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Portugalidade = Carácter específico da Cultura e da História de Portugal, segundo qualquer Dicionário, e por esse termo interpreta-se as multivariadas expressões culturais e artísticas genuinamente portuguesas, inclusive a chamada “espiritualidade portuguesa”, patente, por exemplo, nas Festas Populares do Divino Espírito Santo. Para Fernando Pessoa, a Portugalidade universaliza-se como a “maneira de ser humano e de estar no mundo como luso”, apanágio do “homem lusitano” e que se crisolou após a formação do Reino, elevando-se sobretudo a partir dos reais feitos e de seus efeitos reais, dando como exemplo a Ínclita Geração que o poeta toma por base dos seus vaticínios do sentido maior do destino de Portugal. Resta o resto… que é tudo, ou seja, realizar a “translatio imperii” em conformidade à sucessão histórico-cultural dos ciclos que fazem a História, entendida em que latitude for e dando Portugal como cumeeira da Europa toda, da qual não somos cauda mas cabeça. Tudo isto sem descurar o factor socioeconómico, gizado por acção política favorável ao bem comum do progresso nacional, para que o Futuro não se adie e a Juventude, semente do Amanhã, não tenha de procurar na cauda o que à cabeça e só pertence.

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Desde o último quartel do século XIX que a dialéctica escolástica, por preconceitos intelecto-discursivos inteiramente do domínio da especulação cujo positivismo é o da inteira negação, originou um notável pedantismo pragmático ficcionista no conspecto histórico-filosófico que penetrou vigorosamente o século XX, nisto estando a causa pragmática das actuais conceitologias ora revisionadas, ora revisionistas, ora por comum programação ambas as coisas, para todo o efeito, anti-tradicionais e anti-iniciáticas!… Sem dúvida que Alexandre Herculano e Oliveira Martins, mais o primeiro, foram quem primeiro contribuiu muitíssimo, por via da historiografia adulterada em romanceiro ficcionado, para o começo do processo inversivo e disformativo da escatologia, mais que socioeconómica e político-militar, mitogénica da História de Portugal, e, por extensão geodemográfica, Ibérica, processo metodológico que se arrasta, qual «alma penada», até ao presente momento.

A Intra-História vê-se desfavorecida, marginalizada, ostracizada, pela Extra-História, nesta onde a factologia cronológica tem papel único e determinante em desfavor da intenção íntima assistindo à mesma. Assim, os valores da aplicação escolástica da Maiêutica na Academia (do grego Kadmos, Kadmon) de Platão quiseram-se destituídos, aparentemente vencidos, pela Loggia da escolaridade na Universidade (em detrimento do seu significado último latino, universitas, “universalidade”) de Aristóteles, este considerado «incarnação» do positivismo mecânico patente em quantas especulações doutrinais hajam, inclusive nas hodiernas filosofias religiosas, confundindo o natural com o espiritual, o aparente com a causa, assim auto-assumidas inimigas ferrenhas da Tradição Primordial. É como se, geometricamente, o cubo plano quisesse desmentir a haver um triângulo elevado, ou seja, o imanente concreto recusar haver transcendente abstracto… Daí vem a historieta popular, pretendida sofisma, de “quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha”? Obviamente o Ovo contendo a Substância Universal Informe donde saiu a galinha, neste caso, a Criação formal, ou seja, o Incriado gerando o Criado…

Hoje aprende-se e apreende-se – por via do experimentalismo mecânico cujos conceitos saídos de novas «descobertas» são de imediato contraditos por outros novos, em uma perpétua auto-negação que o torna não tanto positivo mas mais negativo – as mais controversas e contraditórias entre si, geralmente de um conceito para outro quando não no mesmo, conceitologias filodóxicas por teoremas cientológicos, direi assim, como por exemplo acerca do Cognoscio Universal na Origem do Mundo, do Homem e demais seres viventes, Arquétipo esse assistindo a-posteriori à evolução mental e respectivo desenvolvimento cultural dos povos que, no particular do tocante a nós, sobre Portugal, impõe-se uma miserabilista e limitadíssima historiografia factual onde a cronologia de todas as inúmeras coincidências inexplicáveis são pela razão imediata rotuladas e remetidas ao ocaso de «meros e inúteis acasos», despropositados ao «sentido prático» ou mecânico que assiste a Humanidade, logo não passando de «novelísticas poéticas» exclusivamente destinadas ao entretenimento lúdico dos sentidos!…

A reflexão e a apreensão mental têm o seu detrimento na decoração e citação cerebral, pelo que é uso confundir-se erudição livresca com sabedoria natural. Mas conhecer não é saber e, não raras vezes, tampouco é conhecimento… por não passar de memorização – cuja mecânica não raro substitui a assimilação – mais ou menos hábil. Deve-se memorizar esta data, aquele feito, aquela citação, mais isto, mais aquilo e… até ficar com o cérebro repleto e condicionado, em estado semelhante ao  empaturro da imitação vocal do papagaio. Se o escolar for obediente às regras do jogo institucional e não «levantar ondas», poderá acabar por obter o desejado diploma ou certificado dele também ser mais um formado superior com direito ao respectivo título…

Está criada a contra-Cultura, a contra-Iniciação e a contra-Natura pela pretensiosa contra Vincit Omnia Veritas. O Mito é agora quimera fantasista, fantástica a fim ao «lúdico poético», o Sagrado acabou descodificado e os seus Mistérios já não existem (se alguma vez existiram…), visto a explicação científica já ter desferido a estocada fatal nas «superstições obscuras» do Passado.

Tudo é explicado e «explicável» no discurso do materialismo dialéctico de Kant e Hegel, e na sua forma mais hodierna pela psicanálise das ideias pretendidas arquetípicas mas cujas manifestações revelam ser de ordem mais imediata, psicossomática, como sejam as de natureza esquizofrénica e neurasténica – origem da confusão perturbante de tomar o onírico pelo espiritual – causadas por distúrbios sexuais ou, no mínimo, tendo as suas causas na libido. Está criado o condicionalismo psicomotor e psicomental, e assim estabelecida a fronteira do pensamento aquém no limite doentio da farsa e do logro, condição propícia à criação do hommo mutantis, estupidificado e servil, a quem em troca do consumismo desenfreado fazendo-o eterno devedor, retiram-lhe a vontade, o sentimento e pensamento próprios. É o que se vê hoje em dia: do partido político corre-se para o clube desportivo, deste para o centro comercial e as parafernálias da moda, sempre numa corrida na vida como em fuga à mesma vida…

Os mitos sagrados substituem-se por outros mitos: os da «sagrada» dialéctica discursiva, especulando sobre tudo e mais alguma coisa, a começar pelo que não se sabe mas positivamente fica bem divagar, e devagar com palavras sonantes repletas de oco… Enfim, o Deus Natural viu-se destronado pela crença fervorosa no todo pleno “deus máquina”, indo o computador substituir o cérebro humano e o hambúrguer quizilento fazer esquecer a gastronomia tradicional. Assim é o Homem embrutecido, feito metal de liga duvidosa, por fora e por dentro… Ipso facto!

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No entanto, é bastante significativo que a própria palavra materialismo date apenas do século XVIII: foi inventada pelo filósofo Berkeley, para designar toda a teoria que admite a existência positiva e só da matéria. Anteriormente a esse século houveram teorias mecanicistas, do Atomismo grego à Física cartesiana, mas não se deve confundir “mecanicismo” com “materialismo”, apesar de certas afinidades que criaram uma espécie de solidariedade entre ambos desde a aparição do “materialismo” propriamente dito.

A Tradição acabou substituída pelo costume e a Intuição apreendida pela dicção decorada, o que constitui prova cabal da banalização desvalida do mundo moderno (Oriente-Ocidente) com todos os seus valores reais ruídos (pelo menos aparentemente, posto que essencialmente são indestrutíveis), gerando uma precipitação acelerada da transformação cíclica da civilização por um pressuposto retorno às origens do Homem e da Terra, neste caso, ao estado de Pureza original, ao Paraíso Terrestre, o Éden bíblico ou a Agharta transhimalaia, onde antanho estava em latência e potência e hoje, tão-só, em impotência patente.

Quando um individuo, grupo ou civilização se extremiza, auto-aniquila-se. Isto é válido tanto em materialismo quanto em espiritualismo.

Em materialismo, quando a densidade do mecanismo cerebral atinge o clímax, «explode». Observe-se, como espectador imparcial, os multivariados parâmetros do fenómeno agente ou de actuação da sociedade moderna e facilmente se aperceberá quão incerto é o seu futuro…

Em espiritualismo, quando a subtilização psicomental alcança o seu máximo extremo, faz com que se «evole». Retenha-se os exemplos dos grandes Místicos (São Bernardo de Claraval, São Francisco de Assis, São João da Cruz, etc.) e dos grandes Movimentos Espirituais (Ordem do Templo, Ordem de Cristo, Ordem de Santiago, etc.).

Daí a procura constante pelos espíritos tradicionalistas e pelas sociedades tradicionais do equilíbrio vital Espírito-Matéria, ou seja, o prosaicamente chamado “Caminho do Meio”, “Caminho Estreito”, “Fio de Navalha”, etc., aconselhado seguir aos povos orientais através dos Arhats ou discípulos adiantados de Gotama Sakya-Muni, o Budha, e por Jeoshua Ben Pandira, o Christus, por via dos seus Apóstolos aos povos ocidentais, tendo a essência da Filosofia de Um e de Outro, idênticas e até complementares entre si, sido separadas durante a Renascença europeia como consequência das Reformas de Trento por via de um Humanismo eclesiasticamente mal-entendido e pior exercido (séculos XVI-XVII), época em que apareceram os primeiros esboços da antropomorfização do Divino, indo abrir o caminho para a Sua posterior negação. O cisma da ruptura Oriente-Ocidente que já vinha do século IX com a divisão da Igreja em duas facções, fez sentir em Seiscentos o seu aguilhão fatal com o apartamento das Irmandades de guildas operáticas da assembleia dos crentes que é a Igreja, novamente sentido e repetido no século XVIII com a ruptura decisiva entre a Igreja dos simples e a Maçonaria dos especuladores. Quem, desde então, lucra com isso é a mais que controversa pregação religiosa e laica cuja catequese destina-se só à fundação de um império socioeconómico através do domínio psicossomático dos povos e nações sob a sua alçada, possuindo os espíritos, as suas próprias vontades e pensamentos na maior das ditaduras psicossociais, enfraquecendo cada vez mais a Verdade original a ponto de se a considerar mentira, e à Mentira verdade…

O Equilíbrio Universal, assente na Obra Divina ou Teurgia de todos os povos, em boa verdade sempre foi procurado o seu estabelecimento, como que procurando pela Harmonia celeste plasmar uma Sinarquia terrestre, uma Concórdia psicossocial abrangendo toda a Terra e ordenada segundo uma hierarquia original e natural de valores (em homens e nações), indo resultar num modelo perfeito de governação à escala planetária, este um belo e bardo sonho que, reza a Tradição Primordial, inspira-se na Utopia realizada dos primitivos Reis Divinos da mais real e menos lendária Atlântida.

Tal Ideia Sinárquica foi aplicada e realizada por Ram e o seu império universal que se estendeu da Europa à Índia, por Fo-Hi na China, por Vyassa junto dos primitivos Ários, por Moisés com as 12 Tribos de Israel, pelo mítico Rei Artur e os 12 Cavaleiros ideais da Távola Redonda, que estabeleceram a unidade e o poder nacional na primitiva Bretanha, pelo Conde D. Henrique de Borgonha e os seus “12 Barões assinalados”, na génese do Condado Portucalense; foi perseguida e tentada na Idade Média pela  Ordem dos Templários, tomando a inspiração iluminada da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Divino Espírito Santo, e com ela a aplicação ecuménica, ainda assim reservada, do Sacerdócio de Melkitsedek, o “Rei do Mundo”, eixo troncal do mesmo fixado no centro da “Terra Santa” primordial, modelo de quantas se seguiram sobre a Terra, Paradhesa original identificada à Agharta e à Igreja do Preste João, para todo o efeito, Omphalo do Mundo. Desgraçadamente, por “Deus dispor e o Homem predispor”, em conformidade ao livre-arbítrio assistindo a um e a todos, essa Ideia Sinárquica abortou várias vezes, como na Revolução Francesa, na Guerra Civil portuguesa, opondo os príncipes irmãos Pedro e Miguel, e até mesmo com a Revolução Soviética na Rússia…

A constituição sinárquica baseia-se no tríplice atributo da Matéria, Mater-Rhea ou Mãe-Terra, a saber: Satva – energia centrífuga (amarela); Rajas – energia rítmica equilibrante (azul); Tamas – energia centrípeta (vermelha), classificando a Terra como um Corpo Vivo Uno manifestado de forma Trina, portanto, Uno-Trino, e o Homem identificado, segundo a empatia gerada pela sua evolução natural, mais com um do que com outros membros do mesmo Corpo: ou com a cabeça (pensamento), ou com o tórax (sentimento) ou, ainda, com o ventre (vontade).

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Quando Satva predomina, atraindo as outras duas forças, outorga aos povos a concórdia, o entendimento mútuo, a generosidade e o acerto por parte dos governos, os quais se fazem eleitos e amigos dos seus governados. Dirigentes e dirigidos formam uma harmonia perfeita, semelhante à vivida pelos antigos gregos da época anfictiónica e dos egípcios nas primeiras dinastias. É o que se pode chamar: consciência colectiva e concordância entre IDEALISMO, APTIDÃO e CARGO, ou o perfeito equilíbrio SATVA, RAJAS e TAMAS.

Delta Teúrgico

Na Idade Média (séculos V-XV), a Era Feudal por excelência, governou Tamas. Diz-se que nas nações onde predominem Rajas e Tamas, simultaneamente, existe uma tendência para retroceder na evolução sócio-espiritual, contrariando a ordem natural das coisas. Vê-se hoje ser isso que acontece: Tamas e Rajas dominarem, representando um período de crises, uma era de transição, de dúvidas e incertezas para todas as nações do mundo, transição que decerto será para Satva, implicando a Idade de Ouro, a Satya-Yuga, o III Milénio no qual, segundo os bardos e profetas de todas as Idades, haverá de se concretizar a Parúsia Universal com a consequente implantação do Império “Sebástico” do Divino Espírito Santo, assinalado no Magistério de Melkitsedek.

Já no século XV o Infante Henrique de Sagres, como Grande Iniciado que era, conhecia e aplicava o modelo trinitário da estrutura sinárquica. Na sua própria divisa, Talant de Bien Faire (“Talento [ou Propósito] de Bem Fazer [ou Criar]”), estão veladas as Três Hipóstases Universais, cada qual manifestando-se por uma das supracitadas Gunas (“cordas”, em sânscrito) ou “qualidades subtis da matéria”. Assim, tem-se:

esquema 2

Mais que o preconceito (pré-conceito) psicomental afectando os hábitos ordinários, é o interesse político-económico já indicado pela própria Tradição – que não morre jamais, quanto muito pode entrar em letárgio ou adormecimento para o século ou ciclo de laicidade e profanidade, por ser parte integrante do próprio Homem – a causa principal do desvirtuamento e profanização da História, o ramo sintético de todos os ramos do Conhecimento Humano, por ser ela quem analisa e descreve os “ciclos de existência do Homem e do Mundo”, pelo documentário e pela comparação ou analogia com factos similares que, assim, invés de só darem o parcial da coisa em análise poderão muito bem alargar o horizonte de perquirição da mesma, podendo até conseguir-se penetrar o foro íntimo ou intenção última do agente e da acção, ou seja, do personagem e do facto, e assim, igualmente, poder adentrar o domínio do sagrado onde só parecia haver profano.

Sobre a Idade Média, por exemplo, tem-se a noção quase comum mas pouco crível de ter sido a Idade dos dogmas, das superstições e do obscurantismo totais. Dou um só exemplo, de entre muitos o mais vulgar: actualmente pretende-se que os povos europeus medievais acreditavam que a Terra era plana, com o abismo oceânico por baixo e os coros celestes por cima. Isto deve-se aos nossos contemporâneos de cátedra outorgarem uma interpretação racionalmente literal às escrituras marcadamente simbólicas e hiperbólicas dos antigos, esmerando-se, por exemplo, nas citações de Plínio e Estrabão, biógrafos das tradições arcaicas egípcia, grega e latina, desdenhando satisfeitos o facto de tais descreverem, mantendo sobre a descrição o véu da discrição, alegorias inteiramente simbólicas de mitos cosmológicos e antropogónicos, bem ao gosto da erudição de seu tempo, e assim o positivismo contemporâneo indo criar os seus próprios mitos, antes dito, mitologias, numa amalgama parafernália feita da usurpação e adulteração do sentido último e único da Sabedoria Antiga.

Que a Terra era redonda com dois eixos já os antigos o sabiam, facto inclusive descrito no Antigo Testamento (Job, XXII-12, e Samuel, II-8). Quanto à “Terra plana”, G. Santillana em Hamlet´s Mill (Gambit, Inc. Publishers, Boston), é peremptório:

“A Terra plana dos antigos não tinha qualquer semelhança com as lucubrações dos fanáticos que envenenaram a existência de Cristóvão Colombo. Por Terra plana, os antigos designavam a banda zodiacal na qual se movem os “verdadeiros habitantes” do nosso mundo, isto é, os planetas […]. A palavra “Terra” designava, para os antigos, o plano ideal da elíptica […] passando pelos quatro pontos do ano, os equinócios e os solstícios […]. A Terra era definida como tendo quatro ângulos, não se tratava de a considerar quadrada.”

Planisfério de Ptolomeo

Planisfério de Ptolomeu

Esse é um exemplo mal tido mas muito associado a esses outros do “Sol girar em torno da Terra” e de se considerar o “Homem como centro do Universo”. Já Copérnico falava da Terra girar em torno do Sol, assim como a maioria dos astrónomos antigos. O facto é não tanto uma questão de localização física mas de posição ideal: o Sol gira em torno da Terra como foco da existência activa e única realidade vital do Homem, pouco lhe importando, neste caso, o posicionamento verdadeiro das luminárias celestes, e por isso se considerava, aliando esse macrocosmo ideal ao seu microcosmo existencial, o “centro do Universo”.

Havia, pois, uma linguagem alegórica, cifrada ou cabalística, nada tendo a ver com superstições nascidas do temor ao vácuo (a não ser quando se necessitava semeá-las para ocultar factores que se queriam proibidos e secretos, como aconteceu profusamente durante o período das Descobertas Marítimas, ora para atemorizar – mantendo secretas certas rotas e localizações geográficas –, ora para incitar – granjeando marinhagem e soldadesca, cobiçosa de riqueza e aventura, para as naus pela promessa eldorada mas mítica do Reino do Preste João –, ora, para todo o efeito pelo ludibrio, por cartas náuticas e cartográficas falsas «facilmente roubadas» pelos adversários, tomando-as por verdadeiras). Assim se ministra hoje a “fantasia toda absurda” de certa historiografia de cátedra cujo sentido verdadeiro dos factos originais não são apreendidos, com isso tampouco as explicações podem ser plausíveis, isto por multivariadas razões, é facto, para todo o efeito todas elas falhas de espírito vivo mas plenas de letra morta, parafraseando o Mestre dos Evangelhos.

Isso regista-se notavelmente na Teleogénese Lusitana desde a metade final do século XIX para cá, com recrudescimento nos últimos decénios graças à intrusão de factores políticos de tendências pessoais na toda impessoal História Pátria, e para tanto socorrendo-se de elementos absolutamente alheios à estrutura sinergética da Alma Nacional, à Formula Mentis Lusitanea, pretendendo impingir nesta estrangeirismos abastardados e soltos nada a ver com ela em tempo algum, desvalido abarcando também o fenómeno moderno de certo nacional “new age” com tendências de religião urbana de foro comercial, poluidor onírico visando tanto a Tradição Espiritual quanto a História de Portugal, mostrando-as em retalhos soltos por efabulações avulsas vazias de toda a prova sólida. Nisto, será de toda a conveniência a não confusão do espiritual com o onírico, do segredo e secreto com o dizível e público.

Portugal é cerca de 500 anos a nação mais velha da Europa, da qual a Península Ibérica é a cabeça e desta a Lusitânia o seu rosto, o reflector bioplástico da restante estrutura continental. Reza a lenda (ou não tanto…) que Portugal nasceu do sonho de um bardo guerreiro: D. Henrique de Borgonha sonhou com São Miguel (o Arcanjo Mikael ou Mirrail) que lhe apontou por um Raio de Luz o Lugar onde deveria fundar o Condado Portucalense, tendo o seu filho Afonso Henriques soltado o brado Porto-Graal. Assim, nesta pouco conhecida lenda áurea da nação, Portugal nasceu dum sonho, um sonho divino, e felizes são os que têm sonhos divinos…

Logo nasceria a Monarquia por direito legado Divina, que foi a de Avis (anagramaticamente, Siva ou Shiva, o Espírito Santo), confirmada pela Profecia de São Bernardo de Claraval (Clara+Valis, “Lugar da Luz”, assim associado ao antropónimo latino Lux-Citânia) a Afonso Henriques, legalizada pela própria Promessa de Cristo a este primeiro Rei de Portugal, no momento sagrado antecedendo a Batalha de Ourique.

Papa Alexandre III, D. Afonso Henriques e S. Bernardo de Claraval. - Esculturas no Mosteiro de Alcobaça.

Papa Alexandre III, D. Afonso Henriques e S. Bernardo de Claraval. Grupo escultórico no Mosteiro de Alcobaça, antiga Casa-Mãe da Ordem de Cister em Portugal.

Essa Monarquia do Espírito Santo, onde a sucessão filial e a transmissão espiritual correu até D. Sebastião, teve a apoiá-la os maiores paradigmas do Pensamento Lusitano e mesmo Universal, comportando-se como verdadeiros “reis-sacerdotes” de autênticas cortes de sábios iluminados nas ciências iniciáticas da Tradição. Poderá ser que alguém mantenha a memória de que a Antropologia nasceu da Antropogénese, a Física Nuclear da Cosmogénese, a Astronomia da Astrologia, a Medicina da Taumaturgia, a Magia da Teurgia, a Teologia da Teosofia, a Química da Alquimia…

Alquimia! Aqui subjaze o Mistério Lusitano feito Lusófico como sua razão e fundamento. Alquimia, do cóptico arábico Allah-Chêmia, “Química Divina”, sob o Padroado de Mikael é a Ciência de Siva, o Espírito Santo incarnado em Maria, Mãe dos Filósofos do Fogo cuja Magnus Opus é transformar o Homem e a Natureza corruptos, imperfeitos, em Ouro Filosófico como a absoluta Quintessência, tanto valendo por Iluminação Integral que é a Medicina Universal obtida da transformação ou rarefacção dos elementos químicos do Corpo (Labor) e dos componentes subtis da Alma (Oratorium), esta a Grande Obra exercida no Laboratório do Corpo individual e nacional através do supremo elemento: o Fogo, rojado sobre a Terra desde o seu Sanctum-Sanctorum que é o “Laboratório do Espírito Santo”. Daí os Alquimistas serem chamados de Philosophum per Ignis e os seus tratados, por norma cifrados e dedicados à Mãe Eterna, de “Roseiras dos Filósofos”, “Roseiral do Filósofo” e “Roseirais Filosóficos”.

A conquista hermética do ouro alquímico era, para o Adepto da Arte Real, a prova suprema, a prova do fogo em que eram testados todos os seus valores intelectuais e morais (tal qual acontece agora com Portugal no plano socioeconómico europeu). Se triunfava, tornava-se um Sábio, um Mestre onde as suas riquezas humanas cresciam a par das riquezas espirituais, possuindo ambas sem já ser possível ser possuído pelas primeiras, por desposse interior ou consciência integrada em Deus, Senhor de todas as coisas ínfimas e ricas… Pelo contrário, se era vencido fazia-se pobre e ignorante, tanto em matéria como em espírito, indo passar ao error e à errância.

A História de Portugal faz-se encaminhada pela Filosofia do Fogo Hermético descido sobre o pátrio rincão privilegiado qual Avis Raris In Terris, por via dos seus mais preclaros filhos. A bibliografia nacional sobre este ramo privilegiado da Sabedoria Iniciática das Idades é muito vasta, tendo aumentado com a Renascença portuguesa, apesar da maioria da literatura que a prova andar hoje dispersa pelo País, pela Europa e outras partes do Mundo, por vezes, pior ainda, atribuída a autores que não os verdadeiros.

Desde que Portugal é País, desde os mais remotos aos mais recentes fidedignos Iniciados na Sabedoria Tradicional das Idades, todos foram portugueses, e os que não foram, de uma maneira ou de outra, renderam vassalagem ou prestaram tributo espiritual a Portugal, a Orange egípcia, o Bortuqal árabe, o Jardim das Hespérides, Hespanhas ou Plêiades gregas, a Luz do Mundo dos Actos dos Apóstolos, enfim, o Porto-Graal como reza no sinal rodado afonsino, Tebaida deífica dos Deuses originais por cuja graça bem se pode afirmar que se Deus existe, então, Deus é Português.

A Igreja Católica Lusitana, de certa forma expressiva da tão falada e mais ainda mal entendida e quase ou mesmo nada apercebida Fraternidade Espiritual Portuguesa, ou por outra, Soberana na Regra e na Ordem de Mariz, teve inclusive dois Papas no sólio do Vaticano (antigo “lugar dos vaticínios” dos augures romanos, sob cujo altar de São Pedro está a cripta subterrânea, o Mitreo, onde ainda se conservam os restos do altar consagrado ao deus solar Mitra, como se destaca no seu relevo dianteiro), ambos reconhecidos Alquimistas e Filhos de Maria ou Ísis (a Virgem Negra posteriormente representada pela Virgem Grávida, a Senhora do Ó ou Senhora da Expectação, sendo o ícone mais antigo da devoção mariana por estar conforme a inflexão da ladainha original do Apóstolo Lucas: “Ó Maria, Deus te escolheu…”). O primeiro foi no século IV, nascido, presume-se, perto de Guimarães, tendo papel destacado como grande figura intelectual e moral da Igreja: São Dâmaso. O segundo apareceu no século XIII e, pelo seu elevado valor, foi eleito Papa. Chamava-se Pedro Julião, mas no estrangeiro ficou conhecido como Pedro Hispano por ser natural da Hispânia, que é dizer, da Península Ibérica. Grande médico, Pedro Julião ficou sobretudo conhecido pelos seus livros onde comentou e ampliou a obra de Aristóteles. Além de médico, escritor e professor, foi vigário na Comenda Templária de Santo André de Mafra até ser eleito arcebispo de Braga, donde passou para Roma para ser Papa. Nasceu em Lisboa e faleceu em Viterbo, a 20 de Maio de 1277. Foi eleito Papa de 8 de Setembro de 1276 a 20 de Maio de 1277. Duração do pontificado: 8 meses e 12 dias. Levando o nome de João XXI adoptou a divisa Piscator Tuscus, o “Pescador Toscano”, por ter sido cardeal-bispo da Toscânia.

Senhora do Ó ou da Expectação. - Imagem do século XIV, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Senhora do Ó ou da Expectação. – Imagem do século XIV, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

O rei D. Dinis também foi um real personagem de ligações estreitas à Grande Obra (a ele se deve a tradução da Crónica de Afonso X), assim como o seu tio Afonso, o Sábio, de Castela, não esquecendo Isabel de Aragão e Portugal, a nossa Rainha Santa, a quem se deve a instituição do Culto do Império Popular do Divino Espírito Santo no Reino através dos Franciscanos “beguinos”. Por sua vez, toda a Ínclita Geração, com realce para D. Duarte e D. Henrique, este que inclusive traduziu do árabe O Segredo dos Segredos, foi profundamente versa à Filosofia Hermética. Já antes, no século XII, o Sepher-Ha-Zohar – a “bíblia” da Kaballah Profética ou Sefardita – foi escrito na Península Ibérica por um rabino português radicado em Leão, tal como os seus comentários ao Sepher-Ha-Yetzirah: Moisés de Léon ou Leão. Um século antes desse, aparecem também na Hispânia os princípios laudativos de Adonai, o “Senhor”, na Kether-Malkuth, como parte integrante da Fons Vitae, escritos pelo primeiro judeu filósofo hispânico no século XI: Salomão Ibn Gabirol. Este Avicebrão dos latinos, natural de Málaga, veio radicar-se em Portugal onde faleceu em 1070.

No século XVI, os eruditos cistercienses do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça traduziram a versão italiana da famosa Carta do Preste João das Índias a Manuel, Imperador de Constantinopla (1165), dessa feita atribuindo o seu endereço ao rei português D. Manuel I, apresentando-se a composição cifrada repleta de sugestões herméticas. Foi nessa mesma época que se deu uma grande difusão judaico-cristã da literatura e iconologia relativas à Tradição Hermética. Frei Tiago de Boaventura Hepburn de Escócia (1573-1612) deu à estampa a sua Virga Aurea (“Vara Dourada”), espécie de “pedra de roseta” dos vários alfabetos conhecidos e desconhecidos para a composição cabalística dos “selos e quadrados mágicos”. Por sua vez, também nesse século, Frei Bernardo de Brito – vindo a ser o primeiro autor alcobacence da História do Mundo, a Monarquia Lusitana – publicou o seu tratado de Alquimia, Silvia de Lysardo, impresso em Lisboa em 1597. Anos antes, o rabino e astrólogo de D. Manuel I, Abraão Zacuto, escreveu os seus comentários ao Zohar no Sepher-Yurhasim.

No século XVII aparecem as Éclogas de Francisco Rodrigues Lobo, 1.ª edição em 1605, e em 1619, do mesmo autor, a Corte na Aldeia. Estou em crer que a sua primeira obra hermética dada à estampa foi A Primavera, editada em Lisboa em 1601, dedicando-a a D. Juliana, condessa de Odemira. Por seu lado, o judeu português, médico e poeta Estevão Rodrigues de Castro editou, através de seu filho, um importante tratado sobre Pitágoras, Pythagoras Stephani Rodericis Castrensis Lusitani, Londres, 1651. Mas já em 1627 Frei Bernardino da Silva, ideólogo de um imperialismo hermético, havia escrito a sua Defensam da Monarchia Lusitana, editada em Craesbek.

No século XVIII a Tradição Hermética usufrui de grande difusão e são inúmeras as obras dadas à estampa por renomeados hermetistas portugueses. D. Francisco de Melo editou na Lisboa Ocidental, em 1724, o seu Tratado de Ciência Cabala, aparecendo também livros como a Veritas Hermetica Veritatem Qvaerenti, toda em gravuras coloridas sem comentários (portanto, um Mutus Liber, “Livro Mudo”), de autor desconhecido, obra que chegou a pertencer à biblioteca do rei D. Carlos. É igualmente publicada a monumental Ennoea – ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal, de Frei Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, na Lisboa Ocidental em 1732. Contudo, é o Juramento Profético de Afonso Henriques em Ourique, do mesmo Anselmo Caetano, quem predispõe Portugal como o Grande Laboratório (Laboratorium, em latim, “Labor+Oratorium”, donde o Ora et Labora do Filósofo Real, e “Real” por ser a Alquimia Arte Régia destinada a criar Reis Herméticos) do Ecumenismo Lusófico no Ocidente, no exercício aplicado de uma “Alquimia Nacional”, se assim posso dizer, destinada a irradiar no Mundo a sua diáspora de Advento, logo, Parúsica e Paraclética, concorde com o V Império Universal do Divino Espírito Santo fundado na Lusitânia e implantado na Terra inteira com cabeça no Brasil, a “Nova Lusitânia” de Pedro de Mariz nos seus Diálogos de Vária História (Lisboa, 1672), tudo isso concorde com a tese anterior do Padre António Vieira nas suas Esperanças de Portugal, conformadas à tese trinitária das Idades do Mundo inscritas no Liber Figurarum do abade de Fiore, Calábria, no século XII, Joaquim de Flora, ideólogo da translatio imperii.

Todos os mais distintos e ilustres da Europa, da Idade Média à Renascença, buscadores do Tosão de Ouro no Jardim das Hespérides, sinónimo de Iluminação hermética no não menos hermético Jardim do Éden, vieram beber na Fonte da Tradição Primordial do Ocidente, Portugal – o Grande Ocidente continental onde ainda se reserva, como Arca, Barca ou a Agharta mesma, essa Sabedoria Atlante, acrescida ao longo dos ciclos posteriores, consignada principalmente pelos Lígures ou Li-Gurus, “Mestres de Mareação”, com o sentido último de Sábios ante Dilúvio Universal.

Paracelso, o médico alquimista criador da ideia da Lumen Naturae, esteve em Lisboa por volta de 1530. O inglês John Dee, rosacruz, mago, alquimista e matemático da corte Isabelina, segundo Joaquim de Carvalho chegou a ser correspondente de Pedro Nunes, o pai do “Nónio”, e até mesmo seu amigo próximo, segundo Moreira de Sá. John Dee possuía na sua biblioteca manuscritos aljamiados (escritos com caracteres hebraicos) em judaico-português, um “Tratado de Tintas”, redigido em terminologia alquímica, e um “Tratado de Magika”. Aggripa Von Nettesheim, o Alquimista, foi cronista de Carlos V, e é de ponderar o sabido contacto do nosso Infante D. Luís com a corte de Madrid do referido monarca, em cujo testamento figuram duas Pedras Filosofais. Leonardo Fioravanti, célebre médico e alquimista italiano, é sabido ter estado em Espanha até 1577, tendo vindo a Lisboa antes de 64, data da publicação da sua obra Spechio di Scientia Universale (Veneza), sobre quem diz: “Mi recordo in Portogallo, nella citá di Lisbonna nella veneranda chiesa di san Iare haver veduto in un deposito di un mosto questo epitáfio qui iace Basco Figueyra muchio contra sua volontade…” (cap. Delle seportura & de suoi riposi).

Alquimista no túmulo de D. Fernando I. Museu do Convento do Carmo, Lisboa.

Alquimista no túmulo de D. Fernando I. Museu do Convento do Carmo, Lisboa.

Além do pesado cardápio bibliográfico provando a presença e influência intensas da Alquimia em Portugal, tem-se ainda, espalhados um pouco por todo o país, testemunhos iconográficos e monumentais, como por exemplo: o túmulo de D. Fernando I, no Museu Arqueológico do Carmo, Lisboa, recheado de símbolos herméticos, inclusive vendo-se um alquimista operando num laboratório rodeado de símbolos dessa Arte. No Museu de Arte Antiga, também em Lisboa, pode observar-se a Fonte Bicéfala do Hermetismo com as cabeças coroadas de D. Manuel I e sua esposa, D. Maria. Em Cascais, no Jardim Castro Guimarães, outrora pertença do Convento dos Carmelitas e primeiro Colégio de Filosofia Hipertúlica no país, tem-se um painel de azulejos (provavelmente do século XVIII) retratando o “Cortejo Triunfal”, na qual se apresentam as figuras, com os respectivos nomes, dos principais Alquimistas portugueses e estrangeiros que tiveram a ver com Portugal, todos perseguindo o “Carro de Elias” transportando a Mãe Soberana que tem a guardá-la os Arcanjos Miguel e Gabriel à dianteira a cavalo ou cabala, tudo isso remetendo para a perseguição hermética da Merkabah de quem a Senhora é Shekinah. Já em Estremoz, no Alto Alentejo, vê-se na igreja de São Francisco a Árvore da Vida composta de frades dispostos geometricamente de maneira a configurarem a mesma, com São Francisco ao centro. Como última referência das muitas que poderia dar mas se tornariam exaustivas, tem-se o pórtico lateral da igreja de São Sebastião de Lagos, Algarve, todo repleto de símbolos referentes à Crisopeia (fábrica do Ouro) e à Argiopeia (fábrica da Prata), coroado no topo por um ouriço-cacheiro, representação zoomórfica da Pedra Filosofal. Tudo obra dos meados do século XV atribuída ao bispo D. João de Melo.

Fonte bicéfala manuelina. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Fonte bicéfala manuelina. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Finalmente e inscrevendo-se no painel dos “Reis Herméticos”, surge a figura incontornável do rei D. Afonso V (n. Sintra, 15.1.1432 – m. Sintra, 28.4.1481). Sobrinho do Infante Henrique de Sagres, juntamente com este e o seu conselheiro pessoal e rabi-mor da comunidade judaica portuguesa, Isaac Abarnavel, dentre outras funções, incluindo o exercício da alquímica e a kabalística, veio a compor a primeira biblioteca pública de livros impressos do mundo: a Livraria Real de D. Afonso V (in Joaquim de Carvalho, História de Portugal, dirigida por Damião Peres). Grande estudioso de Música, Astrologia, Alquimia e Kaballah na sua vertente gemátrica a qual aplicou à exegese bíblica, por transposições de cálculos cronológicos visando um milenarismo epilogístico (in Rui de Pina, Chronica do Senhor Rey Dom Affonso V, Porto, 1977), tudo transbordando da tendência hermética de ligar Alquimia e Kaballah (Artes em que terá sido iniciado pelo próprio almoxarife seu conselheiro indefectível, Isaac Abarnavel) com a Astrologia judiciária (em que ter-se-á iniciado através do astrólogo judeu Mestre Guedelha, que assistiu à sua entronização sendo o responsável pela escolha da hora propícia à transmissão dos poderes delegados no até então regente D. Pedro). Promotor do expansionismo ultramarino, assegurando a separação da Autoridade Espiritual do Poder Temporal, como lhe aconselhou o seu tio Infante D. Henrique de Borgonha quando o visitou na sua Vila da Raposeira, vizinha de Sagres, esboça-se no feitio singular dessa promoção o conceito de Sinarquia, o que ia bem com a sua natureza afim ao Ideal da Cavalaria Espiritual cuja fina-flor tinha idealizada na ideia, sempre perseguida, dos Cavaleiros da Távola Redonda e o Santo Graal (in Barão de Sabugosa, A Rainha Dona Leonor, Lisboa, 1921). Dizem certas tradições em voz miúda mas não tímida que D. Afonso V além das suas relações com as Ordens de São João de Malta e de São Jorge da Jarreteira, assim como com a Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo (cujo Mestrado foi-lhe concedido em 1461 por breve do Papa Pio II, Dum Tuam), havia sido iniciado nos mais altos Mistérios Herméticos por um certo Sábio egípcio ou copta – pertencente a dita Confraria União dos Mestres Turcos ou Africanos – com quem aprendeu os segredos da transmutação dos metais e, inclusive, terá conseguido a meta suprema da Grande Obra: a fábrica da Pedra Filosofal, tendo escrito um tratado sobre a mesma dividido em duas partes (Lapis Filosófico e Divisão dos Quatro Elementos), o qual foi furtado do seu gabinete (talvez o do Convento do Varatojo, Torres Vedras, por ele fundado) tendo depois aparecido em Londres (1652) onde era vendido como “literatura de cordel”, mas essa obra já foi recuperada e devolvida a Portugal nos anos 80 do século findado, processo onde intervi activamente.

tratado[1]

Como consequência de toda essa minha divulgação do tratado alquímico do “Africano”, em 1992 A. M. Amorim da Costa escreve em Lisboa A Alquimia em Portugal com O Rei Alphonso – Culto, Místico, Cavaleiro e Perdulário, indo transcrever o texto do supracitado “Roseiral Mariano”, dividido em dois “tramos” ou corpos, do nosso Rei Sintrão que, como Quinto, vai bem com a Ideia Graalística do Quinto Império da Humanidade por Graça Divina concedida a esta “Terra de Luz” (Luxcitânia).

Portugal – o Porto-Graal como se inscreve no sinal rodado do documento de doação de Tomar aos Templários pelo seu donatário D. Afonso Henriques – faz-se e fez-se de Tradição Divina, aqui, francamente Lusófica onde entram três princípios fundamentais interpenetrados vindo a caracterizar a singularidade do seu Espírito:

1.º – O Culto do Santo Graal. Gesta Avatárica ou Messiânica sob o pendão do Rei do Mundo, Melkitsedek, vindo a tornar Portugal o primeiro da Europa e de todo o Ocidente, ao mesmo tempo dando-lhe o sentido ecuménico único que aliás caracterizou a Diáspora Marítima dos Portugueses em Quinhentos – a Gesta Dei in Maris per Portucalensis.

2.º – O Sebastianismo, prolongamento do Messianismo. Foi o cimento mitogénico com que se fixou o espírito ecuménico da Diáspora Graalística nos cinco continentes, e, parafraseando o cronista Fernão Lopes, “se mais houvesse lá chegaríamos”… pela Graça do Espírito Santo, Orago do Reino.

3.º – A Saudade, sentimento abstracto, cimento que é para mais altos e divinos voos. Saudade do Encoberto, tanto no cerne da Alma humana quanto incarnado no Ideal Crístico, por que se caracteriza o Espírito Lusitano tecedor da Utopia desejada do mesmo V Império Universal, símile terreno parido do humano sonho, saudade, fado, dor, morte e desejo ou mais ânsia incontida do 5.º Mundo Espiritual, para onde se norteia o Argonauta da Grande Obra.

Também a Alquimia contém e se faz dos três princípios naturais que se ligam de maneira intrínseca ao Espírito da Tradição Lusófica, assim se convertendo em “Alquimia Nacional” pelos mesmos:

ENXOFRE – ESPÍRITO – GRAAL

MERCÚRIO – ALMA – SAUDADE

SAL – CORPO – SEBASTIANISMO

Há ainda um quarto elemento como quintessência: o Azoto, identificado à Iluminação tanto do Alquimista quanto de Portugal, após se transmutar a carne e a terra na vivíssima Panaceia Universal como Pedra Púrpura dos Filósofos, em si contendo viva toda a Natureza humana e universal.

Diga-se, ainda, que se Portugal é Graal, como Mátria (expressão feliz do Padre António Vieira) é a sua Alquimia.

Um belo e intuído esquema gráfico da autoria de José Manuel Anes, portando o título Homologia entre a G. O. Alquímica/Laboratorial e a G. O. Mítica/Nacional, fazendo parte da sua intervenção Alquimia, Sebastianismo e V Império na Universidade Nova de Lisboa, 1989, é de tal maneira afim e feliz ao tema em questão que o reproduzo seguidamente, com os meus agradecimentos ao autor intuído em hora grata:

esquema 3

Foi da Alquimia dos Deuses que nasceu Portugal. Foi da Alquimia Portuguesa que a Alma Lusitana transbordou a todo o Mundo, e haverá de ser pela Alquimia que o Espírito Lusófico dominará o Quinto Elemento Universal, sim, porque se a Terra a tomámos, o Mar também, aos Céus lá chegaremos como derradeira missão a cumprir: a de um e todos se transformarem em Deuses, Justos e Perfeitos, destino último já apontado na Profecia de Sintra – “Quem nasce em Portugal é por missão ou castigo”!

D. Sebastião

De maneira que é com o maior Vate das Letras Portuguesas, Fernando Pessoa, que inclusive reconhecia o Caminho Alquímico como o mais perfeito de quantos há na Realização verdadeira singular e plural do Género Humano, que dou o arremate final a este estudo ao reproduzir a sua bela Prece, O Apelo ao Divino, escrita provavelmente em 1912, ano da ligação do poeta ao movimento da Renascença Portuguesa e que se inscreve no período dos poemas místicos de “Além-Deus”.

Senhor, que és o Céu e a Terra, que és a Vida e a Morte! O Sol és Tu e a Lua és Tu e o Vento és Tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és Tu também. Onde nada está Tu habitas e onde tudo está – (o Teu Templo) – eis o Teu Corpo.

Dá-me a alma para Te servir e alma para Te amar. Dá-me vista para Te ver sempre no Céu e na Terra, ouvidos para Te ouvir no Vento e no mar, e mãos para trabalhar em Teu Nome.

Torna-me puro como a Água e alto como o Céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-Te como a um Pai.

Minha vida seja digna da Tua presença. Meu corpo seja digno da Terra, Tua cama. Minha alma possa aparecer diante de Ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu Te possa adorar em mim; e torna-me puro como a Lua, para que eu Te possa realizar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu Te possa ver sempre em mim e rezar-Te e adorar-Te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que me sinta Teu. Senhor, livra-me de mim.

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