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HISTÓRIA MISTERIOSA DE HOLYROOD

A Abadia de Holyrood, em Edimburgo, é hoje uma ruína imponente que desperta saudades na alma escocesa e soa como preanuncio do futuro retorno da nação ao Catolicismo profetizado por vários santos, sobretudo pelo mártir católico John Olgivie (1579-1615), profecia essa relativa ao desaparecimento do Calvinismo da Escócia que a Reforma Protestante aí impôs no século XVI, sobretudo através da liderança zelosa do ex-sacerdote católico John Knox (1514-1572), falecido em Edimburgo.

Exemplar único da arquitectura gótica intitulada Early English, com restos de trabalho anterior normando, o subentendido dessa mensagem profética acaso se registará nos cinco bustos frontais na cimalha sobre a entrada principal desta antiga abadia, três deles alados, dando-lhes natureza angélica, encobrindo ou guardando a dois outros menores, facto recambiando para os dois irmãos Johannes e Gregan que salvaram o rei David I quando estava prestes a perecer sob os galhos afiados de um cervo selvagem. Desse modo, os três Anjos poderão ser evocativos das Três Pessoas da Santíssima Trindade, a quem se encomiou este templo abacial sob o evoco Santa Cruz, nos tempos em que por aqui andavam os cónegos regulares de Santo Agostinho.

porta da igreja de Holyrood

Segundo as lendas de fundação desta abadia, uma conta que David I (em gaélico escocês Dabíd Mac Maíl Choluim, 1084 – 24 de Maio de 1153), rei da Escócia desde 1124 até à sua morte, no ano 1127 andava caçando nos bosques próximos de Edimburgo quando de repente foi atacado por um cervo furioso, ficando debaixo das suas hastes procurando trespassá-lo. Mas dois irmãos, Johannes e Gregan, do Baronato de Crawford, em Strathclyde Alba, acudiram e salvaram o rei. Este, em agradecimento, fê-los cavaleiros e fundou a Abadia de Holyrood no ano seguinte. Desse dia em diante, esse ramo da família Crawford adoptou como seu brasão a cabeça de um cervo com uma cruz de ouro entre os cornos, acompanhada do lema latino Tutum Te Robore Redam (“A nossa força te dará força”). A segunda lenda, que cola com a anterior, conta que esta abadia foi uma oferta de David I, em 1128, aos cónegos regulares de Santo Agostinho, talvez vindos de St.º Andrews, em agradecimento de ter escapado milagrosamente dos cornos de um cervo quando caçava perto de Edimburgo no dia da Santa Cruz.

Com a Santa Cruz se liga o nome Holyrood, sendo rood palavra antiga gaélica para designar a cruz onde Jesus Cristo foi crucificado, enquanto holy assinala a sacralidade desse acontecimento bíblico. Portanto, etimologicamente Holyrood equivale a Cruz Sagrada ou Santa Cruz. Ainda hoje preserva-se na igreja de Holyrood, num relicário de ouro, o fragmento da Vera Cruz, trazido da abadia de Waltham, conhecido como Black Rood of Scotland. Tamanha foi a devoção a esta Cruz Negra da Escócia que nesta abadia a sua igreja só poderia ser cruciforme, tal qual é representada no selo de 1141 do seu primeiro abade Alwyn, confessor real, e que está guardado nas Newbottle Charters.

Mas David I morreu com fama de santidade e está colocado no panteão dos “santos caçadores”, isto por o cervo ou veado com a cruz resplandecente entre as hastes ser associado no antigo simbolismo judaico-cristão à Árvore da Vida por causa da sua alta galhada, que se renova periodicamente. Simboliza a fecundidade, os ritmos de crescimento, os renascimentos. Com isto, o cervo é o anunciador da Luz tal como Cristo o foi, e assim guia os homens para a claridade do dia, cuja cruz entre suas galhadas fá-lo a imagem do Cristo, o símbolo do dom místico, da revelação salvífica. De maneira que a arte venatória torna-se simbólica de Iniciação Real, Cavaleiresca, Guerreira ou Kshatriya, em sânscrito, pautada pela acção dinâmica da busca do Divino até o encontrar em alguma caçaria encantada que transformará o caçador num iluminado na Sabedoria de Deus, como o terá sido David I usufruindo dos conhecimentos superiores junto dos sábios agostinhos de Holyrood.

Santos caçadores ou perseguidores de Maria, Sophia ou a Gnose como Sabedoria Divina, também terão sido os cavaleiros-monges da Ordem do Templo cuja instalação na Escócia remonta ao encontro em 1128 entre David I e Hugues de Payens, fundador da Ordem, tendo o rei concedido a terra de Balantrodoch a ela, o que constituiu a sua primeira possessão escocesa. Em 1189, Alan Fitz Walter (1140-1204), o segundo senhor de High Steward da Escócia, tornou-se benfeitor da Ordem do Templo e participou activamente na sua expansão no território escocês, e tamanha foi a influência do Templo na sua pessoa que o seu selo pessoal possui todos os mesmos símbolos dos desta Ordem, sem faltar a cruz templária.

relíquia de Holyrood

Mas a Escócia não era uma Província da Ordem do Templo e sim uma Preceptoria dependente da Província de Inglaterra, com o seu comandante principal em Balantrodoch. A Preceptoria repartia-se em Bailios cujos Mestres escoceses estavam subordinados ao Mestre Geral da Província de Inglaterra. Pela Carta de Confirmação emitida em 1236 por Alexandre II da Escócia (24.8.1198 – 6.7.1248), sabe-se que os templários eram senhores de vastas terras escocesas, detalhadas num outro documento de 1296 em cuja lista Edimburgo aparece à cabeça.

O ano de 1296 marcou o começo da primeira guerra de independência da Escócia, o que explica o início do debilitamento dos templários escoceses e suas posses dependentes de Inglaterra com quem então a Escócia guerreava tanto militar como política e economicamente, nisto sancionando os bens móveis e imóveis ingleses no território escocês, o que resultou no enfraquecimento social e económico dos templários escoceses dependentes da Casa-Mãe em Londres como os seus estatutos o exigiam, apesar de muitos deles tomarem o partido político da Escócia hostil ao britânico. Mas por outro lado também explica, face ao antagonismo político e religioso dos escoceses ante os ingleses e até os franceses, que quando o processo contra o Templo foi iniciado e o rei de França exigiu que se prendessem os templários em todos os países onde estavam instalados, na Escócia só dois templários foram detidos para interrogatório, que decorreu precisamente nesta Abadia de Holyrood.

Em 1308 foram interrogados pelo Geral da Abadia de Holyrood os cavaleiros templários Walter Clifton e William Middleton, que juraram a sua inocência dos actos abomináveis de heresia imputados pelo rei de França a eles no particular, e à Ordem no geral. Foram absolvidos das acusações e libertados.

Finalmente, depois da abolição da Ordem do Templo no Concílio de Viena em 1312 presidido pelo papa Clemente V, Robert I da Escócia autorizou os templários escoceses escapados da perseguição de Filipe IV de França, a fundarem em 24 de Junho de 1334 a Ordem do Cardo, mais uma vez precisamente nesta Abadia de Holyrood que anos antes os havia declarado inocentes.

Abadia de Holyrood no reinado de Jaime VII

Abadia de Holyrood no reinado de Jaime VII

A ruína majestosa que hoje se vê desta igreja abacial de Holyrood é consequência da época da Reforma, tendo em 1540 o convento, coro, capela e transeptos da igreja sido destruídos pelos reformistas, e vinte anos depois saqueado o que restava do interior da igreja. Cerca de 1678 Jaime VII da Escócia ultimou os restauros da nave da igreja ao culto católico e a capela dos cavaleiros do Cardo. O tecto da nave ganhou forma de abóbada de pedra em 1758, mas desabou pouco depois e o que resta hoje deste formoso edifício são as ruínas da nave sem tecto, cujas pedras formosamente trabalhadas mudas interrogam a alma escocesa sobre o seu porvir nascido do seu passado misterioso, onde a lenda se entrecruza com a realidade e a realidade parece hoje uma lenda.

ST.º GILES DO CARDO SELVAGEM

Num recanto da Catedral de São Giles (Egídio), padroeiro de Edimburgo, está uma das partes mais importantes deste espaço sagrado: a Capela do Cardo (Thistle Chapel), mandada construir entre 1909 e 1911 pelos cavaleiros da Ordem do Cardo, transferidos para aqui da capela do palácio de Holyrood, primitiva abadia onde Jaime VII da Escócia fez reviver essa Ordem em 1687, impondo-lhe reformas profundas quase todas de natureza política relativa à independência escocesa de Inglaterra, passando então a ter o nome acrescido de Ordem do Cardo Selvagem, a planta nacional da Escócia.

Pondo de parte o cunho político e deixando só o transcendente evidenciado nesta acolhedora e elegante capela feita num estilo gótico muito peculiar, toda ela realça os medievos tempos heróicos de paladinas demandas onde o cavaleiro também era monge. Isso é realçado pelas espadas, elmos e brasões dos cavaleiros nos seus púlpitos nesta Capela do Cardo Selvagem, todas próximas do coro que é o lugar dos cânticos litúrgicos evocativo dos coros celestes, como aliás se vê na abóbada onde ladeando as Armas brasonadas da Ordem do Cardo aparecem coros angélicos tocando diferentes instrumentos musicais, onde não falta a tradicional gaita-de-foles. Embalados pela música celeste os esforçados cavaleiros adentram a glória da imortalidade após a morte, tal é a mensagem imediata. Mas a música dos anjos também é evocação da Alquimia (um dos seus epítetos medievais era “música celeste”), no sentido de transformar os elementos grosseiros e impuros da matéria em subtis e puros pelo verbo sapiente do sábio estabelecendo a harmonia das faculdades da alma, sendo assim interpretada como a arte de atingir a perfeição. Neste caso e no plano imediato, para o cavaleiro a perfeição era alcançada pelo domínio e sacrifício da sua natureza inferior, mortal, de maneira a conquistar a independência, mais que territorial, espiritual, indo fazer parte dos coros divinos na majestade das Alturas.

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O próprio símbolo do cardo tem o significado de sacrifício, por ser planta de toque áspero e com espinhos, remetendo para o significado místico do sacrifício do cavaleiro. Mas também, pelo aspecto irradiante da coroa dessa planta, é relacionado com a irradiação da Luz de Deus, onde o crente deposita toda sua esperança, simbolizada na cor verde distintiva desta Ordem. Mas como toda a planta que tem espinhos, o cardo é igualmente símbolo de defesa periférica, de protecção do coração (cerne) contra os assaltos perniciosos do exterior. Isto vem a justificar a divisa latina da Ordem: Nemo me impune lacessit (“Ninguém me provoca impunemente”). Neste aspecto, torna-se emblema de austeridade e mesmo de espírito vingativo, o que remete para a origem misteriosa desta Ordem relacionada aos antigos cavaleiros templários.

Com efeito, quando começaram em França as perseguições à Ordem do Templo, no final do século XIII e início do imediato, vários esquadrões templários escaparam a tempo fugindo para a Escócia, alistando-se sob a bandeira do rei Robert Bruce, ou Robert I, chegando a participar nas batalhas da independência da Escócia contra a Inglaterra, sabendo-se ter sido decisiva a sua presença na vitória da batalha de Bannockburn. Em reconhecimento do apoio militar, possivelmente mais logístico que efectivo por interdição imposta pela Regra dos cavaleiros-monges fazerem guerra a outros cristãos, Robert I autorizou aos templários escoceses a fundação em 24 de Junho de 1334 da Ordem do Cardo, como deixa subentendido W. M. Mackkenzie na sua obra The Battle of Bannockburn: a Study in Mediaval Warfare (Publisher James MacLehose, Glasgow, 1913), na qual as recepções seriam idênticas às da Ordem do Templo, avança André-Michel de Ramsay (1686-1743) no seu célebre Discurso impresso em 1741. Há um outro facto ainda mais importante mas carente de mais sólida comprovação documental que as sugestões eruditas do mesmo Ramsay: no ano imediato ao da fundação, ou seja, em 1335, Robert I terá promovido a fusão da Ordem do Cardo com a Ordem dos Cavaleiros do Oriente, possível confraria ou ramo monástico-militar dependente da Ordem do Templo, nascida na Terra Santa em 1188 e exportada para a Escócia pelos cavaleiros templários destacados no Ultramar, sendo que dessa última nasceria em 1300 a Ordem de Heredom, quase de certeza sendo aquele mesmo ramo reformulado, fundada em Jerusalém junto ao Monte Mória nas cercanias das ruínas do Templo de Salomão, aí se fixando a sede dos Hébridas, isto é, dos oriundos das ilhas Hébridas na costa oeste da Escócia, lembrando que a palavra Heredom compõe-se do greco-latino hieros, “santo”, e domos, “casa”, portanto, “Casa Santa” ou Templo. Foi esta última quem acolheu todos os templários fugidos da cobiça sangrenta do rei Filipe IV de França para a Escócia, e igualmente os que já lá estavam. O rei escocês Robert Bruce colocou a Ordem do Cardo sob o padroado de Santo André, o que ainda hoje se mantém e leva a Maçonaria Escocesa a atribuir a sua origem ao momento da criação da Ordem do Cardo, como descreve a lenda de fundação do seu Grau 29.º de Grande Escocês de Santo André ou Patriarca das Cruzadas, dando como divisa do Grau 32.º a pressuposta última frase do Grão-Mestre do Templo, Jacques de Molay, queimado vivo na fogueira na Ilha dos Judeus, Paris, em 18 de Março de 1314: Spes mea in Deo est (“A minha esperança está em Deus”).

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Depois da morte de Robert I a Ordem do Cardo entrou numa fase mais discreta e letárgica, até que em 1687 Jaime II de Inglaterra e VII da Escócia a reavivou e reformou fazendo reaparecer com o título de Mais Antiga e Venerável Ordem do Cardo Selvagem (The Most Ancient and Noble Order of the Thistle). Se a Ordem primitiva foi fundada com o rei e 12 cavaleiros à imagem dos Apóstolos em torno de Cristo, esta recriada por Jaime da Escócia e Inglaterra a foi por 16 cavaleiros e respectivas damas, exigindo-se que fossem todos de naturalidade escocesa, excepção feita a alguns cavaleiros extra pertencentes à família real britânica e a algumas casas reais europeias, incluindo os seus monarcas. O valor 16 duplicado por número igual de damas, logo, 32, equivale à potência libertadora, tanto moral como política, segundo o entendimento e interpretação numerológica dos hermetistas medievais e renascentistas.

Essa potência libertadora transposta para o sentido mais elevado da disciplina de transformação espiritual do cavaleiro tomando por Orago Santo André como Construtor da ponte mística e doutrinal entre o discipulado de São João Batista e o apostolado de Jesus Cristo, regista-se inclusive nas insígnias da Ordem do Cardo, sobretudo no distintivo-apêndice, no distintivo e na estrela. O primeiro aparece dependurado no colar e compõe-se de uma figura esmaltada de Santo André, vestindo um manto verde e púrpura cardinalício, segurando uma cruz aspada branca, com raios dourados emanando da cabeça do santo. O segundo, aparece preso na banda larga à altura do ombro direito, tendo no anverso a figura de Santo André e no reverso um cardo selvagem, em campo verde rodeado pelo mote da Ordem. O terceiro, consiste na cruz aspada de Santo André prateada, com fulgores entre os seus braços. No centro figura um círculo verde ostentando o mote da Ordem em palavras douradas, e dentro do círculo figura um cardo selvagem em campo dourado. Os seus membros usam a estrela acima das insígnias de outras Ordens.

Augusto Frederico, Duque de Sussex, Cavaleiro do Cardo

Augusto Frederico, Duque de Sussex, Cavaleiro da Ordem do Cardo

Tal estrela indica a iluminação celeste, e para tal fim demandaram os primitivos cavaleiros não raro socorrendo-se de conhecimentos herméticos (Alquimia, Cabala, etc.), esses mesmos considerados «lepra maligna» pelas autoridades oficiais da Igreja, sempre querendo sancionar e mesmo purgar de seu seio tais conhecimentos os quais proibia, não raro com insucesso como acontece aqui, neste espaço central do caminho escocês para Santiago de Compostela, mesmo dispondo um dos 14 santos auxiliares da Igreja, St.º Giles, protector e curador dos leprosos, como Orago desta catedral, aliás, construída sobre uma primitiva gafaria ou leprosaria (também chamada “lazareto” ou “lugar de lázaros”, leprosos como foi o Lázaro dos Evangelhos que Jesus ressuscitou) do século XII (de que subjazem restos parietais datados de 1124). Tudo isso se pode ver e aperceber nesta soberba e lindíssima Capela da Ordem do Cardo, na grandeza do seu recheio que tem tanto para contar e maravilhar.

ROSSLYN, FACTOS E FÁBULAS

A Capela de Rosslyn é mundialmente famosa desde que Dan Brown, romancista do fantástico, a celebrizou nos seus escritos. Desde então, Rosslyn converteu-se na meca dos amadores do chamado “realismo fantástico” cortejada pelas seitas mais díspares que acabaram quase decisivamente por poluir a leitura e interpretação isenta deste espaço sem dúvida único na Escócia, mas não o único no mesmo género de decoração iconográfica inteiramente inspirada no Antigo e Novo Testamentos.

Situada a doze quilómetros a sul de Edimburgo, em College Hill no centro de Roslin Glen junto ao rio North Esknas, próximo das montanhas de Pentland, a Capela de Rosslyn destinou-se originalmente a Colegiada ou igreja colegial e assim mesmo foi chamada de Igreja Colegial do Apóstolo S. Mateus, destinada à formação dos futuros sacerdotes católicos. Mandou-a construir William Sinclair (1410-1484), primeiro conde de Caithness (1455-1476), cuja cruz familiar laureada e florlisada, indicando a proximidade desta família à realeza, coroa a cimalha da fachada frontal do templo, tendo a obra começado em 20 de Setembro de 1456, apesar de constantemente atribuir-se-lhe o ano 1446. A confusão provém da carta fundacional emitida de Roma para construir a capela colegial que data desse ano (21 de Setembro de 1446, dia de S. Mateus). Foram necessários quarenta anos para construir o que hoje pode contemplar-se mas que não é todo o seu recheio original, porque entretanto Sir William faleceu e o seu filho, com o mesmo nome, não quis ou não pôde desenvolver a igreja, limitando-se a mandar colocar um telhado sobre a capela do coro onde o seu pai foi enterrado. Daí a exiguidade do templo com 20 metros de comprimento, 10 de largura e 12 de altura. Com a Reforma Protestante, este templo viu-se obrigado a destruir altares e figuras de santos católicos em 1560, sendo encerrado como lugar de culto público. Só reabriu nos finais de 1861, depois de restaurada, mas já pela Igreja Escocesa Episcopal, que nele continua a celebrar culto apesar da crescente pressão turística.

Capela de Rosslyn (exterior)

Capela de Rosslyn (exterior)

Capela de Rosslyn (interior)

Capela de Rosslyn (interior)

A família Sinclair, pressupostamente ligada à realeza norueguesa de que não há provas e só as de ser descendente de cavaleiros normandos, ao instalar-se na Escócia dependeu em larga medida do apoio da família de Hugh de Morville, obtendo de David I um contrato de arrendamento de terreno em Northamponshire em 1120, o que correspondeu ao começo da sua fixação no território escocês, a qual só se estabilizou com Henry Sinclair I, conde de Orkney desde cerca de 1315 a 1400. Por outro lado, quando se diz que William Sinclair era um cavaleiro da Ordem do Templo – como se lê na pedra recente no seu túmulo na cripta da Capela de Rosslyn, lapso decerto propositado para algum marketing turístico – parece esquecer-se que este nasceu 98 anos depois da abolição daquela, e que as armas e brasão na sua tampa sepulcral são as de cavaleiro do ramo Sinclair, conforme pode observar-se na sua cruz latina espinhosa heráldica de influência claramente normanda; esse desmentido é extensivo à capela que de avulso diz-se “construída pelos templários”, nisto sendo ainda maior a distância entre o desaparecimento daqueles e o momento desta construção (144 anos).

Anjo heráldico da família Sinclair

Anjo heráldico da família Sinclair

O vasto conjunto escultório que decora a capela e diz-se ser de “origem templária, rosacruz, maçónica, pagã”, etc., por evidente maravilhamento do secreto que encanta ou fascina alguns, essa afirmação não encontra eco na extensa obra do padre Richard Augustine Hay (1661-1734), A Genealogie of the Saintclaires of Rosslyn, concluída em 1700 e publicada parcialmente com esse título em 1835. Nela justifica a disparidade de estilos que aparecem na capela com as seguintes palavras: “O príncipe William, quando a idade foi chegando, passou a considerar com passaria os últimos dias da sua vida. Como não queria parecer um ingrato a Deus pelos benefícios que Dele recebera, teve a ideia de construir uma Casa para servi-Lo, com o trabalho mais curioso. Ordenou que trouxessem artífices de outras regiões e reinos estrangeiros, para que tivesse um número abundante de todos os ripos de trabalhadores, como pedreiros, carpinteiros, ferreiros, ladrilheiros. Primeiro, tratou de reproduzir os desenhos em tábuas de madeira báltica importada e fez com que os carpinteiros entalhassem de acordo com os desenhos. Depois os forneceu aos pedreiros como modelo”.

Sendo originalmente uma Colegiada, o conjunto decorativo deste espaço eclesial servia de ilustração e melhor apreensão visual além da literária da teologia ministrada, esta completamente diferente da actual onde o ensino teológico clássico por norma acompanhava-se de ensinamentos herméticos afins à mentalidade “mágica” do Cristianismo medieval, o que era muito comum nas colegiadas e abadias. Isto é o mais esotérico que pode-se encontrar e explicar neste lugar, que como colegiada na época integrava um conjunto de 40 colegiadas só na Escócia.

Virgem da Assunção de Rosslyn

Virgem da Assunção de Rosslyn

É assim que na capela aparece a cabeça esculpida do “Homem Verde”, tema repetido constantemente aqui, no interior e no exterior, mas que era comum na Idade Média, tomando a característica naturalista dita “pagã” referente ao Homem original ou Adão nascido no Paraíso Terrestre por Graça de Deus Espírito Santo. Nessa característica naturalista, o “Homem Verde”, associado ao deus nórdico Mimir, forma uma sequência representando o ciclo das Estações e da Vida, desde a Primavera com as cabeças joviais e sorridentes a oriente, até ao Inverno e à Morte, com as cabeças de esqueleto na extremidade ocidental da capela.

Segue-se a figura do Tentador, Lúcifer, como um homem de cabeça para baixo amarrado, indicando estar agrilhoado no seio da Terra como Anjo destronado e caído do Céu para ter afrontado a Deus Eterno. Seguem-se as imagens da expulsão de Adão e Eva do Éden ou Jardim do Paraíso (reproduzido pelo jardim que cerceia esta capela em Roslin). Observa-se o tema pelo qual amiúde afirma-se a presença templária aqui: dois cavaleiros montados num só cavalo, simbolismo indicador das virtudes morais de pobreza e castidade, mas também de atributos mentais de conhecimento (catequese, exotérica ou “pública”) e de sabedoria (teologia, esotérica ou “privada”). Evoca-se esse reforçando-o com a existência da antiga Comandadoria Templária de Balantrodoch, próxima de Roslin. Poderia ser mas não são dois cavaleiros para um só cavalo: o que se vê claramente na escultura no capitel da coluna é um cavaleiro montado, armado com lança vestido de armadura normanda, e atrás dele um religioso empunhando a cruz. Tão-só representa o espiritual da Regra de Cavalaria.

O cavaleiro e o monge em Rosslyn

O cavaleiro e o monge em Rosslyn

Além das imagens de sibilas e patriarcas do Velho Testamento e de apóstolos e santos do Novo Testamento, concebidas de modo a fornecer uma leitura dupla, simples ou popular e erudita ou teológica, termo este implicando a gnose como saber divino, aparecem 14 pilares ou colunas, com três em destaque na extremidade oriental da capela, famosos por receberem títulos maçónicos por volta de 1736, altura em que John Clerk de Penicuik, maçom da Grande Loja da Escócia, incentivou James Sinclair a restaurar a capela. Foi assim que apareceram os nominativos “Pilar do Aprendiz” e “Pilar do Mestre”, mas não bate certo quando o pilar mais artisticamente elaborado não é o do Mestre mas o do Aprendiz. A lenda diz que o Mestre ficou de tal modo enciumado do Aprendiz que lhe desferiu um golpe de malhete rachando-lhe a cabeça ao meio…

Fábulas e fantasias à parte merece visita demorada esta Capela de Rosslyn, tanto pelo seu recheio artístico como pela memória única dando testemunho de um tempo em que os homens crentes conviviam no entendimento dos deuses no mais solidário e “mágico” pensamento cristão.

MARY´S CHAPEL, A LOJA MAÇÓNICA MAIS ANTIGA DO MUNDO

Quem passa em Hill Street junto à porta n.º 19, não deixa de reparar no invulgar do seu aspecto, desde as colunas jónicas laterais até um misterioso emblema gravado por cima da entrada, que tem sido motivo das mais desencontradas leituras por aqueles que desconhecem estar diante da Mary´s Chapel n.º 1 de Edimburgo, a mais antiga Loja maçónica activa do Mundo.

Mary´s Chapel - Loja maçónica

Esse emblema esculpido em pedra sobre a entrada principal portando a data 1893, nasceu de um projecto apresentado pelo Venerável Mestre Dr. Dickson no Lyric Club em 6 de Outubro desse ano e que se destinava a ser colocada aqui. Consiste num hexalfa dentro de um círculo tendo ao centro a letra G resplandecente. O hexalfa ou estrela de seis pontas com dois triângulos opostos entrelaçados circunscrito pelo círculo, designa a Harmonia Universal, a Alma Universal alentada pelo G raiado indicativo de Geómetra, o Grande Arquitecto do Universo, portanto, God ou Deus, que como Espírito (triângulo vertido) elabora a Matéria (triângulo vertido), ambos os princípios não prescindido um do outro (triângulos entrelaçados) para que a Grande Obra do Universo (a sua evolução e expansão incluindo todos os seres viventes dele) seja justa e perfeita, o que se assinala no círculo. Em linguagem maçónica, isso quer dizer que os trabalhos de Loja possuem rectidão e ordem. Em linguagem hermética ou segundo os princípios de Hermes, o Trismegisto, significa “o que está em cima é como o que está em baixo, e vice-versa, para a realização da Grande Obra”.

selo maçónico - edimburgo

Nesse emblema aparecem também muitas marcas em forma de runas pictas (isto é, a dos primitivos habitantes da Escócia, os pictos, que estabeleceram o seu próprio reino) e símbolos de graus maçónicos que vêm a designar em cifra, correspondendo à marca maçónica pessoal, os nomes dos Oficiais da Grande Loja da Escócia e da Loja de Edimburgo nesse ano de 1893 da qual esta Loja de Mary´s Chapel faz parte como número 1. Com efeito, entre os triângulos e o círculo aparece a sigla LEMCNºI, “Loja (de) Edimburgo Mary´s Chapel n.º 1”, e dentro dos triângulos 12 símbolos correspondentes aos 12 Oficiais desta Loja, enquanto os 4 símbolos fora do círculo designam os 4 Oficiais da Grande Loja presentes quando se aprovou esta peça artística. Como exemplo único evitando indiscrições, repara-se no H com o Sol Levante por cima: é a marca pessoal de George Dickson, Venerável Mestre desta Loja de Edimburgo em 1893.

Leva a designação actual de Loja de Edimburgo porque Mary´s Chapel (Capela de Maria), onde a Loja funcionou originalmente, não existe mais. Ela foi fundada e consagrada à Virgem Maria, no centro de Niddry´s Wynd, por Elizabeth, condessa de Ross (Escócia), em 31 de Dezembro de 1504, sendo confirmada por Carta do rei James IV em 1 de Janeiro de 1505. A capela foi demolida em 1787 para a construção de uma ponte no sul da cidade.

Esta Loja é a número 1 na lista da Grande Loja da Escócia (estabelecida em 30 de Novembro de 1736) por lhe ser muito anterior possuindo a acta de uma sessão maçónica datada de 31 de Julho de 1599, constituindo o documento maçónico mais antigo do mundo e num tempo de transição entre a Maçonaria Operativa e a Maçonaria Especulativa, posto a existência desta Ordem poder-se repartir por três períodos distintos: 1.º) Maçonaria Primitiva (terminada com os colégios de artífices romanos, os Collegia Fabrorum); 2.º) Maçonaria Operativa (terminada em 1523); Maçonaria Especulativa (iniciada em 1717). Por esse motivo, foi nesta Loja de Mary´s Chapel que William Shaw (c. 1550-1602), Mestre de Obra do James VI da Escócia e Vigilante Geral do Ofício de Construtor, apresentou os seus famosos Estatutos Shaw datados de 28 de Dezembro de 1598, apercebendo-se pelo texto que ele além de pretender regular sob sanções a Arte Real dos artífices, procurava estabelecer uma separação entre os maçons operativos e os cowan, isto é, profanos.

Acta do último dia de Julho de 1599 (Mary´s Chapel Lodge)

Acta do último dia de Julho de 1599 (Mary´s Chapel Lodge)

O facto de aqui redigir-se uma acta maçónica em 1599, pressupõe que a Loja é anterior a esse ano e estaria organizada e activa desde data desconhecida. Seja como for, esta também foi a primeira Loja maçónica antes de 1717 a admitir membros que não fossem construtores: Sir Thomas Boswell, Escudeiro de Auschinleck, Escócia, foi nomeado Inspector de Loja em 1600, o que constitui a primeira informação relativa a um elemento não profissional recebido em Loja de Construtores Livres. Outros autores dão o nome como John Boswell, Lord de Auschinleck, admitido como maçom aceito nesta Loja. Este John Boswell é antecessor de James Boswell, que foi Delegado do Grão-Mestre da Escócia entre 1776 e 1778.

As actas de 1641 desta Loja Mary´s Chapel igualmente indicam que maçons especulativos foram iniciados nela. Nesse ano foram iniciados Robert Moray (1609-1673), general do Exército Escocês e filósofo naturalista, Henry Mainwaring (1587-1653), coronel do Exército Escocês, e Elias Ashmole (1617-1692), sábio astrólogo e alquimista. Reconheceu-se aos três novos membros o título de maçons, mas como não gozavam dos privilégios dos autênticos obreiros, pois o cargo era somente honorário, foram denominados como accepted masons.

Ainda sobre Robert Moray, Roger Dache, do Institut Maçonnique de France, informa que aquando da sua iniciação Moray recebeu como marca maçónica pessoal o pentagrama ou estrela de cinco pontas, muito comum na tradição dos antigos construtores, com a qual se identificou bastante e a utilizou nas assinaturas de diversos documentos. Ainda sobre Elias Ashmole, G. Findel, na sua História da Maçonaria, diz que há uma confusão nas datas sobre a sua iniciação maçónica: Ashmole terá sido iniciado em 16 de Outubro de 1646 em uma Loja de Warrington, Inglaterra, mas o facto é que o próprio escreve no seu Diário ter sido iniciado em Edimburgo em 8 de Junho de 1641.

Em 1720, o artista italiano Giovanni Francesco Barbieri apresentou na Loja Mary´s Chapel um trabalho lavrado em reproduzindo com muita fidelidade a Lenda de Hiram, ou seja, o fenício Hiram Abiff que era o chefe dos construtores do primitivo Templo de Salomão, em Jerusalém. Sabendo-se que essa Lenda foi incorporada ao ritualismo maçónico cerca de 1725, conjectura-se que Giovanni possa ter sido um dos maçons aceitos da época e que a Lenda já era parte da ritualística maçónica em Mary´s Chapel desde muito antes.

Lodge of Edinburgh n.º 1 (Mary´s Chapel)

Lodge of Edinburgh n.º 1 (Mary´s Chapel)

Há ainda o registo da visita de Jean-Theophile Désaguliers (1683-1744) à Loja Mary´s Chapel em 1721, visita estranha do filósofo francês Vice-Grão-Mestre (em 1723 e 1725) da recém-formada Grande Loja de Inglaterra. Os maçons escoceses duvidaram do seu estatuto e sujeitaram-no a rigoroso inquérito em 24 de Agosto de 1721, até finalmente acreditarem nele e aceitarem-no com as regalias do cargo. Seja como for, não parece que as pretensões de Désaguliers tenham obtido o êxito que procurava, talvez por motivos de recusa de sujeição dos maçons escoceses aos maçons ingleses, o que recambia para a antiga questão independentista.

Foram ainda iniciados nesta Loja de Edimburgo o príncipe de Gales, depois rei Eduardo VII (1841-1910), e o rei Eduardo VIII (1894-1972), que abdicaria do trono britânico para poder casar com a americana Bessie Wallis Warfield. A caneta com que assinaram o documento da sua iniciação é conservada no museu desta Loja, que o visitante pode ver entre outros objectos relacionados com a longa história dos maçons de Mary´s Chapel.

Aqui fica, em síntese simplificada para o leitor não familiarizado com estes assuntos, a história da Lodge of Edinburgh n.º 1 (Mary´s Chapel), aliás, desconhecida de muitos maçons apesar de ser a mais antiga da Escócia e do Mundo.

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