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Sintra, 1995

legenda Shiva

Tido e querido pelos shaivas na Índia como a Divindade a que se deverão unir por via directa, Shiva é o Deus Supremo em Seu Terceiro Aspecto ou Pessoa da Trimurti ou Trindade cujo significado transcendente de seu Ser e símbolos tradicionais agora trazem-me aqui.

As chamadas linhas superiores shaivas geralmente compõem-se de pessoas de alta posição social e educação distinta, aprofundadas na filosofia religiosa shivaíta. Por exemplo, os dandis e os dasnamis, apesar de um tanto ascéticos, evitam os excessos psicofísicos dos devotos das classes inferiores que acabam dando ao Shivaísmo um halo de feitiçaria, animismo e superstição, assim não passando de um notável aborto da mesmo Shivaísmo convertido em espécie de “religião popular” hindu, nada tendo a ver com o que na realidade ele é no seu sentido original. Tanto os dandis como os dasnamis manifestam uma alta forma e um alto grau de vida religiosa e moral. Adoram Brahma sob o nome e aspecto de Shiva, trazendo como signa o lingayat ou falo místico, símbolo do poder gerador masculino (kartri), todavia sendo extremamente puritanos nas suas opiniões, considerando o sexo coisa sagrada e condenando severamente toda a ideia ou acção impura respeitante a ele.

Outras dessas linhas superiores atraíram muitos brahmanes de elevada educação e alta casta, principalmente os que nutrem apetências filosóficas e, mais particularmente, metafísicas e esotéricas, que a doutrina shivaíta lhes fornece. Outras correntes elevadas são compostas pela melhor classe dos yoguis adeptos do sistema de Raja-Yoga de Patanjali, completamente distintos dos vulgares fakires cujas proezas psicofísicas de Hatta-Yoga enchem as praças da Índia e assombram os turistas estrangeiros totalmente ignorantes de cultura tão “exótica” como seja a hindu. A corrente Spanda, no Norte da Índia, inclina-se a uma filosofia mística de alta ordem bastante semelhante às doutrinas sufis. No Sul, há também outras linhas místicas de culto shaiva, algumas tendo dado poesias de notável valor e que são no mesmo estilo do fervoroso Amor patente nos versos dos sufis persas.

 Ainda que os Vedas, a “Bíblia” brahmânica, não refiram Shiva senão como Rudra, o “deus da guerra”, ou antes, como padroeiro da casta militar ou kshatriya, no entanto são-lhe atribuídas qualificações menos belicosas e mais espiritualmente salvíficas no Agni-Purana e no Vayu-Purana, textos datados do Período Gupta (começo do século IV) que são notoriamente shivaítas e contêm material de idade muito anterior a esse período histórico. Possivelmente ter-se-ão inspirado no Shiva-Maha-Purana da autoria de Vyassa, o codificador da Vedanta, dando-lhe assim uma idade superior a 7000 anos. Essa obra sânscrita que julgo nunca ter sido traduzida para qualquer língua europeia, contém a particularidade singular da conter a primeira descrição da descida à Terra dos (As)suras liderados por Maha-Sura, episódio inscrito na similar descrição judaico-cristã da Queda de Lúcifer e os seus Anjos.

São vários os nomes de Shiva: Maha-Deva, por ter trazido à Humanidade as 84 posturas psícofísicas ou asanas constituintes do sistema de Hatta-Yoga, tendo-se instalado primeiramente no Monte Kailasa, no grande Himalaia; Maha-Kalâ, o Grande Tempo, Ciclo ou Período, isto é, o regulador do tempo de duração e extinção dos ciclos planetários; Natarashi, o Grande Espaço, que é dizer, o dinamizador e delimitador das dimensões do espaço planetário; Isa, o Senhor da Luz Suprema, a mesma manifestada no espaço e tempo de desenvolvimento e duração da Matéria.

Quanto ao Aspecto Feminino ou Shakti de Shiva, como disse, é Parvati, a Maha-Devi personificação da Mãe Divina cujo trono de glória é a Montanha Sagrada de Kailasa no Himavat (Himalaia). É também conhecida como Girija, Durga, Kali ou simplesmente Shakti.

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Referindo-se ao Monte Kailasa associado ao Pico do Mundo, Meru, já acamado nas proximidades do seu desenlace físico, o Professor Henrique José de Souza revelou em 22 de Agosto de 1963:

“Deus é Frio – é Éter. Manifestando-se, vai se tornando azul. Tornando-se mais denso, chega a vermelho. Há então um grande choque. A Obra da Criação começou no gelo. É lá que está todo o mistério. Chama-se Monte Meru, e deveria chamar-se Ponta do Mundo. Por isso é que a Vida pode estar toda para ali… tudo na Agharta é hidráulico. A Obra da Criação começou quando o Pai-Mãe Cósmicos se uniram para dar combate à harmonia. É necessário quebrar, destruir, para construir.”

A adoração à Suprema Shakti originou na Índia a linha dos shaktas. Estes veneram o Princípio Criador do Universo como sendo de natureza ou qualidade feminina. Esta concepção teve forte influência sobre os shaivas e geralmente acompanha-os na forma de Shiva-Natarashi, como a materialização do Espírito Divino (Atmã) no Mundo da Forma (Prakriti) indo dar origem à divina Maternidade.

Por seus atributos e qualificações, Shiva tem correspondência no Ocidente aos idênticos predicados do Espírito Santo, o qual equivale na Cabala judaica-cristã a Chevaoth, o Terceiro Aspecto de Adam ou o Homem Primordial (Logos Planetário), como seja Adam Kadmon (1.º Aspecto – Pai ou Brahma), Adam Heve (2.º Aspecto – Filho ou Vishnu), Adam Chevaoth (3.º Aspecto – Espírito Santo ou Shiva, também grafado abreviado Siva, anagramaticamente Avis, a Avis Raris Terris assinalada tanto pela Pomba como pela Ave de Hamsa). Correspondendo assim ao Terceiro Trono ou Logos como Hipóstase do Absoluto, Ele manifesta-se no Plano Físico como Destruidor ou Transformador das formas velhas e gastas em outras novas e mais perfeitas, seguindo o curso natural da Evolução Planetária.

As características de Shiva são as seguintes:

Atributos de Shiva

Voltando às 84 asanas da Hatta-Yoga (Ha, Sol, Ta, Lua), esse algarismo somado e reduzido teosoficamente dá 12, equivalendo aos 12 signos do Zodíaco em torno do Sol incarnado pelo próprio Sri-Shiva, cuja Lua ou contraparte manifestando-O é Parvati. Se somar-se e reduzir-se novamente o valor adquirido obtém-se o número 3, indicativo da Terceira Pessoa ou Hipóstase, seja Cristo-Maria, seja Shiva-Parvati, seja ainda na língua aghartina Aralino-Aralina ou Aralim-Arilim.

Da união cósmica de Shiva-Parvati foi gerado e nasceu Ganesha, o “Deus da Sabedoria”, cuja iconologia apresenta-o com uma cabeça de elefante (expressiva de Atmã, dominando a Maya do restante corpo humano com que se apresenta) com duas presas evocativas da prudência (mananam) e sagacidade (sravanam). Prudência na comunicação na transmissão do conhecimento, e sagacidade na distinção do sagrado do profano. A tromba frontal é simbólica do desenvolvimento do Vibhuti ou Chakra Cardíaco Inferior onde se concentram os 8 Poderes Místicos do Yogui ou Homem Realizado, além de também expressar Viveka, a capacidade de aperceber o Espaço Ilimitado (Nitya) e o Espaço Limitado (Anitya), por naturalmente postar-se entre ambos, portanto, no Mundo Intermédio ou Celeste o que lhe confere predicado psicopompo ou medianeiro (empático às qualidades da natureza planetária de Mercúrio ou Budha, em sâncrito, e assim mesmo tornando-o aos olhos do povo o Deus da Prosperidade, motivo do enorme culto que lhe é prestado, sobretudo pela classe dos comerciantes). Também possui uma protuberância de barriga, tão-só alegórica do seu grande grande desenvolvimento na “disciplina da respiração”, Pranayama, capaz de levar o Yoguim ao despertar das suas faculdades internas ou psicomentais, os chamados sidhis, pelo arranque do akasha ou éter repleto de prana ou energia vital inspirado conscientemente sobre os centros de vida ou bioenergéticos, os chakras manifestando-se pelos plexos centralizadores do sistema glandular do corpo humano.

Ganesha

Ganesha é o Senhor dos Ganas ou Gnomos, que sendo Maruts ou “forças elementais” da Natureza são por Ele dirigidas na Grande Obra de Shiva no seio da Matéria (Prakriti) num contínuo destruir e construir das formas até ao final do Manvantara ou Grande Ciclo Planetário. Esse labor cósmico apresenta-se algo similar às fases da Alquimia, motivo para alguns disporem Shiva como padroeiro dessa Arte Real no Oriente, enquanto no Ocidente significativamente atribuem-na ao Divino Espírito Santo.

A corrente shaiva distingue-se sobretudo pela natureza kshatriya, militar, dos seus membros, cuja história de fundação fá-la recuar aos tempos áureos dos Rishis ou Reis Divinos da Índia primitiva, a Aryavartha. Nisso, o Deus Shiva é assumido como comandante-em-chefe na suprema batalha contra as forças do obscurantismo material, vencendo-as e convertendo-as, transformando-as em forças de Purusha, o Espírito.

Essa “conversão” realiza-se com a Sabedoria Divina (Brahma-Vidya) de Ganesha, motivo de ser exclusiva do ministério sacerdotal dos brahmanes, os únicos a poderem legitimar o poder temporal dos kshatriyas. Razão para o Vivekachudamani (“Diadema da Sabedoria”) de Shankaracharya afirmar:

“Nem as armas, nem as escrituras santas e nem o vento ou o fogo podem libertar-nos da escravidão da ignorância, nem milhares de actos rituais, mas tão só a grande espada da sabedoria discernidora, cortante e penetrante pela graça divina.”

Temos, pois, no Mundo Concreto

SHIVA como a Ideação Inteligente;

PARVATI como a objectivação da mesma Ideação;

GANESHA como a Sabedoria contida nessa Ideação

a qual deve ser propagada no seio da Humanidade como a mesma Brahma-Vidya ou Teosofia através dos brahmanes e kshatriyas iluminados nas Revelações Divinas (Pârâm-Badhi).

Muito do que aqui venho dizendo poderá até ser uma “grande revelação” para inúmeros orientais, porque também eles, à semelhança dos ocidentais comuns, deixaram-se cristalizar no costume de ler à letra as escrituras sagradas invés de as interpretar pelo espírito esclarecedor que as assiste sob a aparência. A leitura parcial de cateque simples, como a mais vulgarizada, é chamada Avidya-Maya, enquanto a mais esclarecida de teologia erudita aprofundada nas mesmas escrituras, leva o nome de Atmã-Vidya. Por causa da primeira, o religiosismo despótico e falaz tem sido o maior tirano da Humanidade, indo contrariar a toda a linha o espírito de Fraternidade Humana presente em todos os livros santos do Mundo.

São vários os símbolos identificativos dos atributos de Shiva. Iconograficamente, é representado como um belo mancebo em veneranda postura ascética de Yogui, imerso em profunda meditação mergulhado no Samadhi ou Êxtase Supremo como o estado mais elevado da Yoga, ou seja, o da Consciência Divina que Ele traz do Nirvana ou Mundo Informe à Terra, o Mundo das Formas. A asana com que Shiva se apresenta é a siddâsana, a “postura do Adepto”, semelhante à padmâsana, a “postura do lótus”. O mudra ou gesto místico que exibe com a mão direita, é o abhaya-mudra, expressando a intrepidez necessária à Libertação Espiritual. Os três dedos de ambas as mãos apontando acima e abaixo, designam-o Senhor da Céu e da Terra, o Vencedor dos sentidos humanos e respectos elementos sensoriais. É, enfim, o Grande Liberto.

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Veste uma toga de pele de tigre e sobre a pele deste animal está sentado. Troféu de Shiva, representa a sua Shakti por Ele dominada, tornando-se assim a montada do Imortal como força da Fé, do esforço espiritual, atravessando incólume a selva dos pecados. Por o tigre ser animal caçador, é também o símbolo da casta guerreira – Kshatriya. E se Kshatriya igualmente vale por Jina da Arca ou Agharta, eis aí Shiva tradicionalmente retratado no interior de uma gruta, evoco anacorético do Guardião das Embocaduras para aos Mundos Interditos dos Deuses que firmam a Luz Absoluta no Mundo. Nisto, vale adiantar, repetindo, que a última parte do Shiva-Maha-Purana é dedicada à descida de Sanat Kumara e sua Hoste de Devas desde Vénus (Shukra) ao interior da Terra (Bhumi). De Sanat Kumara posto em relação com o significado do abhaya-mudra e do tigre, o Vivekachudamani também diz:

“Permanecendo firme no Eterno, não permita o discípulo, em momento algum, a perda do autocontrole, porque a negligência é morte, mas palavras do Mestre Sanat Kumara.”

Outro objecto de Shiva é o tridente (trishula). Simboliza tanto o trikala ou “tempo tríplice” (passado – presente – futuro) afim aos três Mundos Divino – Celeste – Terrestre, quanto as três “qualidades subtis de matéria” (gunas, em sânscrito, literalmente “cordas”), SatvaRajasTamas, como sejam a energia centrífuga, a energia rítmica ou equilibrante e a energia centrípeta. O trikala revela-se levantando três dedos da mão direita num mudra denominado trishulahastra, a “bênção sacerdotal”, com que se designa a Trimurti ou Trindade Divina na Terra rematada por Shri Shiva.

O tridente também é visto como símbolo da “jóia tríplice” (triratna), idenficando-o à corrente tríplice de energia flogística fluindo pela coluna espinhal do Homem: sushumna ao centro tendo dos lados ida e pingala, que ao acercarem-se da corrente central evocam o enroscamento dos nadhis ou correntes vitais em torno do eixo.

Sendo símbolo lunissolar, o tridente acerca-se do formato da flor-de-lis indicativa tanto da Consciência Universal quanro da Realeza Divina de Sanat Kumara, o Rei do Mundo como o mesmíssimo Chakravarti hindu-tibetano, de funções similares às do Melkitsedek judaico-cristão. Aliás, como ilustração das páginas do Maha-Shiva-Purana invés do tridente aparece exactamente a flor-de-lis, que o Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, identificou como Lótus Sagrado de Agharta.

Iconograficamente, como diadema e brincos Shiva exibe quatro luas, e isto traz à memória aquelas palavras maravilhosas nas inscrições lapidares de Somnath-Patane, Índia, que no século XVI D. João de Castro trouxe para a sua Quinta da Penha Verde em Sintra, já de si a tradicional “Serra da Lua”:

“O Deus Shiva, que nos mostra parte da sua cabeça resplandecente com o brilho da Lua de que está ornado, tem a mão posta sobre uma fiada de folhas de almiscar, as quais cobrem uma parte do coração de Parvati, como se esta estivesse sobre um tapete de flores de lótus.

“O Deus Ganesha vos conceda muita felicidade, riqueza e paz. Ganesha é a alegria dos três Mundos, é filho de Maha-Deva, é formoso com esse único dente que mostra, é o causador do júbilo de Kapardi, e é quem nos livra de todo o mal.”

Penha Verde

Kapardi, um dos nomes de Shiva, deriva do sânscrito kapárd, “trunfa de cabelos”, e efectivamente o Deus apresenta-se com um alto penteado sinalético da abundância e da força, elementos presentes no Hércules grego e no Sansão semita.

Na Cosmologia hindu, a Lua indica o Caminho de Descenso do Espírito à Matéria (Pitri-Yana), na qual as Mónadas Humanas manifestadas ficam sob a rigorosa influência de Chandra, filha da Terra, e para encetaram o seu volvimento ao Sol ou Caminho de Ascenso da Matéria ao Espírito (Deva-Yana) necessitam que as suas formas grosseiras de manifestação se dissolvam na esfera lunar do Plano Etérico e sem se deixarem paralisar no mesmo, nisto intervindo o papel transformador de Shiva, Senhor das Libações assinaladas no crescente lunar.

Também o touro branco anda associada à montada tradicional de Shiva, simbolizando a sua Shakti Parvati, assim mesma aparecendo em inúmeras ilustrações. Indicativo da Força Criadora da Matéria, Mater-Rhea ou Mãe-Terra, Nandi, o touro de Shiva, igualmente assinala a Coragem e a Justiça. Como tal, é branco, nobre; a sua corcova evoca a montanha nevada de Kailasa. Também representa a energia sexual, e montar o touro, como faz Shiva, é já dominar e transmutar essa mesma energia física em força mental ou espiritual. Assim e em suma, cabe-lhe simbolizar o Dharma, a Ordem Cósmica, e por isso se diz ser ele insondável.

Emblema libatório incontestável de Shiva é o Linga ou “Signo”. Expressivo da Força Motriz Masculina (Kartri), só o consegue ser quando está unido ao Yoni ou “Matriz” de Parvati, expressiva da Força Criadora Feminina (Shakti). O Yoni é o altar, a cuba que cerca o Linga (com características e funções idênticas às do bétilo ou “pedra sagrada” dos proto-semitas na qual se encerrava um “deus” ou génio tutelar), sendo o receptáculo do sémen representado pelo leite de vaca derramado sobre a pedra erecta. A base do Linga, escondida no pedestal, é quadrada, a parte mediana é octogonal e a parte superior é cilíndrica. Correspondem, respectivamente, a Shiva, Vishnu e Brahma, e assim mesmo aos Mundos Divino, Celeste e Terrestre, este sob a guarda de Rudra, um dos nomes do Deus aqui abordado.

Shivalinga

Em diversos templos (pagodes) shaivas o Linga central é cercado por sete Lingas secundários, indo corresponder aos oito atributos (astamurti) de Shiva e aos pontos cardeais e secundários, assim como aos oito desígnios (graha) emanados de Surya – o Logos do Sol. Este não é o único caso em que Shiva, geralmente associado à Lua, assume um papel efectivamente solar, porque, vendo bem, juntamente com Parvati Ele é lunissolar.

Outro simbolismo axial: no Yôga, no meio do Centro Vital Raiz (Chakra-Muladhara) que corresponde a Yoni, é visualizado um Linga luminoso no qual se enrosca a serpente iridescente de Kundalini, a Energia Electromagética da Terra. Esse Linga expressa o Poder do Conhecimento; a união do Linga e de Yoni gera a Sabedoria Universal, representada em Ganesha e no Vishnu-Trikuna, o hexalfa ou estrela de seis pontas, produto do entrosamento dos triângulos masculino (vertido) e feminino (invertido). Ao longo da experiência yogui, o fogo ascendendo pela coluna vertebral vai transformando-se em luz até ao topo da cabeça (Chakra-Sahasrara) indo além dela: dá-se a identificação ao Supremo Shivalinga, confirmador da Realeza Divina de todo o Iluminado em que tempo e lugar seja, acontecimento algo semelhante à realização bíblica do Pentecostes.

A grande festa consagrada a Shiva é a Shivaratri ou Maha-Shivaratri. Recai a 27 de Fevereiro, ou melhor, no 14.º dia do mês de Magha (entre Janeiro e Fevereiro no calendário gregoriano), quando a Lua Cheia está próxima do asterismo de Magh (Janeiro-Fevereiro) e o Sol entra no signo de Capricórnio (Makara ou Kumara). A Shivaratri é, pois, uma festa móvel.

Nesse dia e noite não se pode dormir, beber nem comer; a mais rigorosa vigília e o mais rigoroso jejum são exigidos. De três em três horas, de dia e de noite, oferecem-se pujas (orações) a Shiva, e todas as castas, inclusive as mulheres, se juntam na adoração ao Shivalinga. Frente a este, os vários nomes de Shri Shiva são repetidos e a cada mantram coloca-se um folha de bilva (margosa, tipo hortelã-pimenta) sobre ele. Nesse dia e nessa noite, o Linga é banhado com leite de vaca e adornado com as melhores jóias do pagode ou templo.

Dessa maneira, a celebração do Shivalinga torna-se a da elevação da Matéria ao Espírito, consequentemente, da iluminação espiritual dos crentes, facto representado na iluminação dos Nagas possuidores dos 8 Poderes de Kundalini, representada pela serpente real (naja) de oito anéis.

sidasana

Trata-se, enfim, da conquista da Consciência Solar, Divina, a partir da Terrena, Humana, o que me leva a encerrar com as seguintes palavras do Isa-Upanishad:

“A face da Verdade mentém-se oculta por detrás der um círculo de ouro. Desvenda-a, ó Deus da Luz, para que eu, que amo o Verdadeiro, a possa contemplar!

“Ó Sol, dador de Vida, produto do Senhor da Criação, profeta solitário dos céus! Derrama a Tua luz e retira o esplendor que cega, para que eu possa ver a Tua forma exultante: esse Espírito longínquo que está dentro de Ti é também o meu mais interior Espírito.

“Pelo caminho do bem conduz-me à Bem-Aventurança final, ó Fogo Divino, Tu, Deus, que conheces todos os caminhos. Livra-me de vaguear pelos mais caminhos. Prece e adoração ofereço a Ti.”

OM SHANTI!

(PAX UNIVERSAL)

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