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Com este tema da Ordem do Templo considero ser tempo de ir além da historiografia e da cronologia apresentando-se sempre falíveis ante os novos elementos entretanto vindos à luz numa constância permanente quase por regra desdizendo quanto se dissera e escrevera antes, não raro com convicção ferrenha. Adentrarei, pois, o plano do Sagrado, do Iniciático, sim, mas obviamente sem menosprezar o fundamental da História clássica, indo em demanda do entendimento do que seja o Arcanum Secretis Templi sobre o qual tanto se tem dito e escrito por regra ao sabor das tendências pessoais, por vezes não faltando e fartando os equívocos, quiçá por falta de contextualização histórica e religiosa da época de tais acontecimentos.

Sim, dentro das minhas humildes possibilidades irei tentar um esclarecer um pouco sobre o que seria o esoterismo eventualmente postulado e exercido no escrínio fechado da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão (Pauperes Commilitonum Christi Templique Salomonici), igualmente conhecida por Cavaleiros Pobres de Cristo e da Santíssima Trindade (Pauperes Commilitonum Christi Santaeque Trinitatis), esoterismo esse à primeira vista estando em dicotomia conflitual com o credo universalmente aceite católico apostólico romano, e em contradição por a Ordem do Templo estar sob a chancela papal e inscrever-se na fidelidade à catequese e ao rito romano. Porém, não se deve ignorar que a noção de profissão de Fé pode ir da mais elementar ou simples à mais aprofundada ou esclarecida, e nisto poderá estar o entendimento esotérico Templário postulado por alguns da Milícia.

Ademais, a profissão de fé de um saber esotérico ou reservado a alguns raros está inscrita no próprio Louvor da Nova Milícia do Templo por São Bernardo, quando fala “dos homens perfeitos e dos homens imperfeitos”, dos “eleitos” que incluem-se no particípio da “Sabedoria Divina”, e dos seculares numerosos participando do “conhecimento mundano” com recusa a haver mais! Ora esses dois estados são bem os do Iniciado ou Templário e do “templista” profano, isto é, do que “está fora do Templo” (filologicamente, de pro, “antes, adiante, fora”, e fanum, “templo”, quer dizer, o “não-iniciado”, o que se posta diante do Templo e não tem entrada), ou seja, dos Mistérios contidos no mesmo. Aqueles fazem da Jerusalém Terrestre o modelo e partida para a Jerusalém Celeste; estes fazem da Jerusalém Terrestre o protótipo e só chegada. Os primeiros sabem o Mistério da Sabedoria de Deus (Gnose) e conhecem a teologia pública da Catequese (Credo); os segundos conhecem a teologia pública da Catequese mas desconhecem o Mistério da Gnose. Uns têm Fé e Saber, outros têm credo e crença. E tal diferença é tudo. É esta a razão da Igreja ser tanto clausural (secreta, afim a São João) quanto claustral (pública, afim a São Pedro), hoje toda ela claustral e quase nada, nada mesmo, clausural. Ainda assim, há uma terceira vertente eclesial como intermediária entre o silêncio monástico de João e a voz catequista de Pedro: a epistolar e votiva de Paulo. É assunto a quem voltarei num momento próximo.

Tudo isso, ainda, encontrando justificativa primaz na palavra do próprio Senhor conforme a Escritura Nova: “A vós é dado conhecer o Reino dos Céus, mas a eles não lhes é dado. Por isso lhes falo em parábolas, porque eles, vendo, não vêem, e ouvindo, não ouvem nem compreendem.” – S. Mateus 13:11, 13. “E sem parábola nunca lhes falava, porém tudo declarava em particular aos seus discípulos.” – S. Marcos 4: 34. “Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras.” – S. Lucas 24: 45.

Informa a Tradição Iniciática, retida em livros discretos ou secretos ao comum, que a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão veio a constituir-se em seu escrínio mais fechado, oculto ou hermético, como verdadeira Custódia do Santo Graal e, herdeira assumida das tradições Celta e Cátara, tinha esse Saint Vaisel, em língua provençal, como o Farol Supremo guia das almas humanas e a expressão mais perfeita da Sabedoria do Espírito Santo tipomorfizado em Maria, a Mãe Divina, esta que os hindus e budistas chamam Jagat-Ambâ, a Rainha do Mundo, cuja forma física é a Natureza inteira e a Alma o Éter, Akasha ou Mar da Vida sobre o qual paira como Espírito na forma venusta de Estrela (Stella Maris).

São Bernardo, o “Doutor Melífluo”, no seu louvor à Virgem Maria inserto na sua Vitam Mystica, a Ela se dirige: In periculus, in angustiis, in rebus dubiis, Mariam Maris Stella cogita, Mariam invoca (“Nos perigos, nas angústias ou dúvidas, recorre a Maria, Estrela do Mar, invoca Maria”). E na sua Homília II sobre a Virgini Mariam, esclarece: “Maria significa Estrela do Mar e é estrela radiante, a mais brilhante e formosa. É correcto compará-la com uma estrela, pois como todo o astro irradia luz sem se destruir, também a Virgem deu à luz sem lesar ou destruir a sua virgindade. Se se levantam os ventos das tentações, se te vês arrastado contra os rochedos das tribulações e abatimentos, olha a Estrela, invoca Maria. Se és batido pelas ondas da soberba, da ambição, da murmuração ou da inveja, olha a Estrela, invoca Maria. Se as vagas alterosas da avareza e da sedução carnal sacodem com fúria a barca do teu espírito, volta os olhos para Maria. Se A segues, não te desviarás; se recorres a Ela não desesperarás; se A consultas não cairás no erro; se Ela te sustenta e segura não cairás nem te fatigarás. Não temas, se Ela te protege; se te deixares apaixonar por Ela, não te cansarás; com os seus favores e ajudas alcançarás o fim e chegarás a bom porto. Desta maneira, tu mesmo poderás experimentar com quanta razão diz o evangelista: e a Virgem chamava-se Maria”[1].

A Rainha do Mundo (Chakravartine), como contraparte espiritual de Melki-Tsedek, o Rei do Mundo (Chakravartini), pode ser vista exposta, em bela imagem gótica do século XIII, no Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, na Nazaré, levando o nome “A Virgem em Majestade”.

Seja o Graal Arca, Taça, Pedra, Tábua ou Livro, ele não deixa de fazer a trajectória da Evolução Humana, conhecida nos anais iniciáticos como Itinerário de Io. Apareceu na Inglaterra como a famosa Lia Faill, a “Pedra do Destino” na língua gaélica, um dos mais preciosos tesouros da Grã-Bretanha, sendo também denominada de “Pedra da Coroação”, servindo de assento ao trono onde são coroados os monarcas. Ainda existe na abadia de Westminster, em Londres (apesar de haver informações afirmando tratar-se de uma réplica, e a verdadeira não estar mais sobre a da Terra)[2]. Os escoceses do Monte Sagrado de Heredom reivindicam que a Pedra lhes pertence e que lhes foi furtada por agentes da coroa britânica. Quando do seu desaparecimento em Londres, em 1950, foram acusados de autores do rumoroso caso. Contudo, há quem contraponha a sua inocência…

Lia Faill, a "Pedra da Coroação"

Lia Faill, a “Pedra da Coroação”

Por outro lado, para a tradição judaico-cristã, a famosa “Pedra do Destino” ou Luza teria servido de cabeceira ao Patriarca Jacob durante o seu sono e sonho com Anjos descendo e subindo ou intercambiando entre a Terra e o Céu. No entanto, segundo outros a Pedra foi trazida por Moisés quando do êxodo de saída do povo hebraico do cativeiro do Egipto, surgindo daí a Ordem de nome Lápis Faraóni, como também é designada. Era considerada “Pedra Falante”, pois sempre falava e oraculava quando era preciso escolher o novo rei ou faraó!… Foi, igualmente, chamada Anchora Vitae, e, segundo o Professor Henrique José de Souza, a palavra “Âncora” ou “Âncora da Vida” na terminologia dos cabalistas, possui sentido profundamente mágico na linguagem dos Magos[3]. Expressava a ideia de fixação de determinado Movimento ou Trabalho em lugar previamente demarcado[4].

No tocante à Ordem dos Templários, sabe-se que ela desempenhou papel de importância crucial na marcha da Civilização Ocidental, mormente a sua parte vedada ou esotérica de minoria ante a maioria, tão pouco conhecida do «positivismo» dos historiadores contemporâneos possuídos do mau hábito de especular depreciativamente sobre tudo o que desconhecem. Como já disse, a Milícia teve como Supremo Dirigente Espiritual, na época de sua fundação, São Bernardo de Fontaine, Geral dos Cistercienses com Casa-Mãe em Claraval, e já em 1115 ele deu início à construção de uma primeira abadia na floresta de Bar-Sur-Aube, podendo-se considerar que foi a partir daí que tomou a chefia espiritual do Ocidente. Papas, reis, bispos e abades inclinam-se diante dele e o reverenciam como o maior sábio e santo da Cristandade do tempo… Dizia ele: “Os assuntos de Deus são meus, e nada que lhes diga respeito me é estranho”! Possuía um Saber universal. Nossa Senhora não era para ele a Senhora José mas sim a Esposa do Verbo, a Mãe Divina. Rezam as crónicas que bebeu o leite da “Virgem Negra”, quando a Mãe de Deus jactou aos lábios sôfregos de seu filho Bernardo três gotas de leite de seu peito maternal. Em terminologia alquímica, isso respeita ao portentoso Ser de que estou falando: Virgem Negra, Mãe Divina, Senhora da Conceição (a Concepção química do espesso em ígneo), Maha-Shakti, Kundalini, abertura dos canais internos, tudo pode ser enfeixado numa só coisa… desde que corresponda à medida exacta.

Nossa Senhora do Leite. Igreja de Santa Maria do Olival, Tomar

Nossa Senhora do Leite. Igreja de Santa Maria do Olival, Tomar

Terá sido o próprio São Bernardo a convencer os nove originais confrades de Cluni e irmãos de armas a irem a Jerusalém, em 1118, para fundarem uma Milícia de Cavaleiros-Monges no que restava do primitivo Templo de Salomão. Ao falar de Salomão, dizem certas escrituras sagradas ainda assim vedadas: “Grande é o Cálice de Salomão, feito de uma só pedra preciosa. No Cálice existem três versos gravados em caracteres sumérios, que ninguém pode explicar”.

O Cálice terá sido demandado nos subterrâneos do Templo de Salomão, sob pista dada antes por São Bernardo, que creio sabia decifrar o enigma profundo desse objecto sagrado que fora do Rei bíblico que preferira a Sabedoria de Deus à riqueza do século…

Os nove enviados de Cluni certamente não foram à capital da Terra Santa só para fundar uma Milícia de religiosos armados destinada a proteger os caminhos de peregrinação da Cristandade a ela, mesmo que aparentemente fosse só isso, pois a sua presença militar ficou confiadamente assinalada nas estradas que levavam a Jerusalém, sobretudo nas de Jafa e de S. João de Acre, escoltando ainda os peregrinos que se dirigiam ao Jordão. Mas além disso, atendendo a que tomavam a “Terra Santa” por modelo Centro do Mundo e repositório da Tradição Primordial, e também pelos sinais metafísicos e físicos que aí deixaram como manifestação de pura heterodoxia, certamente deverão ter demandado algo de muito maior valor nas criptas salomónicas, tudo levando a crer terem-no encontrado: a Arca da Aliança, as Pedras da Lei, a Taça de Salomão, o nome que se lhe queira dar… desde que corresponda à medida exacta.

Para a Tradição Iniciática, realmente os nove Cavaleiros-Monges demandavam o Cálice da Salvação, o Saint Vaisel ou Santo Graal, com todos os valores transcendentes inerentes a ele. A verdade é que foi a partir daí que se deu o encontro do Oriente com o Ocidente e este começou a sua longa jornada de liderança do Mundo em todos os terrenos, espiritual e temporalmente falando. A Cripta ou Arca, Barca ou Agharta assinala a continuação de transmissão do conhecimento tradicional de uma civilização à que lhe sucederá. E isso sucedeu com o Oriente transferindo-se espiritualmente ao Ocidente por via dos Templários…

Em obra reservada portadora do sugestivo nome de Livro do Graal, conta-se que após várias peripécias o mesmo Santo Graal, em última instância sinónimo de Teosofia como Sabedoria Divina, a partir do ano 985 d. C. peregrinou do Extremo Oriente ao Médio Oriente e daí ao Ocidente, e neste itinerou por sete catedrais em países distintos antes de tomar o rumo definitivo do El-Dorado que é o Novo Mundo, o Quinto Continente, propriamente a América do Sul, o Brasil a quem Pedro de Mariz, no século XVII nos seus Diálogos de Vária História, consignava a Nova Lusitânia, bojo da Utopia do V Império Ibero-Ameríndio cujo advento, já no século XII, os Templários haviam começado ao perseguir o sonho valoroso da Concórdia Universal dos povos do Oriente e do Ocidente, que é dizer a Nova Renascença psicossocial da Humanidade, em suma, a Sinarquia.

Respeitante às sete Catedrais Graalísticas do Ocidente, cada uma com 12 Sacerdotes Perfeitos (Goros, em tibetano), ao todo 84, a Tradição Iniciática diz serem:

Abadia de Westminster (Londres – Inglaterra)

Nome oculto: Templo da Justiça.

Nome sacerdotal aghartino (em português): Espada Flamígera.

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Santa Maria Magiore (Roma – Itália)

Nome oculto: Templo do Anjo Paciente.

Nome sacerdotal aghartino (em português): Senhora ou Rainha das Águas.

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Catedral do Precioso Sangue (Bruges – Bélgica)

Nome oculto: Templo da Ressurreição.

Nome sacerdotal aghartino (em português): A Taça de Deus.

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Sé Patriarcal de Lisboa (Lisboa – Portugal)

Nome oculto: Templo da Luz.

Nome sacerdotal aghartino (em português): As Três Chamas ou Luzes.

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Catedral de Washington (Washington, D.C. – EUA)

Nome oculto: Templo da Penitência.

Nome sacerdotal aghartino (em português): Capacete de Bronze, ou também Portal de Aço.

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Catedral do México (Cidade do México – México)

Nome oculto: O Templo Bipartido, ou Aquele que tem Duas Faces.

Nome sacerdotal aghartino (em português): A Corte Ensombrada ou Envolvida em Águas.

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Catedral de Salvador (Bahia – Brasil)

Nome oculto: O Trono de Deus.

Nome sacerdotal aghartino (em português): As Barbas do Eterno ou do Ancião das Idades.

A ver com a dinâmica do movimento ou marcha cíclica da Civilização de Leste a Oeste, o que se denomina Itinerário de Io ou Yo, que é a Mónada peregrina ou evoluindo pelo longo esteiro das Raças Humanas, os Monges-Construtores às ordens de Cister e Claraval em breve adoptariam significativamente por sigla a letra d´ouro pitagórica, o Y, por vezes inscrito dentro de um círculo, confirmação que me resultou positiva quando estudei no sítio as lápides do cemitério medieval junto à igreja Templária de Íria Flávia, próxima de Padrón, no caminho para Santiago de Compostela, portanto, na Galiza[5]. Esses Monges-Construtores, herdeiros dos Collegiam Fabrorum romanos que eram os colégios de artífices, adoradores primitivos de Lusina e depois de Luzia, em breve abraçariam o Sagrado Coração de Maria, incarnação primordial da Matéria, Mater-Rhea e que é a Mãe-Terra, também lhe chamando Yse ou Ysseth, ou seja a mesma e antiga Ísis cujos Mistérios volitavam na forma da Barca simbológica da Agharta, aqui, trazendo os valores espirituais do Oriente ao Ocidente.

Tal transferência espiritual de valores está figurada num silhar de azulejos na sacristia da igreja da Misericórdia de Cascais, onde se vê a Arca da Aliança carregada triunfalmente para o Ocidente pelos Levitas ou Sacerdotes do Templo de Salomão, os quais serão aqui os Templários, a quem esta igreja ou uma outra desfeita sob ela terá pertencido. Tal alegoria significa, precisamente, a passagem de valores de um para outro hemisfério do Globo[6].

A Arca da Aliança carregada para o Ocidente. Igreja da Misericórdia de Cascais

A Arca da Aliança carregada para o Ocidente. Igreja da Misericórdia de Cascais

Essa devota relação filológica dos Templários com Ísis/Maria está ainda testemunhada numa frase escrita, permeio a estranhos grafitos, numa das paredes das celas da “torre do prisioneiro” (castelo de Gisors, França) que foi, sem dúvida, o último Mestre Geral do Templo, Jacques Borguemundus de Molay, aí encarcerado com os principais dignitários da Ordem, diz-se, em número de 72, por ordem de Filipe IV, rei de França, no mês de Agosto de 1308[7]. Diz a frase: O MATER DEI MEMENTO MEI (“Ó Mãe de Deus, lembra-te de mim”). Como anagrama, lê-se exactamente assim: AMO DEMETER ENIM TIMEO (“Amo Demeter porque a temo”). Demeter, sabe-se, é precisamente o nome grego de Ísis.

Respeitante à Cruz adoptada como insígnia do Templo, era a pátea que havia sido oficialmente reconhecida como a mais santa e perfeita representativa da própria e toda a Cristandade no Sínodo de Constantinopla, no ano 608. Daí se a ver patente em muitos baixos e altos-relevos visigóticos da Península Ibérica, nomeadamente na igreja de S. Gião, perto da Nazaré[8]. Segundo Gerard Serbanesco na sua obra Commentaires sur la regle des Templiers, ela substituía a antiga Cruz Swástika ou Jaina dos Hindus e Budistas e um outro símbolo que, no Médio-Oriente, referia-se ao Equinócio da Primavera (correspondendo ao ciclo anual da Ressurreição da Natureza das trevas do Inverno): o Phalus. Até ao ano 680 os cristãos conservaram esse símbolo Phalus, depois substituído pela Cruz Pátea ou Patada (em francês, patée)[9].

Em 1142 os Templários receberam o emblema da sua Cruz, o qual seria reconhecido em bula apostólica pelo Papa Eugénio III, cisterciense, em 1145, certamente por intercessão de São Bernardo de Claraval, de São Malaquias da Irlanda e do Rei São Luís de França, ou seja, a Cruz da Cristandade, de quem a defesa de toda ela lhes estava confiada. Vermelha da cor do sangue real do Salvador dado por amor da Humanidade, ela sobrepunha-se ao fundo xadrezado branco e negro da bandeira ou balsa (beausant, em francês), decorada com o versículo bíblico Non nobis, Domine, non nobis, sed nomine Tuo da gloriam (“Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Vosso nome dai glória”)[10]. Já o seu grito de batalha, o qual leva para o conceito de Fede Santa que aliás São Bernardo predica no seu Louvor à Milícia, pondo no papel o que já antes seria postulado como ideal primaz, portanto, apenas confirmando o testemunho, era: Para sempre, viva Deus, Santo Amor.

A balsa tinha para os Templários o mesmo valor do Santo Sudário, por figurar o Espírito de Cristo que lhes incumbia difundir pela Guerra Santa (Cruzada) sobretudo à Ignorância, ao Fanatismo e à Tirania, os três grandes flagelos que separam em anarquia a Humanidade e vedam a unidade da Sinarquia, isto é, da Concórdia Universal dos Povos.

O policiamento e protecção da Terra Santa não se cingiria unicamente aos caminhos da Judeia e da Palestina que conduziam a Jerusalém, ainda assim esta tendo a primazia por ser na época o Centro Espiritual Supremo das três grandes religiões do Livro (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo), mas também a todos os lugares destacados com foros de sagrados, portanto, igualmente Terras Santas, condição lhes imposta tanto pela Tradição Iniciática quanto pela tradição popular que, afinal de contas, é a conservadora daquela por via dos seus usos e costumes – etnográficos, folclóricos, religiosos, etc. Lugares Santos sendo como anfiteatros para a mítica Canaã ou “Terra de Promissão” de que fala S. Bernardo no Louvor à Nova Milícia. Estará nisso a razão do especial e aparentemente desconexo, inexplicável, interesse e dedicação dos Templários a determinados lugares da Península Ibérica, criando uma geografia sagrada muito sua, lugares esses dos quais muitos à primeira vista não oferecem qualquer valor político ou estratégico militar por seu isolamento, longe dos caminhos principais de trânsito das tropas e das populações, mas certamente encravados em nódulos de forte intensidade telúrica que lhes conferiam foros sagrados de magia intercambia, na Face da Terra, entre o Céu e o Inferno, destarte os Templários realizando uma Fede Santa e psicopompa assumindo-se como Metraton (com face superior ou voltada para o Céu, incarnada pelo Arcanjo Mikael, e com face inferior ou voltada para a Terra, incarnada pelo Arcanjo Samael) que, tal qual Melki-Tsedek, é o Senhor dos Poderes Espiritual e Temporal, Pax et Lex, Intermediário ao Mistério Celeste da Merkabah e ao Mistério Terrestre da Shekinah, respectivamente, a “Tradição Primordial da Divindade em movimento ou dinâmica, acompanhando os Ciclos de Evolução por que se reparte a Vida Universal”, e a “Presença Real de Deus” no Seio da Terra, o Inferno, Inferius ou “Lugar Inferior, Interior, Subterrâneo”[11].

De maneira que a Jerusalém Celeste, falada pelo mesmo S. Bernardo, como Pólo Espiritual vem a reflectir-se no seu Pólo Material, a Jerusalém Terrestre, ou seja, a Salém como a mesmíssima Shamballah da tradição transhimalaia irradiando de si mesma por todo o Orbe através dos Centros Vitais do mesmo, plantados sob verdadeiros “Jardins do Éden” alindando estrategicamente os pontos nevrálgicos do Globo, um dos quais é Sintra, primitiva Comenda Templária, hoje mesmo Terra de Promissão justificando inteiramente, apesar de maneira rara sibilina e ctónica, porque este País é o Porto-Graal.

É assim que o Santo de Claraval, como Doutor Melífluo, reflecte nas suas palavras a Jerusalém Celeste na Jerusalém Terrestre, por ser esta o módulo daquela, seu modelo, e que a Cavalaria Ideal ou Espiritual é superior à Cavalaria Temporal, mesmo que ambas devam andar juntas, para que o Cavaleiro seja efectivamente “Cordeiro e Leão”, isto é, Santo e Guerreiro, conforme a Regra.

Iluminura medieval mostrando os Templários com guardiões vencedores de Jerusalém

Iluminura medieval mostrando os Templários com guardiões vencedores de Jerusalém

Como disse, a Jerusalém Celeste, ou simplesmente Salém, “Cidade da Paz”, a quem o Sepher-Ha-Zohar chama igual e simplesmente Azul, “Cidade da Luz”, donde a prerrogativa Pax et Lux para essa Morada eterna do Rei do Mundo, Melki-Tsedek, cujos iguais atributos Pax et Lex[12] são precisamente os mesmos que se encontram nos Templários, como Monges assumindo a Pax e como Guerreiros a Lex. Apadrinhados por D. Afonso Henriques, ligado a eles por laços de afiliação e familiares[13], é visto assumir-se como Rei e Templário incarnando em si, desde que se auto-coroou em Zamora em 1143, atributos iguais aos de Melki-Tsedek, como sejam a Pax (Mestre) e a Lex (Rei), tal qual se vê num seu selo rodado, assim se assumindo expressão directa do Rei do Mundo pela Graça de Deus e não dos homens, investidura antecipada pelo Milagre Cristológico de Ourique onde Cristo, “Sacerdote eterno de Melki-Tsedek”, é o seu divino Paraninfo.

Tudo isso leva-me à composição seguinte:

Esquema

Curioso ir encontrar-se nas cercanias de St.ª Maria de Alcobaça, Casa-Mãe de Cister em Portugal, a velhinha localidade de Arcipreste. Ora, o Arcipreste corresponde ao Grande Presbítero, ou seja o Arki-Preste, notoriamente identificado ao Preste João cuja fama começou a correr pela Europa ainda os Templários existiam, no século XIII, e, entre Melki-Tsedek e Preste João a diferença é nenhuma… excepto na tridivisão de saberes e funções da própria Ordem do Templo:

Três Graus

Ainda que interligadas todavia são funções distintas, pois a primeira ministrava a Regra e o seu “espírito sob a letra que mata”, alimentando a vocação sacerdotal e clausural; a segunda mantinha os Estatutos conforme a Regra, formando as almas na religião e deixando entreaberta a vida claustral; e a terceira assegurando o cumprimento dos Estatutos juntos dos claustrais e seculares, com estes, junto do restante Clero e da Nobreza, tornando o Templo empresa administradora confiável dos seus bens temporais, no que se tornou a maior e mais poderosa Banca do tempo, com os dados históricos disponíveis indiciando que realizava um plano secreto, ou só do seu conhecimento, na criação macrocéfala, através do sistema sócio-económico, de uma Sociedade mais justa e perfeita, para não dizer Sinárquica, que abarcasse toda a Europa.

O esforço de implantação da Sinarquia no Ocidente ocupou praticamente o Mestrado dos 22 Mestres Gerais do Templo, ou seja, toda a duração desse, perfilando-se eles numa lista tarôtica de maior grandeza configurada pelos nomes de:

1. HUGUES DE PAYNS, ou de PAYENS, ou PAGANIS (ou BAGANIS?). C. 1070 – 24 de Maio de 1136. Cavaleiro originário da Champagne. 1.º “Magister Militum Templum” de 1118 ou 1119 a 1136.

2. ROBERT DE CRAON. ? – 13 de Janeiro de 1149. Cavaleiro originário da Borgonha. 2.º Mestre do Templo de 1136 a 1149.

3. ÉVERARD DE BARRES. ? – Clairvaux, 25 de Novembro de 1174. Cavaleiro originário da Champagne. 3.º Mestre do Templo de 1149 a 1152.

4. BERNARD DE TREMELAY (ou TREMELAI). ? – Ascalon, 16 de Agosto de 1153. Cavaleiro originário do Condado Franco. 4.º Mestre do Templo de 1152 a 1153.

5. ANDRÉ DE MONTBARD (ou MONTBART). ? – 17 de Janeiro de 1156. Cavaleiro originário da Borgonha. Não entra no cômputo dos 22. S. Bernardo fala dele na Epístola 288. Em todo o caso, mesmo sendo dos Mestres presumíveis, teria sido Mestre de 1153 a 1156.

6. BERTRAND DE BLANQUEFORT (ou BERNARD DE BLANCHEFORT). ? – 2 de Janeiro de 1169. Cavaleiro originário do Berry. 5.º Mestre do Templo de 1156 a 1169.

7. PHILIPPE DE MILLY, ou DE NAPUS ou NAPLOUSE. ? – Constantinopla,?. Cavaleiro franco originário da Síria. 6.º Mestre do Templo de 1169 a 1171, quando renunciou ao cargo.

8. EUDORE (EUDES ou ODO) DE SAINT-AMAND. ? – Terra Santa, 8 de Outubro de 1179. Cavaleiro originário da Champagne. 7.º Mestre do Templo de 1171 a 1179.

9. ARNAU DE TORROJA ou ARNALD DE TORROGE (ou TOUR ROUGE), ? – Verona (Itália), Setembro de 1184. Cavaleiro originário de Aragão, procedente de família catalã. 8.º Mestre do Templo de 1180 a 1184.

10. TERRIC, TEODORICO ou THÉRENCE. ? – ?. Controverso e duvidoso. Aparece como Mestre do Templo em 1188, ano que foi obrigado a renunciar.

11. GÉRARD DE RIDEFORT. ? – S. João de Acre, 4 de Outubro de 1189. Cavaleiro originário da Flandres. 9.º Mestre do Templo de 1185 a 1189.

12. GUALTÉRIO. ? – ?. Estranhamente Campomanes cita-o como sucessor de Ridefort entre 1190 e 1195. Nada mais sei sobre ele.

13. ROBERT DE SABLÉ. ? – 20 de Setembro de 1193. Cavaleiro originário da Borgonha. 10.º Mestre do Templo de 1191 a 1193.

14. GILBERT HORAL, ERAIL ou ERRALL. ? – 21 de Dezembro de 1200. Cavaleiro originário de Aragão ou da Provença. 11.º Mestre do Templo de 1194 a 1200.

15. PHILIPE (ou GILBERT) DE PLESSIS (ou PLAISSIEZ). ? – 12 de Fevereiro de 1209. Cavaleiro originário de Anjou. 12.º Mestre do Templo de 1201 a 1209.

16. GUILLAUME (ou GUILLERMO) DE CHARTRES. ? – Damieta (Egipto), 25 de Agosto de 1219. Cavaleiro originário de Chartres. 13.º Mestre do Templo de 1210 a 1219.

17. PERE DE MONTAIGU (chamado PIERRE DE MONTAGUT). ? – 28 de Janeiro de 1332. Cavaleiro originário de Aragão. 14.º Mestre do Templo de 1219 a 1232.

18. ARMAND DE PÉRIGORD. ? – Gaza, 17 de Outubro de 1244. Cavaleiro originário de Périgord. 15.º Mestre do Templo de 1232 a 1244.

19. RICHARD DE BURES. ? – 9 de Maio de 1247. Cavaleiro originário da Normandia. 16.º Mestre do Templo de 1244 a 1247.

20. GUILLAUME DE SONNAC. ? – Mansourah (Egipto), 8 de Fevereiro de 1250. Cavaleiro originário de Rouergue. 17.º Mestre do Templo de 1247 a 1250.

21. RENAUD DE VICHIERS. ? – 20 de Janeiro de 1256. Cavaleiro originário da Champagne ou de Vichy. 18.º Mestre do Templo de 1250 a 1256.

22. THOMAS BÉRAUD ou BÉRAUT. ? – 25 de Março de 1273. Cavaleiro originário da Inglaterra ou da Itália. 19.º Mestre do Templo de 1256 a 1273.

23. AMAURY DE LA ROCHE. ? – ?. Recomendado para o Mestrado pelo Papa Alexandre IV, enquanto Béraud estava prisioneiro do Islão em Sepahad. Deixa pensar que foi um “Mestre interino” que deixou o seu cargo quando, em 1273, foi nomeado o seu sucessor efectivo.

24. GUICHARD ou GUILLAUME DE BEAUJEU. ? – S. João de Acre, 18 de Maio de 1291. Cavaleiro originário de Beaujolais. 20.º Mestre do Templo de 1273 a 1291.

25. THIBAUD GAUDIN ou TEOBALDO GAUDINI. ? – 16 de Abril de 1293. Cavaleiro originário de Chartres-Blois. 21.º Mestre do Templo de 1291 a 1293.

26. JACQUES BURGUEMUNDUS DE MOLAY. ? – Paris, 18 de Março de 1314. Cavaleiro originário da Alsácia. 22.º e último Mestre do Templo de 1293 a 1314.

Efectivamente a Milícia Templária, a partir das suas Casas, desde o Médio-Oriente aos confins da Europa, Portugal, idealizou e tentou efectivar a realização de um projecto sinárquico que, desgraçadamente, as forças temporais ou cesaristas impediram até desfecharem dramaticamente com o famoso e controverso “Processo contra o Templo”, de que darei notícia mais adiante.

Sinarquia equivale a uma congruência harmónica una e tríplice da Natureza reflectindo-se, direi hipostaticamente, na triplicidade do Homem como Espírito, Alma e Corpo, à qual correspondem três funções orgânicas:

Três funções

Com essa estruturação inter-harmónica do seu princípio tríplice de si para fora, para o exterior, o Homem inevitavelmente afectará o restante tecido do conjunto humano componente do todo Sociedade a qual, com o intercâmbio dessas três funções cujo equilíbrio perfeito é resultante da consciência superiormente desenvolvida, irá se assumir como Sinarquia que, sendo una em sua essência, tríplice em sua expressão e séptupla em sua acção[14], se destaca pelo carácter teleológico ou finalístico das suas três Ordens:

Três ordens

Certamente para os Templários a realização do projecto sinárquico presumido não deixava de estar em conformidade à exposição anterior da ideia sinárquica inscrita na Civitas Dei de Santo Agostinho, afinal, fonte da inspiração Bernardina para a composição da Fórmula de Vida dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão.

Ainda acerca da relação Cister/Templo, acho por bem trazer aqui um excerto da carta que enderecei ao estimado e valoroso amigo da Marinha Grande, Hermínio de Freitas Nunes, datada de 12.7.1999: – “Quanto à igreja alpendrada de St.ª Maria de Seiça, com restos de frescos nas paredes, que o amigo levou-me a visitar. A decoração fitomórfica de todo o templo (de que subjazem restos de frescos nas paredes laterais do altar-mor) obedece aos cânones simbólicos de uma Casa consagrada ao Espírito Santo, em que os motivos vegetalistas aludem à Natureza-Mãe concentrada no espaço sacro. Daí a Virgem trecentista apresentando na destra o Coração (Cordo Maris) e na sinistra, ao colo, o Menino com o Livro aberto, tal como os dos dois Doutores da Igreja retratados nos frescos: St.º Agostinho e St.º Ambrósio. O “livro aberto” é sempre indicativo de conhecimento desvelado, enquanto que “fechado” assinala a sabedoria velada.

“Ademais, os variados sinais analógicos a que se prende o templo indiciam uma Casa de Cister. Começo pelos dois santos retratados nos frescos laterais ao altar-mor.

“St.º Ambrósio (7 de Dezembro) é um dos quatro grandes Doutores da Igreja Latina ou Ocidental. Segundo a hagiografia da sua vida, era filho de um Prefeito das Gálias e teria nascido cerca do ano 340 d. C. Ficou órfão cedo, estudou em Roma e foi para Milão ocupar um cargo público. Por morte do Bispo de Milão, e sendo ele já famoso graças à sua oratória e intervenção apaziguadora na sucessão desse Bispado, foi eleito Bispo milanense. Tem uma obra literária vasta, com temas exegéticos, morais e doutrinais. Também foi liturgista e introduziu o canto alternativo de hinos e salmos. Foi Mestre do ex-platónico St.º Agostinho e terá morrido em Milão no ano 397. Tem como atributos uma criança no berço, ou ossadas, ou ainda um chicote de três rabos, além de uma colmeia, referência à sua oratória “ser doce como o mel”.

“O contexto social do mundo das abelhas simboliza, em muitos casos, uma comunidade coerentemente trabalhada, posta sob a evocação de uma Grande Mãe a cujo seio se acolhem todos os fiéis. Lembro, de passagem, o paralelismo que pressupõe a figura da abelha-mestra com muitas das evocações da Virgem Maria que foi tão especialmente venerada nos tempos medievais, por meio de um contexto tradicional perfeitamente assumido pelos monges de Cister.

“No fresco retratando St.º Ambrósio escrevendo, há a seu lado um documento escrito e assinado que começa em maiúsculas latinas: EST PALMA, “esta mão”, e será, talvez, o “canto alternativo” escrito pelo santo.

“Já em St.º Agostinho (28 de Agosto) encontram-se nele vestígios da Grande Tradição, detectáveis principalmente nas suas obras máximas (representadas nos dois livros patentes no fresco correspondente), “Cidade de Deus” e “Centro do Mundo”. Estudioso das Idades da Santíssima Trindade, inicia esses estudos que mais tarde seriam convertidos, por outro cisterciense italiano da Calábria, Joachim da Fiore (séc. XIII), nos três mais um Tempos, já por influência Bernardina e não Agostinha, sendo acrescentado no século XVII um quinto Tempo ou Império, o Português, pelo padre jesuíta António Vieira.

“Agostinho de Hipona é representado com um coração flamejante (o seu próprio), e neste templo observa-se a Virgem a portar um coração, o que não deixa de ser sintomático na analogia que estou estabelecendo com a presença de Cister, ainda que discreta, no lugar. Já no exterior, a disposição da torre sineira indica o “S” serpenteante ou espiralado por que se ascende à Cidade de Deus, cujo sino dobrando clama à abertura dos portais celestes dessa invisível mas presente Civitas Dei.

“Com todo o sentido cristão às costas, com toda a sua carga mística à flor da pele, St.º Agostinho foi um convencido da universalidade do sentimento religioso e – possivelmente por causa dos seus antecedentes maniqueus e neoplatónicos – da validade intrínseca de todas as crenças, sempre que sejam acolhidas em profundidade e sinceramente. Assim diz nas suas “Retratações”: “Coisa idêntica ao que chamamos agora religião cristã existiu entre os antigos e nunca deixou de existir desde os princípios da raça humana até à vinda de Cristo incarnado, momento em que a religião verdadeira, que já existia, começou a chamar-se cristã” (I, 13, 3). Este sincretismo eminentemente místico, e por isto mesmo transcendente e universal, é o que o leva a aceitar e a exaltar esse conceito do Eixo do Mundo a que ele chama a Cidade de Deus e que faz parte das mais profundas doutrinas esotéricas como a da Jerusalém Celeste, e até, em suas últimas consequências, como a da Agharta das tradições da Ásia Central.

“Ora Cister e Claraval, ambas fundidas quase (ou mesmo) numa só por intercessão de S. Bernardo, o “Doutor Melífluo”, davam grande atenção a esses dois Patriarcas da Igreja, particularmente ao último, cuja ideologia sinárquica veio a influenciar a feitura da Regra e Estatutos da Ordem do Templo, também chamada Ordem dos Cavaleiros Templários da Santíssima Trindade. E onde há Templários há Cistercienses (o Mestre Espiritual de ambos é o mesmo: S. Bernardo de Claraval!): os primeiros vocacionados à acção externa (processo motor) e os segundos à acção interna (processo intelectual); aqueles para a vida claustral e estes para a vida clausural; uns para o Dogma e outros para o Magistério… mas ambos interligados, e não raro ocupando funções contrários às suas, sempre com a Virgo Maris, a Virgini Mariæ, presente (processo vital).

“Quanto aos esqueletos da pressuposta Abadia de Tomaréis, também ela Casa de Cister, cada qual com uma moeda do século XVI (data que antecipei por uma primeira e rápida análise dos restos mortais) sobre o coração, significa, de facto, o pagamento à Morte barqueira da passagem pelo Rio Purgatorial (de purga, limpar, purificar…) rumo ao Céu, de maneira a não afundar no Purgatório e nem, tampouco, no Inferno. Gil Vicente perpetuou esta crença no seu “Auto das Três Barcas” (a celeste levando a Deus os Templários ou Soldados de Cristo tombados no campo da honra). Mas tal crença pertencente aos cânones da religião popular não é mais velha que os inícios do século XV, época em que se perde a noção de Cristandade Iluminada para ficar só um catecismo simplista, supersticioso e infundindo temor às mentes simples, ainda que a moeda posta sobre o coração do morto seja tradição muito mais antiga, egípcio-hebraica, relacionada à civilização mediterrânea que a religião cristã adoptou e trouxe à civilização ocidental, sendo animada nestas partes lusitanas não pelos Cistercienses mas por aqueles que lha comunicaram: os Templários, vindos das campanhas do Ultramar.

“A utilização puramente metafórica, simbólica, da noção de moeda encontra-se em diversos textos cristãos. Para S. Clemente de Alexandria, a noção de verdadeira e de falsa moeda prende-se ao discernimento dos factos e dos actos de acordo com o Espírito, à utilização da fé como critério da Verdade, e daí a referência necessária ao cambista preparado para a sua tarefa (Stromates, 2). Um texto anónimo tardio da Igreja do Oriente, talvez inspirado no precedente, insiste na circunstância do uso da pedra de toque – constituída pelos textos patrísticos – e no papel dos cambistas, que são os seus intérpretes qualificados (em quantos restos mortais medievais não se encontra uma bíblia ou excerto de texto sagrado? E em quantas tampas funerárias nos seus esculpidos não se vê a alegoria do defunto com uma bíblia ou excerto de texto sagrado? Em quase todas, ligando-se a essa tradição). Angelus Silesius usa diversas vezes o símbolo da moeda como imagem da Alma, pois que a Alma traz impressa a marca de Deus, como a moeda traz a do soberano (e aqui entra a história evangélica do talento que deram a Jesus com a pergunta maliciosa se “era a Deus ou a César que se devia servir”). Ele compara-a ao coração róseo, pois a rosa é a flor mística de Maria, Alma das almas, mas também de Cristo, ainda que a este caiba mais o lírio. Assim, evoca igualmente o estado de Iluminado Espiritual, de Rosa+Cruz, o que muito bem os Templários conheciam, como se confirma na lapidação do emblema R+C em inúmeras estelas discóides funerárias suas, assim como em medalhões e selos seus.

“Dois últimos apontamentos: 1.º) Acerca dos marcos territoriais da Comenda Velha da Sabacheira (“comenda velha” tem a sua fundação na Ordem do Templo e que a Ordem de Cristo herdou, e “comenda nova” fundada só pela última), sugiro-lhe que leve giz branco para objecto escuro, ou preto para objecto claro, de maneira a realçar os pormenores antes de os fotografar; 2.ª) A imagem da Virgem do Leite, cuja igreja visitámos, para mim é de descendência medieval e possivelmente Templária ligando-se à hagiografia milagrosa de S. Bernardo, em que clama à Virgem: Monstrate esse Matrem, “mostra-te maternal”, e logo Ela derramou três gotas da sua seiva vital na boca dele. Desse apelo latino derivou a corruptela Noster Mater, “Nossa Mãe” e “Nossa Senhora”, ficando na tradição Bernardo como o primeiro a tratá-La assim tão íntima e familiarmente.”

Iluminura medieval do milagre da lactação de Nossa Senhora a São Bernardo

Iluminura medieval do milagre da lactação de Nossa Senhora a São Bernardo

De maneira que, fazendo na Terra a viagem estelar da Via Láctea tendo por estrela guia Sirius na constelação do Cão Maior, os Templários encetam diáspora do Oriente ao Ocidente até se fixar na região centro de Portugal, em Tomar, onde é instituída a sua Casa-Mãe para toda a Península Ibérica. Tomar, do assírio-aramaico Atumar, “Senhor Pai”, como os primitivos nabateus, nabantinos ou naturais desta Nabância luso-romana lhe chamavam (donde o nome do Rio Nabão banhando a cidade, o que regista um quadro seiscentista exposto na igreja de S. João Baptista, onde se vê na ceia do Senhor exposto no prato gradual um nabo, isto é, a referência velada ao mesmo Nabão e à mesma Nabância, onde se deu a última ceia Templária, que é dizer, onde a Ordem teve a última Mater Domus in extremis Occidis), etimólogo também se decompondo em Tat-Maris, “Oceano Universal”, em referência óbvia ao Aspecto Feminino do Logos Criador, quis-se fazer deste primitivo burgo um enclave sagrado ou solar sob a chancela da bem pouco conhecida Ordem de Mariz (com toda a certeza incorporando em si os famosos e mal entendidos, tanto em conceituação como em apercepção, “Mestres Secretos do Templo”, ou aqueles reservando-se anónimos nos bastidores da acção social do Templo ao qual, assim mesmo, dirigiam para um fim que, apesar de não se ter realizado completamente, contudo alterou decisivamente a fácies político-social e religiosa da civilização ocidental), lugar este onde, na geografia sagrada do País, impera o Divino Pai e onde Mãe e Filho, respectivamente, as 1.ª, 2.ª e 3.ª Hipóstases do Logos Único, se encontram Nele. É esta a razão maior da pretensão em querer fazer-se de Tomar a Jerusalém ibérica, a ponto da própria Charola do Convento Templário, mandada levantar no 1.º de Março de 1160 pelo Mestre D. Gualdim Pais, ser uma réplica exacta dessa outra também octogonal do Templo de Omar e, diz-se, mesmo da primitiva do desaparecido Templo de Salomão, na capital de Israel[15].

Colunas de Anjos que suportam na base todo o edifício do Convento de Cristo, em Tomar

Colunas de Anjos que suportam na base todo o edifício do Convento de Cristo, em Tomar

É curioso que o próprio Castelo dos Templários, ainda em Tomar e mandado construir também por Gualdim Pais, configure a constelação do Boieiro que é a “antecâmara” estelar dessa outra e mais importante da Ursa Maior, a constelação dos Rishis ou os 7 “Reis Divinos”, ou seja Saptarishis em sânscrito, cuja estrela alfa do mesmo Boieiro ou Boi celeste é Arcturus, o “guarda do urso”. E guardando muitas casas em volta da igreja de Santa Maria do Olival, viam-se antigamente nas pardieiras das portas um boi gravado em alto relevo, o que é significativo[16]. Se o boi puxa a charrua e lavra a terra para que haja boa semeadura (factor sedentário agrário-demográfico, de povoamento), o urso é besta a caçar e como fera nobre representa a toda a caça e ao guerreiro que o busca (factor nómada e de defesa militar do mesmo povoamento). De maneira que se o boi manso simboliza a Terra fértil e submissa, o urso assinala o Poder das Armas ou Temporal, tão bem apontado na época pela perfeição do Cavaleiro Templário, eterno perseguidor da Realeza Divina, de onde a lenda da caçada ao porco montês (retratada no capitel de uma  coluna na igreja de São João Batista, em Tomar, áxis mundi da cidade) por Mestre Gualdim Pais que veio a o… tomar.

Castelo Templário de Tomar configurando a constelação do Boieiro

Castelo Templário de Tomar configurando a constelação do Boieiro

A cosmosofia dá conta de diversos constelados implicados ao processo dinâmico de criação e evolução do Universo em que estamos e em que entra a constelação da Ursa Maior, esquema sideral esse assim se podendo ordenar como se depreende de um texto teúrgico reservado[17]:

Três Logos

Admitindo e defendendo a tese da cidade de Tomar, já referida como a capital da Ordem do Templo na Península Ibérica, como uma imagem viva do Centro do Mundo (a Mata dos Sete Montes, vizinha do castelo, associada aos enclaves iniciáticos dos Templários, e o ex-libris da cidade, a Roda do Rio Nabão, constituem dois dos mais assinaláveis vestígios do carácter axial de Tomar), o documento pelo qual se faz doação dela aos Templários ostenta um curioso e notável sinal rodado de D. Afonso Henriques. As letras que figuram nesse sinal estão dispostas de modo a serem lidas como Portugal, mas também como Portugral, ou seja, Porto Graal[18].

Carta de doação de Tomar por D. Afonso Henriques a D. Gualdim Pais, Mestre do Templo em Portugal. Repare-se no notável do sinal rodado onde se pode ler "Porto Graal"

Carta de doação de Tomar por D. Afonso Henriques a D. Gualdim Pais, Mestre do Templo em Portugal. Repare-se no notável do sinal rodado onde se pode ler “Porto Graal”

Por seu turno, Maurice Guinguand e Beatrice Lanne afirmam[19]:

“A Cristandade, sob a égide dos Beneditinos, já tinha traçado o seu caminho para Oeste. Esse caminho conduzia a S. Tiago de Compostela, em direcção ao Cabo Finisterra, onde os celtas os tinham precedido dois mil anos antes, enquanto outros celtas se instalavam nesse outro “Fim da Terra”, a ponta da Galiza.

“Em Compostela, local sagrado, intuitiva ou conscientemente, os árabes tinham sabido desvendar o poder do local e realizar as aplicações de um conhecimento de que foram promotores: o da Alquimia e da transmutação do ouro e da prata.

“É em Compostela que os primeiros peregrinos cristãos encontraram um artesanato de tradição árabe florescente, o dos pratos de ouro e prata que ainda hoje são decorados com cordões entrelaçados mouriscos.

“As aspirações religiosas e o fervor da fé não excluíam a atracção oculta que fazia com que muitos espíritos curiosos empunhassem o bordão de peregrino, partindo em busca de contactos intelectuais e de trocas frutuosas entre as tradições do Oriente e do Ocidente. Inúmeros judeus, comerciantes e negociantes, mas também esotéricos e kabalistas, vinham examinar as novas teorias que confrontavam com as suas.

“Foi no caminho para Compostela que Nicolas Flamel, alquimista francês, encontrou o companheiro judeu que deu origem à sua iniciação e ao êxito que o tornou famoso.

“Foi efectivamente em Compostela que os árabes depositaram o fermento dos seus conhecimentos em Alquimia.

“É em Compostela, junto da fachada das Platerias de Santiago, que há mais de nove séculos se guardam, gravados nas suas pedras, os segredos de um saber e as chaves de um conhecimento que os esotéricos medievais tinham ido buscar para os completar.

“Baseando-se na sua cosmogonia, os Templários saberão deslocar o ponto levando-o mais para o Sul, para Portugal, para Tomar.

“Não serão pratos de prata, mas sim tabernáculos de ouro que dormirão sob a Charola, a Roda, o sono do exílio.

“A Ursa Maior deslocou-se, a Roda girou e as sinetas de ouro tilintam no fundo dos poços durante as noites de Setembro e a noite de Natal.”

Exterior da Charola dos Templários no Convento de Cristo, Tomar

Exterior da Charola dos Templários no Convento de Cristo, Tomar

Acrescente-se que a Ordem de Santiago, com todo o seu trabalho de sapa, possuía Estatutos idênticos aos do Templo, que interna ou discretamente dirigia a sua actuação externa dentro da Península Ibérica. Daí a razão de se observar muitas casas religiosas Jacobeias com insígnias Templárias, como é o caso, por exemplo, da igreja de Santiago em Coimbra encimada com a Cruz rodada do Templo, sinal de Mestrado português dada a importância da capital do Mondego – as finis Galliciae.

Além do caminho de Compostela (o único com direito efectivo ao nome “peregrinação”, pois que os caminhos para Roma são de “romaria”) haviam outros dois, completados ou sintetizados por um quarto, todos palmilhados e promulgados pelos Templários em conformidade à escatologia do seu doutrinal. Eram eles:

– CAMINHO DE SANTIAGO, ou dos Cavaleiros (Kshatriyas), os domadores da Arte Real cujos segredos alquímicos são desvelados à alma peregrina ao longo da rota. Está em correspondência com o naipe Espadas e a Igreja de Paulo (a mosteiral, vogando entre o claustro e a clausura).

– CAMINHO DE ROMA, ou do Povo e dos Cambistas (Vaishyas e Shudras), uns e outros procurando pelos intercâmbios psicofísicos a salvação da alma pelo Divino Amor, incarnado na figura soberana do Papa. Está em consonância com o naipe Paus e a Igreja de Pedro (a claustral).

– CAMINHO DE JERUSALÉM ou do Ultramar. É assumido pelo Sacerdócio (Brahmane) medieval como a peregrinação mais importante, por Jerusalém assinalar na época o Centro do Mundo e o lugar abençoado pela presença do Salvador ladeado pelos Profetas e Apóstolos (Escrituras Velha e Nova), testemunhando a Verdade Salvífica do Cristo como Messias ou Avatara do Ciclo dos Peixes do Mare Internus espraiando-se aos pés da velha Israel, água salgada essa transformada no vinho adocicado da Gnose ou Sabedoria do Cristo, cujo Sangue Real se perpétua ao presente por meio da Sua Mensagem de Amor e Sabedoria. Tem a ver com o naipe Copas e a Igreja de João (a clausural).

– CAMINHO DA FÉ ou Interior, podendo se manifestar exteriormente tanto pela peregrinação como pela romaria, como ainda pela navegação a Jerusalém. Relaciona-se ao Culto de Melki-Tsedek, de quem “Cristo foi Sacerdote” segundo Paulo na Carta aos Hebreus, e à celebração da Aliança de Deus com o Homem, o que se representa no Centro Supremo ou a Agharta mesma que sobre a Terra tem maior incidência em lugares determinados que, dessa maneira, cedo são assumidos como Terras Santas. Por ser via trespassando a crença (pois quem crê também descrê) e sendo só de Fé confirmada pelo corpo e pela alma na entrega ao Espírito Único, corresponde ao naipe Ouros – o Ouro da verdadeira realização espiritual – e à Secretum Ecclesia ad Magister Incognitus, a mesma “Assembleia dos Santos e Sábios” que ainda hoje o canónico da Igreja evoca na regularidade do ministério litúrgico.

Herdeiros regulares da Tradição Primordial e Oculta, porque Aghartina, do Santo Graal ou da Copa Santa, simbólica da Barca ou Arca encerrando o Thesaurus Majorem que é a Sabedoria Iniciática das Idades, como já disse, os Templários dão a entender nos lances da sua biografia terem sido possuidores de uma Missão tão discreta quanto aberta, tão reservada quanto universal, e para isso, para que todos os entendessem, desde as mentes simples às mais apuradas, repartiram o seu trabalho em três partes, desde a sócio-económica à político-militar e à religiosa e até gnóstica, vertentes essas correspondendo às já referidas três Igrejas ou Corpus da única Apostólica.

São Bernardo de Claraval e a Igreja Uno-Trina

São Bernardo de Claraval e a Igreja Uno-Trina

Na 1.ª, a Igreja de Pedro ou Temporal, os “Tempreiros” dedicaram-se ao câmbio e comércio, no que se tornaram a maior empresa cambista ou banca da Idade Média, a quem todos, ricos e pobres, prelados, nobres e plebeus se confiavam, por ser corrente que “palavra de Templário era honra assegurada”. Parecia haver um plano secreto, já antes elaborado, destinado a alterar e coordenar as estruturas sócio-económicas do Ocidente, o que é demonstrado pelo policiamento e repartição da riqueza de modo a minorar as injustiças sociais e mesmo abolir a pobreza numa sociedade europeia feudalista fortemente ligada às fainas do campo e do mar, e cujos tributos pesados aos senhores donatários traziam o povo numa angústia de miséria permanente. Parece, ao que os indícios apontam, que os Templários davam-se à execução de um modelo sinárquico procurando dessa maneira a consecução efectiva do que se poderá chamar Estados Unidos da Europa.

Com efeito, desde o seu nascimento a Ordem foi aglomerando doações em mercadorias, quintas, palácios e, sobretudo, terras. Dez anos mais tarde, por altura do Concílio de Troyes (13 de Janeiro de 1128), é proprietária abastada não só na Terra Santa mas também em muitos estados cristãos da Europa, onde já possuía numerosos bens de toda a espécie. A base principal do seu poderio são os terrenos, o que não é de admirar numa época em que toda a riqueza está ligada à terra que a produz, fruto de legados, mas igualmente de compras ou permutas. Entrecruzando as suas propriedades de comendas rurais com urbanas, de pousadas e de praças fortes, o Templo conseguiu construir uma organização coerente, ajudada por uma unidade de comando, uma estrutura hierarquizada e uma disciplina severa, fazendo das suas terras e casas dispersas um só bem inalienável, uma imensa terra alodial livre de todos os direitos (direitos de transmissão, derramas, dízimas, portagens, etc.) mas cobrando, em contrapartida, pesadas rendas a quem, em terras suas, pescasse, caçasse, cortasse madeira, fizesse mercado, etc., sendo tudo «mui sabiamente administrado, bem ordenado nos proventos e prudente nos gastos», como faz notar Guilherme de Tiro. Conseguiu também diversificar a sua actividade, multiplicando assim os lucros, acrescentando a exploração comercial e mineira, fabricando e vendendo armas, roupas, mobiliário, lã, carne e curtumes. A este frenesi pluri-económico juntava-se a actividade bancária e financeira originada nas peregrinações e desenvolvida em seguida. A sua honestidade, a sua rede de casas e a sua frota marítima, capaz de guardar e transportar com toda a segurança somas importantes, incitaram soberanos, senhores, mercadores e peregrinos a confiar à Ordem o seu numerário, usando-a muitas vezes como depositária de tesouros reais, como o do rei de Inglaterra, Henrique II, de príncipes italianos, espanhóis, portugueses e do rei de França, principalmente sob Filipe Augusto, tornando-se a Casa do Templo em Paris o centro das finanças reais.

Este sistema teve o seu apogeu por altura das numerosas peregrinações que levaram o Templo a deter grandes fortunas pertencentes aos peregrinos que, no momento da partida, antes que fossem pilhados em estradas pouco seguras, confiavam à Ordem as somas que levavam consigo, movimentando-as por meio de cartas de crédito que apresentavam numa Casa do Templo. A Ordem também praticava o empréstimo, não com usura, por ser anti-cristã e ilegal, mas aplicando as despesas de comissão, a corretagem e a hipoteca, consistindo em fazer pagar uma renda nominal destinada a amortizar a dívida; a diferença entre esta renda e a renda real constitui o benefício. O primeiro exemplo conhecido data de 1135. Estas actividades económicas e financeiras, denunciadas pelos seus adversários sempre com recurso ao exagero e à mentira, deram à Ordem uma reputação de riqueza desmedida e cupidez desregrada, ainda por cima suspeita de se dedicar secretamente à usura e às manipulações duvidosas de moeda[20].

Para asseverar esse trabalho temporal dilatado por vários países e para efectivar a sua vocação militar estrita e severa, a Ordem do Templo detinha um considerável poder bélico. Formava um exército permanente de cerca de quinze mil cavaleiros, um número três vezes superior de irmãos sargentos e escudeiros, reforçados, na Terra Santa, por tropas de cavaleiros indígenas a soldo, os turcópulos, bem superiores, pela estrutura e pela disciplina, aos exércitos do tempo sujeitos a numerosos entraves feudo-vassálicos (serviço militar de quarenta dias, cavalgada, resgate, etc.) de que podiam dispor os soberanos e os barões, tudo apoiado numa vasta rede de casas e de castelos ligados entre si e sobretudo independentes do Estado sobre cujo território se estendia o sistema. Desligada de quaisquer laços de vassalagem, a Ordem só dependia, teoricamente, do Papado, porque “ninguém, excepto o Papa, tinha poder sobre eles”, o que levava o Templo a considerar-se intocável, como ilustra a frase, quase uma ameaça, lançada pela Ordem ao rei de Inglaterra, Henrique III: “Sereis rei enquanto fordes justo”! Esta potência económica e militar, justificada enquanto a Terra Santa tinha de ser defendida, diminuiu com o recuo da Ordem para a Europa, sobretudo em França, o seu principal lugar de implantação. Tornando-se um estado dentro do Estado, com uma missão claramente precisa, a Ordem mostrava-se ameaçadora no plano económico e militar aos olhos do rei e dos grandes barões, temendo pelos seus poderes temporais, mas também aos de uma grande parte do clero, invejosa de uma tal independência espiritual[21].

Na 2.ª Igreja, a Intermediária ou de Paulo, os Cavaleiros-Monges entregaram-se ao cultivo das artes e letras, combatendo o analfabetismo, ensinando cristãmente tanto ao povo como à nobreza e ao próprio clero, encaminhando-os, numa pretensão audaz, a uma nova formação pela informação decerto destinada a iniciação da Sociedade num novo e mais lato padrão de consciência e vivência, ou seja, a construir uma Sociedade Humana mais justa e perfeita.

Mas para que tal houvesse a Ordem recorria ao seu imenso poder diplomático, e aqui, mais uma vez, agia fora de todos os laços feudo-vassálicos, dependente apenas do Papa, na realidade dependente exclusivamente do Mestre e a quem o Papa se inclinava muitas vezes perante factos já consumados ou tomava sistematicamente o seu partido, como se deu com Inocêncio III (simpatizante declarado do Ideal Templário) e Honório III. Para mais, os seus embaixadores adiantavam-se aos dos príncipes eclesiásticos e seculares. Seguros da sua impunidade espiritual, da sua independência temporal e do seu poderio económico, os Templários tiveram a sua própria diplomacia: se por um lado ela se identificava aparentemente com a dos Estados Latinos e a do Papado, por outro não deixou frequentemente de mostrar tendência para se afastar delas, de maneira subtil e secreta, sempre com risco de contrariar a diplomacia oficial. De maneira que os resultados foram sempre desiguais, ora desastrosos, como aconteceu com Gérard de Ridefort, ora vitoriosos, como na batalha de Montgisard ou na retomada de Acre, juntando-se-lhes os muitos tratados com príncipes muçulmanos que instauraram períodos de paz, propícios à retomada das peregrinações e das relações económicas e culturais.

A diplomacia Templária foi multiforme e complexa, como não podia deixar de ser conforme as circunstâncias se apresentavam. Exerceu-se, primeiro, em proveito dos príncipes cristãos, a fim de aplanar os seus conflitos de interesses, nomeadamente os que opuseram os Condados de Tripoli e de Edessa, terminando muitas vezes em uniões matrimoniais, como o casamento de Amaury, irmão de Guy de Lusignan, apoiado pelo Templo, com a viúva de Conrado III. O peso junto do Papa permitia levar o Templo a favorecer este príncipe em detrimento daquele, considerado menos capaz ou menos favorável à política do momento, como demonstrou o caso de Frederico II, e a decidir convocar e organizar novas Cruzadas, como a 2.ª e sobretudo a 5.ª (pontificando Honório III) dirigida contra o Egipto, a fim de aliviar o torniquete que estrangulava a Palestina, no comando da qual foram postos senhores próximos da Ordem, Thibaut de Champagne e Philippe de Nanteuil.

A partir do final do século XII, graças à fraqueza crónica do poder real em Jerusalém, o Templo tornou-se o verdadeiro dono político e militar do Oriente latino: a sua preocupação constante, como tudo indica, foi a de manter a separação entre o Egipto famitida e a Síria aiúbida, enfraquecendo assim o mundo muçulmano, onde os conflitos eram duros, e por conseguinte consolidando aí os Estados Latinos.

Do mesmo modo, a Ordem preconizou a aliança com o Egipto, aliança que se consumou com a assinatura de um tratado de paz cujo artífice foi o Irmão Geoffroy, pela ajuda que os Francos trouxeram ao sultão Shawar, rompida quando o rei Amaury, sob a influência de Bizâncio oposta a Roma, atacou o Egipto, ataque ao qual o Templo recusou associar-se achando que Amaury agia por conta própria e não de qualquer autoridade legítima superior, como conta Guilherme de Tiro: “O Mestre do Templo e os outros Irmãos nunca quiseram intrometer-se nesta contenda […]. Bem pode ter sido por se aperceberem de que o rei não tinha razões para guerrear os egípcios contra as convenções a que se comprometera por seu juramento”.

Da mesma maneira, quando os Mongóis avançaram sobre o Próximo Oriente, o Templo preconizou uma aliança anti-muçulmana com eles e encetou conversações nesse sentido, que resultou em vão. Uma diplomacia muito pessoal, indiciando uma qualquer pretensão secreta ou só do seu conhecimento, levou a Ordem a tomar, por vezes, decisões unilaterais, próximas da insubordinação à cúria romana, concretizadas por trocas de terras com os infiéis, a assinatura de tratados ou de tréguas, nomeadamente com Saladino e os Assacis, sem disso informar os poderes oficiais, chegando mesmo a contrariar a palavra dada ou a comprometer uma aliança em que não fora interveniente, como exemplifica o massacre pelos Templários de uma embaixada ismaelita dos Assacis, munida de um salvo-conduto, ao regressar de uma entrevista com o rei Amaury de Lusignan. Sem passar pela mediação do Templo a Ordem dos Assacis, que até tinha boas relações com ele, havia proposto a Amaury uma aliança contra o sultão Nou el-Dîn em troca da sua dispensa dum tributo que o Templo lhe impusera, dupla proposta que ia contra os interesses políticos e económicos daquele. Donde a sua reacção brutal, certamente para mostrar a todos quem realmente mandava na Terra Santa, fossem fiéis ou infiéis, e que nada se poderia fazer sem a sua intervenção directa. Tratou-se do recurso à força armada para justificar um poder legítimo.

Tais casos foram numerosos, tanto da parte dos Templários como dos Muçulmanos, pois que as arbitrariedades devem ser repartidas equitativamente. Por vezes os soberanos europeus eram obrigados a fazer demonstração de autoridade a fim de trazer o Templo à razão, à sua política, é óbvio, como o demonstra a decisão do rei Luís IX de invalidar um tratado concluído pelo Mestre Renaud de Vichiers com os sultões de Damasco, que a seu ver, sem nada perceber de política ultramarina, comprometia a estabilidade dos Estados Latinos. A Ordem ganhou então fama de orgulhosa e de insubordinada.

Fortalezas do Templo na Síria e na Palestina

Fortalezas do Templo na Síria e na Palestina

No século XIII, o Poder Espiritual e Temporal do Templo é tal que se encontra no centro de uma rede complexa de alianças e amizades, tanto com os barões cristãos como com os príncipes do Islão, sendo frequentemente o garante de tratados ou tréguas celebradas entre eles. É nesta época que o Templo favorece o partido baronal e anti-imperial, opondo-se veementemente aos Hospitalários e Teutónicos favoráveis a Frederico II, cuja pretensão imperialista era inteiramente oposta a qualquer projecto de Sinarquia, como parece ter sido esta a política dos Templários. Estes não hesitaram igualmente a tomar partido em querelas puramente materiais e económicas, com risco aparente de comprometer a sobrevivência do Oriente latino, entre as cidades de Pisa, Veneza e Génova. Uma vez mais parece que apenas os interesses da Ordem, aparentemente declarados, realmente velados, e não os do “bem comum cristão”, foram tomados em conta.

No Ocidente a diplomacia do Templo não teve a mesma notoriedade que no Oriente, mas ainda assim foi muito grande. De maneira que muitos senhores ou mercadores usavam-no como testemunha nas transacções, os barões confiavam-lhe o cuidado de cobrar dívidas, letras de câmbio ou impostos. Os reis agiam da mesma maneira, a exemplo de Henrique II de Inglaterra e Luís VII de França que, quando assinaram um tratado de paz em 1160, pediram que três Templários servissem de testemunhas. Os papas utilizavam-nos como embaixadores extraordinários, a fim de manter ou restabelecer a paz entre os príncipes cristãos[22].

Na 3.ª Igreja, a Espiritual ou de João, havia o total apartamento da vida profana e a entrega inteira à vida monástica e sacerdotal, num amplexo espiritual procurando a unidade das várias correntes dispersas do Cristianismo e, inclusive, trazer o Oriente ao Ocidente, unindo aos dois hemisférios com subentendido de uma Conquista Templária ou Espiritual do Mundo, tomando como partida já não Jerusalém nem Roma mas Tomar, na Terra Santa de Porto-Graal, nesta fazendo aflorar o Centro Oculto e Primordial de Agharta, pelo que Ordem do Templo relacionada a esse mesmo Centro teve um secreto e duplo papel: como Ordem em si mesma expressava a acção de Agharta na face da Terra (Trabalho Horizontal), e como Agharta por si própria manifestava-se na Face da Terra pela Ordem do Templo (Trabalho Vertical), assim formando a Cruzeta Universal ou a mesma Cruz Templária, pátea ou expansiva, assim lhe assentando com justeza o epíteto de Pramantha. Fica, pois, muito bem o título de “Templários de Agharta” que Saint-Yves d’Alveydre deu aos mais distintos e raros da Ordem[23].

Cruz Templária

Como todo o mundo civilizado sabe, infeliz e desgraçadamente os planos maquiavélicos de Filipe o Belo, rei de França, e do seu capataz o papa Clemente V, deitaram por terra, interromperam criminosa e sanguinariamente o grande Plano Sinárquico do Templo e consequente restauração dos Mistérios Antigos sobre a Terra[24].

Ainda assim, Gérard de Sede[25] afirma que após a sua extinção a Ordem do Templo, o seu Espírito Tradicional continuou a ser prosseguido na Europa por Filipe o Bom, Duque de Borgonha, que instituiu em 1429 a Ordem do Tosão de Ouro, a qual “teve o desígnio secreto de restabelecer os laços iniciáticos entre o Ocidente e o Oriente, rompidos pela destruição da Ordem do Templo”, segundo René Alleau[26].

Pintural parietal (século XVI) do Silêncio e Segredo na Charola ou Rotunda do Convento de Cristo, Tomar

Pintural parietal (século XVI) do Silêncio e Segredo na Charola ou Rotunda do Convento de Cristo, Tomar

No dia da instituição da Ordem, na Catedral do Precioso Sangue em Bruges, na Bélgica, passeou-se entre os convivas “um carneiro vivo pintado de azul e com os chifres dourados a ouro fino”, emblemático do Agnus Castus, o Cordeiro Casto ou Imaculado, o mesmo Agnus Dei qui tollis pecata mundi. A Ordem chegou a ter 22 capítulos gerais antes de pôr fim à sua existência oficial, mesmo se mantendo até hoje a sua condição exclusivamente honorífica, tendo sido a Ordem de São João de Malta, antes Ordem dos Hospitalários e depois de Rodes, quem deu prossecução ao interrompido Plano Sinárquico do Templo[27].

Respeitante ao mais que controverso processo de extinção do Instituto dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, só na França (e em Navarra e Nápoles, países-satélites daquele) eles sofreram as perseguições, prisões, torturas e condenações à morte que o rei francês lhes impôs para escândalo de toda a Europa civilizada que tinha os Templários na maior das considerações. O próprio papa Clemente V, sentado na cadeira de Pedro por intervenção directa de Filipe IV que agia a seu bel-prazer e à margem das decisões pontifícias, se admirou com o tratamento cruel dado à Ordem e não deixou de expressar o seu protesto a Filipe em 17 de Outubro de 1307, colocando os Templários da Cúria sob a sua protecção:

“Haveis lançado as mãos sobre as pessoas e bens do Templo, indo ao ponto de as aprisionar. À aflição do encarceramento haveis juntado uma outra aflição sobre a qual, por pudor para com a Igreja e nós próprios, julgamos melhor manter o silêncio.”

Por sua parte, conforme as crónicas da época conservadas na Torre do Tombo de Lisboa, “El-Rei Diniz indignou-se vivamente no trato dado aos Tempreiros da Francia” e, ele próprio Cavaleiro Donato, Fiel de Amor e Trovador, literalmente ignorou as recomendações, mais parecendo exigências impostas pela soberba cega, assim contrariando o mais elementar da política diplomática, a um país soberano e independente, do rei de França que exigia em 1308, num documento em forma de bula, “o castigo severo aos culpados”. E logo após a abolição da Ordem pelo papa, D. Dinis apressou-se a converter essa na nova Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, constituída pelos antigos Templários portugueses e estrangeiros que entretanto aqui procuraram refúgio seguro, transferindo-se todos os bens móveis e imóveis da primeira para a segunda, sem que a Ordem do Hospital se apoderasse deles e sem que o rei de França os apropriasse como era seu intento, o que aliás o próprio papa denunciara. De maneira que D. Dinis, certamente o maior estratega político do tempo, assim fechou a boca a Roma capataz de sua dona, a França, e assim se mantiveram as boas relações diplomáticas com o estrangeiro, por um lado evitando-se a guerra e, por outro, a excomunhão, temida mais pelas consequências sócio-económicas que pelo acto religioso em si, pois que tornava a pessoa ou a nação proscrita da “comunhão da Igreja”, logo da Europa católica que assim lhe cerrava todas as portas políticas e económicas acelerando a sua decadência e ruína[28]. Muitos dos nossos reis foram excomungados da Igreja, é sabido, quase todos até D. João I, e alguns outros até D. João V, que também o foi, mas sobreviveram graças à autonomia do País e às grandes manobras diplomáticas que não raro levaram o papado a revogar, a recuar na sua decisão implacável.

Por outra parte, a excomunhão do ambiente Templário marginalizava o expulso da protecção e comunhão da Ordem, do seu direito, e todos os confrades passavam a evitá-lo, como se fosse um leproso maligno, um proscrito da Fé, da Lei de Deus incarnada no Templo, decisão cuja última palavra cabia sempre ao Mestre, e só depois ao Papa, ainda que raramente este fosse havido ou ouvido nas decisões exclusivas da Ordem. Havia, contudo, pelo exercício da caridade cristã para com o excomungado, a possibilidade de reconvertê-lo da desordem e ele regressar ao redil paterno da Confraternidade, assim reabilitado aos olhos compassivos de seus Irmãos, conforme se depreende do texto francês da Regra.

Clemente e Filipe foram os exemplos vivos da inversão, perversão e perda da noção do sentido verdadeiro das castas. O papa desceu do estado brahmane ou sacerdotal ao de kshatriya revoltado, de guerreiro tomando as armas políticas do seu poder para ilegitimamente legitimar o crime que bem podia ter evitado; e o rei decaiu na condição de vaishya vendido à ganância do dinheiro e à soberba de Filipe na pretensão imperial de Bellator Rex da Europa inteira, substituindo-se ao verdadeiro Bellator Rex ou “Rei Guerreiro” de Jerusalém e de todo o Oriente, assim pretendendo apoderar-se das riquezas do mundo conhecido, no que foi contrariado por Jacques de Molay, o imolado último Grão-Mestre Templário. Essa parelha imperialista de ingrata lembrança é, afinal, a personificação do Cesarismo Romano em oposição aberta repressora da Cristandade Iluminada, assumida na época pela Ordem dos Templários[29].

Filipe IV de França

Filipe IV de França

Realmente Filipe, o monarca francês, estava profundamente endividado com o Templo: em 1297 os Templários adiantaram-lhe 2.500 libras; um ano depois, mais 200.000 florins são-lhe emprestados; em 1300, novo empréstimo de 500.000 francos. Sem possibilidades de pagar, tentou o suborno pela sedução: primeiro, cerca de 1304, convidou o Mestre Jacques de Molay para padrinho de batismo do seu filho, por o considerar o mais “o mais justo e perfeito cristão”, convite que foi aceite, mas certamente já com a desconfiança do velho Templário, decerto lembrado das várias vezes que o rei procurou a protecção segura das muralhas Casa-Mãe do Templo em Paris, perseguido pelo povo revoltado farto da sua tirania, e também daquela vez que, em 1302, Filipe com o seu excessivo séquito se hospedaram no mesmo Templo em Paris (onde, aliás, o tesouro real francês estivera instalado, de 1190 a 1296, altura em que Filipe o transferiu para o seu Palácio do Louvre, esbanjando-o até à ruína) e, despudoradamente, em nove dias consumiram oitocentas e seis libras de pão e dois mil setecentos e sete litros de vinho[30]. Em segundo, solicitou a sua entrada na Ordem em 1305, a título honorário ou como donato, na esperança óbvia de a poder manipular por dentro e usufruir das suas imensas riquezas. Sujeitou-se a uma recusa peremptória…

Clemente V de Roma

Clemente V de Roma

Quanto a Clemente, o papa romano de nome Bertrand de Got, descendia da antiga e alta casa gasconha dos viscondes de Lomagne, terá manifestado interesse pelas ciências herméticas, especialmente a Alquimia em que buscou freneticamente a Pedra Filosofal, não como sinónima de Realização Espiritual mas de incalculáveis riquezas materiais, pretensão indigna do seu status religioso[31]. O seu carácter fraco e apagado, inconstante, ambicioso e sensual, egoísta, impediu-o de conquistar tão precioso Arcano que, repito, mais que do efeito da obtenção do Ouro tem a ver com a causa ou Thesaurus Majorem: a Iluminação interior, espiritual. Não terá passado de um vulgar assoprador… Contrastando o seu proceder com a divisa familiar, Par infimis, “Semelhante aos mais humildes”, vive à larga entre intrigas e deboches. Nunca se desloca sem a sua amante, Brunissende, descendente de Bernard Aton, visconde de Albi, esposa de Hélio, conde de Marche, “que lhe custa mais que a Terra Santa”, suspira resignado.

E resignado sujeitou-se à vontade expressa do rei de França e à sua imposição predeterminada no Sínodo Geral de Viena, aberto a 16 de Outubro de 1311, de antemão destinado a extinguir a Ordem do Templo a qual todos consideravam inocente e sabiam da ambição do rei, e quando se preparavam para enunciar isso mesmo, com a comitiva portuguesa a liderar o protesto mais que justo da inocência dos Templários, Filipe irrompeu com as suas tropas na cidade e sob coacção impôs a sua sentença aos bispos reunidos. Desse Sínodo mais que forjado, resultou o papa Clemente emitir a bula Vox Clamantis, para todo o sempre abolindo a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, em 23 de Abril de 1312. Embora reconhecendo que nenhuma prova de culpa permitia estabelecer a veracidade das acusações e que “os anteriores procedimentos (do rei de França, digo eu ante o óbvio) dirigidos contra a Ordem não permitem condená-la canonicamente”, ainda assim teve o ambíguo, sob a coacção armada de Filipe, de precisar mas sem condenar:

“Considerando a má reputação dos Templários, as suspeitas e acusações de que são objecto; considerando a maneira e a forma misteriosas como se é admitido na Ordem, a má e anti-cristã conduta de muitos dos seus membros; considerando sobretudo o juramento exigido a cada um de nada revelar sobre esta admissão […]; considerando, além disso, o perigo que correm a fé e as almas, bem como as horríveis perversidades de um grande número de membros da Ordem […], abolimos, não sem amargura e dor íntima, não em virtude de uma sentença jurídica, mas por modo de decisão ou ordenança apostólica, a supracitada Ordem dos Templários, com todas as suas instituições.”

Abolida a Ordem não por lei jurídica da Coroa mas por direito canónico da Igreja, Filipe o Belo aumentou a repressão sobre o Templo (cuja prisão em massa dos monges-cavaleiros em França tivera início na manhã de 13 de Outubro de 1307), ele que já antes desse Sínodo mandara queimar vivos 54 Irmãos em Paris, em 13 de Maio de 1310, apesar de em Março desse mesmo ano os Cavaleiros do Templo declararem ao Papa que “este processo foi súbito, iníquo, injusto; não foi senão violência atroz, intolerável engano. Muitos morreram nas prisões e nas torturas. Estas violências e tormentos tiraram-lhes completamente o livre arbítrio”.

Após o Sínodo de Viena e para que os bens do Templo não caíssem definitivamente nas mãos ambiciosas do rei Filipe, o papa Clemente teve o que sempre rareou nele: a coragem de emitir uma segunda bula, Ad providam Christi Vicarii, de 2 de Maio de 1312, atribuindo aos Hospitalários os bens dos Templários, excepto em Portugal e Espanha.

Isso deve ter enfurecido sobremaneira Filipe, que descarregou a sua fúria assassina no Grão-Mestre Jacques de Molay e seus três companheiros, Geoffroy de Charnay, Geoffroy de Gonneville e Hugues de Pairaud, presos do castelo de Chinon. Apesar de protestarem a sua inocência e a da Ordem, e não lhes tendo sido descoberta culpa alguma, ainda assim foram condenados como relapsos e entregues à autoridade secular, ou seja a de Filipe IV, e ante a visão da fogueira que os iria consumir Gonneville e Pairaud fraquejaram e confessaram publicamente a mentira da sua heresia, sendo a pena comutada em prisão perpétua, mas quem não fraquejou ante os indignos carrascos foram Molay e Charney, tendo protestado publicamente a sua inocência e a da Ordem, o que lhes valeu serem queimados vivos na Ilha dos Judeus, em Paris, a 18 de Março de 1314. Foi-lhes concedido um último favor: voltar o rosto para a catedral de Notre-Dame e à Mãe de Deus se encomendarem, em conformidade ao hábito templário de dizer no fim das orações da tarde “as completas de Nossa Senhora, visto que Nossa Senhora esteve na origem da nossa religião e para Ela e em sua honra será, se a Deus prouver, o fim das nossas vidas e o fim da nossa religião, quando Deus quiser que seja”.

Segundo a tradição, antes de morrerem os dois Templários exorcizaram o papa, o rei e o ministro deste, Guilherme de Nogaret (advogado do regicida que defendera o processo contra os Templários, servindo-se de mentiras e usuras, a começar por ter ludibriado Hugues de Pairaud, que em 1307 era Tesoureiro do Templo na Casa-Mãe de Paris, levando-o mentir acerca da Ordem e do Grão-Mestre com acusações fantásticas, o que depois desmentiu e reafirmou a inocência de tais imputações e a pureza cristã do Instituto, e que foi o começo do processo acusatório dos Cavaleiros de Cristo), convocando os dois primeiros para antes de um ano comparecerem no Tribunal de Deus. Assim aconteceu… morrendo o papa na noite de 19 para 20 de Abril de 1314, tomado de cólicas intestinais, e no mesmo ano, em 29 de Novembro, o rei acabava os seus dias em Fontainebleau, quando perseguia um javali que o fez cair do cavalo. Não tinha ainda 46 anos. O indigno Nogaret já havia morrido antes, em meados de Abril de 1313, mordido por um cão raivoso que lhe pegou o mal, acabando tresloucado e vomitando fel. Diz-se que oito dias antes do acidente se cruzara com um grupo de Templários que iam ser queimados e um deles, reconhecendo-o, gritou-lhe:

– Ministro indigno, medita nos efeitos das tuas mentiras e da tua injustiça! Não podemos convocar-te para compareceres perante o teu senhor, pois ele tornou-se, com o papa, o nosso pior inimigo; mas convocamos-te para compareceres, de hoje a oito dias, perante o Tribunal do Juiz dos vivos e dos mortos.

Morte de Filipe IV

Morte de Filipe IV

Sobre o que levou ao desfecho trágico da Ordem do Templo, ao êxito da ardidura de Filipe de França subjugando a vontade do papa que ajudara a eleger, Olímpio Gonçalves escreve com muita propriedade[32]:

“Duas ordens de razões convergiram para a queda da Milícia de Cristo, ambas de carácter cesarista: o cesarismo de Filipe, o Belo, e o cesarismo papal. O Papa havia lançado a Bula “Ausculta Filii” contra o Rei de França, exigindo a presença dos seus bispos em Roma e reclamando a sua defesa, por delegação, em caso de ausência pessoal. O Pontífice Bonifácio VIII sentia-se inquieto com a crescente autonomia canónica da França. Pretendia exercer um controlo exaustivo sobre os bispos gauleses, reformar o país, corrigir o Rei e garantir um governo submisso a Roma. Nos últimos tempos de seu pontificado ocorreu uma luta encarniçada tendo como protagonistas Bonifácio VIII e Filipe o Belo. A animosidade, intensa, advinha de um grande número de antigas disputas entre a Igreja e alguns Estados medievais. Não percamos de vista que os Papas dispunham, então, dum enorme poder material, corroborado por uma autoridade eclesial apoiada em poderosos instrumentos de intervenção, entre os quais o da excomunhão, terrível, quase mortal.

“Mas Bonifácio dispunha, em todos os reinos cristãos, de uma guarda imperial temível e rica, a dos nobres Cavaleiros da Ordem do Templo, reforçada pela Ordem Teutónica, não contando com a acção apostólica dos seus bispos, arcebispos e de uma legião de clérigos.

“Perante a exigência autocrática de Bonifácio, que indiciava uma humilhação sem limites aos olhos dos seus próprios súbditos, Filipe decide convocar os Estados Gerais e expor-lhes as pretensões abusivas do Papa. Os Estados Gerais apoiam o seu Rei, sem reservas. Estavam criadas as condições de sublevação contra o Papado e, infelizmente, as de desconfiança generalizada relativa à Ordem do Templo, vista como conivente com as intenções de Bonifácio.

“Filipe, um frio calculista, congemina a queda de Bonifácio VIII e a destruição do poderio Templário. A animosidade rancorosa advinha de um conjunto de circunstâncias:

“– A sua solicitação de ingresso na Milícia do Templo, a título honorário, e já concedida a outros soberanos, foi-lhe recusada. Os Cavaleiros terão desconfiado de que, nas intenções inconfessadas de Filipe, haveria a esperança de ocupar, um dia, o Grão-Mestrado, reduzindo-o à Coroa.

“– O seu ressentimento pelo facto dos Templários terem relutado no resgate do seu avô, São Luís, durante as Cruzadas.

“– Crivado de dívidas e grande devedor da banca templária, sentia-se incapaz de ombrear o tesouro real com as arcas do Templo. Este, era custodiado na Casa Mãe do Templo, em Paris, o que exacerbava o seu ressentimento.

“Quanto a Bonifácio, as razões deviam-se às manifestações de exibicionismo absolutista deste Papa, para além da humilhação infligida a Filipe convocando os bispos franceses para Roma:

“– O Papa arvorara, pela primeira vez, o TRI-REGNO ao cingir a Tiara, a Mitra das Três Coroas, símbolos dos Três Poderes.

“– Convoca-o discricionariamente pela Bula “Ausculta Filii”.

“– No dia da sua coroação, colocou às rédeas da sua montada os próprios Reis da Hungria e da Sicília.

“– O mesmo Bonifácio, aquando do seu jubileu, em 1300, apresentou-se revestido das insígnias imperiais, precedido de dois gládios desembainhados.

“Temos de convir, com algum assentimento, que Filipe IV, um cesarista, tenha perdido todo o respeito por um Papa que, para ele, não passava de um usurpador imperial. Filipe inicia suas maquinações astutas contra o Papa e contra os Templários. Em 7 de Setembro de 1303, envia o seu ministro Nogaret em missão secreta a Itália. Homem fanático e impiedoso, Nogaret recruta um pequeno exército privado e cai de surpresa sobre o Papa, quando este, tranquilo, se sentia seguro no reduto dos seus próprios domínios. É verdade que Bonifácio VIII havia já perdido muito do seu ímpeto, nada tinha de edificante, física e moralmente. Peter Partner (in “El Asesinato de los Magos”) comenta que uma referência da época dizia que o Papa nada mais era “do que olhos e língua num corpo putrefacto”. Mas os Templários estariam bem conscientes do grande embuste personificado por uma Igreja sem escrúpulos, indigna da entronização da Autoridade na Terra.

“Livre de Bonifácio, Filipe IV trama o cenário ideal para ultimar suas ambições. Assegura a aprovação romana e promove a eleição do arcebispo francês (de Bordéus) Bertrand de Got, coroando-o como Papa Clemente V, em Lyon, a 17 (antes, 14 de Novembro) de 1305. Este prócere de Filipe, para alcançar a Tiara, assinou um acordo prévio com o monarca, sob seis condições juradas. A última destas cláusulas manteve-se em sigilo, mas existem alusões que indiciam que se obrigava à destruição do Templo. Bertrand submete-se às exigências de Filipe e converte-se num instrumento político da monarquia francesa. A Autoridade cede ao Poder. Como acto de gratidão o Papa nomeia 12 cardeais franceses, lídimos títeres de Filipe o Belo.

“A destruição do Templo não se afigurava uma empresa nada fácil. Seu poder militar assentava em dezenas de milhares de lanças no activo, não contando com os Infantes e Cavaleiros nobres, prontos a suprir com as suas próprias armas e homens a Milícia. Dividida em nove mil Comendadorias (outro número significativo) distribuídas por nove Províncias, uma das quais Portugal, dispunham de uma riqueza imensa. Em todas as Cortes, a sua primazia representativa sobrelevava a das cabeças coroadas. Ninguém, excluindo o Papa, podia intervir ou controlá-los. Estavam isentos dos direitos de transmissão, de derrama, de dízimo, de portagens. A Comendadoria de Paris, sede da Milícia, repleta de magníficos edifícios, funcionava como uma espécie de super capital, uma Cidade-Mãe, mais própria de um Império europeu. Este Império virtual estendia-se das costas da Mancha e do Atlântico aos Pirinéus e a todo o Ocidente, da Irlanda à Grécia. Banqueiros, soldados, navegadores, políticos, construtores, administradores, sábios e diplomatas, detentores dos mistérios gnósticos, heréticos e da tradição imorredoura sinárquica abraçaram um sonho que os guiou por mais de 200 anos.

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“Internamente, e até onde os limites conjunturais o permitiam, procuraram conformar sua complexa estrutura segundo os ditames da Tradição. A Ordem dispunha de quatro níveis: em primeiro lugar, os Cavaleiros (frates milites), obrigatoriamente de ascendência nobre; em segundo os Capelães (frates capellani); depois, os Escudeiros (frates servientes armigeri); por fim, os servientes famuli et officii, ou seja, os domésticos e os artesãos. No topo da hierarquia, oficiava o Mestre do Templo de Jerusalém, como Grão-Mestre.

“Embora o poder do Grão-Mestre fosse soberano, não o exercia de forma absoluta. Quase sempre as suas decisões tinham força de lei, mas certas prescrições podiam cerceá-las. A investidura de um novo Irmão obrigava-o à consulta do Capítulo, que congregava os grandes Comendadores das Províncias e a cujo voto maioritário teria de se inclinar. A eleição do     Grão-Mestre dependia exclusivamente dos Cavaleiros, por determinação da Bula “Omne datum optimum”, de 1163, ainda que por procedimentos complexos. O Poder do Grão-Mestre era compartilhado por quatro dignatários assessores, entre os quais, um Senescal e um Marechal.

“A Autoridade, porém, sempre foi praticada a coberto do mais inviolável sigilo por um Grão-Mestre Oculto. Conspícuos investigadores e historiadores isentos admitem-no frequentemente. No seio institucional da Ordem, o Postulado doutrinário e dicotómico Autoridade-Poder foi restaurado. Desde a criação até ao seu termo, 22 (outro número significativo) Grão-Mestres administraram a Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão. Treze deram a vida pelo ideal do Templo. Quantos teriam sido os Soberanos Grão-Mestres Ocultos? Provavelmente jamais o saberemos.

“Conquanto triunfantes, os Templários constituíram sempre uma corporação estranha e fracturante para a mundividência dos feudos e Reinos da Idade Média europeia, suscitando estados de constrangimento e de receio que vieram a culminar na sua ruptura impiedosa pela acção de um Rei cesarista. Tal como todas as Sinarquias se corromperam face à subversão sistemática cesarista, o ideal secreto dos Cavaleiros do Templo foi derrubado pelo golpe conjugado, mortífero, dum duplo intento cesarista, o do Papado e o da Realeza. Bonifácio excede-se no exercício de um Poder discricionário, quando, como Vigário de Cristo, devia restringir-se ao múnus da sua Autoridade. Filipe, o Belo, rebela-se contra o Pontificado e submete Inocêncio aos seus interesses temporais e políticos. Isto é, apodera-se, por interposta pessoa, do atributo da Autoridade. Filipe e Bertrand de Got foram cúmplices de um dos maiores crimes registados na História.”

Assim terminou oficialmente a Ordem do Templo, pois o seu chefe supremo a que devia obediência, ou seja, o Papa, a aboliu por ordenança apostólica. Sendo um Instituto católico, sem dúvida só poderá ser o Papa a anular a abolição e fazê-la reviver. Até hoje isso não aconteceu… e ela permanece no sono da memória, a despeito de quem hoje faz do sono sonho e da memória quimera dando forma a quantos templismos hajam, assim mesmo todos à margem da legitimidade canónica assegurada pela sucessão apostólica em que se firma o trono e vicariato de Pedro.

NOTAS

[1] Cf. Mário Simões Dias, Os Templários em Terras de Portugal. Edição do Autor, Coimbra, 1999. E também Ailbe Luddy, Bernardo de Claraval. Editorial Aster, Lisboa, 1959.

[2] Roberto Lucíola, O Graal e as Pedras Sagradas. Revista “Aquarius”, n.º 8, Ano 2, Outubro-Novembro-Dezembro, Rio de Janeiro, 1976.

[3] Henrique José de Souza, Símbolos e Brasões. Revista “Dhâranâ”, n.º 111, 1942, S. Paulo, Brasil.

[4] Roberto Lucíola, Marcha das Civilizações. Revista “Aquarius”, n.º 24, Ano 7, Janeiro a Junho, 1981. Cf. O Livro de Jasher (Um dos Livros Sagrados da Bíblia), na versão de Alcuíno. Editora Renes, Rio de Janeiro, 1980.

[5] Cf. Rafael Alarcón H., A la sombra de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1986. Cf. também O Livro de Enoch, Editorial Minerva, Lisboa, Fevereiro de 1976.

[6] Cf. João Aníbal Henriques, História Rural Cascalense. Edição da Junta de Freguesia de Cascais, 1997.

[7] Gèrard de Sede, Os Templários estão entre nós. Colecção Mitos, Estúdio Cor, Lisboa, 1974.

[8] Acerca da Nazaré e do sítio de S. Gião, tive oportunidade de responder, em carta datada de 9.3.1999, à questão colocada por um meu correspondente e valoroso amigo da Marinha Grande, já com larga colheita literária editada, senhor Hermínio Freitas Nunes: – Há diversos Finis Terrae, com o Mar dos Mortos ou dos Mistérios adiante: Sagres, Espichel, Roca, Carvoeiro, Corunha, etc., onde assentaram primitivas culturas e respectivas civilizações: Celtas, Celtíberos, Judeus, Árabes, Moçárabes, Cristãos, estes impulsionando a expansão geo-sócio-económica do Estado Hispânico sob a égide da Cruz, como os Árabes o fizeram sob a égide do Crescente, os Judeus da Torah e os Celtas do Megalitismo. O Cristianismo deu forma à cultura Arábica, e ambos herdaram a Lei religiosa e laica dos descendentes de Abraão, Isaque e Ismael. Assim se formou o Portugal Hispânico, à beira dos Mares dos Mistérios com os Finis Terrae debruando-os.

Sam Giam, Gião ou Julião, designado conforme a antiguidade ortográfica dos documentos, cujo eremitério (casa de eremita), depois capela (ou seja, com direito a capelão) e finalmente igreja (com direito a pároco) da sua evocação, sita perto da Nazaré, possivelmente será essa referida por Frei António Brandão na Monarquia Lusitana, Livro XII, página 32.

Tanto mais que a primitiva e visigótica narrativa mista de lendária e historiográfica da Virgem da Nazaré, anda ligada a odisseias apostólicas onde comparticipa o neo-platónico Santo Agostinho. Em Nazaré da Galileia a imagem votiva da Senhora, que a lenda diz ter sido feita pelo próprio Apóstolo S. Lucas, passaria das mãos do monge grego Ciríaco para as de S. Jerónimo. Esta mandou-a a Santo Agostinho que a recambiou para o Mosteiro dos Agostinhos de Cauliniana, perto de Mérida. Com as perseguições árabes aos cristãos, D. Romano, abade desse mosteiro, juntamente com o destronado rei visigodo da Galiza, D. Rodrigo, na sua fuga tomaram o rumo do Oeste e só pararam à vista do mar, nas cercanias da Nazaré, onde hoje é a Pederneira – Valado de Frades. Certamente buscaram refúgio na comunidade Agostinha de São Gião Hospitalar, em cuja igreja visigótica (datada do século VII) viriam a depositar a imagem da Virgem Negra da Nazaré.

Com o avanço das perseguições árabes, D. Rodrigo terá sacado daí a hipertúlica imagem e a escondido dentro dum cofre numa gruta do Monte Siano (ou Sião), onde mais tarde aconteceria o episódio milagroso do Caçador Santo D. Fuas Roupinho, almirante-mor da frota marítima Templária e donatário ou senhor de Óbidos. Após esconder a santa imagem votiva, já morto o abade D. Romano, o ex-rei abandonou o lugar e rumou para Viseu onde encontrou a morte e onde foi enterrado, na igreja de S. Miguel.

Creio mesmo que a evocação dos agafados (leprosos) a Sam Giam é posterior ao século X, pois antes seria a St.ª Maria de Nazareth, da Galileia, que deu nome a este sítio, e ao Padre St.º Agostinho, um dos 4 Doutores da Igreja. A necessidade da evocação nasceria das surtidas de lepra negra que assolava a região por causa do centeio (com que se fazia o pão) contaminado pelo salitre e os insectos povoando a zona pantanosa, indo buscar refúgio sobre-humano em S. Julião Hospitalar, assim elevado a Orago novo dessa igreja paroquial. Esta seria abandonada no reinado de D. Sancho I (inícios do século XIII) por ocasião de nova epidemia de lepra maligna, isto é, “peste negra”, por deixar os corpos enegrecidos, em putrefacção ainda vivos, contaminando de imediato outros.

Abandonado o templo passou-se a paróquia para o novo sítio da Nazaré, mantendo os Agostinhos Valado de Frades, com os Templários por detrás desde 14 de Setembro de 1182, data da lenda Graalística do Cavaleiro Templário perseguindo um veado que se atirou no abismo, quase seguido do cavalo de D. Fuas Roupinho que estancou subitamente à beira do precipício quando o cavaleiro clamou o socorro da Mãe de Deus. No sítio do ocorrido levantou-se depois a pequena ermida da “Memória”, próxima da igreja paroquial da Virgem de Nazaré.

O próprio veado da lenda Templária não deixa de ser o cristianizado unicórnio, animal mítico carregado de simbolismo cristóforo com isso se ligando etimologicamente a Júlio (ão é um aglutinativo semântico judaico), proveniente do latim Iulis que o recolheu do grego Iliós, variante de Élios, designativo de “Filho do Altíssimo”, aqui o Cristo à direita do Pai Eterno. Assim, parece que a dinâmica do encontro mítico de D. Fuas com o Cristo aconteceu com a intercessão da Santa Virgem Maria, tipomorfização do Divino Espírito Santo. Houve, pois, uma Iniciação Cavaleiresca, Kshatriya, também chamada antanho de Iniciação Mariana.

[9] Jorge Ramos, O que é a Maçonaria. Editorial Minerva, Lisboa, 1975.

[10] Salmo 115, 1, “O Deus Único Verdadeiro”: – Não a nós Senhor, não a nós, mas ao Vosso nome dai glória, pela Vossa bondade e fidelidade!

[11] Cf. Sepher-Ha-Zohar. Editora Renes, Rio de Janeiro, 1977.

[12] Jean Tourniac, Melquisedeque ou a Tradição Primordial. Madras Editora Ltda., S. Paulo, 2002.

[13] D. Henrique de Borgonha era sobrinho do abade Hugo de Cluny. Cf. Pierre David, Études Historiques sur la Galice et le Portugal. Instituto de Estudos Históricos “Dr. António Vasconcelos”, Coimbra, 1947.

[14] Olímpio Gonçalves, Os Templários e a Sinarquia. Texto inserto no Caderno “Graal”, s/d, e adaptado de palestra proferida pelo autor em Sintra no dia 7 de Maio de 2005.

[15] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010. E do mesmo autor, Lisboa Secreta (Capital do Quinto Império). Via Occidentalis Editora Lda., 1.ª edição Abril de 2007, Lisboa.

[16] Cf. Manuel J. Gandra, O Projecto Templário e o Evangelho Português. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda., 1.ª edição Março de 2006, Lisboa.

[17] Comunidade Teúrgica Portuguesa, Os Portais Celestes – I, apostila n.º 30-A, Grau Munindra (Modelador) ou Série Integração.

[18] Cf. Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal. Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986.

[19] Maurice Guinguand e Beatrice Lanne, O Ouro dos Templários (Gisors ou Tomar?), cap. 9, pp. 71-72. Livraria Bertrand, Lisboa, 1977.

[20] Bernard Marillier, Templários. Hugin Editores, Lda., Lisboa, Novembro de 1998.

[21] Bernard Marillier, ob. cit.

[22] Bernard Marillier, ob. cit.

[23] Saint-Yves D´Alveydre, La Misión de la India en Europa (La Misión de Europa en Asia). Luis Cárcamo, Editor, Madrid, 1988.

[24] Fernando Pessoa, em seu Tratado Ordem do Subsolo, nos textos coligidos pelo prof. António Quadros (Obra em Prosa de Fernando Pessoa, volume À Procura da Verdade Oculta, editado pela Europa-América) e pela dr.ª Yvette Centeno (Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética, Editorial Presença), diz: “Nas doutrinas secretas dos Templários estão os quatro segredos, que os haviam de ser depois da Maçonaria, assim como de todas as Ordens. O primeiro, contido nas cores branca e negra da Bandeira dos Templários, e nos signos Virgem e Escorpião do Zodíaco, é o chamado segredo do Grau de Mestre [Virgo et Scorpius = Pai e Filho, Divino e Terreno. – Nota V.M.A.]. O segundo, contido na Cruz vermelha, é o da Encarnação de Cristo, e é a chave não só de toda a religião cristã, senão também da sua verdadeira origem histórica, por trás das alegorias evangélicas. O terceiro, contido na colocação da Cruz, à esquerda, sobre o ombro, é a chave da Ordem, e portanto de todas as Ordens. O quarto, contido nos três Graus, com que a Ordem é formada, é a chave do Governo Secreto do Mundo; também é conhecido por o Segredo da Cavalaria”.

[25] Gérard de Sede, ob. cit.

[26] René Alleau, Da Natureza dos Símbolos, p. 103. Paris, 1958.

[27] Baron Reinffenberg, História da Ordem do Tosão de Ouro. Bruxelas, 1840. Elena Postigo Castellanos, El Segundo Jasón. Los Habsburgo y la imagen mítica del Maestrazgo del Toisón de Oro. In As Ordens Militares e as Ordens de Cavalaria na Construção do Mundo Ocidental – Actas do IV Encontro sobre Ordens Militares, Lisboa, Edições Colibri / Câmara Municipal de Palmela, 2005, pp. 715-767.

[28] Stephen Howarth, Os Cavaleiros Templários. Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1982.

[29] Fernando Pessoa, no Tratado Ordem do Subsolo, afirma: “O suplício físico de Jacques de Molay, impotente para produzir nenhum resultado mais que o baixamente material, desencadeou sobre a Igreja as forças mágicas que essa acção material era incompetente para dominar, servindo só para as desencadear. E o pior foi que o processo de imolação fosse pelo Fogo, isto é, pelo Elemento da Ordem. Assim, para falar um pouco obscuramente, o que era Adepto Exempto, em vez de passar a Mestre de Templo, foi erguido a Mago, e, apto a pronunciar a Palavra da Era, pronunciou-a como Irmão Negro e contra a Igreja. Toda a civilização moderna, desde a Reforma aos nossos tempos, no que é oposição à Igreja e conspurcação dela e dos seus princípios, é a vingança encarnada de Jacques de Molay. A fogueira em que foi queimado o Grão-Mestre dos Templários foi o lume que ateou o incêndio em que hoje todos ardemos”.

[30] Henri de Curzon, La Maison du Temple de Paris. Paris, 1888.

[31] Cf. Gérard de Sede, ob. cit.

[32] Olímpio Gonçalves, ob. cit.

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