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SOB O SILÊNCIO DA PEDRA

Analisando a natureza controversa do processo da extinção da Ordem dos Templários, podemos aferir que as suas “práticas estranhas”, denominadas como heréticas, constituiriam em si mesmas as praxes exclusivas da Ordem à finalidade iniciática, as quais por conveniência do cenário político entre Filipe, o Belo, e Clemente V, seriam utilizadas como “bode expiatório” para a sua extinção. Por conseguinte e em sequência, sendo a sua continuadora a Ordem Militar dos Freires de Cristo, através da protecção dispensada por D. Dinis, torna-se quase impossível não assumir que essa não apresentasse os seus próprios Rituais de Iniciação baseados, extrapolamos nós, nos inquisitorialmente controversos Mistérios Cristãos, já conhecidos e possuídos pelos templários desde longa data, praticamente desde a sua fundação em 1128 no Concílio de Troyes, senão mesmo desde a sua apresentação ante Balduíno II de Jerusalém em 1118 antes de se constituírem oficialmente como Ordem.

O tema da Iniciação e a Ordem de Cristo foi apresentado publicamente através do magnífico trabalho editado do filósofo e maçom António Telmo, Portugal Secreto. O autor brilhantemente comprova que os medalhões existentes no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, representam a Iniciação de Nicolau Coelho (Felgueiras, c. de 1460 – Costa de Moçambique, Janeiro de 1504), navegador que acompanhou Vasco da Gama à Índia e Pedro Álvares Cabral ao Brasil. No entanto, o actual cepticismo positivista pesando sobre o tema poderá caracterizar esse facto como algo de somenos ou nenhuma importância…. Contudo, o que nos dias de hoje poderá constituir mera curiosidade, um fait divers como algo sem valor efectivo, não encontra justificação no contexto e mentalidade da época em que foi criado. Devemos compreender que uma catedral representava o ideal ou arquétipo máximo da ideia espiritual e cultural de um povo em determinado contexto social, facto que qualquer académico medievalista poderá confirmar sem pestanejar. É unânime que o chamado estilo Manuelino (que alguns chamam de “Gótico tardio”) assenta claramente no figurino alusivo aos mares e à celebração das “conquistas” ou descobertas marítimas. Nesse sentido, o ideal do povo português e os seus arquétipos maiores estão demarcados na pedra silenciosa da arquitectura vigente em Quinhentos e Seiscentos. Isto mesmo comprovou magnificamente a filósofa Dalila Pereira da Costa, na sua inaugural obra, a Nau e o Graal, mergulhando nos ditames profundos da ancestralidade e evolução da História Lusa balanceada sob o pendão desses dois símbolos.

Já que falamos de símbolos e arquitectura, vale a pena aqui referir o símbolo interessantíssimo da chave encoberta que se apresenta na planta arquitectónica do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha, desenhada sobre o conjunto da Capela do Fundador, Corpo da Igreja e Capelas Imperfeitas (antes, Inacabadas, por interrupção após 1533 no reinado de D. João III), vindo assim a expressar no esquisso a Santíssima Trindade cristã. Edificado como celebração da apoteótica vitória portuguesa na Batalha de Aljubarrota (14.8.1385), o imóvel por si só expressa na pedra a importância que foi o sacrifício bélico na manutenção da independência nacional. No entanto, a sua mensagem não é só referente à memória do Passado mas também à missão que se rebate para o Futuro. Sabendo que uma chave recambia sempre para um “segredo”, apelamos às palavras do professor Manuel J. Gandra, no seu ensaio Portugal, Terra Lúcida. Porto do Graal, para explicar-nos essa disposição oculta como base escatológica do destino de Portugal e da Missão Portuguesa sob a inspiração do ideal Joaquimita relativo às três Idades do Mundo: Idade do Pai (Capela do Fundador), que “tivera por centro Jerusalém e o Templo de Salomão, síntese de todo o Mundo Oriental”; Idade do Filho, que “sediara-se em Roma e expressava-se pela Igreja Católica”; Idade do Espírito Santo, que “representaria o culminar da História, constituindo o período de apogeu do Espírito Santo, de Avis ou de Siva, o Paracleto. Este novo momento da História, foi caracterizado pelo sincretismo religioso e pela fraternidade universal de que Portugal se fazia Arauto (…)”. Além disso, essa “Chave dos Mistérios” repercute a “arquitectura” do plano a atingir na forma organizada do espaço: “Todavia, a Igreja Romana, e isto de acordo com o plano da Batalha, parecia ter perdido o vínculo com o Pai, visto não existir qualquer comunicação entre a Igreja e as Capelas Imperfeitas. Daí a necessidade de demandar o Pai, na forma do Preste João das Índias, rodeando o continente africano pelo sul, tal como acontece com o visitante que da Igreja pretende deslocar-se às Capelas Imperfeitas, cujo único acesso se abre a norte”. No mesmo sentido da pressuposta Missão de Portugal, verificamos que a pedra e a memória colectiva do povo fazem o seu trabalho sincrético através das lendas circundantes. Conta a vox populi que a pedra do brasão nacional encimando o topo do pórtico principal da igreja do Mosteiro Santa Maria dos Jerónimos, caiu após a derrota portuguesa na Batalha de Alcácer-Quibir, e a qual quando for novamente restituída ao seu lugar será quando for alcançada a maior Glória de Portugal, com o respectivo regresso do “Rei Desejado”.

Planta do Mosteiro da Batalha

No entanto, essa relação arquitectónica e social não se prende apenas à antiguidade medieval e/ou renascentista. Em pleno século XVIII, a restauração de Lisboa após terramoto de 1755 foi vítima do mesmo discurso, mas debruçado num contexto político particular. O ideal reformista do Estado e a oposição ao Clero congeminados pelo Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal (Lisboa, 13.5.1699 – Pombal, 8.5.1782), constituem um testamento que ainda hoje podemos constatar sub-repticiamente nas ruas largas e rectas que desenham a Baixa Pombalina[1]. Inclusivamente, como ponto de clímax dos intuitos do Ministro, desenvolveu-se um secretismo intransigente que se fez sentir na inauguração da estátua equestre de D. José I. Inaugurada no dia 6 de Junho de 1775, data em que o rei fazia 62 anos de idade, a peça foi trazida da fundição no Arsenal Real do Exército para o lugar central do Terreiro do Paço, em Lisboa, dentro de uma caixa fechada montada numa grande zorra com a estranha frase latina, em grandes letras de ouro: “A nuvem não cobre o Sol”. É óbvio que o “Sol” era o rei, e a “nuvem” a caixa. A zorra era puxada por trezentos carregadores protegidos por duas colunas de Infantaria acompanhadas pelo Juiz do Povo, com os representantes da Casa dos Vinte e Quatro e os Procuradores dos Mesteres – uma clara expressão do que ainda restava da tradição municipal. No local, o secretismo não foi menor. A colocação da estátua de bronze no pedestal realizou-se em volta de um conjunto de mastros de nau enterrados no solo a preencher os espaços vazios das velas de navio. A salvaguardar toda a operação colocou-se ainda um cordão de tropa em volta, de maneira a impedir qualquer aproximação e eventual espreitadela para o seu interior. O rigor foi de tal ordem que nem sequer o autor da estátua, Machado de Castro, pôde aproximar-se, acarretando à obra um decaimento da figura do rei sobre o lado esquerdo até aos dias de hoje.

Chegada_da_estátua_de_D._José_ao_Terreiro_do_Paço,_1775[1]

Esse episódio leva-nos a questionar: por que razão houve tanto secretismo nessa inauguração? A resposta surgiu exactamente oito dias depois, em um documento dado ao rei pela própria pessoa de Sebastião José, explicando o simbolismo das festas da inauguração. O documento em causa foi designado como Observações Secretíssimas. No fundo, o acto de “cair o pano” durante a celebração expressava o mote simbólico da consagração efectiva de todas as reformas levadas acabo pela geometria política de Pombal e o retrato memorial do Portugal grandioso de outros tempos, novamente conquistado e recapitulado sobre o bronze imperial do rei[2]. Portanto, mais uma vez, apresenta-se na pedra (neste último caso, no bronze) o Ideal máximo da nação e seu povo em predeterminado contexto social, deixando aperceber ao entendimento o sentido para onde caminha ou a que se propõe esse povo, no caso, o português. Assim, e tendo por premissa o “discurso silencioso” da pedra como testemunho dos ideais maiores da nação, resta analisar as marcas, os esquissos e os símbolos deixados pelos nossos antepassados esclarecidos, procurando interpretá-los e elucidá-los à luz dos mistérios em que vagavam.

Para tanto, dirigimos a atenção para o Convento de Cristo, em Tomar, que por si só torna-se um imóvel bastante peculiar ao ser estudado com maior minúcia, por constituir uma síntese arquitectónica de diversos períodos históricos desde a implantação da Sede-Mãe da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Jerusalém em Portugal, através da doação de terrenos por D. Afonso Henriques em 1126, registada como a primeira[3]; continuada com a mesma estrutura, apenas com a alteração do nome para Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, no seguimento da protecção dispensada por D. Dinis durante o processo do julgamento dos templários em França; a expansão temporal na missão das Descobertas Marítimas portuguesas no período Manuelino e a reestruturação interna durante o reinado de D. João III, com as reformas de Frei António de Lisboa, até à sua total extinção. O primeiro momento é constatado arquitectonicamente na Charola templária, feita à imagem e semelhança da Cúpula do Rochedo de Jerusalém; o segundo nos claustros imponentes com a belíssima e famosa “janela manuelina”, e por fim o corpo circundante do convento, construído para a vivência em clausura dos freires de Cristo. O visitante, quando passeia sobre o eco e ao mesmo tempo o silêncio dessas pedras, está a pisar um testemunho de História soberbo. Na realidade, o primeiro espaço caracteriza na História o nascimento de Portugal com a Cruzada aos Mouros; o segundo, a maturação ou crescimento do país na Cruzada dos Mares, e por terceiro o recolhimento e conseguinte morte ou encobrimento espiritual, justificando de certa forma a afirmação pessoana na Mensagem: “Cumpriam-se os mares, o império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal”!

O Espírito não morre, apenas encobre-se sob os mistérios e nevoeiros da ignorância do Homem. No entanto, qualquer “conquista temporal” é e sempre será precedida de uma “conquista espiritual”[4]. O mesmo aconteceu com a Ordem de Cristo, que num movimento de sístole e diástole, recolhimento e expansão, deu “mundos ao mundo”, e posteriormente desapareceu da face da Terra. A comprovação desse movimento antagónico no seu segundo aspecto, foi a da demanda espiritual que liderou os intuitos da Ordem de Cristo e para os quais o Infante D. Henrique sempre mobilizou os seus esforços – a do Reino do Preste João das Índias e Etiópia. As primeiras notícias sobre esse misterioso monarca cristão tinham-se feito sentir ainda na época da Ordem do Templo, por volta do ano de 1219, quando os templários participaram na ousada ofensiva com Jean I de Brienne, rei de Jerusalém de 1210 a 1225 e co-imperador do império latino de Constantinopla de 1231 a 1237, contra o Egipto, onde quase se reconquistou Jerusalém através da tomada de assalto de Damieta, a par dos inquietantes rumores que chegavam das fronteiras longínquas sobre um povo estranho que invadia a Pérsia e ao qual foi associado o misterioso Preste João das Índias, cujas lendas já corriam desde há algumas dezenas de anos. O terror no mundo muçulmano foi enorme, no entanto o povo invasor não seria do meio cristão e sim do meio mongol, sob o comando de Gengiscão (Ghengis Khan)[5]. Contudo, a lenda foi forte que não sucumbiu às leis do Tempo, a qual durante dois séculos ficou fechada em moratória até às missões secretas de Pêro de Covilhã e a posterior mobilização de recursos económico-financeiros para engendrar toda a Expansão Marítima, que a História oficial nos relata adiantando que acabou por ter graves consequências económicas para o país que, realmente, graças a essa mesma Expansão Marítima tornou-se a maior potência económica da Europa.

Portanto, em uma primeira análise à evolução arquitectónica do Convento de Cristo, podemos dizer que as obras do período Manuelino foram uma integração da Charola e suposta continuidade do Espírito Templário até ao Renascimento. Na fase posterior, já não podemos considerar uma integração mas sim uma absorção ou castração do que estava anteriormente construído, estando este aspecto bem demarcado no enovelamento estranho e até incongruente dos claustros manuelinos. Alguns historiadores, erroneamente, consideram que foi uma vingança de D. João III a D. Manuel I, por este ter desposado a sua pretendente, e como consequência querer “tapar” a obra de seu pai. Não podemos ser tão imaturos, sensacionalistas e imponderados a esse ponto. D. João III era um homem de Estado e de Inquisição, e não subjugaria facilmente os interesses nacionais apenas por um hiato de ordem familiar e conjugal. Conceber essa teoria é no mínimo infantil e insatisfatória do ponto de vista histórico.

Apresentada assim a “casca” da análise da arquitectura do Convento de Cristo e dos intuitos da Nação impressos nele, resta o convite do passeio ao “interior” do imóvel para tentarmos descobrir os mais belos tesouros encerrados no “discurso silencioso” da pedra.

A ROSA NA CRUZ ANTES DA ROSA+CRUZ

O mito da viagem de Christian Rosenkreutz e o seu encontro com os sábios de Damcar, não deixa de ser a recapitulação do paradigma ocidental que belissimamente Cagliostro sintetizou na sua afirmação: “Toda a Luz flui do Oriente, toda a Iniciação provém do Egipto”. Uma das grandes epopeias na salvação da Europa das “trevas” em que estava mergulhada e do consequente cataclismo psicossocial, fez-se através da actuação oculta da Ordem dos Templários entre os séculos XII e XIV. Os cavaleiros do Templo estabeleceram secretamente relações muito próximas com o mundo muçulmano, detentor do conhecimento místico e cientifico largamente difundido na Península Ibérica desde o século IX, e após a sua missão cumprida a Ordem acabou oficialmente descartada pela Igreja de Roma. A viagem do Cristão Rosa+Cruz é a mesma recapitulação mítica ou então só simbólica da caminhada da Ordem do Templo, com a permanência desse misterioso personagem da Alemanha em Damcar, Egipto, o seu embarque para Marrocos indo a Fez (ou o Fim da Iniciação) e finalmente o retorno à Europa por Espanha (marco geográfico referencial de fixação da cultura árabe na Idade Média europeia), no cumprimento da sua missão de trazer a Luz do Oriente ao Ocidente iluminado por ele. No fundo, o mito extracontinental é sempre o mesmo, só as directrizes da narrativa e as personagens mudam. Aliás, todos os grandes sábios e místicos da Humanidade fizeram tal caminho, directamente da Antiguidade até pleno século XIX!

A Mística Rosa+Cruz surge, pois, como descendente directa da Mística Templária, após a extinção desta Ordem na Europa Central indo formar-se um outro Movimento Místico, misto de cátaro e arábico, nos meados do século XIV e que chegou ao século XVII: o do Cristão Rosa+Cruz.

A Rosa+Cruz, emblema hermético da Pedra Filosofal, tanto valendo por Iluminação Mística, já era conhecida dos templários, como se verifica pela cruz achada nos finais de Agosto de 1993 no lado nascente do castelo dos templários em Tomar, bem como em diversas das suas lápides tumulares e mesmo medalhões de abóbada.

Semelhante ao fim dos templários foi a Ordem dos Assacis fundada no Cairo em 1090, que pouco menos tempo durou. No entanto, ficaram os sufis, místicos islâmicos xiitas ou “livres”, anteriores ao Movimento Assaci e os seus directos influenciadores que se constituíram nos meados do século VIII, cuja pragmática e mística eram semelhantes às dos posteriores Rosa+Cruzes com que mantiveram relações próximas de cultura e espiritualidade, nomeadamente no período Henriquino.

Em Portugal, o Sufismo brilhou sobretudo através da cultura moçárabe, e sem dúvida alguma terá influenciado a pragmática espiritual da Ordem do Templo no território nacional. De entre os sufis mais famosos no país, figuram os nomes incontornáveis na cultura arábiga de Abû Al-Walid Al-Bâjî (de Beja, século XI), Ah´Med Ben Qasî (de Cacela, século XII) e de Al-Uriâni (de Loulé, século XIII), este um dos mestres espirituais de Ibn Arabi de Múrcia.

Portanto, a Mística Sufi e posterior Rosa+Cruz adquirem equivalência espiritual, onde até alcançar o estado ou grau supremo de Iluminação Crística ou a Ayat Allah como “Presença de Deus”, considerava-se Rosacruciano ou Rosacruzista, no Sufismo equivalendo ao Taçawwuf, e só o Iluminado ou conquistador desse estado supremo, após árdua cruzada ou crescentada interior, era efectivamente considerado Rosa+Cruz, igual em natureza e consciência ao sufi Mutaçawwfin.

Assim, o Rosa+Cruz e o Sufi (como também o Yogui) estão ao mesmo nível consciencial: o Crístico, Intuicional ou Búdhico, comparticipando por igual dos Mistérios Maiores da Vida-Consciência (afins à Cosmogénese) como Génios Iluminados ou Jinas Representativos do Centro Supremo do Mundo, a Agharta mesma, Seres Transcendentes ligados pela Intuição Espiritual à Mónada Divina – Anupadaka ou Noûs. Por sua vez, o Rosacruciano, correspondendo de modo imediato ao Taçawwuf, idêntico em natureza e consciência ao Ayatolah (e ao Yoguim), concorre para o nível da Tríade Superior, a Individualidade Espiritual, através do Quaternário Inferior ou Personalidade Humana afim aos Mistérios Menores da Vida-Energia (empáticos à Antropogénese), onde procura firmar o alinhamento psicomental (kama-manásico) com a divina Intuição, a Inteligência Espiritual que é a mesma do seu Cristo Interno, ainda no estado de “Ser Imanente” encarnado ou “crucificado na Matéria”, esta que já foi pelo Rosa+Cruz, o “Ser Transcendente”, superada e transformada em esfera solar radiando, tal qual a Rosa florescida no centro da Cruz.

Rosacruzes Templo e Cristo

A ligação entre o Sufismo e a Rosa+Cruz encontra o maior eco em Mohyid-Din Ibn Arabi, cujas obras, Kitâb el-Isrâ (“Livro da Viagem Noturna”) e Futûhât el-Mekkiyah (“Revelações de Meca”), possuem severas semelhanças com o plano traçado por Dante Alighieri, pressuposto cronista póstumo do Templo, na sua Divina Comédia. O número 99 ganha uma importância fundamental, no que diz respeito aos vários Nomes de Deus dos quais depende o Mundo, como descritos nas duas versões de Tirmiddhi e de Ibn Majda reproduzidos na ordem dos cantos da obra imortal de Dante. Aliás, o número 99 tem um valor profundamente místico, principalmente quando se atenta no facto de ser um múltiplo de 11, que é um dos números-chave na interpretação dos Mistérios Celestes. O próprio Alighieri, que terá recebido a influência esotérica das correntes Sufi e Xiita ou Livre do Islão, veio a dividir a sua Divina Comédia em 99 cantos, 33 para cada uma das suas três partes: “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”, já de si reproduzidos em três enormes painéis de azulejos na igreja do convento franciscano do Varatojo, Torres Vedras. O seu centésimo canto incluído na primeira parte, espécie de introdução, segundo alguns místicos do Islão pode referir-se a Allah ou a Al´ism el´a`z´am, “o maior dos Nomes”. Este constitui o Nome desconhecido dos homens, o que vem concordar com o que afirmam todas as tradições a respeito de alguma coisa que se ocultou da Humanidade e por ela foi perdida: a Palavra Perdida dos Maçons, o Haoma dos Persas, o Soma dos Hindus, o Santo Graal do Cristianismo céltico, o Grande Nome Divino dos Judeus. No fundo, revela-se nisso uma concordância religiosa, espelho da unidade transcendente, provinda de uma única Tradição Primordial, da qual só participam os que compreenderam e harmonizaram em si mesmos os 99+1 Nomes de Deus.

Transladada a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Jerusalém, por intercessão do rei D. Dinis, para a Ordem Militar dos Cavaleiros de Nosso-Senhor Jesus Cristo (vulgo, Ordem de Cristo) no ano de 1319 e aprovada pelo Papa João XXII, durante o período Manuelino aproveitou-se a rotunda medieval do Convento de Cristo e marcou-se a intenção de reproduzir o esquema do Templo de Salomão mas já com outras bases “mítico-arqueológicas”. Em vez da Cúpula do Rochedo, em referência àquela octogonal de Jerusalém, aqui o templo deveria ter uma planta retangular. As dimensões da igreja manuelina fornecem pistas nesse sentido. A modelação do volume da nave da igreja com o coro seguindo a proporção 2:1, respeitou escrupulosamente a descrição bíblica do Templo de Salomão, conferindo-lhe proporções “quadradas” e “duplo-quadradas”. Ora, trata-se da recapitulação mítica do espírito iniciático da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão assumido pela sua continuadora, a Ordem dos Cavaleiros de Cristo, onde o próprio rei D. Manuel I veio a ser Grão-Mestre da mesma; e também recambiando à mitologia messiânica nacional remetendo para as profecias do A.T., por sua vez ajustadas ao nascimento, subida ao trono (por via indirecta) e ao Divino homónimo do rei D. Manuel, Emmanuel, “Deus connosco”. O corpo da igreja, construído durante a campanha Manuelina de 1510-15 por Diogo Arruda, e numa segunda fase por João Castilho, inclui a nave, o coro alto e o coro baixo e foi ligado à charola por um grande arco rasgado nos muros do velho oratório, bem como o tambor interior da rotunda, convertido em capela-mor, apresenta um pormenor interessante no tecto. Verifica-se cinco besantes representando as chagas de Cristo e os restantes dezasseis instrumentos referentes à Paixão do Senhor, configurando o conjunto no todo as benditas Rosa e a Cruz. Além disso, não podemos deixar de considerar que D. Manuel poderá ter levado aqui em consideração a origem nacional antevista pelas profecias templárias-rosacruzistas desde o conde Henrique de Borgonha, que aliás tinha zelo extremado pelos tempreiros existentes em Portugal (1118) ainda antes da sua formação oficial (1128), como nos dá a conhecer Frei Joaquim Rosa Viterbo, e as doações de Soure pela rainha D. Teresa à Ordem, assinando sempre o seu nome com a Cruz sobre a Rosa Mística – a Rosa+Cruz.

Cúpula da Charola do Convento de Cristo, Tomar

Cúpula da Charola do Convento de Cristo, Tomar

Por fim, relembramos as palavras de Lima de Freitas relativamente à tradição do “livro” e do “túmulo” oriunda dos finis terrae: “(…) emergir quase ao mesmo tempo, como que surgindo de uma mesma nascente, o mito de Christian Rosenkreutz na Alemanha, e em Portugal a memória da lenda velha de dois séculos [antes] do Beato Amadeu, segurando no seu túmulo o livro contendo a “História do Futuro”, palpitante de mistérios, que seriam «brevemente» revelados segundo a Vontade de Deus (…)”. Não deixa de ser pertinente a chamada de atenção do professor Manuel J. Gandra sobre a trasladação dessa Mística Rosa+Cruz Templária para a Ordem da Freiria de Cristo, apontada em cruz florida num medalhão existente na adega do piso inferior do convento, juntamente com a hipótese desse local ter sido destinado a fins iniciáticos (o que suscita sérias dúvidas), bem como o facto da “migração” desses símbolos místicos para a Alemanha, num hipotético exílio dos freires de Cristo renegados pelas novas reformas da Ordem impostas por Frei António de Lisboa, passando a viver como os pastores no campo jucundo da fidelidade ao Amor Divino, como é relatado na Lusitânia Transformada de Fernão Álvares do Oriente: “(…) o Movimento Rosa+Cruz, como as fontes disponíveis afirmam e reafirmam, não obstante a alegada paternidade de Christian Rosenkreutz (1378-1481), só teve origem na Alemanha durante o século XVII, como a justificar a ocorrência no Convento de Cristo, já em 1535, dos símbolos que o ramo germânico só cerca de um século mais tarde havia de adoptar (…)”. Acrescentamos apenas, não querendo ser exaustivos, que toda a mitologia à volta do túmulo de Christian Rosenkreutz e das profecias daí decorrentes, terem-se baseado em estudos astrológicos entremesclados com teológicos do astrónomo e matemático possivelmente também rosacruciano alemão Johann Kepler (Weil der Stadt, 27.12.1571 – Ratisbona, 15.11.1630), nomeadamente sobre o cálculo da data do nascimento de Cristo, as quais haviam sido profundamente influenciadas pelas ideias do erudito astrónomo e alquimista judeu português Isaac Abravanel (Lisboa, 1437 – Veneza, 1508), também apelidado no século XVI de “Hermes Trismegisto” por dominar a Magna Scientia.

Tecto e selo rosacruz

O ALQUIMISTA DO “CRUZEIRO”

No reinado de D. João III (13.12.1521 – 11.6.1557), o Convento de Cristo, na sequência das reformas do referido Frei António de Lisboa tão mal aceites pelos freires conventuais de Cristo, até então administrados por Frei Diogo do Rego tanto a nível espiritual como secular, recebeu obras que lhe modificaram radicalmente a feição, ou antes, acrescentos ítalo-renascentistas concebidos em 1529 e executados a partir de 1531, com os claustros encostados às três faces do templo absorvendo boa parte do volume do imóvel existente. A Regra reformada dos freires de Cristo, composta por 36 capítulos, foi uma adaptação personalizada da Regra de S. Bento que conferiu nova fisionomia à Ordem, decisivamente alterando-a de claustral em clausural, o que ia contra a sua natureza própria em que fora fundada. Esta antiga Ordem da diáspora via-se agora uma Ordem de clausura, ou antes, enclausurada pela mão de ferro da Inquisição impositiva das Reformas de Trento, ficando assim coibida da sua missão última de atender ao anelo de fraternidade universal pelo ecumenismo multirracial e multiconfessional, característica da Igreja do Amor, sendo o seu espaço ocupado pelo anómalo fundamentalismo fanático que campeia entre paredes da Igreja de Roma. Apesar de tudo, ainda assim houveram freires de Cristo que acataram a nova Regra reformada tendo permanecido no seu convento de Tomar sob a divisa beneditina: Ora et Labora.

Apesar de todo o drama vigente na época para a Ordem de Cristo, não parece que a sua mística particular se tenha perdido de todo. Com efeito, na capela do Cruzeiro, na parte central do convento, cuja abóbada apresenta 91 caixotões decorados com temas tardo-renascentistas referentes ao Ecce Homo (no altar), vê-se, estrategicamente localizada e de apreensão difícil ao olhar comum, uma enigmática figura coroada de longas barbas emergindo de labaredas e ostentando gloriosamente o globo-mundi numa mão com a outra abençoando. Este imóvel da capela, situado na confluência dos três corredores que constituem o dormitório grande, apresenta uma decoração próxima do plateresco espanhol, talvez devendo-se a algum dos artífices biscainhos que trabalharam para o arquitecto João Castilho (afastado por Frei António Lisboa, mais por possível desacordo doutrinário do que por meras razões de ordem técnica e formal). A sua primeira fase foi terminada em 1533, e o remate da torre-lanterna é já de 1544, com a novidade dos seus ornamentos inspirados em motivos triunfais antigos. Toda essa iconografia do alto-relevo em questão, apesar dos historiadores de Arte apontarem-na inscrita no tema do “concerto do Mundo”, mas tão-só sendo o Padre Eterno Criador na função de Demiurgo, catapulta-nos de imediato para o tema da Alquimia na sua visão mística ocidental consignada Rosa+Cruz. O personagem será o Alquimista, o Philosophus per Ignius, o “Filósofo do Fogo”, que tal como o Supremo Demiurgo criou o Macrocosmos ou Universo a partir do Fogo Original, também ele cria com o Fogo da Razão e da Fé o Microcosmos ou Mundo, por ele mesmo possuir o Segredo de Maria ou a Rosa nascida da Retorta, que é dizer, a própria Pedra Filosofal, a Rosa dos Sábios, a Rosa Mística símbolo maior do Homem Realizado, o Iluminado, o Filho de Maria feito Homem de Cristo, Ser Crístico, ele na alegoria escultórica de braços erectos (a cruz) elevando o globo (a rosa), portanto, trata-se do símbolo encoberto do próprio Adepto Rosa+Cruz.

O Demiurgo como Pater Rosea Crucis

O Demiurgo como Pater Rosea Crucis

O nome provém do árabe Al-Kêmi, “Terra Negra”, ou mais precisamente Allah-Chêmia, “Química Divina”, sendo a sua origem atribuída a Hermes Trismegisto que a registou na sua “saturnina” Tábua de Esmeralda, obra publicada entre o século I e III d. C. e que foi a fonte de inspiração do pensamento hermético e neoplatónico medieval e renascentista. Esta ciência tradicional alastrou depois do Médio-Oriente à Índia e à China, tendo sido trazida para a Europa na Idade Média pelos peregrinos que iam à Terra Santa e tomavam contacto com os sábios islâmicos recebendo as suas instruções nesses conhecimentos herméticos. Daí para cá, o estudo e a prática da Alquimia mantiveram-se até aos dias de hoje e a Igreja Católica, com mais ou menos reservas, tolerou mais a sua filosofia mística que a sua prática laboratorial.

O Fogo e a Rosa são os símbolos da Opus Magnum, a Grande Obra dos Filósofos do Fogo no encalço da Lapis Philosophorum, a Pedra Filosofal. A Obra consiste em operar sobre os elementos da Matéria-Prima ou Substancial, eliminando ou separando as suas impurezas físicas (Morte) para os deixar purificados e reunidos (Ressurreição) através do Mercúrio e do Enxofre (Alma e Espírito) actuando sobre o Sal (Corpo), fixando assim os elementos voláteis ou etéreos na Matéria purificada com os quais, por doze fases graduais, vai se formando a Pedra Filosofal, sinónima de iluminação da Matéria pela libertação do Espírito encarcerado nela. Todo este magistério respeita três fases principais na sua organização: Nigredo, Albedo e Rubedo. O Nigredo afim ao Fogo, corresponde à “Obra Negra” (Morte) – Dissolução e Putrefacção da Matéria; o Albedo aliado à Rosa Alva, é a “Obra Branca” – Purificação da Matéria pela Substância “líquida” (Purificação); e por fim o Rubedo assinalado na Rosa Rubra, corresponde à “Obra Vermelha” (Ressurreição) – estágio em que se fabrica a Pedra Filosofal. Todo o conjunto perfaz a Trindade Alquímica (Enxofre, Mercúrio, Sal) como expressão elemental das Três Hipóstases Divinas (Pai, Filho, Espírito Santo) na realização da Obra do Eterno na Face da Terra que é a da criação do Andrógino Perfeito (Rebis) aquando a Trindade se faz Unidade.

As três fases alquímicas

As três fases alquímicas

O Alquimista sendo já o Adepto Realizado (assinalado pelo barrete frígio indicando-o como Liberto), isto significa que alcançou o elevado estado de Consciência Crística fazendo senhor das duas Rosas Rubra e Alva. Na terminologia hermética ocidental, tais “rosas místicas” são referentes às duas fases da Obra Alquímica – Albedo e Rubedo – como simbólicas da Purificação e Transmutação da Pedra, bem como dos processos da Argiopeia, “fábrica filosófica da Prata” (Lua, Mulher), e da Crisopeia, “fábrica filosófica do Ouro” (Sol, Homem), visando alcançar o estado final do Androginismo Primordial (Sol e Lua, Hermes e Afrodite), conquistando a Unidade Suprema ou União Divina. Além disso, também correspondem aos “centros de forças” (chakras, vórtices bioenergéticos) existentes no corpo físico superior do Homem, comummente chamado de Etérico ou Duplo Etérico, os quais estão ocultos ou “interiorizados” na sua natureza inferior ou física, emocional e mental e que permitem, por um processo de evolução lento e gradual da consciência, semelhante a uma laboração alquímica, a sublimação da matéria impúbere e imperfeita da mesma consciência e consequente elevação aos Princípios Divinos promotores da supraconsciência e com isso da condição supra-humana. Esses “centros de forças”, são alegoricamente denominados de “lótus” ou de “rosas”, sendo, como dissemos, os chakras ou “vórtices bioenergéticos”, dos quais os superiores situam-se na laringe, fronte e o topo da cabeça – o Laríngeo (Chakra Vishuda), o Frontal (Chakra Ajna) e o Coronário (Chakra Sahasrara). Ora, o próprio alto-relevo assinalado do Demiurgo é ilustrativo desta realidade particular, considerando que Seu corpo está submergindo do Fogo e que neste conspecto é simbólico do domínio dos “centros” inferiores afins ao Quaternário da Personalidade (o Nigredo), e da manifestação positiva dos “centros” superiores da Tríade da Individualidade (o Rubedo), como seja a natureza Divina do Homem, o Ego Superior, o Anjo Solar, etc., assim levando ao despertar do “sono letárgico” da Persona pelo Poder do Fogo Serpentino, Fogo do Espírito Santo ou Fogo Secreto alquímico assinalado na frase Ignis Natura Renovatur Integra (“Pelo Fogo se renova a Natureza inteira”), antiga santo-e-senha dos místicos Rosacruzes do século XVI, o qual é simbolizada na figura pela emersão dos braços e cabeça à superfície do Mar de Fogo parecendo configurar um tridente ou até uma flor-de-lis (como também a letra hebraica schin), indicativa de Iluminação Espiritual ou Crística ao caracterizar a Unidade da Trindade Corpo-Alma-Espírito como a Essência Real do Homem, marcando a verdadeira Realeza Divina, que é a Mónada, também esta Uno-Trina como Espírito-Intuição-Mente Superior, ou Atmã-Budhi-Manas.

PORTUGAL E O GRAAL

No entanto, o tipo de iconografia assinalada não surge só em Tomar, mas também em Vila do Conde através da figura esculpida presente na fachada da sua igreja-matriz de S. João Batista, o famoso “Homem do Caldeirão” (como também se vê esculpida na porta lateral da igreja de S. Sebastião, em Lagos, referente ao Primeiro Homem, Adão, saindo do Caldeirão ou Arquétipo Primordial), mas aqui sem as rosas e sim com duas pedras ao lado de uma nau, assim repercutindo os arquétipos maiores da Tradição Espiritual Portuguesa, belissimamente bem explicadas pelas palavras sapientes de Dalila Pereira da Costa em sua obra A Nau e o Graal.

O "Homem do Caldeirão", igreja-matriz de Vila do Conde

O “Homem do Caldeirão”, igreja-matriz de Vila do Conde

A origem tradicional deste elemento (o homem com as pedras), utilizado no Hermetismo Nacional, havia sido herdada do Cristianismo céltico associado à Tradição do Santo Graal e às histórias do rei Artur e da Távola Redonda, como os principais enredos do romanceiro medieval espalhado por toda a Europa e tão caro à cultura literária portuguesa, posto a sua origem situar-se exactamente nas terras ocidentais da Estremadura ibérica donde migraria para a Bretanha. Sobre essa Tradição, Portugal muito está ligado a ela desde a sua origem Atlante-Asturiana na qual é consignado Orco-Gal ou Gadwen, “Paraíso Oculto ou Encoberto”, vocábulo hoje mítico mas referente ao Paraíso Terreal cuja memória mais ou menos efabulada foi prosseguida nas tradições celtas da Ibéria e da Hibérnia (Irlanda) onde tomou forma no fabuloso e mágico Caldeirão de Dagda/Bran, que o romanceiro medieval expressaria como Santo Graal, o Saint-Vaisel ou Santo Vaso correlacionado no missal cristão à Taça Eucarística. Na sua divulgação destacaram-se, durante a Idade Média em pleno ciclo literário arturiano, quatro correntes esclarecidas: Ordem de Cister, Ordem do Templo, Movimento Trovador e Jogral, Corte Luso-Aragonesa da Rainha Santa Isabel com a Ordem Terceira de São Francisco. Sobre as duas primeiras, destacamos a obra do cronista cisterciense português Frei Bernardo de Brito, Monarquia Lusitana, e o testemunho do selo rodado de D. Afonso Henriques na sua carta de doação de Tomar à Ordem dos Templários em 1159, no qual se lê em anagrama Porto-Graal.

Os episódios descritos nas crónicas perdidas no tempo mas evocadas na Monarquia Lusitana, fizeram com que os dois principais mentores da formação do País ficassem imortalizados como divinos, em episódios como o da visão da Pedra de Lúcifer pelo conde Henrique de Borgonha junto à raia luso-galega, ou o da aparição de Cristo no famoso milagre de Ourique, no Baixo Alentejo, ocorrido com D. Afonso Henriques. O primeiro é realmente interessante pelo facto de ter ocorrido no início do século XII, anterior ao romance Parzival datado do primeiro quartel do século XIII, da autoria do cavaleiro e poeta épico alemão Wolfram von Eschenbach, que popularizou o mito do Graal como a Pedra caída dos céus, a Pedra ou Estrela da Coroa ou Fronte de Lúcifer, tendo o herói Parzival encontrado o dito Graal (Pedra) no Extremo-Ocidente do Mundo, também chamado o “Fim-do-Mundo”, neste caso, subentende-se como sendo Portugal. Acrescente-se ainda a curiosidade de Wolfram von Eschenbach, praticamente no início da sua obra (página 36), não deixar de referir-se aos cavaleiros portugueses como os “Audaciosos”. O Selo de D. Afonso Henriques patente na carta de doação das terras de Tomar à Ordem dos Templários é ilustrativo do tema graalístico, por nele ler-se PORTUGRAL, isto é, o PORTO-GRAAL. Além disso, verifica-se que esse selo não foi construído de uma forma aleatória e sem significado. Esta afirmação justifica-se, em primeiro lugar, pela própria disposição das letras PORTUGAL e PORTUGRAL de uma forma muito bem estruturada que satisfaz um duplo sentido. Em uma primeira abordagem, verificamos que o nome PORTUGAL está exposto sobre a cruz, ou seja, a disposição das letras está em conformidade com a organização de quatro quadrantes. Podemos dizer que PORTUGAL ESTÁ CRUCIFICADO. Em uma segunda abordagem da mesma disposição, observamos o fenómeno bastante interessante de Cabala Gemátrica que mais uma vez nos permite afirmar que essa disposição não foi aleatória: todos os quadrantes apresentam apenas uma letra, excepto um deles apresentando duas, AL, o que desvia-se da organização geral. Surge a questão: Qual a razão para organizar a palavra PORTUGAL dessa forma? Além de colocar a palavra em forma da cruz à imagem e semelhança da de Cristo (Tragédia do Gólgota), temos a mesma palavra como um corpo (crístico) sacralizada através da disposição do valor místico do número sete, o número dos sacramentos. Assim, o interior do selo retrata PORTUGAL como um Corpo CRUCIFICADO e simultaneamente SACRALIZADO ou CONSAGRADO, conferindo a esta Terra Portuguesa a Salvação pela Graça de Deus no Milagre de Ourique através dos dotes taumatúrgicos de D. Afonso Henriques. Por fim e para confirmar a Imitatio Christi no selo rodado de doação dessa Terra Templária consagrada pela Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão (assinalados nos antigos fólios, como já dissemos, como os tempreiros), o conjunto de todas as letras inscritas nos três círculos da imagem (expressivos das Idades do Pai, do Filho e do Espírito Santo) completa o número místico 33 referente à idade da Paixão de Cristo. É assim que Portugal marca a 4.ª Iniciação de Chrestus ou Arhat a caminho da 5.ª, da Ressurreição do Adepto Perfeito que, em Tempo Novo de Primícias, é também a futura RESURREIÇÃO DE PORTUGAL. Nisto subjaz a Mensagem última do Graal.

portugral

O significado geosófico aliado à epopeia da Távola Redonda e respectivo Santo Graal, pomo ou centro da demanda sagrada, conta com uma visão alegórica ou simbólica associada naturalmente às 12 personagens principais da trama, cada uma respectivamente ligada a um signo do Zodíaco. À luz da anatomia oculta do Homem, igualmente o coração (távola) reparte-se em doze segmentos, pétalas ou raios, cada um relacionado a uma das figuras da Grande Aventura, que podemos analisar/meditar da maneira seguinte:

cardíaco e pétalas

Remato assim finalizando com o sábio e augure conselho do vate Fernando Pessoa: “Que Portugal tome consciência de si mesmo. Entregue-se à sua própria alma. Nela encontrará a tradição dos romances de Cavalaria, a Tradição Secreta do Cristianismo, a Sucessão Super-Apostólica, a Demanda do Santo Graal”.

NOTAS

[1] O poder do Estado era recto e claro, não existiam dúvidas. A oposição clerical está demarcada na “ocultação” das igrejas aí existentes. Tanto que foi no período do Marquês de Pombal e por influência do próprio, que a Companhia de Jesus, a dos jesuítas, ficou temporariamente inactiva. O Estado domina o Clero, é a mensagem que se traduz na formatação arquitectónica da baixa ribeirinha da capital do país. O caríssimo leitor ao deambular pelas ruas da Baixa Pombalina, certamente por vezes nem se aperceberá da quantidade de igrejas por que passa junto tal a discrição em que estão recolhidas, precisamente por esta delineação arquitectónica intencional.

[2] O topo do Arco da Rua Augusta ostenta a frase latina “VIRTVTIBVS MAIORVM VT SIT OMNIBVS DOCVMENTO”, que significa: “Às Virtudes dos Maiores, para que sirva a todos de Ensinamento”, ressalvando a memória patriótica dos grandes homens que fizeram Portugal.

[3] Isto conforma-se ao que nos conta Sousa Viterbo em Dicionário Histórico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Constructores Portugueses ou a serviço de Portugal, vol. I, Lisboa, 1899: no tempo de Henrique de Borgonha e de Dona Teresa existiam templários ou “tempreiros” em Portugal, com terrenos doados, ainda antes de a Ordem ter sido fundada oficialmente em 1128.

[4] De certo modo podemos até especular que o conturbado século XIX, marco na História do início da ascensão do materialismo económico, pode ter sido o reflexo da morte ou “desligamento” do binómio “conquista espiritual – conquista temporal”.

[5] É interessante analisar como a Ordem de Cristo também teve um plano (ou manteve) delineado para reconquistar Jerusalém, especificamente pelo 2.º vice-rei da Índia, Afonso de Albuquerque, o César do Oriente, incluindo o ponto estratégico da Abissínia (onde se localizava o reino cristão do verdadeiro Preste João das Índias) para a efectivação da estratégia militar. Infelizmente, os meios de comunicação falharam não tendo a informação chegado ao rei português no devido tempo tendo o plano acabado no esquecimento, como nos conta Elaine Sanceau no seu livro Em Demanda do Preste João, Livraria Civilização Editora, Porto, 1939.

OBRAS CONSULTADAS

ADRIÃO, Vitor M. As Mansões Filosofais de Praga. Éditions Jonglez, Versailles, e Lusophia (blog), 2013.

ADRIÃO, Vitor M. Portugal Templário. Madras Editora, São Paulo, 2011.

ADRIÃO, Vitor M. A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Carcavelos, 2006.

COSTA, Dalila Pereira da – A Nau e o Graal. Lello & Irmãos Editores, Porto, 1978.

CHURTON, Tobias – A História da Rosa-Cruz. Os Invisíveis. Madras Editora, São Paulo, 2009.

DAEHNHARDT, Rainer – Portugal Cristianíssimo. Zéfiro Editora, Sintra, 2005.

GANDRA, Manuel J. O Projecto Templário e o Evangelho Português. Ésquilo – Edições e Multimédia, Lisboa, 2006.

GANDRA, Manuel J. Esquissos sobre a Rosa-Cruz Templarista em Portugal. Edição de autor, Mafra, 2012.

PAULO, Pereira – Arte Portuguesa. História Essencial. Edições do Círculo de Leitores, Lisboa, 2011.

VITERBO, Freio Joaquim Santa Rosa de – “Tempreiros ou Templeiros” in Elucidário das Palavras, Termos e Frases…, 1.ª ed. 1798. Há edição crítica de Mário Fiúza, Porto, Livraria Civilização, 1965, 1966, 2 vols. Nessa o vol. II, p. 582 (contudo não atualizámos, como nela, a ortografia, pelo mais saboroso do original).

TELMO, António – Mistério de Portugal na História e n´os Lusíadas. Ésquilo – Edições e Multimédia, Lisboa, 2004.

Créditos fotográficos: Hugo Martins e Arquivo da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

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