Processo contra os Templários

trecho do Marquês de Pombal

Durante o julgamento dos templários em França, nos finais do primeiro decénio e inícios do segundo do século XIV, as acusações contra eles foram lidas em pormenor. As acusações primitivas do mandato de Maubuisson perpetrado por Guillaume Nogaret a mando de Filipe IV, tinham sido que os templários negavam Cristo e cuspiam na Sua imagem; trocavam beijos obscenos e entregavam-se a práticas homossexuais; adoravam um ídolo estranho identificado ao Príncipe das Trevas: seria uma caveira, ou um bode ou um busto chifrudo, ou talvez uma mistura inextrincável de tudo isso, pois não se sabia o que era… porque nunca alguém o vira, mas tal seria justificado por os templários o esconderem das vistas estranhas à Ordem. Agora, no Processo de Paris, os templários já não enfrentavam três mas sim sete grupos de acusações, especificadas em cento e vinte e sete artigos. Os grupos eram os seguintes:

Primeiro, e mais importante, a negação de Cristo. Ao ser recebido um novo templário, era obrigado a renunciar à sua crença na divindade de Cristo e a aceitar que Cristo não era o Salvador, mas sim um falso profeta crucificado pelos seus próprios pecados. O novo irmão tinha depois que aviltar o crucifixo, cuspindo-lhe, urinando-lhe em cima e pisando-o aos seus pés. Todas as outras acusações tinham nessa o seu fundamento. Segundo, os templários eram idólatras. O seu ídolo era um gato preto, ou um bode negro ou um crânio com poderes mágicos. O crânio podia responder a perguntas; proporcionava a riqueza dos templários e destruía os seus inimigos, e cada irmão tinha de usar à volta da cintura uma corda que havia sido amarrada ou enrolada ao tal ídolo. Cada irmão ficava assim magicamente ligado ao ídolo, compartilhando o seu poder e subserviente a ele. O terceiro grupo de acusações abrangia diferentes aspectos da descrença dos templários. Em virtude de Cristo não ser o Messias, os sacramentos da Igreja nada significavam para eles e os seus padres não consagravam a hóstia quando celebravam a missa; a missa dos templários não passava de uma mascarada. O quarto grupo relacionava-se com a absolvição dos pecados; o Mestre do Templo e outros dirigentes ouviam confissões dos irmãos e absolviam-nos, mesmo sem terem qualificações sacerdotais para isso. Seguiam-se as obscenidades dentro da Ordem, os beijos na boca, no umbigo, no ventre, no ânus, nas nádegas e na espinha, e a homossexualidade que os irmãos recebiam ordens para aceitar. O sexto grupo era o das acusações de cupidez. A principal preocupação dos irmãos em todas as ocasiões seria o enriquecimento material da Ordem, indistintamente por meios legais ou ilegais. Sétimo e último, o secretismo da Ordem era considerado criminoso, pois não só as recepções e reuniões do Capítulo efectuavam-se em salas guardadas e com as portas e janelas fechadas à chave e tapadas, como também qualquer irmão que revelasse os segredos do Templo era encarcerado ou assassinado[1].

Foi assim, na terça-feira de 7 de Abril de 1310 na cidade francesa de Chinon, com essas acusações que se abriu o processo contra o Templo, dirigido pelo conselheiro do rei de França, Guillaume Nogaret, auxiliado pelo advogado Plaisians, ambos manipulando os três cardeais enviados aí pelo mesmo Filipe IV que os escolhera “a dedo”. Um dos delegados pontifícios era o arcebispo de Sens, Filipe de Marigny, cujo irmão era o intendente-mor das finanças do rei. O arcebispado de Sens tinha autoridade sobre o bispado de Paris, onde os templários acusados estavam presos, sendo esse arcebispo um homem de Filipe IV que conseguira arrancar ao papa Clemente V a nomeação do religioso, vital ao êxito do seu plano maquiavélico previamente concebido. Presente ainda no julgamento, como testemunhas de acusação, de entre outros o carcereiro brutal dos templários, e destes prisioneiros haviam muitos que tinham confessado todas as heresias apontadas, mas sob a coação da tortura imposta, sem contar com um rol numeroso de testemunhas completamente alheias à Ordem as quais Nogaret comprara, que vomitaram tudo quanto os delegados do rei e do papa queriam ouvir. Em suma, o julgamento foi forjado, assim também as provas e a sentença viciada desde muito antes de começar o processo, portanto, não passou de uma farsa ignóbil e cruel onde os acusados já estavam de antemão condenados.

“– Sofri tanta tortura – confessa aos juízes, por exemplo, o templário albigense Bernard du Gué –, tanto interrogatório, resisti tanto ao fogo que a carne dos meus calcanhares ficou toda queimada e os ossos caíram aos bocados”. Por sua vez, dentre centenas de testemunhos idênticos de templários aprisionados e presentes ao julgamento, afirma o templário borgonhês Aimery de Villiers-le-Duc: “– Sim, eu tomei conhecimento de alguns destes erros e confessei-os, mas foi sob o efeito das torturas”[2].

Templário interrogado sob tortura

Templário interrogado sob tortura

O próprio Mestre Jacques de Molay, homem idoso que passara toda a vida no serviço militar, sendo vassalo exclusivo do papa e não de qualquer rei, a começar pelo de França que assim não tinha legitimidade para o deter, diz-se ter vacilado ante a visão exposta da câmara das torturas no castelo de Chinon onde estava detido com outros dignitários da Ordem, e assim confessado tudo quanto os inquisidores queriam ouvir, como consta do documento de Chinon, redacção final da controversa inquirição aos prisioneiros, onde as confissões lhes foram extirpadas pela coação das torturas, a ponto da maioria dos delegados papais, exceptuando os leais a Filipe IV, assinarem o documento inocentando os templários[3].

É assim, nesse mais que questionável documento, que aparece a confissão de Jacques Burgomundus de Molay, que face às circunstâncias duvido tenha sido textualmente assim e mesmo alguma vez tenha lido a redacção final da que lhe foi imputada como “confissão voluntária”, pois há contradições palmares no texto, uma delas a da deposição do manto da Ordem no novo irmão antes do seu juramento, quando é precisamente o contrário (nessa e em toda a Ordem de Cavalaria e Religião), erro elementar que certamente não seria o Mestre do Templo a o cometer, antes um perjuro pondo na boca dele palavras que nunca proferiu:

“Item. Ao vigésimo dia do dito mês [de Agosto de 1308], na nossa presença, na dos notários e testemunhas, constituído em pessoa freire Jacques de Molay, cavaleiro grão-mestre da Ordem da Milícia do Templo, tendo jurado e sido diligentemente interrogado, segundo a forma e o modo acima referidos, disse que passaram cerca de quarenta e dois anos desde que ele foi admitido, junto de Beltiam da diocese de Autun, como freire da dita Ordem pelo freire Umberto de Pairaud, então visitador de França e de Poitiers, cavaleiro na capela da casa do Templo do dito lugar de Béaune; e disse, a propósito do modo da sua admissão, que o dito freire que o admitiu lhe mostrou uma cruz, depois de lhe transmitir o manto, e ordenou-lhe, a ele que estava sendo admitido, que renegasse a Deus cuja imagem estava pintada nessa cruz e que cuspisse nela, o que ele fez; todavia não cuspiu para cima da cruz mas ao lado dela, segundo disse.

“Item. Disse que fez a referida abnegação apenas com a boca e não com o coração. Diligentemente inquirido sobre o pecado da sodomia, a cabeça idolatrada e os beijos proibidos, disse nada saber. Inquirido se se confessou coagido por súplica, recompensa, agradecimento, favor, por medo ou por ódio ou por instigação de alguém, por força ou ainda por receio de torturas, disse que não. Inquirido se, depois de ter sido acolhido, foi submetido a interrogatórios ou a torturas, disse que não. Depois disto, nós que o reincorporamos na unidade da Igreja e que o restituímos à comunhão dos fiéis e aos sacramentos eclesiásticos, concluímos que deve ser consagrado, segundo o uso da Igreja, o benefício da absolvição àquele mesmo freire Jacques, grão-mestre da dita Ordem, de acordo com o modo e a forma sobrescritos, ele que abjurou nas nossas mãos tanto a referida heresia como qualquer outra, que prestou juramento corporal perante os Santos Evangelhos de Deus e que pediu humildemente o benefício da sua absolvição.”

Pergaminho do Documento de Chinon

Pergaminho do Interrogatório de Chinon

Stephen Howarth (ob. cit.) informa que um templário de Maiorca, ao ser-lhe dito que Jacques de Molay fizera uma confissão completa, comentou que “o Mestre mentiu com quantos dentes tem na boca”. Já nas Irlanda, na Escócia e nas Ilhas Britânicas era opinião geral que os irmãos da Milícia estavam inocentes. Mas para satisfazer o papa elaborou-se uma solução de compromisso. Os templários declararam-se “tão difamados que os artigos da bula papal não podiam justificar-se”; por isso, foram absolvidos pelos prelados de Inglaterra e reconciliados com a Igreja.

Na Alemanha e em Chipre, onde a principal Casa da Ordem estava localizada, as autoridades foram menos diplomáticas e pura e simplesmente absolveram os irmãos do Templo. A absolvição alemã verificou-se após dois incidentes dramáticos: em Maio de 1310, um grupo de vinte e dois templários, armado e com armadura completa, entrou à força das câmaras conciliares do arcebispo de Mogúncia e informou que a inocência da Ordem tinha sido demonstrada miraculosamente em Paris: disse que as túnicas brancas e as cruzes vermelhas dos irmãos lá queimados não tinham sido danificadas pelas chamas, no meio das quais tinham sido vistas brilhar com uma luz sobrenatural. O arcebispo ficou suficientemente impressionado para adiar o seu concílio, e quando ele foi reatado dois meses depois quarenta e nove testemunhas (incluindo doze que não eram templários) defenderam a Ordem em geral e de Molay em particular, dizendo que ele era “tão bom quanto qualquer cristão podia ser”. Mas a absolvição subsequente desagradou ao papa Clemente. Toda a história dos julgamentos começava a pesar até mesmo na sua alma prevaricadora. Começava a desejar um fim para tudo, e queria que esse fim fosse o mais possível uniformemente respeitador da sua autoridade o mais possível questionada em todas as partes, particularmente em Portugal e Aragão, devido à sua subida ao sólio pontifício exclusivamente graças ao rei de França. Consequentemente, anulou o veredicto alemão e alegou que a decisão era seu direito exclusivo; e em Chipre o governador da ilha, que era amigo da Ordem e a declarara inocente, uma manhã foi descoberto apunhalado – um assassínio conveniente, pois o papa pôde assim efectuar um novo julgamento em que o veredicto inicial foi invertido.

É nestas condições que Jacques de Molay se apresenta ante os seus juízes-carrascos em Paris e nega, frontal e veementemente, todas as acusações de heresia tanto da sua pessoa como da Ordem inteira, valendo isto por renegar à sua pressuposta confissão anterior em Chinon. Enfrentou os algozes com um visível desdém feroz e com um mudo desprezo por eles ouviu a sua condenação a ser queimado vivo na fogueira, o que não confere com o seu pressuposto acobardamento anterior perante a visão da tortura. De maneira que, apesar de não ter provas concretas, suspeito que o documento de Chinon possa não ser mais que uma confissão ímpia redigida pelo próprio clero favorável aos soberanos de Roma e da França, inteiramente à margem do que possa ter ocorrido e do que os acusados realmente tenham proferido. Ademais, é sumamente estranho que só haja um exemplar desse documento importante assinado pelos delegados de várias dioceses francesas, e que estranhamente não ficassem com cópias do mesmo ao contrário do que era costume em quaisquer processos de intervenção jurídica e religiosa, e só a Biblioteca Secreta do Vaticano o possua… No mesmo sentido vai a carta aberta que se diz escrita por Jacques de Molay aos seus irmãos, ordenando-lhes que confessassem, como ele confessara, todas as suas práticas pecadoras, no que foi atendido dando-se as confissões em catadupa da maioria dos templários aprisionados. Por que?

Porque outras invenções conseguiram emular a subtiliza e o engenho do duplo intuito fulcral da Inquisição. Segundo a sua premissa fundamental, ninguém era acusado de heresia sem boa razão, e qualquer pessoa podia acusar outra de heresia – excepto um herético acusado que, quer a sua heresia tivesse sido provada, quer não, não merecia confiança. Em vez de se presumir que estava inocente até se provar que era culpado, presumia-se que o acusado era culpado até se provar que estava inocente; e era raríssimo alguém acusado de heresia poder provar que estava inocente. O melhor que podia acontecer ao acusado era passar pelo processo de confissão e arrependimento – mesmo que não tivesse nada a confessar – e ter esperança de reconciliação mediante penitência. A penitência podia ser uma simples multa, o açoite público ou ir para a prisão a pão e água. Mas os acusados que se recusavam confessar, ou que confessavam e posteriormente renegavam as suas confissões, era excomungados pela Igreja e entregues ás autoridades seculares para castigo temporal. Isso significava que os seus bens seriam confiscados pelo Estado, que durante duas gerações os seus herdeiros estavam banidos do serviço público e que eles próprios morreriam na fogueira. Se tivessem sorte, seriam estrangulados no poste antes de arderem; caso contrário, eram queimados vivos.

Em virtude da presunção de culpa, era virtualmente impossível a uma pessoa acusada de heresia defender-se judicialmente; quem quer que com essa pessoa se associasse ficava automática e igualmente sob suspeita. Praticamente, a única defesa que restava ao acusado era entregar uma lista dos seus inimigos conhecidos, na esperança de que um nome da lista coincidisse com o nome pretendido pelo seu acusador. No entanto, mesmo que isso acontecesse, teria ainda que provar a sua inocência, isto é, o confessar e ser reconciliado. E se por qualquer razão não confessasse, o Santo Ofício tinha poderes para utilizar diversos métodos que o persuadissem do seu (talvez inexistente) erro. Os métodos mais grosseiros eram vários: o acusado podia ser simplesmente amarrado e ser-lhe metido um trapo na boca; em seguida deitava-se água quer no trapo, fazendo-o inchar, quer através das narinas. Um bocadinho mais do que a conta e ele afogava-se em terra seca. Também podia ser metido num cova não maior do que ele próprio e ser abandonado à fome até compreender e admitir a sua heresia. Ou, mais dispendiosamente, podia ser colocado na infame roda e esticado até os seus quadris e os seus ombros saírem das articulações. Podia simplesmente ser acorrentado, com cadeias à volta dos pulsos, dos tornozelos e do pescoço; podiam untar-lhe os pés de gordura e chegá-los a um lume vivo; ou, se fosse particularmente obstinado, podia ser colocado na estrapada. Esta invenção particularmente cruel constava apenas de uma corda e uma roldana. Os braços da vítima eram colocados atrás das suas costas, com os pulsos atados um ao outro, e por aí era erguida o mais possível no ar, depois largando-se a corda para que o supliciado caísse no chão; mas a queda era sustida um pouco antes dele tocar o solo, de maneira que se exercia o máximo de pressão nos seus ombros e braços. Um requinte opcional era suspender pesos dos tornozelos ou do umbigo do suposto herético ou, tratando-se de um homem, dos seus órgãos genitais.

"Rack", o instrumento de tortura mais utilizado no interrogatório aos templários

“Rack”, o instrumento de tortura mais utilizado no interrogatório aos templários

Todos esses métodos e outros, foram utilizados para arrancar confissões aos templários presos em França. Mas nem todas as torturas eram tão grosseiras. De Nogaret e os seus homens de mão tinham aperfeiçoado algumas abordagens muito mais sofisticadas, muitas vezes singularmente próximas dos modernos sistemas de interrogatório. A vítima era sujeita a interrogatório incessante por turnos de homens treinados na arte; as respostas eram deturpadas e a vítima impedida de dormir, urinar ou despejar os intestinos; ficava incomunicável e dizia-se-lhe que quaisquer amigos seus, presos sob as mesmas acusações, já tinham confessado. E quando o indivíduo dava indícios de estar a ir-se abaixo, entrava um novo interrogador, com modos compreensivos e amigáveis, que aconselhava brandamente o preso a confessar para seu próprio bem. Graças à judiciosa aplicação de tais técnicas, podia-se obrigar quase toda a gente a confessar quase tudo; era muito rara a pessoa capaz de suportar todas estas torturas até à morte, que seria a sua única libertação. As confissões obtinham-se por meio de terror puro, bastando algumas vezes mostrar ao acusado os instrumentos da tortura. Podia ser obrigado a assistir à tortura de outra vítima e, se isso fosse insuficiente, a dor atroz da sua própria tortura proporcionava geralmente o resultado pretendido. Nalguns casos, considerava-se politicamente indesejável que o preso apresentasse ferimentos visíveis. Recorria-se então aos métodos mais subtis e, no seu sofrimento e confusão, vendo-lhe negada a satisfação das suas necessidades físicas e deturpadas, ao ponto de se tornarem irreconhecíveis, as suas respostas, a vítima admitia a culpa que lhe era imputada, fosse ela qual fosse, e acreditava-se realmente culpada.

A lavagem ao cérebro é uma expressão do nosso tempo, mas as suas técnicas, e o próprio fenómeno, são antigas, criações criminosas do Santo Ofício. Aí reside o mais profundo horror da Inquisição, pois os homens que mandavam fazer essas coisas, se não os homens que realmente as executavam, ordenavam-nas em nome de Cristo, pelo amor de Deus e na convicção sincera de que eles, e só eles, estavam certos, de que os seus actos eram cristãos e feitos para o bem da alma da sua vítima. Um templário declarou, depois de ter confessado, que os homens que o tinham torturado estavam completamente bêbados. E é muito natural que estivessem, se além da crença religiosa possuíssem algum sentimento humano em choque com a bestialidade fria dos seus actos desumanos. As palavras de outro irmão, um homem de cerca de 50 anos, exemplificam a absoluta derrota e humilhação humana e espiritual que tais experiências podiam provocar a qualquer pessoa normal: disse que “todos os delitos imputados à Ordem eram verdadeiros e que confessaria até que tinha matado o Senhor se lho pedissem. Tudo, mas parem com isso e deixem-me em paz”. Os métodos de persuasão utilizados em de Molay para obter a sua confissão inicial foram provavelmente do tipo mais subtil, mas nem por isso a sua pressuposta admissão de culpa foi menos completa ou, aparentemente, menos sincera[4].

Tendo Jacques de Molay, o velho militar e amigo do rei de França sobre quem acreditava que nutria o mesmo sentimento por si, sido apanhado de surpresa perante a gravidade das acusações vindas dos cães de fila do próprio Filipe IV, preferiu inicialmente recusar dizer fosse o que fosse excepto na presença do papa, o único a quem legalmente devia vassalagem. Mas ninguém lhe acudiu nem a seus irmãos, mesmo protestando a sua “crença num Deus, numa fé, num baptismo e numa Igreja Católica”. Para que não houvessem só acusadores e nenhuns defensores e para dar um ar legal à coisa viciada desde que era só projecto, foram escolhidos quatro irmãos para representarem a Ordem. Dois, Pedro de Bologna e Reinaldo de Provins, eram padres; os outros, Guilherme de Chambonnet e Beltrão de Sartiges, eram cavaleiros. Eram todos inteligentes e letrados; de Bologna talvez tivesse até feito alguns estudos de Direito na Universidade de Bolonha, pois os seus discursos à comissão revestiam-se do mesmo estilo de furiosa retórica que o próprio Nogaret usava, e tanto ele como de Provins demonstraram considerável familiaridade com os modos correctos do procedimento judicial. Eloquência e educação: eis as duas únicas coisas que Filipe e de Nogaret receavam. A sua cortina de fumo de linguagem bombástica, a sua desonestidade, astúcia e ilegalidade não poderiam resistir a um exame atento e ficariam expostas a ser atacadas aberta, legal e correctamente. Era precisamente isso que os quatro representantes da Ordem tencionavam fazer. E começaram a fazê-lo em 7 de Abril de 1310, numa terça-feira.

Interrogatório de Jacques de Molay

Interrogatório de Jacques de Molay

Quando as denúncias aos Templários foram lidas em voz alta, Pedro de Bologna já se encontrava preso havia dois anos e meio, tendo sido torturado, interrogado e obrigado a confessar tudo. Mas perante os comissários papais, falou em tom de desafio e violentamente em seu nome e no de todos os seus milhares de irmãos:

“– Cada um e todos nós declaramos as acusações totalmente infundadas. Parece incrível que acusações tão escandalosas tenham podido ser tomadas a sério por alguém. É verdade que alguns templários as admitiram, mas apenas por causa da tortura e do sofrimento. Não é de modo nenhum motivo para nos surpreendermos com o facto de alguns terem mentido; o que é mais espantoso é que alguns tenham respeitado a verdade, sabendo as atribulações e os perigos, as ameaças e os ultrajes que sofrem diária e continuamente aqueles que dizem a verdade. Fora do reino de França não se encontrará nenhum irmão do Templo, em todas as terras do Mundo, que diga ou fale tais mentiras, sendo suficientemente claros os motivos pelos quais elas foram ditas em França: os que falaram testemunharam quando corrompidos pelo medo, por rogos ou por dinheiro.”

As confissões, portanto, deviam ser inadmissíveis como prova; e “sempre que alguns irmãos sejam interrogados, não deve estar presente nenhum leigo que possa ouvi-los, ou qualquer pessoa cuja probidade mereça dúvidas” – o que queria significar que o carcereiro dos templários, que os torturava diariamente e obrigava a passar fome e sede, como igualmente os advogados do rei, nenhum deles devia ser aceite na comissão, visto a sua simples presença intimidar os irmãos, traumatizados pelos interrogatórios e torturas infligidos por esses mesmos carrascos cruéis impenitentes.

Depois, combatendo o fogo com o fogo, Pedro de Bologna atacou os acusadores do Templo, dizendo que eles eram “falsos cristãos e completamente heréticos, detractores e sedutores da Santa Igreja e de toda a fé cristã”. Motivados pela ganância, esses “muito ímpios propagadores do escândalo” tinham encontrado templários renegados e apóstatas e com eles haviam engendrado um conjunto de mentiras que enganaram até o cristianíssimo rei Filipe. Um novo irmão fazia apenas quatro votos, continuou Bologna, os votos de obediência, castidade, pobreza e apoio contínuo à Terra Santa; e o único beijo trocado era o “honesto beijo da paz”, não mais que o beijo habitualmente trocado entre qualquer senhor e qualquer vassalo. Os que acusavam a Ordem de perversões morais e espirituais deviam ser igualmente interrogados pela comissão e obrigados a apresentar os fundamentos das suas acusações; e entretanto todos os Irmãos que desejassem defender a Ordem deveriam receber uma garantia de segurança, pois naquele próprio momento os homens do rei continuavam a ameaçá-los de tortura e morte se ousassem negar a sua culpa[5].

Apesar do vigor e da clareza do depoimento de Bologna ter impressionado os membros da comissão e causado a dúvida entre eles quanto à seriedade do processo, ainda assim os partidários de Filipe IV conseguiram manietar as vozes dos mandatários de Clemente V, já de si um mandado do poder temporal, a favorecer a extinção da Ordem e entregar os seus afiliados à autoridade secular do rei de França, que logo os sentenciou com severidade tamanha que chocou toda a Europa civilizada, e até mesmo os países árabes.

Foi assim que os templários que não confessaram as suas heresias e as da Ordem foram condenados ao lume mortal da extirpação dos pecados, enquanto os outros que confessaram o que os juízes queriam ouvir, receberam a condenação a prisão perpétua, morrendo quase todos, se não todos, esquecidos, famintos e doentes em celas imundas, ou então em trabalhos forçados nas galés. Só se salvaram os que escaparam a tempo para países amigos, muito especialmente para Portugal onde o rei de França era malquisto, e a autoridade do papa fortemente contestada.

Tamanho era o ódio aos templários pelo rei de França que até o local da execução do Mestre da Ordem não foi escolhido ao acaso: a Ilha dos Judeus, em Paris, lugar dos renegados e hereges, dos que padeciam a lepra ou mal da alma impenitente, que só o fogo mortal podia purgar. A comitiva de acusadores ficou à entrada da ilha vendo os corpos arder…

Templars_Burning[1]lápide Jacques de Molay

Esses acontecimentos levaram Dante Alighiere, pressuposto cronista do Templo e autor da Divina Comédia, escrita entre 1300 e 1318 e impressa pela primeira vez em 1472, a dispor o rei Filipe IV no Inferno e o papa Clemente V no Purgatório[6], e os templários como inocentes entregues à justiça secular: os beati misericordes, “bem-aventurados os misericordiosos”, e os beati mundo corde, “felizes os com o coração puro”. Fá-los “Eleitos” do Céu cujo guia para o lugar mais alto do Paraíso é o próprio São Bernardo de Claraval[7].

Das inúmeras acusações feitas aos templários, dispondo-os na heresia secular e religiosa, abordarei somente duas que considero as principais suscitadoras do controverso processo:

1.ª – Homossexualidade (sodomia, beijos lascivos, etc.).

2.ª – Heresia (secretismo, idolatria, omissão, etc.).

A Regra do Templo é clara, severa e intransigente quanto à questão da união entre sexos iguais, considerada aberração e perversão do estado natural das coisas em si mesmas cujo castigo da infracção era a pena capital aos prevaricadores, ou seja, a morte. Sobre isto, diz Pinharanda Gomes[8]:

“Este nome, sodomia, de Sodoma[9] cidade que foi destruída por causa da prática de relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo, com intra vas indebitum, quer dizer, com penetração, deveio um nome tão diabólico, que até os canonistas antigos, judeus ou cristãos, evitavam tratar da sua natureza e pecadosidade nos tratados de Canónico e de Teologia Moral em vernáculo. Era algo de inconcebível, fora do episódio bíblico. Hoje em dia, embora o termo apareça nos tratados de iuris eruditos, no vulgar do canónico aparece o termo homossexualidade e outro, homossexualismo, abrangendo, tanto as relações homens/homens, como as relações mulher/mulher, sob a subtil designação de lesbianismo, vocábulo apropriado, de resto, dos resíduos culturais helénicos. Sodomia ou homossexualidade eram, desde os mais antigos tempos, comparáveis, se não ainda mais graves, à poluição e ao estupro. Um homem é um homem! Uma planta pode dispor de bissexualidade, mas um homem é um homem. Por isso, o diabolismo da sodomia ou homossexualidade, vício condenado, desde a mais antiga medievalidade (herdeira da antiguidade) com a pena de morte na fogueira para que nada restasse do sémen diabólico. A pena consta dos Códigos mais antigos da sociedade civil (ou secular) desde o de Teodoro[10]. Infracção tão grave à natureza e à pessoa que, no Direito Canónico, incluindo a compilação de 1917 (cânones 893 e 897) que manteve antiquíssimas disciplinas, a sodomia era pecado reservado à absolvição episcopal: só um bispo poderia absolver de tamanho pecado, anomalia, ou aberração. Não o pároco da freguesia, nem o confessor conventual, mas apenas o bispo. Trata-se de um pecado reservado, obsceno, escandaloso, atenta contra a dignidade da natureza humana.

“[…] Na época em que o processo dos Templários decorreu, insinuou-se que os cavaleiros praticariam a homossexualidade a conselho dos Superiores, que ensinariam a ser melhor a fornicação entre eles que a procura de mulheres. Quanto às mulheres já vimos como tinham de ser evitadas, mas daí não se segue que fossem autorizados à satisfação de concupiscências com a prata da casa! A homossexualidade era castigada com a pena de morte na fogueira – lei extensiva a todo o mundo civilizado, incluindo o Reino de Portugal, cujas Ordenações fixam a pena. De que modo poderia uma Ordem Militar e Religiosa, integrada por milhares de homens, aprovar uma prática que ia contra o sentir, não só da Igreja e do Estado, mas de toda a sociedade em geral? Houve heteropraxias, alguns cavaleiros as confessaram, mas daí até elas serem prática regular da Ordem vai a distância que separa a face da terra das alturíssimas celestes.”

De facto, os inquisidores puseram na boca dos templários aprisionados e torturados o que quiseram ouvir, e sob a coacção das dores atrozes infligidas eles confessaram isso e muito mais, dispostos até a jurar solenemente sobre a Cruz que “eram filhos de Belzebu paridos por Lilith em pessoa”! É assim que, segundo as confissões de numerosos templários, todo o postulante era avisado, desde a admissão, de que podia ter relações sexuais com os seus irmãos, a fim de “aplacar as necessidades carnais”, que isso era lícito e não constituía um pecado. Para mais, os irmãos tinham sido encorajados a fazê-lo “um ao outro, fazendo prova de submissão”. Apesar dessas confissões flagrantes mas arrancadas à força, a grande maioria dos templários afirmou nunca ter feito uso dessa permissão e inclusive negou a acusação de sodomia, cuja prova, afinal de contas, nunca foi estabelecida pela justiça papal ou real. Se o Procurador do Templo em Paris, Hugues de Pairaud, sob a aflição da tortura confessou ter aconselhado a vários irmãos a sodomia, apenas dois templários, certamente para que os flagelos impostos cessassem, admitiram essa prática: Raoul de Tavernay, que afirmou ser necessário “tolerar isso em razão do calor do clima ultramarino”, e Guillaume de Varnage, que esclareceu ser a sodomia tolerada somente em relação aos mais jovens, para que não fossem tentados a frequentar mulheres. Quanto ao Mestre Jacques de Molay, acusado de ter tido relações com irmãos e com o seu criado, Guillaume de Giaco, negou sempre tais actos, afirmando mesmo que a Regra reprimia severamente a sodomia, como o prova, aliás, o caso de dois irmãos de Château Pèlerin suspeitos dessa prática, um condenado à morte e o outro a prisão perpétua[11].

Esse último episódio é contado nos Estatutos do Templo, nos termos seguintes[12]:

“573. No Château Pèlerin houve irmãos que praticavam pecados de perversão e que se acariciavam uns aos outros nos seus quartos à noite; de tal modo que aqueles que souberam disso e outros que por causa disso muito sofreram, contaram essas coisas ao Mestre e a um grupo de homens prudentes da Casa. E o Mestre seguiu o conselho de que esta coisa não deve ser levada a Capítulo, pois tal acto era muito ofensivo mas que os irmãos deveriam ir a Acre; e quando ali chegaram, o Mestre colocou um irmão prudente no quarto, e outros na sua companhia no quarto onde eles estavam, e mandaram que despissem os seus hábitos e colocou-os a ferros. E um dos irmãos, que se chamava irmão Lucas, fugiu de noite e foi para os sarracenos. E os outros dois foram enviados para o Château Pèlerin; e um que tentou fugir morreu, e o outro permaneceu na prisão por muito tempo.”

Não me custa admitir que ocasionalmente entre alguma soldadesca do Templo destacada para o Ultramar tivessem ocorrido esses excessos anormais, que após descobertos eram severamente punidos. Não me custa admitir que a alguns jovens noviços os mais velhos tivessem aconselhado o recurso à masturbação como medida profiláctica, conselho que hoje qualquer médico dá aos jovens mais impetuosos, mas que isso fosse regra geral já me custa admitir. Não consigo descortinar como um cavaleiro de estirpe nobre, com o manto de Cristo pesando sobre os ombros e que voluntariamente aceitou a Regra da Fé afirmada pelas Armas, quebrasse depois os seus votos de perfeição espiritual pelo gosto bizarro da carne de sexo igual, ou seja, praticando a sodomia e até a pedofilia com os mais jovens. Nada disso se provou oficialmente e, para não haver qualquer dúvida, os Estatutos do Templo são claríssimos neste ponto:

“572. […] se um irmão faz qualquer coisa contra a natureza e contra a lei de Nosso Senhor perderá a Casa.” Ou seja, era expulso da Ordem e punido severamente.

Essa acusação de sodomia, junta àquela outra dos beijos lascivos na boca, no pénis, no ânus, etc., os inquisidores pretenderam-na comprovada naquela ilustração antiga do Templo: dois cavaleiros para um só cavalo, mesmo sabendo de antemão que isso era tão-só simbólico, pois cada cavaleiro tinha direito a três cavalos e a cinco noviços ajudantes!

Simbolicamente, será uma alegoria velada do Androginismo Primordial representado pelos Gémeos do Zodíaco, sendo o cavalo símbolo zoomórfico de Tradição, de Sabedoria Divina  assinalada na Luz do Grande Templo de Jerusalém. Tanto que Kaballah com K significa “Tradição” e com C, “cavalo”. E é sabido que, astrologicamente, Sagitário (o cavalo) está em oposição a Gémeos (o hermafrodita), mas se tornando dócil ou domiciliário quando as qualidades superiores de ambos os signos imperam sobre as inferiores[13]. O que me levou a dizer em uma outra obra[14]: “Esta simbiose Oriente-Ocidente por via das Escrituras Velha (Profetas) e Nova (Apóstolos), também é retratada pelos dois cavaleiros montando um só cavalo, alegoria dos Gémeos e desde logo do Androginismo Primordial, designativo do Adepto Real, do genuíno Homem Solar que de pernas e braços afastados configura geometricamente a Quintessência da Natureza, de que o Homem é a régia ou real Cabeça”.

Seal_of_Templars[1]

Ainda referente aos beijos lascivos acompanhando a sodomia, também os testemunhos contam-se por centenas e todos os templários postos a ferros falam de três, quatro e mais beijos em várias partes do corpo, mudando conforme as testemunhas. Por exemplo, as confissões de Hugues de Bure e de Hugues de Pairaud, ainda que neguem a existência das práticas de sodomia referem os beijos sodomitas no ânus, no umbigo e na boca, o que reverte aos sinais satânicos e práticas conformes constando nos tratados medievais de demonologia por que se norteavam, decerto, os inquisidores para estabelecer o rumo dos interrogatórios e alcançar as confissões nesse sentido: a prova de corrupção corporal e heresia espiritual.

O “beijo da paz” era dado nas faces, como consta das Escrituras, e não no extremo oposto do corpo, ou seja, no ânus como “beijo da impureza”, inversão e perversão da virtude em vício, prática satânica que os carrascos do rei de França quiseram para os templários fazendo correr o boato na voz do povo: “Todas as crianças dizem abertamente e a cru umas às outras: livra-te dos beijos dos templários”.

O "beijo da impureza". Evocativo da proibição maior da Igreja no cadeiral da Catedral de Amiens

O “beijo da impureza”. Evocativo da proibição maior da Igreja no cadeiral da Catedral de Amiens

Essa acusação ter-se-ia baseado no texto formal do artigo n.º 678 dos Estatutos do Templo: “E aquele que o faz irmão deve erguê-lo e beijá-lo na boca; é costume que o irmão capelão também o beije”. Como muito bem diz Pinharanda Gomes, é pleonástico esse “na boca”, porque ósculo significa boca. De maneira que o texto se torna dicotómico, arrevesado, ou por má tradução ou por acréscimo, alterando o sentido original, pois que “na boca” está a mais.

Depois do novo irmão ter jurado sobre os Evangelhos fidelidade ao Mestre e ao Papa, impunha-se-lhe o manto da Ordem e cingia-se-lhe a espada consagrada; após, o acto era selado por uma de duas maneiras, ou por ambas: levantar o irmão ajoelhado e dar-lhe o abraço fraternal, podendo-se acrescentar o ósculo da paz nas faces. Para além do beijo físico há também o ósculo de fogo: o soprar do Alento Vital (Prana) na direcção do Fogo Sagrado ardendo no braseiro postado no Templo, ou, o mais comum, soprar na direcção da Cruz ausente de Homem por expressar ao próprio Verbo Solar. Esse Sopro ou Hálito Vital ainda hoje faz parte do cânone litúrgico, quando o sacerdote sopra na evocação ao Divino Espírito Santo, e mesmo quando sopra sobre a cabeça do recém-batizado.

Quanto à ausência iconológica da figura humana no Madeiro, decerto não era sinónima nem prova alguma dos templários renegarem ao nome de Jesus Cristo de quem, afinal, eram cavaleiros. Talvez fosse uma forma de combater de raiz a idolatria e o apego idolátrico às imagens, em que muitos, a maioria, se ficam, perdendo ou ignorando o seu sentido real, o significado velado na imagem exposta. No mesmo sentido vai o cuspir na Cruz e calcá-la a seus pés, aquando da recepção na Ordem. Já disse antes que isso, mesmo duvidando fortemente da sua veracidade ou que alguma vez tenha acontecido senão no imaginário romântico do século XIX, acaba tão-só simbolizando a superação da natureza inferior, assinalada na cruz dos quatro elementos mortais, pela condição superior ou imortal, expressada na ausência de humanidade no símbolo por exprimir ao invisível e universal Todo no Tudo, ou seja, a Divindade Suprema manifestada na forma flogística ou pneumática do Filho, a única real e imorredoura perpassando a imagem da carne passageira e mortal.

Vai nesse sentido o depoimento arrancado a vários templários (irmãos Étienne de Dijon, Bertrand de Villiers, etc.), com o qual os inquisidores acusaram os capelães da Ordem de omitir, no momento da Eucaristia, as palavras de consagração: Hoc est corpus meum, “Este é o meu corpo”. Mas a quase totalidade dos irmãos interrogados protestou e afirmou que jamais os seus capelães omitiram essas palavras litúrgicas. Assim, à falta de provas sérias, essa acusação não foi mantida pelos juízes, nomeadamente pelo grande-inquisidor Bernard Gui.

À medida que o templário evoluía mental e moralmente dentro da Ordem, a doutrina e a disciplina iam tornando-se mais estreitas e profundas, inalcançáveis porque incompreensíveis para qualquer recém-chegado, noviço ou leigo. Assenta nisto a acusação do fomento de secretismo pelo Templo, acusação sem foro legal porque a Ordem era autónoma e não devia contas a ninguém, principalmente a qualquer poder civil ou secular como instituto religioso e sobretudo militar que era.

Após, vem a acusação de idolatria a um ídolo estranho, um crânio ou uma “cabeça idolatrada que dizem ser adorada pelos templários” (segundo os interrogatórios aos irmãos Larchant e Hugues de Pairaud, dentre outros). O nome de tal ídolo nunca foi pronunciado pelos acusadores e ainda menos pelos templários, com excepção de um só e sob a forma adjectiva bafomético[15]. Daí resultou o nome baphometh, que os autores e ocultistas dos séculos seguintes, principalmente do século XIX, difundiram sob a forma substantiva. Pondo de parte o largo esteiro de fantasias feitas à volta desse pressuposto baphometh, pondo de parte a renegação por outros de que alguma vez tenha existido, a verdade é que a sua figura pequenina se apresenta no topo do portal gótico dianteiro da igreja de Saint Merry, “la petit Notre Dame”, em Les Halles de Paris (e foi nela que Eliphas Lévi, o célebre ocultista do século XIX, se inspirou para desenhar o seu famoso “Bode de Mendes”). Terá sido esculpida por um Companheiro do Dever de Liberdade entre 1840 e 1847. Em Portugal, observa-se a figura do baphometh tanto no Convento de Cristo, em Tomar, como no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, sendo ambas as figuras do século XVI.

Alegorias do "baphometh" no Convento de Cristo, Tomar, e no Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, ambas do século XVI

Alegorias do “baphometh” no Convento de Cristo, Tomar, e no Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, ambas do século XVI

É incontestável ter existido um qualquer objecto reservado ao conhecimento de raros templários; é incontestável que a existência desse qualquer objecto se tornou pública e a ignorância do que fosse, aliada ao perjúrio, revestiu-o de bizarro e macabro sabor. É assim que no Auto de Acusação lê-se no artigo 10.º dos inquisidores, não se sabendo o que lhes atribuir, se um humor negro, se uma mente doentia ou se ambas as coisas: “Uma novel criança criada por um templário e uma donzela, é fervida e cozida ao lume, depois tira-se-lhe toda a gordura e com esta é sagrado e untado o ídolo deles”.

Esse crânio misterioso emissor de oráculos que terá ditado a pressuposta Regra Secreta do Templo, que os acusadores apontavam recheada das mais inimagináveis blasfémias, tudo isso, afinal, não terá passado de invenção mórbida dos escritores românticos do século XIX, visto não existirem quaisquer provas plausíveis da existência anterior de um crânio satânico, e até a própria palavra baphometh não fazia parte do vocabulário medieval: era desconhecida da Igreja e do Templo e foi inventada na segunda metade do século XIII por alguns trovadores da Ocitânia que, mesmo assim, a aplicaram com muita parcimónia em óbvias efabulações poéticas. Se acaso os templários tiveram a relíquia de algum crânio, então é preciso dar-lhe outro significado menos fantasista e mais tradicional, para não dizer, iniciático.

O crânio tem duplo significado, apesar de para o Cristianismo só significar a lembrança da morte. Mas o crânio contém o cérebro e está na parte mais alta do homem. Por isso é o lugar sagrado do corpo humano por excelência e o símbolo da descoberta do Saber Supremo. Com este se correlaciona o termo baphometh, do árabe ouba-al-fometh, a “boca do Pai”, no sentido de Sabedoria Divina verbalizada pelo Pai Eterno.

Como o Pai contém o Filho e o Espírito Santo, Ele é também a Luz da Sabedoria a que alguns deram o sentido grego, tardio, de Baphêmétous. Nisto residirá o sentido da frase no poema Ira et Dolor, escrito em 1265 por um Trovador ocitano: «E Baphometh obra de son poder» – E Baphometh fez brilhar o seu poder. Na língua mourisca da Península Ibérica herdada do mudéjar, escrevia-se Abufihamat (e pronunciava-se soando Buphimat), com os sentidos de “Pai, Fonte, Compreensão”. Uma expressão derivada, Ras-el-fah-mat, significando “Cabeça do Conhecimento”, refere-se à capacidade mental do homem após a sua consciência ter sofrido um aprimoramento. A tal processo reporta-se precisamente a expressão “Eu construo uma cabeça”, usada por algumas Escolas Sufis do Islão da Península Ibérica que os cristãos medievais apodaram depreciativamente de Bafometarias e Carvoarias – plantadas ao longo da orla costeira do Distrito de Lisboa de que o topónimo Cabo Carvoeiro é herança notável – no sentido de “negras e diabólicas”, por aí se ensinar e exercer conhecimentos secretos que para o comum cristão ignorante e supersticioso só podiam ser “coisas do Diabo”[16].

É assim que o crânio «baphomético» vem a configurar uma Iluminação Mental, tal qual como no simbolismo da Brigite celta presidindo ao Imbolc, a festa da purificação celebrando o fim do Inverno, expressando a iluminação do mundo após as trevas estéreis. Eis aqui o motivo de, por vezes, também Santa Brígida, herança hagiográfica daquela deusa céltica, aparecer iconografada com um círio na mão e uma vaca aos pés, esta expressando a lactação, neste caso, referindo-se ao retorno da vida na Primavera.

Com tudo, ainda assim muitos autores continuam a dar os mais diversos e desencontrados significados à palavra baphometh[17]. Para mim, repito, essa palavra de invenção simbológica prende-se ao filólogo árabe ouba-al-fometh, a “boca do Pai”. Entra aqui a lenda romântica da pressuposta prova material da existência desse pressuposto ídolo dos templários: o de ter sido descoberta no Templo de Paris, na manhã da prisão em massa dos Templários, uma bela cabeça de mulher, de ouro e oca contendo um crânio feminino, envolto num tecido com as cores branca e negra da Ordem que tinha gravada a estranha e lacónica etiqueta: “CAPUT LVIII M”.

Interpretando essa lenda hermética, possivelmente saída de algum movimento hermetista do século XIX, tem-se que em latim caput significa “cabeça”, e os algarismos romanos, se transpostos para letras juntando-se o M final, dão a palavra seguinte abreviada: ilumii, de illumino, “iluminada”. Mas se mantiver todas as letras da frase e as transpor para algarismos somando-os e reduzindo-os teosoficamente até obter um único irredutível, obter-se-á o número 3. Desta maneira, “CAPUT LVIII M” poderá significar a “TERCEIRA CABEÇA (PESSOA) ILUMINADA”, o que vale por DEUS ESPÍRITO SANTO como MÃE DIVINA contendo em Si o Poder do Pai e a Sabedoria do Filho reunido Àquele como Um só na Unidade do mesmo Espírito Santo, pelo que é a ouba-al-fometh, a “boca do Pai” expressiva do seu Poder.

Esse Poder é a Sabedoria Divina, a que Baptiza como Fogo que arde mas não queima a Alma Templária que dela toma posse. Daí o outro e tardio sentido grego da palavra, também já apontado: Baphê-métous, o “Baptismo da Sabedoria”, por vezes decomposto em Bios-phos-métis: Vida-Luz-Sabedoria.

Batismo

Essa interpretação vai ao encontro dos dois Baptismos do Cristo: pela Água da Revelação no Jordão e pelo Fogo da Transfiguração no Tabor, assistindo a um João Baptista e a outro João Evangelista, aquele tendo a ver com a vivência claustral, donde se sai para o mundo, e este a ver com a vivência clausural, donde se aparta do mundo. Eis as duas condições do ser templário: a esotérica ou privada, e a exotérica ou pública. Ambas interligadas, ambas indispensáveis uma à outra, pois quem opera em secreto com poucos também deve saber operar o segredo para muitos, desvelando-o com arte e perfeição, progressivamente, ao entendimento de todos.

E foi isto que o papa, o rei e os inquisidores não puderem nem quiseram entender: tinham outros objectivos, bem mais terrenos. Foi assim que o poder temporal de Mamon assassinou a autoridade espiritual de Cristo, incarnado na Regra do Templo e na vida segundo ela pelos templários.

NOTAS

[1] Stephen Howarth, Os Cavaleiros Templários. Edição “Livros da Brasil, Lisboa, 1982.

[2] A. Vieira d´Areia, O processo dos Templários. Livraria Civilização Editora, Porto, 1947.

[3] O Perdão dos Templários. Com textos de vários autores. Zéfiro – Edições e Actividades Culturais, Unipessoal Lda., Corroios, 1.ª edição em 13 de Outubro de 2006. E ainda a tradução de Roberto Carlos Pintucci, Os Templários e o Pergaminho de Chinon encontrado nos Arquivos Secretos do Vaticano. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2005.

[4] W. L. Wakefield, Heresy, Crusade and Inquisition in Southern France. Londres, 1974.

[5] J. Michelet, Procès des Templiers. Paris, 1955.

[6] Na mesma correnteza danteana, observa-se na igreja de N.ª Sr.ª da Conceição de Safara, perto de Moura no Alentejo, um fresco onde figuram o papa, o rei e os seus súbditos ardendo no lume perpétuo do Inferno. Significativamente, Safara insere-se no aro de acção da Ordem de Avis, destinada a protecção da fronteira, apoiada pelas armas da Ordem do Templo.

[7] Gil Vicente (c. 1465 – c. 1536) segue a mesma linha danteana no seu “Auto das Três Barcas”, dispondo os templários, os cavaleiros de Cristo mortos em prol da Fé, na Barca do Paraíso. Sobre o tema consulte-se René Guénon, O Esoterismo de Dante, seguido de São Bernardo. Editorial Vega, Lisboa, 1978. Robert Bonnell, Dante o Grande Iniciado. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2005.

[8] Pinharanda Gomes, Templários: O Perdão de Chinon e a Revisão do Processo. In O Perdão dos Templários, Zéfiro – Edições e Actividades Culturais, Unipessoal Lda., 1.ª edição em 13 de Outubro de 2006, Corroios.

[9] Gn., 19, 23.

[10] No Direito português, cf. Ordenações Afonsinas, Livro V, Título XVII: «pecado torpe», e «por este pecado foi destruída a Ordem do Templo por toda a Cristandade». Os sodomitas estavam condenados ao fogo: «seja queimado, e pelo fogo feito em pó, e que dele não haja mais memória». Tal como nos casos de heresia, o Clero devia entregar os réus ao Rei porque o Clero não podia «fazer ‘justiça de sangue’».

[11] Bernard Marillier, Templários. Hugin Editores, Ltda., Lisboa, Novembro de 1998.

[12] J. M. Upton Ward, A Regra dos Templários. Editora “A Esfera dos Livros”, 1.ª edição Fevereiro de 2006, Lisboa.

[13] Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal (Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2000.

[14] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, 2006.

[15] Dando aso a esta tradição, alguém colocou o crânio de um jovem de 18-22 anos defronte à pedra tumular inscrita do Mestre Gualdim Pais na igreja de Santa Maria do Olival, em Tomar.

[16] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010. Também do mesmo autor, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Edição Dinapress, Lisboa, Abril de 2007. Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Março de 2007.

[17] Vd. Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Templários e Templarismos. Edição do Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Agosto de 2005.

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