada para ficar só um catecismo simplista, supersticioso e infundindo temor às mentes simples, ainda que a moeda posta sobre o coração do morto seja tradição muito mais antiga, egípcio-hebraica, relacionada à civilização mediterrânea que a religião cristã adoptou e trouxe à civilização ocidental, sendo animada nestas partes lusitanas não pelos Cistercienses mas por aqueles que lha comunicaram: os Templários, vindos das campanhas do Ultramar.

“A utilização puramente metafórica, simbólica, da noção de moeda encontra-se em diversos textos cristãos. Para S. Clemente de Alexandria, a noção de verdadeira e de falsa moeda prende-se ao discernimento dos factos e dos actos de acordo com o Espírito, à utilização da fé como critério da Verdade, e daí a referência necessária ao cambista preparado para a sua tarefa (Stromates, 2). Um texto anónimo tardio da Igreja do Oriente, talvez inspirado no precedente, insiste na circunstância do uso da pedra de toque – constituída pelos textos patrísticos – e no papel dos cambistas, que são os seus intérpretes qualificados (em quantos restos mortais medievais não se encontra uma bíblia ou excerto de texto sagrado? E em quantas tampas funerárias nos seus esculpidos não se vê a alegoria do defunto com uma bíblia ou excerto de texto sagrado? Em quase todas, ligando-se a essa tradição). Angelus Silesius usa diversas vezes o símbolo da moeda como imagem da Alma, pois que a Alma traz impressa a marca de Deus, como a moeda traz a do soberano (e aqui entra a história evangélica do talento que deram a Jesus com a pergunta maliciosa se “era a Deus ou a César que se devia servir”). Ele compara-a ao coração róseo, pois a rosa é a flor mística de Maria, Alma das almas, mas também de Cristo, ainda que a este caiba mais o lírio. Assim, evoca igualmente o estado de Iluminado Espiritual, de Rosa+Cruz, o que muito bem os Templários conheciam, como se confirma na lapidação do emblema R+C em inúmeras estelas discóides funerárias suas, assim como em medalhões e selos seus.

“Dois últimos apontamentos: 1.º) Acerca dos marcos territoriais da Comenda Velha da Sabacheira (“comenda velha” tem a sua fundação na Ordem do Templo e que a Ordem de Cristo herdou, e “comenda nova” fundada só pela última), sugiro-lhe que leve giz branco para objecto escuro, ou preto para objecto claro, de maneira a realçar os pormenores antes de os fotografar; 2.ª) A imagem da Virgem do Leite, cuja igreja visitámos, para mim é de descendência medieval e possivelmente Templária ligando-se à hagiografia milagrosa de S. Bernardo, em que clama à Virgem: Monstrate esse Matrem, “mostra-te maternal”, e logo Ela derramou três gotas da sua seiva vital na boca dele. Desse apelo latino derivou a corruptela Noster Mater, “Nossa Mãe” e “Nossa Senhora”, ficando na tradição Bernardo como o primeiro a tratá-La assim tão íntima e familiarmente.”

Iluminura medieval do milagre da lactação de Nossa Senhora a São Bernardo

Iluminura medieval do milagre da lactação de Nossa Senhora a São Bernardo

De maneira que, fazendo na Terra a viagem estelar da Via Láctea tendo por estrela guia Sirius na constelação do Cão Maior, os Templários encetam diáspora do Oriente ao Ocidente até se fixar na região centro de Portugal, em Tomar, onde é instituída a sua Casa-Mãe para toda a Península Ibérica. Tomar, do assírio-aramaico Atumar, “Senhor Pai”, como os primitivos nabateus, nabantinos ou naturais desta Nabância luso-romana lhe chamavam (donde o nome do Rio Nabão banhando a cidade, o que regista um quadro seiscentista exposto na igreja de S. João Baptista, onde se vê na ceia do Senhor exposto no prato gradual um nabo, isto é, a referência velada ao mesmo Nabão e à mesma Nabância, onde se deu a última ceia Templária, que é dizer, onde a Ordem teve a última Mater Domus in extremis Occidis), etimólogo também se decompondo em Tat-Maris, “Oceano Universal”, em referência óbvia ao Aspecto Feminino do Logos Criador, quis-se fazer deste primitivo burgo um enclave sagrado ou solar sob a chancela da bem pouco conhecida Ordem de Mariz (com toda a certeza incorporando em si os famosos e mal entendidos, tanto em conceituação como em apercepção, “Mestres Secretos do Templo”, ou aqueles reservando-se anónimos nos bastidores da acção social do Templo ao qual, assim mesmo, dirigiam para um fim que, apesar de não se ter realizado completamente, contudo alterou decisivamente a fácies político-social e religiosa da civilização ocidental), lugar este onde, na geografia sagrada do País, impera o Divino Pai e onde Mãe e Filho, respectivamente, as 1.ª, 2.ª e 3.ª Hipóstases do Logos Único, se encontram Nele. É esta a razão maior da pretensão em querer fazer-se de Tomar a Jerusalém ibérica, a ponto da própria Charola do Convento Templário, mandada levantar no 1.º de Março de 1160 pelo Mestre D. Gualdim Pais, ser uma réplica exacta dessa outra também octogonal do Templo de Omar e, diz-se, mesmo da primitiva do desaparecido Templo de Salomão, na capital de Israel[15].

Colunas de Anjos que suportam na base todo o edifício do Convento de Cristo, em Tomar

Colunas de Anjos que suportam na base todo o edifício do Convento de Cristo, em Tomar

É curioso que o próprio Castelo dos Templários, ainda em Tomar e mandado construir também por Gualdim Pais, configure a constelação do Boieiro que é a “antecâmara” estelar dessa outra e mais importante da Ursa Maior, a constelação dos Rishis ou os 7 “Reis Divinos”, ou seja Saptarishis em sânscrito, cuja estrela alfa do mesmo Boieiro ou Boi celeste é Arcturus, o “guarda do urso”. E guardando muitas casas em volta da igreja de Santa Maria do Olival, viam-se antigamente nas pardieiras das portas um boi gravado em alto relevo, o que é significativo[16]. Se o boi puxa a charrua e lavra a terra para que haja boa semeadura (factor sedentário agrário-demográfico, de povoamento), o urso é besta a caçar e como fera nobre representa a toda a caça e ao guerreiro que o busca (factor nómada e de defesa militar do mesmo povoamento). De maneira que se o boi manso simboliza a Terra fértil e submissa, o urso assinala o Poder das Armas ou Temporal, tão bem apontado na época pela perfeição do Cavaleiro Templário, eterno perseguidor da Realeza Divina, de onde a lenda da caçada ao porco montês (retratada no capitel de uma  coluna na igreja de São João Batista, em Tomar, áxis mundi da cidade) por Mestre Gualdim Pais que veio a o… tomar.

Castelo Templário de Tomar configurando a constelação do Boieiro

Castelo Templário de Tomar configurando a constelação do Boieiro

A cosmosofia dá conta de diversos constelados implicados ao processo dinâmico de criação e evolução do Universo em que estamos e em que entra a constelação da Ursa Maior, esquema sideral esse assim se podendo ordenar como se depreende de um texto teúrgico reservado[17]:

Três Logos

Admitindo e defendendo a tese da cidade de Tomar, já referida como a capital da Ordem do Templo na Península Ibérica, como uma imagem viva do Centro do Mundo (a Mata dos Sete Montes, vizinha do castelo, associada aos enclaves iniciáticos dos Templários, e o ex-libris da cidade, a Roda do Rio Nabão, constituem dois dos mais assinaláveis vestígios do carácter axial de Tomar), o documento pelo qual se faz doação dela aos Templários ostenta um curioso e notável sinal rodado de D. Afonso Henriques. As letras que figuram nesse sinal estão dispostas de modo a serem lidas como Portugal, mas também como Portugral, ou seja, Porto Graal[18].

Carta de doação de Tomar por D. Afonso Henriques a D. Gualdim Pais, Mestre do Templo em Portugal. Repare-se no notável do sinal rodado onde se pode ler "Porto Graal"

Carta de doação de Tomar por D. Afonso Henriques a D. Gualdim Pais, Mestre do Templo em Portugal. Repare-se no notável do sinal rodado onde se pode ler “Porto Graal”

Por seu turno, Maurice Guinguand e Beatrice Lanne afirmam[19]:

“A Cristandade, sob a égide dos Beneditinos, já tinha traçado o seu caminho para Oeste. Esse caminho conduzia a S. Tiago de Compostela, em direcção ao Cabo Finisterra, onde os celtas os tinham precedido dois mil anos antes, enquanto outros celtas se instalavam nesse outro “Fim da Terra”, a ponta da Galiza.

“Em Compostela, local sagrado, intuitiva ou conscientemente, os árabes tinham sabido desvendar o poder do local e realizar as aplicações de um conhecimento de que foram promotores: o da Alquimia e da transmutação do ouro e da prata.

“É em Compostela que os primeiros peregrinos cristãos encontraram um artesanato de tradição árabe florescente, o dos pratos de ouro e prata que ainda hoje são decorados com cordões entrelaçados mouriscos.

“As aspirações religiosas e o fervor da fé não excluíam a atracção oculta que fazia com que muitos espíritos curiosos empunhassem o bordão de peregrino, partindo em busca de contactos intelectuais e de trocas frutuosas entre as tradições do Oriente e do Ocidente. Inúmeros judeus, comerciantes e negociantes, mas também esotéricos e kabalistas, vinham examinar as novas teorias que confrontavam com as suas.

“Foi no caminho para Compostela que Nicolas Flamel, alquimista francês, encontrou o companheiro judeu que deu origem à sua iniciação e ao êxito que o tornou famoso.

“Foi efectivamente em Compostela que os árabes depositaram o fermento dos seus conhecimentos em Alquimia.

“É em Compostela, junto da fachada das Platerias de Santiago, que há mais de nove séculos se guardam, gravados nas suas pedras, os segredos de um saber e as chaves de um conhecimento que os esotéricos medievais tinham ido buscar para os completar.

“Baseando-se na sua cosmogonia, os Templários saberão deslocar o ponto levando-o mais para o Sul, para Portugal, para Tomar.

“Não serão pratos de prata, mas sim tabernáculos de ouro que dormirão sob a Charola, a Roda, o sono do exílio.

“A Ursa Maior deslocou-se, a Roda girou e as sinetas de ouro tilintam no fundo dos poços durante as noites de Setembro e a noite de Natal.”

Exterior da Charola dos Templários no Convento de Cristo, Tomar

Exterior da Charola dos Templários no Convento de Cristo, Tomar

Acrescente-se que a Ordem de Santiago, com todo o seu trabalho de sapa, possuía Estatutos idênticos aos do Templo, que interna ou discretamente dirigia a sua actuação externa dentro da Península Ibérica. Daí a razão de se observar muitas casas religiosas Jacobeias com insígnias Templárias, como é o caso, por exemplo, da igreja de Santiago em Coimbra encimada com a Cruz rodada do Templo, sinal de Mestrado português dada a importância da capital do Mondego – as finis Galliciae.

Além do caminho de Compostela (o único com direito efectivo ao nome “peregrinação”, pois que os caminhos para Roma são de “romaria”) haviam outros dois, completados ou sintetizados por um quarto, todos palmilhados e promulgados pelos Templários em conformidade à escatologia do seu doutrinal. Eram eles:

– CAMINHO DE SANTIAGO, ou dos Cavaleiros (Kshatriyas), os domadores da Arte Real cujos segredos alquímicos são desvelados à alma peregrina ao longo da rota. Está em correspondência com o naipe Espadas e a Igreja de Paulo (a mosteiral, vogando entre o claustro e a clausura).

– CAMINHO DE ROMA, ou do Povo e dos Cambistas (Vaishyas e Shudras), uns e outros procurando pelos intercâmbios psicofísicos a salvação da alma pelo Divino Amor, incarnado na figura soberana do Papa. Está em consonância com o naipe Paus e a Igreja de Pedro (a claustral).

– CAMINHO DE JERUSALÉM ou do Ultramar. É assumido pelo Sacerdócio (Brahmane) medieval como a peregrinação mais importante, por Jerusalém assinalar na época o Centro do Mundo e o lugar abençoado pela presença do Salvador ladeado pelos Profetas e Apóstolos (Escrituras Velha e Nova), testemunhando a Verdade Salvífica do Cristo como Messias ou Avatara do Ciclo dos Peixes do Mare Internus espraiando-se aos pés da velha Israel, água salgada essa transformada no vinho adocicado da Gnose ou Sabedoria do Cristo, cujo Sangue Real se perpétua ao presente por meio da Sua Mensagem de Amor e Sabedoria. Tem a ver com o naipe Copas e a Igreja de João (a clausural).

– CAMINHO DA FÉ ou Interior, podendo se manifestar exteriormente tanto pela peregrinação como pela romaria, como ainda pela navegação a Jerusalém. Relaciona-se ao Culto de Melki-Tsedek, de quem “Cristo foi Sacerdote” segundo Paulo na Carta aos Hebreus, e à celebração da Aliança de Deus com o Homem, o que se representa no Centro Supremo ou a Agharta mesma que sobre a Terra tem maior incidência em lugares determinados que, dessa maneira, cedo são assumidos como Terras Santas. Por ser via trespassando a crença (pois quem crê também descrê) e sendo só de Fé confirmada pelo corpo e pela alma na entrega ao Espírito Único, corresponde ao naipe Ouros – o Ouro da verdadeira realização espiritual – e à Secretum Ecclesia ad Magister Incognitus, a mesma “Assembleia dos Santos e Sábios” que ainda hoje o canónico da Igreja evoca na regularidade do ministério litúrgico.

Herdeiros regulares da Tradição Primordial e Oculta, porque Aghartina, do Santo Graal ou da Copa Santa, simbólica da Barca ou Arca encerrando o Thesaurus Majorem que é a Sabedoria Iniciática das Idades, como já disse, os Templários dão a entender nos lances da sua biografia terem sido possuidores de uma Missão tão discreta quanto aberta, tão reservada quanto universal, e para isso, para que todos os entendessem, desde as mentes simples às mais apuradas, repartiram o seu trabalho em três partes, desde a sócio-económica à político-militar e à religiosa e até gnóstica, vertentes essas correspondendo às já referidas três Igrejas ou Corpus da única Apostólica.

São Bernardo de Claraval e a Igreja Uno-Trina

São Bernardo de Claraval e a Igreja Uno-Trina

Na 1.ª, a Igreja de Pedro ou Temporal, os “Tempreiros” dedicaram-se ao câmbio e comércio, no que se tornaram a maior empresa cambista ou banca da Idade Média, a quem todos, ricos e pobres, prelados, nobres e plebeus se confiavam, por ser corrente que “palavra de Templário era honra assegurada”. Parecia haver um plano secreto, já antes elaborado, destinado a alterar e coordenar as estruturas sócio-económicas do Ocidente, o que é demonstrado pelo policiamento e repartição da riqueza de modo a minorar as injustiças sociais e mesmo abolir a pobreza numa sociedade europeia feudalista fortemente ligada às fainas do campo e do mar, e cujos tributos pesados aos senhores donatários traziam o povo numa angústia de miséria permanente. Parece, ao que os indícios apontam, que os Templários davam-se à execução de um modelo sinárquico procurando dessa maneira a consecução efectiva do que se poderá chamar Estados Unidos da Europa.

Com efeito, desde o seu nascimento a Ordem foi aglomerando doações em mercadorias, quintas, palácios e, sobretudo, terras. Dez anos mais tarde, por altura do Concílio de Troyes (13 de Janeiro de 1128), é proprietária abastada não só na Terra Santa mas também em muitos estados cristãos da Europa, onde já possuía numerosos bens de toda a espécie. A base principal do seu poderio são os terrenos, o que não é de admirar numa época em que toda a riqueza está ligada à terra que a produz, fruto de legados, mas igualmente de compras ou permutas. Entrecruzando as suas propriedades de comendas rurais com urbanas, de pousadas e de praças fortes, o Templo conseguiu construir uma organização coerente, ajudada por uma unidade de comando, uma estrutura hierarquizada e uma disciplina severa, fazendo das suas terras e casas dispersas um só bem inalienável, uma imensa terra alodial livre de todos os direitos (direitos de transmissão, derramas, dízimas, portagens, etc.) mas cobrando, em contrapartida, pesadas rendas a quem, em terras suas, pescasse, caçasse, cortasse madeira, fizesse mercado, etc., sendo tudo «mui sabiamente administrado, bem ordenado nos proventos e prudente nos gastos», como faz notar Guilherme de Tiro. Conseguiu também diversificar a sua actividade, multiplicando assim os lucros, acrescentando a exploração comercial e mineira, fabricando e vendendo armas, roupas, mobiliário, lã, carne e curtumes. A este frenesi pluri-económico juntava-se a actividade bancária e financeira originada nas peregrinações e desenvolvida em seguida. A sua honestidade, a sua rede de casas e a sua frota marítima, capaz de guardar e transportar com toda a segurança somas importantes, incitaram soberanos, senhores, mercadores e peregrinos a confiar à Ordem o seu numerário, usando-a muitas vezes como depositária de tesouros reais, como o do rei de Inglaterra, Henrique II, de príncipes italianos, espanhóis, portugueses e do rei de França, principalmente sob Filipe Augusto, tornando-se a Casa do Templo em Paris o centro das finanças reais.

Este sistema teve o seu apogeu por altura das numerosas peregrinações que levaram o Templo a deter grandes fortunas pertencentes aos peregrinos que, no momento da partida, antes que fossem pilhados em estradas pouco seguras, confiavam à Ordem as somas que levavam consigo, movimentando-as por meio de cartas de crédito que apresentavam numa Casa do Templo. A Ordem também praticava o empréstimo, não com usura, por ser anti-cristã e ilegal, mas aplicando as despesas de comissão, a corretagem e a hipoteca, consistindo em fazer pagar uma renda nominal destinada a amortizar a dívida; a diferença entre esta renda e a renda real constitui o benefício. O primeiro exemplo conhecido data de 1135. Estas actividades económicas e financeiras, denunciadas pelos seus adversários sempre com recurso ao exagero e à mentira, deram à Ordem uma reputação de riqueza desmedida e cupidez desregrada, ainda por cima suspeita de se dedicar secretamente à usura e às manipulações duvidosas de moeda[20].

Para asseverar esse trabalho temporal dilatado por vários países e para efectivar a sua vocação militar estrita e severa, a Ordem do Templo detinha um considerável poder bélico. Formava um exército permanente de cerca de quinze mil cavaleiros, um número três vezes superior de irmãos sargentos e escudeiros, reforçados, na Terra Santa, por tropas de cavaleiros indígenas a soldo, os turcópulos, bem superiores, pela estrutura e pela disciplina, aos exércitos do tempo sujeitos a numerosos entraves feudo-vassálicos (serviço militar de quarenta dias, cavalgada, resgate, etc.) de que podiam dispor os soberanos e os barões, tudo apoiado numa vasta rede de casas e de castelos ligados entre si e sobretudo independentes do Estado sobre cujo território se estendia o sistema. Desligada de quaisquer laços de vassalagem, a Ordem só dependia, teoricamente, do Papado, porque “ninguém, excepto o Papa, tinha poder sobre eles”, o que levava o Templo a considerar-se intocável, como ilustra a frase, quase uma ameaça, lançada pela Ordem ao rei de Inglaterra, Henrique III: “Sereis rei enquanto fordes justo”! Esta potência económica e militar, justificada enquanto a Terra Santa tinha de ser defendida, diminuiu com o recuo da Ordem para a Europa, sobretudo em França, o seu principal lugar de implantação. Tornando-se um estado dentro do Estado, com uma missão claramente precisa, a Ordem mostrava-se ameaçadora no plano económico e militar aos olhos do rei e dos grandes barões, temendo pelos seus poderes temporais, mas também aos de uma grande parte do clero, invejosa de uma tal independência espiritual[21].

Na 2.ª Igreja, a Intermediária ou de Paulo, os Cavaleiros-Monges entregaram-se ao cultivo das artes e letras, combatendo o analfabetismo, ensinando cristãmente tanto ao povo como à nobreza e ao próprio clero, encaminhando-os, numa pretensão audaz, a uma nova formação pela informação decerto destinada a iniciação da Sociedade num novo e mais lato padrão de consciência e vivência, ou seja, a construir uma Sociedade Humana mais justa e perfeita.

Mas para que tal houvesse a Ordem recorria ao seu imenso poder diplomático, e aqui, mais uma vez, agia fora de todos os laços feudo-vassálicos, dependente apenas do Papa, na realidade dependente exclusivamente do Mestre e a quem o Papa se inclinava muitas vezes perante factos já consumados ou tomava sistematicamente o seu partido, como se deu com Inocêncio III (simpatizante declarado do Ideal Templário) e Honório III. Para mais, os seus embaixadores adiantavam-se aos dos príncipes eclesiásticos e seculares. Seguros da sua impunidade espiritual, da sua independência temporal e do seu poderio económico, os Templários tiveram a sua própria diplomacia: se por um lado ela se identificava aparentemente com a dos Estados Latinos e a do Papado, por outro não deixou frequentemente de mostrar tendência para se afastar delas, de maneira subtil e secreta, sempre com risco de contrariar a diplomacia oficial. De maneira que os resultados foram sempre desiguais, ora desastrosos, como aconteceu com Gérard de Ridefort, ora vitoriosos, como na batalha de Montgisard ou na retomada de Acre, juntando-se-lhes os muitos tratados com príncipes muçulmanos que instauraram períodos de paz, propícios à retomada das peregrinações e das relações económicas e culturais.

A diplomacia Templária foi multiforme e complexa, como não podia deixar de ser conforme as circunstâncias se apresentavam. Exerceu-se, primeiro, em proveito dos príncipes cristãos, a fim de aplanar os seus conflitos de interesses, nomeadamente os que opuseram os Condados de Tripoli e de Edessa, terminando muitas vezes em uniões matrimoniais, como o casamento de Amaury, irmão de Guy de Lusignan, apoiado pelo Templo, com a viúva de Conrado III. O peso junto do Papa permitia levar o Templo a favorecer este príncipe em detrimento daquele, considerado menos capaz ou menos favorável à política do momento, como demonstrou o caso de Frederico II, e a decidir convocar e organizar novas Cruzadas, como a 2.ª e sobretudo a 5.ª (pontificando Honório III) dirigida contra o Egipto, a fim de aliviar o torniquete que estrangulava a Palestina, no comando da qual foram postos senhores próximos da Ordem, Thibaut de Champagne e Philippe de Nanteuil.

A partir do final do século XII, graças à fraqueza crónica do poder real em Jerusalém, o Templo tornou-se o verdadeiro dono político e militar do Oriente latino: a sua preocupação constante, como tudo indica, foi a de manter a separação entre o Egipto famitida e a Síria aiúbida, enfraquecendo assim o mundo muçulmano, onde os conflitos eram duros, e por conseguinte consolidando aí os Estados Latinos.

Do mesmo modo, a Ordem preconizou a aliança com o Egipto, aliança que se consumou com a assinatura de um tratado de paz cujo artífice foi o Irmão Geoffroy, pela ajuda que os Francos trouxeram ao sultão Shawar, rompida quando o rei Amaury, sob a influência de Bizâncio oposta a Roma, atacou o Egipto, ataque ao qual o Templo recusou associar-se achando que Amaury agia por conta própria e não de qualquer autoridade legítima superior, como conta Guilherme de Tiro: “O Mestre do Templo e os outros Irmãos nunca quiseram intrometer-se nesta contenda […]. Bem pode ter sido por se aperceberem de que o rei não tinha razões para guerrear os egípcios contra as convenções a que se comprometera por seu juramento”.

Da mesma maneira, quando os Mongóis avançaram sobre o Próximo Oriente, o Templo preconizou uma aliança anti-muçulmana com eles e encetou conversações nesse sentido, que resultou em vão. Uma diplomacia muito pessoal, indiciando uma qualquer pretensão secreta ou só do seu conhecimento, levou a Ordem a tomar, por vezes, decisões unilaterais, próximas da insubordinação à cúria romana, concretizadas por trocas de terras com os infiéis, a assinatura de tratados ou de tréguas, nomeadamente com Saladino e os Assacis, sem disso informar os poderes oficiais, chegando mesmo a contrariar a palavra dada ou a comprometer uma aliança em que não fora interveniente, como exemplifica o massacre pelos Templários de uma embaixada ismaelita dos Assacis, munida de um salvo-conduto, ao regressar de uma entrevista com o rei Amaury de Lusignan. Sem passar pela mediação do Templo a Ordem dos Assacis, que até tinha boas relações com ele, havia proposto a Amaury uma aliança contra o sultão Nou el-Dîn em troca da sua dispensa dum tributo que o Templo lhe impusera, dupla proposta que ia contra os interesses políticos e económicos daquele. Donde a sua reacção brutal, certamente para mostrar a todos quem realmente mandava na Terra Santa, fossem fiéis ou infiéis, e que nada se poderia fazer sem a sua intervenção directa. Tratou-se do recurso à força armada para justificar um poder legítimo.

Tais casos foram numerosos, tanto da parte dos Templários como dos Muçulmanos, pois que as arbitrariedades devem ser repartidas equitativamente. Por vezes os soberanos europeus eram obrigados a fazer demonstração de autoridade a fim de trazer o Templo à razão, à sua política, é óbvio, como o demonstra a decisão do rei Luís IX de invalidar um tratado concluído pelo Mestre Renaud de Vichiers com os sultões de Damasco, que a seu ver, sem nada perceber de política ultramarina, comprometia a estabilidade dos Estados Latinos. A Ordem ganhou então fama de orgulhosa e de insubordinada.

Fortalezas do Templo na Síria e na Palestina

Fortalezas do Templo na Síria e na Palestina

No século XIII, o Poder Espiritual e Temporal do Templo é tal que se encontra no centro de uma rede complexa de alianças e amizades, tanto com os barões cristãos como com os príncipes do Islão, sendo frequentemente o garante de tratados ou tréguas celebradas entre eles. É nesta época que o Templo favorece o partido baronal e anti-imperial, opondo-se veementemente aos Hospitalários e Teutónicos favoráveis a Frederico II, cuja pretensão imperialista era inteiramente oposta a qualquer projecto de Sinarquia, como parece ter sido esta a política dos Templários. Estes não hesitaram igualmente a tomar partido em querelas puramente materiais e económicas, com risco aparente de comprometer a sobrevivência do Oriente latino, entre as cidades de Pisa, Veneza e Génova. Uma vez mais parece que apenas os interesses da Ordem, aparentemente declarados, realmente velados, e não os do “bem comum cristão”, foram tomados em conta.

No Ocidente a diplomacia do Templo não teve a mesma notoriedade que no Oriente, mas ainda assim foi muito grande. De maneira que muitos senhores ou mercadores usavam-no como testemunha nas transacções, os barões confiavam-lhe o cuidado de cobrar dívidas, letras de câmbio ou impostos. Os reis agiam da mesma maneira, a exemplo de Henrique II de Inglaterra e Luís VII de França que, quando assinaram um tratado de paz em 1160, pediram que três Templários servissem de testemunhas. Os papas utilizavam-nos como embaixadores extraordinários, a fim de manter ou restabelecer a paz entre os príncipes cristãos[22].

Na 3.ª Igreja, a Espiritual ou de João, havia o total apartamento da vida profana e a entrega inteira à vida monástica e sacerdotal, num amplexo espiritual procurando a unidade das várias correntes dispersas do Cristianismo e, inclusive, trazer o Oriente ao Ocidente, unindo aos dois hemisférios com subentendido de uma Conquista Templária ou Espiritual do Mundo, tomando como partida já não Jerusalém nem Roma mas Tomar, na Terra Santa de Porto-Graal, nesta fazendo aflorar o Centro Oculto e Primordial de Agharta, pelo que Ordem do Templo relacionada a esse mesmo Centro teve um secreto e duplo papel: como Ordem em si mesma expressava a acção de Agharta na face da Terra (Trabalho Horizontal), e como Agharta por si própria manifestava-se na Face da Terra pela Ordem do Templo (Trabalho Vertical), assim formando a Cruzeta Universal ou a mesma Cruz Templária, pátea ou expansiva, assim lhe assentando com justeza o epíteto de Pramantha. Fica, pois, muito bem o título de “Templários de Agharta” que Saint-Yves d’Alveydre deu aos mais distintos e raros da Ordem[23].

Cruz Templária

Como todo o mundo civilizado sabe, infeliz e desgraçadamente os planos maquiavélicos de Filipe o Belo, rei de França, e do seu capataz o papa Clemente V, deitaram por terra, interromperam criminosa e sanguinariamente o grande Plano Sinárquico do Templo e consequente restauração dos Mistérios Antigos sobre a Terra[24].

Ainda assim, Gérard de Sede[25] afirma que após a sua extinção a Ordem do Templo, o seu Espírito Tradicional continuou a ser prosseguido na Europa por Filipe o Bom, Duque de Borgonha, que instituiu em 1429 a Ordem do Tosão de Ouro, a qual “teve o desígnio secreto de restabelecer os laços iniciáticos entre o Ocidente e o Oriente, rompidos pela destruição da Ordem do Templo”, segundo René Alleau[26].

Pintural parietal (século XVI) do Silêncio e Segredo na Charola ou Rotunda do Convento de Cristo, Tomar

Pintural parietal (século XVI) do Silêncio e Segredo na Charola ou Rotunda do Convento de Cristo, Tomar

No dia da instituição da Ordem, na Catedral do Precioso Sangue em Bruges, na Bélgica, passeou-se entre os convivas “um carneiro vivo pintado de azul e com os chifres dourados a ouro fino”, emblemático do Agnus Castus, o Cordeiro Casto ou Imaculado, o mesmo Agnus Dei qui tollis pecata mundi. A Ordem chegou a ter 22 capítulos gerais antes de pôr fim à sua existência oficial, mesmo se mantendo até hoje a sua condição exclusivamente honorífica, tendo sido a Ordem de São João de Malta, antes Ordem dos Hospitalários e depois de Rodes, quem deu prossecução ao interrompido Plano Sinárquico do Templo[27].

Respeitante ao mais que controverso processo de extinção do Instituto dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, só na França (e em Navarra e Nápoles, países-satélites daquele) eles sofreram as perseguições, prisões, torturas e condenações à morte que o rei francês lhes impôs para escândalo de toda a Europa civilizada que tinha os Templários na maior das considerações. O próprio papa Clemente V, sentado na cadeira de Pedro por intervenção directa de Filipe IV que agia a seu bel-prazer e à margem das decisões pontifícias, se admirou com o tratamento cruel dado à Ordem e não deixou de expressar o seu protesto a Filipe em 17 de Outubro de 1307, colocando os Templários da Cúria sob a sua protecção:

“Haveis lançado as mãos sobre as pessoas e bens do Templo, indo ao ponto de as aprisionar. À aflição do encarceramento haveis juntado uma outra aflição sobre a qual, por pudor para com a Igreja e nós próprios, julgamos melhor manter o silêncio.”

Por sua parte, conforme as crónicas da época conservadas na Torre do Tombo de Lisboa, “El-Rei Diniz indignou-se vivamente no trato dado aos Tempreiros da Francia” e, ele próprio Cavaleiro Donato, Fiel de Amor e Trovador, literalmente ignorou as recomendações, mais parecendo exigências impostas pela soberba cega, assim contrariando o mais elementar da política diplomática, a um país soberano e independente, do rei de França que exigia em 1308, num documento em forma de bula, “o castigo severo aos culpados”. E logo após a abolição da Ordem pelo papa, D. Dinis apressou-se a converter essa na nova Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, constituída pelos antigos Templários portugueses e estrangeiros que entretanto aqui procuraram refúgio seguro, transferindo-se todos os bens móveis e imóveis da primeira para a segunda, sem que a Ordem do Hospital se apoderasse deles e sem que o rei de França os apropriasse como era seu intento, o que aliás o próprio papa denunciara. De maneira que D. Dinis, certamente o maior estratega político do tempo, assim fechou a boca a Roma capataz de sua dona, a França, e assim se mantiveram as boas relações diplomáticas com o estrangeiro, por um lado evitando-se a guerra e, por outro, a excomunhão, temida mais pelas consequências sócio-económicas que pelo acto religioso em si, pois que tornava a pessoa ou a nação proscrita da “comunhão da Igreja”, logo da Europa católica que assim lhe cerrava todas as portas políticas e económicas acelerando a sua decadência e ruína[28]. Muitos dos nossos reis foram excomungados da Igreja, é sabido, quase todos até D. João I, e alguns outros até D. João V, que também o foi, mas sobreviveram graças à autonomia do País e às grandes manobras diplomáticas que não raro levaram o papado a revogar, a recuar na sua decisão implacável.

Por outra parte, a excomunhão do ambiente Templário marginalizava o expulso da protecção e comunhão da Ordem, do seu direito, e todos os confrades passavam a evitá-lo, como se fosse um leproso maligno, um proscrito da Fé, da Lei de Deus incarnada no Templo, decisão cuja última palavra cabia sempre ao Mestre, e só depois ao Papa, ainda que raramente este fosse havido ou ouvido nas decisões exclusivas da Ordem. Havia, contudo, pelo exercício da caridade cristã para com o excomungado, a possibilidade de reconvertê-lo da desordem e ele regressar ao redil paterno da Confraternidade, assim reabilitado aos olhos compassivos de seus Irmãos, conforme se depreende do texto francês da Regra.

Clemente e Filipe foram os exemplos vivos da inversão, perversão e perda da noção do sentido verdadeiro das castas. O papa desceu do estado brahmane ou sacerdotal ao de kshatriya revoltado, de guerreiro tomando as armas políticas do seu poder para ilegitimamente legitimar o crime que bem podia ter evitado; e o rei decaiu na condição de vaishya vendido à ganância do dinheiro e à soberba de Filipe na pretensão imperial de Bellator Rex da Europa inteira, substituindo-se ao verdadeiro Bellator Rex ou “Rei Guerreiro” de Jerusalém e de todo o Oriente, assim pretendendo apoderar-se das riquezas do mundo conhecido, no que foi contrariado por Jacques de Molay, o imolado último Grão-Mestre Templário. Essa parelha imperialista de ingrata lembrança é, afinal, a personificação do Cesarismo Romano em oposição aberta repressora da Cristandade Iluminada, assumida na época pela Ordem dos Templários[29].

Filipe IV de França

Filipe IV de França

Realmente Filipe, o monarca francês, estava profundamente endividado com o Templo: em 1297 os Templários adiantaram-lhe 2.500 libras; um ano depois, mais 200.000 florins são-lhe emprestados; em 1300, novo empréstimo de 500.000 francos. Sem possibilidades de pagar, tentou o suborno pela sedução: primeiro, cerca de 1304, convidou o Mestre Jacques de Molay para padrinho de batismo do seu filho, por o considerar o mais “o mais justo e perfeito cristão”, convite que foi aceite, mas certamente já com a desconfiança do velho Templário, decerto lembrado das várias vezes que o rei procurou a protecção segura das muralhas Casa-Mãe do Templo em Paris, perseguido pelo povo revoltado farto da sua tirania, e também daquela vez que, em 1302, Filipe com o seu excessivo séquito se hospedaram no mesmo Templo em Paris (onde, aliás, o tesouro real francês estivera instalado, de 1190 a 1296, altura em que Filipe o transferiu para o seu Palácio do Louvre, esbanjando-o até à ruína) e, despudoradamente, em nove dias consumiram oitocentas e seis libras de pão e dois mil setecentos e sete litros de vinho[30]. Em segundo, solicitou a sua entrada na Ordem em 1305, a título honorário ou como donato, na esperança óbvia de a poder manipular por dentro e usufruir das suas imensas riquezas. Sujeitou-se a uma recusa peremptória…

Clemente V de Roma

Clemente V de Roma

Quanto a Clemente, o papa romano de nome Bertrand de Got, descendia da antiga e alta casa gasconha dos viscondes de Lomagne, terá manifestado interesse pelas ciências herméticas, especialmente a Alquimia em que buscou freneticamente a Pedra Filosofal, não como sinónima de Realização Espiritual mas de incalculáveis riquezas materiais, pretensão indigna do seu status religioso[31]. O seu carácter fraco e apagado, inconstante, ambicioso e sensual, egoísta, impediu-o de conquistar tão precioso Arcano que, repito, mais que do efeito da obtenção do Ouro tem a ver com a causa ou Thesaurus Majorem: a Iluminação interior, espiritual. Não terá passado de um vulgar assoprador… Contrastando o seu proceder com a divisa familiar, Par infimis, “Semelhante aos mais humildes”, vive à larga entre intrigas e deboches. Nunca se desloca sem a sua amante, Brunissende, descendente de Bernard Aton, visconde de Albi, esposa de Hélio, conde de Marche, “que lhe custa mais que a Terra Santa”, suspira resignado.

E resignado sujeitou-se à vontade expressa do rei de França e à sua imposição predeterminada no Sínodo Geral de Viena, aberto a 16 de Outubro de 1311, de antemão destinado a extinguir a Ordem do Templo a qual todos consideravam inocente e sabiam da ambição do rei, e quando se preparavam para enunciar isso mesmo, com a comitiva portuguesa a liderar o protesto mais que justo da inocência dos Templários, Filipe irrompeu com as suas tropas na cidade e sob coacção impôs a sua sentença aos bispos reunidos. Desse Sínodo mais que forjado, resultou o papa Clemente emitir a bula Vox Clamantis, para todo o sempre abolindo a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, em 23 de Abril de 1312. Embora reconhecendo que nenhuma prova de culpa permitia estabelecer a veracidade das acusações e que “os anteriores procedimentos (do rei de França, digo eu ante o óbvio) dirigidos contra a Ordem não permitem condená-la canonicamente”, ainda assim teve o ambíguo, sob a coacção armada de Filipe, de precisar mas sem condenar:

“Considerando a má reputação dos Templários, as suspeitas e acusações de que são objecto; considerando a maneira e a forma misteriosas como se é admitido na Ordem, a má e anti-cristã conduta de muitos dos seus membros; considerando sobretudo o juramento exigido a cada um de nada revelar sobre esta admissão […]; considerando, além disso, o perigo que correm a fé e as almas, bem como as horríveis perversidades de um grande número de membros da Ordem […], abolimos, não sem amargura e dor íntima, não em virtude de uma sentença jurídica, mas por modo de decisão ou ordenança apostólica, a supracitada Ordem dos Templários, com todas as suas instituições.”

Abolida a Ordem não por lei jurídica da Coroa mas por direito canónico da Igreja, Filipe o Belo aumentou a repressão sobre o Templo (cuja prisão em massa dos monges-cavaleiros em França tivera início na manhã de 13 de Outubro de 1307), ele que já antes desse Sínodo mandara queimar vivos 54 Irmãos em Paris, em 13 de Maio de 1310, apesar de em Março desse mesmo ano os Cavaleiros do Templo declararem ao Papa que “este processo foi súbito, iníquo, injusto; não foi senão violência atroz, intolerável engano. Muitos morreram nas prisões e nas torturas. Estas violências e tormentos tiraram-lhes completamente o livre arbítrio”.

Após o Sínodo de Viena e para que os bens do Templo não caíssem definitivamente nas mãos ambiciosas do rei Filipe, o papa Clemente teve o que sempre rareou nele: a coragem de emitir uma segunda bula, Ad providam Christi Vicarii, de 2 de Maio de 1312, atribuindo aos Hospitalários os bens dos Templários, excepto em Portugal e Espanha.

Isso deve ter enfurecido sobremaneira Filipe, que descarregou a sua fúria assassina no Grão-Mestre Jacques de Molay e seus três companheiros, Geoffroy de Charnay, Geoffroy de Gonneville e Hugues de Pairaud, presos do castelo de Chinon. Apesar de protestarem a sua inocência e a da Ordem, e não lhes tendo sido descoberta culpa alguma, ainda assim foram condenados como relapsos e entregues à autoridade secular, ou seja a de Filipe IV, e ante a visão da fogueira que os iria consumir Gonneville e Pairaud fraquejaram e confessaram publicamente a mentira da sua heresia, sendo a pena comutada em prisão perpétua, mas quem não fraquejou ante os indignos carrascos foram Molay e Charney, tendo protestado publicamente a sua inocência e a da Ordem, o que lhes valeu serem queimados vivos na Ilha dos Judeus, em Paris, a 18 de Março de 1314. Foi-lhes concedido um último favor: voltar o rosto para a catedral de Notre-Dame e à Mãe de Deus se encomendarem, em conformidade ao hábito templário de dizer no fim das orações da tarde “as completas de Nossa Senhora, visto que Nossa Senhora esteve na origem da nossa religião e para Ela e em sua honra será, se a Deus prouver, o fim das nossas vidas e o fim da nossa religião, quando Deus quiser que seja”.

Segundo a tradição, antes de morrerem os dois Templários exorcizaram o papa, o rei e o ministro deste, Guilherme de Nogaret (advogado do regicida que defendera o processo contra os Templários, servindo-se de mentiras e usuras, a começar por ter ludibriado Hugues de Pairaud, que em 1307 era Tesoureiro do Templo na Casa-Mãe de Paris, levando-o mentir acerca da Ordem e do Grão-Mestre com acusações fantásticas, o que depois desmentiu e reafirmou a inocência de tais imputações e a pureza cristã do Instituto, e que foi o começo do processo acusatório dos Cavaleiros de Cristo), convocando os dois primeiros para antes de um ano comparecerem no Tribunal de Deus. Assim aconteceu… morrendo o papa na noite de 19 para 20 de Abril de 1314, tomado de cólicas intestinais, e no mesmo ano, em 29 de Novembro, o rei acabava os seus dias em Fontainebleau, quando perseguia um javali que o fez cair do cavalo. Não tinha ainda 46 anos. O indigno Nogaret já havia morrido antes, em meados de Abril de 1313, mordido por um cão raivoso que lhe pegou o mal, acabando tresloucado e vomitando fel. Diz-se que oito dias antes do acidente se cruzara com um grupo de Templários que iam ser queimados e um deles, reconhecendo-o, gritou-lhe:

– Ministro indigno, medita nos efeitos das tuas mentiras e da tua injustiça! Não podemos convocar-te para compareceres perante o teu senhor, pois ele tornou-se, com o papa, o nosso pior inimigo; mas convocamos-te para compareceres, de hoje a oito dias, perante o Tribunal do Juiz dos vivos e dos mortos.

Morte de Filipe IV

Morte de Filipe IV

Sobre o que levou ao desfecho trágico da Ordem do Templo, ao êxito da ardidura de Filipe de França subjugando a vontade do papa que ajudara a eleger, Olímpio Gonçalves escreve com muita propriedade[32]:

“Duas ordens de razões convergiram para a queda da Milícia de Cristo, ambas de carácter cesarista: o cesarismo de Filipe, o Belo, e o cesarismo papal. O Papa havia lançado a Bula “Ausculta Filii” contra o Rei de França, exigindo a presença dos seus bispos em Roma e reclamando a sua defesa, por delegação, em caso de ausência pessoal. O Pontífice Bonifácio VIII sentia-se inquieto com a crescente autonomia canónica da França. Pretendia exercer um controlo exaustivo sobre os bispos gauleses, reformar o país, corrigir o Rei e garantir um governo submisso a Roma. Nos últimos tempos de seu pontificado ocorreu uma luta encarniçada tendo como protagonistas Bonifácio VIII e Filipe o Belo. A animosidade, intensa, advinha de um grande número de antigas disputas entre a Igreja e alguns Estados medievais. Não percamos de vista que os Papas dispunham, então, dum enorme poder material, corroborado por uma autoridade eclesial apoiada em poderosos instrumentos de intervenção, entre os quais o da excomunhão, terrível, quase mortal.

“Mas Bonifácio dispunha, em todos os reinos cristãos, de uma guarda imperial temível e rica, a dos nobres Cavaleiros da Ordem do Templo, reforçada pela Ordem Teutónica, não contando com a acção apostólica dos seus bispos, arcebispos e de uma legião de clérigos.

“Perante a exigência autocrática de Bonifácio, que indiciava uma humilhação sem limites aos olhos dos seus próprios súbditos, Filipe decide convocar os Estados Gerais e expor-lhes as pretensões abusivas do Papa. Os Estados Gerais apoiam o seu Rei, sem reservas. Estavam criadas as condições de sublevação contra o Papado e, infelizmente, as de desconfiança generalizada relativa à Ordem do Templo, vista como conivente com as intenções de Bonifácio.

“Filipe, um frio calculista, congemina a queda de Bonifácio VIII e a destruição do poderio Templário. A animosidade rancorosa advinha de um conjunto de circunstâncias:

“– A sua solicitação de ingresso na Milícia do Templo, a título honorário, e já concedida a outros soberanos, foi-lhe recusada. Os Cavaleiros terão desconfiado de que, nas intenções inconfessadas de Filipe, haveria a esperança de ocupar, um dia, o Grão-Mestrado, reduzindo-o à Coroa.

“– O seu ressentimento pelo facto dos Templários terem relutado no resgate do seu avô, São Luís, durante as Cruzadas.

“– Crivado de dívidas e grande devedor da banca templária, sentia-se incapaz de ombrear o tesouro real com as arcas do Templo. Este, era custodiado na Casa Mãe do Templo, em Paris, o que exacerbava o seu ressentimento.

“Quanto a Bonifácio, as razões deviam-se às manifestações de exibicionismo absolutista deste Papa, para além da humilhação infligida a Filipe convocando os bispos franceses para Roma:

“– O Papa arvorara, pela primeira vez, o TRI-REGNO ao cingir a Tiara, a Mitra das Três Coroas, símbolos dos Três Poderes.

“– Convoca-o discricionariamente pela Bula “Ausculta Filii”.

“– No dia da sua coroação, colocou às rédeas da sua montada os próprios Reis da Hungria e da Sicília.

“– O mesmo Bonifácio, aquando do seu jubileu, em 1300, apresentou-se revestido das insígnias imperiais, precedido de dois gládios desembainhados.

“Temos de convir, com algum assentimento, que Filipe IV, um cesarista, tenha perdido todo o respeito por um Papa que, para ele, não passava de um usurpador imperial. Filipe inicia suas maquinações astutas contra o Papa e contra os Templários. Em 7 de Setembro de 1303, envia o seu ministro Nogaret em missão secreta a Itália. Homem fanático e impiedoso, Nogaret recruta um pequeno exército privado e cai de surpresa sobre o Papa, quando este, tranquilo, se sentia seguro no reduto dos seus próprios domínios. É verdade que Bonifácio VIII havia já perdido muito do seu ímpeto, nada tinha de edificante, física e moralmente. Peter Partner (in “El Asesinato de los Magos”) comenta que uma referência da época dizia que o Papa nada mais era “do que olhos e língua num corpo putrefacto”. Mas os Templários estariam bem conscientes do grande embuste personificado por uma Igreja sem escrúpulos, indigna da entronização da Autoridade na Terra.

“Livre de Bonifácio, Filipe IV trama o cenário ideal para ultimar suas ambições. Assegura a aprovação romana e promove a eleição do arcebispo francês (de Bordéus) Bertrand de Got, coroando-o como Papa Clemente V, em Lyon, a 17 (antes, 14 de Novembro) de 1305. Este prócere de Filipe, para alcançar a Tiara, assinou um acordo prévio com o monarca, sob seis condições juradas. A última destas cláusulas manteve-se em sigilo, mas existem alusões que indiciam que se obrigava à destruição do Templo. Bertrand submete-se às exigências de Filipe e converte-se num instrumento político da monarquia francesa. A Autoridade cede ao Poder. Como acto de gratidão o Papa nomeia 12 cardeais franceses, lídimos títeres de Filipe o Belo.

“A destruição do Templo não se afigurava uma empresa nada fácil. Seu poder militar assentava em dezenas de milhares de lanças no activo, não contando com os Infantes e Cavaleiros nobres, prontos a suprir com as suas próprias armas e homens a Milícia. Dividida em nove mil Comendadorias (outro número significativo) distribuídas por nove Províncias, uma das quais Portugal, dispunham de uma riqueza imensa. Em todas as Cortes, a sua primazia representativa sobrelevava a das cabeças coroadas. Ninguém, excluindo o Papa, podia intervir ou controlá-los. Estavam isentos dos direitos de transmissão, de derrama, de dízimo, de portagens. A Comendadoria de Paris, sede da Milícia, repleta de magníficos edifícios, funcionava como uma espécie de super capital, uma Cidade-Mãe, mais própria de um Império europeu. Este Império virtual estendia-se das costas da Mancha e do Atlântico aos Pirinéus e a todo o Ocidente, da Irlanda à Grécia. Banqueiros, soldados, navegadores, políticos, construtores, administradores, sábios e diplomatas, detentores dos mistérios gnósticos, heréticos e da tradição imorredoura sinárquica abraçaram um sonho que os guiou por mais de 200 anos.

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“Internamente, e até onde os limites conjunturais o permitiam, procuraram conformar sua complexa estrutura segundo os ditames da Tradição. A Ordem dispunha de quatro níveis: em primeiro lugar, os Cavaleiros (frates milites), obrigatoriamente de ascendência nobre; em segundo os Capelães (frates capellani); depois, os Escudeiros (frates servientes armigeri); por fim, os servientes famuli et officii, ou seja, os domésticos e os artesãos. No topo da hierarquia, oficiava o Mestre do Templo de Jerusalém, como Grão-Mestre.

“Embora o poder do Grão-Mestre fosse soberano, não o exercia de forma absoluta. Quase sempre as suas decisões tinham força de lei, mas certas prescrições podiam cerceá-las. A investidura de um novo Irmão obrigava-o à consulta do Capítulo, que congregava os grandes Comendadores das Províncias e a cujo voto maioritário teria de se inclinar. A eleição do     Grão-Mestre dependia exclusivamente dos Cavaleiros, por determinação da Bula “Omne datum optimum”, de 1163, ainda que por procedimentos complexos. O Poder do Grão-Mestre era compartilhado por quatro dignatários assessores, entre os quais, um Senescal e um Marechal.

“A Autoridade, porém, sempre foi praticada a coberto do mais inviolável sigilo por um Grão-Mestre Oculto. Conspícuos investigadores e historiadores isentos admitem-no frequentemente. No seio institucional da Ordem, o Postulado doutrinário e dicotómico Autoridade-Poder foi restaurado. Desde a criação até ao seu termo, 22 (outro número significativo) Grão-Mestres administraram a Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão. Treze deram a vida pelo ideal do Templo. Quantos teriam sido os Soberanos Grão-Mestres Ocultos? Provavelmente jamais o saberemos.

“Conquanto triunfantes, os Templários constituíram sempre uma corporação estranha e fracturante para a mundividência dos feudos e Reinos da Idade Média europeia, suscitando estados de constrangimento e de receio que vieram a culminar na sua ruptura impiedosa pela acção de um Rei cesarista. Tal como todas as Sinarquias se corromperam face à subversão sistemática cesarista, o ideal secreto dos Cavaleiros do Templo foi derrubado pelo golpe conjugado, mortífero, dum duplo intento cesarista, o do Papado e o da Realeza. Bonifácio excede-se no exercício de um Poder discricionário, quando, como Vigário de Cristo, devia restringir-se ao múnus da sua Autoridade. Filipe, o Belo, rebela-se contra o Pontificado e submete Inocêncio aos seus interesses temporais e políticos. Isto é, apodera-se, por interposta pessoa, do atributo da Autoridade. Filipe e Bertrand de Got foram cúmplices de um dos maiores crimes registados na História.”

Assim terminou oficialmente a Ordem do Templo, pois o seu chefe supremo a que devia obediência, ou seja, o Papa, a aboliu por ordenança apostólica. Sendo um Instituto católico, sem dúvida só poderá ser o Papa a anular a abolição e fazê-la reviver. Até hoje isso não aconteceu… e ela permanece no sono da memória, a despeito de quem hoje faz do sono sonho e da memória quimera dando forma a quantos templismos hajam, assim mesmo todos à margem da legitimidade canónica assegurada pela sucessão apostólica em que se firma o trono e vicariato de Pedro.

NOTAS

[1] Cf. Mário Simões Dias, Os Templários em Terras de Portugal. Edição do Autor, Coimbra, 1999. E também Ailbe Luddy, Bernardo de Claraval. Editorial Aster, Lisboa, 1959.

[2] Roberto Lucíola, O Graal e as Pedras Sagradas. Revista “Aquarius”, n.º 8, Ano 2, Outubro-Novembro-Dezembro, Rio de Janeiro, 1976.

[3] Henrique José de Souza, Símbolos e Brasões. Revista “Dhâranâ”, n.º 111, 1942, S. Paulo, Brasil.

[4] Roberto Lucíola, Marcha das Civilizações. Revista “Aquarius”, n.º 24, Ano 7, Janeiro a Junho, 1981. Cf. O Livro de Jasher (Um dos Livros Sagrados da Bíblia), na versão de Alcuíno. Editora Renes, Rio de Janeiro, 1980.

[5] Cf. Rafael Alarcón H., A la sombra de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1986. Cf. também O Livro de Enoch, Editorial Minerva, Lisboa, Fevereiro de 1976.

[6] Cf. João Aníbal Henriques, História Rural Cascalense. Edição da Junta de Freguesia de Cascais, 1997.

[7] Gèrard de Sede, Os Templários estão entre nós. Colecção Mitos, Estúdio Cor, Lisboa, 1974.

[8] Acerca da Nazaré e do sítio de S. Gião, tive oportunidade de responder, em carta datada de 9.3.1999, à questão colocada por um meu correspondente e valoroso amigo da Marinha Grande, já com larga colheita literária editada, senhor Hermínio Freitas Nunes: – Há diversos Finis Terrae, com o Mar dos Mortos ou dos Mistérios adiante: Sagres, Espichel, Roca, Carvoeiro, Corunha, etc., onde assentaram primitivas culturas e respectivas civilizações: Celtas, Celtíberos, Judeus, Árabes, Moçárabes, Cristãos, estes impulsionando a expansão geo-sócio-económica do Estado Hispânico sob a égide da Cruz, como os Árabes o fizeram sob a égide do Crescente, os Judeus da Torah e os Celtas do Megalitismo. O Cristianismo deu forma à cultura Arábica, e ambos herdaram a Lei religiosa e laica dos descendentes de Abraão, Isaque e Ismael. Assim se formou o Portugal Hispânico, à beira dos Mares dos Mistérios com os Finis Terrae debruando-os.

Sam Giam, Gião ou Julião, designado conforme a antiguidade ortográfica dos documentos, cujo eremitério (casa de eremita), depois capela (ou seja, com direito a capelão) e finalmente igreja (com direito a pároco) da sua evocação, sita perto da Nazaré, possivelmente será essa referida por Frei António Brandão na Monarquia Lusitana, Livro XII, página 32.

Tanto mais que a primitiva e visigótica narrativa mista de lendária e historiográfica da Virgem da Nazaré, anda ligada a odisseias apostólicas onde comparticipa o neo-platónico Santo Agostinho. Em Nazaré da Galileia a imagem votiva da Senhora, que a lenda diz ter sido feita pelo próprio Apóstolo S. Lucas, passaria das mãos do monge grego Ciríaco para as de S. Jerónimo. Esta mandou-a a Santo Agostinho que a recambiou para o Mosteiro dos Agostinhos de Cauliniana, perto de Mérida. Com as perseguições árabes aos cristãos, D. Romano, abade desse mosteiro, juntamente com o destronado rei visigodo da Galiza, D. Rodrigo, na sua fuga tomaram o rumo do Oeste e só pararam à vista do mar, nas cercanias da Nazaré, onde hoje é a Pederneira – Valado de Frades. Certamente buscaram refúgio na comunidade Agostinha de São Gião Hospitalar, em cuja igreja visigótica (datada do século VII) viriam a depositar a imagem da Virgem Negra da Nazaré.

Com o avanço das perseguições árabes, D. Rodrigo terá sacado daí a hipertúlica imagem e a escondido dentro dum cofre numa gruta do Monte Siano (ou Sião), onde mais tarde aconteceria o episódio milagroso do Caçador Santo D. Fuas Roupinho, almirante-mor da frota marítima Templária e donatário ou senhor de Óbidos. Após esconder a santa imagem votiva, já morto o abade D. Romano, o ex-rei abandonou o lugar e rumou para Viseu onde encontrou a morte e onde foi enterrado, na igreja de S. Miguel.

Creio mesmo que a evocação dos agafados (leprosos) a Sam Giam é posterior ao século X, pois antes seria a St.ª Maria de Nazareth, da Galileia, que deu nome a este sítio, e ao Padre St.º Agostinho, um dos 4 Doutores da Igreja. A necessidade da evocação nasceria das surtidas de lepra negra que assolava a região por causa do centeio (com que se fazia o pão) contaminado pelo salitre e os insectos povoando a zona pantanosa, indo buscar refúgio sobre-humano em S. Julião Hospitalar, assim elevado a Orago novo dessa igreja paroquial. Esta seria abandonada no reinado de D. Sancho I (inícios do século XIII) por ocasião de nova epidemia de lepra maligna, isto é, “peste negra”, por deixar os corpos enegrecidos, em putrefacção ainda vivos, contaminando de imediato outros.

Abandonado o templo passou-se a paróquia para o novo sítio da Nazaré, mantendo os Agostinhos Valado de Frades, com os Templários por detrás desde 14 de Setembro de 1182, data da lenda Graalística do Cavaleiro Templário perseguindo um veado que se atirou no abismo, quase seguido do cavalo de D. Fuas Roupinho que estancou subitamente à beira do precipício quando o cavaleiro clamou o socorro da Mãe de Deus. No sítio do ocorrido levantou-se depois a pequena ermida da “Memória”, próxima da igreja paroquial da Virgem de Nazaré.

O próprio veado da lenda Templária não deixa de ser o cristianizado unicórnio, animal mítico carregado de simbolismo cristóforo com isso se ligando etimologicamente a Júlio (ão é um aglutinativo semântico judaico), proveniente do latim Iulis que o recolheu do grego Iliós, variante de Élios, designativo de “Filho do Altíssimo”, aqui o Cristo à direita do Pai Eterno. Assim, parece que a dinâmica do encontro mítico de D. Fuas com o Cristo aconteceu com a intercessão da Santa Virgem Maria, tipomorfização do Divino Espírito Santo. Houve, pois, uma Iniciação Cavaleiresca, Kshatriya, também chamada antanho de Iniciação Mariana.

[9] Jorge Ramos, O que é a Maçonaria. Editorial Minerva, Lisboa, 1975.

[10] Salmo 115, 1, “O Deus Único Verdadeiro”: – Não a nós Senhor, não a nós, mas ao Vosso nome dai glória, pela Vossa bondade e fidelidade!

[11] Cf. Sepher-Ha-Zohar. Editora Renes, Rio de Janeiro, 1977.

[12] Jean Tourniac, Melquisedeque ou a Tradição Primordial. Madras Editora Ltda., S. Paulo, 2002.

[13] D. Henrique de Borgonha era sobrinho do abade Hugo de Cluny. Cf. Pierre David, Études Historiques sur la Galice et le Portugal. Instituto de Estudos Históricos “Dr. António Vasconcelos”, Coimbra, 1947.

[14] Olímpio Gonçalves, Os Templários e a Sinarquia. Texto inserto no Caderno “Graal”, s/d, e adaptado de palestra proferida pelo autor em Sintra no dia 7 de Maio de 2005.

[15] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010. E do mesmo autor, Lisboa Secreta (Capital do Quinto Império). Via Occidentalis Editora Lda., 1.ª edição Abril de 2007, Lisboa.

[16] Cf. Manuel J. Gandra, O Projecto Templário e o Evangelho Português. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda., 1.ª edição Março de 2006, Lisboa.

[17] Comunidade Teúrgica Portuguesa, Os Portais Celestes – I, apostila n.º 30-A, Grau Munindra (Modelador) ou Série Integração.

[18] Cf. Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal. Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986.

[19] Maurice Guinguand e Beatrice Lanne, O Ouro dos Templários (Gisors ou Tomar?), cap. 9, pp. 71-72. Livraria Bertrand, Lisboa, 1977.

[20] Bernard Marillier, Templários. Hugin Editores, Lda., Lisboa, Novembro de 1998.

[21] Bernard Marillier, ob. cit.

[22] Bernard Marillier, ob. cit.

[23] Saint-Yves D´Alveydre, La Misión de la India en Europa (La Misión de Europa en Asia). Luis Cárcamo, Editor, Madrid, 1988.

[24] Fernando Pessoa, em seu Tratado Ordem do Subsolo, nos textos coligidos pelo prof. António Quadros (Obra em Prosa de Fernando Pessoa, volume À Procura da Verdade Oculta, editado pela Europa-América) e pela dr.ª Yvette Centeno (Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética, Editorial Presença), diz: “Nas doutrinas secretas dos Templários estão os quatro segredos, que os haviam de ser depois da Maçonaria, assim como de todas as Ordens. O primeiro, contido nas cores branca e negra da Bandeira dos Templários, e nos signos Virgem e Escorpião do Zodíaco, é o chamado segredo do Grau de Mestre [Virgo et Scorpius = Pai e Filho, Divino e Terreno. – Nota V.M.A.]. O segundo, contido na Cruz vermelha, é o da Encarnação de Cristo, e é a chave não só de toda a religião cristã, senão também da sua verdadeira origem histórica, por trás das alegorias evangélicas. O terceiro, contido na colocação da Cruz, à esquerda, sobre o ombro, é a chave da Ordem, e portanto de todas as Ordens. O quarto, contido nos três Graus, com que a Ordem é formada, é a chave do Governo Secreto do Mundo; também é conhecido por o Segredo da Cavalaria”.

[25] Gérard de Sede, ob. cit.

[26] René Alleau, Da Natureza dos Símbolos, p. 103. Paris, 1958.

[27] Baron Reinffenberg, História da Ordem do Tosão de Ouro. Bruxelas, 1840. Elena Postigo Castellanos, El Segundo Jasón. Los Habsburgo y la imagen mítica del Maestrazgo del Toisón de Oro. In As Ordens Militares e as Ordens de Cavalaria na Construção do Mundo Ocidental – Actas do IV Encontro sobre Ordens Militares, Lisboa, Edições Colibri / Câmara Municipal de Palmela, 2005, pp. 715-767.

[28] Stephen Howarth, Os Cavaleiros Templários. Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1982.

[29] Fernando Pessoa, no Tratado Ordem do Subsolo, afirma: “O suplício físico de Jacques de Molay, impotente para produzir nenhum resultado mais que o baixamente material, desencadeou sobre a Igreja as forças mágicas que essa acção material era incompetente para dominar, servindo só para as desencadear. E o pior foi que o processo de imolação fosse pelo Fogo, isto é, pelo Elemento da Ordem. Assim, para falar um pouco obscuramente, o que era Adepto Exempto, em vez de passar a Mestre de Templo, foi erguido a Mago, e, apto a pronunciar a Palavra da Era, pronunciou-a como Irmão Negro e contra a Igreja. Toda a civilização moderna, desde a Reforma aos nossos tempos, no que é oposição à Igreja e conspurcação dela e dos seus princípios, é a vingança encarnada de Jacques de Molay. A fogueira em que foi queimado o Grão-Mestre dos Templários foi o lume que ateou o incêndio em que hoje todos ardemos”.

[30] Henri de Curzon, La Maison du Temple de Paris. Paris, 1888.

[31] Cf. Gérard de Sede, ob. cit.

[32] Olímpio Gonçalves, ob. cit.

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Processo dos Templários: o maior Julgamento da Idade Média – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Jul 21 2015 

Processo contra os Templários

trecho do Marquês de Pombal

Durante o julgamento dos templários em França, nos finais do primeiro decénio e inícios do segundo do século XIV, as acusações contra eles foram lidas em pormenor. As acusações primitivas do mandato de Maubuisson perpetrado por Guillaume Nogaret a mando de Filipe IV, tinham sido que os templários negavam Cristo e cuspiam na Sua imagem; trocavam beijos obscenos e entregavam-se a práticas homossexuais; adoravam um ídolo estranho identificado ao Príncipe das Trevas: seria uma caveira, ou um bode ou um busto chifrudo, ou talvez uma mistura inextrincável de tudo isso, pois não se sabia o que era… porque nunca alguém o vira, mas tal seria justificado por os templários o esconderem das vistas estranhas à Ordem. Agora, no Processo de Paris, os templários já não enfrentavam três mas sim sete grupos de acusações, especificadas em cento e vinte e sete artigos. Os grupos eram os seguintes:

Primeiro, e mais importante, a negação de Cristo. Ao ser recebido um novo templário, era obrigado a renunciar à sua crença na divindade de Cristo e a aceitar que Cristo não era o Salvador, mas sim um falso profeta crucificado pelos seus próprios pecados. O novo irmão tinha depois que aviltar o crucifixo, cuspindo-lhe, urinando-lhe em cima e pisando-o aos seus pés. Todas as outras acusações tinham nessa o seu fundamento. Segundo, os templários eram idólatras. O seu ídolo era um gato preto, ou um bode negro ou um crânio com poderes mágicos. O crânio podia responder a perguntas; proporcionava a riqueza dos templários e destruía os seus inimigos, e cada irmão tinha de usar à volta da cintura uma corda que havia sido amarrada ou enrolada ao tal ídolo. Cada irmão ficava assim magicamente ligado ao ídolo, compartilhando o seu poder e subserviente a ele. O terceiro grupo de acusações abrangia diferentes aspectos da descrença dos templários. Em virtude de Cristo não ser o Messias, os sacramentos da Igreja nada significavam para eles e os seus padres não consagravam a hóstia quando celebravam a missa; a missa dos templários não passava de uma mascarada. O quarto grupo relacionava-se com a absolvição dos pecados; o Mestre do Templo e outros dirigentes ouviam confissões dos irmãos e absolviam-nos, mesmo sem terem qualificações sacerdotais para isso. Seguiam-se as obscenidades dentro da Ordem, os beijos na boca, no umbigo, no ventre, no ânus, nas nádegas e na espinha, e a homossexualidade que os irmãos recebiam ordens para aceitar. O sexto grupo era o das acusações de cupidez. A principal preocupação dos irmãos em todas as ocasiões seria o enriquecimento material da Ordem, indistintamente por meios legais ou ilegais. Sétimo e último, o secretismo da Ordem era considerado criminoso, pois não só as recepções e reuniões do Capítulo efectuavam-se em salas guardadas e com as portas e janelas fechadas à chave e tapadas, como também qualquer irmão que revelasse os segredos do Templo era encarcerado ou assassinado[1].

Foi assim, na terça-feira de 7 de Abril de 1310 na cidade francesa de Chinon, com essas acusações que se abriu o processo contra o Templo, dirigido pelo conselheiro do rei de França, Guillaume Nogaret, auxiliado pelo advogado Plaisians, ambos manipulando os três cardeais enviados aí pelo mesmo Filipe IV que os escolhera “a dedo”. Um dos delegados pontifícios era o arcebispo de Sens, Filipe de Marigny, cujo irmão era o intendente-mor das finanças do rei. O arcebispado de Sens tinha autoridade sobre o bispado de Paris, onde os templários acusados estavam presos, sendo esse arcebispo um homem de Filipe IV que conseguira arrancar ao papa Clemente V a nomeação do religioso, vital ao êxito do seu plano maquiavélico previamente concebido. Presente ainda no julgamento, como testemunhas de acusação, de entre outros o carcereiro brutal dos templários, e destes prisioneiros haviam muitos que tinham confessado todas as heresias apontadas, mas sob a coação da tortura imposta, sem contar com um rol numeroso de testemunhas completamente alheias à Ordem as quais Nogaret comprara, que vomitaram tudo quanto os delegados do rei e do papa queriam ouvir. Em suma, o julgamento foi forjado, assim também as provas e a sentença viciada desde muito antes de começar o processo, portanto, não passou de uma farsa ignóbil e cruel onde os acusados já estavam de antemão condenados.

“– Sofri tanta tortura – confessa aos juízes, por exemplo, o templário albigense Bernard du Gué –, tanto interrogatório, resisti tanto ao fogo que a carne dos meus calcanhares ficou toda queimada e os ossos caíram aos bocados”. Por sua vez, dentre centenas de testemunhos idênticos de templários aprisionados e presentes ao julgamento, afirma o templário borgonhês Aimery de Villiers-le-Duc: “– Sim, eu tomei conhecimento de alguns destes erros e confessei-os, mas foi sob o efeito das torturas”[2].

Templário interrogado sob tortura

Templário interrogado sob tortura

O próprio Mestre Jacques de Molay, homem idoso que passara toda a vida no serviço militar, sendo vassalo exclusivo do papa e não de qualquer rei, a começar pelo de França que assim não tinha legitimidade para o deter, diz-se ter vacilado ante a visão exposta da câmara das torturas no castelo de Chinon onde estava detido com outros dignitários da Ordem, e assim confessado tudo quanto os inquisidores queriam ouvir, como consta do documento de Chinon, redacção final da controversa inquirição aos prisioneiros, onde as confissões lhes foram extirpadas pela coação das torturas, a ponto da maioria dos delegados papais, exceptuando os leais a Filipe IV, assinarem o documento inocentando os templários[3].

É assim, nesse mais que questionável documento, que aparece a confissão de Jacques Burgomundus de Molay, que face às circunstâncias duvido tenha sido textualmente assim e mesmo alguma vez tenha lido a redacção final da que lhe foi imputada como “confissão voluntária”, pois há contradições palmares no texto, uma delas a da deposição do manto da Ordem no novo irmão antes do seu juramento, quando é precisamente o contrário (nessa e em toda a Ordem de Cavalaria e Religião), erro elementar que certamente não seria o Mestre do Templo a o cometer, antes um perjuro pondo na boca dele palavras que nunca proferiu:

“Item. Ao vigésimo dia do dito mês [de Agosto de 1308], na nossa presença, na dos notários e testemunhas, constituído em pessoa freire Jacques de Molay, cavaleiro grão-mestre da Ordem da Milícia do Templo, tendo jurado e sido diligentemente interrogado, segundo a forma e o modo acima referidos, disse que passaram cerca de quarenta e dois anos desde que ele foi admitido, junto de Beltiam da diocese de Autun, como freire da dita Ordem pelo freire Umberto de Pairaud, então visitador de França e de Poitiers, cavaleiro na capela da casa do Templo do dito lugar de Béaune; e disse, a propósito do modo da sua admissão, que o dito freire que o admitiu lhe mostrou uma cruz, depois de lhe transmitir o manto, e ordenou-lhe, a ele que estava sendo admitido, que renegasse a Deus cuja imagem estava pintada nessa cruz e que cuspisse nela, o que ele fez; todavia não cuspiu para cima da cruz mas ao lado dela, segundo disse.

“Item. Disse que fez a referida abnegação apenas com a boca e não com o coração. Diligentemente inquirido sobre o pecado da sodomia, a cabeça idolatrada e os beijos proibidos, disse nada saber. Inquirido se se confessou coagido por súplica, recompensa, agradecimento, favor, por medo ou por ódio ou por instigação de alguém, por força ou ainda por receio de torturas, disse que não. Inquirido se, depois de ter sido acolhido, foi submetido a interrogatórios ou a torturas, disse que não. Depois disto, nós que o reincorporamos na unidade da Igreja e que o restituímos à comunhão dos fiéis e aos sacramentos eclesiásticos, concluímos que deve ser consagrado, segundo o uso da Igreja, o benefício da absolvição àquele mesmo freire Jacques, grão-mestre da dita Ordem, de acordo com o modo e a forma sobrescritos, ele que abjurou nas nossas mãos tanto a referida heresia como qualquer outra, que prestou juramento corporal perante os Santos Evangelhos de Deus e que pediu humildemente o benefício da sua absolvição.”

Pergaminho do Documento de Chinon

Pergaminho do Interrogatório de Chinon

Stephen Howarth (ob. cit.) informa que um templário de Maiorca, ao ser-lhe dito que Jacques de Molay fizera uma confissão completa, comentou que “o Mestre mentiu com quantos dentes tem na boca”. Já nas Irlanda, na Escócia e nas Ilhas Britânicas era opinião geral que os irmãos da Milícia estavam inocentes. Mas para satisfazer o papa elaborou-se uma solução de compromisso. Os templários declararam-se “tão difamados que os artigos da bula papal não podiam justificar-se”; por isso, foram absolvidos pelos prelados de Inglaterra e reconciliados com a Igreja.

Na Alemanha e em Chipre, onde a principal Casa da Ordem estava localizada, as autoridades foram menos diplomáticas e pura e simplesmente absolveram os irmãos do Templo. A absolvição alemã verificou-se após dois incidentes dramáticos: em Maio de 1310, um grupo de vinte e dois templários, armado e com armadura completa, entrou à força das câmaras conciliares do arcebispo de Mogúncia e informou que a inocência da Ordem tinha sido demonstrada miraculosamente em Paris: disse que as túnicas brancas e as cruzes vermelhas dos irmãos lá queimados não tinham sido danificadas pelas chamas, no meio das quais tinham sido vistas brilhar com uma luz sobrenatural. O arcebispo ficou suficientemente impressionado para adiar o seu concílio, e quando ele foi reatado dois meses depois quarenta e nove testemunhas (incluindo doze que não eram templários) defenderam a Ordem em geral e de Molay em particular, dizendo que ele era “tão bom quanto qualquer cristão podia ser”. Mas a absolvição subsequente desagradou ao papa Clemente. Toda a história dos julgamentos começava a pesar até mesmo na sua alma prevaricadora. Começava a desejar um fim para tudo, e queria que esse fim fosse o mais possível uniformemente respeitador da sua autoridade o mais possível questionada em todas as partes, particularmente em Portugal e Aragão, devido à sua subida ao sólio pontifício exclusivamente graças ao rei de França. Consequentemente, anulou o veredicto alemão e alegou que a decisão era seu direito exclusivo; e em Chipre o governador da ilha, que era amigo da Ordem e a declarara inocente, uma manhã foi descoberto apunhalado – um assassínio conveniente, pois o papa pôde assim efectuar um novo julgamento em que o veredicto inicial foi invertido.

É nestas condições que Jacques de Molay se apresenta ante os seus juízes-carrascos em Paris e nega, frontal e veementemente, todas as acusações de heresia tanto da sua pessoa como da Ordem inteira, valendo isto por renegar à sua pressuposta confissão anterior em Chinon. Enfrentou os algozes com um visível desdém feroz e com um mudo desprezo por eles ouviu a sua condenação a ser queimado vivo na fogueira, o que não confere com o seu pressuposto acobardamento anterior perante a visão da tortura. De maneira que, apesar de não ter provas concretas, suspeito que o documento de Chinon possa não ser mais que uma confissão ímpia redigida pelo próprio clero favorável aos soberanos de Roma e da França, inteiramente à margem do que possa ter ocorrido e do que os acusados realmente tenham proferido. Ademais, é sumamente estranho que só haja um exemplar desse documento importante assinado pelos delegados de várias dioceses francesas, e que estranhamente não ficassem com cópias do mesmo ao contrário do que era costume em quaisquer processos de intervenção jurídica e religiosa, e só a Biblioteca Secreta do Vaticano o possua… No mesmo sentido vai a carta aberta que se diz escrita por Jacques de Molay aos seus irmãos, ordenando-lhes que confessassem, como ele confessara, todas as suas práticas pecadoras, no que foi atendido dando-se as confissões em catadupa da maioria dos templários aprisionados. Por que?

Porque outras invenções conseguiram emular a subtiliza e o engenho do duplo intuito fulcral da Inquisição. Segundo a sua premissa fundamental, ninguém era acusado de heresia sem boa razão, e qualquer pessoa podia acusar outra de heresia – excepto um herético acusado que, quer a sua heresia tivesse sido provada, quer não, não merecia confiança. Em vez de se presumir que estava inocente até se provar que era culpado, presumia-se que o acusado era culpado até se provar que estava inocente; e era raríssimo alguém acusado de heresia poder provar que estava inocente. O melhor que podia acontecer ao acusado era passar pelo processo de confissão e arrependimento – mesmo que não tivesse nada a confessar – e ter esperança de reconciliação mediante penitência. A penitência podia ser uma simples multa, o açoite público ou ir para a prisão a pão e água. Mas os acusados que se recusavam confessar, ou que confessavam e posteriormente renegavam as suas confissões, era excomungados pela Igreja e entregues ás autoridades seculares para castigo temporal. Isso significava que os seus bens seriam confiscados pelo Estado, que durante duas gerações os seus herdeiros estavam banidos do serviço público e que eles próprios morreriam na fogueira. Se tivessem sorte, seriam estrangulados no poste antes de arderem; caso contrário, eram queimados vivos.

Em virtude da presunção de culpa, era virtualmente impossível a uma pessoa acusada de heresia defender-se judicialmente; quem quer que com essa pessoa se associasse ficava automática e igualmente sob suspeita. Praticamente, a única defesa que restava ao acusado era entregar uma lista dos seus inimigos conhecidos, na esperança de que um nome da lista coincidisse com o nome pretendido pelo seu acusador. No entanto, mesmo que isso acontecesse, teria ainda que provar a sua inocência, isto é, o confessar e ser reconciliado. E se por qualquer razão não confessasse, o Santo Ofício tinha poderes para utilizar diversos métodos que o persuadissem do seu (talvez inexistente) erro. Os métodos mais grosseiros eram vários: o acusado podia ser simplesmente amarrado e ser-lhe metido um trapo na boca; em seguida deitava-se água quer no trapo, fazendo-o inchar, quer através das narinas. Um bocadinho mais do que a conta e ele afogava-se em terra seca. Também podia ser metido num cova não maior do que ele próprio e ser abandonado à fome até compreender e admitir a sua heresia. Ou, mais dispendiosamente, podia ser colocado na infame roda e esticado até os seus quadris e os seus ombros saírem das articulações. Podia simplesmente ser acorrentado, com cadeias à volta dos pulsos, dos tornozelos e do pescoço; podiam untar-lhe os pés de gordura e chegá-los a um lume vivo; ou, se fosse particularmente obstinado, podia ser colocado na estrapada. Esta invenção particularmente cruel constava apenas de uma corda e uma roldana. Os braços da vítima eram colocados atrás das suas costas, com os pulsos atados um ao outro, e por aí era erguida o mais possível no ar, depois largando-se a corda para que o supliciado caísse no chão; mas a queda era sustida um pouco antes dele tocar o solo, de maneira que se exercia o máximo de pressão nos seus ombros e braços. Um requinte opcional era suspender pesos dos tornozelos ou do umbigo do suposto herético ou, tratando-se de um homem, dos seus órgãos genitais.

"Rack", o instrumento de tortura mais utilizado no interrogatório aos templários

“Rack”, o instrumento de tortura mais utilizado no interrogatório aos templários

Todos esses métodos e outros, foram utilizados para arrancar confissões aos templários presos em França. Mas nem todas as torturas eram tão grosseiras. De Nogaret e os seus homens de mão tinham aperfeiçoado algumas abordagens muito mais sofisticadas, muitas vezes singularmente próximas dos modernos sistemas de interrogatório. A vítima era sujeita a interrogatório incessante por turnos de homens treinados na arte; as respostas eram deturpadas e a vítima impedida de dormir, urinar ou despejar os intestinos; ficava incomunicável e dizia-se-lhe que quaisquer amigos seus, presos sob as mesmas acusações, já tinham confessado. E quando o indivíduo dava indícios de estar a ir-se abaixo, entrava um novo interrogador, com modos compreensivos e amigáveis, que aconselhava brandamente o preso a confessar para seu próprio bem. Graças à judiciosa aplicação de tais técnicas, podia-se obrigar quase toda a gente a confessar quase tudo; era muito rara a pessoa capaz de suportar todas estas torturas até à morte, que seria a sua única libertação. As confissões obtinham-se por meio de terror puro, bastando algumas vezes mostrar ao acusado os instrumentos da tortura. Podia ser obrigado a assistir à tortura de outra vítima e, se isso fosse insuficiente, a dor atroz da sua própria tortura proporcionava geralmente o resultado pretendido. Nalguns casos, considerava-se politicamente indesejável que o preso apresentasse ferimentos visíveis. Recorria-se então aos métodos mais subtis e, no seu sofrimento e confusão, vendo-lhe negada a satisfação das suas necessidades físicas e deturpadas, ao ponto de se tornarem irreconhecíveis, as suas respostas, a vítima admitia a culpa que lhe era imputada, fosse ela qual fosse, e acreditava-se realmente culpada.

A lavagem ao cérebro é uma expressão do nosso tempo, mas as suas técnicas, e o próprio fenómeno, são antigas, criações criminosas do Santo Ofício. Aí reside o mais profundo horror da Inquisição, pois os homens que mandavam fazer essas coisas, se não os homens que realmente as executavam, ordenavam-nas em nome de Cristo, pelo amor de Deus e na convicção sincera de que eles, e só eles, estavam certos, de que os seus actos eram cristãos e feitos para o bem da alma da sua vítima. Um templário declarou, depois de ter confessado, que os homens que o tinham torturado estavam completamente bêbados. E é muito natural que estivessem, se além da crença religiosa possuíssem algum sentimento humano em choque com a bestialidade fria dos seus actos desumanos. As palavras de outro irmão, um homem de cerca de 50 anos, exemplificam a absoluta derrota e humilhação humana e espiritual que tais experiências podiam provocar a qualquer pessoa normal: disse que “todos os delitos imputados à Ordem eram verdadeiros e que confessaria até que tinha matado o Senhor se lho pedissem. Tudo, mas parem com isso e deixem-me em paz”. Os métodos de persuasão utilizados em de Molay para obter a sua confissão inicial foram provavelmente do tipo mais subtil, mas nem por isso a sua pressuposta admissão de culpa foi menos completa ou, aparentemente, menos sincera[4].

Tendo Jacques de Molay, o velho militar e amigo do rei de França sobre quem acreditava que nutria o mesmo sentimento por si, sido apanhado de surpresa perante a gravidade das acusações vindas dos cães de fila do próprio Filipe IV, preferiu inicialmente recusar dizer fosse o que fosse excepto na presença do papa, o único a quem legalmente devia vassalagem. Mas ninguém lhe acudiu nem a seus irmãos, mesmo protestando a sua “crença num Deus, numa fé, num baptismo e numa Igreja Católica”. Para que não houvessem só acusadores e nenhuns defensores e para dar um ar legal à coisa viciada desde que era só projecto, foram escolhidos quatro irmãos para representarem a Ordem. Dois, Pedro de Bologna e Reinaldo de Provins, eram padres; os outros, Guilherme de Chambonnet e Beltrão de Sartiges, eram cavaleiros. Eram todos inteligentes e letrados; de Bologna talvez tivesse até feito alguns estudos de Direito na Universidade de Bolonha, pois os seus discursos à comissão revestiam-se do mesmo estilo de furiosa retórica que o próprio Nogaret usava, e tanto ele como de Provins demonstraram considerável familiaridade com os modos correctos do procedimento judicial. Eloquência e educação: eis as duas únicas coisas que Filipe e de Nogaret receavam. A sua cortina de fumo de linguagem bombástica, a sua desonestidade, astúcia e ilegalidade não poderiam resistir a um exame atento e ficariam expostas a ser atacadas aberta, legal e correctamente. Era precisamente isso que os quatro representantes da Ordem tencionavam fazer. E começaram a fazê-lo em 7 de Abril de 1310, numa terça-feira.

Interrogatório de Jacques de Molay

Interrogatório de Jacques de Molay

Quando as denúncias aos Templários foram lidas em voz alta, Pedro de Bologna já se encontrava preso havia dois anos e meio, tendo sido torturado, interrogado e obrigado a confessar tudo. Mas perante os comissários papais, falou em tom de desafio e violentamente em seu nome e no de todos os seus milhares de irmãos:

“– Cada um e todos nós declaramos as acusações totalmente infundadas. Parece incrível que acusações tão escandalosas tenham podido ser tomadas a sério por alguém. É verdade que alguns templários as admitiram, mas apenas por causa da tortura e do sofrimento. Não é de modo nenhum motivo para nos surpreendermos com o facto de alguns terem mentido; o que é mais espantoso é que alguns tenham respeitado a verdade, sabendo as atribulações e os perigos, as ameaças e os ultrajes que sofrem diária e continuamente aqueles que dizem a verdade. Fora do reino de França não se encontrará nenhum irmão do Templo, em todas as terras do Mundo, que diga ou fale tais mentiras, sendo suficientemente claros os motivos pelos quais elas foram ditas em França: os que falaram testemunharam quando corrompidos pelo medo, por rogos ou por dinheiro.”

As confissões, portanto, deviam ser inadmissíveis como prova; e “sempre que alguns irmãos sejam interrogados, não deve estar presente nenhum leigo que possa ouvi-los, ou qualquer pessoa cuja probidade mereça dúvidas” – o que queria significar que o carcereiro dos templários, que os torturava diariamente e obrigava a passar fome e sede, como igualmente os advogados do rei, nenhum deles devia ser aceite na comissão, visto a sua simples presença intimidar os irmãos, traumatizados pelos interrogatórios e torturas infligidos por esses mesmos carrascos cruéis impenitentes.

Depois, combatendo o fogo com o fogo, Pedro de Bologna atacou os acusadores do Templo, dizendo que eles eram “falsos cristãos e completamente heréticos, detractores e sedutores da Santa Igreja e de toda a fé cristã”. Motivados pela ganância, esses “muito ímpios propagadores do escândalo” tinham encontrado templários renegados e apóstatas e com eles haviam engendrado um conjunto de mentiras que enganaram até o cristianíssimo rei Filipe. Um novo irmão fazia apenas quatro votos, continuou Bologna, os votos de obediência, castidade, pobreza e apoio contínuo à Terra Santa; e o único beijo trocado era o “honesto beijo da paz”, não mais que o beijo habitualmente trocado entre qualquer senhor e qualquer vassalo. Os que acusavam a Ordem de perversões morais e espirituais deviam ser igualmente interrogados pela comissão e obrigados a apresentar os fundamentos das suas acusações; e entretanto todos os Irmãos que desejassem defender a Ordem deveriam receber uma garantia de segurança, pois naquele próprio momento os homens do rei continuavam a ameaçá-los de tortura e morte se ousassem negar a sua culpa[5].

Apesar do vigor e da clareza do depoimento de Bologna ter impressionado os membros da comissão e causado a dúvida entre eles quanto à seriedade do processo, ainda assim os partidários de Filipe IV conseguiram manietar as vozes dos mandatários de Clemente V, já de si um mandado do poder temporal, a favorecer a extinção da Ordem e entregar os seus afiliados à autoridade secular do rei de França, que logo os sentenciou com severidade tamanha que chocou toda a Europa civilizada, e até mesmo os países árabes.

Foi assim que os templários que não confessaram as suas heresias e as da Ordem foram condenados ao lume mortal da extirpação dos pecados, enquanto os outros que confessaram o que os juízes queriam ouvir, receberam a condenação a prisão perpétua, morrendo quase todos, se não todos, esquecidos, famintos e doentes em celas imundas, ou então em trabalhos forçados nas galés. Só se salvaram os que escaparam a tempo para países amigos, muito especialmente para Portugal onde o rei de França era malquisto, e a autoridade do papa fortemente contestada.

Tamanho era o ódio aos templários pelo rei de França que até o local da execução do Mestre da Ordem não foi escolhido ao acaso: a Ilha dos Judeus, em Paris, lugar dos renegados e hereges, dos que padeciam a lepra ou mal da alma impenitente, que só o fogo mortal podia purgar. A comitiva de acusadores ficou à entrada da ilha vendo os corpos arder…

Templars_Burning[1]lápide Jacques de Molay

Esses acontecimentos levaram Dante Alighiere, pressuposto cronista do Templo e autor da Divina Comédia, escrita entre 1300 e 1318 e impressa pela primeira vez em 1472, a dispor o rei Filipe IV no Inferno e o papa Clemente V no Purgatório[6], e os templários como inocentes entregues à justiça secular: os beati misericordes, “bem-aventurados os misericordiosos”, e os beati mundo corde, “felizes os com o coração puro”. Fá-los “Eleitos” do Céu cujo guia para o lugar mais alto do Paraíso é o próprio São Bernardo de Claraval[7].

Das inúmeras acusações feitas aos templários, dispondo-os na heresia secular e religiosa, abordarei somente duas que considero as principais suscitadoras do controverso processo:

1.ª – Homossexualidade (sodomia, beijos lascivos, etc.).

2.ª – Heresia (secretismo, idolatria, omissão, etc.).

A Regra do Templo é clara, severa e intransigente quanto à questão da união entre sexos iguais, considerada aberração e perversão do estado natural das coisas em si mesmas cujo castigo da infracção era a pena capital aos prevaricadores, ou seja, a morte. Sobre isto, diz Pinharanda Gomes[8]:

“Este nome, sodomia, de Sodoma[9] cidade que foi destruída por causa da prática de relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo, com intra vas indebitum, quer dizer, com penetração, deveio um nome tão diabólico, que até os canonistas antigos, judeus ou cristãos, evitavam tratar da sua natureza e pecadosidade nos tratados de Canónico e de Teologia Moral em vernáculo. Era algo de inconcebível, fora do episódio bíblico. Hoje em dia, embora o termo apareça nos tratados de iuris eruditos, no vulgar do canónico aparece o termo homossexualidade e outro, homossexualismo, abrangendo, tanto as relações homens/homens, como as relações mulher/mulher, sob a subtil designação de lesbianismo, vocábulo apropriado, de resto, dos resíduos culturais helénicos. Sodomia ou homossexualidade eram, desde os mais antigos tempos, comparáveis, se não ainda mais graves, à poluição e ao estupro. Um homem é um homem! Uma planta pode dispor de bissexualidade, mas um homem é um homem. Por isso, o diabolismo da sodomia ou homossexualidade, vício condenado, desde a mais antiga medievalidade (herdeira da antiguidade) com a pena de morte na fogueira para que nada restasse do sémen diabólico. A pena consta dos Códigos mais antigos da sociedade civil (ou secular) desde o de Teodoro[10]. Infracção tão grave à natureza e à pessoa que, no Direito Canónico, incluindo a compilação de 1917 (cânones 893 e 897) que manteve antiquíssimas disciplinas, a sodomia era pecado reservado à absolvição episcopal: só um bispo poderia absolver de tamanho pecado, anomalia, ou aberração. Não o pároco da freguesia, nem o confessor conventual, mas apenas o bispo. Trata-se de um pecado reservado, obsceno, escandaloso, atenta contra a dignidade da natureza humana.

“[…] Na época em que o processo dos Templários decorreu, insinuou-se que os cavaleiros praticariam a homossexualidade a conselho dos Superiores, que ensinariam a ser melhor a fornicação entre eles que a procura de mulheres. Quanto às mulheres já vimos como tinham de ser evitadas, mas daí não se segue que fossem autorizados à satisfação de concupiscências com a prata da casa! A homossexualidade era castigada com a pena de morte na fogueira – lei extensiva a todo o mundo civilizado, incluindo o Reino de Portugal, cujas Ordenações fixam a pena. De que modo poderia uma Ordem Militar e Religiosa, integrada por milhares de homens, aprovar uma prática que ia contra o sentir, não só da Igreja e do Estado, mas de toda a sociedade em geral? Houve heteropraxias, alguns cavaleiros as confessaram, mas daí até elas serem prática regular da Ordem vai a distância que separa a face da terra das alturíssimas celestes.”

De facto, os inquisidores puseram na boca dos templários aprisionados e torturados o que quiseram ouvir, e sob a coacção das dores atrozes infligidas eles confessaram isso e muito mais, dispostos até a jurar solenemente sobre a Cruz que “eram filhos de Belzebu paridos por Lilith em pessoa”! É assim que, segundo as confissões de numerosos templários, todo o postulante era avisado, desde a admissão, de que podia ter relações sexuais com os seus irmãos, a fim de “aplacar as necessidades carnais”, que isso era lícito e não constituía um pecado. Para mais, os irmãos tinham sido encorajados a fazê-lo “um ao outro, fazendo prova de submissão”. Apesar dessas confissões flagrantes mas arrancadas à força, a grande maioria dos templários afirmou nunca ter feito uso dessa permissão e inclusive negou a acusação de sodomia, cuja prova, afinal de contas, nunca foi estabelecida pela justiça papal ou real. Se o Procurador do Templo em Paris, Hugues de Pairaud, sob a aflição da tortura confessou ter aconselhado a vários irmãos a sodomia, apenas dois templários, certamente para que os flagelos impostos cessassem, admitiram essa prática: Raoul de Tavernay, que afirmou ser necessário “tolerar isso em razão do calor do clima ultramarino”, e Guillaume de Varnage, que esclareceu ser a sodomia tolerada somente em relação aos mais jovens, para que não fossem tentados a frequentar mulheres. Quanto ao Mestre Jacques de Molay, acusado de ter tido relações com irmãos e com o seu criado, Guillaume de Giaco, negou sempre tais actos, afirmando mesmo que a Regra reprimia severamente a sodomia, como o prova, aliás, o caso de dois irmãos de Château Pèlerin suspeitos dessa prática, um condenado à morte e o outro a prisão perpétua[11].

Esse último episódio é contado nos Estatutos do Templo, nos termos seguintes[12]:

“573. No Château Pèlerin houve irmãos que praticavam pecados de perversão e que se acariciavam uns aos outros nos seus quartos à noite; de tal modo que aqueles que souberam disso e outros que por causa disso muito sofreram, contaram essas coisas ao Mestre e a um grupo de homens prudentes da Casa. E o Mestre seguiu o conselho de que esta coisa não deve ser levada a Capítulo, pois tal acto era muito ofensivo mas que os irmãos deveriam ir a Acre; e quando ali chegaram, o Mestre colocou um irmão prudente no quarto, e outros na sua companhia no quarto onde eles estavam, e mandaram que despissem os seus hábitos e colocou-os a ferros. E um dos irmãos, que se chamava irmão Lucas, fugiu de noite e foi para os sarracenos. E os outros dois foram enviados para o Château Pèlerin; e um que tentou fugir morreu, e o outro permaneceu na prisão por muito tempo.”

Não me custa admitir que ocasionalmente entre alguma soldadesca do Templo destacada para o Ultramar tivessem ocorrido esses excessos anormais, que após descobertos eram severamente punidos. Não me custa admitir que a alguns jovens noviços os mais velhos tivessem aconselhado o recurso à masturbação como medida profiláctica, conselho que hoje qualquer médico dá aos jovens mais impetuosos, mas que isso fosse regra geral já me custa admitir. Não consigo descortinar como um cavaleiro de estirpe nobre, com o manto de Cristo pesando sobre os ombros e que voluntariamente aceitou a Regra da Fé afirmada pelas Armas, quebrasse depois os seus votos de perfeição espiritual pelo gosto bizarro da carne de sexo igual, ou seja, praticando a sodomia e até a pedofilia com os mais jovens. Nada disso se provou oficialmente e, para não haver qualquer dúvida, os Estatutos do Templo são claríssimos neste ponto:

“572. […] se um irmão faz qualquer coisa contra a natureza e contra a lei de Nosso Senhor perderá a Casa.” Ou seja, era expulso da Ordem e punido severamente.

Essa acusação de sodomia, junta àquela outra dos beijos lascivos na boca, no pénis, no ânus, etc., os inquisidores pretenderam-na comprovada naquela ilustração antiga do Templo: dois cavaleiros para um só cavalo, mesmo sabendo de antemão que isso era tão-só simbólico, pois cada cavaleiro tinha direito a três cavalos e a cinco noviços ajudantes!

Simbolicamente, será uma alegoria velada do Androginismo Primordial representado pelos Gémeos do Zodíaco, sendo o cavalo símbolo zoomórfico de Tradição, de Sabedoria Divina  assinalada na Luz do Grande Templo de Jerusalém. Tanto que Kaballah com K significa “Tradição” e com C, “cavalo”. E é sabido que, astrologicamente, Sagitário (o cavalo) está em oposição a Gémeos (o hermafrodita), mas se tornando dócil ou domiciliário quando as qualidades superiores de ambos os signos imperam sobre as inferiores[13]. O que me levou a dizer em uma outra obra[14]: “Esta simbiose Oriente-Ocidente por via das Escrituras Velha (Profetas) e Nova (Apóstolos), também é retratada pelos dois cavaleiros montando um só cavalo, alegoria dos Gémeos e desde logo do Androginismo Primordial, designativo do Adepto Real, do genuíno Homem Solar que de pernas e braços afastados configura geometricamente a Quintessência da Natureza, de que o Homem é a régia ou real Cabeça”.

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Ainda referente aos beijos lascivos acompanhando a sodomia, também os testemunhos contam-se por centenas e todos os templários postos a ferros falam de três, quatro e mais beijos em várias partes do corpo, mudando conforme as testemunhas. Por exemplo, as confissões de Hugues de Bure e de Hugues de Pairaud, ainda que neguem a existência das práticas de sodomia referem os beijos sodomitas no ânus, no umbigo e na boca, o que reverte aos sinais satânicos e práticas conformes constando nos tratados medievais de demonologia por que se norteavam, decerto, os inquisidores para estabelecer o rumo dos interrogatórios e alcançar as confissões nesse sentido: a prova de corrupção corporal e heresia espiritual.

O “beijo da paz” era dado nas faces, como consta das Escrituras, e não no extremo oposto do corpo, ou seja, no ânus como “beijo da impureza”, inversão e perversão da virtude em vício, prática satânica que os carrascos do rei de França quiseram para os templários fazendo correr o boato na voz do povo: “Todas as crianças dizem abertamente e a cru umas às outras: livra-te dos beijos dos templários”.

O "beijo da impureza". Evocativo da proibição maior da Igreja no cadeiral da Catedral de Amiens

O “beijo da impureza”. Evocativo da proibição maior da Igreja no cadeiral da Catedral de Amiens

Essa acusação ter-se-ia baseado no texto formal do artigo n.º 678 dos Estatutos do Templo: “E aquele que o faz irmão deve erguê-lo e beijá-lo na boca; é costume que o irmão capelão também o beije”. Como muito bem diz Pinharanda Gomes, é pleonástico esse “na boca”, porque ósculo significa boca. De maneira que o texto se torna dicotómico, arrevesado, ou por má tradução ou por acréscimo, alterando o sentido original, pois que “na boca” está a mais.

Depois do novo irmão ter jurado sobre os Evangelhos fidelidade ao Mestre e ao Papa, impunha-se-lhe o manto da Ordem e cingia-se-lhe a espada consagrada; após, o acto era selado por uma de duas maneiras, ou por ambas: levantar o irmão ajoelhado e dar-lhe o abraço fraternal, podendo-se acrescentar o ósculo da paz nas faces. Para além do beijo físico há também o ósculo de fogo: o soprar do Alento Vital (Prana) na direcção do Fogo Sagrado ardendo no braseiro postado no Templo, ou, o mais comum, soprar na direcção da Cruz ausente de Homem por expressar ao próprio Verbo Solar. Esse Sopro ou Hálito Vital ainda hoje faz parte do cânone litúrgico, quando o sacerdote sopra na evocação ao Divino Espírito Santo, e mesmo quando sopra sobre a cabeça do recém-batizado.

Quanto à ausência iconológica da figura humana no Madeiro, decerto não era sinónima nem prova alguma dos templários renegarem ao nome de Jesus Cristo de quem, afinal, eram cavaleiros. Talvez fosse uma forma de combater de raiz a idolatria e o apego idolátrico às imagens, em que muitos, a maioria, se ficam, perdendo ou ignorando o seu sentido real, o significado velado na imagem exposta. No mesmo sentido vai o cuspir na Cruz e calcá-la a seus pés, aquando da recepção na Ordem. Já disse antes que isso, mesmo duvidando fortemente da sua veracidade ou que alguma vez tenha acontecido senão no imaginário romântico do século XIX, acaba tão-só simbolizando a superação da natureza inferior, assinalada na cruz dos quatro elementos mortais, pela condição superior ou imortal, expressada na ausência de humanidade no símbolo por exprimir ao invisível e universal Todo no Tudo, ou seja, a Divindade Suprema manifestada na forma flogística ou pneumática do Filho, a única real e imorredoura perpassando a imagem da carne passageira e mortal.

Vai nesse sentido o depoimento arrancado a vários templários (irmãos Étienne de Dijon, Bertrand de Villiers, etc.), com o qual os inquisidores acusaram os capelães da Ordem de omitir, no momento da Eucaristia, as palavras de consagração: Hoc est corpus meum, “Este é o meu corpo”. Mas a quase totalidade dos irmãos interrogados protestou e afirmou que jamais os seus capelães omitiram essas palavras litúrgicas. Assim, à falta de provas sérias, essa acusação não foi mantida pelos juízes, nomeadamente pelo grande-inquisidor Bernard Gui.

À medida que o templário evoluía mental e moralmente dentro da Ordem, a doutrina e a disciplina iam tornando-se mais estreitas e profundas, inalcançáveis porque incompreensíveis para qualquer recém-chegado, noviço ou leigo. Assenta nisto a acusação do fomento de secretismo pelo Templo, acusação sem foro legal porque a Ordem era autónoma e não devia contas a ninguém, principalmente a qualquer poder civil ou secular como instituto religioso e sobretudo militar que era.

Após, vem a acusação de idolatria a um ídolo estranho, um crânio ou uma “cabeça idolatrada que dizem ser adorada pelos templários” (segundo os interrogatórios aos irmãos Larchant e Hugues de Pairaud, dentre outros). O nome de tal ídolo nunca foi pronunciado pelos acusadores e ainda menos pelos templários, com excepção de um só e sob a forma adjectiva bafomético[15]. Daí resultou o nome baphometh, que os autores e ocultistas dos séculos seguintes, principalmente do século XIX, difundiram sob a forma substantiva. Pondo de parte o largo esteiro de fantasias feitas à volta desse pressuposto baphometh, pondo de parte a renegação por outros de que alguma vez tenha existido, a verdade é que a sua figura pequenina se apresenta no topo do portal gótico dianteiro da igreja de Saint Merry, “la petit Notre Dame”, em Les Halles de Paris (e foi nela que Eliphas Lévi, o célebre ocultista do século XIX, se inspirou para desenhar o seu famoso “Bode de Mendes”). Terá sido esculpida por um Companheiro do Dever de Liberdade entre 1840 e 1847. Em Portugal, observa-se a figura do baphometh tanto no Convento de Cristo, em Tomar, como no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, sendo ambas as figuras do século XVI.

Alegorias do "baphometh" no Convento de Cristo, Tomar, e no Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, ambas do século XVI

Alegorias do “baphometh” no Convento de Cristo, Tomar, e no Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, ambas do século XVI

É incontestável ter existido um qualquer objecto reservado ao conhecimento de raros templários; é incontestável que a existência desse qualquer objecto se tornou pública e a ignorância do que fosse, aliada ao perjúrio, revestiu-o de bizarro e macabro sabor. É assim que no Auto de Acusação lê-se no artigo 10.º dos inquisidores, não se sabendo o que lhes atribuir, se um humor negro, se uma mente doentia ou se ambas as coisas: “Uma novel criança criada por um templário e uma donzela, é fervida e cozida ao lume, depois tira-se-lhe toda a gordura e com esta é sagrado e untado o ídolo deles”.

Esse crânio misterioso emissor de oráculos que terá ditado a pressuposta Regra Secreta do Templo, que os acusadores apontavam recheada das mais inimagináveis blasfémias, tudo isso, afinal, não terá passado de invenção mórbida dos escritores românticos do século XIX, visto não existirem quaisquer provas plausíveis da existência anterior de um crânio satânico, e até a própria palavra baphometh não fazia parte do vocabulário medieval: era desconhecida da Igreja e do Templo e foi inventada na segunda metade do século XIII por alguns trovadores da Ocitânia que, mesmo assim, a aplicaram com muita parcimónia em óbvias efabulações poéticas. Se acaso os templários tiveram a relíquia de algum crânio, então é preciso dar-lhe outro significado menos fantasista e mais tradicional, para não dizer, iniciático.

O crânio tem duplo significado, apesar de para o Cristianismo só significar a lembrança da morte. Mas o crânio contém o cérebro e está na parte mais alta do homem. Por isso é o lugar sagrado do corpo humano por excelência e o símbolo da descoberta do Saber Supremo. Com este se correlaciona o termo baphometh, do árabe ouba-al-fometh, a “boca do Pai”, no sentido de Sabedoria Divina verbalizada pelo Pai Eterno.

Como o Pai contém o Filho e o Espírito Santo, Ele é também a Luz da Sabedoria a que alguns deram o sentido grego, tardio, de Baphêmétous. Nisto residirá o sentido da frase no poema Ira et Dolor, escrito em 1265 por um Trovador ocitano: «E Baphometh obra de son poder» – E Baphometh fez brilhar o seu poder. Na língua mourisca da Península Ibérica herdada do mudéjar, escrevia-se Abufihamat (e pronunciava-se soando Buphimat), com os sentidos de “Pai, Fonte, Compreensão”. Uma expressão derivada, Ras-el-fah-mat, significando “Cabeça do Conhecimento”, refere-se à capacidade mental do homem após a sua consciência ter sofrido um aprimoramento. A tal processo reporta-se precisamente a expressão “Eu construo uma cabeça”, usada por algumas Escolas Sufis do Islão da Península Ibérica que os cristãos medievais apodaram depreciativamente de Bafometarias e Carvoarias – plantadas ao longo da orla costeira do Distrito de Lisboa de que o topónimo Cabo Carvoeiro é herança notável – no sentido de “negras e diabólicas”, por aí se ensinar e exercer conhecimentos secretos que para o comum cristão ignorante e supersticioso só podiam ser “coisas do Diabo”[16].

É assim que o crânio «baphomético» vem a configurar uma Iluminação Mental, tal qual como no simbolismo da Brigite celta presidindo ao Imbolc, a festa da purificação celebrando o fim do Inverno, expressando a iluminação do mundo após as trevas estéreis. Eis aqui o motivo de, por vezes, também Santa Brígida, herança hagiográfica daquela deusa céltica, aparecer iconografada com um círio na mão e uma vaca aos pés, esta expressando a lactação, neste caso, referindo-se ao retorno da vida na Primavera.

Com tudo, ainda assim muitos autores continuam a dar os mais diversos e desencontrados significados à palavra baphometh[17]. Para mim, repito, essa palavra de invenção simbológica prende-se ao filólogo árabe ouba-al-fometh, a “boca do Pai”. Entra aqui a lenda romântica da pressuposta prova material da existência desse pressuposto ídolo dos templários: o de ter sido descoberta no Templo de Paris, na manhã da prisão em massa dos Templários, uma bela cabeça de mulher, de ouro e oca contendo um crânio feminino, envolto num tecido com as cores branca e negra da Ordem que tinha gravada a estranha e lacónica etiqueta: “CAPUT LVIII M”.

Interpretando essa lenda hermética, possivelmente saída de algum movimento hermetista do século XIX, tem-se que em latim caput significa “cabeça”, e os algarismos romanos, se transpostos para letras juntando-se o M final, dão a palavra seguinte abreviada: ilumii, de illumino, “iluminada”. Mas se mantiver todas as letras da frase e as transpor para algarismos somando-os e reduzindo-os teosoficamente até obter um único irredutível, obter-se-á o número 3. Desta maneira, “CAPUT LVIII M” poderá significar a “TERCEIRA CABEÇA (PESSOA) ILUMINADA”, o que vale por DEUS ESPÍRITO SANTO como MÃE DIVINA contendo em Si o Poder do Pai e a Sabedoria do Filho reunido Àquele como Um só na Unidade do mesmo Espírito Santo, pelo que é a ouba-al-fometh, a “boca do Pai” expressiva do seu Poder.

Esse Poder é a Sabedoria Divina, a que Baptiza como Fogo que arde mas não queima a Alma Templária que dela toma posse. Daí o outro e tardio sentido grego da palavra, também já apontado: Baphê-métous, o “Baptismo da Sabedoria”, por vezes decomposto em Bios-phos-métis: Vida-Luz-Sabedoria.

Batismo

Essa interpretação vai ao encontro dos dois Baptismos do Cristo: pela Água da Revelação no Jordão e pelo Fogo da Transfiguração no Tabor, assistindo a um João Baptista e a outro João Evangelista, aquele tendo a ver com a vivência claustral, donde se sai para o mundo, e este a ver com a vivência clausural, donde se aparta do mundo. Eis as duas condições do ser templário: a esotérica ou privada, e a exotérica ou pública. Ambas interligadas, ambas indispensáveis uma à outra, pois quem opera em secreto com poucos também deve saber operar o segredo para muitos, desvelando-o com arte e perfeição, progressivamente, ao entendimento de todos.

E foi isto que o papa, o rei e os inquisidores não puderem nem quiseram entender: tinham outros objectivos, bem mais terrenos. Foi assim que o poder temporal de Mamon assassinou a autoridade espiritual de Cristo, incarnado na Regra do Templo e na vida segundo ela pelos templários.

NOTAS

[1] Stephen Howarth, Os Cavaleiros Templários. Edição “Livros da Brasil, Lisboa, 1982.

[2] A. Vieira d´Areia, O processo dos Templários. Livraria Civilização Editora, Porto, 1947.

[3] O Perdão dos Templários. Com textos de vários autores. Zéfiro – Edições e Actividades Culturais, Unipessoal Lda., Corroios, 1.ª edição em 13 de Outubro de 2006. E ainda a tradução de Roberto Carlos Pintucci, Os Templários e o Pergaminho de Chinon encontrado nos Arquivos Secretos do Vaticano. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2005.

[4] W. L. Wakefield, Heresy, Crusade and Inquisition in Southern France. Londres, 1974.

[5] J. Michelet, Procès des Templiers. Paris, 1955.

[6] Na mesma correnteza danteana, observa-se na igreja de N.ª Sr.ª da Conceição de Safara, perto de Moura no Alentejo, um fresco onde figuram o papa, o rei e os seus súbditos ardendo no lume perpétuo do Inferno. Significativamente, Safara insere-se no aro de acção da Ordem de Avis, destinada a protecção da fronteira, apoiada pelas armas da Ordem do Templo.

[7] Gil Vicente (c. 1465 – c. 1536) segue a mesma linha danteana no seu “Auto das Três Barcas”, dispondo os templários, os cavaleiros de Cristo mortos em prol da Fé, na Barca do Paraíso. Sobre o tema consulte-se René Guénon, O Esoterismo de Dante, seguido de São Bernardo. Editorial Vega, Lisboa, 1978. Robert Bonnell, Dante o Grande Iniciado. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2005.

[8] Pinharanda Gomes, Templários: O Perdão de Chinon e a Revisão do Processo. In O Perdão dos Templários, Zéfiro – Edições e Actividades Culturais, Unipessoal Lda., 1.ª edição em 13 de Outubro de 2006, Corroios.

[9] Gn., 19, 23.

[10] No Direito português, cf. Ordenações Afonsinas, Livro V, Título XVII: «pecado torpe», e «por este pecado foi destruída a Ordem do Templo por toda a Cristandade». Os sodomitas estavam condenados ao fogo: «seja queimado, e pelo fogo feito em pó, e que dele não haja mais memória». Tal como nos casos de heresia, o Clero devia entregar os réus ao Rei porque o Clero não podia «fazer ‘justiça de sangue’».

[11] Bernard Marillier, Templários. Hugin Editores, Ltda., Lisboa, Novembro de 1998.

[12] J. M. Upton Ward, A Regra dos Templários. Editora “A Esfera dos Livros”, 1.ª edição Fevereiro de 2006, Lisboa.

[13] Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal (Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2000.

[14] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, 2006.

[15] Dando aso a esta tradição, alguém colocou o crânio de um jovem de 18-22 anos defronte à pedra tumular inscrita do Mestre Gualdim Pais na igreja de Santa Maria do Olival, em Tomar.

[16] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010. Também do mesmo autor, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Edição Dinapress, Lisboa, Abril de 2007. Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Março de 2007.

[17] Vd. Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Templários e Templarismos. Edição do Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Agosto de 2005.

Sintra, Serra Sagrada – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jul 17 2015 

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A poucos quilómetros da actual capital do País levanta-se e distende-se aquela lomba serrana que o mito e a tradição aureolou de mistério desde a mais profunda noite dos tempos, também e muito justamente considerada a mais bela Serra de Portugal: Sintra.

As suas penhas verdejantes, os seus ares salutíferos, as suas fontes e cascatas de águas laxativas cercadas de arvoredo luxuriante, fizeram dela o oásis do Romantismo do século XIX cujo ideal naturalista e realista veio a adentrar a centúria seguinte.

Mas Sintra, hoje Património Universal da Humanidade, é muito mais que vila romântica e retiro burguês da elite social de Oitocentos. O seu historial é vastíssimo, os seus segredos esfíngicos muito mais e onde a utopia se confunde harmoniosamente com o factual histórico, antropológico e etnológico, onde igualmente a filologia contribui.

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A raiz toponímica desta idílica estância estremenha é várias vezes milenar. O célebre geógrafo Edrisi, que viveu no século XII, chama-lhe Xentra e Sentra, termos arábico e moçarábico. Chamava-se antes, em celta, Cynthia ou Cyntia, vulgarizando-se no século XVII a grafia Cintra. E ainda hoje ela se impõe ao presente modo de a escrever, como se quis a partir dos anos 30/40 do século XX: Sintra.

No século VI a. C., segundo Schülten, o Promontório do Cabo da Roca, ponto mais ocidental da Europa e terminação da aresta montanhosa de Sintra, chamava-se, no périplo marselhês utilizado por Rufo Festo Avieno, em sua Ora Marítima, no século IV da era cristã, Promontório de Ofiússa, esta palavra significando “serpente”, portanto, “Promontório da Serpente”. Ptolomeu denomina-a “Serra da Lua” e ao seu extremo cabo-mar “Promontório da Lua”, “Cabo da Lua” ou Capum Lunarum.

Isso é muito interessante porque o mesmo Festo Avieno, na sua obra citada, informa que Ofiússa era o nome de um povo habitando o périplo ulissiponense descendente de um outro chamado Oestrymnia, ambos adoradores da Serpente e antediluvianos. Ora Ofiússa significa Serpens ou Serpente, e neste contexto antediluviano ou atlante, Manuel Joaquim Gandra (in O Eterno Feminino no Aro de Mafra, edição da Câmara Municipal de Mafra, Setembro de 1994) fornece a justificativa geológica para a origem atlante do Capum Lunarum de Sintra, informando que esta avançava muitas centenas de kms para Sudoeste e depois sofreu grande afundamento originando-se dele o actual estuário do Tejo, que antes (Miocénico) desembocava com o Sado num extenso delta comum, o qual abrangeria a região desde Ferreira do Alentejo a Alenquer.

Nos tempos da Invasão Romana da Península Ibérica, Sintra estava compreendida no chamado Promontório Ulissiponense, também conhecido por Magno, Sacro e Artabro.

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À Lua os gregos deram o nome de Selene, voz cogneta da portuguesa serena. Deste vocábulo formou-se a palavra serenata que é, como se sabe, o cântico proferido ao luar.

A pouca distância do convento de St.º António dos Capuchos, em plena serra, outrora existiu uma ermida chamada Milides, termo corrompido Melides, de que ainda restam as ruínas. Acontece que a palavra Milides é o equivalente fonético do grego Milithes, derivação do apodo Militha dado à deusa lunar grega Athenas, aquela que Homero qualificou de “Olhos de Mocho”.

Sintra ou Cyntia é, pois, o nome da Deusa Lua em seu aspecto tríplice: Helena a Lua Espiritual, acima de Selene a Lua Psíquica e esta sobre Diana, Perséfona ou Hécate, a Lua Física, Infernal, Inferior, Interior ou Subterrânea.

Com efeito, Cyntia era o nome grego da deusa Artemis ou Artemísia a quem os romanos chamaram de Diana, a mais pura e casta das deusas e irmã gémea de Apolo, o Sol, filhos de Zeus e Latona, mas cuja origem mitológica está na Kinthya celta, vulgarizada Cynthia. É a divindade lunar protectora da Natureza, musa inesgotável dos artistas e a primeira das ninfas sua rainha.

Já Pinho Leal (in Portugal Antigo e Moderno, vol. II, pp. 301 e segs., Lisboa, 1877) é mais conciso ao referir esta toponímia: “A origem do nome veio de um templo erguido uns 308 anos antes de Cristo, por gregos, galo-celtas e túrdulos, dedicado à Lua. Os celtas chamavam a Lua de ‘Cynthia’ e quando os árabes dominaram a região, por não pronunciarem o ‘s’, chamaram o local de ‘Chintra’ ou ‘Zintira’”.

Se os antigos grafavam o nome desta vila com a inicial S, é porque esta letra designa a Sabedoria, a Serpente, o serpentear selenita em torno do Sol. Fernando Pessoa, em seu tratado O Caminho da Serpente, atribui a esta o Ouroboros – a Realização da Grande Obra Alquímica. E se grafada com C representa a Casa, o crescente elevado ou sal lunar sublimado (o nitro alquímico… representado em Haiah ou Caijah). E se com X é a condensação, o aprisionamento ou fixação do Verbo na sua própria Carne ou Matéria. Daí a origem do termo greco-latino Mater-Rhea, Mãe-Terra ou Matéria, iconograficamente sempre representada pela Virgem Anima-Mundi, vulgarmente da Concepção ou Conceição, primitivamente a Senhora do Ó, a qual se via em imagem de tamanho natural na Quinta da Trindade e ainda se vê num altar lateral da Capela de St.ª Eufémia da Serra.

Quanto ao topónimo actual Sintra, divide-se em Sin e Tar, termos aglutinantes turânicos significando, respectivamente, “Lua” e “Monte”. O turânico Sin foi adoptado pelos caldeus e hebreus para designar a Lua, e Tar o lugar elevado do seu culto, como sucede com o onomástico Sinai, este também presente na Quinta da Penha Verde, na Capela de Santa Catarina do Monte Sinai.

De acordo com a língua Tupi, a maior nação indígena do Brasil, a palavra Sintra também está inserida nela como Sy-nh-atyara. Decompõe-se e traduz-se da seguinte maneira: Sy igual a “Lua”, mais nh, igual à partícula de ligação, mais atyara igual a “monte, elevação”. Portanto, Sy-nh-atyara é igual a Sintra por ter o mesmo significado de Monte da Lua, correspondendo ao Selene Oros de Ptolomeu e ao Mons Lunae dos latinos (cf. Teodoro Sampaio, O Tupi na Geografia Nacional. Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1987).

Pormenor curioso esse da existência de uma palavra tão semelhante e com o mesmo sentido entre culturas tão distintas e tão distantes. Um dado novo, susceptível de interesse no destrinçar de uma outra meada que dá pelo nome de Atlântida. E mesmo certas tradições afirmam que em tempos hoje cobertos pela poeira dos milénios Portugal e Brasil integravam-se num mesmo continente, em pleno Período Terciário, durante o Mioceno e boa parte do Plioceno.

Por sua feição serpentária notadamente ctónica, cedo a Serra de Sintra foi associada a portal para os Infernos ou Inferiores Lugares, tanto por místicos como por materialistas, onde apenas diferem as leituras e conclusões. No caso desses últimos, abundam as citações à ocacidade da serra desde o século XVII até aos anos 60 do século XX, aquando o Serviço Geológico Nacional elaborou um mapa geomagnético da Península Ibérica. Nele são encontradas três zonas como locais de maior magnetismo – as chamadas anomalias no campo magnético – tendo por base a natureza dos minérios aí existentes. Além do Promontório de Sagres e do périplo alentejano do Megalitismo, é identificada Sintra e toda a zona arredor. Já Helena Abreu, especialista em magnetismo do Instituto de Meteorologia, não deixa de afirmar: “Sintra é um antigo vulcão e por isso é natural que seja um grande maciço magnético”.

Junto ao Castelo dos Mouros, no Pico da Serra (para não dizer Pico do Graal, segundo a definição repleta de enigmas dada pelo Professor Henrique José de Souza), e só para dar um exemplo, existem dois locais que fazem sonhar com o Reino Subterrâneo de Sintra ligado ao mistério de Agharta. São uma espécie de respiradouros nos quais os jardineiros deitam toneladas de folhas durante os trabalhos de limpeza no início da Primavera. Quando se chega ao fim do Verão, vai-se a ver e não está lá nada…

Como fui eu quem iniciou em 1978 o Ciclo Taumatúrgico de Sintra para Aquarius – 2005, e como tudo quanto tenho transmitido pela comunicação social e outras edições escritas nos últimos trinta e sete anos nunca passou, propositadamente, de excertos ou fragmentos soltos de um Saber Iniciático indo à Raiz do Mundo, considero-me, portanto, com idoneidade espiritual e humana suficiente para afirmar a certos «sábios da Grécia» que tudo sabem menos ter algum sentimento nobre pelo seu próximo: tudo o que fazem hoje em dia, inventando tratandices sobre conjecturas tartufas, vale menos que nada! E só não é nada porque prolifera na fantasia inflamada dos vários impúberes psíquicos de diversas idades. Não saem do mesmo sítio, ainda que fantasiem ter ido muito longe… Sobre isso e em relação a Iniciações Crípticas, confiadas ao segredo de suas trevas, fala-nos Sinésio (De Providentia, 11, 4): “O incognoscível (agnosia) é um carácter venerável para as téletés, e por esse motivo os Mistérios são confiados à noite e cavernas inacessíveis são construídas para tal fim, em cujo lugar sabem esconder a divina e indizível acção.” (1)

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Terá sido nesta lomba serrana, na realidade uma Montanha «lombada» se recorrer à ancestralidade da sua origem primitiva, que se originou a Demanda do Santo Graal (la Quête du Saint Graal), primeiro arábica e depois astur e bretã, como Cálice de Vida. Nisto Sintra, na fisionomia geográfica de Portugal, está no lugar do nariz que é o canal respiratório da nação, centro fundamental do quinto elemento ou alento vital (o Akasha ou Éter) cuja dinâmica activa a biorrítmica do país vivificando-o e, por anexo, à Europa inteira.

Ainda que a Tradição do Santo Sangue ou Sangue Real (Sang Greal) tenha-se propagado de Sintra a toda a Europa, ainda assim ela é tema universal inerente às mais consignadas correntes tradicionais que têm brilhado na civilização. No que toca a Portugal, devo informar que o pensamento heterodoxo inserto no tema da “Fede Santa” e da “Cavalaria Espiritual” exerceu um papel preponderante e determinante, durante a Idade Média e inícios da Renascença, na mentalidade cortês da Monarquia Lusitana.

O mito escatológico do Santo Graal corria a jorros no ideário espiritual da Idade Média galaico-portuguesa. Apesar da lenda Arturiana só tomar forma literária nos fins do século XII com a actividade poética de Chrétien de Troyes, antes disso ela já se havia espalhado pela Europa devido à acção dos bardos itinerantes (2), cujo ponto de partida não é exactamente a Bretanha mas a Estremadura ibérica (3).

Taça Sintra

Através da História e das Confraternidades abertas ou fechadas que a fizeram, chegou até hoje um vasto legado patrimonial cujo simbolismo reverte à representação e desígnio da oculta e iniciática Missão Universal desta bela e barda Serra Sagrada de Sintra, para não dizer de todo o Portugal. E “sagrada” porque sacralizada pela Tradição Iniciática das Idades incarnada nos Homens Representativos da mesma que sulcaram os milénios feitos de séculos!… Seguindo alguns dos trilhos serranos desta nossa Cyntia irei, pois, realizar uma breve retrospectiva de alguns dos principais monumentos que a ilustram de um modo único.

PAÇO REAL – Situado no centro da vila, remonta ao século XII e sendo todo o rés-do-chão abobadado da autoria dos templários que aí estiveram juntamente com o Grão-Mestre Provincial da Ordem, Gualdim Pais, o qual, passe a curiosidade, diz-se ter sido sagrado cavaleiro pelo próprio Rei D. Afonso Henriques em pleno campo de lide, em Ourique do Alentejo.

Os templários tiveram casas em Sintra, com sede nas Murtas, tendo ocupado todo o espaço onde hoje se encontra o Hotel Central e o Café Paris, conforme regista o documento de 1157 da doação por D. Afonso Henriques e sua mulher, D. Mafalda, a Gualdim Pais, 6.º Mestre Provincial da Ordem do Templo (1159-1195), de umas “bonas casas in villa de Cintra”, fronteiras ao Paço do Wali árabe (terá sido da fachada do palácio medieval que o primitivo brasão de Sintra foi arrancado e levado para figurar na fachada da igreja da Misericórdia, onde mais tarde Joaquim Fontes repararia nele), isto é, no Chão de Oliva, além do terreno desenvolvido no sopé do morro do castelo (hoje freguesia de Santa Maria e que na ocasião era habitada por trinta moradores, a quem o nosso primeiro rei deu a 1.ª Carta de Foral em 1154), bem como umas fazendas nos arredores da vila, tudo isso integrado na “baylia” pretensa a “comendadoria” de Santa Maria de Sintra (cf. Francisco Costa, O Paço Real de Sintra. Novos Subsídios para a sua História. Edição da Câmara Municipal de Sintra, 1980. E também a obra anterior do mesmo autor e pela mesma editora municipal, O Foral de Sintra (1154). Sua Originalidade e Sua Expressão Comunitária, 1976).

Ora, descendo quatro pisos no Café Paris e uns bons oito metros abaixo do nível do solo, depara-se com uma sala em abóbada de berço e ao fundo uma galeria subterrânea que parte em direcção ao Palácio Real. Essa passagem prolonga-se para norte, sob a praça da vila, de onde se bifurca duas vezes, regressando em direcção ao Hotel Central, e ainda hoje se repara no muro da actual Rua dos Arcos (outrora Travessa dos Fornos) a abertura de uma chaminé de ventilação, cuja profundidade se pode sondar facilmente.

A citada sala subterrânea, suportada por colunas delgadas, sugere-me a estrutura dos primitivos templos de traça bizantina, sendo aqui um hipógeo quase de certeza obra dos templários, enquanto a passagem subterrânea lembra-me os famosos estatutos secretos do Mestre Roncelin para os Irmãos do Templo, pressupostamente datados de 1240, especificamente a recomendação feita nos artigos 7 e 19: “Tende em vossas casas lugares de reunião vastos e escondidos a que se terá acesso por corredores subterrâneos para que os Irmãos possam ir às reuniões sem o risco de serem perturbados… É interdito, nas casas onde os Irmãos não são Eleitos, trabalhar certas matérias pela Ciência Filosófica e, portanto, transmutar os metais vis em ouro e prata. Isto nunca será feito senão em lugares escondidos e em segredo”.

Recentemente descobriram-se nas proximidades, no espaço do antigo “Café da Avó”, novas galerias subterrâneas adentrando o ventre da Serra, possivelmente também obra dos templários, notícia dada pelo jornal O Público em 2004 graças à primazia da excelentíssima e valorosa amiga de Sintra, sr.ª dona Adriana Jones.

Sobre o tema da sala e galeria subterrâneas dos templários em Sintra, aconselho a leitura das obras seguintes: O Paço Real de Sintra (Novos Subsídios para a sua História), por Francisco Costa. Edição da Câmara Municipal de Sintra, 1980; e o estudo do espeleólogo Augusto Morgado, publicado no jornal Época, 12 de Agosto de 1972.

Quanto ao 1.º andar e restante edifício do Paço Real, foi acrescentado pelos freires da Ordem de Cristo, reinando D. Dinis, que depois cederiam o imóvel à nossa Rainha Santa Isabel. Para essas primeiras grandes obras foram envolvidos os serviços de “mouros forros de Colares”, beneficiados com a regalia de pagarem apenas um quarto e não metade dos frutos colhidos, sob condição de prestarem a anûduva ou “renovação de castelos”. Contudo, será D. João I, o “Mestre Perfeito”, a oficializá-lo Paço Real, mesmo já sendo facto assumido folgar-se em Sintra desde a 1.ª Dinastia.

As chaminés singulares deste edifício, cónicas invertidas, tornadas ex-libris turístico da vila, representam esotericamente a “visão oculta”, vislumbrando de cima a baixo, e também a letra-mãe hebraica Mem, raiz fonética feminina representada no Arcano XIII do Tarot Sacerdotal: A Grande Mãe. Além dessas duas enormes chaminés existe uma terceira, mais pequena, hoje servindo de pombal. E não é a pomba a representação zoomórfica da Mãe Divina, do Espírito Santo cujo Centro geosófico se quer em Sintra? Isto leva-me ao seguinte:

Sendo a Mãe Divina também Celeste e Humana, tal trilogia da Divindade Feminina reparo-a no Arqueómetro (ou seja, Arke ou Arche-Matra, “Medida do Arqueu ou Assura”) do Marquês Saint-Yves d’Alveydre, em algumas relações filológicas a ver com o nome arábico de Sintra, ou melhor, Xentra, mas aí em termos védicos:

XENTRA = Lugar Sagrado

XETRIN   = Alma

XEMA     = Salvação

O que vale dispor o topónimo da vila em sigla S.I.N.T.R.A. para formar a significativa frase iniciática: SERVIÇO INTENSO NO TRABALHO (DE) REDENÇÃO (DA) ALMA… que é de natureza feminina, tanto universal quanto individual. Isso transporta-me, mais uma vez, ao valor cabalístico da letra M.

Decerto residirá nisso o fundamento arquetípico do sentido divino da Monarquia Portuguesa, noção de alto-relevo imperando no reinado de D. Manuel I, ele mesmo renovador dos arquétipos nacionais, o que se repara particularmente nos Paços Joaninos deste Palácio por nele deixar marcada indelevelmente a evolução total do Manuelino, que é um estilo arquitectónico de “passagem”, isto é, sobretudo decorativo de portas e janelas.

QUINTA DA TRINDADE – Inicialmente bailio da Ordem do Templo (abarcando o espaço próximo de S. Miguel, St.ª Maria e S. Pedro, Orago de Sintra), aí se estabeleceu a paróquia mais rica do concelho. Fundada por Afonso Henriques foi o último bastião templário serrano, até que se tornou o Convento da Trindade no século XIV doado por D. Afonso IV à Ordem de Cristo, que por sua vez legou-o aos frades trinitários da Regra de S. Bento, tendo encerrado a sua actividade nos meados do século XIX, em 1834, com a dissolução das ordens religiosas. A pouca distância encontra-se a…

IGREJA DE SANTA MARIA – De fundação atribuída ao nosso primeiro rei, devia ser então uma modestíssima ermida, mas cerca de cem anos após fundada um dos priores, Martim Dade, mandou demolir o edifício substituindo-o por outro de grande fábrica e de notáveis primores arquitectónicos, tendo chegado sem grandes danos ao terceiro quartel do século XVIII. Traçada no estilo gótico tardio, notabilíssima é a sua pia batismal, de concha irregularmente polilobada, assente em dois troncos entrelaçados, que se atribui ao mestre canteiro Nicolau de Chanterenne, o mesmo que criou o pórtico ocidental do Mosteiro de Belém, Lisboa: o pórtico de Santa Maria da Anunciação. É também obra desse mestre o retábulo em alabastro do altar-mor da capela de Nossa Senhora da Penha, no convento depois palácio do mesmo nome, no topo desta Serra Sagrada.

SANTA EUFÉMIA – Considerado o lugar pré-histórico onde nasceu Sintra, aí se situou o famoso e lendário Templo da Lua, do qual ainda havia em pé várias colunas no século XIX, como se verifica em célebre gravura a carvão então desenhada. Hoje, em toda a volta da capela românica de Santa Eufémia avistam-se os seus destroços carcomidos e desfigurados pelos milénios. Lugar milagreiro onde ainda se pode avistar a sua fonte gradeada cujas águas eram tidas por santas, curativas de moléstias várias. Do ancestral culto selenita-matriártico aqui efectuado, o próprio nome grego Eufémia é disso prova a favor ao decompô-lo em Eu+Fêmea, ou seja, a “Boa Fêmea”, a “Boa Mulher”, a “Boa Mãe” (aliás, muito bem assinalada na sua congénere superior aí cultuada em altar à esquerda do seu: Nossa Senhora do Ó), com isso associando-se a uma daquelas nephil (plural, nefilim) de que fala a Bíblia. O termo hebraico nephil procede da dicção assírio-caldaica nab-ilu, à letra, a “deusa” (ilu) das “águas” (nabi).

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Quanto à explicação teosófica para as aparições angélicas de Santa Eufémia no lugar, em verdade, trata-se das projecções luminosas do Deva ou Anjo da Serra: Ab-Sin, “Luz da Lua”, não deixando de ter a ver com a religião natural de característica matriártica neste sítio, de cujas águas irrompeu a primitiva civilização castreja de Cynthia.

PENHA VERDE – Doada por D. Manuel I ao famoso vice-rei da Índia, D. João de Castro, esta Quinta adorna-se com uma riqueza histórico-artística ímpar na serra de Sintra. Nela acham-se duas fontes, a de Santa Cruz e a do Corvo (com azulejos policrómicos e uma estátua de Neptuno), e três capelas, uma, a de S. Pedro ou S. Brás, com embrechados de conchas, nas paredes da qual estavam penduradas uma pele de jacaré e outra de jiboia, havendo também um osso que o físico-mor de D. João V concordou ser de um gigante humano: teria dois palmos e meio de comprimento e grossura correspondente ao seu comprimento, de acordo com as informações do Visconde de Juromenha (Cintra Pinturesca, Lisboa, 1838). Segundo esse autor, o edifício central da quinta foi obra de duas criadas (possivelmente religiosas com cargos importantes na religião) do bispo D. Francisco de Castro.

A segunda capela é a de S. João Batista, com azulejos policrómicos do século XVII descrevendo o martírio do Anunciador. Abaixo dessa ermida, dentro da mata chamada de S. João, há uma gruta natural entre penedos a que se desce por uns degraus, nela cabendo dez a doze pessoas sentadas.

Finalmente, a capelinha redonda, votiva, construída no cimo do Monte das Alvíssaras em 1688 por ordem do bispo D. Francisco de Castro, que a dedicou a Santa Maria de Sião e Santa Catarina em memória de D. João de Castro ter-se consagrado, no Médio-Oriente, à mesma Santa Catarina do Monte Sinai, o que reporta-me às relações próximas dos Infantes D. Pedro e D. Henrique, da Ínclita Geração, com essa casa religiosa em Jerusalém, a qual muito favoreceram.

Reza a tradição toda lendária da Penha Verde que Inês de Castro nasceu aí e na capela de S. João mais tarde contraiu secretamente matrimónio com o Infante D. Pedro, futuro rei, e ela rainha coroada depois de morta, e isto já não é lenda.

Primitivamente, viveram neste lugar os celtas e outros povos castrejos anteriores, havendo provas arqueológicas da sua presença aqui, nomeadamente uma xorca em ouro maciço (hoje depositada no Museu de Londres) desenterrada por arqueólogos franceses e ingleses nas escavações efectuadas na década de 80 do século passado, levando consigo o espólio recolhido mas que pertence exclusivamente a Sintra, sua natural donatária cultural.

Nesta propriedade existem duas estelas com caracteres sânscritos, a mais pequena trazida do Templo de Elefanta, ilha na baía de Bombaim, Índia, afamada pelos seus templos e hipogeus maravilhosos, a qual narra uma doação feita pelo rei Aparadityadeva (que significa “Outro Sol”), da dinastia de Silahara, no reino de Konkana, de uma área considerável de terreno ao seu vassalo Mahalla, que por sua vez ficaria com a obrigação de aplicar parte das rendas na manutenção de um templo local consagrado ao Deus Sol Aditya ou Surya. Quanto à estela maior, dedicada à Lua e ao Deus Shiva, teria pertencido ao famoso pagode de Somnath-Patane, no Kathiawar, próximo de Diu.

É por aí, junto às estelas, que se sobe para o Monte Sinai (termo hebraico de raiz Sin, “Lua”) ou das Alvíssaras, em cujo terreiro, diz a tradição mítica do sítio, foi armado cavaleiro o sebástico D. Álvaro de Castro por Estevão da Gama, em 1541. Em volta deste pátio ainda se vêem os restos da ermida-habitação do navegador e guerreiro das partes do Oriente, 4.º Vice-Rei da Índia, depois querendo ser anacoreta da serra de Sintra, D. João de Castro.

A família Castro de Sintra sempre esteve rodeada de mistérios e de prodígios semelhantes aos mais altos eventos das Escrituras. Aqui, nesta maravilhosa quinta, ainda hoje “inexplicáveis” fenómenos psicofísicos, Jinas, a vêm protegendo da cobiça e da profanação do vulgo.

Santa Catarina, padroeira desta família e provençal patrona dos cátaros ou “puros”, os kátter, iconograficamente segura a Roda da Lei e a Âncora da Vida. Arrisco um pouco mais: os Castros de Sintra, que seriam cátaros de formação religiosa (a que se ligam os Costos ou Costas), desde sempre foram protegidos pelas “Forças Ocultas do Rei do Mundo”, por outras palavras, pela secretíssima Ordem de Mariz, como indica sibilinamente a ornamentação dos túmulos de D. João de Castro e esposa, depositados na igreja do ex-Convento de S. Domingos de Benfica, encimando cada qual três penas dentro de uma coroa. Penha, Pena, Ave, Avis, Maris… Abaixo, suportando as urnas, três elefantes para cada uma delas. O elefante, além de representar o Oriente e a sua Tradição, também designa iconograficamente o Filho do Deus Shiva: Ganesha, afinal, o patrono da Sabedoria Divina, que é dizer, Teosofia.

CONVENTO DOS CAPUCHOS – Recoleto de Homens-Jinas ou “Padres do Deserto” (detentores da Tradição Sacerdotal vivendo em reserva), encravado entre a face da Terra e as suas entranhas sibilinas, todo ele escavado na rocha pura e escondido pela vegetação imensa, foi fundado por D. Álvaro de Castro em 1560, reinando D. Sebastião, e nele viveram em absoluta reclusão perpétua doze espirituais frades Capuchinhos, assumidos cenobitas voluntários transformando o sítio num cenóbio singular. Num dos recantos da propriedade encontra-se a gruta de frei Honório, tendo vivido isolado 30 anos nesse pequeno buraco, vindo a falecer aos 90. Frei Honório é a personificação do “Homem-Serpente” ou Hommo Teluricus (Naga, em sânscrito, Naha, em hebraico) que, no dizer de lorde George Byron, “a fim de ganhar o Céu fez da terra um longo inferno”. Ainda hoje se diz que “quem quiser saber o segredo do convento primeiro tem de morrer”, tradição local atestada pelas duas estátuas semienterradas de dois monges capuchinhos, um subindo e outro descendo de e no ventre da terra, vistas junto à entrada interior do convento, assim como pela própria imagem na pequena capela do “Senhor Supliciado”, esculpida em mármore branco, no espaço florestal da cerca, marcando o caminho acidentado, de subida serpenteante, até ao cume, prefigurando a Scalae Coeli, “Escada do Céu”.

Dedicado o Convento de Santa Cruz da Cortiça a Santo António, vejamos agora o significado etimológico do nome do Orago: António é um nome teóforo tendo por arquétipo aquele teónimo que no Antigo Egipto designava o Primogénito Divino saindo das Águas Primordiais da Génese, organizando a Vida ao mesmo tempo que engendrava todas as formas viventes. Trata-se de Atu-Unu, à letra: Atu = Senhor, Unu = Primogénito. É referência à Obra Divina do Segundo Logos no acto de manifestar-se no Terceiro, isto é, o Espírito revestindo-se da Matéria, da Forma.

As múltiplas transformações operadas no protótipo atuunu em consequência dos milénios decorridos e do espaço de evolução filológica conformada à expressão fonética, são ilustradas através destes exemplos: Atuunu, Aton, Athon, Adon, Adam (em hebraico, “Homem”), Adonis, Âtuniu, Antuniu e finalmente o latino Antonius, donde o português António.

O Cristianismo recebeu essa velha crença pagã da génese aquática de António, como deus marinho, tendo naturalmente de fazer-se entender pelos peixes, e daí a conhecida lenda da “pregação de St.º António aos peixes” (alusão histórica à sua pastoral frustrada junto dos cátaros do Languedoc). O camítico Atunu desenvolveu também os ictiónimos atum (português), afun (espanhol), thunnos (grego e latim), tunny (inglês), thon (francês), etc. Atunu teve por companheira Atunina, que em português se fonetizou Atoninha ou simplesmente Toninha.

Logo, António encerra o sentido mítico-filológico de “Astro do Deus Altíssimo”, ou, o que é o mesmo, de “Terra de Aton ou Aton-Ra”, o Rei-Sol da teofania egípcia que tomou forma em Akhenaton ou Amenófis IV. Assim sendo, o Convento de Santo António dos Capuchos é “Terra Sagrada, de Luz”, pequena Lusitânia de ascetas resguardados pelas imponentes penhas beijadas pelo perfume de suas espirituais disciplinas. Talvez por isso, quando D. Filipe II o visitou ter afirmado que possuía nos seus dilatados reinos o convento mais rico e o convento mais pobre de quantos haviam sobre a Terra: o mais rico era o Escorial; o mais pobre este singelo Eremitério dos Capuchinhos, tão escondido e tão espiritual numa prega discreta da serra de Sintra.

convento dos capuchos

Também chamado de Santa Cruz ou da Cortiça, como já disse, esta é a “pele” do sobreiro, apodo que se dá à Via Seca da Alquimia e com isso assumida simbolicamente Árvore do Espírito Santo, devido à sua natureza seca e quente, vindo a ser representada pela Vera Cruz deste lugar de “cuja pedra sabiam extrair mel” os doze espirituais eremitas de Santo António (discípulo coevo de São Francisco de Assis). As suas celas, escavadas no granítico da serra, verdadeiros celeiros espirituais aquecidos pela cortiça, mais parecem humildes sacrários ou lareiras místicas em cujo interior, em devota “soledade”, comungavam com o seu Santo Ser ou Sol Interior assinalado na imagem helíaca do mesmo Santo António trazendo ao colo o Menino-Desejado, o Rei-Sol destas faldas sintrianas.

Por cima do convento, situa-se a:

ANTA DO MONGE – Que na verdade não é anta mas tholos, antiga construção circular quase reduzida aos alicerces e que fora, durante o período calcolítico (cerca 2700 a. C.), santuário celtibero ou mesmo ligúrico. Ao seu lado, um marco geodésico (488 m de altitude) assenta sobre a primitiva mamoa. O seu sobrenome, “do Monge”, é herança da memória do episódio lendário, ou não, ocorrido aí com um monge capuchinho que, em noite de bruma cerrada perdido na serra, viu-se subitamente “num outro mundo”… Indo mais para o mar oceano na direcção do Capum Lunarum, Serpens, da Roca ou Rocha, chega-se a…

NOSSA SENHORA DA PENINHA – Ermida fundada no século XVII por Pedro Pais, mestre-canteiro, que com o auxílio das esmolas dos devotos das povoações vizinhas e de D. Pedro II, ergueu no Monte de São Saturnino este pequeno e românico templo cúbico (Kaaba) dedicado à Virgem da Peninha, que até essa altura estava exposta à devoção em uma outra capela, no sopé do monte, junto à qual há um pequeno cemitério seiscentista destinado a crianças (o Saturnino cristão tal como o Saturno mitológico devora os seus filhos, ou melhor, acolhe os seus infantes inocentes…), a que se acede por um carreiro empedrado tendo ao inicio, gravada numa fraga, a Cruz Patrística dos Franciscanos, e num recanto próximo, escondido pelas penhas, um poço em meia-lua feito de tijoleira no estilo romano-árabe. Esta capela de S. Saturnino, hoje em ruínas, diz-se ter sido fundada por Pêro Pais, signifer ou signifero – “porta-estandarte” – de D. Afonso Henriques, o qual viveu antes na ermida da Senhora de Melides, em Colares. Quanto à capela da Virgem da Peninha, reveste-se de azulejos de largo desenho e belo colorido (datados de 1711) relatando os 44 passos da vida de Nossa Senhora, destacando-se a cena do Pentecostes tendo por ambiente natural a própria serra de Sintra, desta maneira e mais uma vez sacralizada com a presença da Mãe Divina.

O púlpito é de mosaico e mármores variados, que se diz terem sido retirados de numerosos veios da serra. A Peninha feche o circuito iniciático sintriano.

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Com isso enquadra-se bem a lenda simples de domínio popular sobre os nomes das Cinco Irmãs Penhas da serra de Sintra, que assim conta:

O Senhor, Deus Todo-Poderoso, criava o Mundo e preparava-se para moldar e edificar a serra de Sintra, quando ouviu solicitações dos materiais a empregar naquele cometimento.

Prosseguindo a lenda, o Criador um a um dos seus solicitantes e de comum acordo arranjou solução para os pedidos formulados. O Grande Arquitecto, afável e sorridente, docemente reparou em cinco rochas que nada pediram. Inquirindo do seu mutismo, aqueles fraguedos solicitaram mudança de nome. Não desejavam ser chamadas rochas, penhascos ou fraguedos.

– Serão Penhas!

Ficaram contentíssimas e aproveitando o feliz momento, rogaram do Criador mercê para lhes dar o respectivo apelido. Segundo a lenda, começaram a ser conhecidas pelas denominações seguintes:

– Penha Ferrim – Firme nos intentos e pertinaz nos cometimentos.

– Penha Longa – Por seres a maior e ainda serás a sede de grande comunidade cristã.

– Penha da Pena – Fervorosa na devoção a Santa Maria.

– Penha Verde – Viva e verdejante verás e albergarás leal e santo varão, dos maiores que habitaram estes sítios.

E olhando a mais pequena:

– Tu serás a Peninha na qual aparecerá a minha Mãe.

TÚMULO DOS DOIS IRMÃOS – Junto ao Ramalhão, para quem vem ou sai de Sintra, encontra-se um monumento funerário, isolado, conhecido por “túmulo dos dois irmãos”. Arca funerária românica bastante simples, possui à cabeceira e aos pés duas estelas discoides com cruzes templárias esculpidas. Apesar de aberto e verificar-se existir no seu interior só um esqueleto incompleto, ainda assim teima-se em acreditar que originalmente nele estariam dois corpos e que a sepultura fora saqueada. Compartilho dessa opinião. Segundo a lenda, aí jazeriam os restos mortais de dois Lázaros, não tanto agafados ou leprosos do hospital próximo (desaparecido) mas sobretudo “ressuscitados no Espírito” (Dwijas), um cristão e outro mouro como irmãos unidos na heterodoxia do culto (Gnose e Sufismo), os quais apaixonados pela mesma donzela (a “Madona Sabedoria”), a ela dedicaram a sua vida e por ela morreram consumidos de espirituais amores. Amigos e irmãos, foram enterrados juntos em guisa de gémeos espirituais, com isso designando a duplicidade (e mesmo triplicidade) astrosófica desta Serra Sagrada: o Sol via Júpiter-Vénus agindo sobre a Lua e o seu Monte, ou seja, reportando-me ao túmulo, cristão à cabeceira e mouro aos pés.

O mesmo acontece na ex-Mesquita de Fátima convertida Capela de S. Pedro de Penaferrim no reinado de Afonso I, junto ao Castelo dos Mouros (activa no culto pelo menos até ao século XVI, segundo Nuno Saldanha em A Capela de S. Pedro de Penaferrim, em Sintra. Aedificiorum, n.º 1, 1988): encontra-se aí um túmulo onde jazem indistintamente os despojos mortais de cristãos e mouros, recolhidos no cemitério anexo à fortaleza. A lápide da sepultura comum apresentava esculpidas, ainda há poucos anos, uma cruz latina tendo abaixo um crescente lunar sobre um crânio com duas tíbias entrelaçadas. O seu significado oculto é o seguinte: a união imortal do Oriente com o Ocidente feita em Sintra, coisa inédita no Mundo!

túmulo

Assinala, igualmente, o carácter lunissolar desta e de toda a Montanha Sagrada que haja sobre a Terra, como acontece, por exemplo, nessa outra Montanha Moreb no Sul de Minas Gerais, Brasil, coroando a cidade de São Lourenço, onde se encontram duas insculturas líticas representando o Sol e a Lua. Com efeito, como disse, onde há um culto lunar também existe o solar, e vice-versa, como complemento fundamental.

A prova disso é encontrada numa gravura do pintor e escritor Francisco de Holanda, que viveu no século XVI (1517-1584). Em seu livro levando o título Da Fábrica que falece ha Cidade de Lysboa, terminado em 1571, ele desenha e descreve um templo romano, na Praia das Maçãs, cujo cipo (actualmente depositado no Museu de Odrinhas) consagra-o “ao Sol Eterno e à Lua”. Soli Aeternus é epíteto dado pelos sírios, que os romanos herdaram, a Júpiter Dolichenus, afinal, o astro que juntamente com Vénus rege a barda e sagrada Montanha de Sintra.

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Por seu lado, o Visconde de Juromenha em sua Cintra Pinturesca refere a lápide votiva romana achada na ermida da Senhora de Milides, junto a Colares, a qual era dedicada ao “Sol e Lua Eternos”.

Tudo isso não deixa de coadunar-se à natureza andrógina ou macho-fêmea (Sol e Lua) do Santo Graal de que esta Montanha é a expressão mais lídima sobre a Terra, quer como condição de Consciência Iluminada, quer como Objecto Sagrado. Como Graal-Consciência, é:

– O Mental Abstracto expressando a Mónada Divina ou a Tríade Superior, como sejam os princípios interiores de Intuição e Espírito, consequentemente, é a expressão simbólica do

– Terceiro Logos ou Trono, representado na Mãe Divina, que uns associam a Shiva e outros ao Espírito Santo, para todo o efeito, o Princípio Causal do Homem e do Mundo.

Como Graal-Objecto, é:

– GRAL, o almofariz, objecto de laboratório, onde são feitas certas misturas químicas.

– GRAAL, a Taça Sagrada. Nela, naturalmente, são feitas as mais sublimes, espirituais e místicas fusões e sublimações alquímicas.

Estando o Graal tríplice representado na geosofia ou geografia sagrada de Sintra, é situado como Graal-Taça no Castelo dos Mouros, como Graal-Livro no Palácio da Pena, e como Graal-Pedra em St.ª Eufémia da Serra. Assessora-o o Quinto Cavaleiro São Jorge (Akdorge), “Senhor do V Império” como “Príncipe Perfeito do Santo Graal”, cujo Rei ou Imperador é o próprio Cristo Universal, na Mata do Ferreiro pertencente aos jardins da Pena. O seu nome comum, o “Arquitecto” (erroneamente associado ao Barão de Eschwege, por este ter sido o arquitecto presidindo à construção do Palácio Real da Pena), é substituído por esse outro de o “Guerreiro”, em iconografia igualíssima há avistada num vitral da capela da Virgem da Pena retratando São Jorge. Trata-se da estátua em bronze de um homem, em tamanho natural, erecto sobre uma elevação cujas penhas configuram uma rosa fechada. Defronte para o Palácio, veste armadura com elmo tripenacho e armado de lança e escudo, este tendo gravada uma caravela com as velas recolhidas, direccionada a Ocidente, para mim significando ter-se alcançado em 1500 o Porto Seguro das praias douradas de Vera Cruz, o Brasil ou a “Nova Lusitânia” no dizer de Pedro de Mariz, na meta ideal do V Império, mas simultaneamente significando, no Presente face ao Futuro, que falta cumprir-se Portugal!

Foto 21

Com efeito, esta estátua do Pai de Lohengrin, ou seja, Parsifal (o mesmo Akdorge ou São Jorge), o  Guerreiro, apresenta-se erecta olhando em frente – precisamente na direcção do Palácio – sobre uma base de pedra onde se encontra inscrito o número, talvez data, 1848. Na versão comum mais aceite trata-se, tão-só e repito, da imagem do Barão de Eschwege (Wilhelm Ludwig von Eschwege), colaborador incansável de D. Fernando II na criação da obra magnífica que é o Palácio e Parque da Pena, sobre os quais Richard Straus, na sua visita a Sintra no quartel final do século XIX, ante a sua visão exclamou deslumbrado: “Eis aqui o Jardim e o Palácio do Santo Graal”! Quanto à estátua em questão, é feita em pedra (ao passo que a lança é de ferro) e as suas medidas são (de acordo com a incontornável Monografia do Parque da Pena – Estudo dendrológico-florestal, de Mário de Azevedo Gomes, Lisboa, 1960, sendo que este autor era neto da Condessa d´Edla, esposa morganática do rei D. Fernando) as seguintes: altura – 2,75m; lança – 2,80m; largura de ombros – 0,75m; pé – 0,35m; escudo – 0,65m x 1m.

D. Fernando II

Uma prova inquestionável de não ser esse exclusivamente o Barão de Eschwege, é encontrada em antigas obras literárias de teor hermetista que apresentam ao seu início a mesma figura do “Guerreiro”, só que ao invés da caravela gravada no escudo vêem-se as letras hebraicas Yod-He-Vau-Heth formativas do Tetragramaton sobre a estrela de seis pontas ou Hexalfa. Mas bastariam os três penachos ou tripenacho do mesmo “Guerreiro” para demonstrar que Ele representa o “Governo Oculto do Mundo”, sendo ao mesmo tempo o Grande Papa e o Grande Monarca como as duas expressões Pax et Lex do Imperator et Pontifex Maximus – ROTAN, MELKITSEDEK ou CHAKRAVARTI, tanto vale.

O Palácio da Pena, o Guerreiro e a Cruz Alta (o velhinho Pico dos Kurats, o verdadeiro e consignado Pico do Graal) formam entre si um triângulo rectângulo (também chamado “Triângulo de Pitágoras” e “Triângulo de Ouro”, por seus lados estarem em relação ao “Número de Ouro” – 1.618) qual Delta Teúrgico, cujo “Olho do Eterno”, ao centro, está representado na capela circular (vulgo “templo das 12 colunas”, levantado por volta de 1840) de St.º António do Espírito Santo, indicativa da Lua (assinalada no crescente lunar coroando a sua abóbada exterior) e do Sol, assinalado na abóbada interior onde se vê o medalhão vermelho com a Cruz Salvífica de Cristo, designando ocultamente o Novo Sol Cíclico, o Novuspalux ou Pramantha-Dharma, direi assim para indicar as Regras evolucionais do Novo Ciclo da Terra e de quanto nela vive.

É tamanha a importância da Cruz Alta na geografia sagrada sintriana, que Francisco Costa dedicou-lhe um poema em MCMXXXIII (1933) lapidado numa penha abaixo do cruzeiro:

poema cruz alta

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Esta Cruz, cuja original se deve ao rei D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha, tem 3,5 m de altura, 1,5 de largura e pesa cerca de 1700 kg. Feita de maneira a figurar os tramos com nozes de uma árvore seca, cuja réplica a Condessa d´Edla quis para coroar a sua última morada em Lisboa no Cemitério de Nossa Senhora dos Prazeres, lembra-me que em Portugal o nosso Santo António, ou Santo Antoninho, introduziu no seio da Ordem Franciscana, influenciando a Agostinha, a disciplina espiritual de realização pela Ascese ou Via Seca, ele que foi o São Francisco português, o Isku ou Lígure da Cristandade, a “Arca da Aliança” de Deus com o Homem, parafraseando o padre António Vieira.

Foto 22

A tomada de consciência do Espírito Sintriano é feita em simultâneo com a tomada de consciência individual, no acto supremo de transformar a vida-energia em vida-consciência. E isto é Iniciação Real.

O Homem Integral é constituído de 7/7. Todavia, até ao momento, só é consciente de 4/7 (ao nível da personalidade humana – Mental Inferior, Emocional, Vital, Físico) e inconsciente de 3/7 (ao nível da individualidade espiritual – Espiritual, Intuicional, Mental Superior). Esses 4/7 dinâmicos não deixam de ser a manifestação do Ser Verdadeiro, e quando a criatura humana desenvolver os 3/7 estáticos tornar-se-á, de facto e direito, divina.

O Homem, em sua labuta e demanda constantes, almeja e vai realizando a sua complementação integral, ou seja, o desenvolvimento dos 3/7 que faltam para chegar ao Todo, à Unidade, a Deus. Este é o único e verdadeiro Caminho da Iniciação Real, aqui representado e particularizado pela Rota Jina de Sintra já descrita várias vezes e que aqui torno a lembrar: Castelo dos Mouros – Sol; Santa Eufémia da  Serra – Lua; São Martinho (Paço Real da Vila) – Marte; Seteais (Quinta da Regaleira) – Mercúrio; Lagoa Azul – Vénus; São Saturnino – Saturno; Quinta da Trindade – Sol Central.

Foto 23

Tal carácter parúsico de Sintra como Tebaida “avalónica” abrigando em seu seio o Sangue Real de Cristo Pantocrático via Linhagem encoberta devido aos ventos furiosos da repressão eclesial vigente sobre a Terra a par do poder estatal subordinado daquela, ambos em inteira conexão anti-Sinárquica e anti-Tradicional própria desta Kali-Yuga ou “Idade Sombria”, deu aso a crónicas e cronicões de escritores afamados dos séculos XIV ao XVIII, de que destaco a Crónica do Imperador Clarimundo, de João de Barros, dedicada ao então príncipe D. João (futuro D. João III). Escorando-se nos cronicões da época, João de Barros fará eco da naturalidade húngara do Conde D. Henrique que, neto do mesmo Imperador Clarimundo (tanto valendo por “Luz do Mundo” – o próprio Cristo em Parúsia ou “Segunda Volta”, assim também expressando a função de Melkitsedek, “A Luz e o Governo do Mundo”, logo, Rei do mesmo e a cuja dinastia sagrada, dando fé à crónica, pertencia o pai do fundador da nacionalidade), se assume como Cavaleiro do Santo Graal até que, após sucessivas aventuras de âmbito declaradamente iniciático, haverá de desembarcar em Portugal, auxiliado pelo sábio Fanimor, junto a Sintra, terra que “dará os seus filhos para o reparo do Sangue de Cristo”.

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No cume da Serra Sagrada, o velho sábio, mergulhado na luz do Espírito, predirá, em épicas oitavas, os gloriosos feitos portugueses, dando destaque à origem da Demanda e da Nação a partir de Sintra: “… D. Afonso Henriques primeiro, / Primeiro em nome, e em verdadeiro / Rei enviado por Deus glorioso”. Pelo que: “… Ó armas divinas, que aqui sereis dadas, / Dadas por Cristo por mais perfeição, / Ter-vos-ão todos tal veneração, / Quanto por obras sereis exalçadas”.

Com esta descrição sumária da espiritualidade e de alguma monumentalidade da romântica e barda Sintra, à luz do Mito que faz a História, dou por encerrado este capítulo, não sem antes convidar a que se inicie, quanto antes, a Demanda do “Si” mesmo, do Santo Graal, que na Ara de Mons Salvat ou Monte Salvo vem iluminando as mentes e os corações de quantos por Ele são piedosamente agraciados, e mesmo os que ainda não têm sensibilidade bastante para O sentir, pois que expressando ao Cristo Universal vem a exprimir toda a Humanidade, e com isto haverá de firmar aqui e para todo o Mundo a derradeira e suprema Vitória de Deus.

NOTAS

(1) Victor Magnien, Les Mystères d´Eleusis, p. 354. Cf. Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada. Lello & Irmão – Editores, Porto, 1984.

(2) Roger Sherman Loomis, The Development of Arthurian Romance. Harper & Row, New-York, 1964.

(3) Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, 2007. E também do autor, Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Via Occidentalis Editora, Lisboa, 2007, e Quinta da Regaleira (Sintra, História e Tradição), Livros Dinapress, Lisboa, 2013.

Arcanjo Sakiel, “Genius Loci” de Sintra – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Jul 1 2015 

sakiel

Recuando a 25 de Dezembro de 2004, altura em que escrevi este estudo, agora reproduzo-o aqui vindo prestar a minha humilde homenagem ao Quinto Arcanjo dentre os Sete do Lampadário Celeste, o Excelso Dhyani-Kumara Sakiel, Alter Spiritus ad Cynthia, cujo Dia de Saudação que se lhe consagra é o 5 de Julho, aquando na Ordem do Santo Graal – Grande Ocidente o cavaleiro com o respectivo pavilhão nacional do Posto ladeado pela dama com o consequente pavilhão do Subposto, adentram o Templo à dianteira de engalanado e bandeireiro cortejo.

Nesse entardecer suave de Dezembro, fitando o pôr-do-sol por detrás da serra querida, com o pensamento posto no Excelso Dhyani, acudiu-me à memória aquele poema de Fernando Pessoa, assinado pelo heterónimo Álvaro de Campos, com o título Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, todo ele repleto de significados que as letras escondem… e o poeta, que nunca teve carta de condução, lá conduziu o vistoso “Chevrolet” (Chavaoth? Shiva-Od?) que alguém lhe emprestara, que é dizer no significado escondido, tomara posse da “Merkabah”. Eis alguns excertos do vasto poema:

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,

Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,

Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco

Me parece, ou me forço um pouco para que pareça,

Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,

Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,

Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

*

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,

Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.

Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,

Sempre, sempre, sempre,

Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,

Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida

*

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,

Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.

Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.

Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo

Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!

Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

*

À esquerda o casebre – sim, o casebre – à beira da estrada

À direita o campo aberto, com a lua ao longe.

O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,

É agora uma coisa onde estou fechado

Que só posso conduzir se nele estiver fechado,

Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

*

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

*

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,

Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,

Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,

E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,

Acelero…

Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,

À porta do casebre,

O meu coração vazio,

O meu coração insatisfeito,

O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

*

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,

Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,

Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,

Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim

Álvaro de Campos

Posta a transcrição quase total do poema de Fernando Pessoa, volvo-me novamente à Excelsa Pessoa do Dhyani desse meu solilóquio por entre as fragas encantadas da serra. Na Cabala é evocado o nome do Arcanjo Zedekiel, Zadkiel, Sarachiel, Sachiel, Saquiel ou Sakiel como “Senhor da Justiça e do Amor”, cabendo-lhe, na Árvore Sefirótica, a séfira (“atributo divino”) Chesed – “Misericórdia” – sob o auspício planetário de Júpiter (ou Tsedek, em hebreu).

Chesed é a quarta séfira ou sephiroth contando a partir de Kether, a “Coroa”, como a primeira na cúspide dentre as dez, mas também é a quinta se iniciar-se a contagem desde o mais acima Ain-Soph (ou Ab-Soo, “O Imanifesto” como Substância Universal, Svabhâvat) para baixo. Para os cabalistas dotados de Teosofia (como corpo de ensino da prática Teúrgica), esta esfera formula os princípios abstractos, a concepção da ideia arquetípica, ou seja, o Mental Superior como a Região do Espírito Santo – o Plano do 3.º Aspecto Criador do Logos expresso por Vénus ou Netzach, a sétima séfira imediatamente abaixo de Chesed, na mesma Coluna da Árvore Sefirótica que em si mesma expressa a Árvore Genealógica dos Cabires ou Cumaras que estão no seu topo, em guisa de Caprinos no montanhoso pico da Evolução Planetária, na qual se retrata o Panteão Jina da Obra do Eterno. Esse Plano Arquetípico corresponde ao estado de consciência mais imediato dos Mahatmas ou “Grandes Almas” componentes da Excelsa Fraternidade Branca, com morada em Chesed, os quais realizam o propósito do Logos Absoluto, esse mesmo Desígnio do Eterno através do Corpo Mundial de Discípulos disseminados estrategicamente no Orbe.

Foto 136A imagem mágica de Chesed é um Rei sentado no seu trono (figurado no Arcano 4 do Tarot, “O Imperador”, que naquele outro Sacerdotal ou Aghartino é o “Reflexo de Deus” portando o ceptro e o livro aberto, como “Poder Temporal e Espiritual do Senhor da Ronda” – Melkitsedek, o mesmíssimo Chakravarti em volta do qual tudo se movimenta sem que Ele mesmo comparticipe, apesar de estar presente em tudo), transmitindo a ideia de um Governante pacífico, legislando, preservando e conservando os seus territórios (idealização configurada no compósito do “trono do rei” (D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha) encravado entre penhas no alto do morro de St.ª Catarina, defronte ao Palácio Real da Pena de Sintra), o que é corroborado pelos outros títulos conferidos a esta esfera: Majestade, Experiência Espiritual, Visão do Amor.

Trono do Rei

É na Visão do Amor que subjaz a natureza primordial da Mãe Divina, a Alma Mater de Portugal, P.A.N. ou Patriae Alter Nostrum que a lenda antiga vinda das brumas do tempo apoda de grande “Moira encantada” sintriana, desde os céus pintados de azul akáshico projectada no seio da Serra Sagrada, Ela a Mama, Plêiade ou Krittika como maternal Aspecto Feminino do próprio Dhyani-Budha Eduardo, portanto, sendo a Dhyani-Budhai Joana ou Jove Pluvius, tanto vale, desde que é a expressão ideoplástica nesta assúrica Terra Lusa do Espírito Santo, no mapa estelar representado por Peixes e Balança, ou seja, o Pai agindo através da Mãe, isto é, Júpiter em Vénus, ou Chesed sobre Netzach, ou ainda, na linguagem viva da Obra do Eterno na Face da Terra, Pithis e Alef juntos, sendo Xadú o Filho Eduardo, enquanto aqueles estão para Sakiel e Joana, Selene em grego ou Maghavanti em védico.

Mãe do Mundo

Como disse, o chakra mundanal de Chesed é Júpiter (ou Tsedek, a “Rectidão”), cujo aspecto refere-se a todos os pontos de vista governamentais, sejam de que natureza forem, concorrentes para uma simbiose social justa e perfeita, isto é, sinárquica, interpretando esta como Concórdia Universal. Desde já apercebe-se não ser por acaso mas por causalidade oculta que todos os governantes nacionais e estrangeiros, de uma forma ou de outra, acabam sempre reunindo-se em Sintra para decidir dos destinos do país, do continente e mesmo do mundo.

Chesed é o ponto de encontro, de acção e reacção, entre o Logos Planetário e a Humanidade através do Rei do Mundo (Melki-Tsedek). A cruz de braços iguais, o cubo, a espada, o báculo, o ceptro e a esfera, não deixam de ser símbolos confirmatórios da imagem de poder relacionada a Chesed.

O número cabalístico da supracitada esfera (CheSeD) é o 20, e o de SiNTRa é o 5. Ora o 20 corresponde no Tarot Boémio ao “Julgamento”, à Ressurreição do Espírito do seio da Matéria, isto é, segundo o “Anjo da Palavra” ou Deva-Vani, à “Saída do Ciclo da Necessidade” para poder penetrar o Arcano 21: “A Libertação” como “A Vitória da Mónada” na derradeira “Dissolução no seio real e obscuro de Deus”, tornando-se o Arcano 22… a Laurenta.

Mas essa reintegração final só se pode processar através do Arcano 5: “O Hierofante” ou “Grão-Sacerdote”, este aqui expressando a Inteligência Universal do Quinto Espírito Planetário Arabel, como sendo “O Poder Religioso separado do Temporal”, ou seja, “ao Céu o que é de Deus, e à Terra o que é do Homem”. Cada coisa no seu devido lugar.

O número cinco, no respeitante ao pensamento esotérico português, deixa subentender o augúrio de Quinto Império, a teoplasmação do Quinto Reino Espiritual, o que novamente reporta à derradeira mensagem do Arcano 20, a Ressurreição ou Ressurgimento do Povo Eleito da Agharta mesma sobre a Terra – tanto que esse é o Reino Espiritual dos Imortais ou Seres Viventes no seio da Terra… – e, diz a Tradição, que apesar de essa Ressurreição ser universal mesmo assim, no tocante às plagas lusas, acontecerá pela Embocadura de Sintra, como 5.º Centro de Irradiação Espiritual do Globo correspondendo à garganta do Homem Cósmico, o mesmo Logos Planetário. Mas quando acontecerá… só os Deuses o sabem!

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O órgão da voz também se situa na garganta, no gargalo, o ponto de estrangulamento ou passagem entre o resto do corpo, pólo negativo, e a cabeça, pólo positivo, correspondendo na dimensão etérica a Vishuda, o Chakra Laríngeo. Quando os dois pólos se encontram e neutralizam, o homem realiza-se e pode fazer uso da palavra. Ele é um só com a Voz e o Verbo. Engendra a sua linguagem, que é a da Mente Universal. Descobre a Palavra Perdida, torna-se o Senhor da Lavra de todas as Letras e de todos os Números. Volta-se para si mesmo como a serpente que devora a própria cauda, desenhando um zero sobre a Face do Abismo (Ab-Soo).

A título de exemplo, numa referência mais detida nesta Homenagem ao Dhyani Celeste ou Kumárico do 5.º Sistema Geográfico, tome-se Kundalini como o Poder do Quinto Planetário funcionando a modo de Energia Criadora na espinha dorsal do ser humano, que na assunção do chakra raiz ao coronário escoa-se como corrente concentrada pelo desfiladeiro do laríngeo, válvula de escape por onde a consciência humana vê o verbo transformar-se em som e forma, luz e revelação.

Assim, buscando a União com a Alma Universal do homem individual e colectivo, a Grande Obra Teúrgica vai se realizando até ao momento da derradeira e suprema Metástase da humana criatura com o Divino Criador, e este avatarizando a ela, penetrando o seu imo com a Luz da Consciência Universal o que se prefigura como Revelação do Espírito Santo, “a Pomba branca que desce do Céu à Terra”, do espiritual ao corporal, do Segundo Trono ao Terceiro, dando consumação à 5.ª Linha do Odissonai: A Realização de Deus. Esta tem toda a ver com SINTRA, ou não significasse, no tocante ao Pensamento e Obra Teúrgicas, S.I.N.T.R.A. o S.erviço I.ntenso no T.rabalho de R.edenção da A.lma.

Seis letras para um quinto princípio, que é dizer, as seis letras ou a Palavra Redentora prefigurando o Exagonon (Hexalfa) do Sexto Senhor Akbel devolvendo a refulgência à Estrela Flamejante (Pentalfa), o Tetragramaton, do Quinto Senhor Arabel, que é o Mental Superior do mesmo entretanto “apagado” quando da sua queda celeste para o desterro na Terra, onde ficou agrilhoado no Cáucaso, isto é, no “cárcere carnal”.

O Venerável Mestre JHS, Professor Henrique José de Souza, em 1950 revelou o seguinte sobre o Pentalfa Luminoso – igual ao Infinito – no seu Livro do Graal (“A Estrela de Belém e outros Mistérios…”):

“A Estrela de Belém, embora que obediente a uma conjunção exigida ao nascimento do Bodhisattva – como acontece sempre em tais ocasiões cíclicas, como prova a influência de JÚPITER para a de Aktalaya, estando, além do mais, o referido PLANETA “perpendicular à Terra” naquele momento –, repetimos, tal ESTRELA, como síntese gloriosa dos mistérios celestes (ou estelares), é a representação apoteótica do TETRAGRAMATON. E isto para provar que, acima de todas as conjunções e influências planetárias do momento, o que exalta semelhantes nascimentos é o TETRAGRAMATON, ou melhor, a “Quinta Essência Divina” entronizada no SEGUNDO TRONO (aparte o pleonasmo). Sim, o “Mundo Akáshico ou Rajásico que separa o Superior do Inferior”. Quod superius, sicut quod inferius. Com outras palavras, “separa a matéria SÁTVICA da TAMÁSICA”. Como AZUL que é, separa o AMARELO do VERMELHO. Preste-se atenção que o ângulo, qual acontece no nariz do Homem, da RAIZ para as duas narinas é um “A” perfeito. Vejamos o TETRAGRAMATON alegorizado dessa maneira:

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“Pelo que se vê, cinco A A A A A repetem o nome do ARQUITECTO, o ALTÍSSIMO em nosso idioma, cinco vezes ou a Cadeia seguinte como dirigente da Terra. Em outras línguas, AT, AD, ADI, etc., querem dizer “primeiro”, etc. Ora, cinco “primeiros” ou 1 1 1 1 1 dariam, do mesmo modo, o número 5…

“Repito: a ESTRELA DE BELÉM é o Excelso TETRAGRAMATON, “como manifestação ideoplástica do HOMEM CÓSMICO que é JEHOVAH”. Razão pela qual (e nenhum cabalista o SABE) o mesmo termo fala em TETRA, que é quatro, e no entanto é cinco. Sim, Ele, o Eterno, através da 5.ª Cadeia dirige a 4.ª. Mas, já se vê, através do Segundo Logos ou Trono ou da Sua forma-dual latente (“Júpiter é o Esposo e Esposa Divinos”, segundo a Mitologia Grega), ou dos DOIS OLHOS que são os GÉMEOS ESPIRITUAIS. A manifestação tetragramática da 5.ª Essência Divina foi realizada através dos referidos GÉMEOS…

“Sim, “final deste Ciclo”… pois a seguir vem o Avatara ou o repouso em Uma só Pessoa, valendo por Três. Pai, Filho e Espírito Santo. Mas também, Atmã – Budhi – Manas, equilibrando as Três Gunas ou “qualidades de Matéria” – Satva – Rajas – Tamas. Donde o termo REX MUNDI ou Rei dos Mundos para apenas AKBEL, pois que o Outro também o sendo, o é apenas de um só Mundo ou Terreno.”

O itinerário dos Arcanos 5 ao 20 faz-se pelo 7 (5+2(0) = 7), esse o do “Carro de Deus”, expressivo da Merkabah, o que assinala a “Sublimação da Queda (do antigo Aluzbel entretanto se transformado Arabel, o “Deus da Ara” ou Terra) pela Vitória do Segundo Trono (agindo por Akbel)”, por intercessão de “O Vitorioso” Avatara de Aquarius, Akdorge ou Aktalaya, no Templo das Riquezas, encravado no escrínio da Kala-Sishita ou Sintra mesma, aguardando a Sua Hora de reaparecer sobre o Mundo, Ele que porta o elmo com o tripenacho expressivo da Grande Fraternidade Branca de quem é o Chefe Supremo, tripenacho, ainda, com as cores básicas das 3 Gunas ou “qualidades de matéria”, o que se representa no Candelabro de 3 Luzes, Lumes ou Chamas, assinaladas na letra hebraica Schin expressiva dos 3 Mundos de Evolução. Esse divino Guerreiro Celeste na Terra, Asgartock, Akdorge ou São Jorge, é aquele que se avista no Parque da Pena de Sintra erecto sobre penhas como o “Arquitecto” ou “Guerreiro”, no vozerio comum, identificação confirmada em imagem idêntica num vitral na capela do palácio do mesmo parque.

O sete é, por excelência, o algarismo solar da Iniciação Eu-Crística ou Eucarística assinalada no Santo Graal na sua duplicidade inseparável de Taça Sagrada expressiva do repositório da Consciência Divina, esta corporificada no Filho (Akdorge ou Maitreya, tanto vale, pois no Bodhisattva o Budha faz o Avatara e os Dois se fazem Um), facto transcendente que na Serra Sagrada também tem a sua referência geográfica no ponto mais alto da mesma, como se fosse ápice de Obelisco ou patena de Cálice: a Cruz Alta, muito justa e significativamente desde 1899 chamada por JHS de Pico do Graal. Se o divino Guerreiro tem aqui a sua Morada interior, esta vem a ser representada no exterior pelo misterioso Castelo dos Mouros (Morias, Marus, Marizes…), também este sob o auspício de Surya e Savitri, o Sol Espiritual e sua contraparte criadora ou Shakti Cósmica, imediatamente representados sideralmente por Brihaspati ou Júpiter em védico, o mesmo Jehovah das escrituras sagradas judaico-cristãs.

Ante tudo isso, acodem-me à mente algumas estrofes soltas dos Hinos Ode Avatárica e Exaltação ao Graal, do mesmo Mestre JHS, por parecem ser plenamente justas e justificadas neste espaço privilegiado a quem um outro Eduardo, desta feita o Byron, encantado apodou de “Jardim do Éden”:

Nascido das Águas

Como “Santo e Guerreiro”,

Trazia uma Lança

Do Pau do Cruzeiro.

*

No alto do Monte

Em forma de Cruz:

Na Terra exaltado

Emblema de Luz!

*

Os Anjos abrindo Ala,

Enaltecem a Shamballah,

Cedem lugar a Maria,

Fazem o mesmo a Jesus!

Hora de Paz e de Harmonia,

Hora da Santa Eucaristia,

Numa Apoteose de Luz!

Ainda sobre o Santo Graal, ele é pomo de controvérsia e confusão constantes para os estudiosos profanos, pois encontram-no com esse nome em três objectos tradicionais distintos: como Pedra, como Livro e como Vaso. O seu simbolismo – que é vivo na mecânica da Obra do Eterno – é muito rico é resume-se ao significado de Sustentação, Revelação, Vida. A Sustentação ou experiência de Saturno como a própria Matéria em que se encarna, é representada na Pedra de Esmeralda; a encarnação conduz à Revelação que traz a Sabedoria, esta que também é o Maná ou Manas, o alimento doador da Vida, o qual vazou da fronte ou Mental do Excelso Quinto Senhor.

Volvendo ao valor 5, pode-se encontrá-lo reduzido no número cabalístico 32 (3 + 2 = 5), correspondendo aos 32 Sidhis ou Poderes Espirituais do Adepto Perfeito que se assinalam nos 32 Portais do Templo da Sabedoria (Caijah), por sua vez assinalados nos 32 dentes da boca humana por onde se manifesta o Verbo. No tocante à Hierarquia Espiritual de Sintra, tem-se o 33.º, como “oitava superior” ou na cúspide da mesma, no Quinto Arcanjo ou Dhyani-Kumara Sakiel (considerado o “Fogo da Justiça Divina”, equivalendo no Odissonai à SENTENÇA DE DEUS), que destas fragas perfumadas por mil bênçãos é o “Regente Celeste da 5.ª Raça-Mãe”, sendo que a sua forma mais objectiva pode ser visualizada como “um pôr de sol purpurino detrás de uma Montanha ou sobre o Mar”.

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Ele é o verdadeiro “Jehovah Sénior” do maior que é o Luzeiro ou Logos Planetário de Júpiter. O “Jehovah Júnior”, como o designava o insigne Sebastião Vieira Vidal, será o próprio Dhyani-Buda Eduardo, este que foi assim consignado por já ter estado entronizado no Trono de Deus existente no Portal de Shamballah. Ademais, como Jove Pluto Filho do próprio Júpiter Coelis, só podia ser esse o Lugar da consagração do Excelso Dhyani no Retro-Trono Aghartino, antes de nascer na face da Terra às 5 horas da madrugada de 5 de Julho de 1900. O seu Pai deu-lhe a Vida, a sua Mãe a Geração e o Paraninfo Sakiel a Instrução…

O Júpiter Alfabético corresponde às palavras seguintes do Tetragramaton:

Foto 60

O Júpiter Numérico corresponde aos números seguintes do “quadrado mágico da Terra” (em relação à qual Júpiter será o 4.º Planeta contando da Lua (Cadeia) em diante):

5050

505

100

10

1

O necessário desenvolvimento alfabético e numérico a LEI não permite que o faça num estudo público como este, se bem que todos os Iniciados da Obra do Eterno na Face da Terra o conheçam detalhadamente. Portanto, limito-me aqui a lançar as bases…

Nesta Homenagem ao Quinto Dhyani Celeste para o Ciclo de Aquário – sendo Eduardo o Dhyani Terrestre – em que se está na tónica do Quinto Sistema de Evolução alvorecendo e na objectividade do Quarto crepuscular, portanto, na transição Intercíclica entre o Quarto e o Quinto, é assim que este Excelso Arcanjo «Português» representa a tónica do Quinto Luzeiro ou Elemento Cósmico Etérico, o Akasha promanado do reservatório celeste de Vénus – “quem atravessa o Akasha é Fonte de toda a Riqueza”, diz um Livro Jina, e nisto Sakiel é o “Senhor da Cornucópia” repleta de riqueza espiritual e material, é o “Deus das Relíquias e da Riqueza, Senhor dos Poderes do Céu e da Terra e da Boa Fortuna”.

Para se ver definidamente essa perspectiva de transição entre o Quarto e o Quinto Sistemas de Evolução Universal, só na luz indefinida do crepúsculo. Sim, porque, como foi dito, a cor deste Dhyani Celeste é púrpura, pôr de Sol glorioso de um Luzeiro que quando morre atrás da montanha, vai renascer no dia seguinte com nova luz. Deus cria geometrizando. A noite cai a Oeste, enquanto o Sol ainda brilha a Leste, mesmo que espiritualmente já se processe o inverso. Para abreviar a Noite Inter-ciclos, é preciso voltar costas ao Sol agonizante do Oriente e marchar na direcção da Nova Aurora a Ocidente. Terá sido por isso que a Mónada Humana passou do Oriente para o Ocidente, no Itinerário de IO, o Roteiro do EU. O Sol Poente do Passado ou Peixes ainda aquece as costas do Peregrino da Vida e já a luz do Sol Nascente lhe banha o rosto, aqui o Sol Nascente da Nova Aurora de Aquarius.

Por esse motivo, o Venerável Mestre JHS revelou que a partir do ano 2005 os 7 Kumaras ou Espíritos Planetários teriam os nomes dos 7 Tatvas ou Elementos da Natureza, conforme está descrito no seu Livro de Herakles (Carta-Revelação de 9.08.1959, “Completando as últimas Revelações”). Por isso Sakiel, Saquiel ou Sealtiel também leva o nome interno de Saquibel e Satyabel, o Deus de Satva, a resplandecente Luz Primordial (Adi) expandindo a todo o Universo.

A Aura purpurina de Sakiel, plena de glória e esplendor, perfumada de maçã e trescalando a açafrão (este que em sânscrito é ahsam, a “postura divina”), congrega em si a todos os Assuras caídos outrora em tragédias várias de que resultou a grande epopeia da Evolução Humana, culminada em Sintra de Portugal onde já se abre um novo capítulo na marcha avante do Género Humano, ou seja, um novo e mais amplo Ciclo em São Lourenço do Brasil, tanto valendo pela transição da actual 5.ª Raça-Mãe às 6.ª e 7.ª Raças Futuras, Gémeas, portanto, lançando ao terreno do Futuro as sementes da Raça Dourada, Crística ou de Maitreya. Com efeito, é pelo Mental Superior ou Assúrico que hoje mesmo, nestas lusas plagas, se tece o Amanhã que se deseja o mais esplendoroso. Para além dessas representações Vegetal e Humana, ou seja, o perfume de maçã, o incenso de açafrão e a condição Mental Superior do Homem Assura, Sakiel, cujo Trono é esta sua Montanha Sagrada de Kurat-Avarat expressiva de Sura-Loka, tem ainda por totens vivos, “condensadores sinergéticos” que também são “figurativos sintéticos”, Mineral e Animal, a rubina e a raposa dourada, esta que onde inexiste é substituída pelo cão branco.

Agindo através dos Excelsos Takura-Bey e Mama-Sahib, o Quinto Dhyani-Kumara Sakiel, nascido de 1789 em diante como o quinto Filho de São Germano ou Lorenzo e Lorenza, como representante do Raio Espiritual de Júpiter teve um papel determinante na fundação do Grande Ocidente. Ele apresentou-se ao Venerável Mestre JHS no Sexto Ritual que antecedeu a fundação material da Obra do Eterno na Face da Terra, realizado em Niterói (Brasil) às 20 horas de 27 de Julho de 1924. Além de trazer para todos os presentes palavras de conforto e conselhos maravilhosos para serem adoptados, recomendou que daquele Ritual em diante se realizasse sempre a mentalização de um “Globo Azul, tendo em dourado no centro a palavra PAX”, que além do sentido de Paz para todos os seres possuía outro, ou seja, aquele relacionado com a palavra sânscrita Pakshim ou Paxa, Pax no diminutivo, que quer dizer “agir em concerto, tomar parte em determinada coisa” e que “era o que então se necessitava…” Nesse Ritual de Fundação, Sakiel veio acompanhado do Adepto seu Pai São Germano, o Mestre Justus et Perfectus, o qual deixou preciosa Mensagem na mesa da Directoria em guisa de credencial da Grande Loja Branca à Obra que se ia firmar no Ocidente.

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Como disse, segundo as escrituras judaico-cristãs e gnósticas o nome hebreu de Sakiel, o Deus Troante ou do Trovão, significa “Fogo de Deus”, conectando-o ao sentido de “Justiça Divina”. Pertencente à Hierarquia dos Deuses Primordiais ou Tronos, os Leões de Fogo, Sakiel é o Príncipe das Dominações. Os cabalistas e gnósticos costumam invocá-lo para a resolução favorável aos actos de justiça. Como Príncipe da profecia e da inspiração, donde iconograficamente além do bastão de mando carregar um pergaminho, é ligado ao sacerdócio, às artes e ao ensino. Inspira ideias renovadoras às pessoas fracas e desanimadas para que realizem os seus objectivos, estando-lhe consignando o Salmo 34 (“Julgai, Senhor, aqueles que me prejudicam e ofendem…”).

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Sakiel, o “Fogo de Deus revelado Justiça Divina” a que os hebreus dão corpo sob o onomástico Adonay-Tsedek – o Senhor do Poder Temporal feitor de uma Nova Idade de Justiça Social para o Mundo, transformando a Anarquia em Sinarquia –, como disse, domina sobre a Hierarquia Criadora Haschmalim, em hebraico, ou Dominações, conhecida em Teurgia e Teosofia como Construtores Maiores, agindo pelos mesmíssimos “Planetários de Rondas” como Kumaras Primordiais, frutos da anterior Cadeia Lunar, para os Kumaras Secundários Filhos de Lorenzo-Lorenza, no final do século XVIII, de que, para todo o efeito, na tabela geral tanto o Sakiel Primordial como o Secundário são sempre os Quintos… um a ver com a 5.ª Ronda futura e outro relacionado com a 5.ª Raça presente.

São as seguintes as Hierarquias Criadoras afins ao Espírito e à Matéria do Universo:

RAIO DIVINO (PURUSHA, ESPÍRITO):

Domingo – Sol – Mikael – 7 Logoi ou Logos Solares

Segunda – Lua – Gabriel – 7 Raios de Luz do Pramantha

Terça – Marte – Samael – 7 Forças, Energias ou Shaktis

Quarta – Mercúrio – Rafael – 7 Dhyan-Choans ou Logos Planetários

Quinta – Júpiter – Sakiel – 7 Construtores Maiores

Sexta – Vénus – Anael – 7 Espíritos diante do Trono

Sábado – Saturno – Kassiel – 7 Anjos da Face ou da Presença

RAIO PRIMORDIAL (PRAKRITI, MATÉRIA):

Adi – Júpiter – Sakiel – Leões de Fogo

Anupadaka – Mercúrio – Rafael – Olhos e Ouvidos Alerta

Akasha – Vénus – Anael – Virgens da Vida

Vayu – Saturno – Kassiel – Assuras

Tejas – Marte – Samael – Agnisvattas

Apas – Lua – Gabriel – Barishads

Pritivi – Sol – Mikael – Jivas

A Hierarquia Haschmalim constitui uma Força agradável e construtiva que, quando evocada nos cânones ritualísticos, reforça a estabilidade mental e emocional capacitando ao maior autocontrole e disciplina psicomental, o que se interpreta como a natureza espiritual de Júpiter moldando a maleabilidade mental de Mercúrio, este o planeta de VirgemDeus Pai-Mãe ou Zain-Zione, em aghartino – o que expressa o 1.º Trono ou Logos, o mesmo Pai, Zeus, Dhyaos, Deus, Jehovah como o Júpiter mitológico.

Esse mesmo Mercúrio ou Budha, em sânscrito, está inclusive assinalado no frontal (H) da 4.ª Catedral Graalística do Ocidente, e lateralmente, junto à Porta Santa, pela Flor-de-Lis do Governo Oculto do Mundo: a Sé Patriarcal de Santa Maria Maior de Lisboa.

Sendo Sintra o ponto de fixação do 5.º Chakra Laríngeo Planetário do Homem Cósmico (Adam-Kadmon, representado na Terra pela “Parelha Primordial” ou “Padrão Humano” Adam-Heve), ela tem por expressão inferior o Chakra Esplénico Planetário situado no México, sob a regência da Lua e do Dhyani-Kumara Gabriel. Tal como o Mental é a “ponte de luz” (antahkarana) entre a Individualidade espiritual e a Personalidade material, assim também é o Corpo Vital entre o Psíquico e o Físico. Essa relação Laríngeo-Esplénico traduz-se como Verbo superior, a Fala vitalizada própria ao sacerdócio cuja função também é a de instruir, portanto, à expressão humanizada da Sabedoria Divina na Terra, a Filia Vocis tendo por símbolo a Pomba do Espírito Santo.

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A Literatura, especialidade do Quinto Raio regente da Embocadura de Sintra, tem na dramaturgia um dos seus ramos mais fortes, e no palco um profundo desaguadouro, uma poderosa desembocadura das motivações humanas. A palavra, matéria-prima da Literatura, atravessa a Escola, o Teatro e o Templo. Instrumentalmente, é como que o traço de união entre eles. Uma vez que o Universo é mental, mas não ideal, tudo o que o ser humano é capaz de imaginar, ou mentalizar, existe em alguma dimensão. Dimensão como sinónima de estado de consciência é também sinónima de mente, no sentido de nível mental ou grau de mentalização. E a rigor não há, etimologicamente, diferença entre mente e mentalizar, isto é, criar pela mente.

Mas como criar pela mente é um processo subjectivo, os mundos paralelos e simultâneos não se apercebem da existência uns dos outros. O que é objectivo num mundo é subjectivo no outro, e vice-versa sucessivamente. Tomando-se a mentalização como a subjectividade mesma, e a enunciação ou formulação pela palavra escrita, falada ou pensada, como a própria objectividade, tem-se que a incomunicabilidade dos mundos simultâneos (interpenetrados mas distintos pela vibração ou tónica afim) é um problema de linguagem. Não falam a mesma linguagem, e aceitando-se esta como a realidade em si, do ponto de vista fenoménico não têm a mesma língua. Um corolário inevitável é que se dois mundos paralelos passam a usar a mesma linguagem, encontram-se e integram-se numa terceira realidade. Nasce um terceiro mundo, lembrando o “crescei e multiplicai-vos” do Génesis como a origem de todas as coisas.

Como a Natureza não dá saltos, então naturalmente essa fusão da linguagem para a fundação de um novo mundo não se faz repentinamente. Ela é, pelo contrário, um processo gradual. Para os que participam deste em completo envolvimento, inicialmente pode até parecer caótico e monstruoso, como as dores formidáveis dum parto gigantesco. O conhecimento, nesta fase de transfusão do objectivo ao subjectivo, mas também do subjectivo ao objectivo, é enigmático, mas nunca dogmático. As consciências que vão decifrando o enigma começam a adivinhar a harmonia e a maravilha da transformação. São os artistas, os músicos, os poetas, os oradores, os escritores e, muito mais acima, os Adeptos e Iluminados de todos os Graus, e ainda mais acima, os Dhyanis-Budhas Terrenos e os Dhyanis-Kumaras Celestes, paraninfos daqueles.

ccf20092010_00000[1]Nesta ordem de ideias, vale dizer que no Mundo Terreno em que ora todos vivemos, em meio a miríades de realidades entrecortantes que a todos põem à prova, o Avatara é a Consciência de ligação entre os Mundos Terreno e Psíquico em vias de se encontrarem e fundirem num terceiro: o Mundo Mental, logo e por ser o mais próximo do imediato, Espiritual. O Supremo Orientador da Teurgia e Teosofia, Professor Henrique José de Souza, o Venerável Mestre JHS (hoje laborando como El Rike o Encoberto na Agharta para a sua Corte que deixou à Face da Terra, e esta com o dever supremo de servir indiscriminadamente à Humanidade), como Protagonista Avatárico foi um mediador como Intérprete entre o Ego exterior e o verdadeiro Eu, entre a Instituição e a Obra, entre a Face da Terra e os Mundos Interiores. Ele legou aos teúrgicos e teósofos métodos, práticas e conhecimentos que, se bem e eficazmente utilizados por eles, poderão levá-los ao triunfo supremo de falar a Sua Linguagem, destinada a ser a de toda a Humanidade no Ciclo Planetário de Aquarius. Nós somos as sílabas, palavras, silêncios, pausas, intenções, sentenças e entrelinhas da Linguagem do Futuro, mas só nos identificamos com essa Voz quando estamos identificados com a nossa projecção programada nesta vida entregue à Obra Divina. Repetir o Avatara não é divulgar-lhe a Obra, e, muito menos, usar a forma exterior do seu frasear é falar a Linguagem do Futuro. Falar e divulgar a sua Obra Divina é estar em consentaneidade integral com Ela e com Ele, mesmo que seja “contra ventos e marés”, isso pouco importando desde que a consciência do Munindra ou Discípulo esteja sintonia total com a do Mestre, senão mesmo, Una com a Dele.

JHS legou-nos, aos da sua Instituição e Obra, as chaves da linguagem do Novo Ciclo, com os Ensinamentos, as Yogas, Ritos e Cerimónias específicas, Síntese Humana do Verbo Divino em suas diferentes vibrações respeitantes à Face da Terra e aos Mundos Interiores. A sua Ode ao Som (Odissonai) é a primeira obra de Arte Literária e de Arte Dramática do Novo Ciclo. É também a primeira obra de Arte Musical – Opus-1 da nova dimensão do ser humano. Isto para os nossos limitados sentidos. Para quem sabe e pode ver, eis igualmente o trabalho inaugural da Pintura e da Escultura dos séculos vindouros, se o Homem não se trair, atraiçoando a Lei…

O aprendizado da Nova Linguagem tem o seu pólo de invenção e está geometrizado no Sistema Geográfico Internacional. Os Chakras e as Embocaduras entrecompletam-se e entreconfirmam-se. Ainda mal se pode imaginar as maravilhas de invenção, em termos de conhecimento, e de linguagem que o Homem será capaz de engendrar no Futuro, sob a inspiração do Avatara. Ocorre-me um exemplo, que ofereço como sugestão à consideração dos estudiosos: a geometrização desse fenómeno universal, a gravidade, que mantém os pés do Homem no chão, o Sistema Solar em sua unidade, e o Sol Central em equilíbrio dinâmico entre as paredes da Terra Oca!

Homenageada a 5 de Julho, data esotérica de Sintra em mês dos Dhyanis, a Hierarquia Espiritual desta Serra Sagrada leva a efeito em tal data, tanto no Templo Interno quanto no Externo, grandioso Ritual Solene ou Nobre onde o Nome e Presença de Sakiel ocupa lugar destacado, ele que é o Vigilante Silencioso de Sintra e Europa, distendendo-se a África, cavando-se cada vez mais fundo os alicerces de Paz, de Amor e de Justiça na Face da Terra, projectando a aproximação cada vez maior de todos os Povos do Mundo em fraterna e conclusiva Concórdia Universal.

Dhyanis Novo Pramantha

O parágrafo acima poderia muito bem servir-me para encerrar a presente Homenagem, que já vai longa e sumamente atrevida quanto a meias-revelações iniciáticas nem sonhadas por curiosos e profanos, e até por conspícuos ocultistas e teosofistas. Mas não encerro, seguindo o conselho do Adepto Independente encoberto pelo pseudónimo Rosalvo Cruz, sem apontar uma questão importante que já trouxe tanta tragédia a Sintra e a quem a provocou: a da Maya-Vada ou Espelhismo, como “ilusão dos sentidos”, vale dizer, atrofiamento e engano dos mesmos.

Muito mais porque fui EU quem iniciou em 1978 o Ciclo Taumatúrgico de Sintra para Aquarius. Até ao ano 2000 restringi-me à linguagem teosófica de todos mais ou menos conhecida; daí em diante, tudo mudou!… Pois bem, o fascínio pela serra, o seu lado oculto, esotérico, em boa parte desencadeado pelas entrevistas que dei a órgãos de comunicação social, falando o que então era possível falar e sugerindo muito entrelinhas (foram cerca de 50 reportagens espalhadas por diversos títulos, de que o matutino “Correio da Manhã” teve a primazia), levou muitos incautos e despreparados, alguns deles na época não passando de adolescentes primando pela má educação, a não nos procurarem mas a forjarem as suas próprias teorias fantásticas baseadas nas ditas reportagens, tomando assim “o irreal por real”, “o falso por verdadeiro”, “a nuvem por Juno”… mas isso era inevitável: as parcelas maravilhosas deste Conhecimento que devemos à Humanidade e a ela as oferecemos, de uma ou outra maneira, ante a deformação de carácter do Homem desta Kali-Yuga ou Idade Sombria, acabam sempre caindo em mãos indignas, despreparadas para receber sem estragar, para receber e ter a humildade de aprender para finalmente compreender… que eram apenas gotas dadas a público por uma fonte oculta. Essas “gotas” estavam em conformidade às necessidades do Ciclo que ora irrompe, pois que, usando as palavras do Senhor JHS, “se o Avatara se manifestasse usando sempre as mesmas palavras, jamais haveria Evolução”! Não quero com isto dizer que eu seja avatara, messias, guru, etc., que desses de fancaria e miséria está o mundo cheio.

Assim, nesta separação mental do “trigo do joio”, muitos foram e são os que acabam fatalmente enleados nos lunares e lunáticos véus “apásicos”, linfáticos da Maya sintriana, a sua “Sombra Astral” ou Upachaya, ocultando a Luz Mental, a Realidade, a Upaguru… muito além dos domínios sensoriais e passionais da fantasia, da demência e, até, da destruição e da morte… provocada pelo mau uso e abuso da Sabedoria Divina, que pervertida se torna conhecimento diabólico, proibido pela Lei do Eterno como Regras do Pramantha ou Grande Fraternidade Branca, por ser o da morte e da involução. Factos e casos não vale a pena citá-los, para não envergonhar ainda mais os seus autores. Eles sabem quem são, o que fizeram e o que fazem. Basta isso, a sua consciência ditará o resto…

Transpor o “véu mayávico” sintriano implica conscientização iniciática, logo, espiritual e não psíquica, que neste particular é conferida por quem representa o Espírito Tutelar da Montanha (Sakiel): a Teurgia, como Obra do Eterno na Face da Terra.

Tudo o mais, referente ao Pensamento Teúrgico mas anacronicamente estando fora dele, não passa de febre “tejásica” provocada pelo fogo elemental, insensatez, mentira, fantasia inglória não raro criminosa. Todavia, permanece ontem, hoje e sempre a preciosa e poderosa “barreira elemental” – Upachaya – protegendo o Reino da Augusta Fraternidade Espiritual onde a Paz e a Justiça coabitam a par da Verdade e do Amor, encobertamente realizando Deus para que seja mais Deus e com Ele o Homem mais Homem, aqui, particularmente, o ibero-europeu, a caminho, nesta marcha cíclica, da Nova Canaã, a Sintra Aquariana plantada no Portugal Central, alter-ego, enfim, dos filhos e filhas do Povoador original da Europa que nesta serra procurou descanso eterno para os seus despojos mortais, o Manu Ur-Gardan, transformador do Portugal Atlante em Ariano e dando projecto ao Portugal Bimânico do Futuro.

Demanda marítima

Louvado seja SAKIEL, Relíquia Troante do SANCTUM-SANCTORUM da Riqueza do Mental, que permitiu aos seres da Terra galgarem os degraus da Escada da Iniciação de sete maneiras diferentes. Bendito seja o Quinto do Céu na Terra como REALIZAÇÃO DE DEUS!

ADVENIAT REGNUM TUUM!

TETRAGRAMATON – EXAGONON – ADONAY SABAOTH

HUNGHI!