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Sempre que visito a Quinta da Regaleira de Sintra e desfilo o olhar pela galeria dos reis na antiga sala do bilhar do palácio, a atenção demora-se sobretudo no retrato de D. Afonso V pintado por António Francisco Baeta (Ferreira do Zêzere, 3.5.1861 – Lisboa, 11.3.1918), de acordo com o programa pátrio delineado pelo Dr. António Augusto Carvalho Monteiro ajudado por Luigi Manini. Isso pelo motivo de saber que esse monarca privou de perto com a Arte Real, inclusive tendo escrito um tratado sobre a Pedra Filosofal. Custa-me a acreditar que o Dr. Carvalho Monteiro, cultíssimo bibliógrafo como era, desconhecesse inteiramente o facto, assim como o de inúmeros autores portugueses que escreveram e praticaram a Alquimia, ademais estando esta sua quinta recheada com motivos simbólicos afins ao tema que, afinal, serve de base à mitologia nacional cuja cabeça é a própria origem mítica da Monarquia Lusitana sagrada por Cristo crúzio aparecido a D. Afonso Henriques, pouco antes da Batalha de Ourique (25.7.1139).

Essa declarada Monarquia do Divino Espírito Santo, onde a sucessão filial e a transmissão espiritual correu até D. Sebastião, teve a apoiá-la os maiores paradigmas do pensamento português e europeu de que a neose ou simbólica alquímica foi princípio indispensável para assegurar as teses dos vários autores todas correndo na mesma direcção.

Tal como o Dr. Carvalho Monteiro foi um cultor das letras nacionais e da noção sebástica dispondo Portugal na primazia do Mundo, também já antes D. Afonso V (n. Sintra, 15.1.1432 – m. Sintra, 28.4.1481) foi um monarca cultíssimo e cultor do ideal messiânico dispondo a Península Ibérica à cabeça de todo o Globo habitável. Sobrinho do Infante Henrique de Sagres, juntamente com este e o seu conselheiro pessoal, Isaac Abarnavel, rabi-mor da comunidade judaica ibérica, dentre outras funções em que se incluíam os exercícios da Alquimia e da Cabala, veio a compor a primeira biblioteca pública de livros impressos do mundo: a Livraria Real de D. Afonso V[1]. Grande estudioso de Música, Astrologia, Alquimia e Cabala, esta na sua vertente gemátrica ou da transposição das letras e números que aplicou à exegese bíblica onde, por cálculos cronológicos, procurou justificar um milenarismo epilogístico[2]. Nisto transborda a sua preocupação em ligar a Alquimia e a Cabala (artes herméticas onde se iniciou possivelmente através da pessoa do seu próprio almoxarife e conselheiro indefectível, Isaac Abarnavel) com a Astrologia judiciária (que terá aprendido junto do astrólogo judeu Mestre Guedelha, o qual assistiu à sua entronização e foi o responsável pela escolha da hora propícia à transmissão dos poderes, até então delegados no regente D. Pedro). Promotor do expansionismo ultramarino, assegurando a separação da Autoridade Espiritual do Poder Temporal, como lhe aconselhou o seu tio Infante D. Henrique, esboçava-se no feitio singular dessa promoção o conceito de Sinarquia ou Concórdia Universal da Humanidade, o que ia bem com a sua natureza afim ao ideal de Cavalaria Espiritual cujo ideal supremo, sempre perseguido, era o mesmo dos antigos Cavaleiros da Távola Redonda e a demanda do Santo Graal[3], motivação igualmente animando antes o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira[4]. Dizem certas tradições em voz miúda mas não tímida que D. Afonso V, além das suas relações com as Ordens do Tosão de Ouro, de São Jorge da Jarreteira e a de Nosso Senhor Jesus Cristo (cujo Mestrado fora-lhe concedido em 1461 por breve do Papa Pio II, Dum Tuam), teria sido iniciado secretamente por um misterioso Sábio egípcio, copta ou talvez só judeu – afiliado a secreta Confraria União dos Mestres Turcos ou Africanos – que lhe terá ensinado os segredos da transmutação dos metais, e com eles terá conseguido fabricar a Pedra Filosofal.

A conquista hermética do ouro alquímico era, para o Adepto da Arte Real, a prova suprema, a prova do fogo em que eram testados todos os seus valores intelectuais. Se triunfava, tornava-se um Sábio, um Mestre onde as suas riquezas humanas cresciam a par das riquezas espirituais, possuindo ambas sem que fosse possível ser possuído pelas primeiras, por desposse interior ou consciência integrada em Deus, Senhor de todas as coisas, tanto ínfimas como ricas. Pelo contrário, se era vencido fazia-se pobre e ignorante, tanto em matéria como em espírito, indo passar ao error e à errância.

De maneira que o cognome deste rei, “Africano”, não se deverá exclusivamente às surtidas constantes que fez contra África, mas igualmente a ter sido em ou por África que recebeu a luz da iniciação hermética que o tornaria Rei Encoberto, assim mesmo aclamado pelo Messianismo hispânico, antecessor do Sebastianismo português, como está descrito na Cronica Incompleta de los Reis Católicos. Essa luz hermética não deixou de revelá-la publicamente como promotor do culto popular ao Divino Espírito Santo – e a Alquimia é Arte de Espírito Santo, sendo Santa Maria a sua Padroeira – escolhendo Sintra como centro da sua difusão, e tal como a Rainha Santa Isabel também ele era franciscano de afeição com cujo hábito deu o último suspiro[5].

A ter sido Adepto hermético o cognome “Africano” vir-lhe-ia ocultamente daí, ainda que abertamente viesse das suas expedições militares do Algarve a África, propriamente a partir de Lagos onde procurei os sinais da sua presença e pressuposta filiação hermética. Vários indícios documentais revelam D. Afonso V partilhando do ideal da antiga Ordem do Templo, na época assumido pela Ordem de Cristo a quem entregou, em 1454, através do seu tio, o Infante Henrique de Sagres, a administração espiritual e jurídica de todas as terras conquistadas, direitos posteriormente confirmados (6 de Janeiro de 1455) na bula Romanus Pontifex, do Papa Nicolau V. De visão larga, o rei português cooperava abertamente na expansão de Portugal e da Portugalidade, em termos actuais, parecendo visar a fundação da Sinarquia ao pretender unir os hemisférios do Oriente e do Ocidente, começando pelo continente africano e dilatando a “toda a plaga meridional até aos Indos”, conforme a nova bula de 13 de Março de 1456, Inter Caetara do Papa Calixto III feita a pedido do rei português, que reconfirmava os direitos absolutos territoriais concedidos à Ordem de Cristo. Mas ele não ficou por aí: satisfazendo a solicitação da Escola Náutica do Infante D. Henrique, D. Afonso V mandou fazer em Veneza, em 1457, o célebre Mapa-múndi de Frei Mauro. Ainda nesse mesmo ano, o monarca, devoto da Vera Cruz Lusitana cuja tradição iniciara com o milagre cristológico de Ourique, autorizou a cunhagem no reino de uma nova moeda, quase de ouro puro (3,58 g de peso), o cruzado.

Em Outubro de 1458, D. Afonso V encontrava-se em Lagos, de onde partiu chefiando a esquadra portuguesa que iria conquistar Alcácer Ceguer, no Norte de África. Posteriormente, em 18 de Agosto de 1471, partiria ainda desta mesma cidade algarvia chefiando nova esquadra rumo a Marrocos, indo conquistar Arzila em 28 do mesmo mês. Ainda em 1471, após a ocupação da praça de Tânger pelos portugueses, o monarca foi intitulado “D. Afonso, por graça de Deus, rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar em África”[6].

Realmente, foi a partir de Lagos que as pretensões expansionistas de D. Afonso V se efectivaram. Ele também militou na Confraria do Espírito Santo, vulgarmente conhecida por Companhia do Compromisso de Lagos, fundada nesta cidade em 1444 por Lançarote Pessanha, escudeiro do Infante D. Henrique, a qual foi o modelo e motor da Escola Náutica do mesmo ínclito Navegador, que recebeu do seu tio a oferta de navetas litúrgicas em prata, com formato de caravelas, para serem utilizadas no ofícios sagrados na capela de Nossa Senhora da Guadalupe, vizinha de Sagres, as quais estão hoje expostas no museu paroquial da igreja de Vila do Bispo.

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Outro indício mostrando a possibilidade da ligação de D. Afonso V à Alquimia está no seu próprio emblema e divisa, atribuídas por alguns à sua viuvez chorosa de D. Isabel, em 2 de Dezembro de 1455, como pretendeu, por exemplo, Raul Proença[7]. Em contraposição, a sua leitura hermética assinala serem mais que os motivos da saudade do amor partido: o emblema consta de um rodízio espargindo lágrimas, e a divisa jamais, como se vêem nas gravações no seu túmulo no panteão real do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha, e na abóbada da Sé de Viseu, que ele mandou restaurar, como também na Crónica de D. Afonso V do supracitado Ruy de Pina, e nas Tapeçarias de Arzila.

A divisa jamais, “nunca”, terá sido adoptada pelo monarca pouco depois da sua visita à corte de Luís XI de França (1476), pelo que a sua origem será francesa: jamais. Esta palavra, complicada em charada no seu túmulo na Batalha, acerca-se fonética e filologicamente de uma outra também francesa: j´aim, “eu amo”.

Por sua vez, o rodízio (pertencente à iconografia alquímica da chamada Via Húmida ou dos Navegadores, em francês Nautonniers, que é uma Via Andrógina ou onde o homem e a mulher assistem juntos à Grande Obra, ela para a barca e ele para o timoneiro, ou seja, o forno e o fogo, ou ainda, a naveta e o incenso) é chamado pelos hermetistas de fogo de roda. Isto é, o fogo alimentado constante e igual, que o filósofo-artista mantém dia e noite no decurso da operação necessária à cocção da matéria filosófica, é por esta razão chamado fogo de roda. No entanto, além do calor necessário à liquefacção dessa matéria é preciso ainda um segundo agente, chamado fogo secreto ou filosófico. É este fogo, estimulado pelo calor vulgar, que faz girar a roda. Fulcanelli[8] cita o resumo de um texto alquímico do século XVII, O Tratado da Harmonia e Constituição Geral do Verdadeiro Sal, de De Nuysement, mostrando que o significado simbólico da roda é, como nos textos bíblicos, o do veículo de manifestação indo e vindo entre o Céu e a Terra, unindo o espiritual e o material: “Observe somente os rastos de minha roda, / E, para dar por toda a parte um calor igual, / Não suba nem desça muito para o Céu e para a Terra”.

As lágrimas espargidas pelo rodízio associam-se ao simbolismo deste. Na mitologia helénica elas são frequentemente comparadas a gotas de âmbar, como sucede no episódio das lágrimas das Meleágrides e das Helíades, filhas do Sol, transformarem-se em gotas de âmbar. Dionísio, o Aeropagita, explica que o âmbar é atribuído às essências celestes, porque “reunindo em si as formas do ouro e da prata simboliza, a um só tempo, a pureza incorruptível, inesgotável, indefectível e intangível que é própria do ouro, e o resplendor luminoso, brilhante e celeste que é próprio da prata”[9].

Portanto, o rodízio espargindo lágrimas representa as virtudes do Sol e da Lua, do ouro e da prata que o operador encarrega-se de dirigir como veículo da manifestação do Divino Espírito Santo, cuja Alquimia opera-se regeneradora pelo processo natural dos ciclos planetários. Assim, é à Grande Obra de Deus que em sua humanidade D. Afonso V dirige a sua divisa, de leitura criptográfica em que se vela o j´aim, “eu amo”, e jamais outra força ou presença que não a do Altíssimo Deus Vivo, Único e Verdadeiro, que o terá feito senhor do mais hermético e ainda mais precioso tesouro: o da realização espiritual, a par da humana.

Esse rodízio no emblema real aparece como roda de indústria (simbólica do progresso) cercada pelo cordão monástico, fazendo as vezes das lágrimas, no convento franciscano de Varatojo, que recebeu a primeira pedra de fundação em Fevereiro de 1470 lançada pelo próprio D. Afonso V.

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De modo que não faltam indícios e razões iconográficas e bibliográficas para considerar D. Afonso V, o rei sintrão, um verdadeiro iniciado no Hermetismo, mesmo que encoberto, e um desvelado grande cultor das Artes e Letras, nestas não se devendo esquecer os dois tratados, um militar e outro de astrologia, que escreveu: Tratado de milícia, conforme o costume de batalhar dos antigos portugueses, e o Discurso em que se mostra que a constelação chamada Leão celeste, constava de vinte e nove estrelas, e a maior de duas, títulos citados no livro do conde de Sabugosa, O Paço de Sintra, editado em Lisboa em 1903 com dedicatória à rainha D. Amélia, posteriormente reeditado pela Câmara Municipal de Sintra (1989-1990).

Além desses títulos, terá escrito com o seu próprio punho um tratado sobre Alquimia dividido em duas partes, a primeira do Lapis Filosófico, e a segunda da Separação dos Quatro Elementos. Esse tratado terá sido furtado do seu gabinete – talvez o de Varatojo, cuja janela ainda tem gravadas as suas Armas – e depois traduzido da língua portuguesa para a inglesa. De maneira que, séculos depois (1652), essa obra aparece em Londres para ser vendida à porta de certa igreja como literatura de cordel, sobre o que informa Manuel J. Gandra, inclusive apresentando a fotografia do frontispício da mesma[10]: “Em 1652 (aliás, 1651), um mecenas que assina H. P. patrocinou a impressão por Thomas Harper, na cidade de Londres, dos Five Treatises of the Philosophers Stone apontando-se como autor para dois deles um “Alphonso, King of Portugal”, quase garantidamente D. Afonso V, o Africano. São apenas conhecidos dois exemplares desta autêntica raridade bibliográfica: um na British Library e outro na Glasgow University Library, originário da Biblioteca do Professor Ferguson [Ferguson Collection: Ag-e. 22]. Por sugestão do subscritor, este seria exibido no núcleo do MNAA (Catálogo, vol. 1, n. 69) da 17ª Exposição Europeia de Arte Ciência e Cultura do Conselho da Europa (Lisboa, 1983)”.

Tratado

Tratado escrito por Alphonso, Rei de Portugal, a respeito da Pedra Filosofal.

Impresso em Londres por Thomas Harper, para ser vendido por John Collins em Little Brittain, junto da porta da Igreja, 1652.

Mas a odisseia rocambolesca desse pequeno tratado alquímico do rei português não ficou por aí. Alguns viajantes espanhóis que passaram junto dessa igreja britânica, viram o livro e adquiriram-no (comprando um ou mais exemplares) levando-o para a sua pátria, depois tendo-o traduzido para a língua castelhano em forma de doze oitava não cifradas, como consta no exemplar depositado na Biblioteca Nacional de Madrid. Certamente, para agravar mais ainda, houve após e por diversas entidades diversas cópias sobre cópias e adaptações sobre adaptações do texto original, já assim alterado pelas traduções, inglesa e espanhola, visto haver severas dissemelhanças nas cópias do mesmo tratado no códice de Sevilha, no manuscrito de Alicante (cópia de Palomares) e no manuscrito da Biblioteca Nacional de Madrid.

O texto original não está em oitavas, mas D. José Ramón de Luanco[11] publicou-o com um introito que não vem na versão inglesa e, por razões inimagináveis, atribuiu o tratado ao rei Afonso X (apesar de não existir a mínima referência a este documento nas suas Crónicas), com o título: El Thesoro del Rey Don Alonso X (lamado el sábio).

Apesar da sua empatia e pressuposto exercício da Alquimia, são inúmeras as dúvidas quanto a Afonso X ter escrito algum Libro del Tesoro, dúvidas iguais quanto a este tio-avô do nosso rei D. Dinis ter escrito a Clavis Sapientiae, não se sabendo com que fundamento, pois na mesma perpassa a influência judaico-islâmica que caracterizou o estilo doutoral do judeu árabe português Abraão Zacuto, conselheiro e astrólogo de D. Manuel I de Portugal (século XVI), que inclusive recebeu desse sábio a inspiração da adopção da sua signa pessoal, a esfera armilar, que é o primitivo símbolo de Hermes Trismegisto.

Deve-se, sim, a Afonso X um monumento astronómico: as Tábuas que tomaram o seu nome, tendo sido utilizadas universalmente até ao começo do século XVI, ou seja, por três séculos, pois datam de 30 de Maio de 1252, dia da sua entronização. Estas Tábuas Afonsinas antes de serem obra pessoal do rei eram, provavelmente, dos muitos astrólogos árabes de Granada que viviam na sua corte. Em 1492 foram publicadas pela primeira vez em Veneza, num volume in 4.º.

O que é notório no tratado de Alquimia de D. Afonso V é a forte influência nele do Liber Lucis, de João de Rupescissa da Rocha Talhada, o que aumenta ainda mais a dúvida quanto a ser o seu autor Afonso X, o que em 1732 levou o alquimista português Anselmo Caetano de Munhoz e Abreu Castelo Branco a escrever sobre o assunto, nas páginas 206-209 da sua Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal, de que transcrevo o desabafo seguinte: “Baralhemos agora nós os argumentos. (…) Que dizeis ao exemplo de El-Rei D. Afonso X ou V? (…) Porque dizendo eu como ele, que sei fazer Ouro com a Pedra Filosofal, ainda sou mais pobre do que este Sábio Rei”.

Todavia, D. José Ramón de Luanco, o decano dos investigadores da Alquimia no país vizinho, na sua obra citada teve a sinceridade de confessar sobre esta outra que “es la mas copiosa entre las españolas que conocemos”. Igualmente confessa, nesse seu livro, página 251, que “el Libro Secreto de Arte Oculta del antiquíssimo Philosopho Artephio (tomo I, fl. 121-140) es traduccion del latim al español hecha por D. Francisco Fernandez de Obecuri y Valejo en la ciudade de Oporto, y la concluyó en 22 de Junio de 1774”, sendo o título original do tratado em apreço De arte occulta, atque lapide philosophorum liber secretum, e o seu alegado autor, Artephius, terá vivido no século XI.

Remata Manuel J. Gandra (in ob. cit.): “Os textos em apreço circulam em Espanha, desde o século XVII, sob a designação genérica de Libro del Tesoro, ou del Candado, quase invariavelmente creditados ao rei “Alfonso de Castilla” mais evidentemente, i. e., o Sábio, esquecendo que o não menos sábio Afonso V de Portugal foi igualmente aclamado como “Alfonso de Castilla”!”.

Segundo o mesmo Manuel Gandra, a primeira notícia que houve no país acerca do Tratado Alquímico de Afonso V foi dada por José Pedro Martins Barata em 1968, num artigo que publicou na Revista de Portugal: Castelo de Vide – Castell Davide – Castelo d´Avid? Topónimo alquímico trazido pelos Árabes ou pelos Templários? Pois sim, mas só de passagem e sem desenvolvimento algum. A seguir indica Dalila L. Pereira da Costa como a sua efectiva divulgadora[12], onde escreve na página 14 da sua obra: “E pergunta-se: qual foi esse rei Afonso de Portugal, que à Alquimia tão alto relevo deu? E qual a influência entre nós que teria tido um livro como o Rosarium Philosophorum? E na sabedoria e acção hermética e esotérica qual o papel, e em que limites insuspeito, foi dentro deste reino o da Ordem do Templo?” E a valorosa autora prossegue de tal maneira que acabo não sabendo se refere-se a D. Afonso Henriques ou propriamente a D. Afonso V…

Mas o que sei é que o texto chegou-me às mãos na versão espanhola oitavada atribuída a Afonso, o Sábio, tendo após várias e prolongadas diligências chegado à versão inglesa e ao seu verdadeiro feitor, Afonso V de Portugal. Após, passei à divulgação pública da obra, devolvendo esta preciosidade bibliográfica a Portugal, à Língua-Mãe e aos Portugueses, ao mesmo tempo creditando a autoria do achador e do achado por via da publicitação.

Assim e na sequência da minha edição policopiada do texto com o título Tratado Alquímico de Afonso V (edição do autor, Lisboa, 1989, registada na APEL com o n.º 46323), o jornal Correio da Manhã de sábado, 6 de Abril de 1989, publicou nas suas páginas centrais uma reportagem dedicada ao assunto assinada pelo jornalista Victor Mendanha, com o título Tivemos um Rei que foi Alquimista. Como consequência da minha divulgação do tratado alquímico do Africano, A. M. Amorim da Costa veio a escrever sobre o mesmo[13], transcrevendo o texto completo da versão inglesa de Thomas Harper, aqui reproduzida na tradução feita pelo ilustre autor mas seccionada por mim de acordo com a versão castelhana, do supracitado Roseiral dos Filósofos, dividido em dois tramos ou corpos, do nosso rei sintrão que, como quinto, vai bem com a ideia graalística do Quinto Império da Humanidade por Graça Divina concedida a esta “Terra de Luz” (Luxcitânia).

TRATADO SOBRE A PEDRA DOS FILÓSOFOS

ESCRITO POR ALPHONSO, REI DE PORTUGAL

LIVRO I

1. A fama trouxe ao meu conhecimento que na terra do Egipto vivia um homem erudito que previa as coisas que haveriam de acontecer; julgava com base nas estrelas, e nos movimentos dos céus, aquilo que estava para vir e que por ele era de antemão compreendido.

2. Um desejo de conhecimento se apoderou da minha afeição, da minha pena e da minha língua; com grande humildade, sacrifiquei a grandeza da minha majestade perante tão grande poder dado ao Homem. Com insistentes súplicas e especiais cartas minhas para ele, mandei os meus mensageiros procurá-lo, prometendo-lhe, com profunda afeição, grande recompensa, quer em bens, quer em dinheiro.

3. O sábio homem respondeu-me com muita cortesia: – Sei que és um grande rei e que nem presentes, nem a lei da prata ou do ouro, nem qualquer outra coisa de grande valor te movem, mas meramente a tua afeição. Servir-te-ei, pois eu não procuro tais coisas me sobram, e por isso não me movem os teus bens, mas apenas a tua consideração.

4. Enviei a melhor das minhas embarcações que, uma vez chegada ao porto de Alexandria, fez subir para bordo o doutor astrólogo e o trouxe até mim, cortês e amigo, pois reconhecendo eu o seu grande mérito e sabedoria acerca do movimento das esferas, sempre o presenteei com aquela estima e amizade que são devidos a um homem sábio.

5. Ele sabia preparar a Pedra conhecida por Pedra dos Filósofos; ele ensinou-me a prepará-la e preparámo-la juntos. Depois preparei-a eu sozinho, tendo assim aumentado grandemente os meus bens; e considerando que fui capaz de fazer tal preparação por diversos modos, sempre com o mesmo resultado, propor-te-ei o modo mais simples, o mais excelente e principal.

6. Eu tenho uma biblioteca com os trabalhos de autores de muitas nações, porém, sobre este assunto, não considero bons nem os caldeus, nem os árabes (embora se trate de um povo muito diligente), nem ainda os egípcios ou os assírios, mas sim os povos do Oriente que habitam as Índias, e os mouros, os povos que tornaram o meu trabalho possível e tão perfeito que assim honraram muito o nosso mundo do Ocidente.

7. Ocorre-me de imediato um juízo profundo e cheio de verdade, porque deves confiar nele e nele acreditar, sem pensares que eu minto seja no que for: aquilo que procurei não é motivo para se esquecer o grande mérito que havia nele, meu Mestre, e não atribuo tão grande honra a algum outro homem, só a ele que é um sábio.

8. Sabe que para decifrar este mistério as verdades são propostas em cifras, e embora sejam obscuras terás muito a aprender com elas, e acharás que se não tratam de coisas vãs; e se chegares a compreender este grande mistério, não faças uso dele nas tuas conversas do dia-a-dia, mas conserva-o no mesmo código deste meu escrito, caso saibas como explicá-lo.

9. Minha alma presume e prognostica, segundo o que os astros fazem em tal razão, que aquele a quem o Céu der este entendimento estará destinado a ser como um rei; se operar com cuidado o grande mistério terá o tesouro, e a sua riqueza será maior que a de Midas.

10. Finda a aplicação desta obra, no horizonte subirá a imagem dominante de Deucalião, o senhor do décimo monte; ele prometerá coroar a fronte do grande príncipe pela sua afeição e dar o tesouro ao recém-nascido onde a sua imagem se impuser.

11. Se és da minha pátria ou da minha parentela, quero dar-te um conselho, não pequeno: se alcançares o tesouro, dá-o inteiramente àquele que te o revelou, e com isso será dono de toda a parcela. Dá-o àquele para quem ele é pouco, pois possui um tesouro maior, infinito, eterno e livre de toda a parcela.

LAPIS PHILOSOPHORUM

12. Os homens sábios designam esta matéria por diversos nomes: para os ignorantes parece tratar-se de alguma coisa; para os sábios não se trata verdadeiramente de matéria. A sua natureza é igual em humidade e secura, tornando-se impossível separar um da outra; é verdadeiramente singular ter estas duas naturezas diferentes unidas num todo.

13. O seco existe nela em grau supremo, e de igual modo o húmido requer uma autoridade suprema: o quente e o frio lutam nela e nela estão contidos, também em grau supremo. Da igualdade deriva o nome de cada uma das diversas coisas em que se torna pela pluralidade, e embora o húmido e o seco estejam juntos, cada um deles conserva o seu próprio nome.

14. O nosso Hermes diz-nos que ela está no Céu e na Terra, mas outros chamam-lhe Marido e Mulher, e referem muitos enigmas a propósito do seu casamento que é uma luz para o Globo enfermo; e por isso são chamados, por alguns, Água e Terra, e por outros, o Frio que está contido no Calor, tanto quanto é possível ao sábio compreender.

15. O antigo Caos, segundo a minha opinião, foi urdido pelos quatro Elementos: esta composição é a que transparece quando se dá a divisão; o Céu e a Terra aparecem como uma quintessência de tudo, pois esta matéria é tal que dela se compõem todas as coisas.

16. Nesta matéria se encontram unidos os quatro Elementos em partes iguais, de tal modo que se um deles se mexe ou move, os outros fazem o mesmo, pois qualquer deles é conduzido pelos outros, tal é a igualdade que caracteriza as obrigações de uns para com os outros. Onde esperavas tu encontrar coisa melhor entre todos minerais, vegetais ou animais, como é opinião comum de todos os homens sábios?

17. Considera o Mercúrio dos Filósofos eruditos, e permite que se purifique da sua maldade e sujidade, pois não é possível tê-lo demasiado puro; faz com que o seu peso sejam doze onças da dita composição, e põe-no, então, dentro dum balão de vidro de modo que se lhe não misture nenhum outro metal.

18. A forma deste balão deve ser a forma da esfera, com um longo gargalo, não tão grosso que não possa ser totalmente abarcado por uma mão grande, não maior que um span [um palmo], e o seu bocal não deve ser tão largo que não possa ser coberto pelo selo egípcio.

19. Porás o conjunto num pote feito de terra, rodeado de cinzas quentes, tendo o cuidado de tapar com uma das mãos a parte superior do balão. Deves ter então um forno artificial feito de barro, de tal modo largo e redondo que o possas colocar no lugar mais espaçoso.

20. Não deves pôr o vaso no fundo da fornalha, mas segurá-lo ou colocá-lo no meio, sobre dois ferros em posição diametral, ou cruzados, com o vaso posto precisamente no centro do cruzamento, de modo que o fogo se distribua uniformemente à sua volta. Faz então, com carvão, um fogo brando e não permitas que a tua paciência se perturbe de tal modo que o não conserves constante.

21. O fogo não se deve aproximar mais de um pé do vaso, e a fornalha deve ser de tal modo estreita que o fogo brando actue permanentemente, e sempre constante, no fim igual ao princípio. Terás feito assim o trabalho de um homem hábil.

22. Devem decorrer duas mudanças da Lua como para aqueles Animais cuja gestação é de um mês, ou o tempo do Sol percorrer um ângulo chamado Sextil, sem chuva, pois a Obra requer secura; verás então a evolução própria da Obra, e deverás ter muito cuidado para te não dissociares dela desde a sua primeira matéria que é toda ela uma só.

23. À medida que o tempo opera, ajudado pelo Sol e sob outras influências, libertando-se da Terra e de toda a humidade que corre nas suas veias, torna-se tão ajustada que aquela parte que no princípio se tornara húmida se converte em Enxofre; e tudo aparece como a Mãe Natureza ordenou.

24. Esta é a parte que se chama Terra, Enxofre e Mulher, quente e fria, porque quando ocorre a primeira mudança ou arrastamento, esta parte deseja o que ocasiona a humidade; assim como Penélope tecia enquanto Ulisses estava ausente na Ítaca, assim esta viúva, pálida e definhada, espera pelo retorno de seu desterrado marido.

25. Com pesos iguais, e com a mesma arte de início, mistura Mercúrio muito puro com esta mistura em que estás a trabalhar, num vaso de vidro resistente, feito por mãos de bom artífice, pois que ambos devem ser um só ou iguais; e se te for possível, o primogénito é o mais verdadeiro.

26. Faz o trabalho seguinte de tal modo que conserves o mesmo fogo como anteriormente, o que será suficiente, e toma cuidado para que o fogo não chameje, e vigia-o noite e dia; impondo-te este sacrifício, assegurarás excelente recompensa.

27. Verás a Obra na sua negritude, e vê-la-ás mudar para a sua cor primitiva, sem que seja ainda aquela que a Mãe Natureza lhe deu no seu primitivo grau, devendo tornar-se tão líquida e pura que se assemelhará a tinta, totalmente distinta em sua forma da criatura que inicialmente foi.

28. Já reparaste na prisão que o bicho-da-seda faz para si próprio e onde morre? Dessa carcaça de morte tecida por ele próprio, onde a corrupção não tem lugar, ele ressurge de novo com uma forma diferente do seu ser inicial, reaparecendo com cores diferentes e com asas que lhe dão um aspecto mais majestoso.

29. Também a nossa obra começa a viver com um novo espírito, uma nova substância sobre a qual se continuará a operar a perseverança do corpo, de modo a poder tornar-se o receptáculo do sangue. Não tentes neste momento incrementar o fogo, pois desse modo destruirás o sangue e o corpo.

30. Verás então o mais excelente momento desta Obra Divina: abre o balão e parecer-te-á que tudo está estragado, pois dele se exalará um cheiro terrivelmente nauseabundo. Neste momento reside certamente o maior de todos os trabalhos da Obra: se continuar a ser aquecida com a mesma quantidade de calor, atingirá com certeza o mais elevado grau de perfeição.

31. Depois desta cor desaparecer, verás muitas diferenças na sua forma e aparência: o Argos e a Iris no seu esplendor, em que a sequência do humor líquido exibirá diversas cores até assumir, por fim, uma certa brancura, aparecida a qual deverás aumentar um pouco a quantidade de calor.

32. Amigo, não te canses da tua obra nem te deixes impacientar por ela, pois atingiste o primeiro ponto do teu património. Quando a Pedra atingiu a brancura, fixa-se e não mais as suas partes poderão ser separadas, ainda que seja queimada durante 100 anos, pois a união tornou-se perfeita.

33. Conserva, como te disse, o fogo em grau tal que a brancura originada se pareça com a da neve mais pura; conseguiste o chamado Elixir de Prata. Considerando, porém, que o Ouro é mais precioso e de maior valor, deixa-a no balão com o mesmo fogo, até que a cor branca da Pedra se converta numa cor cítrea: aumenta então o fogo para o grau seguinte, e verás aparecer uma cor de vermelho puro.

34. Uma vez tudo verificado, saberás que a tua obra é segura: tomado o corpo deste ser, verificarás que é duro e leve, e nele poderás observar o corpo diáfano cor de rubi, tal como eu o vi em minhas próprias mãos, pelo que deve Deus ser louvado.

35. Põe então tudo isto num vaso feito de terra, tapado com uma tampa feita do mesmo material, com o formato de um disco, bem ajustado e ligado num todo, com um tamanho capaz de comportar três begadas [possivelmente a medida agrária de uma biga], de acordo com o tamanho da Pedra, e coloca-o num fogo forte conseguido com lenha que dê chama, até ferver.

36. Neste momento, a Pedra calcinará em dez dias dedicados ao Sol, dez domingos, etc., e quando retirada daquele vaso apresentar-se-á como um pó impalpável e divino. É a primeira substância que está na origem de tudo quanto é bom, por isso mesmo não tem qualidade na sua quintessência, mas aplica-se a tudo, e é a verdadeira essência de tudo a que se aplica.

37. Este princípio como começo que é das causas naturais, não é nem Ouro, nem Prata, nem qualquer outro mineral, nem está sujeito à forma de qualquer vegetal, embora tenha virtude para produzir o bem e todas as coisas. Se for aplicado ao Ouro, por sua virtude torna-se duro, de modo a converter outras coisas nesse metal. E porque dá ao homem, segundo famosas operações, riqueza e o que de mais precioso ele pode desejar?

38. Sob este Ouro impalpável, acontece encontrar-se uma terra brilhante, embora muito negra e reluzente, que todavia não é a melhor, pois o que é muito vermelho é fixo e estável, mesmo quando se misture com todas as composições, e, por isso, não é susceptível de ingressão, embora as suas virtudes sejam muito admiráveis.

39. Mas, deves misturá-la com peso igual ao da sua primeira matéria principal, muito pura, e misturá-las ou juntá-las com todo o cuidado, se desejas fazê-la viver: e então, como te disse antes, aquece-a com um fogo moderado, como fizeste no princípio, num balão semelhante ao anteriormente referido, bem fechado.

40. E tal como fizeste inicialmente com o fogo, deves fazê-lo agora, e em pouco tempo verás que ela se torna negra e com as outras cores de que falámos, antes que se torne vermelha e se transforme numa pedra. Vi fazer isto em tempo muito curto, e aquele que isto não conhece saiba que caminha como o cego.

41. Falei-te da Obra em palavras simples, segundo o modo como eu próprio a preparei e vi formar-se, como a fiz e fui recompensado. Não é engano, pois, que do facto sou testemunha, pelo que louvo e bendigo a Deus que me concedeu conhecimento suficiente, ciência, riqueza, honra e disposição que nunca será possível esquecer.

42. Se dividires esta matéria até à centésima parte e assim sucessivamente até ad infinitum, deves fazê-lo antes que tenha fermentado e endurecido, que só assim o teu trabalho estará certo. Toma um vaso feito de terra e coberto, coloca nele a tua prata-viva e quando ela começar a desaparecer junta-lhe o teu Elixir, senão não evitarás que ela desapareça por completo.

43. Com uma parte de Ouro purificada com água-forte, quatro partes de prata-viva lavada e quatro partes da matéria de que falámos antes, mistura-a, com grande arte, com uma pedra do teu Elixir e coloca-o à parte num vaso de vidro tortuoso ou retorta, e deixa que o fogo actue sobre ele durante dez dias seguidos, até que tudo fique bem misturado.

44. E se quiseres progredir ainda mais, coloca num pote de barro 100 grãos de prata-viva e põe-no sobre um fogo flamejante, e quando a prata-viva começar a produzir fumos e a desaparecer, deita-lhe uma parte do teu Elixir e cobre-o. Deixa-o arrefecer e terás obtido um medicamento soberano: 100 partes da prata-viva, de acordo com a sua finura, converter-se-ão em Ouro.

45. E se quiseres fazer a experiência e verificar a sua actuação sobre o chumbo, verás que ela é também viável; não o deixes lá por muito tempo, pois a ingressão do chumbo retém o poder de transformar todos os metais em Ouro.

46. Pode ser aplicado a todas as coisas, e a todas conferirá uma natureza bem constituída. Meio grão desse Elixir tomado oralmente confere grande fortaleza: torna forte e robusto tudo quanto é débil e fraco, de tal modo que o homem será saudável como jamais foi, e o tempo que sempre foi precioso para todos faz daqueles que o tomam resistentes aos seus túmulos.

* * *

Não quero ocultar-te por falta da minha má memória: na mina de ouro, deste toma uma onça com três de azougue coado por um pano fino, e fá-lo tantas vezes que com quatro libras não fique ouro abaixo. De outra maneira: toma uma onça de ouro, fecha-a com três de azougue e faz com que o fogo levante os seus ramos, pois onça e meia desse com dez e meio de azougue é a matéria.

LIVRO II

SEPARAÇÃO DOS QUATRO ELEMENTOS

1. O passado trabalho da mais pura Pedra, é tão infinito na sua multiplicação que nunca se gasta ao dar-se, e ao dar-se mais, tal é a verosimilhança que possui para a sua preparação. Mas se desejas conhecer um outro modo de separar os quatro Elementos, sabe que o tratado que se segue, devidamente compreendido, ensinar-te-á a fazê-lo com maior brevidade e segurança.

2. Duas onças de ouro bem refinado com uma de prata muito fina e pura, misturadas em argila, e com esta mistura triturada até se tornar muito fina, trate-se com mercúrio purificado até que os dois conjuntos se incorporem bem um no outro. Junta-lhe então uma quantidade de sal comum bem misturada, até que o todo se torne bem conglutinado.

3. Toma um balão de vidro, apropriado para nele fazeres esta mistura, sem que qualquer impureza se lhe possa juntar (por mais que isto seja de todo impossível), e põe-no sobre um fogo brando, aquecendo-o até que o mercúrio se consuma ou desapareça no seu próprio fumo. Poderás presumir então que o ouro permanecerá como um corpo que suportará o crepitar do fogo.

4. Lava a matéria desta mistura em água pura da fonte, de modo que, após muitas lavagens, a água fique totalmente limpa e conserve o seu próprio sabor; pesa então a matéria que resta, e se verificares que é mais pesada do que o era no início, tritura-a novamente com suficiente quantidade de sal, e aquece-a de novo, como antes.

5. Para isso, digo-te, deves fazer o teu trabalho usando um fogo muito brando: e quando a obra tiver o seu peso inicial, que se manterá constante, será uma matéria esponjosa e subtil, e tão bem disposta e preparada que a poderás usar para qualquer preparação física.

6. De seguida, deves fazer uma preparação com mercúrio sublimado, cobre e sal bem lavado, porque a nossa conjunção física e real dar-lhe-á depois a sua vida. Após moído com sal muito fino, coloca-o então num balão de vidro para fazer a sua destilação.

7. Nota, porém, que dentro desse balão deves pôr água, colocá-lo numa fornalha forte e aquecê-lo com fogo de carvão colocado sob ele, deixando-o ferver suavemente, tornando-se então o seu conteúdo vivo e por completo sujeito a corrupção, com que trabalharás em segurança e sem cansaço.

8. Põe, então, num outro balão de vidro redondo, com um gargalo do tamanho de um span ou um palmo longo, nove partes desta matéria com três da composição primitiva, juntas e bem misturadas e conjuntamente trituradas, com tudo o mais. Fecha muito bem o bocal do balão, pelo que este não deve ser muito largo, mas antes estreito.

9. E digo-te que o balão deve ser suficientemente grande para conter a quantidade de três begadas, e o seu fundo redondo deve ser tal que permita colocá-lo sobre o fogo, de modo que a matéria nele contida se junte bem e se imiscua uma na outra, obtendo-se assim uma tintura.

10. Depois de quarenta begadas, verás a parte do Oriente adornada com os raios solares, quando o trabalho tiver sido realizado de acordo com o desejado; muda tudo para outro balão, que servirá para receber o fixo, e deverá ser fechado e selado com o lutum sapientiae em água quente, sem que todavia a toque.

11. O fogo não deve ser muito intenso mas antes moderado, suficiente para produzir o seu efeito, destilando completamente a água que contém; repete a operação de novo; com muita sabedoria, junta a matéria com a água resultante da destilação e junta mercúrio em quantidade igual, com a matéria inicial.

12. Toma atenção às palavras que te vou dizer: deves agora putrificar esta matéria, e depois de quarenta dias juntá-la ao fixo, seguindo as disposições anteriores relativas ao balão e ao fogo; toma a mesma água destilada e deita-a sobre igual quantidade da matéria inicial, como disse antes.

13. Faz este trabalho primeiro, pois é preciso repeti-lo três vezes de vez em quando, até à recolha da última porção da água resultante da destilação. Não subestimes o tempo, e ainda que ultrapasses os quarenta dias, continua a guardar a água destilada num balão de vidro.

14. Muda-a do balão em que foi recolhida para um outro, e coloca-o sobre cinzas quentes, e obterás assim um Elemento mais leve, em peso, chamado Ar, que deves guardar subtilmente numa garrafa, rolhando-a muito bem com o selo de Hermes, e fechando também o seu gargalo; tem cuidado para que não deixes escapar o ar.

15. Põe-no dentro de outro balão ou outro recipiente (selando-o muito bem), e aquece-o o suficiente para que possa destilar; conserva com muito cuidado este elemento, pois se trata do elemento do Fogo, e dá então graças a Deus, pois com o teu trabalho conseguiste separar os quatro Elementos.

16. Depois da separação deste caos, terás de pensar em juntá-lo de novo: e porque pretendes juntar e refazer aquele mundo que foi desunido, deves usar apenas a matéria que ficou no fundo do balão que deverá ser conservada e guardada, e ainda triturada para que se torne mais fina, colocando depois a composição resultante num outro balão.

17. Que este balão seja de fundo arredondado e de gargalo comprido; fortifica-o com massa lodosa para que suporte o fogo ao ser colocado sobre carvão aceso, de modo a que o seu calor possa aumentar dez graus do bem-amado leito da esposa de Titã; deste modo, converter-se-á numa substância dura.

18. Noutro balão semelhante, põe um quarto da quantidade de água guardada, fecha-o muito bem e põe-no numa fornalha metálica ou num vaso sobre cinzas quentes, e conserva o fogo de modo que a matéria se torne seca como antes.

19. Feito isto e tendo acabado o congelamento e a secagem, como disse, repete a operação com as restantes quartas partes da água real. A infusão deve ser repetida e terminada à quarta vez do mesmo trabalho, e saberás que satisfizeste a avidez ou sede que esta substância tem de água.

20. Já reparaste como a terra sequiosa de chuva parece estéril? Não sustenta quaisquer frutos e nela tudo parece terreno pálido, onde tudo está em vias de perecer. Porém, se a chuva cai e a refresca, logo se torna frutífera para germinar ou aumentar, e toda a semente que nela cair em tempo apropriado cresce e dá fruto.

21. Continuando, dispersa o seu poder aquoso por todas as plantas e árvores e farás aparecer frutos em cada ramo; assim se vai preparando esta matéria; deves dar a tomar a cinco, várias vezes, o Ar que guardaste na garrafa, em porções de um décimo da quantidade total de cada vez, de modo que fique reduzido a metade do seu peso, e secando-o sempre, de cada vez que o manipules.

22. Então, num prato de cobre sobre um fogo flamejante, verifica se esta matéria se reduz a fumo; pois deves saber que se trata de uma matéria com a natureza de Ganimedes, apta a voar para o céu. Se não voar em direcção ascendente, deverás concluir que não está bem preparada, precisando que se lhe dê mais água e se verifique se tem ou não o seu verdadeiro espírito.

23. Faz com que um quarto do seu peso inicial seja absorvido, que corresponderá à décima parte do Ar, e tal como fizeste antes fá-lo de novo, e repete a experiência com o prato de cobre para ver se evapora-se e produz fumo; volta então de novo para o que fizeste antes.

24. Põe a matéria a sublimar e verás que toda ela se elevará; se tal não acontecer, permanecendo a matéria no fundo do prato, junta-lhe de novo água de acordo com o que ficou dito antes: põe-na outra vez à prova no prato, e tenta repetidamente esta operação até que toda ela sublime; terás então a certeza que no fundo do prato restará uma terra negra semelhante a um corpo morto num vaso de vidro.

25. Logo que Ganimedes se elevou para o céu, verás exaltada esta matéria. Ela será reclamada pelo Deus da Terra, Jove, a quem foi roubada, quando foi deixada com Demogorgon, e será restaurada, e se a sublimares, triturando-a várias vezes até que finalmente se torne firme, permanecerá toda no fundo do vaso de vidro.

26. Esta matéria deseja ingressão, pois deseja o quarto Elemento. Faz, pois, esta operação em fogo nem grande, nem diminuto, e quando a puseres sobre a chama, segura no vaso e tem cuidado para que nenhuma gota ou qualquer pequena impureza caia nela antes que se dê a infusão.

27. Se verificares que ela se torna como cera possível de ser enrolada, então terás obtido um grande tesouro, e o teu património ter-se-á tornado maior que as riquezas de Midas. Põe no fogo cem partes de mercúrio, e quando começar a libertar fumos tempera-o com uma parte desta matéria, e poderás ter a certeza de que o transformaste em medicina perfeita.

28. E se repetires novamente o mesmo trabalho, uma parte desta matéria aplicada a cem partes de mercúrio tornar-se-á semelhante à segunda medicina, e uma só parte desta é uma grande recompensa, pois se aplicada a cem partes de mercúrio quente, ou a qualquer outro metal fundido, transformá-lo-á no mais puro e sublime Ouro, pelo que deve Deus ser louvado.

* * *

O Melhor dos melhores convida da sua Morada Suprema o mais desafortunado de todos, juntando dois extremos, levando a contemplá-lo na sua maior Dignidade e Majestade o que agora está maximamente distante dela: não digas nada até veres a água produzir aquilo que depois se transformará em fogo; mas se contemplares essa transformação, então não escondas nada do que tiveste conhecimento, pois o facto é digno disso por oitocentos anos inteiros; uma vez que atingiste esse estágio, conhecerás o seu valor. Cumprir-se-á então o tempo fatídico para ver o meu Tesouro e o meu Eu, e eu próprio incluído ou contido no meu Eu. Não devo ficar obscuro e deves continuar com o meu dom, de tal modo que nesta escuridão deverás ver a luz em que o Mundo deve ser representado.

Finis

NOTAS

[1] Joaquim de Carvalho, História de Portugal, dirigida por Ângelo Ribeiro e Damião Peres. Livraria Civilização Editora, Lisboa, 1977.

[2] Ruy de Pina, Chronica de El-Rei D. Affonso V. Editora Escriptorio, Lisboa, 1901.

[3] Barão de Sabugosa, A Rainha D. Leonor. Lisboa, 1921.

[4] Pinharanda Gomes, S. Nuno de Santa Maria – Nuno Álvares Pereira. Editora Zéfiro, Lisboa, 2009.

[5] Frei Bartolomeu Ribeiro, O.F.M., Convento de Santo António de Varatojo. Varatojo, Torres Vedras, 2005.

[6] Ruy de Pina, ob. cit.

[7] Raul Proença, Guia de Portugal – II. Lisboa, 1927.

[8] Fulcanelli, O Mistério das Catedrais, 2.ª edição. Edições 70, Lisboa, 1976.

[9] Dom Antoine-Joseph Pernety, Dictionnaire Mytho-Hermétique. Paris, 1787, reeditado na mesma cidade em 1972.

[10] Manuel J. Gandra, Portugal Sobrenatural, volume I, pp. 93-95 e 174-175. Editora Ésquilo, Lisboa, Outubro de 2007.

[11] José Ramón de Luanco, La Alquimia en España: escritos inéditos, noticias y apuntamientos que pueden servir para la Historia de los Adeptos españoles. Madrid, 1889.

[12] Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal. Lello & Irmão – Editores, Porto, Outubro de 1978.

[13] A. M. Amorim da Costa, Alquimia em Portugal: o Rei Alphonso, in “Química e Sociedade”, volume 2, pp. 154-184. Edição Sociedade Portuguesa de Química, Lisboa, 1992.

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