Os Templários e o Islão (lição de história ecuménica) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Nov 18 2015 

Templo e Islão

Uma das acusações de maior peso no processo contra os Templários, sem dúvida, terá sido a das sua relações próximas com o Islão, que mais que heresia religiosa era politicamente um imperdoável pecado capital para o imperialismo de Roma. Por isto, mais que as controversas acusações de bruxaria e sodomia, foi esta acusação claramente política quem mais pesou na abolição assassina da Ordem do Templo. O papado e os reis, seus vassalos, não podiam permitir que houvesse intimidades com o agareno, alegando o risco desse atraiçoar quaisquer tratos e contratos com os cristãos e vir a perder-se os territórios e suas riquezas duramente conquistados na Terra Santa, e mesmo na Europa Ocidental. De maneira que, receoso e só tendo a calúnia para se defender e sobretudo ofender, o eclesiástico romano considerava inadmissível em toda a linha que um bom cristão pudesse conviver com um perro infiel.

A fonte original dessa acusação dos Templários terem se tornado mais islâmicos que cristãos, assim atraiçoando e até renegando a Fé católica que os legitimava e o seu chefe supremo, o Papa, foi Frederico II Hohenstaufen (1194-1250). Ele fora educado em sua menor idade pelos Templários (que repetiram a experiência com Jaime I de Aragão e Dinis I de Portugal), por cujos documentos sobreviventes desse tempo fica demonstrado que o pretendiam utilizar para fins de natureza sinárquica. Porém, já desde 1210 o rei e futuro imperador encaminhava por sua conta e risco esse ideal, mal compreendido e pior realizado, através de uma política expansionista por força das armas, o que lhe acarretou a inimizade do Templo e a hostilidade do Papado – Gregório IX excomungou-o de 1227 a 1229, e Inocêncio IV fez o mesmo em 1245. 

Em 1229 Frederico II coroou-se rei de Jerusalém, após ter negociado com os muçulmanos sunitas do Egipto a rendição e entrega incondicional da Cidade Santa, em prejuízo do espírito messiânico de conquista que havia inspirado as anteriores expedições de cruzados e completamente à margem da legalidade pontifícia. Nunca obteve o reconhecimento como rei de Jerusalém por parte dos Templários e nem tampouco do sultão do Egipto, que aqueles deverão ter auxiliado secretamente a surpreender e a vencer no campo de batalha o autonomeado rei de Jerusalém, na realidade, um rei-fantoche possuído do título mas não do reconhecimento oficial tanto do Papado como do Califado. Ficou-lhe o ódio e o desejo de vingança, a qual viria a consumar pela acusação da Ordem do Templo conspirar com o Islão, na Terra Santa, contra a Cristandade. Todos sabiam que Frederico II sempre fora péssimo cristão e excelente oportunista político, mas Filipe, o Belo, e Clemente V necessitavam de mais esse conspirador de peso, mesmo que o detestassem pessoalmente, no seu processo contra o Templo[1].

Frederico II Hohenstaufen cerca de 1240. Biblioteca Vaticana

Frederico II Hohenstaufen cerca de 1240. Biblioteca Vaticana

Durante o julgamento em Paris dos cavaleiros da Ordem Templária, foi invocado contra eles o episódio daquele guerreiro cristão franco recém-chegado a Jerusalém que os Templários repreenderam por ter molestado um árabe durante a sua oração, episódio que fora narrado em primeira mão pelo próprio molestado, o príncipe Usama ibn Munqidh, embaixador do sultão de Damasco cerca de 1175, considerado um amigo do Templo:

“Quando estava em Jerusalém – escreveu Usama – costumava ir à mesquita Al-Aqsa, a Cúpula da Rochedo, ao lado da qual há um pequeno oratório que os francos converteram em igreja. Sempre que entrava nela, que estava em poder dos Templários que eram meus amigos, eles colocavam o pequeno oratório à minha disposição, para que eu pudesse rezar lá as minhas orações. Um dia, tinha entrado e dito o Allahu akkbar e preparava-me para me levantar quando um franco se atirou a mim pelas costas, levantou-me e virou-me para que eu ficasse voltado para oriente. ‘É assim que se reza!’, disse. Alguns Templários intervieram imediatamente, agarraram o homem e afastaram-no do meu caminho. Mas assim que o deixaram ele agarrou-me de novo, obrigou-me a virar para o oriente e repetiu que era assim que se rezava. De novo os Templários intervieram e levaram-no. Pediram-me desculpa e explicaram: ‘É um estrangeiro que só chegou hoje e nunca viu ninguém orar para qualquer outra direcção que não fosse para oriente’. ‘Terminei as minhas preces’, respondi e saí estupefacto com o fanático.”

A acusação de amizades e até filiação encapotada ao Islão é ainda mais apertada quando se aponta a indesmentível simpatia dos Templários pelo Xiismo ismaelita, mormente as suas relações com esses “assassinos” fumadores inveterados de “haxixe” (invenção oitocentista que pegou universalmente, diga-se de passagem), ou seja, aqueles da Ordem dos Assacis (no singular árabe, assa, “guardião”) ou Ashashins (no plural árabe, hashîshiyya, “ervanários”, ordinariamente “assassinos”; e “ervanários” certamente com o duplo sentido do que seriam: “médicos” e “vegetarianos”), a sua pressuposta “irmã gémea”, fundada no Cairo em 1090 e terminada em 1271.

Além de darem a entender nada saber de política diplomática ultramarina, os inquisidores ainda percebiam menos do sentido último e supremo das relações do Templo com o Islão. O tempo de duração dos Assacis e a sua actuação foram praticamente idênticas às dos Templários, havendo mesmo uma complementaridade entre ambos e que só se pode explicar à luz da Tradição Primordial representada por ambas as Milícias, como que demandando uma maior aproximação, e mesmo fusão, socioespiritual do Oriente com o Ocidente à luz de um mesmo Espírito Salvífico, apesar de sob nomes diversos. Ademais, tanto os Templários como os Assacis proclamavam-se abertamente Guardiões da Terra Santa e Assassinos da Heresia. Eis duas intenções aproximativas de ambos e, principalmente, explicativas do sentido real do apodo depreciativo dos segundos.

Imagem 28[1]

Oriunda do Xiismo, a Ordem dos Assacis constituía-se o ramo esotérico, sufítico, e militar do Ismaelismo. Derivava do movimento dos Nizâristas e mantinha-se fiel à autoridade do primogénito do califa fatimida Al Mustansis, executado em Alexandria no século XI (1094). Fugidos do Egipto, os Assacis estabeleceram-se no Norte do Irão, no seio do maciço montanhoso de Elbrouz, na fortaleza de Alamût, e depois na fortaleza de Masyaf, perto de Hamah, na Síria, estruturados como sociedade fechada, secreta, sob a autoridade de um Mestre incontestado, o Sidna, “Senhor”, ou Cheikh el Djebel (ou Djabal, o “Todo-Poderoso”, prerrogativa do Arcanjo Mikael, Miqaïl ou Miguel) que era Hassan Al Sabah, o “Velho da Montanha” (Alborj, a “Montanha Primordial”, assim se associando ao Monte Meru dos hindustânicos),  tendo travado uma luta sem quartel contra o Sunismo, seu inimigo mortal, utilizando sistematicamente o terror político e militar que lhe granjeou a má fama perdurando até hoje[2].

É facto provado que a Ordem do Templo sempre privilegiou mais o Xiismo, mais místico e aberto, que o Sunismo. Como diz Bernard Marillier[3], “uma coisa é certa: a Ordem dos Assacis desenvolve-se à medida das conquistas cristãs e da implementação das fortalezas templárias, o que não foi obra do acaso, mas devia corresponder a um movimento paralelo, de ordem material e sobretudo espiritual ou supra-espiritual tendo por objectivo a realização de um “grande desejo” ligado a dados precisos provenientes da Tradição Primordial. De resto, é provável que o Templo tenha compreendido toda a vantagem que poderia tirar de uma aliança com os Assacis, primeiro contra os príncipes cristãos que se opunham ao seu poder no Oriente, donde o assassinato pelos Assacis do filho de Raymond de Tripoli, hostil ao Templo, aliança comum contra o príncipe de Antioquia – pela qual os Templários foram censurados pelo Papa Gregório IX em 1236 –, a seguir, na luta contra o seu inimigo comum, o Sunismo, por razões certamente diferentes: razões doutrinais para os Assacis, razões políticas e diplomáticas para o Templo: tratava-se, para este, de enfraquecer a corrente maioritária do Islão, logo, de afastar quanto possível a ameaça sobre o Oriente cristão mas também sob o seu próprio projecto de domínio da Terra Santa. […] Estas relações eram reforçadas pelos múltiplos laços que o Templo tecia pela via das relações económicas e financeiras e, como já vimos, por uma intensa actividade diplomática visando criar um espaço político e religioso cristão coerente, ou seja, um vasto conjunto unificado supra-espiritual. Estabeleceu numerosos tratados e acordos com os poderes muçulmanos e foi muitas vezes solicitado por estes como garante dos tratados assinados entre eles e os cristãos porque, como escrevia o cronista Aboul Faradj, os Templários eram “considerados como homens puros, incapazes de faltar à sua palavra”. Recordemos que foi graças aos conselhos do Mestre Robert de Craon e graças à sua amizade com o sultão de Damasco que o rei de Jerusalém, Foulques IV d’Anjou, conseguiu estabelecer uma aliança contra o sultão de Bagdad. […] Sublinhemos enfim outras estranhas semelhanças entre as duas Ordens: um mesmo período de duração no tempo, uma prática iniciática quase idêntica – onde só os nomes mudam, não o fundo – devido ao facto de que ambas se ligam a uma tradição implicando uma iniciação cavaleiresca da mesma natureza e a unicidade do sagrado que, para além das suas manifestações contingentes, permanece análogo no tempo e no espaço, e enfim uma destruição súbita perpetrada pelos poderes instituídos, os Mongóis e o sultão do Egipto Baibar para os Assacis em 1271, o rei de França Filipe IV o Belo e o Papa Clemente V para os Templários em 1312″.

Castelo e cidade de Alamût, Irão, centro principal da Ordem dos Asscis

Castelo e cidade de Alamût, Irão, centro principal da Ordem dos Assacis

Aparte as manobras políticas e militares do tempo, a verdade é que os Assacis em tempo algum foram sinónimo de “assassinos” e “fumadores de haxixe”. Esses epítetos caluniadores não vão além do século XIX, como já disse, e têm origem que poderia ser cómica se não pegasse a mentira dramática. Com grande propriedade, escreveu Chema Ferrer Cuñat[4]:

“Após a morte prematura do Iman Ismael – filho de Abraão através de Agar, serva de sua esposa Sara –, o seu irmão ficou com o poder em detrimento do filho de Ismael. Uma parte importante do Xiismo defendeu a legitimidade deste filho e assim nasceu o Ismaelismo. O movimento teve que manter-se na clandestinidade, sobretudo pela concepção esotérica e heterodoxa que mantinham na prática religiosa. Os ismaelitas defendem a existência de um sentido esotérico do Corão, que só se comunica àqueles que pertencem aos graus superiores da iniciação. Daí que também sejam conhecidos como batiniyya (de batin, “esotérico”) e talimiyya (de talim, “doutrina”).

“No ano 969 os ismaelitas alcançam o poder através da dinastia fatimida, que governará no Egipto durante mais de dois séculos. Isto colocará um grave problema, já que o delineado básico da sua religião não estava concebido para converter-se num culto aberto, oficial e exotérico (externo), e ainda menos para que fosse susceptível de chegar a todas as camadas da sociedade muçulmana.

“Esta corrente ismaelita sofrerá ainda mais uma cisão, no ano 1094, pouco antes da chegada dos cruzados ao Oriente, quando os sucessores do califa fatimida Al Mustansis (c. 1038-1094) se enfrentavam pelo poder. Surgem assim os Nizâristas, partidários de Nizâr, um dos filhos do califa fatimida. Muitos dos seguidores do Iman Nizâr acharam refúgio na fortaleza de Alamût, nas montanhas do Irão. Deste grupo de Nizâristas se constituiu a seita conhecida no Ocidente como a dos Assassinos.

“O fundador da seita dos Assassinos, em 1090, foi o carismático Hassan Al Sabah, conhecido como o “Velho da Montanha”.

“A chamada “seita dos Hashshashin” ou Assassinos derivou do Ismaelismo (Xiismo Septimano) e das doutrinas dos Sufis, consideradas desviadas e heréticas pelo Islão. Estavam também imbuídos do esoterismo greco-alexandrino, ou seja, do hermetismo e do neoplatonismo. Foi tal a sua fama que até o mesmíssimo Marco Polo (c. 1254-1324) relatava a Rustichello de Pisa, o escritor que plasmou as suas viagens no Livro das Maravilhas do Mundo, quem eram aqueles misteriosos cavaleiros islâmicos. Foi tanta a sua popularidade, por cometerem crimes e magnicídios entre os personagens mais relevantes do seu tempo, que, segundo outras teorias, o apelativo de hashshashin ou hashashiyyin (fumadores de haxixe, ou drogados em haxixe) derivou para o conceito de “assassino”. Ainda que o significado deste vocábulo estivesse vinculado ao de “comedores de erva”, a fama daquelas gentes desviou-se para o sentido que se lhe deu na Europa: em numerosas línguas ocidentais, um “assassino” é o criminoso que comete um homicídio. Resta assinalar, sem dúvida, que aos membros desse exército secreto que no Oriente também eram chamados ghulat (“fanáticos”) pelos seus inimigos, e que no Ocidente ficaram conhecidos como Assassinos, não se lhes fez de todo justiça. Parece que Marco Polo se confundiu ao ouvi-los chamar hashshashin. Acreditou o célebre viajante e comerciante veneziano que tal denominação se devia a que o seu cruel fanatismo era estimulado pelo consumo de haschis. Daí se derivou, nos romances de várias línguas, a palavra “assassino”. Porém, a verdade parece ser outra. “Se acreditarmos no grande escritor de origem libanesa Amin Maalouf, em seu livro magistral Samarcande, a palavra provém da forma como Hassan Al Sabah costumava chamá-los: Assasiyoum, ou seja, fiéis a Assa, que é dizer, ao fundamento da Fé. Eram também chamados os Fidaï, ou seja, “os que se sacrificam”.” (Cf. Manuel Caballero, O Velho da Montanha, in El Universal, 23 de Setembro de 2001). Portanto, uma forma mais correcto de denominá-los seria Assasis ou Assacis.

“Para os ismaelitas, a visão que se tem no Ocidente da suposta «seita dos Assassinos» é uma visão alterada e caluniosa. Abdelkarim Osuna afirma que o Ismaelismo Reformado de Alamût foi “um movimento de iniciação e cavalaria espiritual de beleza e amplidão comparáveis ao de S. Francisco de Assis, porém, pelo que se vê uma e outra vez, manchado pela necessidade de algumas mentes em tornar tenebroso o que não se compreende”. E acrescenta: “A lenda negra de Hassan Sabbah tem sido repetida numerosas vezes desde que foi recolhida por algumas crónicas cruzadas e por Marco Polo. Segundo relata Henri Corbin na sua História da Filosofia Islâmica, foi resgatada por Von Hammer-Purgstall no século XIX (Geschichte der Assassinen), o qual transferiu a sua obsessão pelas sociedades secretas aos fatimidas, e “atribuiu-lhes todos os crimes que na Europa atribuíam aos franco-maçons ou aos jesuítas”. Ele inventou o termo “seita dos Assassinos”, e a partir daí produziu-se uma etimologia quase cómica: S. De Sacy, em sua Exposé sur la religión des Druzes, sustém que “assassinos” provém de hashshashin: consumidores de hashish” (Abdelkarim Osuna, Fantasias sobre “o Velho da Montanha”, in Webislam núm. 144, 20 de Outubro de 2001). Teríamos, portanto, que “os Assassinos” na realidade representariam o arquétipo de “Guardiões da Terra Santa” dentro do mundo Islâmico, o mesmo que representariam os Templários dentro do Cristianismo.”

O estabelecimento de relações da Ordem do Templo com a Ordem dos Assacis parece remontar a 1118, ainda em vida de Hugues de Payens, pois é nesta data que se estabelece um tratado secreto através do qual o Mestre ismaelita se compromete a entregar Damasco a Balduíno II em troca da cidade de Tiro, com a garantia do Templo. Com o tempo estreitaram-se os laços entre ambas as Milícias, pois numerosos cronistas cristãos e muçulmanos assinalam visitas frequentes de dignatários templários a Alamût, contudo sem se saber que nível atingiam esses contactos e quais os fins visados, adianta Bernard Marillier (in ob. cit.).

Mas o que se sabe e é incontestável, é que mesmo não sendo alterados os princípios fundamentais da teologia católica pelo Templo, ainda assim muita metafísica islâmica veio a influenciá-la com conhecimentos e interpretações mais amplas e profundas, de onde a origem ultramarina do Hermetismo Templário certamente recebido dos Assacis e do Iman Madhi Al Sabah, representante directo da Tradição Primordial, isto é, da Sabedoria Iniciática das Idades. Paul du Breuil não deixou de notar[5]: “Os Templários foram rapidamente influenciados pela filosofia exótica [antes devera dizer, esotérica] e isto foi notado no processo, quando os inquisidores denunciaram práticas e conhecimentos heréticos, maometanos, maniqueístas e zoroastristas”.

Corte de Hassan Al Sabah, o "Velho da Montanha"

Corte de Hassan Al Sabah, o “Velho da Montanha”

Havia, com efeito, várias semelhanças flagrantes entre as estruturas hierárquicas dos Templários e dos Assacis. Estes possuíam duas bases: o estudo do Corão, num sentido profundo e restrito, hermético, ensinando que Allah se confunde com a Sabedoria Universal cujo atributo principal é o Conhecimento, que no crente deve ir do raciocínio à intuição, e a nobre arte das armas (fatah); assim também o Templo procedia de modo idêntico no manuseio da Bíblia, principalmente no referente aos Profetas e ao Evangelho do Apóstolo S. João, onde a interpretação do espírito primava sobre a letra, o símbolo era penetrado para só ficar o seu ocultado sentido, isso a par do manuseamento das armas com nobreza e distinção. Tal como os Templários possuíam três votos perpétuos (pobreza, obediência e castidade), também os Assacis os tinham: para eles o caminho espiritual (tariqat) implicava três preceitos fundamentais, como sejam: a pobreza espiritual (fair), a postura espiritual (jerqueh) e a lembrança contínua de Deus (zekr).

Até nas vestimentas eram semelhantes: vestes brancas para os Templários e os Assacis, cruz vermelha para aqueles e cinto ou faixa e turbante vermelhos para estes. Já a sua hierarquia era rigorosamente paralela: o Grão-Mestre para o Templo e o Cheikh El Djebel para os Assacis; o Grão-Prior e o Daïkebir; o Prior e o Daï; o Cavaleiro e o Rafik; o Escudeiro e o Fidawi; o Servente e o Lassik. O que resulta na tabela seguinte comparativa das semelhanças entre as hierarquias dos Assacis e dos Templários:

esquema- templários assacis

Observa-se a analogia e os pontos de encontro entre as duas Cavalarias, cujo espírito de demanda da Perfeição nelas era o mesmo e o que certamente as interligava: à Militia e aos Miles cristãos correspondia a Futouwwat e os Fatâs islâmicos cujo arquétipo era Ali, o “Cavaleiro por excelência”, genro de Mahometh (ano 624), uma e outra conhecendo e exercendo rituais similares (jejum, penitências, investiduras, códigos de honra, etc.). Tais laços foram longe, porque se houveram Templários recebidos com todas as honras nas cortes muçulmanas, igualmente houveram príncipes islâmicos, como Saladino e os sultões de Damasco e do Egipto, que foram investidos na “Cavalaria cristã”, conforme estabelece um cronista cristão desse tempo: “Sei de boa fonte que vários sultões foram recebidos de bom grado e com grande pompa na Ordem, e que os próprios Templários lhes permitiram celebrar as suas superstições com a invocação de Mahometh”[6].

Guerreiro Assaci do Líbano

Guerreiro Assaci do Líbano

A esse conjunto de contactos falta juntar os laços espirituais que a Ordem do Templo mantinha com outros grupos muçulmanos, como igualmente com judaicos e cristãos orientais (como o Zoroastrismo convertido em Igreja Nestoriana ou Caldeu-Assírio-Aramaica no Oriente, e também com a Igreja Copta ou Egípcia e os vários movimentos gnósticos e sufis povoando a orla mediterrânea, enquanto na Europa deu-se de relações com o Maniqueísmo e o Catarismo, desde o Sul de França até ao extremo ocidental do continente).

Essa inter-relação política, cultural e sobretudo espiritual dos Templários com outros povos, prova manifesta do seu amplo espírito católico, ou seja, “universalista” de acordo com o próprio significado greco-latino do termo, pauta-se inteiramente pelo que está escrito nos pressupostos Estatutos Secretos da Ordem do Templo, escritos por Mestre Roncelin: “Sabei que Deus não faz qualquer diferença entre as pessoas, cristãos, sarracenos, judeus, gregos, romanos, francos ou búlgaros, porque todo o homem que reza é salvo por Deus”. – 2.ª parte, artigo 5.

Essa «heresia» política, sobretudo, foi colada pelos acusadores à outra «heresia» religiosa: a dos Templários não terem nas suas igrejas a imagem de Cristo cravado na Cruz, e mesmo esta ser alvo de pouca devoção. Já disse noutra parte que os cavaleiros-monges adoravam sobretudo o Cristo Ressuscitado, simbólico do Espírito vencedor da carne, esta representada na Cruz expressora da Matéria e do Homem nela incarnado, pelo que este representava a personalidade temporal da Individualidade intemporal que não era Jesus Homem mas o próprio Cristo Deus, a cujo Advento consignaram toda a sua Obra que nisto, aqui sim, foi verdadeiramente Teúrgica. Os mesmos presumidos Estatutos Secretos o confirmam: “Porque o Filho de Maria e José foi santo, livre de todo o pecado e crucificado, nós veneramo-Lo em Deus; mas a madeira da cruz consideramo-la como o sinal do animal de que fala o Apocalipse”. – 1.ª parte, artigo 20.

O texto desses Estatutos, a ser verdadeiro, prova a existência de uma pressuposta doutrina secreta no seio da Ordem do Templo. Eles foram dados à luz do conhecimento público quando no limiar do ano 1780 Friedrich Münter, bispo de Copenhaga, fez a sua descoberta capital na Biblioteca Corsini dos Arquivos do Vaticano. Diz que aí descobriu um pergaminho in 4.º, repartido em quatro partes, ornado com a Cruz do Templo e cada página composta por duas grandes colunas em escrita latina.

A primeira parte não é mais do que a Regra primitiva da Ordem, copiada à mão por um tal Mathieu de Tramlay “no dia de São Félix do ano 1205”, e com aditamentos do mesmo. Conserva-se em Roma, na Biblioteca Corsini.

A segunda e terceira partes, assinadas pelo copista Robert de Samfort, que efectivamente foi Procurador do Templo em Inglaterra, são datadas de 1240. Compõem-se, respectivamente, por trinta e vinte artigos, que o descobridor Münter agrupou sob a indicação: “Aqui começa o Livro do Baptismo de Fogo, ou Estatutos Secretos, redigidos para os Irmãos pelo Mestre Roncelinus”.

Finalmente a quarta parte, que Münter intitulou: “Aqui começa a lista dos sinais secretos que o Mestre Roncelinus reuniu”, dando avultadas indicações criptográficas.

Realmente houve um Templário chamado Roncelinus ou Roncelin du Fos, referido pelos inquisidores tanto em Chinon como em Paris, o que pressupõe a-priori a sua existência real. José Medeiros, responsável pela edição portuguesa desse documento[7], diz: “O único templário conhecido com esse nome foi o provençal Roncelin do Fos – segundo alguns, recebido em 1281 – mas igualmente mencionado como Mestre da Comenda de Tortosa, na Síria, em 17 de Junho de 1242. Segundo Charles d’Artefeuil[8], Roncelin foi recebido na Ordem em 1267 pelo cavaleiro Jean de Pellissier”.

O bispo Münter não iria ficar muito tempo na posse desses documentos. Numa carta escrita ao seu amigo Wilke, que preparava uma História dos Templários, revelou que a maior parte deles desapareceram da sua posse sem saber como. Foi somente em 1877 que o sábio alemão Mertzdorff, que era maçom, publicou as três últimas partes do manuscrito pressupostamente descoberto pelo supracitado bispo luterano Münter (que era também maçom, segundo Aldo Bonfiglio[9]), ao ter a sorte de os encontrar em Hamburgo num rolo dos arquivos privados da Loja maçónica dessa cidade a quem haviam sido oferecidos por um tal dr. Buck[10].

Friedrich Münter (14.10.1761 - 9.4.1830)

Friedrich Münter (14.10.1761 – 9.4.1830)

Pela leitura do texto em português recentemente publicado (até ao momento só conhecia a sua versão francesa), depreende-se com facilidade que o mesmo desobedece quase inteiramente aos cânones tanto ortodoxos como heterodoxos do Templo, impondo-lhe usos e costumes que na época eram universalmente desconhecidos, e se acaso não foi fabricado sobre as calúnias e suspeitas tornadas públicas pouco antes e após a extinção da Ordem, contudo parece obedecer à estrita necessidade de legitimar a Franco-Maçonaria como herdeira directa da Ordem do Templo, o que não é verdade em toda a linha senão de maneira muito indirecta e tardia.

O próprio José Medeiros acaba ponderando ante o mais que controverso documento tal como está apresentado hoje: “Se a Regra Secreta é um documento falso do século XVIII,   ajudar-nos-á a compreender a necessidade de justificação de uma ligação à Ordem do Templo de algumas das Sociedades Filosóficas que se consideravam como guardiãs da Tradição do Ocidente. Se, na realidade, é um documento escrito no século XII, por Roncelin do Fos, a sua primeira tradução deveria ser revista, para o expurgar de palavras e interpretações pouco correctas”.

Fica-me a impressão de que o bispo Münter, se acaso não inventou esse documento de Hamburgo, certamente acrescentou elementos de sua lavra exclusiva ao mesmo que pressupostamente descobriu, assim tendo alterado consideravelmente a suposta redacção latina original para que ficasse como ora se apresenta. A verdade é que o Mestre Jacques de Molay sempre negou a existência de uma Ordem interna e de uma Regra secreta no Templo. E isto parece-me sincero, porque o que se passaria não seria mais que o aprofundamento do entendimento teológico por parte dos mais doutos que, para não afectarem a compreensão geral e ortodoxa da catequese, reservariam para si esses conhecimentos heterodoxos que, parece, seriam registados em bezerras, isto é, livros de apontamentos pessoais contendo pensamentos metafísicos de índoles diversas que na época teriam influenciado alguns dos Templários. Obviamente que tais livros, espécie de diários pessoais, eram reservados do conhecimento dos demais, tanto por serem íntimos como para não originar afectação de natureza alguma.

É a única maneira plausível que encontro para explicar os numerosos depoimentos que vão nesse sentido pelos Templários detidos (todos eles confessando não terem visto directamente mas, tão-só, terem ouvido de outréns, os quais, por sua vez, acabando por confessar também terem ouvido… e assim arrastando-se o círculo vicioso do “diz que disse”), parecendo ser a única excepção a do Preceptor do Templo de Laon, Gervais de Beauvais: “Havia na Ordem um regulamento tão extraordinário, sobre o qual tinha de ser guardado um tão grande segredo, que qualquer Irmão preferia que lhe cortassem a cabeça a revelá-lo”. E o seu advogado, Raoul de Presles, corrobora que o Irmão Gervais “possuía um livrinho com os estatutos da sua Ordem, que mostrava de boa vontade, mas tinha outro mais secreto que nem por todo o ouro do mundo o mostrava”[11]. Tal livro secreto seria uma bezerra, o caderno de apontamentos pessoais do género que Roncelin du Fos eventualmente, a ser verdade, utilizaria para escrever a sua “regra secreta”.

Aquando do processo contra o Templo, alguns desses documentos estritamente pessoais, muitos deles talvez que praticamente coevos dos inícios da Ordem, deverão ter chegado à posse do Papa Clemente V que os terá feito desaparecer. Talvez também esteja neles a causa de na altura do julgamento se ter inventado a lenda dos “dois cavaleiros adoradores do diabo”, inspirada na figura de dois guerreiros para um só cavalo tal como estava gravada nos selos templários dos sécs. XII-XIII, tendo em cercadura a sigla latina: Sigillum Militum Xpistii (“Selo da Milícia de Cristo”). Esse selo, que foi igualmente gravura de numerosos documentos do Templo assim como de moeda corrente, tendo percorrido a Europa e o Médio Oriente através do sistema bancário que ele fundou, acabou servindo aos inquisidores como prova cabal e argumento positivo de terem havido práticas sodomitas e demoníacas por parte dos acusados. A lenda é a seguinte:

Dois cavaleiros cruzados marchavam para o combate montados num só cavalo, pois eram muito pobres e, como bons amigos, compartilhavam a mesma montada. Antes de se enfrentarem com os agarenos, um deles encomendou-se a Jesus Cristo e o outro, a Lúcifer. Aconteceu que o cavaleiro que se encomendara a Jesus Cristo ficou ferido, enquanto o seu companheiro, que se havia entregue a Lúcifer, saiu ileso do combate. Este convenceu o amigo ferido, face ao ocorrido, do poder superior que tinha um amo como o Diabo, e logo aquele se entregou nas mãos de tão poderoso senhor. Depois, como ambos buscavam poder e glória, fundaram uma Ordem de Cavalaria que puseram sob a protecção de Lúcifer, alcançando em pouco tempo enormes honras e riquezas como nunca se viu em toda a Terra.

Carta templária alemã com a gravura de dois cavaleiros para um só cavalo (século XIV)

Carta templária alemã com a gravura de dois cavaleiros para um só cavalo (século XIV)

Apesar do óbvio sentido malévolo que os inquisidores lhe incutiram, a lenda não deixa de igualmente sugerir o entendimento dúplice que os Templários tinham da sua Ordem: desde o mais imediato e exotérico, público, rendendo graças ao Papa e a Deus, ao mais transcendente e esotérico, restrito, prestando obediência ao Mestre e ao Diabo, isto é, à Sabedoria Diáblica ou Iniciática que, nem por isso, deixa de ser igualmente Divina, até mesmo mais comparativamente ao entendimento simples ou popular. Um e outro entendimentos estavam interligados, pois não raro quem se ligava a uma Religião aprofundava o seu conhecimento por igual filiação a uma Ordem. Esses dois cavaleiros chamavam-se Hugues de Payens e Geoffroy de Saint-Omer, aquele “convertido” por este. E ambos acabaram “convertendo” os seus sete companheiros fundadores originais da Milícia, um deles Arnoldo ou Arnaldo[12].

Esse último é identificado ao antecessor de D. Gualdim Pais no Mestrado da Ordem em Portugal, ou seja, D. Fr. Pedro Arnaldo da Rocha, 3.º Mestre Provincial natural de Santarém, comendador da cidade e superintendente da construção da sua igreja de St.ª Maria de Alcáçova, fundada em 1154, segundo a notícia dada por Viterbo[13]: “Assim consta da inscrição que depois da morte de D. Hugo e de D. Pedro Arnaldo, se mandou exarar naquela igreja: “Ano da Encarnação – 1154. Segundo a presente carta VII. Reinando D. Afonso, filho do regente Conde D. Henrique, e sendo casado com a Rainha Mafalda, foi esta igreja fundada em honra da St.ª Virgem Maria, Mãe de Cristo, pela Milícia do Templo de Jerusalém, sendo Mestre Hugo e Pedro Arnaldo o seu Gerente. Que as suas almas repousem em paz. Amém”.”

Na inscrição, que traduzo do latim, está escrito o nome grego Petro, Pedro, singular masculino de Petra, Rocha, logo seguido de Arnaldus, o que dá o nome completo de Pedro Arnaldo da Rocha. Foi ele quem recebeu da rainha D. Teresa a primeira doação portuguesa ao Templo, cerca de 1125, antes mesmo deste ser reconhecido oficialmente pela Santa Sé: os bens e termos da vila de Fonte Arcada, em Penafiel. Ainda segundo Viterbo, foi o primeiro Mestre português a quem D. Afonso Henriques isentou de tributos, dando-lhe direitos extraordinários em 1157.

Segundo Frei Bernardo da Costa[14], D. Fr. Pedro Arnaldo da Rocha veio a encontrar a morte gloriosa na batalha da conquista de Alcácer do Sal, pelejando ao lado de D. Gualdim Pais e de D. Paio Peres Correia, Mestre da Ordem de Santiago. Tombar no campo da honra era a mais gloriosa morte que um Templário poderia encontrar, sobretudo aqui no extremo ocidental da Península Ibérica, por participar até à última consequência do sentido mítico-bélico do Pelágio, ou seja, da demanda activa do Saber Arcano neste “Porto do Graal”, assim considerado Terra Santa de Maria, dos Anjos, Heróis e Mártires, na peleja contra a Ignorância e o Mal tão somente simbolizados – não que o fosse – no agareno ocupante de uma terra não sua.

Quanto ao facto de Pedro Arnaldo ter sido um dos fundadores da Ordem em Jerusalém e nomeado Procurador da mesma na Província de Portugal, a verdade é que o seu nome aparece como Frei Arnaldo na assinatura do foral de Redinha, em 1159. Posteriormente Frei Bernardo da Costa, certamente recorrendo a documentos alcobacenses hoje desaparecidos, viria a escrever na sua História da Ordem de Cristo, pp. 125-126: “O mesmo Ferreira [Alexandre Ferreira, nas suas Memórias e Notícias da Ordem dos Templários] repete no segundo tomo e nos dá a notícia de outro Cavaleiro, e diz, referindo a Faria [Manuel de Faria e Sousa (1590-1649), Epítome de las Historias Portuguesas, 1.º de 2 vols., Madrid, 1628]: “D. Arnaldo foi um dos primeiros nove instituidores dos Templários”. Repete o mesmo Ferreira: “E por autoridade deste grande escritor foi Arnaldo um dos nove cavaleiros gloriosos instituidores da Ordem”. […] Bem pode ser que, nesta parte, diga melhor Brandão [Fr. António Brandão, no seu 1.º de 2 vols. da Monarchia Lusitana, Lisboa, 1632: “E assim parece que seria dos primeiros em Portugal, e não na Palestina”], e que na verdade Arnaldo da Rocha seja um dos primeiros Cavaleiros Templários, não dos da Palestina, mas de Portugal. […] Ele o faz, dizendo ser companheiro de D. Gualdim Pais, primeiro Mestre neste Reino no ano de 1126. […] Porém não podemos duvidar que fosse um dos primeiros Cavaleiros que entrasse em Portugal a estabelecer a Ordem”.

Reforça o facto de D. Fr. Pedro Arnaldo ser o Mestre que participou na fundação da Ordem, o caso importante do Templo se firmar primeiro em Portugal e só depois nos reinos de Espanha, segundo o mesmo Viterbo (ob. cit.), e isso lhe concedia primazia peninsular que decerto não nasceu do nada, mas e tão-só por um dos fundadores do Templo ser português.

Também se pretendia ser português um outro cavaleiro que igualmente seria um dos fundadores da Ordem do Templo: Gondomare, Gondemare ou Gondemas. Ideia seiscentista e setecentista, certamente nascida para reforçar a importância primaz do Portugal Templário e soberano ante as pretensões políticas de Espanha e da restante Europa em o dominar, ganhou força posteriormente por via de um romantismo filológico, pois a única ideia plausível que encontro é a do nobre cavaleiro franco fundador do Templo eventualmente ter acabado por instalar-se em Gondomar, nas proximidades do Porto, e daí a toponímia do lugar a qual, mesmo assim, é muitíssimo anterior ao nome do mesmo, sobre a qual já disse[15]: “Com efeito, o orónimo e topónimo Gondomar divide-se em gundu, “guerreiro”, termo derivado do antigo dialecto alto-alemão do grupo ocidental, wuntu, sonorizado guntu, e maru, termo universalizado na língua japonesa significativo de “mar”, mas que, na prosódia hindu-germânica do sânscrito mahu e maha, significa “grande”. Mahu entrou no grego sob a prolação mega, “grande”, e no latim como prefixo de “grandeza”: magno. Entre nós tomou a forma mago, como na expressão “Rei Mago”, que quer dizer “Grande Rei”. Em resumo, Gondomar possui a significação primitiva de Guerreiro Grande, solar ou celeste em tudo semelhante ao S. Jorge, “Grande Obreiro”, “Supremo Lavrador”, de que fala a hagiografia e retrata a iconologia religiosa”.

Também na Europa, na Península Ibérica, mormente em Portugal os Templários deram-se de intimidades com o Islão, primeiramente através dos moçárabes, os cristãos submetidos aos árabes após estes conquistarem a Península Ibérica liderados por Tarique, no ano 711, cuja entrada fizeram pelo pelo Sul. Os moçárabes eram os “como que árabes”, cristãos sujeitos aos usos e costumes arábicos, mesmo que mantendo o seu rito católico, um misto de ariano-visigótico e greco-bizantino (donde se chamar ao rito moçárabe igualmente de hispânico), no interior dos seus guetos, as al-kênissah ou caneças (“assembleias de cristãos”), tendo a casta moçárabe começado a florescer entre os séculos VIII-IX como cristã inserida e subordinada à estrutura social muçulmana, excepto na religião, ainda que a Cruz e o Crescente em muito se identifiquem por meio dela.

O moçárabe, nome aliás escrito na forma plural, aparece pela primeira vez no foral que Afonso VI concedeu (1101) à cidade de Toledo, onde o monarca refere os súbditos quos vulgo mozarabes vocitant, de onde se infere que o nome carecia de uso nas instituições culturais e jurídicas[16].

Durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, o estado islâmico limitou a propagação judaica e cristã aos sobreditos guetos ou lugares de delimitação fixa. Assim, a paróquia é o gueto dos cristãos como a alfama é o asilo ou gueto dos judeus (após a Reconquista cristã e imitando o modelo islâmico, criar-se-ia o gueto da moirama, ou seja, a mouraria), com a diferença de que a paróquia – nome gótico – se designa, no direito muçulmano, por al-kenîssah ou kulicia. Al-kenîssah não é apenas um templo, nem uma capela, nem uma ermida no monte. É, mesmo na forma evolutiva da palavra (caniça, caneça), uma cabeça de assembleia cristã: a sede paroquial[17].

O desenvolvimento da rede paroquial durante a Reconquista cristã alerta para a função da freguesia nas acções da conquista e consolidação do domínio das caneças contra as assembleias mesquitais. Algumas dessas caneças feneceram, ocupadas pela moirama e logo transformadas em mesquitas e mesquitelas, enquanto outras sobreviveram durante os séculos de ocupação. Caneça, ou caneças, topónimo moçárabe, é uma igreja paroquial aonde acorrem semanalmente as populações circunvizinhas, as populações desse gueto cristão tornado mais importante em regime de hábito disperso, como sucedia na região estremenha, mormente nas terras saloias de Loures, Mafra e Sintra[18].

Dentro da caneça o moçárabe é cidadão de pleno direito, freguês, filho da Igreja (feligrês, corruptela de fillius Ecllesia), mesmo que a sua mulher sirva de lavadeira ao califa.

O modelo jurídico islâmico por sua perfeição aristotélica serviria de inspiração ao senado latino dos cristãos, reformulado por D. João I mas cuja origem recuará a D. Afonso II[19]. O senado islâmico era a shari’a, o tribunal no qual o cádi ou juiz agia como representante do califa. Por via de regra, era um muçulmano do sexo masculino, de bom carácter e comprovado saber. Embora a sua jurisdição abrangesse ao mesmo tempo a lei civil e a lei penal, na prática o Estado encarregava-se da maior parte da última. Ora, era exactamente isso que o senado fazia: mantinha a lei civil e só aplicava a penal após ordens expressas do Estado vigente.

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Foi através do moçarabismo que os Templários nesta parte da Península Ibérica recolheram e assimilaram parcela enorme da cultura árabe, principalmente a vertente filosófico-religiosa, para não falar da político-militar. Nessa primeira vertente, entra aqui a presença moçarábica da santa mártir Íria, diminutivo de Irene, a Íris grega que, em egípcio cóptico, associa-se a Ísis, sendo exactamente ela, por sua natureza cristã e arábica, o ponto de encontro entre o eclesial e o mesquital.

Padroeira das cidades templárias de Tomar e Santarém (corruptela filológica de Santa Irene), Íria foi a mártir portuguesa nascida junto às margens da velha Nabância (Tomar, sendo curioso que num quadro de Gregório Lopes na igreja de S. João Baptista desta cidade, “A cabeça de João Baptista”, Salomé e Herodes estejam à mesa onde um prato apresenta a curiosidade de um nabo, ou nabão, alusão à memória nabantina do primitivo burgo) nos finais do século VII, segundo a sua tradição hagiográfica, sendo hoje evocada a 20 de Outubro. Mais vocacionada a uma vida de adoração e contemplação mística, mantendo a incorrupção da virgindade espiritual, que ao casamento carnal, recusou a proposta de um mancebo árabe que por ela se tomara de amores, e ele, possuído de paixão desesperada, deu-se em fatal cegueira de amor e degolou-a com a sua espada, de seguida atirando o corpo ao rio Nabão. O cadáver veio corrente abaixo até Scalabis, indo tomar o nome da santa mártir – Santarém. Após o achamento do corpo santo, verificou-se faltar-lhe a cabeça. Seria encontrada quase à boca da ribeira de Sacavém, diante do povoado de Azóia, cujo nome viria a ser secundado pelo da santa – Santa Íria de Azóia –, esta que acabaria elegida imagem ideal do Amor supremo tanto por cruzados como por crescentados, fazedores da Guerra Santa (Al-Fatah através da Jihad ou Crescentada) no Oriente (Chark) e no Ocidente (Gharb) da Península Ibérica, batendo-se pela posse efectiva dos lugares sagrados assim consignados pela Tradição Primordial.

Santa Iria, Tomar

Santa Iria, Tomar

Quanto ao termo azóia, os eruditos derivam-no do arábico az’zawiya, “canto angular”. Para se entender o que isso significa, ter-se-á de recorrer à cultura religiosa arábiga ou árabe erudita.

O equivalente muçulmano das ermidas cristãs são as cubas e os seus habitantes, os santões, espécie de marabutos, proliferaram no Andaluz nos séculos VIII-IX. As cubas em breve se transformaram em comunidades, algumas vezes com muita gente, comunidades essas chamadas az’zawiyas, “azóias”, topónimo frequente a sul do Mondego. A azóia era um mosteiro, espécie de convento, onde se treinavam milícias maométicas, aptas para a guerra islâmica, que passa pela educação da alma, escolástica corânica agregada em madrasa que os cristãos chamariam de “carvoeira”, carvoaria” e até “bafometaria”.

As casas onde as azóias existiam inspiravam-se na arquitectura árabe, casada com os condicionalismos locais, e muitas delas foram incorporadas em edifícios cristãos posteriores (e tem-se na freguesia de Santa Íria de Azóia as ruínas do convento e capela dos Monjões, possivelmente dos alvores da Nacionalidade), quando não simplesmente transformadas em eremitérios e ermidas cristãs. A casa é, porém, o menos. O mais é o espírito da azóia, ou seja, a Companhia de Mahometh, meio militar, meio mística, verdadeira Cavalaria Ideal entre dois mundos: o mundo do Islão e o mundo a que a Guerra Santa ou Al-Fatah tinha de ser levada, para maior glória de Allah.

As azóias começaram, algumas vezes, por simples eremitérios em torno de um santão ou monjão, como Maruani al-Xintari, coevo do Conde D. Henrique, peregrino, eremita, pregador e asceta da Serra da Lua, Al-Shantara ou Sintra.

A tradução de azóia como “canto angular” terá a ver com a posição estratégica em que era sempre instalada, como se verifica no concelho de Sintra onde se avista a aldeia da Azóia, junto ao Cabo da Roca nas faldas de São Saturnino da Peninha da Serra, e também na freguesia de Santa Íria, na zona oriental do concelho de Loures, defendendo-a das possíveis incursões inimigas pela margem ribeirinha. Isso leva-me ao castelo de Pirescoxe, distado cerca de 1,5 km dessa freguesia, cujo povoamento cristão recuará aos inícios do século XIII, à época de D. Paio Peres Correia, Mestre da Ordem de Santiago, de quem o dito castelo herdou o nome: Pires, ou Peres, Coxe, ou Correia, em arábigo[20].

Além da hagiografia tradicional de Íria, parecendo inspirada nessa outra hermética de Ísis, apercebe-se que alguns dos Templários acaso se terão dado ao exercício da Alquimia (Allah-Chêmia, “Química Divina”), e a ter acontecido decerto aprenderam junto dos sábios do Islão que viviam reclusos em cubas e em azóias. Isso reporta-me à recomendação feita aos Irmãos do Templo nos artigos 7 e 19 da sua pressuposta Regra Secreta: “Tende em vossas casas lugares de reunião vastos e escondidos a que se terá acesso por corredores subterrâneos para que os Irmãos possam ir às reuniões sem o risco de serem perturbados… É interdito, nas casas onde os Irmãos não são Eleitos, trabalhar certas matérias pela Ciência Filosófica e, portanto, transmutar os metais vis em ouro e prata. Isto nunca será feito senão em lugares escondidos e em segredo”.

A verdade é que símbolos, emblemas e imagens de indiscutível significado hermético, muitos deles pertencentes ao imobiliário tradicional da Alquimia, decoram aqui e ali o Roteiro Templário de Norte a Sul de Portugal. Talvez que a prova mais flagrante se encontre na igreja-matriz da Golegã (próxima do castelo templário da Cardiga), construção templária reconstruída no século XVI por uma Confraria de Mestres-Canteiros liderada pelo francês Diogo Boytac, sob a protecção dos Freires de Cristo da Comenda da Cardiga[21]. Encontra-se aí, numa das faces do púlpito manuelino e inscrita em caracteres góticos, precisamente a palavra Alquimia, e como se não bastasse, lê-se noutra face: Mariz.

Ora, desde pouco antes da Golegã a Tomar o itinerário apresenta filologicamente as características de uma geografia sagrada por onde se realizará uma Alquimia Mística, como consecução derradeira da Grande Obra no Homem e na Natureza, aqui, no Luso e na Lusitânia: Salvaterra de Magos (a “Terra Salva”, a “Terra Essencial ou Vermelha” da Matéria-Prima que os Magos ou Filósofos do Fogo terão de manipular argilaticamente para dela construírem um Homem Novo, mais justo e perfeito mental, moral e corporalmente; “Terra Salva” que na Bíblia se aponta em Caná, lugar onde o Noivo transformou a água em vinho, e, curiosamente, tem-se próxima a Salvaterra a vila dos vinhos fortes, Cartaxo), Golegã (ou “Gólgota”, onde o seco e o húmido se atritam ou crucificam, a fim de resultar a quintessência da ressurreição da Alma Universal que a tudo anima como Fogo da Vida, Ignis Vitae), Cardiga (ou “Cardo”, planta joanina emblemática tanto da Fénix – símbolo da Alquimia – como do Fogo Sagrado), Atalaia (a “Vigia” do Espírito Santo, onde já se percepciona a Iluminação do Adepto de retorno ao Éden) e Tomar ou Tat Maris (o “Mar Universal”, representativo do Éter ou Akasha, o que é representado na Casa Eclesial de Santa Íria, Ísis ou Maria, onde se celebra o Pentecostes e o Espírito Santo se revela como a vivíssima Pedra Filosofal, expressiva da Iluminação Interior do Adepto).

Essa relação mística com o mar e a navegação nele, tanto por cristãos como por islâmicos, tão-só traduz o movimento do Espírito Santo por sobre as Águas Primordiais da Criação. Niffari, um asceta do Islão do século X que morreu no Egipto, deixaria escrito no seu tratado A Revelação do Mar[22]: “Deus me ordenou que contemplasse o mar, e eu vi os navios […]. Eles [os navegadores] se movem porque Deus os faz mover-se, e as suas palavras são as palavras de Deus que deslizam sobre as suas línguas, e a sua visão é a visão de Deus que entrou em seus olhos”.

Esse particular trajecto ribatejano, em muito semelhante a tantos outros feitos sagrados existentes ao longo do Roteiro Templário Português, acaso terá o seu sinal comprovativo na célebre “Pedra de Roseta” grega que os Templários parecem ter adoptado, como se vê inscrita nas paredes das celas que acabaram sendo os seus cárceres, nos seus castelos franceses de Chinon e Jarnac, antes do julgamento e sentença final em Paris:

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Cuja tradução (segundo o manuscrito grego 2511 depositado na Biblioteca Nacional de Paris), é: “O semeador está à charrua. O seu trabalho faz mover as rodas”.

Exposta criptograficamente, trata-se de uma referência óbvia à agricultura, mas neste caso à Agricultura Hermética, ou seja, a própria Alquimia, cujo semeador ou adepto, percorrendo as doze fases da Grande Obra (Ergon), persegue a colheita, que é dizer, a Iluminação Espiritual como meta suprema que os Templários retratavam no próprio Cristo Ressuscitado, feito assim a divina Pedra Filosofal, isto é, o Pão da Vida Eterna.

A verdade é que essa “Pedra de Roseta” viajou por toda a Cristandade e as cinco letras do SATOR acabaram sendo interpretadas, pelos eclesiásticos da Igreja Copta, como representativas dos cinco cravos da Cruz de Cristo. Foi assim que a lenda levou a grafar na capela do “caçador” Santo Eustáquio, em Bréscia, que os pastores que foram adorar o Salvador recém-nascido chamavam-se Sator, Arepo e Teneton.

Ao ser posto em cruz esse quadrado encerra a palavra TENET (“movimento”), que será a chave do criptograma como imagem codificada de Deus, em volta da qual todas as coisas se fazem e desfazem numa perfeita repartição, numa perfeita igualdade.

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O T nos extremos da cruz poderá ser a inicial tanto de Templum como de Templatium, “templo e templário”, e o N central de Nostra e Nudator, “nu, despojado”, e sendo Tenet “movimento, acção, equitativo, equilibrado” ou conforme a Regula, “regra”, assim concluo: “Puro e Justo é o nosso Templo”… bem diversa dessa outra acção cesarista que, afinal de contas, foi completamente impura e injusta para com os infelizes aprisionados.

O Templo configurava o próprio Corpo de Cristo. Templo de Cristo movendo, moldando em seu tempo os arquétipos de Portugal e de todo o Mundo aonde chegou. Esta mesma mensagem encerra-se numa pintura de Gregório Lopes exposta na igreja de S. João Baptista de Tomar, referente ao milagre da multiplicação dos pães (que se seguiu ao da multiplicação dos peixes, segundo o relato evangélico, pelo que Cristo foi cognominado nas tradições do Graal, principalmente no Parzival, de “Rei Pescador” – Rex Piscatoris). Nela vê-se o Salvador, em destaque sobre um pequeno outeiro cercado pela multidão, operando o referido milagre, segurando na destra um bordão com um listel branco desfraldado onde se lê em latim a frase do Evangelho de João: Hic est panis quem dedit vobis dnnus adsod – “Este é o Pão que vos dá a Vida Eterna”. Mas se juntar-se as palavras estpanis o termo soará estranhamente Hispânia, Península cuja cabeça é Portugal como “Terra de Luz” (Lux-Citânia), pelo que depende dele dar ao Mundo o Pão da Sabedoria como o mais precioso Pão Eucarístico revelador do Mental Iluminado, o que se ajusta muito bem à frase dos Actos dos Apóstolos (XIII, 47): “Estabeleci-te como Luz (Lux) das Nações (Citânia) a fim de levares a Salvação aos confins da Terra”.

Se no Ocidente europeu, mormente na Península Ibérica, os Templários chegaram à cultura arábica por via indirecta, ou seja, através da moçarábica, como já disse, no entanto no Médio Oriente o contacto foi directo, a ponto do seu sistema funcional político-militar decalcar-se grandemente daquele dos ismaelitas da Milícia dos Assacis.

Também já disse que o Templo manteve relações estreitas com várias sociedades filosóficas e corporativas existentes nessas partes orientais: tanto colégios cristãos de Bizâncio ou independentes de foro anacorético, como corporações muçulmanas ou tarucs, florescidas do século IX em diante com o Movimento Karmate ou Ismaelita, do qual sairiam em 1090 os Assacis. Foi pela adaptação do modelo de uns e outros que os Templários do reino de Jerusalém constituíram comunidades de construtores, posteriormente propagadas na Europa ocidental com o acréscimo, devido à influência de Cluni e de Cister, do lígure-celticismo, adicionando-se depois a cultura judaica.

Como foi igualmente falado, no aspecto militar os Templários eram em muito idênticos aos Ribat do Islão, em ambos os casos treinados na destreza suficiente para um só homem derrubar três adversários, nunca devendo recuar em número inferior a esse, o que inúmeras vezes levou uns e outros, por excesso de zelo, a serem completamente chacinados na batalha.

O Grão-Mestrado, iniciado com Hugues de Payns, tinha em relação à Milícia cristã a mesma autoridade que o Cheikh el Djebel em relação aos cavaleiros Assacis. Esse último, por seu halo de mistério e secretismo, chegou mesmo a ser identificado ao próprio Preste João (de quem já se fala em 1177, devido a Frederico I e o Papa Alexandre III terem recebido dele uma suposta carta), filho de Feirefiz, cavaleiro da Távola Redonda, este que após ter recebido o Baptismo do Fogo e da Água casou com a princesa do Santo Graal, filha de Parsifal e Condwiramur, e retirou-se para o Oriente onde estabeleceu o Cristianismo que foi mantido pelo seu filho primogénito, o Preste João, estabelecendo-se assim a linhagem do Santo Graal cuja dinastia, segundo o Parzival de Wolfram Von Eschenbach, ia até ao pai, filho de Lohengrin (por sua vez, filho de Parsifal, o Chevalier au Cygne ou “Cavaleiro do Cisne”, e de Brancaflor) e de Elsa, duquesa de Brabante, prosseguindo a linhagem mítica até Godofredo de Bouillon, o Chevalier Cygnatus ou “Cavaleiro Assinalado”, primeiro rei cristão de Jerusalém, como era predicado em 1170 pelas canções de gesta anónimas de que deu notícia o arcebispo Guilherme de Tiro[23]. É assim que o mito apologético dá Godofredo de Bouillon ou Bulhão (natural de Bolonha sobre o Mar, Lorena, 1058 – Jerusalém, 18 de Julho de 1100) como bisneto de Parsifal e neto de Lohengrin, desde logo por direito consanguíneo um membro efectivo da Dinastia Eleita e da Ordem Eleitora do Santo Graal. Com isso tudo, quando foi coroado rei de Jerusalém em 1099, na realidade o que se estava entronizando era um cavaleiro Cygnatus – um assinalado, um eleito – por direito legítimo dignitário e expressão directa do Graal Vivo, do Rex Rexis, o Rei dos Reis como Imperador Universal (tanto valendo por Melkitsedek, Preste João ou Bey Al Bordi…), consequentemente, legalmente investido na representação ou até incarnação directa do Centro Supremo do Mundo (Salém ou Shamballah) expressado simbolicamente no Centro Supremo da Cristandade: Jerusalém.

Se acaso Godofredo de Bouillon recusou a coroa de ouro de rei da cidade santa de Jerusalém, foi por não querer equiparar-se a Cristo Rei aí coroado com uma coroa de espinhos, e mesmo após entronizado manteve a humildade titular de ser só Advocatus Sancti Sepulchri (Protector do Santo Sepulcro). Recuando a dinastia sagrada do Santo Graal à pessoa do próprio Jesus Cristo, segundo a hagiografia mítica, cujo Sangue Real perpetuou a linhagem, logo só a sua descendência tendo direito ao trono da cidade santa, então compreende-se porque os Templários frustraram os planos imperialistas de Frederico II, aventureiro por conta própria imerecedor da coroa santa de Jerusalém e do santo Império Espiritual do Mundo de então.

Godofredo de Bouillon (1058-1100)

Godofredo de Bouillon (1058-1100)

Ambas as Ordens do Templo e dos Assacis, como também foi dito, fizeram a sua Guerra Santa ou Al-Fatah, Cruzada e Crescentada, que, mais que de beligerância pela posse e domínio daquele considerado na Idade Média o Centro do Mundo, seria sobretudo santa por consistir na guerra (jihad) que o homem tem que travar consigo mesmo, como verdadeiro guerreiro no sentido místico, batalhando pela supremacia e vitória da sua natureza espiritual sobre a inferior, anímica ou animal[24]. Daí as palavras de Ibn El-Arabi, o Al-Andalusi, inseridas no seu Risale-Tul-Wujudiyyah (“Tratado do Ser”): “Por isso o Profeta disse: “Morre antes de morreres”, isto é, conhece-te a ti próprio antes de morreres. Porque quando tu “te conheceres a ti próprio”, o teu egoísmo desaparece e tu sabes que não és outro do que Deus”.

Foi nesse sentido que o mais arábigo dos cristãos, Raimundo Lúlio, ao ver a Cristandade perder inteiramente o Médio Oriente em 1287 propôs a Filipe, o Belo, uma Cruzada de Conversão à Terra Santa, onde Templários e Hospitalários estivessem juntos e nessa união houvesse um só Grão-Mestre, com o título de Bellator Rex, “Rei Guerreiro”, decalque do Piscatoris Rex, o “Rei Pescador” da lenda do Parzival incarnado por Cristo nos já citados milagres das multiplicações dos pães e dos peixes. O plano desenvolvido por Lúlio, publicado em 1305 no seu Liber de Fine, após ter visitado Chipre em 1302, não teve seguimento, para tristeza do seu amigo Jacques Borguemundus de Molay. À obra de Lúlio o rei contrapusera um outro livro, De Recuperatione Terrae Sanctae – “Da Recuperação da Terra Santa”. Tinha sido escrito por Pedro de Bois, membro não oficial do formidável grupo de advogados de Filipe e colega de Nogaret, o advogado principal do rei francês, e escondia a verdadeira intenção, sob a capa de uma pretensa Cruzada, da hegemonia universal dos Capetos a que pertencia Filipe. Tal não deve ter passado despercebido a de Molay, quiçá vendo nisso a tentativa de substituir uma dinastia sagrada por essa outra completamente profana cuja intenção era o domínio imperialista do mundo conhecido, pois quem possuísse a Terra Santa possuiria o mundo, pelo que de imediato o Grão-Mestre desaprovou as pretensões do monarca francês e o projecto dessa Cruzada foi arquivado.

Descendente em linha directa da Mística Templária após a extinção da Ordem, na Europa Central formou-se um outro Movimento Místico, misto de cátaro e arábigo, nos meados do século XIV e que chegou ao século XVII: o do Cristão Rosa+Cruz.

A Rosa+Cruz, emblema hermético da Pedra Filosofal, tanto valendo por Iluminação Mística, já era conhecida dos Templários como se verifica em várias lápides tumulares e selos de abóbada suas. Como Instituto, parece ter sido inspirado na determinação de alguns Templários de natureza clausural, contemplativa, em restaurar os laços rompidos entre o Oriente e o Ocidente pela perda da Terra Santa, e depois pela abolição da Ordem.

Também os Assacis pouco menos tempo duraram que os Templários. Em seu lugar ficaram os Sufis, místicos islâmicos de natureza idêntica aos Rosa+Cruzes com os quais mantiveram ligações próximas de cultura e espiritualidade, notórias no período Henriquino, tudo isso levando-me às seguintes correntes sucessórias das originais Milícias do Ocidente e do Oriente:

esquema - Orens Templo Assaci

O Sufismo é anterior ao Movimento Assaci, pois data dos meados do século VIII, tendo influenciado inteiramente a religiosidade do segundo. Os sufis cobriam-se com um manto de lã de maneira igual aos anacoretas cristãos, só nisso sendo iguais, pois que como pregadores eram completamente opostos à via ascética ou azuhd, primando pelo convívio doutrinal com todas as castas do Islão. Praticavam o dhikr, a repetição de palavras ou sentenças corânicas em louvor de Allah, e postulavam três votos universais: faqr (pobreza absoluta), twakkul (entrega confiante a Deus) e tauh’îd (união com Deus). No seu caminho para Deus, o sufi passa por diversos estados místicos (ah’wâl) e estações de entendimento (maqâmât). A união com Deus é fruto da Sabedoria de Deus (ma’rifa).

O saber arábigo presente na cultura hispânica e na Ordem do Templo

O saber arábigo presente na cultura hispânica e na Ordem do Templo

Há um misticismo ortodoxo, sunita, e um outro heterodoxo, xiita ou livre. Este foi o mais frequente e expressivo no Médio Oriente, e também em Portugal, que por sua natureza eclética impossibilitava a-priori qualquer tipo de fundamentalismo com recurso às armas. Quanto ao Sunismo, está documentado, por exemplo, pelo filósofo Algazel.

Em Portugal, o Sufismo brilhou através do Moçarabismo e, sem dúvida alguma, os Templários vieram depois a ser influenciados por ele. Dentre os sufis famosos no País, figuram os nomes de Abû Al-Walîd Al-Bâjî (de Beja, século XI), Ah´med ben Qasî (de Silves, século XII) e de Al’Uriâni (de Loulé, século XIII), um dos mestres de Ibn Arabi de Múrcia[25]. Esse cuidado dos Templários em manterem o vínculo à cultura e à espiritualidade árabes, levam-me a citar aqui as palavras preciosas do Professor Henrique José de Souza[26]:

“Os Árabes concorreram, de grande modo, para a libertação do espírito humano, a ponto de fazer emudecer Roma, mas obrigando-a a realizar quantas possíveis imagináveis cruzadas fossem necessárias… mas, para a intelectualidade futura da nossa própria Raça, os Árabes foram poderosamente protegidos pelas chamadas “Forças Invisíveis”. Sim, as que procedem do verdadeiro “Culto de Melkitsedek…” para não dizer, de uma “Religião cujas fronteiras jamais serão transpostas por indivíduos de cultura medíocre, muito menos, possuidores de um carácter abaixo da crítica…” Se tal não tivesse acontecido, Roma teria conquistado toda a Terra, jamais se preocupando em desenvolver as suas faculdades intelectuais. Sim, porque a melhor maneira de governar, seja política ou religiosamente, é mantendo o analfabetismo, enfim, a ignorância.»

Os sábios árabes como os maiores vultos da universidade medieval

Os sábios árabes como os maiores vultos da universidade medieval

Voltando ao tema da Fraternidade R+C, aquele que nela demandava o Grau Supremo, o da Iluminação Mística ou Crística, era considerado Rosacruciano ou Rosacruzista, que no Sufismo equivalia ao Taçawwuf, e só o Iluminado ou conquistador desse estado supremo podia efectivamente considerar-se Rosa+Cruz, igual em natureza e consciência ao sufi Mutaçawwfin.

Como aponta René Guénon[27], não será desinteressante indicar que o termo çûfî (sufi), pelo valor das letras que o compõe, equivale numericamente a el-hikmah-el-ilahiyah, que é dizer, a “Sabedoria Divina”, afinal, a Teosofia corrente nos cultos neoplatónicos de Alexandria que vários dos Templários souberam assimilar e trazer para o Ocidente adaptando-a às luzes do esclarecimento deste, impulsionando-o assim para o então ainda longínquo Ecce Occidens Lux!

O Rosa+Cruz e o Sufi (e também o Yogui) estão ao mesmo nível consciencial: o Crístico, Intuicional ou Búdhico, comparticipando igualmente dos Mistérios Maiores como Jinas Representativos da Agharta mesma, como “Seres Transcendentes” porque ligados pela Intuição à Mónada Divina – Anupadaka ou Noûs.

O Rosacruciano, correspondendo de modo imediato ao Taçawwuf idêntico em natureza e consciência ao Ayatolah (e ao Yoguim), concorre ao nível da Tríade Superior ou Individualidade Espiritual, mas ainda estando nos Mistérios Menores da personalidade humana pelos quais procura firmar o alinhamento psicomental (kama-manásico) com a divina Intuição, a Inteligência Espiritual ou a presença do seu Cristo Interno, pelo que ainda possui o “Ser Imanente” incarnado ou crucificado na Matéria, esta que já foi pelo Rosa+Cruz superada e transformada em esfera solar que é a Rosa florescida no centro da Cruz, o “Ser Transcendente”.

Pedra de cabeceira tumular templária com a Rosa+Cruz (século XIII). Igreja de Santa Maria de Loures, 28.ª Comenda da Ordem do Templo em Portugal

Pedra de cabeceira tumular templária com a Rosa+Cruz (século XIII). Igreja de Santa Maria de Loures, 28.ª Comenda da Ordem do Templo em Portugal

A ligação entre o Sufismo e a Rosa+Cruz encontra o seu maior eco em Mohyid-Din Ibn Arabi, cujas obras, Kitâb el-Isrâ (“Livro da Viagem Nocturna”) e Futûhât el-Mekkiyah (“Revelações de Meca”), encontram severas semelhanças com o plano traçado por Dante Alighieri, pressuposto cronista póstumo do Templo, para sua Divina Comédia[28]. Afirma Ibn Arabi no Hikmatun Nuriyah: “O Mundo depende de cada um dos Nomes Divinos, em virtude do que é análogo a tal Nome do Mundo, e também porque todo o Nome está contido na determinação essencial de Deus, pois Ele é Deus e nada mais”.

Quantos e quais serão esses Nomes Divinos de cada um dos quais, diz Ibne Arabi, depende o Mundo? Mahometh afirmou que “Deus possui noventa e nove Nomes, ou seja, cem menos um; aquele que os conhecer entrará no Paraíso”, e a autoridade do Profeta é tão grande que basta para afirmar a importância do conhecimento e da meditação sobre cada um dos Nomes Divinos.

Há duas versões, uma de Tirmiddhi e outra de Ibn Majda, e como apresentam algumas diferenças irei apresentar a ambas para se poder, no momento, pelo menos ter uma ideia do mistério transcendente que se oculta sob os véus deste simbolismo sem dúvida promanado de um outro “Canto dos Cantos” ou “Ode ao Som” (Odissonai)[29].

E 1E2E 3E4E5E6e7

O número 99 tem, aliás, um valor profundamente místico, principalmente quando se atenta no facto de ser um múltiplo de 11 que é um dos números-chaves na interpretação dos Mistérios Celestes. O próprio Dante, que recebeu o influxo esotérico das correntes Sufi e Xiita ou Livre do Islão, veio a dividir a Divina Comédia em 99 cantos, 33 para cada uma das suas três partes: “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”. É verdade que a divina obra de Dante possui ainda um centésimo canto que geralmente é incluído na primeira parte, e que deveria ser antes uma espécie de introdução geral ao poema[30]. Mas também alguns místicos do Islão afirmam que se poderia acrescentar um centésimo à lista dos 99 Nomes Divinos: o de Allah. Os mais sábios, no entanto, referem-se vagamente a esse último Nome, não o designando por termo algum e dizendo apenas que ele é al ism el ‘a’z’am, “o maior dos Nomes”, Nome desconhecido dos homens.

Allahu-Akbar[1]

Isso vem concordar com o que afirmam todas as tradições a respeito de alguma coisa que depois de certa época se ocultou aos homens, ou foi por eles perdida: o Haoma dos persas, o Soma dos hindus, o Santo Graal do cristianismo celta, ou então, o que mais recorda a tradição islâmica, o Grande Nome Divino dos judeus, cuja pronúncia foi esquecida e a que se refere a Maçonaria moderna no simbolismo da “Palavra Perdida” equivalente do “Silêncio Sacerdotal”.

Essa concordância das tradições religiosas não revela um plágio, como poderão pensar alguns imbuídos do cepticismo moderno, mas a sua unidade transcendente, unidade paradisíaca provinda de uma única Tradição Primordial da qual só participam os que compreenderam e harmonizaram em si mesmos os 99+1 Nomes de Deus.

Assim, para terminar, a Rosa floresce na Cruz tal qual a Luz de Deus na Alma do Místico.

NOTAS

[1] In Resumen Histórico de la fundación, progresos, decadencia y total extincion de la Orden Militar de los Templarios (sem o nome do autor). Imprenta de Fuentenebro y Cía., Madrid, 1807. E também Pierre Boulle, L´étrange Croisade de l´empereur Fréderic II. Ed. Flammarion, Paris, 1968.

[2] Vd. Bernard Lewis, Os Assassinos, uma seita islâmica radical. Editora Terramar, Lda., Lisboa, Abril de 2003.

[3] Bernard Marillier, Templários, pp. 43-48. Hugin Editores, Ltda., Novembro de 1998.

[4] Chema Ferrer Cuñat, Los templarios y la secta de los Asessinos. In Codex Templi (Los misterios templarios a la luz de la Historia y de la Tradición). Santillana Ediciones Generales, S.L., Madrid, Abril 2006.

[5] Paul du Breuil, la Chevalerie et l´Orient. Éditions Guy Trédaniel, Paris, 1990.

[6] Apontamento referido por Bernard Marillier, ob. cit., retirado da obra de J.-C. Frère, L´Ordre des Assassins, C.A.L./Grasset, 1973.

[7] A Regra Secreta dos Templários. O Livro de Baptismo de Fogo. Introdução de José Medeiros. Apêndice de Dr. Carlos Ratzin. Zéfiro – Edições e Actividades Culturais, Unipessoal Lda., 1.ª edição 13 de Outubro de 2006.

[8] Charles d´Artefeuil, Histoire héroique et universelle de la noblesse de Provence. Avignon, 1757-1786.

[9] Aldo Bonfiglio, Storia della Massoneria in Sicília dal 1750 al 1800. In Homnis Dignitate, n.º 4, revista oficial da Gran Loggia Regolare d´Itália.

[10] Gérard de Séde, Os Templários estão entre nós, pág. 134. Edições Estúdios Cor, S.A.R.L., Lisboa, 1974.

[11] Raymond Oursel, Le Procès des Templiers, pp. 94-95. Paris, 1955.

[12] Mateo Bruguera, Historia General de la religiosa y militar Orden de los Caballeros del Temple desde su origen hasta su extinción, refundida por Francisco de A. Rierola y Masferrer. Imprenta de la Immaculada Concepción, Barcelona, 1888-1889.

[13] Viterbo, Elucidário. Ed. Civilização, vol. II, p. 588.

[14] Frei Bernardo da Costa, História da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo, p. 22. Coimbra, 1771.

[15] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006.

[16] In Portugalia Monumenta Historica, Scriptores, 84.

[17] Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

[18] Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Dinapress Livros, Lisboa, 2007.

[19] Augusto Vieira da Silva, Dispersos, vol. I. Biblioteca de Estudos Olisiponenses, Lisboa, 1968.

[20] Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.

[21] A Igreja Matriz da Golegã, in Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, n.º 32, Junho de 1943. E Jorge Segurado, Matriz da Golegã, precursora do «Manuelino». Alocução do autor na Câmara Municipal da Golegã, 27 de Junho de 1984.

[22] Reynold A. Nicholson, Os Místicos do Islã. Madras Editora Ltda., S. Paulo, 2003.

[23] La Chanson du Chevalier au Cygne et de Godofroid de Bouillon, 2 vols. Ed. Célestin Hippeau, Paris, 1874, 1877. Frédéric A.F.T., Baron de Reiffenberg, Le Chevalier au Cygne et Godefroid de Bouillon, 3 vols. Bruxelles, 1846-1859. Anwar Hatem, Les Poèmes épiques des croisades: Genése, historicité, localisation. Essai sur l´activité littéraire dans les colonies franques de Syrie au Moyen Âge. Paris, 1932.

[24] Pierre Ponsoye, El Islam y el Grial. Ediciones de la Tradicion Unanime, José J. de Olañeta, Editor, Palma de Mallorca, 1984.

[25] José Garcia Domingues, Portugal e o Al-Andalus. Hugin-Editores, Lda., Lisboa, Outubro de 1997.

[26] Henrique José de Souza, Cagliostro e São Germano. Revista “Dhâranâ”, 28-9-1941, Rio de Janeiro.

[27] René Guénon, Aperçus sur l´Initiation. Paris, 1946.

[28] Robert Bonell, Dante o Grande Iniciado. Uma mensagem para os tempos futuros. Madras Editora Ltda., S. Paulo, 2006.

[29] Ary Vasconcelos, Os Noventa e Nove Nomes de Deus. Revista “Dhâranâ”, Ano XXVI, Outubro de 1951, Rio de Janeiro.

[30] Vitor Manuel Adrião, Firenze Insolita e Segreta. Éditons Jonglez, San Marco, Venezia, Maggio 2011.

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OM SHIVA! – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Nov 13 2015 

cabeçalho shiva

Sintra, 1995

legenda Shiva

Tido e querido pelos shaivas na Índia como a Divindade a que se deverão unir por via directa, Shiva é o Deus Supremo em Seu Terceiro Aspecto ou Pessoa da Trimurti ou Trindade cujo significado transcendente de seu Ser e símbolos tradicionais agora trazem-me aqui.

As chamadas linhas superiores shaivas geralmente compõem-se de pessoas de alta posição social e educação distinta, aprofundadas na filosofia religiosa shivaíta. Por exemplo, os dandis e os dasnamis, apesar de um tanto ascéticos, evitam os excessos psicofísicos dos devotos das classes inferiores que acabam dando ao Shivaísmo um halo de feitiçaria, animismo e superstição, assim não passando de um notável aborto da mesmo Shivaísmo convertido em espécie de “religião popular” hindu, nada tendo a ver com o que na realidade ele é no seu sentido original. Tanto os dandis como os dasnamis manifestam uma alta forma e um alto grau de vida religiosa e moral. Adoram Brahma sob o nome e aspecto de Shiva, trazendo como signa o lingayat ou falo místico, símbolo do poder gerador masculino (kartri), todavia sendo extremamente puritanos nas suas opiniões, considerando o sexo coisa sagrada e condenando severamente toda a ideia ou acção impura respeitante a ele.

Outras dessas linhas superiores atraíram muitos brahmanes de elevada educação e alta casta, principalmente os que nutrem apetências filosóficas e, mais particularmente, metafísicas e esotéricas, que a doutrina shivaíta lhes fornece. Outras correntes elevadas são compostas pela melhor classe dos yoguis adeptos do sistema de Raja-Yoga de Patanjali, completamente distintos dos vulgares fakires cujas proezas psicofísicas de Hatta-Yoga enchem as praças da Índia e assombram os turistas estrangeiros totalmente ignorantes de cultura tão “exótica” como seja a hindu. A corrente Spanda, no Norte da Índia, inclina-se a uma filosofia mística de alta ordem bastante semelhante às doutrinas sufis. No Sul, há também outras linhas místicas de culto shaiva, algumas tendo dado poesias de notável valor e que são no mesmo estilo do fervoroso Amor patente nos versos dos sufis persas.

 Ainda que os Vedas, a “Bíblia” brahmânica, não refiram Shiva senão como Rudra, o “deus da guerra”, ou antes, como padroeiro da casta militar ou kshatriya, no entanto são-lhe atribuídas qualificações menos belicosas e mais espiritualmente salvíficas no Agni-Purana e no Vayu-Purana, textos datados do Período Gupta (começo do século IV) que são notoriamente shivaítas e contêm material de idade muito anterior a esse período histórico. Possivelmente ter-se-ão inspirado no Shiva-Maha-Purana da autoria de Vyassa, o codificador da Vedanta, dando-lhe assim uma idade superior a 7000 anos. Essa obra sânscrita que julgo nunca ter sido traduzida para qualquer língua europeia, contém a particularidade singular da conter a primeira descrição da descida à Terra dos (As)suras liderados por Maha-Sura, episódio inscrito na similar descrição judaico-cristã da Queda de Lúcifer e os seus Anjos.

São vários os nomes de Shiva: Maha-Deva, por ter trazido à Humanidade as 84 posturas psícofísicas ou asanas constituintes do sistema de Hatta-Yoga, tendo-se instalado primeiramente no Monte Kailasa, no grande Himalaia; Maha-Kalâ, o Grande Tempo, Ciclo ou Período, isto é, o regulador do tempo de duração e extinção dos ciclos planetários; Natarashi, o Grande Espaço, que é dizer, o dinamizador e delimitador das dimensões do espaço planetário; Isa, o Senhor da Luz Suprema, a mesma manifestada no espaço e tempo de desenvolvimento e duração da Matéria.

Quanto ao Aspecto Feminino ou Shakti de Shiva, como disse, é Parvati, a Maha-Devi personificação da Mãe Divina cujo trono de glória é a Montanha Sagrada de Kailasa no Himavat (Himalaia). É também conhecida como Girija, Durga, Kali ou simplesmente Shakti.

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Referindo-se ao Monte Kailasa associado ao Pico do Mundo, Meru, já acamado nas proximidades do seu desenlace físico, o Professor Henrique José de Souza revelou em 22 de Agosto de 1963:

“Deus é Frio – é Éter. Manifestando-se, vai se tornando azul. Tornando-se mais denso, chega a vermelho. Há então um grande choque. A Obra da Criação começou no gelo. É lá que está todo o mistério. Chama-se Monte Meru, e deveria chamar-se Ponta do Mundo. Por isso é que a Vida pode estar toda para ali… tudo na Agharta é hidráulico. A Obra da Criação começou quando o Pai-Mãe Cósmicos se uniram para dar combate à harmonia. É necessário quebrar, destruir, para construir.”

A adoração à Suprema Shakti originou na Índia a linha dos shaktas. Estes veneram o Princípio Criador do Universo como sendo de natureza ou qualidade feminina. Esta concepção teve forte influência sobre os shaivas e geralmente acompanha-os na forma de Shiva-Natarashi, como a materialização do Espírito Divino (Atmã) no Mundo da Forma (Prakriti) indo dar origem à divina Maternidade.

Por seus atributos e qualificações, Shiva tem correspondência no Ocidente aos idênticos predicados do Espírito Santo, o qual equivale na Cabala judaica-cristã a Chevaoth, o Terceiro Aspecto de Adam ou o Homem Primordial (Logos Planetário), como seja Adam Kadmon (1.º Aspecto – Pai ou Brahma), Adam Heve (2.º Aspecto – Filho ou Vishnu), Adam Chevaoth (3.º Aspecto – Espírito Santo ou Shiva, também grafado abreviado Siva, anagramaticamente Avis, a Avis Raris Terris assinalada tanto pela Pomba como pela Ave de Hamsa). Correspondendo assim ao Terceiro Trono ou Logos como Hipóstase do Absoluto, Ele manifesta-se no Plano Físico como Destruidor ou Transformador das formas velhas e gastas em outras novas e mais perfeitas, seguindo o curso natural da Evolução Planetária.

As características de Shiva são as seguintes:

Atributos de Shiva

Voltando às 84 asanas da Hatta-Yoga (Ha, Sol, Ta, Lua), esse algarismo somado e reduzido teosoficamente dá 12, equivalendo aos 12 signos do Zodíaco em torno do Sol incarnado pelo próprio Sri-Shiva, cuja Lua ou contraparte manifestando-O é Parvati. Se somar-se e reduzir-se novamente o valor adquirido obtém-se o número 3, indicativo da Terceira Pessoa ou Hipóstase, seja Cristo-Maria, seja Shiva-Parvati, seja ainda na língua aghartina Aralino-Aralina ou Aralim-Arilim.

Da união cósmica de Shiva-Parvati foi gerado e nasceu Ganesha, o “Deus da Sabedoria”, cuja iconologia apresenta-o com uma cabeça de elefante (expressiva de Atmã, dominando a Maya do restante corpo humano com que se apresenta) com duas presas evocativas da prudência (mananam) e sagacidade (sravanam). Prudência na comunicação na transmissão do conhecimento, e sagacidade na distinção do sagrado do profano. A tromba frontal é simbólica do desenvolvimento do Vibhuti ou Chakra Cardíaco Inferior onde se concentram os 8 Poderes Místicos do Yogui ou Homem Realizado, além de também expressar Viveka, a capacidade de aperceber o Espaço Ilimitado (Nitya) e o Espaço Limitado (Anitya), por naturalmente postar-se entre ambos, portanto, no Mundo Intermédio ou Celeste o que lhe confere predicado psicopompo ou medianeiro (empático às qualidades da natureza planetária de Mercúrio ou Budha, em sâncrito, e assim mesmo tornando-o aos olhos do povo o Deus da Prosperidade, motivo do enorme culto que lhe é prestado, sobretudo pela classe dos comerciantes). Também possui uma protuberância de barriga, tão-só alegórica do seu grande grande desenvolvimento na “disciplina da respiração”, Pranayama, capaz de levar o Yoguim ao despertar das suas faculdades internas ou psicomentais, os chamados sidhis, pelo arranque do akasha ou éter repleto de prana ou energia vital inspirado conscientemente sobre os centros de vida ou bioenergéticos, os chakras manifestando-se pelos plexos centralizadores do sistema glandular do corpo humano.

Ganesha

Ganesha é o Senhor dos Ganas ou Gnomos, que sendo Maruts ou “forças elementais” da Natureza são por Ele dirigidas na Grande Obra de Shiva no seio da Matéria (Prakriti) num contínuo destruir e construir das formas até ao final do Manvantara ou Grande Ciclo Planetário. Esse labor cósmico apresenta-se algo similar às fases da Alquimia, motivo para alguns disporem Shiva como padroeiro dessa Arte Real no Oriente, enquanto no Ocidente significativamente atribuem-na ao Divino Espírito Santo.

A corrente shaiva distingue-se sobretudo pela natureza kshatriya, militar, dos seus membros, cuja história de fundação fá-la recuar aos tempos áureos dos Rishis ou Reis Divinos da Índia primitiva, a Aryavartha. Nisso, o Deus Shiva é assumido como comandante-em-chefe na suprema batalha contra as forças do obscurantismo material, vencendo-as e convertendo-as, transformando-as em forças de Purusha, o Espírito.

Essa “conversão” realiza-se com a Sabedoria Divina (Brahma-Vidya) de Ganesha, motivo de ser exclusiva do ministério sacerdotal dos brahmanes, os únicos a poderem legitimar o poder temporal dos kshatriyas. Razão para o Vivekachudamani (“Diadema da Sabedoria”) de Shankaracharya afirmar:

“Nem as armas, nem as escrituras santas e nem o vento ou o fogo podem libertar-nos da escravidão da ignorância, nem milhares de actos rituais, mas tão só a grande espada da sabedoria discernidora, cortante e penetrante pela graça divina.”

Temos, pois, no Mundo Concreto

SHIVA como a Ideação Inteligente;

PARVATI como a objectivação da mesma Ideação;

GANESHA como a Sabedoria contida nessa Ideação

a qual deve ser propagada no seio da Humanidade como a mesma Brahma-Vidya ou Teosofia através dos brahmanes e kshatriyas iluminados nas Revelações Divinas (Pârâm-Badhi).

Muito do que aqui venho dizendo poderá até ser uma “grande revelação” para inúmeros orientais, porque também eles, à semelhança dos ocidentais comuns, deixaram-se cristalizar no costume de ler à letra as escrituras sagradas invés de as interpretar pelo espírito esclarecedor que as assiste sob a aparência. A leitura parcial de cateque simples, como a mais vulgarizada, é chamada Avidya-Maya, enquanto a mais esclarecida de teologia erudita aprofundada nas mesmas escrituras, leva o nome de Atmã-Vidya. Por causa da primeira, o religiosismo despótico e falaz tem sido o maior tirano da Humanidade, indo contrariar a toda a linha o espírito de Fraternidade Humana presente em todos os livros santos do Mundo.

São vários os símbolos identificativos dos atributos de Shiva. Iconograficamente, é representado como um belo mancebo em veneranda postura ascética de Yogui, imerso em profunda meditação mergulhado no Samadhi ou Êxtase Supremo como o estado mais elevado da Yoga, ou seja, o da Consciência Divina que Ele traz do Nirvana ou Mundo Informe à Terra, o Mundo das Formas. A asana com que Shiva se apresenta é a siddâsana, a “postura do Adepto”, semelhante à padmâsana, a “postura do lótus”. O mudra ou gesto místico que exibe com a mão direita, é o abhaya-mudra, expressando a intrepidez necessária à Libertação Espiritual. Os três dedos de ambas as mãos apontando acima e abaixo, designam-o Senhor da Céu e da Terra, o Vencedor dos sentidos humanos e respectos elementos sensoriais. É, enfim, o Grande Liberto.

sidasana shiva

Veste uma toga de pele de tigre e sobre a pele deste animal está sentado. Troféu de Shiva, representa a sua Shakti por Ele dominada, tornando-se assim a montada do Imortal como força da Fé, do esforço espiritual, atravessando incólume a selva dos pecados. Por o tigre ser animal caçador, é também o símbolo da casta guerreira – Kshatriya. E se Kshatriya igualmente vale por Jina da Arca ou Agharta, eis aí Shiva tradicionalmente retratado no interior de uma gruta, evoco anacorético do Guardião das Embocaduras para aos Mundos Interditos dos Deuses que firmam a Luz Absoluta no Mundo. Nisto, vale adiantar, repetindo, que a última parte do Shiva-Maha-Purana é dedicada à descida de Sanat Kumara e sua Hoste de Devas desde Vénus (Shukra) ao interior da Terra (Bhumi). De Sanat Kumara posto em relação com o significado do abhaya-mudra e do tigre, o Vivekachudamani também diz:

“Permanecendo firme no Eterno, não permita o discípulo, em momento algum, a perda do autocontrole, porque a negligência é morte, mas palavras do Mestre Sanat Kumara.”

Outro objecto de Shiva é o tridente (trishula). Simboliza tanto o trikala ou “tempo tríplice” (passado – presente – futuro) afim aos três Mundos Divino – Celeste – Terrestre, quanto as três “qualidades subtis de matéria” (gunas, em sânscrito, literalmente “cordas”), SatvaRajasTamas, como sejam a energia centrífuga, a energia rítmica ou equilibrante e a energia centrípeta. O trikala revela-se levantando três dedos da mão direita num mudra denominado trishulahastra, a “bênção sacerdotal”, com que se designa a Trimurti ou Trindade Divina na Terra rematada por Shri Shiva.

O tridente também é visto como símbolo da “jóia tríplice” (triratna), idenficando-o à corrente tríplice de energia flogística fluindo pela coluna espinhal do Homem: sushumna ao centro tendo dos lados ida e pingala, que ao acercarem-se da corrente central evocam o enroscamento dos nadhis ou correntes vitais em torno do eixo.

Sendo símbolo lunissolar, o tridente acerca-se do formato da flor-de-lis indicativa tanto da Consciência Universal quanro da Realeza Divina de Sanat Kumara, o Rei do Mundo como o mesmíssimo Chakravarti hindu-tibetano, de funções similares às do Melkitsedek judaico-cristão. Aliás, como ilustração das páginas do Maha-Shiva-Purana invés do tridente aparece exactamente a flor-de-lis, que o Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, identificou como Lótus Sagrado de Agharta.

Iconograficamente, como diadema e brincos Shiva exibe quatro luas, e isto traz à memória aquelas palavras maravilhosas nas inscrições lapidares de Somnath-Patane, Índia, que no século XVI D. João de Castro trouxe para a sua Quinta da Penha Verde em Sintra, já de si a tradicional “Serra da Lua”:

“O Deus Shiva, que nos mostra parte da sua cabeça resplandecente com o brilho da Lua de que está ornado, tem a mão posta sobre uma fiada de folhas de almiscar, as quais cobrem uma parte do coração de Parvati, como se esta estivesse sobre um tapete de flores de lótus.

“O Deus Ganesha vos conceda muita felicidade, riqueza e paz. Ganesha é a alegria dos três Mundos, é filho de Maha-Deva, é formoso com esse único dente que mostra, é o causador do júbilo de Kapardi, e é quem nos livra de todo o mal.”

Penha Verde

Kapardi, um dos nomes de Shiva, deriva do sânscrito kapárd, “trunfa de cabelos”, e efectivamente o Deus apresenta-se com um alto penteado sinalético da abundância e da força, elementos presentes no Hércules grego e no Sansão semita.

Na Cosmologia hindu, a Lua indica o Caminho de Descenso do Espírito à Matéria (Pitri-Yana), na qual as Mónadas Humanas manifestadas ficam sob a rigorosa influência de Chandra, filha da Terra, e para encetaram o seu volvimento ao Sol ou Caminho de Ascenso da Matéria ao Espírito (Deva-Yana) necessitam que as suas formas grosseiras de manifestação se dissolvam na esfera lunar do Plano Etérico e sem se deixarem paralisar no mesmo, nisto intervindo o papel transformador de Shiva, Senhor das Libações assinaladas no crescente lunar.

Também o touro branco anda associada à montada tradicional de Shiva, simbolizando a sua Shakti Parvati, assim mesma aparecendo em inúmeras ilustrações. Indicativo da Força Criadora da Matéria, Mater-Rhea ou Mãe-Terra, Nandi, o touro de Shiva, igualmente assinala a Coragem e a Justiça. Como tal, é branco, nobre; a sua corcova evoca a montanha nevada de Kailasa. Também representa a energia sexual, e montar o touro, como faz Shiva, é já dominar e transmutar essa mesma energia física em força mental ou espiritual. Assim e em suma, cabe-lhe simbolizar o Dharma, a Ordem Cósmica, e por isso se diz ser ele insondável.

Emblema libatório incontestável de Shiva é o Linga ou “Signo”. Expressivo da Força Motriz Masculina (Kartri), só o consegue ser quando está unido ao Yoni ou “Matriz” de Parvati, expressiva da Força Criadora Feminina (Shakti). O Yoni é o altar, a cuba que cerca o Linga (com características e funções idênticas às do bétilo ou “pedra sagrada” dos proto-semitas na qual se encerrava um “deus” ou génio tutelar), sendo o receptáculo do sémen representado pelo leite de vaca derramado sobre a pedra erecta. A base do Linga, escondida no pedestal, é quadrada, a parte mediana é octogonal e a parte superior é cilíndrica. Correspondem, respectivamente, a Shiva, Vishnu e Brahma, e assim mesmo aos Mundos Divino, Celeste e Terrestre, este sob a guarda de Rudra, um dos nomes do Deus aqui abordado.

Shivalinga

Em diversos templos (pagodes) shaivas o Linga central é cercado por sete Lingas secundários, indo corresponder aos oito atributos (astamurti) de Shiva e aos pontos cardeais e secundários, assim como aos oito desígnios (graha) emanados de Surya – o Logos do Sol. Este não é o único caso em que Shiva, geralmente associado à Lua, assume um papel efectivamente solar, porque, vendo bem, juntamente com Parvati Ele é lunissolar.

Outro simbolismo axial: no Yôga, no meio do Centro Vital Raiz (Chakra-Muladhara) que corresponde a Yoni, é visualizado um Linga luminoso no qual se enrosca a serpente iridescente de Kundalini, a Energia Electromagética da Terra. Esse Linga expressa o Poder do Conhecimento; a união do Linga e de Yoni gera a Sabedoria Universal, representada em Ganesha e no Vishnu-Trikuna, o hexalfa ou estrela de seis pontas, produto do entrosamento dos triângulos masculino (vertido) e feminino (invertido). Ao longo da experiência yogui, o fogo ascendendo pela coluna vertebral vai transformando-se em luz até ao topo da cabeça (Chakra-Sahasrara) indo além dela: dá-se a identificação ao Supremo Shivalinga, confirmador da Realeza Divina de todo o Iluminado em que tempo e lugar seja, acontecimento algo semelhante à realização bíblica do Pentecostes.

A grande festa consagrada a Shiva é a Shivaratri ou Maha-Shivaratri. Recai a 27 de Fevereiro, ou melhor, no 14.º dia do mês de Magha (entre Janeiro e Fevereiro no calendário gregoriano), quando a Lua Cheia está próxima do asterismo de Magh (Janeiro-Fevereiro) e o Sol entra no signo de Capricórnio (Makara ou Kumara). A Shivaratri é, pois, uma festa móvel.

Nesse dia e noite não se pode dormir, beber nem comer; a mais rigorosa vigília e o mais rigoroso jejum são exigidos. De três em três horas, de dia e de noite, oferecem-se pujas (orações) a Shiva, e todas as castas, inclusive as mulheres, se juntam na adoração ao Shivalinga. Frente a este, os vários nomes de Shri Shiva são repetidos e a cada mantram coloca-se um folha de bilva (margosa, tipo hortelã-pimenta) sobre ele. Nesse dia e nessa noite, o Linga é banhado com leite de vaca e adornado com as melhores jóias do pagode ou templo.

Dessa maneira, a celebração do Shivalinga torna-se a da elevação da Matéria ao Espírito, consequentemente, da iluminação espiritual dos crentes, facto representado na iluminação dos Nagas possuidores dos 8 Poderes de Kundalini, representada pela serpente real (naja) de oito anéis.

sidasana

Trata-se, enfim, da conquista da Consciência Solar, Divina, a partir da Terrena, Humana, o que me leva a encerrar com as seguintes palavras do Isa-Upanishad:

“A face da Verdade mentém-se oculta por detrás der um círculo de ouro. Desvenda-a, ó Deus da Luz, para que eu, que amo o Verdadeiro, a possa contemplar!

“Ó Sol, dador de Vida, produto do Senhor da Criação, profeta solitário dos céus! Derrama a Tua luz e retira o esplendor que cega, para que eu possa ver a Tua forma exultante: esse Espírito longínquo que está dentro de Ti é também o meu mais interior Espírito.

“Pelo caminho do bem conduz-me à Bem-Aventurança final, ó Fogo Divino, Tu, Deus, que conheces todos os caminhos. Livra-me de vaguear pelos mais caminhos. Prece e adoração ofereço a Ti.”

OM SHANTI!

(PAX UNIVERSAL)

Mistérios do Convento de Cristo: o Alquimista e a Rosa+Cruz – Por Hugo Martins Domingo, Nov 8 2015 

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SOB O SILÊNCIO DA PEDRA

Analisando a natureza controversa do processo da extinção da Ordem dos Templários, podemos aferir que as suas “práticas estranhas”, denominadas como heréticas, constituiriam em si mesmas as praxes exclusivas da Ordem à finalidade iniciática, as quais por conveniência do cenário político entre Filipe, o Belo, e Clemente V, seriam utilizadas como “bode expiatório” para a sua extinção. Por conseguinte e em sequência, sendo a sua continuadora a Ordem Militar dos Freires de Cristo, através da protecção dispensada por D. Dinis, torna-se quase impossível não assumir que essa não apresentasse os seus próprios Rituais de Iniciação baseados, extrapolamos nós, nos inquisitorialmente controversos Mistérios Cristãos, já conhecidos e possuídos pelos templários desde longa data, praticamente desde a sua fundação em 1128 no Concílio de Troyes, senão mesmo desde a sua apresentação ante Balduíno II de Jerusalém em 1118 antes de se constituírem oficialmente como Ordem.

O tema da Iniciação e a Ordem de Cristo foi apresentado publicamente através do magnífico trabalho editado do filósofo e maçom António Telmo, Portugal Secreto. O autor brilhantemente comprova que os medalhões existentes no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, representam a Iniciação de Nicolau Coelho (Felgueiras, c. de 1460 – Costa de Moçambique, Janeiro de 1504), navegador que acompanhou Vasco da Gama à Índia e Pedro Álvares Cabral ao Brasil. No entanto, o actual cepticismo positivista pesando sobre o tema poderá caracterizar esse facto como algo de somenos ou nenhuma importância…. Contudo, o que nos dias de hoje poderá constituir mera curiosidade, um fait divers como algo sem valor efectivo, não encontra justificação no contexto e mentalidade da época em que foi criado. Devemos compreender que uma catedral representava o ideal ou arquétipo máximo da ideia espiritual e cultural de um povo em determinado contexto social, facto que qualquer académico medievalista poderá confirmar sem pestanejar. É unânime que o chamado estilo Manuelino (que alguns chamam de “Gótico tardio”) assenta claramente no figurino alusivo aos mares e à celebração das “conquistas” ou descobertas marítimas. Nesse sentido, o ideal do povo português e os seus arquétipos maiores estão demarcados na pedra silenciosa da arquitectura vigente em Quinhentos e Seiscentos. Isto mesmo comprovou magnificamente a filósofa Dalila Pereira da Costa, na sua inaugural obra, a Nau e o Graal, mergulhando nos ditames profundos da ancestralidade e evolução da História Lusa balanceada sob o pendão desses dois símbolos.

Já que falamos de símbolos e arquitectura, vale a pena aqui referir o símbolo interessantíssimo da chave encoberta que se apresenta na planta arquitectónica do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha, desenhada sobre o conjunto da Capela do Fundador, Corpo da Igreja e Capelas Imperfeitas (antes, Inacabadas, por interrupção após 1533 no reinado de D. João III), vindo assim a expressar no esquisso a Santíssima Trindade cristã. Edificado como celebração da apoteótica vitória portuguesa na Batalha de Aljubarrota (14.8.1385), o imóvel por si só expressa na pedra a importância que foi o sacrifício bélico na manutenção da independência nacional. No entanto, a sua mensagem não é só referente à memória do Passado mas também à missão que se rebate para o Futuro. Sabendo que uma chave recambia sempre para um “segredo”, apelamos às palavras do professor Manuel J. Gandra, no seu ensaio Portugal, Terra Lúcida. Porto do Graal, para explicar-nos essa disposição oculta como base escatológica do destino de Portugal e da Missão Portuguesa sob a inspiração do ideal Joaquimita relativo às três Idades do Mundo: Idade do Pai (Capela do Fundador), que “tivera por centro Jerusalém e o Templo de Salomão, síntese de todo o Mundo Oriental”; Idade do Filho, que “sediara-se em Roma e expressava-se pela Igreja Católica”; Idade do Espírito Santo, que “representaria o culminar da História, constituindo o período de apogeu do Espírito Santo, de Avis ou de Siva, o Paracleto. Este novo momento da História, foi caracterizado pelo sincretismo religioso e pela fraternidade universal de que Portugal se fazia Arauto (…)”. Além disso, essa “Chave dos Mistérios” repercute a “arquitectura” do plano a atingir na forma organizada do espaço: “Todavia, a Igreja Romana, e isto de acordo com o plano da Batalha, parecia ter perdido o vínculo com o Pai, visto não existir qualquer comunicação entre a Igreja e as Capelas Imperfeitas. Daí a necessidade de demandar o Pai, na forma do Preste João das Índias, rodeando o continente africano pelo sul, tal como acontece com o visitante que da Igreja pretende deslocar-se às Capelas Imperfeitas, cujo único acesso se abre a norte”. No mesmo sentido da pressuposta Missão de Portugal, verificamos que a pedra e a memória colectiva do povo fazem o seu trabalho sincrético através das lendas circundantes. Conta a vox populi que a pedra do brasão nacional encimando o topo do pórtico principal da igreja do Mosteiro Santa Maria dos Jerónimos, caiu após a derrota portuguesa na Batalha de Alcácer-Quibir, e a qual quando for novamente restituída ao seu lugar será quando for alcançada a maior Glória de Portugal, com o respectivo regresso do “Rei Desejado”.

Planta do Mosteiro da Batalha

No entanto, essa relação arquitectónica e social não se prende apenas à antiguidade medieval e/ou renascentista. Em pleno século XVIII, a restauração de Lisboa após terramoto de 1755 foi vítima do mesmo discurso, mas debruçado num contexto político particular. O ideal reformista do Estado e a oposição ao Clero congeminados pelo Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal (Lisboa, 13.5.1699 – Pombal, 8.5.1782), constituem um testamento que ainda hoje podemos constatar sub-repticiamente nas ruas largas e rectas que desenham a Baixa Pombalina[1]. Inclusivamente, como ponto de clímax dos intuitos do Ministro, desenvolveu-se um secretismo intransigente que se fez sentir na inauguração da estátua equestre de D. José I. Inaugurada no dia 6 de Junho de 1775, data em que o rei fazia 62 anos de idade, a peça foi trazida da fundição no Arsenal Real do Exército para o lugar central do Terreiro do Paço, em Lisboa, dentro de uma caixa fechada montada numa grande zorra com a estranha frase latina, em grandes letras de ouro: “A nuvem não cobre o Sol”. É óbvio que o “Sol” era o rei, e a “nuvem” a caixa. A zorra era puxada por trezentos carregadores protegidos por duas colunas de Infantaria acompanhadas pelo Juiz do Povo, com os representantes da Casa dos Vinte e Quatro e os Procuradores dos Mesteres – uma clara expressão do que ainda restava da tradição municipal. No local, o secretismo não foi menor. A colocação da estátua de bronze no pedestal realizou-se em volta de um conjunto de mastros de nau enterrados no solo a preencher os espaços vazios das velas de navio. A salvaguardar toda a operação colocou-se ainda um cordão de tropa em volta, de maneira a impedir qualquer aproximação e eventual espreitadela para o seu interior. O rigor foi de tal ordem que nem sequer o autor da estátua, Machado de Castro, pôde aproximar-se, acarretando à obra um decaimento da figura do rei sobre o lado esquerdo até aos dias de hoje.

Chegada_da_estátua_de_D._José_ao_Terreiro_do_Paço,_1775[1]

Esse episódio leva-nos a questionar: por que razão houve tanto secretismo nessa inauguração? A resposta surgiu exactamente oito dias depois, em um documento dado ao rei pela própria pessoa de Sebastião José, explicando o simbolismo das festas da inauguração. O documento em causa foi designado como Observações Secretíssimas. No fundo, o acto de “cair o pano” durante a celebração expressava o mote simbólico da consagração efectiva de todas as reformas levadas acabo pela geometria política de Pombal e o retrato memorial do Portugal grandioso de outros tempos, novamente conquistado e recapitulado sobre o bronze imperial do rei[2]. Portanto, mais uma vez, apresenta-se na pedra (neste último caso, no bronze) o Ideal máximo da nação e seu povo em predeterminado contexto social, deixando aperceber ao entendimento o sentido para onde caminha ou a que se propõe esse povo, no caso, o português. Assim, e tendo por premissa o “discurso silencioso” da pedra como testemunho dos ideais maiores da nação, resta analisar as marcas, os esquissos e os símbolos deixados pelos nossos antepassados esclarecidos, procurando interpretá-los e elucidá-los à luz dos mistérios em que vagavam.

Para tanto, dirigimos a atenção para o Convento de Cristo, em Tomar, que por si só torna-se um imóvel bastante peculiar ao ser estudado com maior minúcia, por constituir uma síntese arquitectónica de diversos períodos históricos desde a implantação da Sede-Mãe da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Jerusalém em Portugal, através da doação de terrenos por D. Afonso Henriques em 1126, registada como a primeira[3]; continuada com a mesma estrutura, apenas com a alteração do nome para Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, no seguimento da protecção dispensada por D. Dinis durante o processo do julgamento dos templários em França; a expansão temporal na missão das Descobertas Marítimas portuguesas no período Manuelino e a reestruturação interna durante o reinado de D. João III, com as reformas de Frei António de Lisboa, até à sua total extinção. O primeiro momento é constatado arquitectonicamente na Charola templária, feita à imagem e semelhança da Cúpula do Rochedo de Jerusalém; o segundo nos claustros imponentes com a belíssima e famosa “janela manuelina”, e por fim o corpo circundante do convento, construído para a vivência em clausura dos freires de Cristo. O visitante, quando passeia sobre o eco e ao mesmo tempo o silêncio dessas pedras, está a pisar um testemunho de História soberbo. Na realidade, o primeiro espaço caracteriza na História o nascimento de Portugal com a Cruzada aos Mouros; o segundo, a maturação ou crescimento do país na Cruzada dos Mares, e por terceiro o recolhimento e conseguinte morte ou encobrimento espiritual, justificando de certa forma a afirmação pessoana na Mensagem: “Cumpriam-se os mares, o império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal”!

O Espírito não morre, apenas encobre-se sob os mistérios e nevoeiros da ignorância do Homem. No entanto, qualquer “conquista temporal” é e sempre será precedida de uma “conquista espiritual”[4]. O mesmo aconteceu com a Ordem de Cristo, que num movimento de sístole e diástole, recolhimento e expansão, deu “mundos ao mundo”, e posteriormente desapareceu da face da Terra. A comprovação desse movimento antagónico no seu segundo aspecto, foi a da demanda espiritual que liderou os intuitos da Ordem de Cristo e para os quais o Infante D. Henrique sempre mobilizou os seus esforços – a do Reino do Preste João das Índias e Etiópia. As primeiras notícias sobre esse misterioso monarca cristão tinham-se feito sentir ainda na época da Ordem do Templo, por volta do ano de 1219, quando os templários participaram na ousada ofensiva com Jean I de Brienne, rei de Jerusalém de 1210 a 1225 e co-imperador do império latino de Constantinopla de 1231 a 1237, contra o Egipto, onde quase se reconquistou Jerusalém através da tomada de assalto de Damieta, a par dos inquietantes rumores que chegavam das fronteiras longínquas sobre um povo estranho que invadia a Pérsia e ao qual foi associado o misterioso Preste João das Índias, cujas lendas já corriam desde há algumas dezenas de anos. O terror no mundo muçulmano foi enorme, no entanto o povo invasor não seria do meio cristão e sim do meio mongol, sob o comando de Gengiscão (Ghengis Khan)[5]. Contudo, a lenda foi forte que não sucumbiu às leis do Tempo, a qual durante dois séculos ficou fechada em moratória até às missões secretas de Pêro de Covilhã e a posterior mobilização de recursos económico-financeiros para engendrar toda a Expansão Marítima, que a História oficial nos relata adiantando que acabou por ter graves consequências económicas para o país que, realmente, graças a essa mesma Expansão Marítima tornou-se a maior potência económica da Europa.

Portanto, em uma primeira análise à evolução arquitectónica do Convento de Cristo, podemos dizer que as obras do período Manuelino foram uma integração da Charola e suposta continuidade do Espírito Templário até ao Renascimento. Na fase posterior, já não podemos considerar uma integração mas sim uma absorção ou castração do que estava anteriormente construído, estando este aspecto bem demarcado no enovelamento estranho e até incongruente dos claustros manuelinos. Alguns historiadores, erroneamente, consideram que foi uma vingança de D. João III a D. Manuel I, por este ter desposado a sua pretendente, e como consequência querer “tapar” a obra de seu pai. Não podemos ser tão imaturos, sensacionalistas e imponderados a esse ponto. D. João III era um homem de Estado e de Inquisição, e não subjugaria facilmente os interesses nacionais apenas por um hiato de ordem familiar e conjugal. Conceber essa teoria é no mínimo infantil e insatisfatória do ponto de vista histórico.

Apresentada assim a “casca” da análise da arquitectura do Convento de Cristo e dos intuitos da Nação impressos nele, resta o convite do passeio ao “interior” do imóvel para tentarmos descobrir os mais belos tesouros encerrados no “discurso silencioso” da pedra.

A ROSA NA CRUZ ANTES DA ROSA+CRUZ

O mito da viagem de Christian Rosenkreutz e o seu encontro com os sábios de Damcar, não deixa de ser a recapitulação do paradigma ocidental que belissimamente Cagliostro sintetizou na sua afirmação: “Toda a Luz flui do Oriente, toda a Iniciação provém do Egipto”. Uma das grandes epopeias na salvação da Europa das “trevas” em que estava mergulhada e do consequente cataclismo psicossocial, fez-se através da actuação oculta da Ordem dos Templários entre os séculos XII e XIV. Os cavaleiros do Templo estabeleceram secretamente relações muito próximas com o mundo muçulmano, detentor do conhecimento místico e cientifico largamente difundido na Península Ibérica desde o século IX, e após a sua missão cumprida a Ordem acabou oficialmente descartada pela Igreja de Roma. A viagem do Cristão Rosa+Cruz é a mesma recapitulação mítica ou então só simbólica da caminhada da Ordem do Templo, com a permanência desse misterioso personagem da Alemanha em Damcar, Egipto, o seu embarque para Marrocos indo a Fez (ou o Fim da Iniciação) e finalmente o retorno à Europa por Espanha (marco geográfico referencial de fixação da cultura árabe na Idade Média europeia), no cumprimento da sua missão de trazer a Luz do Oriente ao Ocidente iluminado por ele. No fundo, o mito extracontinental é sempre o mesmo, só as directrizes da narrativa e as personagens mudam. Aliás, todos os grandes sábios e místicos da Humanidade fizeram tal caminho, directamente da Antiguidade até pleno século XIX!

A Mística Rosa+Cruz surge, pois, como descendente directa da Mística Templária, após a extinção desta Ordem na Europa Central indo formar-se um outro Movimento Místico, misto de cátaro e arábico, nos meados do século XIV e que chegou ao século XVII: o do Cristão Rosa+Cruz.

A Rosa+Cruz, emblema hermético da Pedra Filosofal, tanto valendo por Iluminação Mística, já era conhecida dos templários, como se verifica pela cruz achada nos finais de Agosto de 1993 no lado nascente do castelo dos templários em Tomar, bem como em diversas das suas lápides tumulares e mesmo medalhões de abóbada.

Semelhante ao fim dos templários foi a Ordem dos Assacis fundada no Cairo em 1090, que pouco menos tempo durou. No entanto, ficaram os sufis, místicos islâmicos xiitas ou “livres”, anteriores ao Movimento Assaci e os seus directos influenciadores que se constituíram nos meados do século VIII, cuja pragmática e mística eram semelhantes às dos posteriores Rosa+Cruzes com que mantiveram relações próximas de cultura e espiritualidade, nomeadamente no período Henriquino.

Em Portugal, o Sufismo brilhou sobretudo através da cultura moçárabe, e sem dúvida alguma terá influenciado a pragmática espiritual da Ordem do Templo no território nacional. De entre os sufis mais famosos no país, figuram os nomes incontornáveis na cultura arábiga de Abû Al-Walid Al-Bâjî (de Beja, século XI), Ah´Med Ben Qasî (de Cacela, século XII) e de Al-Uriâni (de Loulé, século XIII), este um dos mestres espirituais de Ibn Arabi de Múrcia.

Portanto, a Mística Sufi e posterior Rosa+Cruz adquirem equivalência espiritual, onde até alcançar o estado ou grau supremo de Iluminação Crística ou a Ayat Allah como “Presença de Deus”, considerava-se Rosacruciano ou Rosacruzista, no Sufismo equivalendo ao Taçawwuf, e só o Iluminado ou conquistador desse estado supremo, após árdua cruzada ou crescentada interior, era efectivamente considerado Rosa+Cruz, igual em natureza e consciência ao sufi Mutaçawwfin.

Assim, o Rosa+Cruz e o Sufi (como também o Yogui) estão ao mesmo nível consciencial: o Crístico, Intuicional ou Búdhico, comparticipando por igual dos Mistérios Maiores da Vida-Consciência (afins à Cosmogénese) como Génios Iluminados ou Jinas Representativos do Centro Supremo do Mundo, a Agharta mesma, Seres Transcendentes ligados pela Intuição Espiritual à Mónada Divina – Anupadaka ou Noûs. Por sua vez, o Rosacruciano, correspondendo de modo imediato ao Taçawwuf, idêntico em natureza e consciência ao Ayatolah (e ao Yoguim), concorre para o nível da Tríade Superior, a Individualidade Espiritual, através do Quaternário Inferior ou Personalidade Humana afim aos Mistérios Menores da Vida-Energia (empáticos à Antropogénese), onde procura firmar o alinhamento psicomental (kama-manásico) com a divina Intuição, a Inteligência Espiritual que é a mesma do seu Cristo Interno, ainda no estado de “Ser Imanente” encarnado ou “crucificado na Matéria”, esta que já foi pelo Rosa+Cruz, o “Ser Transcendente”, superada e transformada em esfera solar radiando, tal qual a Rosa florescida no centro da Cruz.

Rosacruzes Templo e Cristo

A ligação entre o Sufismo e a Rosa+Cruz encontra o maior eco em Mohyid-Din Ibn Arabi, cujas obras, Kitâb el-Isrâ (“Livro da Viagem Noturna”) e Futûhât el-Mekkiyah (“Revelações de Meca”), possuem severas semelhanças com o plano traçado por Dante Alighieri, pressuposto cronista póstumo do Templo, na sua Divina Comédia. O número 99 ganha uma importância fundamental, no que diz respeito aos vários Nomes de Deus dos quais depende o Mundo, como descritos nas duas versões de Tirmiddhi e de Ibn Majda reproduzidos na ordem dos cantos da obra imortal de Dante. Aliás, o número 99 tem um valor profundamente místico, principalmente quando se atenta no facto de ser um múltiplo de 11, que é um dos números-chave na interpretação dos Mistérios Celestes. O próprio Alighieri, que terá recebido a influência esotérica das correntes Sufi e Xiita ou Livre do Islão, veio a dividir a sua Divina Comédia em 99 cantos, 33 para cada uma das suas três partes: “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”, já de si reproduzidos em três enormes painéis de azulejos na igreja do convento franciscano do Varatojo, Torres Vedras. O seu centésimo canto incluído na primeira parte, espécie de introdução, segundo alguns místicos do Islão pode referir-se a Allah ou a Al´ism el´a`z´am, “o maior dos Nomes”. Este constitui o Nome desconhecido dos homens, o que vem concordar com o que afirmam todas as tradições a respeito de alguma coisa que se ocultou da Humanidade e por ela foi perdida: a Palavra Perdida dos Maçons, o Haoma dos Persas, o Soma dos Hindus, o Santo Graal do Cristianismo céltico, o Grande Nome Divino dos Judeus. No fundo, revela-se nisso uma concordância religiosa, espelho da unidade transcendente, provinda de uma única Tradição Primordial, da qual só participam os que compreenderam e harmonizaram em si mesmos os 99+1 Nomes de Deus.

Transladada a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Jerusalém, por intercessão do rei D. Dinis, para a Ordem Militar dos Cavaleiros de Nosso-Senhor Jesus Cristo (vulgo, Ordem de Cristo) no ano de 1319 e aprovada pelo Papa João XXII, durante o período Manuelino aproveitou-se a rotunda medieval do Convento de Cristo e marcou-se a intenção de reproduzir o esquema do Templo de Salomão mas já com outras bases “mítico-arqueológicas”. Em vez da Cúpula do Rochedo, em referência àquela octogonal de Jerusalém, aqui o templo deveria ter uma planta retangular. As dimensões da igreja manuelina fornecem pistas nesse sentido. A modelação do volume da nave da igreja com o coro seguindo a proporção 2:1, respeitou escrupulosamente a descrição bíblica do Templo de Salomão, conferindo-lhe proporções “quadradas” e “duplo-quadradas”. Ora, trata-se da recapitulação mítica do espírito iniciático da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão assumido pela sua continuadora, a Ordem dos Cavaleiros de Cristo, onde o próprio rei D. Manuel I veio a ser Grão-Mestre da mesma; e também recambiando à mitologia messiânica nacional remetendo para as profecias do A.T., por sua vez ajustadas ao nascimento, subida ao trono (por via indirecta) e ao Divino homónimo do rei D. Manuel, Emmanuel, “Deus connosco”. O corpo da igreja, construído durante a campanha Manuelina de 1510-15 por Diogo Arruda, e numa segunda fase por João Castilho, inclui a nave, o coro alto e o coro baixo e foi ligado à charola por um grande arco rasgado nos muros do velho oratório, bem como o tambor interior da rotunda, convertido em capela-mor, apresenta um pormenor interessante no tecto. Verifica-se cinco besantes representando as chagas de Cristo e os restantes dezasseis instrumentos referentes à Paixão do Senhor, configurando o conjunto no todo as benditas Rosa e a Cruz. Além disso, não podemos deixar de considerar que D. Manuel poderá ter levado aqui em consideração a origem nacional antevista pelas profecias templárias-rosacruzistas desde o conde Henrique de Borgonha, que aliás tinha zelo extremado pelos tempreiros existentes em Portugal (1118) ainda antes da sua formação oficial (1128), como nos dá a conhecer Frei Joaquim Rosa Viterbo, e as doações de Soure pela rainha D. Teresa à Ordem, assinando sempre o seu nome com a Cruz sobre a Rosa Mística – a Rosa+Cruz.

Cúpula da Charola do Convento de Cristo, Tomar

Cúpula da Charola do Convento de Cristo, Tomar

Por fim, relembramos as palavras de Lima de Freitas relativamente à tradição do “livro” e do “túmulo” oriunda dos finis terrae: “(…) emergir quase ao mesmo tempo, como que surgindo de uma mesma nascente, o mito de Christian Rosenkreutz na Alemanha, e em Portugal a memória da lenda velha de dois séculos [antes] do Beato Amadeu, segurando no seu túmulo o livro contendo a “História do Futuro”, palpitante de mistérios, que seriam «brevemente» revelados segundo a Vontade de Deus (…)”. Não deixa de ser pertinente a chamada de atenção do professor Manuel J. Gandra sobre a trasladação dessa Mística Rosa+Cruz Templária para a Ordem da Freiria de Cristo, apontada em cruz florida num medalhão existente na adega do piso inferior do convento, juntamente com a hipótese desse local ter sido destinado a fins iniciáticos (o que suscita sérias dúvidas), bem como o facto da “migração” desses símbolos místicos para a Alemanha, num hipotético exílio dos freires de Cristo renegados pelas novas reformas da Ordem impostas por Frei António de Lisboa, passando a viver como os pastores no campo jucundo da fidelidade ao Amor Divino, como é relatado na Lusitânia Transformada de Fernão Álvares do Oriente: “(…) o Movimento Rosa+Cruz, como as fontes disponíveis afirmam e reafirmam, não obstante a alegada paternidade de Christian Rosenkreutz (1378-1481), só teve origem na Alemanha durante o século XVII, como a justificar a ocorrência no Convento de Cristo, já em 1535, dos símbolos que o ramo germânico só cerca de um século mais tarde havia de adoptar (…)”. Acrescentamos apenas, não querendo ser exaustivos, que toda a mitologia à volta do túmulo de Christian Rosenkreutz e das profecias daí decorrentes, terem-se baseado em estudos astrológicos entremesclados com teológicos do astrónomo e matemático possivelmente também rosacruciano alemão Johann Kepler (Weil der Stadt, 27.12.1571 – Ratisbona, 15.11.1630), nomeadamente sobre o cálculo da data do nascimento de Cristo, as quais haviam sido profundamente influenciadas pelas ideias do erudito astrónomo e alquimista judeu português Isaac Abravanel (Lisboa, 1437 – Veneza, 1508), também apelidado no século XVI de “Hermes Trismegisto” por dominar a Magna Scientia.

Tecto e selo rosacruz

O ALQUIMISTA DO “CRUZEIRO”

No reinado de D. João III (13.12.1521 – 11.6.1557), o Convento de Cristo, na sequência das reformas do referido Frei António de Lisboa tão mal aceites pelos freires conventuais de Cristo, até então administrados por Frei Diogo do Rego tanto a nível espiritual como secular, recebeu obras que lhe modificaram radicalmente a feição, ou antes, acrescentos ítalo-renascentistas concebidos em 1529 e executados a partir de 1531, com os claustros encostados às três faces do templo absorvendo boa parte do volume do imóvel existente. A Regra reformada dos freires de Cristo, composta por 36 capítulos, foi uma adaptação personalizada da Regra de S. Bento que conferiu nova fisionomia à Ordem, decisivamente alterando-a de claustral em clausural, o que ia contra a sua natureza própria em que fora fundada. Esta antiga Ordem da diáspora via-se agora uma Ordem de clausura, ou antes, enclausurada pela mão de ferro da Inquisição impositiva das Reformas de Trento, ficando assim coibida da sua missão última de atender ao anelo de fraternidade universal pelo ecumenismo multirracial e multiconfessional, característica da Igreja do Amor, sendo o seu espaço ocupado pelo anómalo fundamentalismo fanático que campeia entre paredes da Igreja de Roma. Apesar de tudo, ainda assim houveram freires de Cristo que acataram a nova Regra reformada tendo permanecido no seu convento de Tomar sob a divisa beneditina: Ora et Labora.

Apesar de todo o drama vigente na época para a Ordem de Cristo, não parece que a sua mística particular se tenha perdido de todo. Com efeito, na capela do Cruzeiro, na parte central do convento, cuja abóbada apresenta 91 caixotões decorados com temas tardo-renascentistas referentes ao Ecce Homo (no altar), vê-se, estrategicamente localizada e de apreensão difícil ao olhar comum, uma enigmática figura coroada de longas barbas emergindo de labaredas e ostentando gloriosamente o globo-mundi numa mão com a outra abençoando. Este imóvel da capela, situado na confluência dos três corredores que constituem o dormitório grande, apresenta uma decoração próxima do plateresco espanhol, talvez devendo-se a algum dos artífices biscainhos que trabalharam para o arquitecto João Castilho (afastado por Frei António Lisboa, mais por possível desacordo doutrinário do que por meras razões de ordem técnica e formal). A sua primeira fase foi terminada em 1533, e o remate da torre-lanterna é já de 1544, com a novidade dos seus ornamentos inspirados em motivos triunfais antigos. Toda essa iconografia do alto-relevo em questão, apesar dos historiadores de Arte apontarem-na inscrita no tema do “concerto do Mundo”, mas tão-só sendo o Padre Eterno Criador na função de Demiurgo, catapulta-nos de imediato para o tema da Alquimia na sua visão mística ocidental consignada Rosa+Cruz. O personagem será o Alquimista, o Philosophus per Ignius, o “Filósofo do Fogo”, que tal como o Supremo Demiurgo criou o Macrocosmos ou Universo a partir do Fogo Original, também ele cria com o Fogo da Razão e da Fé o Microcosmos ou Mundo, por ele mesmo possuir o Segredo de Maria ou a Rosa nascida da Retorta, que é dizer, a própria Pedra Filosofal, a Rosa dos Sábios, a Rosa Mística símbolo maior do Homem Realizado, o Iluminado, o Filho de Maria feito Homem de Cristo, Ser Crístico, ele na alegoria escultórica de braços erectos (a cruz) elevando o globo (a rosa), portanto, trata-se do símbolo encoberto do próprio Adepto Rosa+Cruz.

O Demiurgo como Pater Rosea Crucis

O Demiurgo como Pater Rosea Crucis

O nome provém do árabe Al-Kêmi, “Terra Negra”, ou mais precisamente Allah-Chêmia, “Química Divina”, sendo a sua origem atribuída a Hermes Trismegisto que a registou na sua “saturnina” Tábua de Esmeralda, obra publicada entre o século I e III d. C. e que foi a fonte de inspiração do pensamento hermético e neoplatónico medieval e renascentista. Esta ciência tradicional alastrou depois do Médio-Oriente à Índia e à China, tendo sido trazida para a Europa na Idade Média pelos peregrinos que iam à Terra Santa e tomavam contacto com os sábios islâmicos recebendo as suas instruções nesses conhecimentos herméticos. Daí para cá, o estudo e a prática da Alquimia mantiveram-se até aos dias de hoje e a Igreja Católica, com mais ou menos reservas, tolerou mais a sua filosofia mística que a sua prática laboratorial.

O Fogo e a Rosa são os símbolos da Opus Magnum, a Grande Obra dos Filósofos do Fogo no encalço da Lapis Philosophorum, a Pedra Filosofal. A Obra consiste em operar sobre os elementos da Matéria-Prima ou Substancial, eliminando ou separando as suas impurezas físicas (Morte) para os deixar purificados e reunidos (Ressurreição) através do Mercúrio e do Enxofre (Alma e Espírito) actuando sobre o Sal (Corpo), fixando assim os elementos voláteis ou etéreos na Matéria purificada com os quais, por doze fases graduais, vai se formando a Pedra Filosofal, sinónima de iluminação da Matéria pela libertação do Espírito encarcerado nela. Todo este magistério respeita três fases principais na sua organização: Nigredo, Albedo e Rubedo. O Nigredo afim ao Fogo, corresponde à “Obra Negra” (Morte) – Dissolução e Putrefacção da Matéria; o Albedo aliado à Rosa Alva, é a “Obra Branca” – Purificação da Matéria pela Substância “líquida” (Purificação); e por fim o Rubedo assinalado na Rosa Rubra, corresponde à “Obra Vermelha” (Ressurreição) – estágio em que se fabrica a Pedra Filosofal. Todo o conjunto perfaz a Trindade Alquímica (Enxofre, Mercúrio, Sal) como expressão elemental das Três Hipóstases Divinas (Pai, Filho, Espírito Santo) na realização da Obra do Eterno na Face da Terra que é a da criação do Andrógino Perfeito (Rebis) aquando a Trindade se faz Unidade.

As três fases alquímicas

As três fases alquímicas

O Alquimista sendo já o Adepto Realizado (assinalado pelo barrete frígio indicando-o como Liberto), isto significa que alcançou o elevado estado de Consciência Crística fazendo senhor das duas Rosas Rubra e Alva. Na terminologia hermética ocidental, tais “rosas místicas” são referentes às duas fases da Obra Alquímica – Albedo e Rubedo – como simbólicas da Purificação e Transmutação da Pedra, bem como dos processos da Argiopeia, “fábrica filosófica da Prata” (Lua, Mulher), e da Crisopeia, “fábrica filosófica do Ouro” (Sol, Homem), visando alcançar o estado final do Androginismo Primordial (Sol e Lua, Hermes e Afrodite), conquistando a Unidade Suprema ou União Divina. Além disso, também correspondem aos “centros de forças” (chakras, vórtices bioenergéticos) existentes no corpo físico superior do Homem, comummente chamado de Etérico ou Duplo Etérico, os quais estão ocultos ou “interiorizados” na sua natureza inferior ou física, emocional e mental e que permitem, por um processo de evolução lento e gradual da consciência, semelhante a uma laboração alquímica, a sublimação da matéria impúbere e imperfeita da mesma consciência e consequente elevação aos Princípios Divinos promotores da supraconsciência e com isso da condição supra-humana. Esses “centros de forças”, são alegoricamente denominados de “lótus” ou de “rosas”, sendo, como dissemos, os chakras ou “vórtices bioenergéticos”, dos quais os superiores situam-se na laringe, fronte e o topo da cabeça – o Laríngeo (Chakra Vishuda), o Frontal (Chakra Ajna) e o Coronário (Chakra Sahasrara). Ora, o próprio alto-relevo assinalado do Demiurgo é ilustrativo desta realidade particular, considerando que Seu corpo está submergindo do Fogo e que neste conspecto é simbólico do domínio dos “centros” inferiores afins ao Quaternário da Personalidade (o Nigredo), e da manifestação positiva dos “centros” superiores da Tríade da Individualidade (o Rubedo), como seja a natureza Divina do Homem, o Ego Superior, o Anjo Solar, etc., assim levando ao despertar do “sono letárgico” da Persona pelo Poder do Fogo Serpentino, Fogo do Espírito Santo ou Fogo Secreto alquímico assinalado na frase Ignis Natura Renovatur Integra (“Pelo Fogo se renova a Natureza inteira”), antiga santo-e-senha dos místicos Rosacruzes do século XVI, o qual é simbolizada na figura pela emersão dos braços e cabeça à superfície do Mar de Fogo parecendo configurar um tridente ou até uma flor-de-lis (como também a letra hebraica schin), indicativa de Iluminação Espiritual ou Crística ao caracterizar a Unidade da Trindade Corpo-Alma-Espírito como a Essência Real do Homem, marcando a verdadeira Realeza Divina, que é a Mónada, também esta Uno-Trina como Espírito-Intuição-Mente Superior, ou Atmã-Budhi-Manas.

PORTUGAL E O GRAAL

No entanto, o tipo de iconografia assinalada não surge só em Tomar, mas também em Vila do Conde através da figura esculpida presente na fachada da sua igreja-matriz de S. João Batista, o famoso “Homem do Caldeirão” (como também se vê esculpida na porta lateral da igreja de S. Sebastião, em Lagos, referente ao Primeiro Homem, Adão, saindo do Caldeirão ou Arquétipo Primordial), mas aqui sem as rosas e sim com duas pedras ao lado de uma nau, assim repercutindo os arquétipos maiores da Tradição Espiritual Portuguesa, belissimamente bem explicadas pelas palavras sapientes de Dalila Pereira da Costa em sua obra A Nau e o Graal.

O "Homem do Caldeirão", igreja-matriz de Vila do Conde

O “Homem do Caldeirão”, igreja-matriz de Vila do Conde

A origem tradicional deste elemento (o homem com as pedras), utilizado no Hermetismo Nacional, havia sido herdada do Cristianismo céltico associado à Tradição do Santo Graal e às histórias do rei Artur e da Távola Redonda, como os principais enredos do romanceiro medieval espalhado por toda a Europa e tão caro à cultura literária portuguesa, posto a sua origem situar-se exactamente nas terras ocidentais da Estremadura ibérica donde migraria para a Bretanha. Sobre essa Tradição, Portugal muito está ligado a ela desde a sua origem Atlante-Asturiana na qual é consignado Orco-Gal ou Gadwen, “Paraíso Oculto ou Encoberto”, vocábulo hoje mítico mas referente ao Paraíso Terreal cuja memória mais ou menos efabulada foi prosseguida nas tradições celtas da Ibéria e da Hibérnia (Irlanda) onde tomou forma no fabuloso e mágico Caldeirão de Dagda/Bran, que o romanceiro medieval expressaria como Santo Graal, o Saint-Vaisel ou Santo Vaso correlacionado no missal cristão à Taça Eucarística. Na sua divulgação destacaram-se, durante a Idade Média em pleno ciclo literário arturiano, quatro correntes esclarecidas: Ordem de Cister, Ordem do Templo, Movimento Trovador e Jogral, Corte Luso-Aragonesa da Rainha Santa Isabel com a Ordem Terceira de São Francisco. Sobre as duas primeiras, destacamos a obra do cronista cisterciense português Frei Bernardo de Brito, Monarquia Lusitana, e o testemunho do selo rodado de D. Afonso Henriques na sua carta de doação de Tomar à Ordem dos Templários em 1159, no qual se lê em anagrama Porto-Graal.

Os episódios descritos nas crónicas perdidas no tempo mas evocadas na Monarquia Lusitana, fizeram com que os dois principais mentores da formação do País ficassem imortalizados como divinos, em episódios como o da visão da Pedra de Lúcifer pelo conde Henrique de Borgonha junto à raia luso-galega, ou o da aparição de Cristo no famoso milagre de Ourique, no Baixo Alentejo, ocorrido com D. Afonso Henriques. O primeiro é realmente interessante pelo facto de ter ocorrido no início do século XII, anterior ao romance Parzival datado do primeiro quartel do século XIII, da autoria do cavaleiro e poeta épico alemão Wolfram von Eschenbach, que popularizou o mito do Graal como a Pedra caída dos céus, a Pedra ou Estrela da Coroa ou Fronte de Lúcifer, tendo o herói Parzival encontrado o dito Graal (Pedra) no Extremo-Ocidente do Mundo, também chamado o “Fim-do-Mundo”, neste caso, subentende-se como sendo Portugal. Acrescente-se ainda a curiosidade de Wolfram von Eschenbach, praticamente no início da sua obra (página 36), não deixar de referir-se aos cavaleiros portugueses como os “Audaciosos”. O Selo de D. Afonso Henriques patente na carta de doação das terras de Tomar à Ordem dos Templários é ilustrativo do tema graalístico, por nele ler-se PORTUGRAL, isto é, o PORTO-GRAAL. Além disso, verifica-se que esse selo não foi construído de uma forma aleatória e sem significado. Esta afirmação justifica-se, em primeiro lugar, pela própria disposição das letras PORTUGAL e PORTUGRAL de uma forma muito bem estruturada que satisfaz um duplo sentido. Em uma primeira abordagem, verificamos que o nome PORTUGAL está exposto sobre a cruz, ou seja, a disposição das letras está em conformidade com a organização de quatro quadrantes. Podemos dizer que PORTUGAL ESTÁ CRUCIFICADO. Em uma segunda abordagem da mesma disposição, observamos o fenómeno bastante interessante de Cabala Gemátrica que mais uma vez nos permite afirmar que essa disposição não foi aleatória: todos os quadrantes apresentam apenas uma letra, excepto um deles apresentando duas, AL, o que desvia-se da organização geral. Surge a questão: Qual a razão para organizar a palavra PORTUGAL dessa forma? Além de colocar a palavra em forma da cruz à imagem e semelhança da de Cristo (Tragédia do Gólgota), temos a mesma palavra como um corpo (crístico) sacralizada através da disposição do valor místico do número sete, o número dos sacramentos. Assim, o interior do selo retrata PORTUGAL como um Corpo CRUCIFICADO e simultaneamente SACRALIZADO ou CONSAGRADO, conferindo a esta Terra Portuguesa a Salvação pela Graça de Deus no Milagre de Ourique através dos dotes taumatúrgicos de D. Afonso Henriques. Por fim e para confirmar a Imitatio Christi no selo rodado de doação dessa Terra Templária consagrada pela Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão (assinalados nos antigos fólios, como já dissemos, como os tempreiros), o conjunto de todas as letras inscritas nos três círculos da imagem (expressivos das Idades do Pai, do Filho e do Espírito Santo) completa o número místico 33 referente à idade da Paixão de Cristo. É assim que Portugal marca a 4.ª Iniciação de Chrestus ou Arhat a caminho da 5.ª, da Ressurreição do Adepto Perfeito que, em Tempo Novo de Primícias, é também a futura RESURREIÇÃO DE PORTUGAL. Nisto subjaz a Mensagem última do Graal.

portugral

O significado geosófico aliado à epopeia da Távola Redonda e respectivo Santo Graal, pomo ou centro da demanda sagrada, conta com uma visão alegórica ou simbólica associada naturalmente às 12 personagens principais da trama, cada uma respectivamente ligada a um signo do Zodíaco. À luz da anatomia oculta do Homem, igualmente o coração (távola) reparte-se em doze segmentos, pétalas ou raios, cada um relacionado a uma das figuras da Grande Aventura, que podemos analisar/meditar da maneira seguinte:

cardíaco e pétalas

Remato assim finalizando com o sábio e augure conselho do vate Fernando Pessoa: “Que Portugal tome consciência de si mesmo. Entregue-se à sua própria alma. Nela encontrará a tradição dos romances de Cavalaria, a Tradição Secreta do Cristianismo, a Sucessão Super-Apostólica, a Demanda do Santo Graal”.

NOTAS

[1] O poder do Estado era recto e claro, não existiam dúvidas. A oposição clerical está demarcada na “ocultação” das igrejas aí existentes. Tanto que foi no período do Marquês de Pombal e por influência do próprio, que a Companhia de Jesus, a dos jesuítas, ficou temporariamente inactiva. O Estado domina o Clero, é a mensagem que se traduz na formatação arquitectónica da baixa ribeirinha da capital do país. O caríssimo leitor ao deambular pelas ruas da Baixa Pombalina, certamente por vezes nem se aperceberá da quantidade de igrejas por que passa junto tal a discrição em que estão recolhidas, precisamente por esta delineação arquitectónica intencional.

[2] O topo do Arco da Rua Augusta ostenta a frase latina “VIRTVTIBVS MAIORVM VT SIT OMNIBVS DOCVMENTO”, que significa: “Às Virtudes dos Maiores, para que sirva a todos de Ensinamento”, ressalvando a memória patriótica dos grandes homens que fizeram Portugal.

[3] Isto conforma-se ao que nos conta Sousa Viterbo em Dicionário Histórico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Constructores Portugueses ou a serviço de Portugal, vol. I, Lisboa, 1899: no tempo de Henrique de Borgonha e de Dona Teresa existiam templários ou “tempreiros” em Portugal, com terrenos doados, ainda antes de a Ordem ter sido fundada oficialmente em 1128.

[4] De certo modo podemos até especular que o conturbado século XIX, marco na História do início da ascensão do materialismo económico, pode ter sido o reflexo da morte ou “desligamento” do binómio “conquista espiritual – conquista temporal”.

[5] É interessante analisar como a Ordem de Cristo também teve um plano (ou manteve) delineado para reconquistar Jerusalém, especificamente pelo 2.º vice-rei da Índia, Afonso de Albuquerque, o César do Oriente, incluindo o ponto estratégico da Abissínia (onde se localizava o reino cristão do verdadeiro Preste João das Índias) para a efectivação da estratégia militar. Infelizmente, os meios de comunicação falharam não tendo a informação chegado ao rei português no devido tempo tendo o plano acabado no esquecimento, como nos conta Elaine Sanceau no seu livro Em Demanda do Preste João, Livraria Civilização Editora, Porto, 1939.

OBRAS CONSULTADAS

ADRIÃO, Vitor M. As Mansões Filosofais de Praga. Éditions Jonglez, Versailles, e Lusophia (blog), 2013.

ADRIÃO, Vitor M. Portugal Templário. Madras Editora, São Paulo, 2011.

ADRIÃO, Vitor M. A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Carcavelos, 2006.

COSTA, Dalila Pereira da – A Nau e o Graal. Lello & Irmãos Editores, Porto, 1978.

CHURTON, Tobias – A História da Rosa-Cruz. Os Invisíveis. Madras Editora, São Paulo, 2009.

DAEHNHARDT, Rainer – Portugal Cristianíssimo. Zéfiro Editora, Sintra, 2005.

GANDRA, Manuel J. O Projecto Templário e o Evangelho Português. Ésquilo – Edições e Multimédia, Lisboa, 2006.

GANDRA, Manuel J. Esquissos sobre a Rosa-Cruz Templarista em Portugal. Edição de autor, Mafra, 2012.

PAULO, Pereira – Arte Portuguesa. História Essencial. Edições do Círculo de Leitores, Lisboa, 2011.

VITERBO, Freio Joaquim Santa Rosa de – “Tempreiros ou Templeiros” in Elucidário das Palavras, Termos e Frases…, 1.ª ed. 1798. Há edição crítica de Mário Fiúza, Porto, Livraria Civilização, 1965, 1966, 2 vols. Nessa o vol. II, p. 582 (contudo não atualizámos, como nela, a ortografia, pelo mais saboroso do original).

TELMO, António – Mistério de Portugal na História e n´os Lusíadas. Ésquilo – Edições e Multimédia, Lisboa, 2004.

Créditos fotográficos: Hugo Martins e Arquivo da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

PORTUGAL – DIMENSÃO OCULTA (LUZ DO GRANDE OCIDENTE), LIVRO RECENTE DE VITOR MANUEL ADRIÃO – CONVITE E APRESENTAÇÃO PÚBLICA Quinta-feira, Nov 5 2015 

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PORTUGAL – DIMENSÃO OCULTA (LUZ DO GRANDE OCIDENTE), DE VITOR MANUEL ADRIÃO

CHIADO EDITORA, 2015

CONVITE GERAL PARA O LANÇAMENTO DA OBRA (ENTRADA LIVRE), TENDO COMO ORADOR E APRESENTADOR DO AUTOR:

DR. JOSÉ MANUEL ANES

DIA 27 DE NOVEMBRO (2015), SEXTA-FEIRA, ÀS 19H30

CHIADO CLUBE LITERÁRIO & BAR

GALERIA COMERCIAL TIVOLI FÓRUM

AVENIDA DA LIBERDADE, 188, PISO – 1, LOJA F, LISBOA

cartaz

PORTUGAL – DIMENSÃO OCULTA (LUZ DO GRANDE OCIDENTE), POR VITOR MANUEL ADRIÃO

PREÇO DE CAPA: 20 EUROS.

VOLUME DA OBRA: 636 PÁGINAS, COM INTRODUÇÃO E 20 CAPÍTULOS PROFUSAMENTE ILUSTRADOS.

convite

ÍNDICE DA OBRA:

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO I

GEOSOFIA “AVATÁRICA” DE PORTUGAL

CAPÍTULO II

VIAGEM À ATLÂNTIDA ATRAVÉS DE PORTUGAL

CAPÍTULO III

MEMÓRIAS DA ATLÂNTIDA EM PORTUGAL

CAPÍTULO IV

SINTRA, SERRA SAGRADA

CAPÍTULO V

MUNDO SUBTERRÂNEO DE AL-SHANTARA (SINTRA MOURISCA)

CAPÍTULO VI

A SERRA DE SINTRA NA ERA DE PROMISSÃO

CAPÍTULO VII

CYNTHIA SEMPER FIDELIS! ECCE OCCIDENS LUX!

CAPÍTULO VIII

ARCANJO SAKIEL, “GENIUS LOCI” DE SINTRA

CAPÍTULO IX

ORDEM E RITO DE MELKITSEDEK

CAPÍTULO X

TRIBUTÁRIOS E DÍZIMA DE MELKITSEDEK

CAPÍTULO XI

O TÚMULO DE MELKITSEDEK

CAPÍTULO XII

MANAS-TAIJASI: TEOSOFIA E EUBIOSE

CAPÍTULO XIII

PATANJALI E A “LUZ DO OCIDENTE”

CAPÍTULO XIV

PODER OCULTO DA PRECE E DOS SALMOS

CAPÍTULO XV

A RELIGIÃO-SABEDORIA DE MAITREYA

CAPÍTULO XVI

O REAPARECIMENTO DE CRISTO

CAPÍTULO XVII

ENFIM, AQUARIUS 2005!

CAPÍTULO XVIII

OBELISCO, DEUSES E CONSTELAÇÕES

CAPÍTULO XIX

2012 E O FATALISMO CÓSMICO (SIGNOS E CICLOS DA TRADIÇÃO)

CAPÍTULO XX

A BARCA DE DEUS E O FIM DOS TEMPOS

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SÍNOPSE DA OBRA:

Sobre o que seja Portugal – Dimensão Oculta, perspectivado no ângulo teosófico, sobretudo pelo que disse e escreveu em reservado mas também público o Professor Henrique José de Souza (1883-1963), brasileiro de ascendência portuguesa, é o motivo central deste livro onde passo a passo, tema a tema apresento uma visão nova para muitos, diferente para alguns do que seja o nosso País em sua essência última, onde deuses e homens com aspirações divinas se entrecruzam no solo pátrio desde a mais profunda noite dos tempos, deixando sinais e ensinamentos em obras as mais diversas agora evocadas para memória e eventual realização superior dos presentes e vindouros.

Da Atlântida a Portugal, de Sintra à Europa, da Europa à América do Sul, propriamente ao Brasil, é um “fio de Ariadne” desvelado neste livro dado à luz em tempo de um novo Ciclo de Humanidade. Nos vinte capítulos da obra encerram-se informações novas para muitos, ensinamentos novos para alguns, para todo o efeito, oferecidas ao leitorado geral, sobretudo aos partícipes do mundo da chamada Tradição Iniciática das Idades, onde o Divino e o Humano participam na mais equitativa medida.

Obra escrita com dedicação mental e sentimento de entrega, com igual sentimento e a advertência de desassombro a entrego agora ao cuidado do leitor, com o desejo de que seja frutuosa às suas mais secretas aspirações.

Vitor Manuel Adrião

Autores da Portugalidade Espiritual – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Nov 3 2015 

cabeçalho

Portugalidade = Carácter específico da Cultura e da História de Portugal, segundo qualquer Dicionário, e por esse termo interpreta-se as multivariadas expressões culturais e artísticas genuinamente portuguesas, inclusive a chamada “espiritualidade portuguesa”, patente, por exemplo, nas Festas Populares do Divino Espírito Santo. Para Fernando Pessoa, a Portugalidade universaliza-se como a “maneira de ser humano e de estar no mundo como luso”, apanágio do “homem lusitano” e que se crisolou após a formação do Reino, elevando-se sobretudo a partir dos reais feitos e de seus efeitos reais, dando como exemplo a Ínclita Geração que o poeta toma por base dos seus vaticínios do sentido maior do destino de Portugal. Resta o resto… que é tudo, ou seja, realizar a “translatio imperii” em conformidade à sucessão histórico-cultural dos ciclos que fazem a História, entendida em que latitude for e dando Portugal como cumeeira da Europa toda, da qual não somos cauda mas cabeça. Tudo isto sem descurar o factor socioeconómico, gizado por acção política favorável ao bem comum do progresso nacional, para que o Futuro não se adie e a Juventude, semente do Amanhã, não tenha de procurar na cauda o que à cabeça e só pertence.

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Desde o último quartel do século XIX que a dialéctica escolástica, por preconceitos intelecto-discursivos inteiramente do domínio da especulação cujo positivismo é o da inteira negação, originou um notável pedantismo pragmático ficcionista no conspecto histórico-filosófico que penetrou vigorosamente o século XX, nisto estando a causa pragmática das actuais conceitologias ora revisionadas, ora revisionistas, ora por comum programação ambas as coisas, para todo o efeito, anti-tradicionais e anti-iniciáticas!… Sem dúvida que Alexandre Herculano e Oliveira Martins, mais o primeiro, foram quem primeiro contribuiu muitíssimo, por via da historiografia adulterada em romanceiro ficcionado, para o começo do processo inversivo e disformativo da escatologia, mais que socioeconómica e político-militar, mitogénica da História de Portugal, e, por extensão geodemográfica, Ibérica, processo metodológico que se arrasta, qual «alma penada», até ao presente momento.

A Intra-História vê-se desfavorecida, marginalizada, ostracizada, pela Extra-História, nesta onde a factologia cronológica tem papel único e determinante em desfavor da intenção íntima assistindo à mesma. Assim, os valores da aplicação escolástica da Maiêutica na Academia (do grego Kadmos, Kadmon) de Platão quiseram-se destituídos, aparentemente vencidos, pela Loggia da escolaridade na Universidade (em detrimento do seu significado último latino, universitas, “universalidade”) de Aristóteles, este considerado «incarnação» do positivismo mecânico patente em quantas especulações doutrinais hajam, inclusive nas hodiernas filosofias religiosas, confundindo o natural com o espiritual, o aparente com a causa, assim auto-assumidas inimigas ferrenhas da Tradição Primordial. É como se, geometricamente, o cubo plano quisesse desmentir a haver um triângulo elevado, ou seja, o imanente concreto recusar haver transcendente abstracto… Daí vem a historieta popular, pretendida sofisma, de “quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha”? Obviamente o Ovo contendo a Substância Universal Informe donde saiu a galinha, neste caso, a Criação formal, ou seja, o Incriado gerando o Criado…

Hoje aprende-se e apreende-se – por via do experimentalismo mecânico cujos conceitos saídos de novas «descobertas» são de imediato contraditos por outros novos, em uma perpétua auto-negação que o torna não tanto positivo mas mais negativo – as mais controversas e contraditórias entre si, geralmente de um conceito para outro quando não no mesmo, conceitologias filodóxicas por teoremas cientológicos, direi assim, como por exemplo acerca do Cognoscio Universal na Origem do Mundo, do Homem e demais seres viventes, Arquétipo esse assistindo a-posteriori à evolução mental e respectivo desenvolvimento cultural dos povos que, no particular do tocante a nós, sobre Portugal, impõe-se uma miserabilista e limitadíssima historiografia factual onde a cronologia de todas as inúmeras coincidências inexplicáveis são pela razão imediata rotuladas e remetidas ao ocaso de «meros e inúteis acasos», despropositados ao «sentido prático» ou mecânico que assiste a Humanidade, logo não passando de «novelísticas poéticas» exclusivamente destinadas ao entretenimento lúdico dos sentidos!…

A reflexão e a apreensão mental têm o seu detrimento na decoração e citação cerebral, pelo que é uso confundir-se erudição livresca com sabedoria natural. Mas conhecer não é saber e, não raras vezes, tampouco é conhecimento… por não passar de memorização – cuja mecânica não raro substitui a assimilação – mais ou menos hábil. Deve-se memorizar esta data, aquele feito, aquela citação, mais isto, mais aquilo e… até ficar com o cérebro repleto e condicionado, em estado semelhante ao  empaturro da imitação vocal do papagaio. Se o escolar for obediente às regras do jogo institucional e não «levantar ondas», poderá acabar por obter o desejado diploma ou certificado dele também ser mais um formado superior com direito ao respectivo título…

Está criada a contra-Cultura, a contra-Iniciação e a contra-Natura pela pretensiosa contra Vincit Omnia Veritas. O Mito é agora quimera fantasista, fantástica a fim ao «lúdico poético», o Sagrado acabou descodificado e os seus Mistérios já não existem (se alguma vez existiram…), visto a explicação científica já ter desferido a estocada fatal nas «superstições obscuras» do Passado.

Tudo é explicado e «explicável» no discurso do materialismo dialéctico de Kant e Hegel, e na sua forma mais hodierna pela psicanálise das ideias pretendidas arquetípicas mas cujas manifestações revelam ser de ordem mais imediata, psicossomática, como sejam as de natureza esquizofrénica e neurasténica – origem da confusão perturbante de tomar o onírico pelo espiritual – causadas por distúrbios sexuais ou, no mínimo, tendo as suas causas na libido. Está criado o condicionalismo psicomotor e psicomental, e assim estabelecida a fronteira do pensamento aquém no limite doentio da farsa e do logro, condição propícia à criação do hommo mutantis, estupidificado e servil, a quem em troca do consumismo desenfreado fazendo-o eterno devedor, retiram-lhe a vontade, o sentimento e pensamento próprios. É o que se vê hoje em dia: do partido político corre-se para o clube desportivo, deste para o centro comercial e as parafernálias da moda, sempre numa corrida na vida como em fuga à mesma vida…

Os mitos sagrados substituem-se por outros mitos: os da «sagrada» dialéctica discursiva, especulando sobre tudo e mais alguma coisa, a começar pelo que não se sabe mas positivamente fica bem divagar, e devagar com palavras sonantes repletas de oco… Enfim, o Deus Natural viu-se destronado pela crença fervorosa no todo pleno “deus máquina”, indo o computador substituir o cérebro humano e o hambúrguer quizilento fazer esquecer a gastronomia tradicional. Assim é o Homem embrutecido, feito metal de liga duvidosa, por fora e por dentro… Ipso facto!

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No entanto, é bastante significativo que a própria palavra materialismo date apenas do século XVIII: foi inventada pelo filósofo Berkeley, para designar toda a teoria que admite a existência positiva e só da matéria. Anteriormente a esse século houveram teorias mecanicistas, do Atomismo grego à Física cartesiana, mas não se deve confundir “mecanicismo” com “materialismo”, apesar de certas afinidades que criaram uma espécie de solidariedade entre ambos desde a aparição do “materialismo” propriamente dito.

A Tradição acabou substituída pelo costume e a Intuição apreendida pela dicção decorada, o que constitui prova cabal da banalização desvalida do mundo moderno (Oriente-Ocidente) com todos os seus valores reais ruídos (pelo menos aparentemente, posto que essencialmente são indestrutíveis), gerando uma precipitação acelerada da transformação cíclica da civilização por um pressuposto retorno às origens do Homem e da Terra, neste caso, ao estado de Pureza original, ao Paraíso Terrestre, o Éden bíblico ou a Agharta transhimalaia, onde antanho estava em latência e potência e hoje, tão-só, em impotência patente.

Quando um individuo, grupo ou civilização se extremiza, auto-aniquila-se. Isto é válido tanto em materialismo quanto em espiritualismo.

Em materialismo, quando a densidade do mecanismo cerebral atinge o clímax, «explode». Observe-se, como espectador imparcial, os multivariados parâmetros do fenómeno agente ou de actuação da sociedade moderna e facilmente se aperceberá quão incerto é o seu futuro…

Em espiritualismo, quando a subtilização psicomental alcança o seu máximo extremo, faz com que se «evole». Retenha-se os exemplos dos grandes Místicos (São Bernardo de Claraval, São Francisco de Assis, São João da Cruz, etc.) e dos grandes Movimentos Espirituais (Ordem do Templo, Ordem de Cristo, Ordem de Santiago, etc.).

Daí a procura constante pelos espíritos tradicionalistas e pelas sociedades tradicionais do equilíbrio vital Espírito-Matéria, ou seja, o prosaicamente chamado “Caminho do Meio”, “Caminho Estreito”, “Fio de Navalha”, etc., aconselhado seguir aos povos orientais através dos Arhats ou discípulos adiantados de Gotama Sakya-Muni, o Budha, e por Jeoshua Ben Pandira, o Christus, por via dos seus Apóstolos aos povos ocidentais, tendo a essência da Filosofia de Um e de Outro, idênticas e até complementares entre si, sido separadas durante a Renascença europeia como consequência das Reformas de Trento por via de um Humanismo eclesiasticamente mal-entendido e pior exercido (séculos XVI-XVII), época em que apareceram os primeiros esboços da antropomorfização do Divino, indo abrir o caminho para a Sua posterior negação. O cisma da ruptura Oriente-Ocidente que já vinha do século IX com a divisão da Igreja em duas facções, fez sentir em Seiscentos o seu aguilhão fatal com o apartamento das Irmandades de guildas operáticas da assembleia dos crentes que é a Igreja, novamente sentido e repetido no século XVIII com a ruptura decisiva entre a Igreja dos simples e a Maçonaria dos especuladores. Quem, desde então, lucra com isso é a mais que controversa pregação religiosa e laica cuja catequese destina-se só à fundação de um império socioeconómico através do domínio psicossomático dos povos e nações sob a sua alçada, possuindo os espíritos, as suas próprias vontades e pensamentos na maior das ditaduras psicossociais, enfraquecendo cada vez mais a Verdade original a ponto de se a considerar mentira, e à Mentira verdade…

O Equilíbrio Universal, assente na Obra Divina ou Teurgia de todos os povos, em boa verdade sempre foi procurado o seu estabelecimento, como que procurando pela Harmonia celeste plasmar uma Sinarquia terrestre, uma Concórdia psicossocial abrangendo toda a Terra e ordenada segundo uma hierarquia original e natural de valores (em homens e nações), indo resultar num modelo perfeito de governação à escala planetária, este um belo e bardo sonho que, reza a Tradição Primordial, inspira-se na Utopia realizada dos primitivos Reis Divinos da mais real e menos lendária Atlântida.

Tal Ideia Sinárquica foi aplicada e realizada por Ram e o seu império universal que se estendeu da Europa à Índia, por Fo-Hi na China, por Vyassa junto dos primitivos Ários, por Moisés com as 12 Tribos de Israel, pelo mítico Rei Artur e os 12 Cavaleiros ideais da Távola Redonda, que estabeleceram a unidade e o poder nacional na primitiva Bretanha, pelo Conde D. Henrique de Borgonha e os seus “12 Barões assinalados”, na génese do Condado Portucalense; foi perseguida e tentada na Idade Média pela  Ordem dos Templários, tomando a inspiração iluminada da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Divino Espírito Santo, e com ela a aplicação ecuménica, ainda assim reservada, do Sacerdócio de Melkitsedek, o “Rei do Mundo”, eixo troncal do mesmo fixado no centro da “Terra Santa” primordial, modelo de quantas se seguiram sobre a Terra, Paradhesa original identificada à Agharta e à Igreja do Preste João, para todo o efeito, Omphalo do Mundo. Desgraçadamente, por “Deus dispor e o Homem predispor”, em conformidade ao livre-arbítrio assistindo a um e a todos, essa Ideia Sinárquica abortou várias vezes, como na Revolução Francesa, na Guerra Civil portuguesa, opondo os príncipes irmãos Pedro e Miguel, e até mesmo com a Revolução Soviética na Rússia…

A constituição sinárquica baseia-se no tríplice atributo da Matéria, Mater-Rhea ou Mãe-Terra, a saber: Satva – energia centrífuga (amarela); Rajas – energia rítmica equilibrante (azul); Tamas – energia centrípeta (vermelha), classificando a Terra como um Corpo Vivo Uno manifestado de forma Trina, portanto, Uno-Trino, e o Homem identificado, segundo a empatia gerada pela sua evolução natural, mais com um do que com outros membros do mesmo Corpo: ou com a cabeça (pensamento), ou com o tórax (sentimento) ou, ainda, com o ventre (vontade).

esquema 1

Quando Satva predomina, atraindo as outras duas forças, outorga aos povos a concórdia, o entendimento mútuo, a generosidade e o acerto por parte dos governos, os quais se fazem eleitos e amigos dos seus governados. Dirigentes e dirigidos formam uma harmonia perfeita, semelhante à vivida pelos antigos gregos da época anfictiónica e dos egípcios nas primeiras dinastias. É o que se pode chamar: consciência colectiva e concordância entre IDEALISMO, APTIDÃO e CARGO, ou o perfeito equilíbrio SATVA, RAJAS e TAMAS.

Delta Teúrgico

Na Idade Média (séculos V-XV), a Era Feudal por excelência, governou Tamas. Diz-se que nas nações onde predominem Rajas e Tamas, simultaneamente, existe uma tendência para retroceder na evolução sócio-espiritual, contrariando a ordem natural das coisas. Vê-se hoje ser isso que acontece: Tamas e Rajas dominarem, representando um período de crises, uma era de transição, de dúvidas e incertezas para todas as nações do mundo, transição que decerto será para Satva, implicando a Idade de Ouro, a Satya-Yuga, o III Milénio no qual, segundo os bardos e profetas de todas as Idades, haverá de se concretizar a Parúsia Universal com a consequente implantação do Império “Sebástico” do Divino Espírito Santo, assinalado no Magistério de Melkitsedek.

Já no século XV o Infante Henrique de Sagres, como Grande Iniciado que era, conhecia e aplicava o modelo trinitário da estrutura sinárquica. Na sua própria divisa, Talant de Bien Faire (“Talento [ou Propósito] de Bem Fazer [ou Criar]”), estão veladas as Três Hipóstases Universais, cada qual manifestando-se por uma das supracitadas Gunas (“cordas”, em sânscrito) ou “qualidades subtis da matéria”. Assim, tem-se:

esquema 2

Mais que o preconceito (pré-conceito) psicomental afectando os hábitos ordinários, é o interesse político-económico já indicado pela própria Tradição – que não morre jamais, quanto muito pode entrar em letárgio ou adormecimento para o século ou ciclo de laicidade e profanidade, por ser parte integrante do próprio Homem – a causa principal do desvirtuamento e profanização da História, o ramo sintético de todos os ramos do Conhecimento Humano, por ser ela quem analisa e descreve os “ciclos de existência do Homem e do Mundo”, pelo documentário e pela comparação ou analogia com factos similares que, assim, invés de só darem o parcial da coisa em análise poderão muito bem alargar o horizonte de perquirição da mesma, podendo até conseguir-se penetrar o foro íntimo ou intenção última do agente e da acção, ou seja, do personagem e do facto, e assim, igualmente, poder adentrar o domínio do sagrado onde só parecia haver profano.

Sobre a Idade Média, por exemplo, tem-se a noção quase comum mas pouco crível de ter sido a Idade dos dogmas, das superstições e do obscurantismo totais. Dou um só exemplo, de entre muitos o mais vulgar: actualmente pretende-se que os povos europeus medievais acreditavam que a Terra era plana, com o abismo oceânico por baixo e os coros celestes por cima. Isto deve-se aos nossos contemporâneos de cátedra outorgarem uma interpretação racionalmente literal às escrituras marcadamente simbólicas e hiperbólicas dos antigos, esmerando-se, por exemplo, nas citações de Plínio e Estrabão, biógrafos das tradições arcaicas egípcia, grega e latina, desdenhando satisfeitos o facto de tais descreverem, mantendo sobre a descrição o véu da discrição, alegorias inteiramente simbólicas de mitos cosmológicos e antropogónicos, bem ao gosto da erudição de seu tempo, e assim o positivismo contemporâneo indo criar os seus próprios mitos, antes dito, mitologias, numa amalgama parafernália feita da usurpação e adulteração do sentido último e único da Sabedoria Antiga.

Que a Terra era redonda com dois eixos já os antigos o sabiam, facto inclusive descrito no Antigo Testamento (Job, XXII-12, e Samuel, II-8). Quanto à “Terra plana”, G. Santillana em Hamlet´s Mill (Gambit, Inc. Publishers, Boston), é peremptório:

“A Terra plana dos antigos não tinha qualquer semelhança com as lucubrações dos fanáticos que envenenaram a existência de Cristóvão Colombo. Por Terra plana, os antigos designavam a banda zodiacal na qual se movem os “verdadeiros habitantes” do nosso mundo, isto é, os planetas […]. A palavra “Terra” designava, para os antigos, o plano ideal da elíptica […] passando pelos quatro pontos do ano, os equinócios e os solstícios […]. A Terra era definida como tendo quatro ângulos, não se tratava de a considerar quadrada.”

Planisfério de Ptolomeo

Planisfério de Ptolomeu

Esse é um exemplo mal tido mas muito associado a esses outros do “Sol girar em torno da Terra” e de se considerar o “Homem como centro do Universo”. Já Copérnico falava da Terra girar em torno do Sol, assim como a maioria dos astrónomos antigos. O facto é não tanto uma questão de localização física mas de posição ideal: o Sol gira em torno da Terra como foco da existência activa e única realidade vital do Homem, pouco lhe importando, neste caso, o posicionamento verdadeiro das luminárias celestes, e por isso se considerava, aliando esse macrocosmo ideal ao seu microcosmo existencial, o “centro do Universo”.

Havia, pois, uma linguagem alegórica, cifrada ou cabalística, nada tendo a ver com superstições nascidas do temor ao vácuo (a não ser quando se necessitava semeá-las para ocultar factores que se queriam proibidos e secretos, como aconteceu profusamente durante o período das Descobertas Marítimas, ora para atemorizar – mantendo secretas certas rotas e localizações geográficas –, ora para incitar – granjeando marinhagem e soldadesca, cobiçosa de riqueza e aventura, para as naus pela promessa eldorada mas mítica do Reino do Preste João –, ora, para todo o efeito pelo ludibrio, por cartas náuticas e cartográficas falsas «facilmente roubadas» pelos adversários, tomando-as por verdadeiras). Assim se ministra hoje a “fantasia toda absurda” de certa historiografia de cátedra cujo sentido verdadeiro dos factos originais não são apreendidos, com isso tampouco as explicações podem ser plausíveis, isto por multivariadas razões, é facto, para todo o efeito todas elas falhas de espírito vivo mas plenas de letra morta, parafraseando o Mestre dos Evangelhos.

Isso regista-se notavelmente na Teleogénese Lusitana desde a metade final do século XIX para cá, com recrudescimento nos últimos decénios graças à intrusão de factores políticos de tendências pessoais na toda impessoal História Pátria, e para tanto socorrendo-se de elementos absolutamente alheios à estrutura sinergética da Alma Nacional, à Formula Mentis Lusitanea, pretendendo impingir nesta estrangeirismos abastardados e soltos nada a ver com ela em tempo algum, desvalido abarcando também o fenómeno moderno de certo nacional “new age” com tendências de religião urbana de foro comercial, poluidor onírico visando tanto a Tradição Espiritual quanto a História de Portugal, mostrando-as em retalhos soltos por efabulações avulsas vazias de toda a prova sólida. Nisto, será de toda a conveniência a não confusão do espiritual com o onírico, do segredo e secreto com o dizível e público.

Portugal é cerca de 500 anos a nação mais velha da Europa, da qual a Península Ibérica é a cabeça e desta a Lusitânia o seu rosto, o reflector bioplástico da restante estrutura continental. Reza a lenda (ou não tanto…) que Portugal nasceu do sonho de um bardo guerreiro: D. Henrique de Borgonha sonhou com São Miguel (o Arcanjo Mikael ou Mirrail) que lhe apontou por um Raio de Luz o Lugar onde deveria fundar o Condado Portucalense, tendo o seu filho Afonso Henriques soltado o brado Porto-Graal. Assim, nesta pouco conhecida lenda áurea da nação, Portugal nasceu dum sonho, um sonho divino, e felizes são os que têm sonhos divinos…

Logo nasceria a Monarquia por direito legado Divina, que foi a de Avis (anagramaticamente, Siva ou Shiva, o Espírito Santo), confirmada pela Profecia de São Bernardo de Claraval (Clara+Valis, “Lugar da Luz”, assim associado ao antropónimo latino Lux-Citânia) a Afonso Henriques, legalizada pela própria Promessa de Cristo a este primeiro Rei de Portugal, no momento sagrado antecedendo a Batalha de Ourique.

Papa Alexandre III, D. Afonso Henriques e S. Bernardo de Claraval. - Esculturas no Mosteiro de Alcobaça.

Papa Alexandre III, D. Afonso Henriques e S. Bernardo de Claraval. Grupo escultórico no Mosteiro de Alcobaça, antiga Casa-Mãe da Ordem de Cister em Portugal.

Essa Monarquia do Espírito Santo, onde a sucessão filial e a transmissão espiritual correu até D. Sebastião, teve a apoiá-la os maiores paradigmas do Pensamento Lusitano e mesmo Universal, comportando-se como verdadeiros “reis-sacerdotes” de autênticas cortes de sábios iluminados nas ciências iniciáticas da Tradição. Poderá ser que alguém mantenha a memória de que a Antropologia nasceu da Antropogénese, a Física Nuclear da Cosmogénese, a Astronomia da Astrologia, a Medicina da Taumaturgia, a Magia da Teurgia, a Teologia da Teosofia, a Química da Alquimia…

Alquimia! Aqui subjaze o Mistério Lusitano feito Lusófico como sua razão e fundamento. Alquimia, do cóptico arábico Allah-Chêmia, “Química Divina”, sob o Padroado de Mikael é a Ciência de Siva, o Espírito Santo incarnado em Maria, Mãe dos Filósofos do Fogo cuja Magnus Opus é transformar o Homem e a Natureza corruptos, imperfeitos, em Ouro Filosófico como a absoluta Quintessência, tanto valendo por Iluminação Integral que é a Medicina Universal obtida da transformação ou rarefacção dos elementos químicos do Corpo (Labor) e dos componentes subtis da Alma (Oratorium), esta a Grande Obra exercida no Laboratório do Corpo individual e nacional através do supremo elemento: o Fogo, rojado sobre a Terra desde o seu Sanctum-Sanctorum que é o “Laboratório do Espírito Santo”. Daí os Alquimistas serem chamados de Philosophum per Ignis e os seus tratados, por norma cifrados e dedicados à Mãe Eterna, de “Roseiras dos Filósofos”, “Roseiral do Filósofo” e “Roseirais Filosóficos”.

A conquista hermética do ouro alquímico era, para o Adepto da Arte Real, a prova suprema, a prova do fogo em que eram testados todos os seus valores intelectuais e morais (tal qual acontece agora com Portugal no plano socioeconómico europeu). Se triunfava, tornava-se um Sábio, um Mestre onde as suas riquezas humanas cresciam a par das riquezas espirituais, possuindo ambas sem já ser possível ser possuído pelas primeiras, por desposse interior ou consciência integrada em Deus, Senhor de todas as coisas ínfimas e ricas… Pelo contrário, se era vencido fazia-se pobre e ignorante, tanto em matéria como em espírito, indo passar ao error e à errância.

A História de Portugal faz-se encaminhada pela Filosofia do Fogo Hermético descido sobre o pátrio rincão privilegiado qual Avis Raris In Terris, por via dos seus mais preclaros filhos. A bibliografia nacional sobre este ramo privilegiado da Sabedoria Iniciática das Idades é muito vasta, tendo aumentado com a Renascença portuguesa, apesar da maioria da literatura que a prova andar hoje dispersa pelo País, pela Europa e outras partes do Mundo, por vezes, pior ainda, atribuída a autores que não os verdadeiros.

Desde que Portugal é País, desde os mais remotos aos mais recentes fidedignos Iniciados na Sabedoria Tradicional das Idades, todos foram portugueses, e os que não foram, de uma maneira ou de outra, renderam vassalagem ou prestaram tributo espiritual a Portugal, a Orange egípcia, o Bortuqal árabe, o Jardim das Hespérides, Hespanhas ou Plêiades gregas, a Luz do Mundo dos Actos dos Apóstolos, enfim, o Porto-Graal como reza no sinal rodado afonsino, Tebaida deífica dos Deuses originais por cuja graça bem se pode afirmar que se Deus existe, então, Deus é Português.

A Igreja Católica Lusitana, de certa forma expressiva da tão falada e mais ainda mal entendida e quase ou mesmo nada apercebida Fraternidade Espiritual Portuguesa, ou por outra, Soberana na Regra e na Ordem de Mariz, teve inclusive dois Papas no sólio do Vaticano (antigo “lugar dos vaticínios” dos augures romanos, sob cujo altar de São Pedro está a cripta subterrânea, o Mitreo, onde ainda se conservam os restos do altar consagrado ao deus solar Mitra, como se destaca no seu relevo dianteiro), ambos reconhecidos Alquimistas e Filhos de Maria ou Ísis (a Virgem Negra posteriormente representada pela Virgem Grávida, a Senhora do Ó ou Senhora da Expectação, sendo o ícone mais antigo da devoção mariana por estar conforme a inflexão da ladainha original do Apóstolo Lucas: “Ó Maria, Deus te escolheu…”). O primeiro foi no século IV, nascido, presume-se, perto de Guimarães, tendo papel destacado como grande figura intelectual e moral da Igreja: São Dâmaso. O segundo apareceu no século XIII e, pelo seu elevado valor, foi eleito Papa. Chamava-se Pedro Julião, mas no estrangeiro ficou conhecido como Pedro Hispano por ser natural da Hispânia, que é dizer, da Península Ibérica. Grande médico, Pedro Julião ficou sobretudo conhecido pelos seus livros onde comentou e ampliou a obra de Aristóteles. Além de médico, escritor e professor, foi vigário na Comenda Templária de Santo André de Mafra até ser eleito arcebispo de Braga, donde passou para Roma para ser Papa. Nasceu em Lisboa e faleceu em Viterbo, a 20 de Maio de 1277. Foi eleito Papa de 8 de Setembro de 1276 a 20 de Maio de 1277. Duração do pontificado: 8 meses e 12 dias. Levando o nome de João XXI adoptou a divisa Piscator Tuscus, o “Pescador Toscano”, por ter sido cardeal-bispo da Toscânia.

Senhora do Ó ou da Expectação. - Imagem do século XIV, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Senhora do Ó ou da Expectação. – Imagem do século XIV, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

O rei D. Dinis também foi um real personagem de ligações estreitas à Grande Obra (a ele se deve a tradução da Crónica de Afonso X), assim como o seu tio Afonso, o Sábio, de Castela, não esquecendo Isabel de Aragão e Portugal, a nossa Rainha Santa, a quem se deve a instituição do Culto do Império Popular do Divino Espírito Santo no Reino através dos Franciscanos “beguinos”. Por sua vez, toda a Ínclita Geração, com realce para D. Duarte e D. Henrique, este que inclusive traduziu do árabe O Segredo dos Segredos, foi profundamente versa à Filosofia Hermética. Já antes, no século XII, o Sepher-Ha-Zohar – a “bíblia” da Kaballah Profética ou Sefardita – foi escrito na Península Ibérica por um rabino português radicado em Leão, tal como os seus comentários ao Sepher-Ha-Yetzirah: Moisés de Léon ou Leão. Um século antes desse, aparecem também na Hispânia os princípios laudativos de Adonai, o “Senhor”, na Kether-Malkuth, como parte integrante da Fons Vitae, escritos pelo primeiro judeu filósofo hispânico no século XI: Salomão Ibn Gabirol. Este Avicebrão dos latinos, natural de Málaga, veio radicar-se em Portugal onde faleceu em 1070.

No século XVI, os eruditos cistercienses do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça traduziram a versão italiana da famosa Carta do Preste João das Índias a Manuel, Imperador de Constantinopla (1165), dessa feita atribuindo o seu endereço ao rei português D. Manuel I, apresentando-se a composição cifrada repleta de sugestões herméticas. Foi nessa mesma época que se deu uma grande difusão judaico-cristã da literatura e iconologia relativas à Tradição Hermética. Frei Tiago de Boaventura Hepburn de Escócia (1573-1612) deu à estampa a sua Virga Aurea (“Vara Dourada”), espécie de “pedra de roseta” dos vários alfabetos conhecidos e desconhecidos para a composição cabalística dos “selos e quadrados mágicos”. Por sua vez, também nesse século, Frei Bernardo de Brito – vindo a ser o primeiro autor alcobacence da História do Mundo, a Monarquia Lusitana – publicou o seu tratado de Alquimia, Silvia de Lysardo, impresso em Lisboa em 1597. Anos antes, o rabino e astrólogo de D. Manuel I, Abraão Zacuto, escreveu os seus comentários ao Zohar no Sepher-Yurhasim.

No século XVII aparecem as Éclogas de Francisco Rodrigues Lobo, 1.ª edição em 1605, e em 1619, do mesmo autor, a Corte na Aldeia. Estou em crer que a sua primeira obra hermética dada à estampa foi A Primavera, editada em Lisboa em 1601, dedicando-a a D. Juliana, condessa de Odemira. Por seu lado, o judeu português, médico e poeta Estevão Rodrigues de Castro editou, através de seu filho, um importante tratado sobre Pitágoras, Pythagoras Stephani Rodericis Castrensis Lusitani, Londres, 1651. Mas já em 1627 Frei Bernardino da Silva, ideólogo de um imperialismo hermético, havia escrito a sua Defensam da Monarchia Lusitana, editada em Craesbek.

No século XVIII a Tradição Hermética usufrui de grande difusão e são inúmeras as obras dadas à estampa por renomeados hermetistas portugueses. D. Francisco de Melo editou na Lisboa Ocidental, em 1724, o seu Tratado de Ciência Cabala, aparecendo também livros como a Veritas Hermetica Veritatem Qvaerenti, toda em gravuras coloridas sem comentários (portanto, um Mutus Liber, “Livro Mudo”), de autor desconhecido, obra que chegou a pertencer à biblioteca do rei D. Carlos. É igualmente publicada a monumental Ennoea – ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal, de Frei Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, na Lisboa Ocidental em 1732. Contudo, é o Juramento Profético de Afonso Henriques em Ourique, do mesmo Anselmo Caetano, quem predispõe Portugal como o Grande Laboratório (Laboratorium, em latim, “Labor+Oratorium”, donde o Ora et Labora do Filósofo Real, e “Real” por ser a Alquimia Arte Régia destinada a criar Reis Herméticos) do Ecumenismo Lusófico no Ocidente, no exercício aplicado de uma “Alquimia Nacional”, se assim posso dizer, destinada a irradiar no Mundo a sua diáspora de Advento, logo, Parúsica e Paraclética, concorde com o V Império Universal do Divino Espírito Santo fundado na Lusitânia e implantado na Terra inteira com cabeça no Brasil, a “Nova Lusitânia” de Pedro de Mariz nos seus Diálogos de Vária História (Lisboa, 1672), tudo isso concorde com a tese anterior do Padre António Vieira nas suas Esperanças de Portugal, conformadas à tese trinitária das Idades do Mundo inscritas no Liber Figurarum do abade de Fiore, Calábria, no século XII, Joaquim de Flora, ideólogo da translatio imperii.

Todos os mais distintos e ilustres da Europa, da Idade Média à Renascença, buscadores do Tosão de Ouro no Jardim das Hespérides, sinónimo de Iluminação hermética no não menos hermético Jardim do Éden, vieram beber na Fonte da Tradição Primordial do Ocidente, Portugal – o Grande Ocidente continental onde ainda se reserva, como Arca, Barca ou a Agharta mesma, essa Sabedoria Atlante, acrescida ao longo dos ciclos posteriores, consignada principalmente pelos Lígures ou Li-Gurus, “Mestres de Mareação”, com o sentido último de Sábios ante Dilúvio Universal.

Paracelso, o médico alquimista criador da ideia da Lumen Naturae, esteve em Lisboa por volta de 1530. O inglês John Dee, rosacruz, mago, alquimista e matemático da corte Isabelina, segundo Joaquim de Carvalho chegou a ser correspondente de Pedro Nunes, o pai do “Nónio”, e até mesmo seu amigo próximo, segundo Moreira de Sá. John Dee possuía na sua biblioteca manuscritos aljamiados (escritos com caracteres hebraicos) em judaico-português, um “Tratado de Tintas”, redigido em terminologia alquímica, e um “Tratado de Magika”. Aggripa Von Nettesheim, o Alquimista, foi cronista de Carlos V, e é de ponderar o sabido contacto do nosso Infante D. Luís com a corte de Madrid do referido monarca, em cujo testamento figuram duas Pedras Filosofais. Leonardo Fioravanti, célebre médico e alquimista italiano, é sabido ter estado em Espanha até 1577, tendo vindo a Lisboa antes de 64, data da publicação da sua obra Spechio di Scientia Universale (Veneza), sobre quem diz: “Mi recordo in Portogallo, nella citá di Lisbonna nella veneranda chiesa di san Iare haver veduto in un deposito di un mosto questo epitáfio qui iace Basco Figueyra muchio contra sua volontade…” (cap. Delle seportura & de suoi riposi).

Alquimista no túmulo de D. Fernando I. Museu do Convento do Carmo, Lisboa.

Alquimista no túmulo de D. Fernando I. Museu do Convento do Carmo, Lisboa.

Além do pesado cardápio bibliográfico provando a presença e influência intensas da Alquimia em Portugal, tem-se ainda, espalhados um pouco por todo o país, testemunhos iconográficos e monumentais, como por exemplo: o túmulo de D. Fernando I, no Museu Arqueológico do Carmo, Lisboa, recheado de símbolos herméticos, inclusive vendo-se um alquimista operando num laboratório rodeado de símbolos dessa Arte. No Museu de Arte Antiga, também em Lisboa, pode observar-se a Fonte Bicéfala do Hermetismo com as cabeças coroadas de D. Manuel I e sua esposa, D. Maria. Em Cascais, no Jardim Castro Guimarães, outrora pertença do Convento dos Carmelitas e primeiro Colégio de Filosofia Hipertúlica no país, tem-se um painel de azulejos (provavelmente do século XVIII) retratando o “Cortejo Triunfal”, na qual se apresentam as figuras, com os respectivos nomes, dos principais Alquimistas portugueses e estrangeiros que tiveram a ver com Portugal, todos perseguindo o “Carro de Elias” transportando a Mãe Soberana que tem a guardá-la os Arcanjos Miguel e Gabriel à dianteira a cavalo ou cabala, tudo isso remetendo para a perseguição hermética da Merkabah de quem a Senhora é Shekinah. Já em Estremoz, no Alto Alentejo, vê-se na igreja de São Francisco a Árvore da Vida composta de frades dispostos geometricamente de maneira a configurarem a mesma, com São Francisco ao centro. Como última referência das muitas que poderia dar mas se tornariam exaustivas, tem-se o pórtico lateral da igreja de São Sebastião de Lagos, Algarve, todo repleto de símbolos referentes à Crisopeia (fábrica do Ouro) e à Argiopeia (fábrica da Prata), coroado no topo por um ouriço-cacheiro, representação zoomórfica da Pedra Filosofal. Tudo obra dos meados do século XV atribuída ao bispo D. João de Melo.

Fonte bicéfala manuelina. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Fonte bicéfala manuelina. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Finalmente e inscrevendo-se no painel dos “Reis Herméticos”, surge a figura incontornável do rei D. Afonso V (n. Sintra, 15.1.1432 – m. Sintra, 28.4.1481). Sobrinho do Infante Henrique de Sagres, juntamente com este e o seu conselheiro pessoal e rabi-mor da comunidade judaica portuguesa, Isaac Abarnavel, dentre outras funções, incluindo o exercício da alquímica e a kabalística, veio a compor a primeira biblioteca pública de livros impressos do mundo: a Livraria Real de D. Afonso V (in Joaquim de Carvalho, História de Portugal, dirigida por Damião Peres). Grande estudioso de Música, Astrologia, Alquimia e Kaballah na sua vertente gemátrica a qual aplicou à exegese bíblica, por transposições de cálculos cronológicos visando um milenarismo epilogístico (in Rui de Pina, Chronica do Senhor Rey Dom Affonso V, Porto, 1977), tudo transbordando da tendência hermética de ligar Alquimia e Kaballah (Artes em que terá sido iniciado pelo próprio almoxarife seu conselheiro indefectível, Isaac Abarnavel) com a Astrologia judiciária (em que ter-se-á iniciado através do astrólogo judeu Mestre Guedelha, que assistiu à sua entronização sendo o responsável pela escolha da hora propícia à transmissão dos poderes delegados no até então regente D. Pedro). Promotor do expansionismo ultramarino, assegurando a separação da Autoridade Espiritual do Poder Temporal, como lhe aconselhou o seu tio Infante D. Henrique de Borgonha quando o visitou na sua Vila da Raposeira, vizinha de Sagres, esboça-se no feitio singular dessa promoção o conceito de Sinarquia, o que ia bem com a sua natureza afim ao Ideal da Cavalaria Espiritual cuja fina-flor tinha idealizada na ideia, sempre perseguida, dos Cavaleiros da Távola Redonda e o Santo Graal (in Barão de Sabugosa, A Rainha Dona Leonor, Lisboa, 1921). Dizem certas tradições em voz miúda mas não tímida que D. Afonso V além das suas relações com as Ordens de São João de Malta e de São Jorge da Jarreteira, assim como com a Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo (cujo Mestrado foi-lhe concedido em 1461 por breve do Papa Pio II, Dum Tuam), havia sido iniciado nos mais altos Mistérios Herméticos por um certo Sábio egípcio ou copta – pertencente a dita Confraria União dos Mestres Turcos ou Africanos – com quem aprendeu os segredos da transmutação dos metais e, inclusive, terá conseguido a meta suprema da Grande Obra: a fábrica da Pedra Filosofal, tendo escrito um tratado sobre a mesma dividido em duas partes (Lapis Filosófico e Divisão dos Quatro Elementos), o qual foi furtado do seu gabinete (talvez o do Convento do Varatojo, Torres Vedras, por ele fundado) tendo depois aparecido em Londres (1652) onde era vendido como “literatura de cordel”, mas essa obra já foi recuperada e devolvida a Portugal nos anos 80 do século findado, processo onde intervi activamente.

tratado[1]

Como consequência de toda essa minha divulgação do tratado alquímico do “Africano”, em 1992 A. M. Amorim da Costa escreve em Lisboa A Alquimia em Portugal com O Rei Alphonso – Culto, Místico, Cavaleiro e Perdulário, indo transcrever o texto do supracitado “Roseiral Mariano”, dividido em dois “tramos” ou corpos, do nosso Rei Sintrão que, como Quinto, vai bem com a Ideia Graalística do Quinto Império da Humanidade por Graça Divina concedida a esta “Terra de Luz” (Luxcitânia).

Portugal – o Porto-Graal como se inscreve no sinal rodado do documento de doação de Tomar aos Templários pelo seu donatário D. Afonso Henriques – faz-se e fez-se de Tradição Divina, aqui, francamente Lusófica onde entram três princípios fundamentais interpenetrados vindo a caracterizar a singularidade do seu Espírito:

1.º – O Culto do Santo Graal. Gesta Avatárica ou Messiânica sob o pendão do Rei do Mundo, Melkitsedek, vindo a tornar Portugal o primeiro da Europa e de todo o Ocidente, ao mesmo tempo dando-lhe o sentido ecuménico único que aliás caracterizou a Diáspora Marítima dos Portugueses em Quinhentos – a Gesta Dei in Maris per Portucalensis.

2.º – O Sebastianismo, prolongamento do Messianismo. Foi o cimento mitogénico com que se fixou o espírito ecuménico da Diáspora Graalística nos cinco continentes, e, parafraseando o cronista Fernão Lopes, “se mais houvesse lá chegaríamos”… pela Graça do Espírito Santo, Orago do Reino.

3.º – A Saudade, sentimento abstracto, cimento que é para mais altos e divinos voos. Saudade do Encoberto, tanto no cerne da Alma humana quanto incarnado no Ideal Crístico, por que se caracteriza o Espírito Lusitano tecedor da Utopia desejada do mesmo V Império Universal, símile terreno parido do humano sonho, saudade, fado, dor, morte e desejo ou mais ânsia incontida do 5.º Mundo Espiritual, para onde se norteia o Argonauta da Grande Obra.

Também a Alquimia contém e se faz dos três princípios naturais que se ligam de maneira intrínseca ao Espírito da Tradição Lusófica, assim se convertendo em “Alquimia Nacional” pelos mesmos:

ENXOFRE – ESPÍRITO – GRAAL

MERCÚRIO – ALMA – SAUDADE

SAL – CORPO – SEBASTIANISMO

Há ainda um quarto elemento como quintessência: o Azoto, identificado à Iluminação tanto do Alquimista quanto de Portugal, após se transmutar a carne e a terra na vivíssima Panaceia Universal como Pedra Púrpura dos Filósofos, em si contendo viva toda a Natureza humana e universal.

Diga-se, ainda, que se Portugal é Graal, como Mátria (expressão feliz do Padre António Vieira) é a sua Alquimia.

Um belo e intuído esquema gráfico da autoria de José Manuel Anes, portando o título Homologia entre a G. O. Alquímica/Laboratorial e a G. O. Mítica/Nacional, fazendo parte da sua intervenção Alquimia, Sebastianismo e V Império na Universidade Nova de Lisboa, 1989, é de tal maneira afim e feliz ao tema em questão que o reproduzo seguidamente, com os meus agradecimentos ao autor intuído em hora grata:

esquema 3

Foi da Alquimia dos Deuses que nasceu Portugal. Foi da Alquimia Portuguesa que a Alma Lusitana transbordou a todo o Mundo, e haverá de ser pela Alquimia que o Espírito Lusófico dominará o Quinto Elemento Universal, sim, porque se a Terra a tomámos, o Mar também, aos Céus lá chegaremos como derradeira missão a cumprir: a de um e todos se transformarem em Deuses, Justos e Perfeitos, destino último já apontado na Profecia de Sintra – “Quem nasce em Portugal é por missão ou castigo”!

D. Sebastião

De maneira que é com o maior Vate das Letras Portuguesas, Fernando Pessoa, que inclusive reconhecia o Caminho Alquímico como o mais perfeito de quantos há na Realização verdadeira singular e plural do Género Humano, que dou o arremate final a este estudo ao reproduzir a sua bela Prece, O Apelo ao Divino, escrita provavelmente em 1912, ano da ligação do poeta ao movimento da Renascença Portuguesa e que se inscreve no período dos poemas místicos de “Além-Deus”.

Senhor, que és o Céu e a Terra, que és a Vida e a Morte! O Sol és Tu e a Lua és Tu e o Vento és Tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és Tu também. Onde nada está Tu habitas e onde tudo está – (o Teu Templo) – eis o Teu Corpo.

Dá-me a alma para Te servir e alma para Te amar. Dá-me vista para Te ver sempre no Céu e na Terra, ouvidos para Te ouvir no Vento e no mar, e mãos para trabalhar em Teu Nome.

Torna-me puro como a Água e alto como o Céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-Te como a um Pai.

Minha vida seja digna da Tua presença. Meu corpo seja digno da Terra, Tua cama. Minha alma possa aparecer diante de Ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu Te possa adorar em mim; e torna-me puro como a Lua, para que eu Te possa realizar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu Te possa ver sempre em mim e rezar-Te e adorar-Te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que me sinta Teu. Senhor, livra-me de mim.