Fernando, que Pessoa? Um caso clínico ou um acaso génio? – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Dez 23 2015 

Lisboa, 2007

Fernando a Pessoa de andar saltitante e nervoso dobra em três passos incertos e velozes a esquina do Chiado de Lisboa e sibilino desaparece algures na cidade, talvez a caminho do Martinho da Arcada, talvez para as bandas da Gare Central, aquela onde está o D. Sebastião à entrada, para tomar o comboio que o leve ao xadrez serrano e paradisíaco de Sintra!… Maneira de deslocar-se, entre o calmo e o inquieto, o devagar e o veloz, numa mudança súbita de humor interior, revela o psíquico potencial, o que lida mais com as coisas do Espírito para maior desprazer das coisas da matéria, para ele simples objectos de prazer e de ilusão efêmeros. Os seus olhos, brilhando inquietos, falam do que lhe vai dentro, do ardor de génio que o consome sem parar. O seu corpo alto e delgado, quase seco mas tendendo a engordar nos últimos anos de vida, as suas mãos de intuitivo potencial, de dedos finos e longos, o trejeito tímido e desajeitado que nunca olhava as pessoas de frente, tudo isso revela psicologicamente os traços do Homem Psicomental em potência e integralidade, ou seja, o Jina, o escritor iluminado pela barda e profética Voz da Intuição, tendo feita da pena uma espada sagrada e do papel um campo de lide, onde a Verdade impressa se oculta sob o véu diáfano da aparente «fantasia» do poeta.

Todo ele [re]velava a discreta compostura de quem vive plenamente a intensidade da disciplina interior, esotérica, autoimposta por necessidade de Perfeição e não por qualquer moralista imposição religiosa.

Foi esse esoterismo que reflectiu na sua vasta obra feita além, muito além, das posteriores catalogações intelectualmente preconceituosas, subversivas e surrealistas dos autoassumidos «especialistas pessoanos», indo complicar o que não era complicado, indo interpretar e firmar tese aquilo que, afinal, foi inteiramente estranho ao poeta e à sua intenção. Esses líteros e intelectuais, repletos de manias e preconceitos, envergonhados de assumir a vida simples do poeta e que nela o mistério é constante e fala a Lisboa dos pregões, das tabernas de má fama, de quem passou fome e só não morreu dela porque os amigos não deixaram, acabam dando a perceber que a fama pública de que gozam como «inteligências pessoanas», de barriguinha cheia e bem vestidos, saltitando de festa para festa de jet-set e achando piroso que os menos favorecidos pela vida andem de saco de plástico na mão por ser sinal de mediocridade – esquecendo que talvez ou certamente esses não tenham posses para adquirir sacos ou maletas mais condignas às marcas da moda do momento –, revela-os, ao contrário das aparências, “os maiores inimigos de Fernando Pessoa”, como desabafava na minha presença, há alguns anos atrás em sua casa de Estremoz, o professor António Telmo (falecido em 21 de Agosto de 2010).

Enquanto esse tipo de críticos se autossatisfaz com a sua «intelectualidade superior», os demais observam-nos sem perceber patavina do que pretendem dizer e onde afinal querem chegar, tal o uso e abuso de um vocabulário forçado e inventado no momento, dando ares surrealistas e abstractos ao que é bem real e concreto, simples em si mesmo, e por isso considero tais atitudes anacrónicas tão-só marketing de autopromoção pessoal à custa do nome e obra de Fernando Pessoa.

De maneira que “o Pessoa como moda é uma característica deste tipo de sociedade e deste tipo de informação”, disse Pedro Teixeira da Mota ao semanário Expresso (sábado, 4 de Junho de 1988), adiantando Yvette Centeno na mesma reportagem: “Fala-se hoje de usar óculos `à Pessoa´, mas também há `cintos à Elvis´. Quando alguém de repente cai na moda e os `media´ tomam conta desse alguém, a dita figura automaticamente se banaliza e comercializa. É óbvio que agora, por altura do centenário, se alguém resolver produzir t-shirts ou camisas com a figura do Pessoa elas se venderão às centenas, mas se as fizerem com o carimbo do Eusébio vendem-se na mesma. São fenómenos que têm a ver com o típico da vida moderna, que é o de facilmente banalizar e comercializar as suas estrelas. Mas isso nada tem a ver com a profundidade ou a genialidade da obra”.

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13.6.1888 - Lisboa, 30.11.1935)

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13.6.1888 – Lisboa, 30.11.1935)

Deve-se ao moderno fenómeno psicossocial do consumismo e uso fácil para que após utilizado seja facilmente esquecido, a visão anacrónica, se não mesmo falaz, dada ao poeta, à sua vida e à sua obra, de quem a maioria desses «especialistas» revela-se completamente ausente de veracidade ou realidade da mesma, isto tanto para Fernando Pessoa como também para outros personagens da nossa História (Afonso Henriques, Luís de Camões, D. Manuel I, etc.). Falta-lhes o Espírito, que é tudo. Foi por isso que num concurso televisivo, no início de 2007, todos os personagens da História de Portugal – de que hoje em dia cada vez se sabe menos, mas se sabe cada vez mais de ficções novelísticas e de concursos medíocres impostos pelos meios audiovisuais brutalizando, petrificando ou estupidificando a mente colectiva, mantendo-a arredada da reflexão sobre o sentido verdadeiro do por que existe – perderam a favor da vitória do dr. António Oliveira Salazar, que lhe foi dada pelos votos públicos de alguns milhares de cidadãos. Seriam todos salazaristas? Não creio. Mas creio que todos exerceram o voto de protesto ao estado caótico em que está a sociedade portuguesa, onde os dirigentes políticos e todos os respectivos partidos políticos, em nome da democracia constantemente exercida como “bur[r]ocracia” e “abusocracia”, desprezam o povo, arrogantes atiram-no no desemprego, condenando-o à fome e à miséria, ameaçam com o despedimento os que ainda têm emprego e crivam-nos de impostos sobre impostos à boa maneira feudal, parecendo mesmo querer reduzi-los à condição de escravos sem quaisquer direitos, achando um abuso  terem férias e até receberem salário, como transparece nos seus subentendidos, ou seja, roubam-lhes da boca o pão nosso de cada dia para encherem as suas e as dos seus, sempre insaciáveis como Moloch, sempre querendo mais e mais; fecham hospitais e maternidades, obrigam os pobres a pagar o que não têm quando têm a infelicidade de adoecer; cobram impostos absurdos e desumanos à velhice nos seus últimos dias, aos pais que oferecem prendas aos filhos, acirram os filhos a denunciar os pais; os alunos contra os professores, roubam a autoridade aos adultos e dão-na aos meninos, não raro soltando criminosos e condenando quem os prendeu; condenam o fumo do tabaco e promovem as drogas «leves» dando subsídios a quem prove ser toxicodependente, assim alimentando a perpetuidade do seu vício; e neste caos satânico, anarquia campeando, sonham sempre com empreendimentos megalómanos, para que por eles os seus nomes fiquem imortalizados no meio da miséria geral que semearam. Até quando este estado caótico das coisas?… Realmente é bem verdade que “quem nasce em Portugal é por missão ou castigo”, mas, Senhor, não bastará já de tanto castigo? Até quando permitirás, Senhor, que os lobos assassinos continuem a devorar os cordeiros inocentes? Onde está o Pastor, guia e protector do seu rebanho? Que liberdade podre é esta?! Que libertinismo desvairado corre ao jorros no mais que estropiado tecido psicossocial…

Moderno «problema socrático» insolúvel? Não, antes questão de Vida e Morte: carece-se da mudança de mentalidade, de uma verdadeira revolução mental a favor de novos e mais amplos valores e hábitos que façam o Homem mais Homem e Deus mais Deus, acabando-se de vez com tudo quanto tenha a ver com um ciclo velho, podre e gasto. Em suma e para afastar de vez algum desses tipos de rótulo político, useiro e vezeiro, que alguns sintam necessidade de atribuir-me para desculpabilizar a indignidade desumana dos seus actos, seja à «esquerda» ou à «direita», logo parcelares e não totais: tudo pela Sinarquia, nada pela Anarquia!

Liberdade também para taxar Fernando Pessoa com as maiores displicências mas que só podem caber a quem as emite. Repete-se, mais uma vez, a história de São Germano e Cagliostro. Depois de desaparecidos, urge raivosa a torrente difamatória vomitando impropérios muitíssimo abaixo da crítica, o que leva a exclamar: – Aprés moi le déluge!

A obra escrita de Fernando Pessoa assenta toda ela em bases ocultistas, que não foram um interesse lúdico e passageiro na sua vida, antes permanentemente assumido em toda a sua existência. Esse equívoco deve-se à carência atroz de informação e formação dos “media” e «especialistas pessoanos» sobre o que seja o Ocultismo – que não é, nem aproximadamente, ciências divinatórias de feirantes que “volta sim e volta sim” aparecem nos jornais e nas televisões contribuindo para o aumento da ignorância, da superstição e do autismo espiritual, como se observa no flagrante do fenómeno psicossocial urbano de «new age», antes e em termos clínicos, “paranóia mística” mista de ingenuidade, superstição e irracionalidade, sempre teimando em “construir a casa pelo telhado”, com cujos simpatizantes, isto confirmei inúmeras vezes, é quase ou mesmo impossível dialogar, tal o estado de alucinação psicomental de quem prefere o facilitismo do que já se publicou e é público, ao esforço nobre da conquista, mas nada sabendo de Ordens Iniciáticas, das suas Egrégoras e dos Mistérios Divinos que encerram e resguardam dos desatentos e despreparados física e psicomentalmente, para que não profanem o Sagrado com a sua ingenuidade não raro deprimente ante a verdadeira Espiritualidade, ao pretenderem saltar degraus na Evolução avante e, não raro com vaidade, encapotada ou desvelada, ainda por cima julgarem sábias e perfeitas as suas noções delirantes apostas de qualquer Ordem e Regra. Os que andaram na escola primária ou no liceu, acaso também terão e sem mais passado subitamente da 1.ª para a 4.ª classe, assimilando tudo de uma assentada sem qualquer disciplina mental e física? É, de facto, muito constrangedor… mas a Lei Suprema se encarregará de ir refreando tais precipitações indisciplinadas que, de momento, nem sequer é possível apontar fraternalmente a quem delas é acometido. Também nisto o caos e a anarquia campeiam, e também nisto repito o lema de Henrique José de Souza (JHS) que adopto como se fosse meu: tudo pela Sinarquia, nada pela Anarquia!

Neste enquadramento bestial próprio de um ciclo mais que podre e gasto onde tudo de mau e pior é passível de aparecer, há uns anos atrás não deixou de ter o seu momento na ribalta pública certo senhor Mário Saraiva, médico psiquiatra arvorado «especialista pessoano», e com esta pretensão  deu-se ao diagnóstico psiquiátrico desse mais alto baluarte contemporâneo da Literatura Portuguesa e, inclusive, do Ocultismo Nacional, que foi Fernando Pessoa. O pasquim – que outro nome não merece – que escreveu e editou, O caso clínico de Fernando Pessoa (Edições Referendo, Lisboa, 1990), anda hoje quase esquecido do leitorado geral mas não o seu conteúdo, aliás, aceite e defendido por muitos «especialistas» que sempre temeram um confronto televisivo comigo, vá-se lá saber por que… Para um materialista convicto, mistura de psiquiatra com várias outras coisas que a oportunidade traz  e se revela oportunismo, antes de tudo o mais tenho a declarar o seguinte: é completamente impossível a um profano fazer o diagnóstico clínico de um Iniciado!

É o próprio Fernando Pessoa quem o diz: “Os psiquiatras sabem (às vezes) como trabalha o espírito doente, mas não como trabalha o espírito são” (in Fernando Pessoa Aforismo e Afins, edição e prefácio de Richard Zenith. Editora Assírio & Alvim, Lisboa).

O carácter do Iniciado é algo muito distinto e profundo que só a Psicologia Esotérica – ou seja, aquela manipulada por alguém conhecedor dos mistérios ocultos da natureza humana – pode dar resposta satisfatória, isto porque ele move-se nas camadas superiores do Pensamento e obedece às regras de uma conduta que poderei chamar de Dever Universal, ou o Dharma no seu sentido mais lato, para com a evolução da Vida e da Consciência. Disciplina que constrói o Espírito, eleva a Alma e faz sábio o Corpo (os sentidos) através das experiências colhidas nas agruras quotidianas que são as provas kármicas, os “escolhos” no Caminho da Verdadeira Iniciação, onde a criatura que o cursa busca cada vez mais a Perfeição de Ser, e cada vez mais o é.

“O esforço é grande e o homem é pequeno.

 A alma é divina e a obra é imperfeita.”

Mensagem in “Padrão”

O facto de taxar Fernando Pessoa de “mórbido, paranóico, homossexual”, etc., o senhor psiquiatra – entretanto já falecido – parece transmitir por fenómeno mórbido e inconsciente os seus próprios males, isto por o seu quod reflectir a quantidade no quid essencial mas desconhecido do analisado ausente, assim supondo e pressupondo mas nunca certeiro e com certeza.

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De maneira que há uma consciência física (quod) e outra psíquica (quid), uma de vigília e outra de sonho. Como geralmente as duas consciências estão desarmonizadas ou desencontradas entre si, é raro ter-se a lembrança nítida do sonho vivido. Apenas se sabe que sonhou. Mas que se sonhou? Há uma ideia nebulosa dos acontecimentos que se passaram em sonho ou que foram vivenciados na consciência psíquica. O subconsciente fica como um ecrã de televisão descontrolado. O desajuste desses dois tipos de consciência traz à criatura humana muita angústia. Ela vive psiquicamente torturada, cheia de problemas. Faz de todo o acto «bicho de sete cabeças», coisas monstruosas, vive imaginando dificuldades que não existem. Antes de tomar uma atitude positiva, vê na sua frente muitas muralhas que imagina estarem ali para a dificultar. De uma coisa simples promove uma tempestade. Está sempre desanimada, é depressiva e neurótica, o intelecto não lhe dá a satisfação completa e vem a neurastenia e a paranóia. Eis o retrato, evidentemente com as devidas e honrosas excepções, da maioria dos «intelectuais pessoanos».

O corpo físico humano não é perfeito: possui lesões, deficiências, carências, intolerâncias, cicatrizes, atrofias e hipertrofias de órgãos, má circulação, enfim, uma série de anomalias causadoras de distúrbios psicossomáticos, de grandes desequilíbrios orgânicos. Os médicos indicam os medicamentos que vão ajustar as disfunções orgânicas, e, de modo análogo, acontece o mesmo às almas imperfeitas com as suas consciências física e psíquica desajustadas, cabendo aos psicólogos e aos psiquiatras, com conhecimento verdadeiro do mecanismo oculto da Alma, Anima ou Vida, fazerem as funções dos medicamentos nesse ajuste consciencial. Com efeito, esse é um estudo importante para compreender, isentado dos erros oriundos dos preconceitos da personalidade, a vida biológica e psicomental dos Iniciados.

A consciência psíquica do ser humano começa a ser deformada, ferida, triturada logo na infância, mantendo-se a infecção psicomental pela vida afora. Muitas vezes torna-se doença crónica e acontecem as neuroses. Recorre-se ao psicólogo, ao psiquiatra ou ao psicanalista, mas como por norma este não é Iniciado, age sobre o cérebro e não sobre o mental, cura o efeito com o efeito e como a causa se mantém, a doença mental também. De maneira que o paciente melhora mas não fica sanado, e vez por outra sobrevém nova crise, e assim até à morte, doente toda a vida, do berço ao túmulo, sem que a cura seja descoberta por se desprezar o Espírito e confundir o mecanismo físico cerebral com o mental subtil que por ele age.

Essa foi a razão mais que suficiente para René Guénon (in Formas Tradicionais e Ciclos Cósmicos) afirmar com muitíssima propriedade: “[…] a psicanálise inverte as relações normais do “consciente” e do “subconsciente”, como também se apresenta, em muitos aspectos, como uma espécie de “religião invertida”, o que demonstra em que fonte pode estar inspirada, e a função pedagógica que pretende desempenhar e a sua infiltração nos diversos métodos chamados de “nova educação”, também são algo bastante significativo…”.

Nesse sentido, uma Escola Iniciática verdadeira, com verdadeiros dirigentes espirituais à dianteira, colocando os interesses da Humanidade acima dos seus, assim não correndo o risco de se tornar uma Escola Negra ambicionando o poder do mundo e a soberania sobre as mentes humanas, dizia, nesse sentido uma Escola Iniciática poderá ser comparada a um “Hospital Psiquiátrico” onde se cura a enfermidade da alma humana.

Todas as Escolas Iniciáticas verdadeiras, credenciadas pela Tradição Iniciática das Idades de quem são fiéis depositárias, têm por finalidade precípua curar a enfermidade psicomental dos que a elas chegam e se tornam discípulos evoluindo através dos seus Graus, dos seus diversos tipos de Iniciação e pelos vários modos que os conduzem diante do Altar de Deus.

De maneira que não há Colégio de Iniciação que não advogue junto dos seus afiliados o exercício físico de práticas de cariz psicomental e espiritual, de maneira a realinharem as diversas expressões da consciência indo conhecer-se a si mesmos e, gradualmente, despertando sentidos e sensações que jamais pensaram haver neles. Este é o objectivo da meditação e de toda a praxes estipulada ao Sanctum privado de um e de todos esses afiliados. A inibição do exercício regular do mesmo inevitavelmente arrastará à dúvida e suspeição face ao imediatismo das coisas; nem poderia acontecer de outra maneira, posto tratar-se da descoberta última de si mesmo e consequentemente dos Mistérios da Natureza. E isto é a verdadeira Iniciação.

A constituição física comum possui os micróbios orgânicos, enquanto a alma tem os seus miasmas psíquicos, de natureza análoga à dos micróbios, os quais devoram e destroem essa mesma alma psicomental, ou seja, a personalidade tanto dos discípulos como de qualquer criatura humana.

O desajuste da personalidade, a neurose, a hidrofobia e a hipocondria – pode-se dizer sem receio de errar – são contagiosas e não raro carecem de isolamento. Donde o provérbio popular dizer: “Uma má ovelha perde todo o rebanho”. Assim também quando numa colectividade há uma ou mais pessoas desajustadas, toda ela não vive em paz. Por isso, disse Aurobindo: “A infelicidade humana é uma questão de desequilíbrio”.

Henrique José de Souza (JHS), afirmou: “Cada um nasce na família com a qual tem afinidades ou qualquer ligação kármica”. Se o discípulo desequilibrar a sua vida cometendo actos contrários à Lei da Evolução, ao Perfeito Equilíbrio, tem necessariamente de nascer em uma família desajustada, para que pela Iniciação possa ajustar-se e igualmente ajustá-la. Nesses casos a Lei do Karma, ou da Causa e Efeito, é severa.

Henrique José de Souza (1883 - 1963)

Henrique José de Souza (1883 – 1963)

Qual a terapêutica usada por JHS a fim de ajustar os seus discípulos? Utilizou o método natural ou eubiótico de simbiose harmónica do Homem consigo mesmo e o seu semelhante, da Humanidade com a Terra e da Terra com o Universo. Para auxiliar nesse trabalho de Iniciação Verdadeira outorgou aos seus discípulos Mantrans, Visualizações, Formas-Pensamento, Yogas especiais, Rituais, Revelações (Conhecimentos do Futuro) e, não raro, aconselhando-os a trabalhar sempre pelo Mundo, e sempre recomendando a autocrítica. Por Lei ou por efeito da Lei é que se diz comumente: “os semelhantes atraem os semelhantes”, logo, os desajustados atraem os desajustados e os ajustados atraem os ajustados. Por via de regra, os desajustados se unem para dar combate aos ajustados. Desse desajuste universal é que surgiu a eterna luta entre magos brancos e magos negros, a qual vem atravessando os milénios feitos de séculos infindos.

Sem dúvida que os desajustados temem a Verdade, por terem pavor de A contemplar face a face. O que é o mago negro? É o mago branco desajustado. Quando a sua estrutura psíquica é invadida por grande quantidade de miasmas, acontece a doença da neurose e até a loucura. Esta pode ser encapotada por sanidade aparente, mas as palavras e actos de quem a carrega acabam denunciando a sua presença. É assim que se vêem «canalizadores cósmicos», «reikis siderais», «conspiradores extraterrestres» e outras coisas mais e más do género à solta por não haver, afinal de contas, quem tenha mão nesses pobres de espírito e piedosamente os conduza ao internato clínico a fim de serem tratados, visto a alucinação mística em tempo algum ser sinónima de Iluminação Espiritual. Ademais, a maioria dessa literatura notoriamente esquizofrénica e paranóica, delirante, insere-se em um dos tratamentos psiquiátricos advogados aos doentes neuro-depressivos: que escrevam ou pintem, para assim desenvolverem, exteriorizarem as suas capacidades psicomentais e psicomotoras e superarem os estados de neurose depressiva. Faz parte do tratamento, não têm outra valia nem utilidade senão essa. Jamais um médico irá pensar que o seu doente é um escritor ou um pintor… e jamais um escritor ou um pintor de facto pensarão estar a lidar com os seus pares, sempre que deparam com redacções grotescas e desenhos infantis vazados no moderno meio de comunicação virtual chamado internet.

É necessário compreender o por que das fantasias delirantes assumidas realidades extraordinárias por certas pessoas que, umas mais que as outras, fazem fé piamente nelas, no produto do seu subconsciente. É por isso que se torna necessário entender o mecanismo da consciência física a qual, nesses casos, está em choque ou atrito com a consciência psíquica, sendo que no homem comum a inteligência imediata é o produto resultante das suas emoções e pensamentos, o que se chama consciência psicomental ou, em bom sânscrito, kama-manásica. Por esta razão é que o cérebro, com a sua semi-consciência orgânica, só age após estimulado por imagens provindas do veículo emocional, nascidas de ideias suscitadas pelo corpo mental. Os três interagem quase em simultâneo. A consciência física dota-se de algumas propriedades específicas, as quais passo descrever:

1.ª – Dispõe de grande autonomia.

2.ª – Parece incapaz de apanhar uma ideia excepto sob a forma em que ela mesma seja a autora, donde resulta que todos os estímulos que provenham do exterior ou do interior sejam imediatamente traduzidos em imagens. É incapaz de apanhar as ideias abstractas, as quais ela transforma logo em percepções imaginárias.

3.ª – Todo o pensamento dirigido para qualquer lugar afastado torna-se para ela um deslocamento para esse lugar. Por exemplo, um pensamento sobre a Grécia transporta imediatamente a consciência em imaginação para a Grécia.

4.ª – Não tem nenhum poder de julgar a sequência, o valor ou a realidade objectiva das imagens que lhe aparecem. Ela aceita-as como se apresentam e jamais se surpreende com o que lhe acontece, por mais absurdo que seja.

5.ª – Acha-se submetida à associação de ideias, e por isso uma série de imagens sem outro laço que a sua associação no tempo, pode baralhá-las dando como resultado a mais espantosa confusão.

6.ª – É singularmente sensível às mais fracas influências exteriores, tais como os sons e os contactos.

7.ª – Tem a propensão para aumentar e deformar as ideias, em proporções enormes.

É assim, pois, que o cérebro físico é capaz de levar à confusão, ao exagero tanto no estado de vigília como no de sono com sonhos. Quando em estado de vigília, o cérebro é afectado por todo o tipo de pensamentos provindos do exterior, mas quando se dorme essa influência é ainda maior, pois a parte etérica do cérebro é muito mais sensível que o órgão físico em si mesmo, assim dominando o cérebro “paralisado” ou “desligado” do estado imediato. Todo o pensamento errante que se acha no cérebro do adormecido, qualquer coisa que esteja em harmonia ou simpatia com ele, com as suas apetências pessoais, aloja-se no cérebro e põe em movimento toda uma série de ideias e de imagens não raro desencontradas, logo desconexas, e por isso um homem de cérebro não controlado está sujeito, quando dorme, a todo o tipo de influências que não o atingiriam se o Espírito controlasse o cérebro.

Composição geral do cérebro humano

Composição geral do cérebro humano

A enfermidade psíquica – onde o foro psiquiátrico deve agir com conhecimento exacto das causas provocadoras dos efeitos – traduz-se por conflito interior, dor de consciência, sofrimentos morais, sentimento de culpa, o martelar constante da consciência inquieta. A cura dela será evidentemente o ajuste, o equilíbrio das duas consciências física e psíquica que irá promover a paz interior e a consequente cura psicomental, não esquecendo a física. Neste ponto do equilíbrio consciencial começa então a funcionar a razão pura, a ponderação, a madureza e a maturidade psicofísica.

Voltando ao facto de quão tenebrosos são certos movimentos psicanalistas de cunho e alcunha “trilógica, dianética, etc.”, muito aparentados a hodiernas seitas carismáticas ditas “igrejas universais”, lembro que os seus métodos são muito semelhantes aos que foram utilizados contra Helena Petrovna Blavatsky na América do Norte e na Índia pelos missionários evangélicos, os metodistas e os jesuítas, visto os modelos metodológicos desses servirem agora ao modus operante dos modernos movimentos psicanalíticos convertidos em novas “religiões”, mexendo directamente com aquilo que é mais sensível à criatura humana: o sistema endócrino-cerebral, a ponto de destruírem-lhe completamente as defesas psicossomáticas, e isso é pura magia negra aberta e descarada. Sim, porque dominando a mente humana dominam o mundo!

A psicanálise sem qualquer base verdadeiramente espiritual acaba sendo, sob o encapotado de cura clínica ou médica, vampirizadora da psique individual e colectiva, tema que remeto à consideração avalizada de René Guénon, no capítulo 34 do seu livro O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos:

“… Fazendo apelo ao “subconsciente”, a psicologia, tal como a “filosofia nova”, tende cada vez mais a juntar-se à “metapsíquica”; e, na mesma medida, aproxima-se inevitavelmente (…) do espiritismo e de outras coisas mais ou menos semelhantes, todas apoiadas nos mesmos elementos obscuros do psiquismo inferior.

“… Os psicanalistas podem naturalmente, na maior parte dos casos, estar tão inconscientes como os espíritas sobre aquilo que se encontra por detrás disso tudo; (…) uns e outros são “levados” por uma vontade subversiva (…) e corresponde às intenções, sem dúvida diferentes, de tudo o que podem imaginar aqueles que são os instrumentos inconscientes pelos quais se exerce a sua acção.

“Nessas condições (…) o (…) uso da psicanálise (…) é extremamente perigoso para aqueles que a ela se submetem, e até para os que a exercem, porque estas coisas são daquelas que nunca se manipulam impunemente; não seria exagerado ver nela um dos meios especialmente utilizados para aumentar o mais possível o desequilíbrio do mundo moderno.

“Falamos em “falsificação”, esta impressão é grandemente reforçada por outras constatações, como a desnaturação do simbolismo (…), desnaturação que tende, aliás, a   estender-se a tudo o que comporta essencialmente elementos “supra-humanos”, tal como mostra a atitude a respeito da religião e até de doutrinas de ordem metafísica e iniciática (…), que também não escapam a esse género de interpretação, a tal ponto que alguns chegam mesmo a assimilar os seus métodos de “realização” espiritual aos processos (…) da psicanálise.”

A desnaturação do simbolismo sagrado trata de levar para estados psicológicos imediatos, misto de oníricos e lúdicos, assim como para a adulteração ou perversão da condição vivente puramente espiritual de santos, sábios e até de preceitos de ordem estritamente iniciática, logo, espiritual, reduzindo-a a «fantasia poética» que procura justificação nos mesmos estados oníricos e lúdicos, a despeito tal simbolismo sagrado e vivência espiritual serem completamente alheios a quaisquer e controversas análises neurológicas com presunção de diagnosticar o comportamento da colectividade, do indivíduo e das coisas, a começar pelas sagradas (a psicanálise resume-se a isso); indivíduo que ela, psicanálise manceba da psiquiatria, considera um doente contínuo cingido a traumas sexuais ocorridos na infância arrastando-se pela vida afora (sendo os seus sonhos e ambições a chave da interpretação do “estado imediato” do mesmo), e por isso, ainda para ela, a psicanálise, ele, o “doente contínuo”, não raro procura a “solução ao seu estado mórbido” na “cura pela religião”, logo assumindo a novel e retumbante “paranóia erótico-religiosa”, ficando ainda “mais doente” do que já estava. É assim, dizia, que a Tradição Universal, Divina, e até mesmo qualquer tradição religiosa local, popular, são disformadas numa crença francamente subversiva, satânica. Portanto, caríssimo leitor, sugiro acautelar-se ante o que lhe oferecem, porque “quando a esmola é grande o pobre desconfia”: a trevas são mais insinuantes que a Luz!

Voltando a Fernando Pessoa, pois que tudo o dito anda à volta dele, a sua natureza tímida e reservada abstinha-o no plano imediato das multidões e dos convívios de salão entre distintos e famosos (hoje chamar-se-ia jet-set), mas para todos quantos em Lisboa o conheceram na “Brasileira do Chiado”, no “Nicola”, no “Martinho da Arcada”, em Cascais ou em Sintra, ele era um Mestre de Pensamento, um homem lúcido, ponderado, calmo, entendedor da natureza humana e, sobretudo, o Iniciado por excelência. A comprovar isso tem-se os testemunhos directos dos que com ele conviveram, dentre muitos outros João Gaspar Simões, Costa Brochado, Almada Negreiros e Agostinho da Silva, mas também os testemunhos fidedignos de Carlos Blanc Portugal, Josué Pinharanda Gomes, Leonardo Coimbra, António Telmo e António Quadros, entre tantos mais, boa parte deles do meu convívio pessoal.

Fernando Pessoa no café-restaurante "Martinho da Arcada", Lisboa

Fernando Pessoa no café-restaurante “Martinho da Arcada”, Lisboa

Quanto à homossexualidade do Poeta – que hoje é coisa que assenta bem em qualquer artista ou intelectual e se deve aplaudir – a sua relação com Ofélia Queiróz (a sua “menina Ofelinha”) desmente categoricamente tal, além de nunca ter se mostrado avesso ao belo sexo, muito pelo contrário, e se rompeu com Ofélia, a sedentária e casadoira jovem secretária de escritório, cujos interesses não passavam do comum e vulgar indo chocar e destoar inteiramente daqueles muitíssimo mais elevados de Pessoa, que não compreendia e até a aterrorizava, razões mais altas se levantaram. Estão claramente expostas na carta do Poeta a Ofélia, datada de 29 de Novembro de 1929:

“Que isto de “outras afeições” e de “outros caminhos” é consigo, Ofelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.”

Esse vínculo secreto e muito pessoal aos Adeptos da Boa Lei, os Superiores Incógnitos da Humanidade com Posto Representativo em Sintra (Serra Sagrada a quem dedicou alguns dos seus poemas), como um certo Henry Moore referido em  fugaz «nota psicográfica» (modalidade linguística usual não passando disso, pois que a acção oculta disponha-se fora de qualquer mecânica mediúnica no sentido comum do termo),  já antes Fernando Pessoa o expressara em carta dirigida a Corte Real, escrita em 19 de Novembro de 1915:

“[] De modo que, à minha sensibilidade cada vez mais profunda, e à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade literária, mera-arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez mais à altura daquelas qualidades que recebi. [] Ter uma acção sobre a Humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a Civilização vêm-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida.”

Quanto ao pretexto de carência afectiva maternal e depois conjugal terem sido o motivo do seu desajuste psicofísico revelado como ânsia permanente e abstracta ou de alguma coisa indefinida por adquirir, que o deixava num estado constante de insatisfação e reclusão hipocondríaca quase maníaca, a verdade é bem diferente dessa análise supérflua e muito equivocada. A «carência afectiva», bem vistas as coisas, foi apenas a alavanca psíquica e sofrível para projectar Fernando Pessoa a esse outro Amor encoberto, Amor espiritual retratado idealmente na Dama desejada (a sua “Bebé”), afinal não sendo Ofélia nem a sua mãe, mas unicamente, como o compreendeu na carne pelo desejo inexplicável de uma sexualidade superlibídica, rarefeita e mental, a sua Alma encoberta, o seu Outro, o Eu Superior assinalado no “Guardador de Rebanhos” (os vários “eus” insublimados, o mesmo que nidhanas ou “vícios” para os orientais) do heterónimo Alberto Caeiro, o Mestre, de maneira que Ofélia, como feminino de Orfeu, tão-só representava a Divina Mãe Sabedoria.

Essa sublimação da libido, factor caríssimo à psicanálise mas mantendo-se no limite estreito das imagens sexuais contidas no subconsciente afim ao passado e que, por se as considerar indicativas de factores imediatos não resolvidos, oprimem o consciente presente, o que é uma interpretação completamente profana, por conseguinte, naturalmente errada, por mais uma vez querer sanar os efeitos com os efeitos, a mesma será sobretudo não a sublimação psicanalítica mas a superação da Consciência pelo despertar interior, pela subtilização dos sentidos grosseiros imediatos, por essa Energia Ígnea que os orientais chamam Kundalini e os ocidentais Fogo Criador do Espírito Santo, discorrendo da base da coluna vertebral ao alto da cabeça e daí volvendo abaixo, num eterno sobe-desce (de que o episódio bíblico do sonho de Jacob, com os Anjos subindo e descendo a Escada do Céu, é uma alegoria das mais significativas), com o qual o líquido encéfalo-radiquiano tem ligação profunda, por nele se encontrar a explicação médica e científica, e sobretudo iniciática, tanto do factor sexual como da actividade mental e da ligação entre ambos.

Esse processo alquímico de transcendência interior, e como diz José Amaro Dioníso em Os passos da morte (in semanário Expresso, sábado, 4 de Junho de 1988), levou o poeta a desabafar: “A solidão desola-me, a companhia oprime-me”.

Confrontando o Amor Ideal com o amor passional, que ele sabia distinguir, confessa-se em tom de desabafo à casta e casadoira Ofélia Queiróz – que ora se deixava seduzir, ora lhe fazia as cruzes – em carta de 29 de Setembro de 1929:

“Resta saber se o casamento, o lar (ou o que quer que lhe queiram chamar) são cousas que se coadunem com a minha vida de pensamento. Duvido.”

Ofélia Queiróz (14.6.1900 - 18.7.1991)

Ofélia Queiróz (14.6.1900 – 18.7.1991)

Se por isso ele procurou a “prata da casa”, o conforto nos braços de um homem preferido à mulher, como sugere o psiquiatra autor do pasquim em questão, então valerá dizer que “o intestino delgado da formiga está onde o senhor doutor devia ter a massa encefálica”. Considero que o próprio Fernando Pessoa lhe responde neste outro excerto da carta por último citada:

“É preciso que todos, que lidam comigo, se convençam de que sou assim, e que exigir-me os sentimentos [] de um homem vulgar e banal, é como exigir-me que tenha os olhos azuis e cabelo louro. E estar a tratar-me como se eu fosse outra pessoa não é a melhor maneira de manter a minha afeição.”

Isso mesmo é testemunhado pelo seu companheiro de tertúlias no Café Montanha, Francisco Peixoto de Bourbon, quando afirma com a certeza de quem sabe porque o conheceu em vida (in semanário Expresso, sábado, 4 de Junho de 1988): “Há muitas ideias feitas à sua volta que não correspondem à verdade, e insinuam-se coisas, como um pretenso homossexualismo, que não passam de calúnias. No que respeita à sua maneira de ser e de estar na vida, o Fernando Pessoa era a antítese de tudo o que se tem dito dele”.

Quanto às alegações prescritas no dito pasquim candidato a raridade literária (e de facto a é no mau sentido): “1.ª) morbidez psíquica, 2.ª) alucinações, 3.ª) fobias, 4.ª) obsessões”, na realidade são:

1.ª – O homem triste por estar no mundo não sentindo apetência a participar na vida comum do mesmo, das suas alegrias e gozos mundanos, sentindo-se morrer diariamente para viver mais eternamente, isto é, cada vez mais se sentindo morrer mundanamente e renascer espiritualmente. Esse é o estado psicomental de quem transcendeu os interesses useiros do vulgo e comum, estando com a sua consciência em plena travessia da ponte ou condição interior que separa um mundo do outro. Consequentemente, o epíteto «morbidez psíquica» não corresponde à realidade por Fernando Pessoa não se ter mostrado neurótico nem hidrofóbico em momento algum, razão porque não necessitou, em toda a sua vida, de espécie nenhuma (seja receituário, seja internato) de tratamento em alguma Casa de Saúde Mental. Angústia existencial certamente a teve, como todos quantos estão no Caminho da Verdadeira Iniciação a têm vez por outra, mas isso é muito diferente da morbidez d´alma.

2.ª – As «alucinações» de Fernando Pessoa são as mesmas de todos os psíquicos potenciais, mas isso nada tem a ver com estados alterados de consciência física misturados caoticamente aos da consciência psíquica, como acontece com a maioria dos doentes mentais incapazes de distinguir o real do irreal. Nestes últimos casos, é costume recorrer-se à intervenção medicamentosa com base opiácea, os psicotrópicos, o que deixa o doente num estado alterado de sonolência induzida ausente de vontade própria. Também se recorre à hipnose clínica e, em casos extremos, aos choques eléctricos e aos banhos de água fria. É desnecessário dizer que esses métodos são desumanos e completamente impróprios no tratamento eficaz de qualquer doente, pois deixam-no num estado semi-vegetal não raro para sempre. Felizmente a Medicina tem evoluído, além de haver outros métodos muito mais eficazes e… eubióticos, para restaurar a saúde psicomental desvalida.

Como Buda, Cristo, Maomé e outros mais Grandes Iluminados que têm feito avançar o Progresso da Humanidade, seguidos pelos melhores desta sustentando uma moral impeditiva da queda do Homem no selvagismo puro e simples, não passam de «paranóicos religiosos» e «místicos alucinados» para a maioria dos psicanalistas, então é «natural» que estes mesmos se alucinem nas suas próprias taras psicossomáticas e desdenhem o básico das «alucinações» espirituais serem, tão-só, a visão supra-sensorial das várias camadas dimensionais de Espaço e Tempo, de que a Ciência Físico-Química só conhece três – comprimento, largura e altura / passado presente e futuro, mas faltando a profundidade e a intemporalidade. No entanto, hoje mesmo a Ciência Experimental já conclui, com êxito, haver outros espaços e energias dotadas de automatismo e consciência próprias além do clássico espaço tridimensional a que o Homem está limitado. Desde logo se fala em quarta e mais dimensões, na curvatura do Tempo e do Espaço e na avenção experimental comprovativa de outros sentidos latentes além dos cinco comuns ao mesmo Homem, que o poderão transportar a esse Espaço/Tempo ultradimensional e nele vivenciar estados de consciência impossíveis doutro modo. As experiências parapsicológicas realizadas nas universidades russas e norte-americanas, por exemplo, provaram cabalmente que o Pensamento influi sobre a Matéria e esta pode ser profundamente alterada por ele. Vários cientistas reputados desses países concluíram que os fenómenos paranormais, ou parapsicológicos, por eles observados após levarem à sua provocação experimental (o que está muitíssimo documentado), assemelhavam-se (não que fossem idênticos, que é coisa diversa de semelhantes) em tudo aos dos Santos da Igreja Cristã, aos dos Yoguis da Índia, aos dos Hierofantes do Antigo Egipto ou aos dos Teurgos e Taumaturgos celebrizados nos anais da História e nos textos sagrados de todas as religiões tradicionais.

Chegado a este ponto, é notório e risível que o médico em questão apesar de “escuro-vidente” assumiu-se “psiquiatra do Além”, pois fez o diagnóstico clínico de quem faleceu há mais de 50 anos e nunca conheceu de parte alguma a não ser por folhas soltas do seu espólio literário. Mas que Fernando Pessoa era clarividente bem o prova na sua carta à Tia Anica [D. Ana Luísa Nogueira de Freitas], redigida em Lisboa a 24 de Junho de 1916, da qual extraio alguns excertos deveras elucidativos para uma clara compreensão do seu verdadeiro perfil psicológico:

“Há momentos, por exemplo, em que tenho perfeitamente alvoradas de “visão etérica” – em que vejo a “aura magnética” de algumas pessoas, e, sobretudo, a minha ao espelho, e, no escuro, irradiando-me das mãos. Não é alucinação porque o que eu vejo outros vêem-no, pelo menos, um outro, com qualidades destas mais desenvolvidas. Cheguei, num momento feliz de visão etérica, a ver, na Brasileira do Rossio, de manhã, as costelas de um indivíduo através do fato e da pele. Isto é que é a visão etérica no seu pleno grau.

“[] Às vezes, de noite, fecho os olhos e há uma sucessão de pequenos quadros, muito rápidos, muito nítidos (tão nítidos como qualquer cousa no mundo exterior). Há figuras estranhas, desenhos, sinais simbólicos, números (também tenho visto números), etc.

“[] Há mais curiosidade do que susto, ainda que haja às vezes cousas que metem um certo respeito, como quando, várias vezes olhando para o espelho, a minha cara desaparece e me surge um fácies de homem de barbas, ou um outro qualquer (são quatro, ao todo, os que assim me aparecem).”

Segue-se, nessa mesma carta, o fundamental quanto ao despertar interior de Fernando Pessoa e quase de certeza ter desfechado com a sua aceitação no seio da Fraternidade dos Mestres Ocultos do Mundo, de que o indicativo Maridj, Maris ou Mariz não é alheio em vários textos esparsos do poeta:

“O que me incomoda um pouco é que eu sei um pouco mais ou menos o que isto significa. Não julgue que é a loucura. Não é: dá-se até o facto curioso de, em matéria de equilíbrio mental, eu estar bem como nunca estive. É que tudo isto não é o vulgar desenvolvimento de qualidades de médium. Já sei o bastante das ciências ocultas para reconhecer que estão sendo acordados em mim os sentidos chamados superiores para um fim qualquer que o Mestre desconhecido, que assim me vai iniciando, ao impor-me essa existência superior, me vai dar um sofrimento muito maior do que até aqui tenho tido, e aquele desgosto profundo de tudo que vem com a aquisição destas altas faculdades. Além disso, já o próprio alvorecer dessas faculdades é acompanhado de uma misteriosa sensação de isolamento e de abandono que enche de amargura até ao fundo da alma.

“Enfim, será o que tiver de ser.

Eu não digo tudo, porque nem tudo se pode dizer. [] Estas cousas são anormais sim, mas não antinaturais.”

Ainda sobre a Tia Anica, tia materna do poeta e médium afamada de Lisboa, realizava em sua casa sessões de espiritismo a que Fernando Pessoa assistiu a algumas delas, sendo muito mal vistas pela vizinhança. Levantaram-se boatos: ali faziam-se orgias de todo o tipo e consumia-se cocaína e ópio a rodos. O boato pegou até hoje: vem daí a ideia abstrusa de que Fernando Pessoa além de «homossexual» também foi um «drogado em cocaína e ópio». O próprio poeta pegou nessa invenção da má-língua e, como bom “blagueur”, gozou com ela pondo-a no papel, mas em boa verdade não passando disso mesmo: pura e simples “blague”. Agora, pergunto eu: como é possível a alguém que se tenha por pessoa de bons princípios, fazer um levantamento biográfico e psicológico minimamente credível só baseado em boatos populares, nascidos da ignorância e da superstição temerosa?

Tia Anica

Tia Anica

3.ª – As «fobias» de Fernando Pessoa já as expliquei, ele próprio foi suficientemente claro na sua carta citada por último, pelo que é desnecessário repetir-me. Ainda assim, algo mais tenho a acrescentar em continuação da alínea 2.ª: antes de tudo, convém não ignorar que a Humanidade reparte-se por vários escalões de consciência de acordo com o temperamento e apetência individual afectando o colectivo – bem conformado ao estado evolucional já alcançado, o que é comprovável, visível e tangivelmente, em cada pessoa pela sua inteligência e pelo seu sentimento, maiores ou menores, mais ou menos grosseiros, com estes ou aqueles interesses, sim, porque o interesse imediato não deixa de ser a causa de um efeito produzido anteriormente e subjacente à sua “psique” ou “ego” (Freud chamar-lhe-ia “super-ego”).

É nesse mesmo “ego” que a hodierna análise e diagnóstico clínico (da psicologia, psiquiatria, psicanálise, etc.) procura as respostas para o comportamento humano, individual e colectivo. Como a acção mental leva à reacção corporal, logo sintomatologia clínica conclui que o cérebro é a «alma» das religiões e a «libido» o motor provocativo do fenómeno da exteriorização dos interesses humanos, e esta é, sucintamente, a bula clínica explicativa dos fenómenos do comportamento humano (sejam quais forem, onde sobretudo a psicanálise realça sempre, quase maníaca-compulsiva, a fenomenologia religiosa como “inimiga adversária” a abater), e como o cérebro se secciona em multivariadas «especialidades» mentais, logo quando uma dessas secções está mais activa o interesse correspondente impõe-se aos restantes. Se a coisa for levada ao extremo em detrimento da restante actividade cerebral, então apelida-se de paranóia, sem mais delongas clínicas, não separando o factor interesse místico, resultante da actividade cerebral normal afim a esse interesse, o que é sinal de boa saúde mental, da alteração cerebral provocada por enfermidade de um ou de todos os sentidos, gerando alucinação psicomental que induz, esta sim, a paranóia, ou seja literalmente, “fora de “Si”, do normal”, ficando assim praticamente explicado todo o fenómeno religioso ou místico. De maneira que, para tais analistas clínicos, todos os religiosos e místicos são «visionários e paranóicos». Por que? Clinicamente por uma ou mais secções cerebrais falharem ou embotarem provocando as anomalias dos sentidos e consequentemente do comportamento. A psicanálise pretende explicar isso muito bem (???) ao querer esventrar os comportamentos psicológicos do Cristo, de Buda ou de Krishna, por exemplo, através da sua interpretação profana, anti-tradicional e contra-iniciática, dos textos sagrados das religiões afins aos mesmos. Mas estarão a psicanálise e a sua associada, a psiquiatria, correctas? Estará assim tão certo e tão redutivo, tão niilista e tão deprimente esse levantamento clínico do comportamento humano, em que a «alma» não passa de um pedaço de carne animada por sangue e nervos, agindo por hábito mecânico que é a inteligência mecânica que é a razão do Homem? Duvido, e muito.

De maneira que assim são explicados clinicamente os fenómenos místicos e religiosos, admitindo as religiões não passarem de criações humanas produtos de simples devaneios lúdicos dos sentidos, e assim, por esse seu positivismo o mais pedante possível que realmente é negativismo, por manifestar neles o estado alterado de negação e culpabilização contínuas, acabo induzido a diagnosticar o grave factor paranóia em muitos clínicos de ciência neurológica. Por que “pedantismo clínico”?

Por de antemão saber-se que o pensamento não é um objecto físico, e nem as correntes eléctricas que percorrem, se chocam e animam o cérebro e o cerebelo poderem ser provocadas pelo sistema neuro-espinal, por ser este quem é animado por aquelas, facto facilmente comprovável num bebé que já manifesta guturalmente os seus interesses mas não tem qualquer domínio sobre o corpo tenro. Isto leva a deduzir que a mente ou pensamento é distinta do cérebro, seu veículo, e que as correntes e descargas eléctricas deste só poderão ter uma causa originadora: aquele, o pensamento. Tanto assim é que hoje até um clínico medíocre sabe que o pensamento antecede o impulso electro-cerebral. Mesmo na morte clínica ou paragem cardíaca, sabe-se que ainda não aconteceu a morte cerebral ou, como se diz em psicanálise, o desligar da mente (grande verdade, apesar dos que a proferem desconhecerem o seu verdadeiro sentido). É assim que quando há a morte cerebral ou apartamento mental e mantém-se a restante vida orgânica, o corpo não responde, fica num estado vegetativo, mesmo com o sistema nevro-sanguíneo mantendo-se vivo mas não activo por lhe faltar o impulsor neuro-cerebral, tal como a este falta o pensamento ou inteligência por estar incapaz de manifestar-se no órgão danificado.

O mesmo se pode dizer das emoções em relação ao coração. Será o órgão nobre quem as provoca após a reacção química provocada por um qualquer reconhecimento simpático ou antipático dos sentidos, principalmente da visão que é o sentido da luz reflectora, sabendo-se que nem todos vêem da mesma maneira e que há espécimes animais que vêem o que o Homem não consegue ver, mas que nem por isso deixa de ser real? Ou serão corpos distintos para os quais os sentidos não passam de agentes ao invés de princípios?

Tanto mais que hoje  em Medicina Legal aplica-se ao cadáver o designativo de “casco”, no sentido de “casca vazia”. Logo, significa que o seu “morador” original já não está lá. De maneira que em princípio pressupõe-se a existência de duas entidades distintas: o “casco” e o “morador”… que partiu. Para onde? Só a Teosofia, “Mãe de todos os saberes” por ter saber e experiência armazenados desde há milhares de anos, poderá responder com maior amplidão e lógica.

Também não será pedagógico nem razoável exigir da vasta e diversificada Humanidade que acompanhe de maneira igual os passos avante dos mais adiantados do seu Género. Isso nunca poderá resultar positivo, pois o que acaso sejam imperfeições para o mais adiantado no desenvolvimento da consciência poderão ser perfeições para o restante comum. Mesmo assim, deve-se saber separar o estado normal dos menos adiantados mental ou espiritualmente do estado anormal dos que estão humanamente doentes. Isto é fundamental. É dever soberano do homem superior respeitar e até aceitar como normais as crenças e actos dos seus irmãos em Humanidade menos adiantados, não se imiscuindo no livre-arbítrio alheio, pois todos têm as suas experiências e vivências a fazer, o que leva a concluir que todas as verdades humanas são relativas!… Se, acaso, um homem superior presume-se com um pouco mais de consciência (eis uma outra palavra complicada, mas que resulta da essência do pensamento e do sentimento), então será seu dever ante a mesma Humanidade, na medida das suas possibilidades e oportunidades, colaborar de maneira não ostensiva e não impositiva na sua evolução ou desenvolvimento consciencial. Foi sempre assim a acção de todas as Escolas de Psicologia Esotérica em todos os tempos e, igualmente, de todos os verdadeiros Iniciados.

Uns mais depressa e outros mais devagar todos evoluem no seu espécime, o Hominal, e todos chegarão ao objectivo último, este aparentemente uma melhor condição humana e desde logo social, ainda que não seja tão-somente isso!… A experiência que cria maior consciência, essa sim é tão diversificada quanto é o Homem no individual e no colectivo. É muito natural que seja assim, visto ele ser a soma de toda a Natureza manifestada.

Dos últimos 500 anos para cá, assistiu-se a um grande avanço intelectual e tecnológico por parte da Humanidade. Falta-lhe só equilibrar o intelecto com a moral. Por isso apareceu no século XIX o grande surto espiritualista para dar resposta ao maior mistério, ao gigantesco dilema do Homem: conhecer-se a si mesmo, encontrando a solução final para o magno problema da Vida, o da Felicidade Humana.

4.ª – A «obsessão» de Fernando Pessoa terá a ver com a «fobia» e a «paranóia» constantes que mostrava por um supranacionalismo e por um sebastianismo com que entendia Portugal mas que não passava de quimera obsessiva, pois não era mais do que dar realidade a uma expressão literária imaginativa dos antigos. Isto, é claro, no considerando do tal psiquiatra supracitado, que também é pedante ao pretender ter domínio da História e do que realmente pensavam os antigos sábios. Postas as coisas assim, fico com o demonstrativo cabal da senilidade desse senhor e desse modo também diagnosticar-lhe fortes indícios de paranóia obsessiva apercebida por uma escrita esquizofrénica, pelo que à sua paranóia mito-psiquiátrica é muitíssimo mais saudável a mítica-espiritual de Pessoa, que bem preferia o seu patrono Padre António Vieira a um Freud esquizofrénico de paixão solapada pelas sobrinhas, dotado de taras pedófilas como se denota em muitas passagens da sua biografia.

O V Império Lusitano de Fernando Pessoa e de todos os adeptos do Sebastianismo Branco, teosófico, esclarecido, bem o definiu o seu amigo e companheiro do Orfeu, Raul Leal, como o cita António Quadros em Fernando Pessoa e o “Império da Cultura” (no semanário Tempo, 28.4.83): “A aliança de D. Sebastião, Imperador do Mundo, e do Papa Angélico, figura esta íntima aliança essa fusão do material e do espiritual. É o próprio Segundo Advento ou nova encarnação do mesmo Adepto em quem outrora Deus projectou o seu Símbolo, ou Filho, não faz senão figurar d´outro modo essa mesma aliança suprema. Não é pois para uma absorção mística que avançamos, sendo para a conjunção clara dos dois poderes da Força, dos dois lados do Conhecimento. Far-se-á a aparente conquista da inteligência material pela espiritual e da espiritual pela material. De aí ser o Império Português ao mesmo tempo um Império da Cultura e o mesmo Império Universal, que é outra coisa”.

O psiquiatra que me serve de mote à defesa cultural e espiritual de Fernando Pessoa, consequentemente da Tradição Iniciática Portuguesa, para não dizer Universal, agiu sinistramente como um mago negro ao desrespeitar inteiramente as três coisas com que um espírito nobre nunca brinca, muito mais sendo ele médico, logo atraiçoando o Juramento de Hipócrates que fez para ter direito ao diploma de Medicina, como muito adequadamente ao presente, em palavras lembradas por José Amaro Dioníso (ob. cit.), o poeta diz: “Há três coisas com que um espírito nobre nunca brinca: os deuses, a morte e a loucura”.

Utilizando como dialéctica e retórica instrumentos mentais desconexos, esse psiquiatra vale-se de uma carta escrita por Fernando Pessoa mas assinada com o nome feminino Maria José, endereçada a um António que nunca existiu a não ser ele próprio. É neste documento que baseia toda a sua teoria anacrónica sobre o «homossexual paranóico» que considera ter sido o vate e poeta. Duas impressões saltam-me desde logo à vista:

1.ª) Maria – José – António, este provindo do radical filológico Aton, o Sol Espiritual, o Filius. De maneira que Fernando Pessoa evoca poeticamente a Santíssima Trindade (estando José para o Pai e Maria para a Mãe) na sua maneira peculiar de escrever, e 2.ª) faz a sua confissão ou autocrítica lançando no papel as suas nidhanas, as suas vicissitudes ou defeitos, livrando-se, desse modo muito seu, delas. Daí a dureza dos termos “hipocondríaco, esquizofrénico, paranóico, etc.” que emprega na carta em relação a si mesmo.

“Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim mesmo…”

Álvaro de Campos in Obras Completas

É uma forma de desabafar, de lançar para fora o peso enorme das inquietações e agruras quotidianas sem que, necessariamente, tenha de ser tudo de quanto se acusa. No fundo, trata-se do queixume íntimo de Pessoa à sua Individualidade Fernando, procurando o lenitivo interior, o estímulo superior, e fê-lo através da escrita que era a sua maneira de combater o “stress” psicossomático.

Ademais muitos, a maioria dos escritos contidos na pessoana “arca” são rascunhos, anotações e ideias do momento que o poeta anotou decerto para não se esquecer depois, umas suas e outras que ouviu de outros. É assim que se chafurda nas coisas mais íntimas e impublicáveis de um homem falecido, com o único objectivo interesseiro de conseguir-se prestígio social e regalias económicas à custa de quem tão nobre, anónima e pobremente em seu tempo serviu a Língua Portuguesa sua Pátria, acabando por morrer só, abandonado na cama fria do Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, na manhã triste de 30 de Novembro de 1935, depois de anos, dias e noites seguidas, intermináveis de solidão e angústia pela feitura de uma Obra que se quer Divina.

Sepultado no Cemitério dos Prazeres, o féretro de Fernando Pessoa foi depois, em 1985, trasladado para o claustro do Mosteiro dos Jerónimos, e na altura verificou-se que o corpo mantinha-se incorrupto, estava como quando falecera, ele que proclamara nas vésperas da sua morte: “Neófito, não há morte!”, e “nunca te deixes vencer pelos incompetentes”.

Túmulo de Fernando Pessoa no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa

Túmulo de Fernando Pessoa no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa

Será por tudo isso que o Pensamento de Pessoa «está deteriorado pelo seu perturbado estado mental», o que «lhe impossibilitou possuir uma personalidade íntegra»?… Realmente, é preciso ser-se muito mau e imensamente ignorante para se afirmar e publicar calúnias dessa monta que só podem provir de um espírito doente, obsedado. A integridade de Fernando Pessoa como homem, escritor ensaísta e poeta, e sobretudo Iniciado, nada tem que se lhe aponte. Pode-se discordar da sua maneira de estar e agir, é natural, mas querer destruir insanamente só por não se gostar dessa maneira de estar e agir, isso já não é natural.

Recordo as palavras de um Mestre Vivo (Morya Rajput), escritas na segunda metade do século XIX, acerca de uma outra incompreendida e injustiçada, Helena Petrovna Fadeef Hahan Blavatsky, as quais se adaptam bem ao caso presente de Fernando António Nogueira Pessoa:

“Nós, pelo contrário, descobrimos diariamente na sua natureza interior traços muito delicados e refinados, que um psicólogo não-Iniciado nunca conseguirá descobrir nas profundezas desse mistério tão subtil – o mental humano – e um dos mecanismos mais complexos – o mental de H.P.B. – senão após muitos anos de observação constante e penetrante, acompanhada pelos esforços de análises cerradas; tal trabalho permitiria a esse psicólogo aprender a conhecer o verdadeiro Ser Interior de H.P.B.”

É claro que no caso do poeta o «ilustre» psiquiatra não o fez, nem jamais o poderia fazer, porque Fernando Pessoa já não existe entre nós. De maneira que enxovalhou a memória universal do Homem e demonstrou incapacidade até em respeitar os mortos, pelo que lhe diagnostico traumas de um passado infeliz e a necessidade premente do seu inconsciente confessar publicamente a sua natureza doentia, como que pedindo desculpa por a ter!…

Quanto à «ciclotimia» de que acusa Fernando Pessoa, ela se desdiz e desfaz perante o facto comprovado, pelos testemunhos dos que com ele conviveram, da sua tranquilidade e lucidez, como pessoa pouco excitável ou deprimível conforme as impressões emocionais do momento, visto a característica da sua natureza ser sobretudo mental. Seja como for e levando a coisa para o nível da psique humana, isso terá a ver com os estados de busca, de angústia e anseio mentais pelo encontro de soluções para problemas de índole metafísica, esta que foi o timão e norte de toda a vida do poeta. De maneira que, ainda que todos os Iniciados não sejam «ciclotímicos», serão ciclotímidos, se assim posso dizer, porque sabem e calam.

É assim que a «paranóia mítica» do poeta é largamente superada pela paranóia psiquiátrica de quem, certamente, pouco ou nada sabia sobre a verdadeira personalidade de Fernando Pessoa.

Não termino sem assinalar um outro ponto controverso que até ao momento tem servido para denegrir o poeta por parte de alguns dotados de um moralismo primário, puritano e castrante, como se fossem «a perfeição em pessoa»: o uso excessivo que fazia das bebidas alcoólicas.

Seja como for e mesmo nisso, não deixa de haver sabor a “blague” no alcoolismo excessivo de Fernando Pessoa. Lá que ele bebia, bebia… “Bebo como uma esponja, não. Como uma loja de esponjas, e com armazém anexo!”, gracejava confessando a Luis Moitinho de Almeida, filho do dono da firma comercial onde trabalhava. Que pretendia ele com afirmações degradantes desse género? Será que já não distinguia a realidade lúcida da alucinação alcoólica, por estar em fase adiantada de delirium tremens? Não creio. A resposta flagrante dá-a um seu parente afastado que com ele conviveu, o professor Calvet de Magalhães, um dos fundadores da Cooperativa de Ensino Árvore, no Porto: “Unanimidade há apenas em torno do facto de que “nunca ninguém o viu bêbado”, […] não bebia tanto assim, cultivava era essa fama, para chocar as pessoas, “blagueur” como sempre foi”. E remata o seu velho companheiro de tertúlias nos cafés da Baixa de Lisboa, Francisco Peixoto de Bourbon, definindo numa só frase concisa o perfil de Fernando Pessoa: “Um aristocrata no verdadeiro sentido da palavra, um puritano, um estóico e um espartano”. Por sua vez, a sua sobrinha “Mimi”, Maria Manuela Nogueira, questionada sobre a morte do seu tio “ter sido repentina ou por já estar doente?”, respondeu: “Não. As coisas que inventam agora — que foi do vinho, que foi daquilo — é tudo mentira. Não foi nada disso. Ele teve uma coisa que se chama “volvo”, que é um nó no intestino. Se fosse hoje em dia, era operado e ficava óptimo. Naquela altura não havia meios de diagnóstico, não se percebeu de onde vinham as dores que ele tinha. Deram-lhe remédios para as dores no hospital.”

"Fernando Pessoa em flagrante delitro", legenda do próprio

“Fernando Pessoa em flagrante delitro”, legenda do próprio

Contudo, como causa da morte do poeta foi diagnosticada uma cólica hepática em adiantado estado crítico, originada pelo álcool consumido. Se bem que do ponto de vista clínico o diagnóstico possa estar correcto, todavia deve-se também observar o diagnóstico oculto, e este só poderá ser feito à luz da ciência dos chakras ou “centros vitais” subtis do corpo humano, manifestando-se pelos plexos e as glândulas.

Sendo a cólica hepática doença de fígado, logo ligada ao aparelho intestinal e ao correspondente plexo solar, gástrico, além do álcool consumido talvez e principalmente ela tenha sido originada em Pessoa pela sua procura, intensa e permanente, em transmutar as energias do centro gástrico de maneira a elevá-las ao centro cardíaco. O seu adiantado estado psíquico motivado por uma vivência psicomental constante, conduzia o seu chakra gástrico, relacionado ao sistema emocional, a estados de congestionamento que ele procuraria desbloquear através de uma descarga ou catarse pela escrita, funcionando assim como método de “higienização psíquica”, o que lhe possibilitava um alívio temporário. Daí a razão e causa ocultas das suas confissões, referidas mais atrás.

Portanto, transmutava as suas emoções de fatalismo e angústia em ideais estéticos e místicos aportados dos níveis superiores do corpo emocional, este exprimindo-se por imagens, enquanto o corpo mental se exprime por ideias, o que também já foi dito. Quanto à sublimação da emoção em sentimento puro de Amor, tanto valendo por elevação do psíquico ao intuicional sito no centro cardíaco, tal processo pode ser extremamente doloroso para a alma que se vê despojada, desnudada, de todas as suas nidhanas ou “desejos” inferiores, passionais, provocando uma verdadeira “dor de parto” místico que o poeta procuraria atenuar através da bebida e recuperar parte da consciência orgânica, de facto já totalmente perdida e, anacronicamente, substituída por uma maior lucidez mental.

“Dêem-me de beber, que não tenho sede!” – dizia nas vésperas da sua morte.

Terá Fernando Pessoa conseguido essa transmutação alquímica interior e consequente elevação redentora da energia inferior da Anima ao Animus espiritual? Os seus sinais psicológicos dizem que sim: a sua serenidade face ao inevitável, os momentos lúcidos antecedendo o seu passamento assumindo a tranquilidade de um sábio, do seu “Outro” Alberto Caeiro com o qual, finalmente, partia.

Tanto a sua vida como a sua obra assinalam que conseguiu a tríplice elevação dos “centros vitais” inferiores aos superiores, a despeito do sofrimento e solidão constantes na sua vida de Adepto que junto aos homens se pode gabar apenas de ser também ele homem, logo sujeito como qualquer um às angústias e incertezas podendo surgir inesperadas numa esquina qualquer da vida.

Essa tríplice elevação, é:

1.ª – A elevação das energias do centro gástrico ao centro cardíaco, ou seja, a sublimação da emoção passional em Amor Espiritual.

2.ª – A elevação das energias do centro esplénico ao centro laríngeo, ou seja, a sublimação da sexualidade em Criatividade Espiritual.

3.ª – A elevação das energias do centro sacral ao centro cranial, ou seja, a sublimação da auto-afirmação em Vontade Espiritual.

Nessa transformação de Pessoa pela superação de Fernando e consequente metástase com o “Outro”, nessa derradeira e sublime vitória, muitíssimo mais importante que todas as vitórias de povos em guerra ou triunfos sociais por atropelos ao próximo, remata ele, o “Supra-Camões”, o Vencedor do Adamastor como matador da própria morte:

“Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.”

Alberto Caeiro in Obras Completas

Para fechar, com texto recolhido por Pedro Teixeira da Mota, endereço a todos os detractores presentes e futuros de Fernando Pessoa estas suas próprias palavras magistrais:

Deseja ardentemente a Luz, conhecendo-te a ti próprio nela.

Priva-te do Egoísmo, Vaidade e Orgulho.

Pensa fraternalmente, não alojes pensamentos maus

E tem o menos possível de pensamentos materiais.

CONHECE-TE A TI PRÓPRIO

Hermetismo e Mensagem de Fernando Pessoa – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Dez 16 2015 

12.11-pessoa[1]

I

Tenho consciência que ao falar de Fernando Pessoa no contexto da Portugalidade Iniciática é associá-lo quase de imediato ao ultranacionalismo e consequente messianismo sebastianista. Ainda que ideologicamente compartilhe muito do que o vate pronunciou e escreveu, ainda assim torna-se premente, antes de tudo o mais, identificar correctamente o espólio literário do autor, ou melhor, como sendo eventualmente do autor e em que circunstâncias acaso o tenha escrito.

Houveram quatro pessoas que beberam profusa e profundamente na fonte Pessoana, com as quais convivi em tertúlias «domésticas» e me foram de grande utilidade pela muita informação oral que recolhi acerca do seu conhecimento directo, quase contemporâneo, da pessoa e obra do poeta. Essas quatro pessoas, são: Pinharanda Gomes, António Telmo, José Blanc Portugal e Agostinho da Silva, os três últimos já falecidos. Todos eles discípulos de grandes pensadores portugueses coevos de Fernando Pessoa os quais deixaram cartilhas onde as modernas gerações aprenderam a ler e escrever. São, portanto, autores fortemente creditados e até imortalizados na Literatura Portuguesa.

Por esses insignes personagens vim apercebendo que muito do que se diz e escreve sobre Fernando Pessoa nos dias d’hoje não corresponde, minimamente, à verdade. Que “muitos dos que falam e escrevem sobre Fernando Pessoa são, no íntimo, os maiores inimigos do seu Pensamento” (António Telmo). Que “não têm a mínima preocupação em contextualizar os escritos do vate, donde retirarem dos seus textos frases soltas não raro fora do contexto original para, sem mais cuidado e atenção, as colar às suas ideologias particulares, maioritariamente distadas da originalidade de Pessoa” (Agostinho da Silva). E porque “Fernando Pessoa também foi editor, muitos dos escritos que se lhe atribuem não são dele mas de autores, conhecidos ou desconhecidos, que lhos deram para publicação em alguma das revistas que dirigiu, muitos dos quais não chegaram a ver a luz” (Pinharanda Gomes). Ademais, afirmo eu agora, muitos dos escritos originais de Fernando Pessoa, dispersos por folhas soltas sem ligação entre elas, são produto de: a) ideias que tinha no momento e passava-as ao papel sem o mínimo cuidado literário ou outro, visto ser material íntimo que se reservava de compartilhar com outréns; b) ideias que ouvia nas suas tertúlias intelectuais e, chegando a casa, transcrevia-as para o papel, por vezes assumindo-as como suas, por vezes adaptando-as à sua particular maneira de ver as coisas e, por vezes, não raro, transcrevendo-as mas com anotações pessoais à margem das mesmas. É material íntimo que decerto Fernando Pessoa não desejava que visse a luz do dia, por ser pouco mais ou pouco menos que anotações e rabiscos os quais guardava e logo se esquecia.

Postas essas premissas, necessárias à boa prudência e enquadramento correcto do Pensamento Pessoano, nos últimos tempos usado e abusado à exaustão por «mitólogos nacionalistas» de tendências diversas não raro enquadradas no artificialismo plástico da corrente «new age» que hoje em dia penetra até mesmo em organizações de cariz espiritual ou iniciático de grande valor provado no Passado tendo prestaram grandes e valiosos serviços ao desenvolvimento intelectual e moral do Género Humano, procurarei penetrar o mais justamente possível no que seria o entendimento particular de Fernando Pessoa da Portugalidade Iniciática ou Espiritual. Para conseguir isso, só com as palavras do próprio e a elas recorrerei tanto quanto possível servindo-me dos seus textos coligidos por João Gaspar Simões, Dalila L. Pereira da Costa, Yvette Centeno, Pedro Teixeira da Mota, António Quadros, e igualmente de revistas e jornais da época ou recentes com testemunhos de quem na altura vivenciou directamente com o poeta e ensaísta.

Arca com o espólio literário de Fernando Pessoa (mais de 25.000 manuscritos)

Arca com o espólio literário de Fernando Pessoa (mais de 25.000 manuscritos)

Inquestionavelmente foi o conjunto de poemas patrióticos, escritos entre 1914 e 1934, agregado num corpo tríplice – já considerado Supra-Camoneano – a que chamou Mensagem, que arremessou Fernando Pessoa para a fama universal inscrito no Sagrado e no Mítico Português. Considere-se quem sem a Mensagem dificilmente ele seria conhecido como hoje é dentro e fora da Lusofonia. É o próprio a explicar a origem de tal nome e a sua relação com o de Portugal, no seu ensaio sobre A Pátria Portuguesa – A Crise Central da Nacionalidade (em texto recolhido e organizado por António Quadros):

“O meu livro Mensagem chamava-se primitivamente «Portugal». Alterei o título porque o meu velho amigo Da Cunha Dias me fez notar – a observação era por igual patriótica e publicitária – que o nome da nossa Pátria estava hoje prostituído a sapatos, como a hotéis a sua maior Dinastia. «Quer V. pôr o título do seu livro em analogia com “portugalize os seus pés”?» Concordei e cedi, como concordo e cedo sempre que me falam com argumentos. Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador ocasional.

“Pus-lhe instintivamente esse título abstracto. Substituí-o por um título concreto por uma razão…

“E o curioso é que o título Mensagem está mais certo – à parte a razão que me levou a pô-lo – de que o título primitivo.”

Perante o sucesso imediato que o livro teve e querendo aprofundar o sentido último da obra decerto escondido para lá da letra impressa, o autor foi entrevistado pelo seu amigo jornalista Artur Portela, entrevista publicada na Revista de Comércio e Contabilidade, em 1934, com o título Dez minutos com Fernando Pessoa:

“A calva socrática, os olhos de corvo de Edgar Poe, e um bigode risível, chaplinesco – eis a traços tão fortes como precisos a máscara de Fernando Pessoa. Encontramo-lo friorento e encharcado desta chuva cruel de Dezembro a uma mesa do Martinho da Arcada, última estampa romântica dos cafés do século XX. É ali que vivem agora os derradeiros abencerragens do «Orpheu». A lira não se partiu. Ecoa ainda, mas menos bárbara, trazida da velha Grécia, no peito de uma sereia, até à foz romana do Tejo. Fernando Pessoa tem três almas, baptizadas na pia lustral da estética nova: Álvaro de Campos, o das Odes, convulsivo de dinamismo, Ricardo Reis, o clássico, que trabalha maravilhosamente a prosa, descobrindo, na cinza dos túmulos, tesouros de imagens, e Alberto Caeiro, o superclássico, majestoso como um príncipe. Mas desta vez fala Fernando Pessoa – em «pessoa». O título da sua obra recente, Mensagem, está entre nós, como um hífen de amizade literária. Porquê o título?

“O poeta desce a escada de Jacob, lentamente, coberto de neblinas e de signos misteriosos. A sua inteligência geometriza palavras, que vai rectificando empós. A sua confidência é quase soturna, trágica de inspiração íntima:

“- Mensagem é um livro nacionalista, e, portanto, na tradição cristã representada primeiro pela busca do Santo Graal, e depois pela esperança do Encoberto.

“É difícil de entender, mas os poetas falam como as cavernas com boca de mistério. De resto, os versos são ouro de língua, fortes como tempestades.

“- É um livro novo?

“- Escrito por mim há muito tempo. Há poemas que são de 1914, quase do tempo do «Orpheu».

“- Mas estes são agora mais clássicos, digamos. Versos de almas tranquilas…

“- Talvez. É que eu tenho várias maneiras de escrever – nunca uma.

“- E como estabelece o contacto com o deserto branco do papel?

“Pessoa, numa nuvem de ópio:

“- Por impulso, por intuição, que depois altero. O autor dá lugar ao crítico, mas este sabe o que aquele quis fazer…

“- A sua Mensagem…

“- Projectar no momento presente uma coisa que vem através de Portugal, desde os romances de cavalaria. Quis marcar o destino imperial de Portugal, esse império que perpassou através de D. Sebastião, e que continua, «há-de ser».

“Fernando Pessoa recolhe-se. Disse tudo. Sobe a escada de Jacob, e desaparece à nossa vista, num céu constelado de enigmas e de belas imagens. Ferreira Gomes, que está ao nosso lado, olha-nos com mistério. Que é do poeta?”

Versão original da "Mensagem" de Fernando Pessoa

Versão original da “Mensagem” de Fernando Pessoa

O mesmo Artur Portela publicaria nova entrevista com Fernando Pessoa, dessa vez no Diário de Lisboa de 14-2-1934, acompanhada de três poemas da Mensagem – «O Infante», «O Mostrengo» e «Prece» – com ilustrações de Almada Negreiros. Dela e ampliada em forma de artigo que nunca chegou a ser publicado, datado de 1935, e que se encontra no espólio, extraio alguns excertos por ter a ver com a origem e natureza do livro primaz do vate:

“Publiquei em Outubro passado, pus à venda, propositadamente, em 1 de Dezembro, um livro de poemas, formando realmente um só poema, intitulado Mensagem. Foi esse livro premiado, em condições muito especiais e para mim muito honrosas, pelo Secretariado de Propaganda Nacional.

“A muitos que leram com apreço a Mensagem, assim como a muitos que o leram ou com pouco apreço ou com nenhum, certas coisas causaram perplexidade e confusão: a estrutura do livro, a disposição nele das matérias, e mormente a mistura, que ali se encontra, de um misticismo nacionalista, ordinariamente colado, onde entre nós apareça, ao espírito e às doutrinas da Igreja de Roma, com uma religiosidade, deste ponto de vista, nitidamente herética.

“Há três realidades sociais – o Indivíduo, a Nação, a Humanidade. Tudo o mais é fictício.

“O indivíduo, a Nação, a Humanidade são realidades porque são perfeitamente definidos. Têm contorno e forma. O Indivíduo é a realidade suprema porque tem um contorno material e mental – é um corpo vivo e uma alma viva.

“A Nação é também uma realidade, pois a definem o território, ou o idioma, ou a continuidade histórica – um desses elementos, ou todos. O contorno da Nação é contudo mais esbatido, mais contingente, quer geograficamente, porque nem sempre as fronteiras são as que deviam ser; quer linguisticamente, porque largas distâncias no espaço separam países de igual idioma e que naturalmente deveriam formar uma só nação; quer historicamente, porque, por uma parte, critérios diferentes do passado nacional quebram, ou tendem para o quebrar, o vasículo nacional, e, por outra, a continuidade histórica opera diferentemente sobre camadas da população, diferentes por índole, costumes ou cultura.

“A Humanidade é outra realidade social, tão forte como o indivíduo, mais forte ainda que a Nação, porque mais definida do que ela. O Indivíduo é, no fundo, um conceito biológico; a Humanidade é, no fundo, um conceito zoológico – nem mais nem menos do que a espécie animal formada de todos os indivíduos de forma humana. Uma e outra são realidades como raiz. A Nação, sendo uma realidade social, não o é material: é mais um tronco que uma raiz. O Indivíduo e a Humanidade são lugares, a Nação o caminho entre eles. É através da fraternidade patriótica, fácil de sentir a quem não seja degenerado, que gradualmente nos sublimamos, ou sublimaremos, até à fraternidade com todos os homens.”

Que é dizer, partir do pessoal para o colectivo, do nacional para o universal, do presente para o futuro acompanhando a marcha interior e exterior da Evolução Humana, pois sem Evolução não há Progresso e, não havendo Progresso, a Humanidade estagna e regride à condição simiesca, em termos de desenvolvimento psicossocial do seu Género.

O número três assiste à composição da Mensagem e tal como as redondilhas do Bandarra têm, conformadas à tripeça, três realizações diferentes, nisto adaptadas à translatio imperii patente nas três Idades tradicionais da tese de Joaquim de Flora, nisto esse propósito está implícito no Poema Pessoano, em «Brasão», «Mar Português» e «Quinto Império», módulo explicitador da críptica 1.ª quadra do III Corpo das Trovas do dito profeta de Trancoso:

“Em vós que haveis de ser o Quinto

Depois de morto o Segundo

Minhas profecias fundo

Nestas letras que VOS / AQUI pinto.”

Nas variantes VOS e AQUI do quarto verso, condensa-se o mistério. Desdobrando as letras em palavras latinas, obtém-se:

VOS – Vis (Força) / Otium (Ócio) / Scientia (Ciência).

AQUI – Armas (Armas) / Quies (Sossego) / Intellectus (Inteligência).

Eis-nos, portanto, perante o esquema de Joaquim de Flora e o seu modelo explicativo da História da Humanidade de acordo com a sucessão das três Pessoas da Trindade, explicação para a qual ele distingue dois tipos de inteligência: a exotérica e a esotérica. Ou seja: a «segundo a Letra» e a «segundo o Espírito».

Flora simboliza esses cinco tipos de inteligência (duas partes cada uma dividida em quatro, mais uma consistindo na síntese de todas) nos cinco Apóstolos que levaram a Boa Nova aos gregos: André, Pedro, Paulo, Barnabé e João, ou sejam, os transmissores do Conhecimento do Oriente ao Ocidente.

Mas é o próprio Fernando Pessoa quem se refere à referida quadra bandárrica, assinalando-a e interpretando-a em primeira mão de maneira a correlacioná-la com o corpus da Mensagem. Tal aparece no seu Prefácio ao livro Quinto Império, de Augusto Ferreira Gomes. Este jornalista, muito amigo de Pessoa, já antes da feitura desse Prefácio e sobre o tema «Portugal – Vasto Império», realizou no Jornal do Comércio e das Colónias um «Inquérito» em que foram ouvidas diversas personalidades. A resposta de Fernando Pessoa saiu nos números de 28-5 e 5-6-1926, sendo depois reproduzida em 1934 pelo entrevistador no seu livro já assinalado. Poeta constante e ensaísta raramente mas muito dedicado a estudos de Astrologia, Cabala e Profecia, Augusto Ferreira Gomes decerto foi o amigo e companheiro mais constante de Pessoa nos últimos anos da sua vida. Partilhava com ele dos ideais do Quinto Império, do Sebastianismo e do Pensamento Hermético, embora sem a feição tão heterodoxa do seu companheiro de lides e aventuras (como a de colaborar na grande «blague» do desaparecimento do mago inglês Aleister Crowley, em Setembro de 1930, na Boca do Inferno, em Cascais). Publicou, além do Quinto Império (1934), os livros de poesias Rajada Doentia (1914) e Procissional (1924), sendo também autor de No Claro-Escuro das Profecias (1914), onde expôs e interpretou as Profecias de S. João no Apocalipse, de S. Malaquias, de Nostradamus e do Bandarra, de entre outros.

Fernando Pessoa e Augusto Ferreira Gomes

Fernando Pessoa e Augusto Ferreira Gomes

Augusto Ferreira Gomes (1892-1953) foi um excelente gráfico. Trabalhou com António Ferro no S. P. N., depois no S. N. I. e dirigiu graficamente as publicações deste organismo, muito contribuindo para a renovação e a modernização do gosto entre os líteros portugueses. Em grande parte deveu-se ao seu empenhamento a publicação a Mensagem. Revelando o corpus hermeticum desta no Prefácio ao Quinto Império de Ferreira Gomes (Ed. Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1934), escreveu Fernando Pessoa:

“A chave está dada, clara e obscuramente, na primeira quadra do Terceiro Corpo de Profecias do Bandarra, entendendo-se que Bandarra é um nome colectivo, pelo qual se designa, não só o vidente de Trancoso, mas todos quantos viram, por seu exemplo, à mesma luz. Este Terceiro Corpo não é, nem poderia ser, do Bandarra de Trancoso. Dizemos, contudo, que é do Bandarra.

“A quadra é assim:

“Em vós que haveis de ser Quinto

Depois de morto o Segundo,

Minhas profecias fundo

Nestas letras que VOS pinto.”

“A palavra VOS, no quarto verso, tem a variante AQUI em alguns textos. Mas, de qualquer dos modos, a interpretação vem a ser igual.

“Considerando, pelo lema da Tripeça, que todas as profecias têm três tempos distintos, esta será interpretada em relação a três tempos de Portugal, segundo as «letras» são «pintadas». Se as letras são as da palavra VOS, indicam, como se mandou que se soubesse, Vis, Otium, Scientia. E se as letras são as da palavra AQUI, indicam, segundo a mesma ordem, Arma, Quies, Intellectus, que logo se vê serem termos sinónimos dos outros.

“Temos pois que a Nação Portuguesa percorre, em seu caminho imperial, três tempos – o primeiro caracterizado pela Força (Vis) ou as Armas (Arma), o segundo pelo Ócio (Otium) ou o Sossego (Quies), e o terceiro pela Ciência (Scientia) ou a Inteligência (Intellectus). E os tempos e os modos estão indicados nos primeiros dois versos da quadra:

“Em vós que haveis de ser Quinto

Depois de morto o Segundo…”

“No primeiro tempo – a Força ou Armas – trata-se de el-rei D. Manuel o Primeiro, que é o quinto rei da dinastia de Avis, e sucede a D. João o Segundo, depois deste morto. Foi então o auge do nosso período de Força ou Armas, isto é, de poder temporal.

“No segundo tempo – Ócio ou Sossego – trata-se de el-rei D. João o Quinto, que sucede a D. Pedro o Segundo, depois de este morto. Foi então o auge do nosso período de esterilidade rica, do nosso repouso do poder – o ócio ou sossego da profecia.

“No terceiro tempo – Ciência ou Inteligência – trata-se do Quinto Império, que sucederá ao Segundo, que é o de Roma, depois de este morto.

“Quanto ao que quer dizer esta Roma, a cujo fim ou morte se seguirá o Império Português, ou Quinto Império, ou o que seja a Ciência ou Inteligência que definirá a este – não direi se o sei ou o não sei, se o presumo ou o não presumo. Saber seria de mais; presumir seria de menos. Quem puder compreender que compreenda.”

E adianta:

“As profecias são de duas ordens – as que, como a de Daniel e esta do falso Bandarra, têm em si uma grande luz; e as que, como as do vero Bandarra e as do livro presente, têm em si uma grande treva. Aquelas são o fio do labirinto, estas o mesmo labirinto. Umas e outras, porém, entre si se completam. Por umas as outras se esclarecem, tanto quanto pode ser, porque a luz afasta as trevas, mas sem as trevas se não veria a luz. Tão certo é o que se diz em certo passo secreto – que a melhor luz que temos neste mundo não é mais que treva visível…”

O Bandarrismo como Messianismo Profético de teor sebástico/nacional vem assim a relacionar-se com a natureza íntima de Portugal (Nação) e do Português (Indivíduo) por via da Iniciação Mariana, Real ou Cavaleiresca, cuja peanha é o próprio Espírito Santo assinalado  nas quinas chagadas de Cristo-Rei (Sangue Real, Sang Greal, Saint Grial, Santo Graal) , Coroa áurea do Quinto Império Lusófico (Humanidade) marcando a manifestação do Quinto Reino Espiritual sobre a Terra, de quem o Sebastião monarca passado na tragédia e desaparecido na sanha sangrenta, não passou de véu e símbolo de mais alto e transcendente valor a fim ao próprio Messiah ou Avatara de uma Nova Idade do Mundo.

A Iniciação Mariana, a mesma Senhorial encontrando o auge e síntese na maior Dominical ou do Senhor, sendo Arte Real conformada à natureza Cavaleiresca ou Guerreira (em sânscrito, Kshatriya) sendo abeirando a morte na incerteza de peleja, encontra o seu pedestal maior no Culto Templário do Santo Graal e na sua derivada Maçonaria Copta ou Egípcia, esta tendo por fundação mítica o Mistério Ísiaco de seus três MMM, que também são o seu “santo e senha”: MENFIS – MISRAIM – MAISIM, em alusão aos três grandes Templos da época de Akhnaton ou Amenófis IV: um solar, um lunar e outro luni-solar ou andrógino, mas também e sobretudo como alusão à Luz Tríplice do Governo Interno do Mundo de quem fala o próprio Ferreira Gomes no seu No Claro-Escuro das Profecias.

Essas Três Luzes aludem igualmente aos Três Aspectos do ESPÍRITO SANTO, a AVIS ou SIVA anagramaticamente, melhor dito, SHIVA como a Terceira Hipóstase Logóica influindo na criatura humana que, quando receptiva à Sua influência iluminadora, pode tornar-se um Profeta ou “porta-voz” da Sabedoria Divina no mais elevado Plano Arquetipal, e isso através da SABEDORIA (Budhi) – INSPIRAÇÃO (Bodhi) – REVELAÇÃO (Badhi), tanto valendo por Jnana (Conhecimento), Jneia (Conhecedor) e Jnata (Conhecido).

Triângulo da Profecia

O ESPÍRITO SANTO é o Patrono dos Profetas, e a Sua face oriental, SHIVA, designa-O como Soberano dos Kshatriyas (“Jinas da Arca”), os Cavaleiros defensores de toda a Ordem social cuja elaboração sinárquica é realizada como Arte Real, indo visar humanamente o progresso físico e a elevação intelectual e moral dos povos sob a égide de um Governo Único: o do REI DO MUNDO (Melkitsedek, Chakravarti, Pater Rotan, Imperator Mundi), a mais viva e próxima Expressão do TERCEIRO LOGOS.

Muitos autores menos avisados da época em que Fernando Pessoa escreveu os seus textos messiânico/patrióticos, colam sem mais delongas em tendenciosos arroubos patrioteiros a Mensagem a outros textos seus de intervenção social, onde o vate parece indicar o «orgulhosamente sós» pela subida de Portugal ao trono regente reitor exclusivo das nações, particularmente após a «dissolução político-geográfica de Espanha» (a eterna mania trauliteira de alguma má vizinhança que vê mafarricos em maçons, republicanos, espanhóis, etc., e desespera no horror da ausência eterna de um Salazar ou de um Franco, reviralho acanalhado dos que temem a liberdade de ser, a igualdade de princípios e a fraternidade da Humanidade) com a interveniência directa de D. Sebastião, entretanto regressado de um qualquer nevoeiro ou nebuloso vazio geográfico para fundar o seu «Quinto Império», pouco lhes importando que no reinado desse monarca tal adjectivo não existisse, pois só depois do seu desaparecimento trágico ele ter sido criado pelo Padre António Vieira na sua ideia bíblica da translatio imperii. Ainda que tal conceito xenófobo de patrioteiros sem luzes mostre-se aberrante, mesmo monstruoso ante a lógica do Pensamento Humano e até mesmo da Formula Mens Lusitanea, no entanto ele ainda vinga hoje em dia em determinados sectores político-sociais herdeiros do Sebastianismo vermelho oitocentista, como o consignava António Sardinha, o que tem conferido ao mesmo Sebastianismo um carácter utopista, e mais que isso: politicamente reaccionário. Daí ser escarnecido e abjurado por largo sector esclarecido da sociedade, inclusive pelos quase ultranacionalistas que são os movimentos monárquicos e afins, inclusive os perniciosos de políticas extremadas.

Fernando Pessoa rebela-se nos seus escritos contra a influência dominante da Igreja Romana nos negócios do Estado, por via daqueles que vieram a constituir o Estado Novo, e assim exercerem a sua ditadura das mentes e das vontades. Augura a queda futura do Papado; proclama a Religião Messiânica Portuguesa, que é dizer, Universal da Nova Diáspora – a do Espírito Livre. Assombra-se e rebela-se contra a política do Pacto Ibérico de não-agressão estabelecida durante a Ditadura Militar de Óscar Carmona e o rei de Espanha, desfeita (não totalmente) por Salazar em Abril-Maio de 1931 e refeita pelo mesmo com a subida ao poder do Generalíssimo Franco. Fernando Pessoa opõe-se, como muitos outros ilustres e ilustrados que o antecederam, à fusão política de Estados diversos antevendo o perigo social, económico e militar que de tão bombástico caldeamento poderia advir. Faz a diferenciação etno-histórica dos dois países da Península Ibérica e dos vários da Europa, inclusive não esquecendo a diversidade etno-histórica existente no espaço humano e geográfico desses mesmos países. Opõe-se a uma dissolução pura e simples, ou no mínimo a uma alteração radical do mapa político europeu, sem se dar atenção a outras e mais especificidades geo-etno-históricas. Isso equivaleria a uma Sinarquia às avessas, que é dizer, a uma ditadura global do continente, que fatalmente alastraria ao restante Globo, e por isso diferenciou o Império Espiritual Português do Salazarismo aliado de Mussolini, ao mesmo tempo que de Franco e finalmente de Hitler, que se comprometeu não invadir a Península Ibérica. Tais políticas ditatoriais juntas, sabe-se, são a grande causa da II Guerra Mundial e da mudança do mapa geo-político da Europa (principalmente a do Norte, do Centro e do Leste), o que ainda hoje é motivo de inúmeras quezílias onde a razão cala e as armas vomitam desgraça e ódio entre os povos. Apoiaria Fernando Pessoa tais políticas de descontento, de ditadura cada vez mais férrea e de mordaça na razão? Apoiaria ele a política «ultra-narso-nacionalista sob o dédalo tenaz de Roma» do Ministro das Finanças, António de Oliveira Salazar? Duvido, e duvido muito.

São conhecidos três poemas, todos de 1935, de Fernando Pessoa criticando abertamente o Salazarismo e atacando sarcasticamente as mais importantes instituições e conceitos emblemáticos do Regime: «Salazar», uma tríplice sequência, «Isto é o Estado Novo, e o povo…» e «Poema de Amor em Estado Novo», este, datado de 19 de Julho desse ano, é composto por dez quintilhas de que reproduzo as duas últimas estrofes:

E a fé dos nossos maiores?

Forma-a impoluta o consórcio

Entre os padres e os doutores.

Casados o Erro e a Fraude

Já não pode haver divórcio.

*

Que a fé seja sempre viva.

Porque a esperança não é vã!

A fome corporativa

é derrotismo. Alegria!

Hoje o almoço é amanhã.

Em projecto de carta a Adolfo Casaes Monteiro, com data de 31-10-1935, a qual foi reproduzida no Catálogo da Exposição «Fernando Pessoa: o último ano», levada a efeito pela Biblioteca Nacional de Lisboa em Dezembro de 1985, Fernando Pessoa sentindo a censura intelectual da ditadura crescente, desabafa ao amigo: «Desde o discurso que o Salazar fez em 21 de Fevereiro deste ano (…), tudo quanto escrevermos, não só não tem que contrariar os princípios (cuja natureza ignoro) do Estado Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinada às directrizes traçadas pelos orientadores do citado Estado Novo.»

Quanto ao citado poema «Salazar», de 29 de Março de 1935, pode relembrar-se que foi publicado pela primeira vez no jornal O Estado de S. Paulo (Brasil), a 20 de Agosto de 1960, por intervenção de Jorge de Sena. Transcrevo apenas um fragmento que, mantendo o discurso na linha de ataque fulanizado que caracteriza toda a sequência, também envolve a alusão à ausência de liberdade que era a marca primeira do Regime:

Coitadinho

Do tiraninho!

Não bebe vinho,

Nem sequer sozinho…

*

Bebe a verdade

E a liberdade,

E com tal agrado

Que já começa

A escassear no mercado.

Essa ausência de liberdade assegurada pela instituição censória, denuncia-a o vate num importante manuscrito deixado entre os seus muitos papéis e que foi dado à estampa na página 81 do livro Fernando Pessoa – Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, com textos estabelecidos e prefaciados por Jacinto Prado Coelho e Georg Rudolf Lind (Editora Ática, Lisboa, 1966), livro censurado até finais de 1975 em que se publicou o seu texto completo: «Não é que não publique porque não quero: não publico porque não posso. (…) Ora sucede que a maioria das coisas que eu pudesse escrever não poderia ser passada pela Censura. Posso não poder coibir o impulso de escrevê-las: domino facilmente, porque não o tenho, o impulso de as publicar, nem vou importunar os Censores com matéria cuja publicação eles teriam forçosamente que proibir.» Trata-se, como se vê, de um texto que talvez forneça uma das principais chaves explicativas da não publicação, por Fernando Pessoa, de tantos documentos que aparentemente se destinavam a ver a luz do dia.

As tertúlias literárias de Lisboa eram fortemente vigiadas, censuradas e reprimidas pela Polícia de Estado, assim me informou quem delas comparticipou. Já no tempo de Fernando Pessoa não deveria ser diferente, e é mesmo de supor ele que estivesse debaixo da alçada da vigilância apertada da mesma polícia, como elucida num rascunho de carta, dos primeiros dias da Primavera de 1935, ao seu amigo António Marques Matias, revelado pela primeira vez no Catálogo da Exposição «Fernando Pessoa: o último ano»: «Nunca se admire de eu tardar em escrever-lhe, nem com esse tardar se ofenda. À parte o andar eu sempre embrenhado em complicadíssimas crises mentais, acresce que certas circunstâncias externas, a que não consigo ser insensível, me abatem e me perturbam. Tenho estado velho por causa do Estado Novo.»

"Retrato de Fernando Pessoa". Pintura de Mário Botas (1982)

“Retrato de Fernando Pessoa”. Pintura de Mário Botas (1982)

Muitas mais e elucidativas referências do poeta mostrando abertamente o seu descontentamento a Salazar e ao Estado Novo, poderia trazer aqui. Mas não – bastam as que já estão, não vá ainda eu ser acusado de comunista, socialista, jacobino ou coisa que o valha… Deveriam antes dizer: amante da liberdade de expressão e expansão dos povos e sinarquista incontinente!

Também o terá sido Fernando Pessoa, apologista da liberdade premente à difusão expansora do Império Cultural Português, e o que diz em texto coligido por António Quadros, com a referência Portugal, é bem demonstrativo que «sabia separar as águas» e de maneira alguma era adepto do fatal e isolacionista «nacionalismo sebástico fascizante», muito pelo contrário, tais palavras vêm ao encontro da doutrina político-iniciática, dita sinárquica, do seu conhecimento e igualmente de Ferreira Gomes, seu amigo confidente de sempre:

“Ora os laços culturais são de três ordens, se os considerarmos não só como cultural, senão também como políticos. Vimos já (?) que há, primeiro, nações, depois grupos civilizacionais, finalmente a civilização. A determinação do sentido cultural de um país tem, portanto, que definir-se pela sua determinação em relação a si próprio, ao grupo civlilizacional a que pertence, e à civilização em geral.

“Portugal, na determinação do apoio do seu imperialismo cultural, tem que buscar, primeiro, o Brasil, que tem por língua nacional o português.

“Portugal, na determinação do seu apoio em grupo civilizacional, tem que buscar a Ibéria, de cuja personalidade espiritual participa.

“Portugal não difere no género, senão na espécie, das outras regiões da Ibéria. Isto é, os inimigos culturais de Portugal são os inimigos culturais da Ibéria, e vice-versa. Como se trata de grupo civilizacional, a questão, aqui, não é política; e por isso pode haver inimigos políticos de Portugal que o não sejam de Espanha, e de Espanha que o não sejam de Portugal.”

A sua concepção de Império é clara o bastante para ir contra estados mentais rácicos lacrados ao quadrado, antes, ao rectângulo, e o bastante para se aperceber no espírito da letra a tomada do estado Andrógino ou de Perfeição Humana que caracteriza o futuro sinárquico da Civilização adentrando a Consciência do Quinto Reino Espiritual ou Angélico, imediato ao Humano. São de Fernando Pessoa as palavras seguintes retiradas do seu livro Sobre Portugal, editado pela Ática, Lisboa, 1979, as quais revelam bem o que aqui me trouxe – o espírito da Mensagem:

“Todo o Império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de pé, um Cadáver mandando. Só pode realizar utilmente o Império Espiritual a nação que for pequena, e em quem, portanto, nenhuma tentativa de absorção territorial pode nascer, com o crescimento do ideal nacional, vindo por fim a desvirtuar e desviar do seu destino espiritual o original imperialismo psíquico. (…) Criando uma Civilização Espiritual própria, subjugaremos todos os Povos; porque contra as artes e as forças do Espírito não há resistência possível, sobretudo quando elas sejam bem organizadas, fortificadas por almas e generais do Espírito. Criemos um Imperialismo andrógino, reunidor das qualidades masculinas e femininas: Imperialismo que seja cheio de todas as subtilezas do domínio feminino e de todas as forças e estruturações do domínio masculino. Realizemos Apolo espiritualmente.”

II

Pelo livro de Mário Saa, A Invasão dos Judeus, Lisboa, 1925, vem a saber-se que Fernando Pessoa pertenceu a uma família do Fundão por seu quinto avô Sancho Pessoa, o qual fora astrólogo e salmista. Este Sancho Pessoa, natural de Montemor-o-Velho, esteve preso nos calabouços da Inquisição de Coimbra, em 1706 sendo condenado a confisco por ser judeu militante (processo na Torre do Tombo, n.º 9478). Após, deslocou-se para o Fundão onde casou pela terceira vez, dando origem aos Pessoa de Amorim, à família do jornalista Alfredo da Cunha e mais directamente a Fernando Pessoa, que dele é descendente em varonia. E adianta Mário Saa, amigo pessoal do poeta, em texto coligido por António Quadros: «Fernando Pessoa, nós o vemos em recorte feminino e trémulo, aconchegando a luneta, meditando e actuando. Nós o vemos fisionomicamente hebreu, com tendências astrológicas e ocultistas, um verdadeiro sacerdote do Talmude, prudente, cauteloso, tímido, dissimulado em intenções (…) lança-se e oculta-se, esconde-se e prepara novos lances; é um verdadeiro furta-fogo! Tudo isto se revela pelos seus numerosos pseudónimos – pelos que tem e pelos que há-de vir a ter, e… pelos que não se sabe que tem! Além do seu verdadeiro nome, Fernando Pessoa, ele é Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, etc. Isto só verdadeiramente podia lembrar a um indivíduo duma raça oculta, tal a judaica ou a chinesa, que são as que mais contribuem para as associações secretas, para a franco-maçonaria, por exemplo: são as chamadas raças femininas, por excelência».

Aquém de todos os seus heterónimos e personagens fictícias ou não, o que se sabe concretamente de Fernando Pessoa é fornecido em primeira mão por ele próprio, na nota biográfica que sobre si escreveu em 30-3-1935 e a partir da qual os ensaístas pessoanos têm desenvolvido as suas investigações:

“Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório), em 13 de Junho de 1888.

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto, e que foi director-geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral – misto de fidalgos e judeus.

Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: 35 Sonnets (em inglês), 1918; English Poems I-II e English Poems III (em inglês também), 1922, e o livro Mensagem, 1934, premiado pelo Secretariado da Propaganda Nacional, na categoria «Poemas».

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o Prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.”

Irei reter-me aqui, apesar do texto biográfico continuar mas que já publiquei nos meus livros, editados no Brasil, História Oculta de Portugal (2000) e Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo (2002), havendo ainda referências num terceiro, igualmente lançado no Brasil e todos pela Editora Madras de São Paulo, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses).

De todos os seus heterónimos os que mais prevaleceram foram, como se sabe, Alberto Caeiro (o seu Mestre Interno, o “Outro”), Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Para cada um deles, Fernando Pessoa inclusive estabeleceu biografia. Para os descrever correctamente, deverei recorrer aos textos organizados por António Quadros no seu «livro de bolso» Obra em Prosa de Fernando Pessoa – Textos de intervenção social e cultural – A ficção dos heterónimos, integrado na vasta colecção do mesmo tema pessoano editada pela Europa-América. De Alberto Caeiro, diz:

“Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa a (…) de Abril de 1889, e nessa cidade faleceu, tuberculoso, em (…) de (…) 1915. A sua vida, porém, decorreu quase toda numa quinta do Ribatejo (?); só os últimos meses dele foram de novo passados na sua cidade natal. A vida de Caeiro não pode narrar-se, pois que não há nela de que narrar. Seus poemas são o que houve nela de vida. Em tudo mais não houve incidentes, nem há história. A obra de Caeiro representa a reconstrução integral do paganismo, na sua essência absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos, que viveram nele e por isso o não pensaram, o puderam fazer. A obra, porém, e o seu paganismo, não foram nem pensados nem até sentidos: foram vindos com o que quer que seja que é em nós mais profundo que o sentimento ou a razão. Dizer mais fora explicar, o que de nada serve; afirmar menos fora mentir. Toda obra fala por si, com a voz que lhe é própria, e naquela linguagem em que se forma na mente; quem não entende não pode entender, e não há pois que explicar-lhe. É como fazer compreender a alguém um idioma que ele não fala.”

Quanto ao «Sr. Dr. Ricardo Reis é professor de latim (humanidades) num importante colégio americano», diz Pessoa, passando a descrevê-lo:

“O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, e que a ia desenvolvendo. Achei-a bela e calculei interessante se a desenvolvesse segundo princípios que não adopto nem aceito. Ocorreu-me a ideia de a tornar um neoclassicismo «científico» (…) reagi contra duas correntes – tanto contra o romantismo moderno, como contra o neoclassicismo à Maurras (…).”

Sobre o terceiro heterónimo principal, Fernando Pessoa descreve que:

“Álvaro de Campos nasceu em Lisboa, a 13 de Outubro de 1890, e viajou muito pelo Oriente e pela Europa, vivendo principalmente na Escócia.”

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«Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade», escrevia Fernando Pessoa cerca de 1930, e num esboço de carta a Adolfo Casaes Monteiro, de 13-1-1935, esclarece a sua posição interior face à necessidade de criar heterónimos e outras personagens fictícias, inspiradas em pessoas vivas e reais, por um método mental imaginativo intenso a que a Teosofia e o Ocultismo chamam de criação de elementares ou formas-pensamento, cuja alimentação mental constante as tornam cada vez mais dinâmicas, vivas e até mesmo com alguma independência em relação ao seu criador:

“Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo com personalidades fictícias, sonhos meus rigorosamente construídos, visionados com clareza fotográfica, compreendidos por dentro das suas almas. Não tinha eu mais que cinco anos, e, criança isolada e não desejando senão assim estar, já me acompanhavam algumas figuras de meu sonho – um capitão Thibeaut, um Chevalier de Pas – e outros que já me esqueceram, cujo esquecimento, como a imperfeita lembrança daqueles, é uma das grandes saudades da minha vida.

“Isto parece simplesmente aquela imaginação infantil que se entretém com a atribuição de vida a bonecos ou bonecas. Era porém mais: eu não precisava de bonecas para conceber intensamente essas figuras. Claras e visíveis no meu sonho constante, realidades exactamente humanas para mim, qualquer boneco, por irreal, as estragaria. Eram gente.

“Além disto, esta tendência não passou com a infância, desenvolveu-se na adolescência, radicou-se com o crescimento dela, tornou-se finalmente a forma natural do meu espírito. Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha.

“Trata-se, contudo, simplesmente do temperamento dramático elevado ao máximo; escrevendo, em vez de dramas em actos e acção, dramas em almas. Tão simples é, na sua substância, este fenómeno aparentemente tão confuso.

“Não nego, porém – favoreço, até –, a explicação psiquiátrica, mas deve compreender-se que toda a actividade superior do espírito, porque é anormal, é igualmente susceptível de interpretação psiquiátrica. Não me custa admitir que eu seja louco, mas exijo que se compreenda que não sou louco diferentemente de Shakespeare, qualquer que seja o valor relativo dos produtos do lado são da nossa loucura.

“Médium, assim, de mim mesmo, todavia subsisto. Sou, porém, menos real que os outros, menos coeso (?), menos pessoal, eminentemente influenciável por eles. Sou também discípulo de Caeiro, e ainda me lembro do dia – 13 de Março de 1914 – quando, tendo «ouvido pela primeira vez» (isto é, tendo acabado de escrever, de um só hausto de espírito) grande número dos primeiros poemas do Guardador de Rebanhos, imediatamente escrevi, a fio, os seis poemas-intersecções que compõem a Chuva Oblíqua («Orpheu» 2), manifesto e lógico resultado da influência de Caeiro sobre o temperamento de Fernando Pessoa.”

Ainda na mesma sequência mas recorrendo a um outro texto que estava no espólio do vate e foi publicado por Teresa Rita Lopes em Fernando Pessoa et le Drame Symboliste (edição do Centro Cultural Português, Fundação Calouste Gulbenkian, Paris, 1977), transcrevo as suas seguintes palavras:

“Finjo? Não finjo. Se quisesse fingir, para que escreveria isto? Estas coisas passaram-se, garanto; onde se passaram não sei, mas foi tanto quanto neste mundo qualquer cousa se passa, em casas reais, cujas janelas abrem sobre paisagens realmente visíveis. Nunca lá estive – mas acaso sou eu quem escreve?

“Na vossa vida prática, cheia de cousas impossíveis, e que nunca podiam ter acontecido, na vossa vida de sentimento, doméstica ou própria, cheia de cousas de emoção que nunca se sentiram neste mundo, há acaso realidades tão presentes como estas, que talvez julgais indefinidas? Ah, as sombras sois vós e as vossas sensações. A realidade, sendo verdadeira, é assim como me a escreveram estes, e como estes, que escreveram, foram.

“Não me digais que sou médium de espíritos estranhos à terra. Com a terra me quero, e com o seu âmbito azul. O horizonte inclui quanto eu incluo; o resto são os maus sonhos que cada um tem a sós consigo.”

Segue-se o flagrante do seu texto, presumivelmente de 1930:

“Referem os astrólogos os efeitos em todas as cousas à operação de quatro elementos – o fogo, a água, o ar e a terra. Com este sentido poderemos compreender a operação das influências. Uns agem sobre os homens como a terra, soterrando-os e abolindo-os, e esses são os mandantes do mundo. Uns agem sobre os homens como o ar, envolvendo-os e escondendo-os uns dos outros, e esses são os mandantes do além-mundo. Uns agem sobre os homens como a água, que os ensopa e converte em sua mesma substância, e esses são os ideólogos e os filósofos, que dispersam pelos outros as energias da própria alma. Uns agem sobre os homens como o fogo, que queima neles o acidental, e os deixa nus e reais, próprios e verídicos, e esses são os libertadores. Caeiro é dessa raça. Caeiro teve essa força. Que importa que Caeiro seja de mim, se assim é Caeiro?

“Assim, operando sobre Reis, que ainda não havia escrito alguma cousa, fez nascer nele uma forma própria e uma pessoa estética. Assim, operando sobre mim mesmo, me livrou de sombras e farrapos, me deu mais inspiração à inspiração e mais alma à alma. Depois disto, assim prodigiosamente conseguido quem perguntará se Caeiro existiu?”

Para desfechar as citações a essa particularidade dos heterónimos do poeta, segue-se uma outra presumivelmente também de 1930:

“A cada personalidade mais demorada, que o autor destes livros conseguiu viver dentro de si, ele deu uma índole expressiva, e fez dessa personalidade um autor, com um livro, ou livros, com as ideias, as emoções, e a arte dos quais, ele, o autor real (ou porventura aparente, porque não sabemos o que seja a realidade), nada tem, salvo o ter sido, no escrevê-las o médium de figuras que ele próprio criou.

“Tenho, na minha visão a que chamo interior apenas porque chamo exterior a determinado «mundo», plenamente fixas, nítidas conhecidas e distintas, as linhas fisionómicas, os traços de carácter, a vida, a ascendência, nalguns casos a morte, destas personagens. Alguns conheceram-se uns aos outros; outros não. A mim, pessoalmente, nenhum me conheceu, excepto Álvaro de Campos. Mas, se amanhã eu, viajando na América, encontrasse subitamente a pessoa física de Ricardo Reis, que, a meu ver, lá vive, nenhum gesto de pasmo me sairia da alma para o corpo; estava certo tudo, mas, antes disso, já estava certo. O que é a vida?”

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Fernando António Nogueira Pessoa, ao criar os seus heterónimos, e nada indica que não tenham existido realmente como pessoas que ele terá adaptado às suas particulares formas de pensamento que animou e deu autonomia, mediador psicomental de si mesmo, por via da imaginação criadora, por eles também expõe veladamente «os três caminhos para o Oculto» (em seu Ensaio sobre a Iniciação) e que são «o Mágico, o Místico e o Alquímico».

Nesta apreensão, poderá instalar-se o heterónimo Ricardo Reis na acção da Via Física, Mágica, Karma-Marga (que na Idade Média era retratada pelos trovadores nas Cantigas de Amigo), tendo sido o heterónimo que mais tempo durou quanto a influência da Magia na vida de Pessoa.

O heterónimo Álvaro de Campos em conexão com o Caminho Místico, Emocional ou Psíquico, Bhakti-Marga (retratada nas Cantigas de Amor), e finalmente Alberto Caeiro, o Mestre de todos, o «Outro», como «Alva Coroada» com a Via Alquímica, Jnana-Marga (assinalada nas Cantigas de Santa Maria), a Realização Mental ou Espiritual.

HETERÓNIMOS

Tendo, pois, reunido e alinhado potencial e manifestamente esses três aspectos (essencialmente Espírito – Alma – Corpo), Fernando Pessoa transformara-se num Iniciado Real, de tal maneira que o Ocultismo deixara de ter segredos para ele e pelo que, decerto, sabia como ocultá-lo em sua Obra.

Com tudo quanto fica por dizer, mas ficando estabelecidas as linhas-mestras ao desenvolvimento do tema, dou o arremate final com excerto de texto do vate, provavelmente datado de 1930:

“Tornando-me assim, pelo menos um louco que sonha alto, pelo mais, não um só escritor, mas toda uma literatura, quando não contribuísse para me divertir, o que para mim já era bastante, contribuo talvez para engrandecer o universo, porque quem, morrendo, deixa escrito um verso belo deixou mais ricos os céus e a terra e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente.”

III

Sabe-se que foi enorme e distendeu-se por toda a sua vida e obra intelectual o interesse e vocação de Fernando Pessoa pelo Ocultismo. Aliás, o seu pensamento literário e a sua forma de escrever quase, ou mesmo, arquetípica, só poderão ser interpretados com correcção à luz do Ocultismo com que norteou o seu viver e forma de estar na vida. Disso há provas sobejas… traduziu obras teosóficas, rosacrucianas, maçónicas, alquímicas e astrológicas, sobretudo nos anos 20 do seu século editadas pela Livraria Clássica Editora, em Lisboa, ocultando-se em vários pseudónimos, sendo o mais conhecido o de Fernando de Castro. Interessou-se por essas correntes de pensamento sem que todavia temporalmente se filiasse a alguma, exceptuando a sua relação por essa época com a Golden Dawn, organização britânica de cariz mágico-rosacruciano. Desenvolveu oral e literariamente os temas segundo a sua particular maneira de ver e os interpretar. Converteu o Sebastianismo Messiânico numa forma de Ocultismo Nacional, e nisto reside a sua singularidade.

No espólio literário que deixou na sua célebre «arca» – um baú ao canto do quarto modesto – encontra-se nos seus escritos inúmeros desenvolvimentos ocultistas, e a sua modesta biblioteca é maioritariamente constituída de livros dessa natureza, dentre eles a assinalar uma cópia do original – na Biblioteca Nacional de Lisboa – da Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal, escrita em 1732 pelo alquimista Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, obra que também fazia parte do cardápio da Biblioteca do Convento de Santa Maria do Carmelo de Cascais, talvez indo daí para aquela após o abandono do imóvel religioso depois de 1834.

Estudou o espiritismo à luz das faculdades psicomentais que ia desenvolvendo. Visto só coincidirem na aparência, logo se desinteressou e mesmo criticou severamente, mas com critério intelectual ou didáctico, a atenção desmesurada que nele se dava ao desenvolvimento do medianimismo, como condição psíquica pessoal perfeitamente passiva em detrimento da acção mental. O mesmo aconteceu com o teosofismo, que redundou em fracasso total com a sua catequese messiânica na figura de Krishnamurti (recusando tal papel forçado de «avatara») e a vulgarização, para não dizer profanação, do nome e presença dos Mestres de Amor-Sabedoria e da Iniciação Real. O teosofismo passional e em muito aparentado ao espiritismo, abjurados por Fernando Pessoa, nada tinha a ver com a verdadeira Teosofia trazida ao Ocidente pela grande Iniciada Helena Petrovna Blavatsky, que aliás ele elogiou com palavras rasgadas de raro apreço.

Como Rafael Baldaya, pseudónimo, exerceu a Astrologia e praticou a Alquimia da Alma, que é dizer, a Via Interna de transformação da vida-energia em vida-consciência. Procurou o seu Mestre e encontrou-o! O mais… sortilégio e mistério.

Interessou-se e muito pelo espírito tradicional da Maçonaria, mesmo que em tempo algum fosse afiliado nela. Interessava-lhe unicamente o esoterismo que continha, e nada mais. Amante da liberdade de expressão e progresso dos povos, opôs-se publicamente com a maior vivacidade ao projecto de lei da Assembleia Nacional que pretendia a extinção das Sociedades Secretas em Portugal, logo com a Maçonaria à cabeça. Chocou muita gente essa sua atitude, muita gente que tinha lido a Mensagem e passado a considerá-lo um nacionalista ortodoxo, desses que beijam batina e aplaudem o totalitarismo, espécie de descendente d´algum desses lunáticos messianistas que no século XIX em Lisboa invadiam o alto de Santa Catarina de lunetas fixadas na barra do Tejo para ver chegar a nau que trazia D. Sebastião de terras distantes e incertas. Afinal só haviam entendido a letra do Poema, não a sua essência iniciática, verdadeiramente eclética e universalista. Jamais Fernando Pessoa foi maçom, mas jamais Fernando Pessoa ignorou o esoterismo que a Maçonaria continha, como rama da Tradição Iniciática das Idades.

Com efeito, em 1935 o deputado Dr. José Cabral, membro do Estado Novo muito ligado ao Bispado, apresentou na Assembleia Nacional um projecto de lei tendo como objectivo a extinção de todas as Sociedades Secretas no País, a começar pela Maçonaria. Foi então que Fernando Pessoa publicou no Diário de Lisboa, em 4-2-1935, o artigo “Associações Secretas” (mais tarde publicado na forma de opúsculo, em duas edições, com os títulos: A Maçonaria vista por Fernando Pessoa, s.d., e Um Projecto de Lei, s.d.), em que defendia a existência da Ordem Maçónica e atacava o projecto de lei do deputado José Cabral. Essa sua atitude pública causou o maior escândalo no meio conservador lisboeta. Ele que, no ano anterior, fora galardoado com o Prémio Antero de Quental, dado pelo Secretariado de Propaganda Nacional através de António Ferro, pelo seu livro Mensagem, de feição patriótica, o que não pouco contribuiu para desconcertar muita gente e gerar polémica acesa que, bem parece, não se esgotou até hoje. Escreveu ainda um segundo artigo desenvolvendo o assunto, para ser publicado no mesmo jornal, mas que foi cortado pela censura.

"Associações Secretas", artigo de primeira página assinado por Fernando pessoa no "Diário de Lisboa" de 4 de Fevereiro de 1934

“Associações secretas”, artigo assinado por Fernando Pessoa na primeira página do “Diário de Lisboa” de 4 de Fevereiro de 1935

Esse seu interesse pela parte esotérica ou oculta da Maçonaria, assim como a sua oposição viva a qualquer forma repressiva e censória, é ele mesmo quem o diz no seguinte excerto do seu longo artigo citado:

“Estreou-se a Assembleia Nacional, do ponto de vista legislativo, com a apresentação, por um deputado, de um projecto de lei sobre «associações secretas». De tal ordem é o projecto, tanto em natureza como em conteúdo, que não há que felicitar o actual Parlamento por lhe ter sido dada essa estreia. Antes de dizer-lhe Absit omen!, ou seja, em português, Longe vá o agouro!

“Começo por uma referência pessoal, que cuido, por necessária, não dever evitar. Não sou mação, nem pertenço a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente. Não sou porém antimação, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica. A estas duas circunstâncias, que em certo modo me habilitam a poder ser imparcial na matéria, acresce a de que, por virtude de certos estudos meus, cuja natureza confina com a parte oculta da Maçonaria – parte que nada tem de político ou social –, fui necessariamente levado a estudar também esse assunto – assunto muito belo, mas muito difícil, sobretudo para quem o estuda de fora. Tendo eu, porém, certa preparação, cuja natureza me não proponho indicar, pude ir, embora lentamente, compreendendo o que lia e sabendo meditar o que compreendia. Posso hoje dizer, sem que use de excesso de vaidade, que pouca gente haverá fora da Maçonaria, aqui ou em qualquer outra parte, que tanto tenha conseguido entranhar-se na alma daquela vida, e portanto, e derivadamente, nos seus aspectos por assim dizer externos.”

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Apesar de tudo esse projecto de lei passou, não foi chumbado pela Assembleia como já se esperava. A partir de então, que quisesse leccionar em Portugal teria primeiro que assinar um documento afirmando-se bom católico favorável ao Estado Novo, inimigo e denunciador da Maçonaria e doutras Sociedades Secretas. Quem não assinasse a petição passaria a ser considerado suspeito pela Polícia de Estado e um eterno desempregado. Assim aconteceu, por exemplo, com o professor Agostinho da Silva, que recusando-se a assinar tal monstruosidade em 1940 viu-se expulso da Faculdade de Letras do Porto e obrigado a emigrar, iniciando diáspora cultural no mundo de expressão portuguesa.

Como já disse, a organização esotérica a que efectivamente Fernando Pessoa se filiou foi a britânica Golden Dawn, de cariz mágico-rosacruciano. Realizou todos os seus graus postulares  e em seguida, como era do seu feitio, deixou-a!… Contudo, ela foi elo de ligação para depois, em 1930, corresponder-se com um outro que nela também fora filiado: o famoso e controverso mago inglês Aleister Crowley, que viria a «suicidar-se» na Boca do Inferno, em Cascais, para depois mandar correspondência da Alemanha a Fernando Pessoa. Já tratei deste assunto no meu livro História Oculta de Portugal para aqui ter de o repetir.

Mas não foi esse o único interesse cascalense do poeta. Ele gostava deveras de Cascais, nomeadamente da Via Alquímica exposta na monumentalidade principal desta vila, ao mesmo tempo desvelada e velada. Tanto assim é que em 9 de Setembro de 1929 Fernando Pessoa alimenta o projecto de sair de Lisboa, fixando-se nos arredores, de preferência em Cascais, a fim de realizar a sua obra definitiva. E em 16 de Setembro de 1932 requer, em concurso documental, o lugar de conservador-bibliotecário do Museu-Biblioteca Conde de Castro Guimarães, no qual não é provido.

Mais, terá sido em Cascais e não em Sintra de quem essa é «prolongamento peninsular», o primeiro encontro físico de Fernando Pessoa com a dignidade da oculta mas soberana Ordem de Mariz. Vários indícios o apontam, mas também me é apontado o silêncio que devo respeitar.

A relação de Fernando Pessoa com a Maçonaria, como se viu, termina no seu interesse pelo lado simbólico e esotérico da mesma. O mais, é nada! Dar o seu nome hoje em dia a Lojas franco-maçónicas, vale tanto como apelidar – à boca pequena ou larga – a Quinta de Regaleira de Sintra de «Palácio Maçónico», mesmo que mandada construir por um católico e monárquico assumido, o Dr. António Augusto de Carvalho Monteiro, ou então de chamar a Maomé um devorador incontido de toucinho!… Actualmente, dizem alguns pouco avisados, «só é iniciado quem for maçom». Nada mais errado! Isso mesmo me foi apontado há uns anos em Portugal, e depois em certos sectores maçónicos brasileiros, acerca do Professor Henrique José de Souza (15-09-1883 – 09-09-1963) ter sido Iniciado porque fora maçom. Tive de esclarecer que a sua passagem pela Maçonaria fora a mais acidental possível, ainda jovem e pela mão do seu pai e do seu avô, no início da segunda década do século XX, levado à suprema Potência Maçónica do Brasil, o Grande Oriente do Brasil então sediado no Rio de Janeiro. E que esse episódio esporádico desfechou pouco depois com o seu desquite da Maçonaria, pelo menos da sua parte visível ou social, e se depois manteve algum vínculo à mesma Instituição foi só como membro honorário. Henrique José de Souza nascera Iniciado, tal como Fernando Pessoa Iniciado nascera. O único trabalho inicial que tiveram foi o de reassumirem ou despertarem essa condição interior que já portavam consigo, ou seja, o de reintegrarem-se no estatuto da sua verdadeira Consciência espiritual, e para isso contaram com o apoio de factores externos, de Mestres Reais porque já plenamente reintegrados em si mesmos. Não há maior nem menor no Caminho da Iniciação Verdadeira: tão-só os mais adiantados e os menos adiantados, rumo à Integração na sua Divindade e desta na Divindade plena. O mais, é nada!

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Mas o que é a Iniciação? Logo, o que é o Iniciado? Será que basta assinar uma ficha de filiação em alguma organização do género para automaticamente se ser iniciado? Será que ser iniciado é possuir muitos conhecimentos e segredos desconhecidos do vulgo? Afinal, o que é a Iniciação e o que é o Iniciado?

Para definir essa condição e esse estado, nada melhor que as palavras do próprio Fernando Pessoa num seu texto sem data mas com a indicação Bandarra:

“Aquilo a que se chama «iniciação» é de três espécies: Há, primeiro, e no nível ínfimo, a iniciação exotérica, análoga à iniciação maçónica, e de que esta é o tipo mais baixo: é a iniciação dada a quem propriamente se não encaminhou para ela, nem para ela se preparou (porque sugestão de outrem, o impulso externo, e a simples curiosidade não são preparações), e que serve para pôr o indivíduo em condições de poder dar-se o caminho esotérico, de poder buscar, pelo contacto, embora esotérico, com símbolos e emblemas, o verdadeiro caminho. O mais exterior e nulo dos sistemas iniciáticos – como o é hoje a Maçonaria – serve este fim, logo que tenha conservado os símbolos pelos quais em nós se infiltra o primeiro conhecimento do oculto. O único fim com que os Rosa-Cruzes instituíram a Maçonaria exotérica é o de pôr muito gente em contacto com, por assim dizer, o aspecto externo da verdade oculta, podendo assim aqueles, que se sintam aptos, ascender a ela lentamente.

“Há, depois, a iniciação esotérica. Difere da primeira, em que tem de ser buscada pelo discípulo, e por ele desejada e preparada em si mesmo. «Quando o discípulo está pronto», diz o velho lema dos ocultistas, «o mestre está pronto também».

“Há, por fim, a iniciação divina. Esta, não a dão nem exotéricos ou esotéricos menores, como a exotérica, nem até Mestres ou Esotéricos Maiores, como a esotérica; vem directamente, e por cima destes todos, das mesmas mãos, do que chamamos Deus. O tipo supremo desta iniciação é o de Jesus, a quem Deus, de nascença, converteu em sua mesma Essência, tornando-o Cristo.”

E adianta num outro fragmento sem data, de difícil leitura:

“A iniciação comporta três tipos – (1) a conquista da consciência etérica, para devido comportamento contra o astral e os sentidos; (2) a sublimação dos sentidos, misticamente; (3) o conhecimento do íntimo e do lado divino das coisas.”

E no seu Ensaio sobre a Iniciação:

“Há três tipos distintos de iniciação – simbólica ou externa, intelectual (exterior à interna), e vital (interna). Nas iniciações simbólicas, que reforçam a vontade e em consequência conduzem à Magia como realização, o candidato não passa por estádios de compreensão, mas, por assim dizer, por estádios de intuição; está continuamente na superfície e na aparência das coisas e, muito embora atinja o mais alto grau seja em que ordem ou ordens se inicie, esse alto grau não precisa de corresponder (geralmente não corresponde) a qualquer coisa como um grau paralelo em qualquer das iniciações internas. Nas iniciações intelectuais, que reforçam o intelecto e por conseguinte conduzem ao Misticismo como realização, o candidato passa por estádios de compreensão, mas não por estádios na vida; pode saber muito, mas não carece de viver o que sabe no mesmo nível em que o sabe. Nas iniciações vitais, que reforçam a emoção e portanto conduzem à Alquimia como realização, o candidato vive isso mesmo que sente e sabe.

“Mas o verdadeiro significado da iniciação é o de ser este mundo visível em que vivemos um símbolo e uma sombra, e o de ser esta vida que conhecemos por intermédio dos sentidos uma morte e um sono, e o de ser quanto vemos uma ilusão. A iniciação é o desfazer – um desfazer gradual e parcial – dessa ilusão. A razão para o seu segredo é não estar a maioria dos homens preparada para o compreender, razão por que, se for tornado público, o não saberão entender e farão confusões. A razão para ser simbólica é não ser a iniciação um conhecimento mas uma vida e por conseguinte deverem os homens pensar pela sua cabeça o que os símbolos mostram, pois de tal modo não apenas aprenderão as palavras em que se exprimem, mas viverão por si próprios as suas vidas.

“Ordens de iniciação: (1) através de símbolos e (mais tarde) explicações em si próprias simbólicas; (2) através de doutrina simbólica, verdadeira no seu plano, e explicações, já não simbólicas; (3) através de comunicação directa, embora não necessariamente falada ou declaradamente comunicada.

“Não digo que estas coisas representam uma verdade e não digo que não a representam. Digo que este é o significado da iniciação, que é assim que a iniciação existe e que é para esses fins que ela existe.”

Posso agora, mais uma vez, definir a Iniciação como transformação da vida-energia em vida-consciência, individual (Integração) e colectiva (Sinarquia), o que se realiza gradual e ordenadamente. Sendo a Iniciação de natureza tríplice, do mais exterior para o mais interior, ter-se-á:

Triângulo da Iniciação

A maioria dos «iniciados» que hoje enchem a praça pública e a despeito do carisma pessoal de alguns, as suas palavras e acções induzem aparentar não passarem de «simbólicos», quanto muito. Vivem o peso fatal e o valor fatalista da matéria, e tudo quanto de intelectual possam adquirir revela-se ser para proveito próprio incluindo a autopromoção, nisto não raro atropelando-se o próximo que seja obstáculo aos fins colimados no segredo do íntimo. É natural que assim seja: carece o sentimento, e com ele o respeito à Humanidade que todos somos. Trata-se do muito conhecer sem nada sentir; do muito conhecer sem nada viver. Falta o filtro da Consciência assimiladora de quanto acaso possa encher e até estagnar o intelecto. O Iniciado não diz que o seja… simplesmente É! Trata-se de uma conquista adquirida muito íntima, nada tem a ver com desconcertos ou dispersões psico-intelectivas por se tratar de um natural estado de Consciência espiritual em que se está. Quem diz que é, não é… e quem não diz que é, poderá ser. Afirmava repreensivo em São Paulo, em 5-8-1961, o Professor Henrique José de Souza:

“O que quereis dos Mestres de Sabedoria? Apenas a erudição passiva, que conduz a uma tremenda confusão mental?

“Ou quereis accionar a mola da Vontade a fim de vos converterdes em agentes realmente activos, operando em prol da Evolução Humana? É isto que a Lei espera de vós!”

Fernando Pessoa dispõe ainda os Graus Iniciáticos que conduzem à verdadeira Realização incluídos em misteriosas Ordens Iniciáticas secretas ou ocultas, repartidas por três espaços consignados, no seu tratado O Caminho da Serpente, com tudo isso parecendo-me simbólico de uma única Ordem Interna que ao longo dos séculos  tem-se manifestado ciclicamente através de Ordens Externas vocacionadas à Obra Taumaturgica da Portugalidade para o Mundo. Refiro-me à Soberana ORDEM DE MARIZ ou ORDINI MAJOREM, que ele oculta sob o nome “Cordo Maris” (in Mensagem) e “Mater Desiderata” (in doc. m. 66C-14). Assim se dispõe essa definição singular de Fernando Pessoa:

Ordens de Fernando Pessoa

Para terminar esta introdução à Iniciação Oculta mais que Pessoana da Portugalidade Iniciática, ou do Portugal Sagrado, deixando os considerando expostos ao desenvolvimento do estimado leitor, pois que a minha função é apontar o Caminho e não realizá-lo por alguém, o que resultaria impossível, ademais não me considerando minimamente mahatma, guru ou coisa que o valha no valor incondicional de vida-consciência que esses predispostos têm, resta-me desfechar com a Prece de O Apelo ao Divino de Fernando Pessoa, escrita provavelmente em 1912, ano da ligação do poeta ao movimento da Renascença Portuguesa e que se inscreve no período dos poemas místicos de Além-Deus.

O APELO AO DIVINO

(PRECE)

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o teu corpo.

Dá-me a alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

 IV… V

– O Quinto Império. O futuro de Portugal – que não calculo, mas sei – está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamo. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma cousa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade. – Fernando Pessoa na reprodução da entrevista dada por ele a António Alves Martins in Revista Portuguesa, n.os 23/24, de 13-10-1923.

Prosseguindo o mesmo tema futurista e messiânico de Portugal, por essa altura, nos anos 20, o poeta vaticinador escreveu alguns fragmentos para um livro com o título de Comentário maior às Profecias do Bandarra, avançando na Parte – 5, O Império Português, com as seguintes palavras:

“De todos os povos da Europa somos aquele em que é menor o ódio a outras raças ou a outras nações. É sabido de todos, e de muitos censurado, o pouco que nos afastamos das raças de cor diferente, quando (…).

“O nosso antigo impulso imperial – embora o viciasse, como a todos os impulsos de domínio material, o egoísmo humano – pretendia, antes de mais nada, a descoberta de novas terras, e depois a conversão ao cristianismo das populações delas. É injusto supor-se que a ideia de conquista tivesse de princípio grande parte na nossa vida imperial.

“Nunca tivemos uma ânsia verdadeira de conquista. Nossa posição geográfica, de uma parte, nossa pequenez, de outra, no-lo inibiam. Fruto dessas condições mésicas, somos assim. O que de ódio nasceu em nós contra castelhanos, contra franceses, contra ingleses (contra alemães nunca verdadeiramente chegámos a ter ódio, tão pouco somos dados a isso), derivou de justas causas, de agressões, de perigos e de explorações de que temos sido vítimas.

“(Verify) Os índios da Índia inglesa dizem que são índios, os da Índia portuguesa que são portugueses. Nisto, que não provém de qualquer cálculo nosso, está a chave do nosso possível domínio futuro. Porque a essência do grande imperialismo é o converter os outros em nossa substância, o converter os outros em nós mesmos. Assim nos aumentamos, ao passo que o imperialismo de conquista só aumenta os nossos terrenos, e o de expansão o número de os imperialismos da Besta da Cabala e do Apocalipse.”

E adianta nos mesmos fragmentos, mas em texto com a indicação Bandarra:

“Não é pois para uma absorção mística que avançamos, sendo para a conjunção clara dos dois poderes da Força, dos dois lados do Conhecimento. Far-se-á a aparente conquista da inteligência material pela espiritual e da espiritual pela material”. Que é dizer, a união ou metástase da mente superior espiritual com a mente inferior material, do mental com o cérebro, da Sabedoria com o Conhecimento, do Espiritual com o Temporal, da causa com o efeito, da assimilação com a vivência, pois quem muito assimila e nada vive continua inapto em termos de experiência, logo não sabendo como aplicar o muito ou pouco assimilado e, mais que isso, como sistematizá-lo e enquadrá-lo na vivência imediata, a única via por que se consegue experiência e sabedoria. Isto vale tanto individual como colectivamente.

“De aí o ser o Império Português ao mesmo tempo um império de cultura e o mesmo império universal, que é outra coisa.

“A «paz» que o Bandarra diz que haverá em todo o Mundo será a paz de não haver diferenças religiosas, a de «um só deus será conhecido», como ele diz ainda.

“E isto tudo durará o tempo que tiver que durar, porque nada há perene ou eterno, e o mesmo Deus que criou este Mundo não é porventura mais que um de muitos «deuses», criador de um de muitos «universos», misteriosamente coexistentes, todos eles porventura descritíveis como infinitos e eternos. O Mistério – di-lo o mais Alto Ocultismo – é maior não só que o Universo, mas que o mesmo Deus.”

Mas já antes, em textos provavelmente de 1918 e face à descrença e escassa fé geral na Missão Espiritual de Portugal recém-saído de uma Guerra Mundial em que fora seriamente lesado moral e socialmente, garantia que “os deuses não morreram: o que morreu foi a nossa visão deles. Não se foram: deixámos de os ver. Ou fechámos os olhos, ou entre eles e nós uma névoa qualquer se entremeteu. Subsistem, vivem como viveram, com a mesma divindade e a mesma calma.

“Adentro do paganismo não há heresias. Pode haver ateísmo só.

“A religião cristã é essencialmente dogmática, no sentido de que tem princípios assentes, aos quais o crente tem, dentro de estreitos limites, que subordinar-se. No paganismo não é assim. A sua acção imaginativa criadora não se sente presa. Pode inventar um belo mito, que, se na verdade for tão belo ou insinuador, entrará na religião. Tão humana comunhão com a vida dos deuses não é possível no cristianismo. O cristão católico tem a liberdade de inventar aparecimentos de Maria a este ou àquele, mas há severos limites às suas faculdades mitopeicas.

“O termo «mito» tem dois sentidos. Há o mito que é dado como história, e há o mito que é dado como fábula. O grego que inventa determinado detalhe da vida de determinado deus faz o mito fábula.

“Assim o pagão é criador consciente dos seus deuses, enquanto o cristão o é inconscientemente, e como sem querer.”

O «Paganismo Superior» de Fernando Pessoa afigura-se-me Religião-Sabedoria, a mais pura e universal forma de Fé capaz de unificar em si os princípios espirituais do Oriente (Budismo) e do Ocidente (Cristianismo), alusão que ele mesmo faz, apesar de críptica, no seu texto, possivelmente de 1915, com a menção O Paganismo Superior.

Essas duas correntes tradicionais de espiritualidade fusionam-se na Arquitectura e no Romance de SINTRA, o que me leva, mais uma vez, à Profecia desta: «Quem nasce em Portugal é por Missão ou Castigo»! Será Portugal um Refugium Peccatorum, “Lugar de Castigo”, mas no sentido de purgação, de elevação, de destruição dos erros ou Karma individual e colectivo, em si contendo e reflectindo bioplasticamente todas as venturas e desventuras do restante Corpo europeu, por ser aqui o último estágio da Mónada europeia antes de ir mais além, na Rota Sudoeste, a caminho do Quinto Continente, do Quinto Império evolucional ou a Nova Lusitânia. Mas será também Portugal um Refugium Sanctorum, “Lugar de Santidade”, no sentido de salvação da saúde mental, coracional e física daqueles Filhos da Luz, Lusos  ou Assuras humanizados que têm, ao longo dos tempos, impulsionado a sua Evolução e do seu Povo para estágios mais latos e prósperos tanto espirituais como sociais, assim se redimindo de seu Castigo assumido Missão. Esta se expressa pelo Paganismo Superior, ou melhor, pela Religião-Sabedoria indistinguindo crenças, raças, cores e posições sociais, o que tem sido a Diáspora Espiritual e Humana dos Portugueses no Mundo, e que deverá continuar a ser na medida em que todos, a começar pelos mais esclarecidos, queiram contribuir a favor do Progresso e Evolução da Humanidade tomando por assento ou partida este PORTO-GRAAL, conforme está grafado no sinal rodado da carta de doação de Tomar à Ordem dos Templários por D. Afonso Henriques, e também no de Sintra  doada à mesma Ordem pelo mesmo monarca. Economicamente nada temos para dar, tomara termos para nós, mas culturalmente, por via do Pensamento Português, temos e muito ainda a dar. Só depois estará cumprida, de vez, a Missão de Portugal.

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Não aprecio aqueles que têm Fernando Pessoa por «autor reaccionário». A cultura desses, por vezes farta, não passa do que lêem e não aprofundam ou tampouco descodificam com o necessário enquadramento no tempo necessário ao surgimento dos diversos escritos do vate. Seja como for, creio já ter provado que mesmo politicamente Fernando Pessoa poderá ter sido um «supra-nacionalista», sim, essencialmente metafísico, mas jamais apoiante de ditadores e reaccionários como os há hoje, e até mais que no seu tempo, alguns hipocritamente escondidos por detrás das «melhores intenções democráticas». São lobos disfarçados com peles de cordeiros, porém, com a cauda de fora…

Creio que também já demonstrei que o seu «sebastianismo messiânico» consistia em simbolismo mítico de realidade maiores só explicáveis à luz da Teurgia e da Teosofia, esse mesmo Paganismo Superior, nada tendo a ver com fascizantes e neuróticas concepções mediatas do mesmo, o que resultaria uma aberração em todos os sentidos. É ele mesmo, Fernando Pessoa, quem o diz na sua obra já citada, Sobre Portugal:

“O sebastianismo, fundamentalmente, o que é? É um movimento religioso, feito em volta de uma figura nacional, no sentido dum mito.

“No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico – como, por um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica – mas em que não é absurdo confiar.

“D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo da ilha longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica, evidentemente, um renascimento anunciado por elementos de decadência, por restos da Noite onde viveu a Nacionalidade.”

Nesse sentido, o esoterista Manuel J. R. Tavares no seu precioso estudo A Missão de Portugal, Sintra, s/d mas que presumo não ir mais longe que 1982-84, tece o importante comentário:

“O Sebastianismo deve ser entendido sob dois pontos de vista: um de ordem puramente política, que teve a sua raiz durante os 60 anos de domínio Espanhol e que, actualmente, tem o seu negativíssimo reflexo nalguns grupos desejosos de verem a Nação liderada por um homem forte, por um salvador da Pátria, que conduziria este povo – já de si tão causticado – na observância estrita da “Lei” e da “Ordem” (com certeza por meios violentos e brutais e não por uma prática pedagógica) e abriria facilmente caminho a uma ditadura; o outro aspecto diz respeito à superação dos quatro planos da Personalidade e concomitante integração no quinto, o plano da plena expressão do Ego, da Alma. Daí o falar-se no 5.º Império como Reino das Almas (ou da Alma) e não, como alguns pensam, em Império material. E nesta perspectiva a vinda do Desejado adquire um valor universalista.”

É, pois, com este valor universalista que dou o arremedo final a este estudo por via da Profecia de Fernando Pessoa, extraída de A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico, in A Águia, n.º 12, II série:

PROFECIA

E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas «daquilo que os sonhos são feitos». E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal ante-arremedo, realizar-se-á divinamente.

Os Deuses caídos do Tibete – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Dez 8 2015 

Cabeçalho

Sintra, 8.12.2015

Se houve país no mundo envolto em lendas e mistérios assombrando os ocidentais com as narrativas trazidas daí pelos exploradores europeus, com primazia em 1627 para o padre jesuíta Estêvão Cacela e o seu companheiro padre João Cabral, portugueses algarvio e beirão, sem dúvida foi o Tibete. Rodeado pelas neves eternas dos Himalaias, com florestas de silêncio só interrompido pelo canto dos pássaros, com planaltos de lonjura onde a vista se perde na distância, verdes ou nevados conforme as estações, com as suas lamasarias alvas erguidas junto a estreitos caminhos de montanhas onde os precipícios espreitam a cada passo, onde os rios caudalosos penetram e saem de cavernas de carrancas escancaradas cuja fundura se perde nas entranhas da Terra, ouve-se aqui e ali o berro do yak, familiar do boi almiscarado, nas pastagens onde os cavalos selvagens galopam nervosos e livres, tão felizes como as crianças brincando com os seus papagaios de papel com desenhos exóticos e cores garridas esvoaçando em sopros de liberdade que o vento norte traz, e mais além os casebres de colmo, madeira e terra onde vive o povo de eterno sorriso e hospitalidade pródiga que o faz simples como o mais inocente, sempre temeroso das consequências de eventuais maus actos que a eterna psalmodia dos lamas traz-lhes sempre viva na consciência naturalmente religiosa. Era um povo feliz, era um país de felicidade onde deuses e homens conviviam na maior harmónica estreiteza, conforme o próprio Mahatma Koot Hoomi afirma na Carta n.º 98 das Cartas dos Mahatmas M. e K.H.:

“Desde há muitos séculos que temos no Tibete um povo moralizado de coração puro, simples, felizmente ainda não possuído pela civilização e, por conseguinte, absorvido pelos seus vícios. Desde há muitos séculos que o Tibete é o último recanto do Globo ainda não inteiramente corrompido de maneira a impedir a fusão de duas atmosferas – a física e a espiritual.”

Também por isso o Tibete era e ainda é consignado “Tecto do Mundo”, mais que pela sua posição geográfica pela sua postura espiritual, cujo domínio irradia-se muito para além dele a toda a Terra. Por isto o Tibete (nome englobando duas palavras hebraicas, Teth e Beth, ou seja, “Tecto” e “Morada”) era conhecido pelo seu nome original de Bod-Yul, “País do Conhecimento”, como o Professor Henrique José de Souza explicou na sua obra O Verdadeiro Caminho da Iniciação:

“A mesma H.P.B. procurou demonstrar a diferença entre “Budismo e Buddismo”, ou seja, que “o exotérico deve ser escrito com “dd”, e o esotérico com um só “d”. Nós, porém, preferimos distingui-lo, em nosso idioma, de modo diferente: Budismo (com “u”), o exotérico ou religioso, etc., e Bodismo (com “o”) para o esotérico, filosófico, etc., muito anterior a Gautama, o Buda. Mesmo assim, erram todos aqueles que chamam de Gautamismo ao primeiro, pois o Bodismo pregado pelo referido Ser é o segundo, como verdadeira essência de todas as religiões e filosofias. Por isso foi conservado no seio das Grandes Fraternidades como Doutrina Secreta, Sabedoria Iniciática das Idades, Conhecimento Perfeito, Iluminação, etc. O termo Bodismo tanto procede do sânscrito Bodi, com o significado de Iluminação, Conhecimento, etc., como do tibetano Bod, que possui o mesmíssimo sentido. E a prova é que ao Tibete se lhe dá o nome de Bod-Yul, isto é, País do Conhecimento (da Sabedoria Perfeita).”

O Professor Henrique José de Souza diz mais no seu comentário ao capítulo I de O Tibete e a Teosofia de Mário Roso de Luna (in revista Dhâranâ n.º 70 – Outubro a Dezembro de 1931):

“O território conhecido com o nome de Tibete (Thibet) possui um outro oculto, ou seja, o de País de Bod-Yul (daí a frase “língua de Bod”, para aquela que se fala em tal país). O verdadeiro significado de Tibete é “Telhado do Mundo”. Da palavra Bod-Yul provém Bhante-Yaul, ou o nome que se dá à famosa Fraternidade dos Irmãos da Grande Loja Branca do Himalaia. Por isso mesmo é que se conhece qualquer dos seus preclaros Membros como um Bhante-Yaul.

“O Planalto do Pamir – centro orográfico de toda a Ásia, donde partem as principais montanhas como Tian-Chan, Kuen-Lung, Karakorum, Himalaias, etc. – é o berço da Raça Ária – segundo Roso de Luna e outros sábios ocidentais. O célebre viajante chinês Hien-Sang denomina-o de Pamito, e os indígenas de Bami-duniah, que significa “Tecto ou Telhado do Mundo”. Não só é o mais elevado planalto do Mundo – onde floresceu há milénios a mais brilhante civilização de que nos falam as velhas tradições orientais – como também é o ponto misterioso escolhido pelos Adeptos para os seus “Retiros Privados”.

“Querendo dar uma prova mais cabal do verdadeiro significado da palavra Tibete, vamos buscá-la na misteriosa língua hebraica cuja Cabala fornece, aos que a sabem interpretar, um mundo de revelações em todas as questões da vida. Senão, vejamos: a palavra Tibete, se quiséssemos escrevê-la em hebreu, seria com as três seguintes letras: Thet, Iod (ou Jod, que é o mesmo) e Beth.

“Ora, Thet é a 9.ª letra e lâmina do Tarot, O Ermitão, O Adepto, etc., etc., cujas ideias a Cabala interpreta como: Sabedoria, Protecção, Circunspecção, etc. Hieroglificamente, é representada pelo Tecto ou Telhado. Quanto a Iod, é a 10.ª letra e lâmina do Tarot (A Roda da Fortuna), cujo hieróglifo antigo representava-a por um Índex (ideia de governo ou comando). 10 é ainda a 10.ª Sephiroth – Malkuth ou o “Reino”, etc. O Beth é a 2.ª letra e lâmina do Tarot (A Papisa). Hieroglificamente, é representada pela boca humana, como órgão da palavra. Do mesmo modo, significa: Casa, Santuário e toda a concavidade (gruta, garganta, furna, etc., etc.). Possuímos, portanto, material bastante para fazermos – em ligeira síntese – uma interpretação cabalística da palavra Tibete, como seja: Telhado do Mundo, Santuário do Mundo, Tecto ou Telhado protector do Mundo (tecto, em si, já possui a ideia de protecção, abrigo, etc., contra as chuvas e outras tormentas que possam afligir o Homem).

“Estendendo mais a nossa interpretação, encontramos: o Tibete é o Santuário do Mundo, onde se acham os Adeptos ou Super-Homens – Senhores da Palavra Sagrada (a Sabedoria dos Deuses, Teosofia, etc.) como Protectores, Defensores ou Guias da Humanidade. Mais ainda: o Tibete é o lugar sacrossanto onde se acha o “Governo Oculto do Mundo” (lembre-se o Iod, hieroglificamente representado por um Índex que dá a ideia de comando ou governo). Nem podia deixar de ser essa a interpretação – pouco importa que outros não a tivessem feito anteriormente – porquanto o Tibete é, de facto, “o berço das humanas civilizações”.

“E com isso se pode fazer uma pálida ideia do que possa ser o conteúdo da última obra do imortal Mário Roso de Luna, a qual chamamos – por nossa vez – de “telhado ou cumeeira do colossal edifício literário do grande génio do nosso século”.”

Lhasa - Bod-Yul

Adeptos Independentes ou Homens Perfeitos como Mestres da Humanidade residindo em seus Retiros Privados no Tibete profundo, eram originalmente os Lamas que desde o Norte da Índia introduziram no Tibete o sistema do Budismo Esotérico ou Mahayana (“Grande Barca”), também chamado Vajrayana (“Veículo de Diamante”). O Mahayana possuía dois caminhos de prática: o Sutrayana, postulando o aperfeiçoamento individual e colectivo pelo acúmulo gradual de méritos ou virtudes e de sabedoria acompanhando o desenvolvimento paulatino da consciência; e o Vajrayana, indicando a conquista da Iluminação pessoal e colectiva como meta suprema do Caminho da Iniciação. Alcançada a meta, o Iniciado tornava-se Lha, “Ser Vivente ou Imortal”, termo na raiz do nome Lama e mesmo de Lhassa, capital do Tibete, como sendo a “Cidade dos Seres Viventes” representados na pessoa do Dalai-Lama. Hoje, o termo Lama é usado indistintamente na mais profana vulgarização como perda do sentido original, como diz o Professor Henrique José de Souza em seu estudo O Mistério do Santo Graal (in revista Dhâranâ n.º 2, ano XXIX, Maio/Junho de 1954):

“Nesse mesmo país o termo “lama” aplica-se a quase todas as profissões, a começar pela dos “coveiros”, ou seja, os incumbidos de reduzir a pedaços os cadáveres que devem ser, depois, atirados aos corvos e outros animais. Acontece, porém, que ninguém deve confundir – por exemplo – um “lama vulgar” com um “Lama Perfeito”, no Tibete mais conhecido por Nadjorpa, do mesmo modo que na Índia um simples faquir (fakir) com um Yogui, que é um verdadeiro Adepto (não nos referimos aos das outras Hierarquias em função na Terra, e sim aos homens que se tornaram dessa categoria à custa de esforços próprios, mas de qualquer modo auxiliados por Aqueles). Daí se chamar aos Adeptos de “Homens Perfeitos”.”

Por sua parte, Helena Petrovna Blavatsky dá as seguintes interpretações de Lama e Lha no seu Glossário Teosófico:

Lama (Tib.) – Escreve-se “Clama”. Este título, quando aplicado devidamente, corresponde apenas aos sacerdotes de graus superiores, aqueles que podem oficiar como gurus nos mosteiros. Desgraçadamente, cada membro comum do gedun (clero) chama-se ou permite que o chamem de “Lama”. O verdadeiro Lama é um Gelong ordenado e três vezes ordenado. Desde a reforma feita por Tsong-kha-pa, vários abusos ocorreram na teocracia do país. Há “Lamas astrólogos”, os chakhan ou tsikhan (de tsigan, “cigano”) comuns, e “Lamas adivinhos”, de uma condição tal que lhes é permitido casarem-se e não pertencerem absolutamente ao clero. Contudo, há muito poucos no Tibete oriental, pertencendo principalmente ao Tibete ocidental e a certas seitas que nada têm a ver com os Gelukpas ou “Barretes Amarelos”. Infelizmente, os orientalistas, que quase nada sabem do verdadeiro estado de coisas do Tibete, confundem o Choichong da Lamaseria (Lhassa) de Gurmakhayas – os Iniciados esotéricos – com os charlatães e dugpas (feiticeiros) da seita dos bhons.

Lha (Tib.) – Espíritos das Esferas mais elevadas; desta palavra deriva o nome de Lhassa, residência do Dalai-Lama. O título de Lha é dado frequentemente a alguns Nadjorpas (santos e yoguis Adeptos) que alcançaram grandes poderes ocultos. Doutrina Secreta, II, 25: Lha é um termo antigo das regiões situadas além dos Himalayas; significa “Espírito”, um Ser Celestial ou Super-Humano qualquer e compreende toda a série de Hierarquias Celestes, desde o Arcanjo ou Dhyani até ao Anjo de Treva ou Espírito Terrestre.”

Lamas tibetanos

A religião Bhon ou dos “Barretes Vermelhos” que Tsong-Khapa (1357-1419) intentou reformar através da sua Escola de Arhats ou Gelukpas, surgiu no Tibete durante os séculos X e XI com forte influência animista propensa a práticas psíquicas irrecomendáveis e que até hoje é considerada “uma forma não-ortodoxa do Budismo”, ou seja, fora da Ordem e da Regra do Budismo e do Bodismo tradicionais. O seu aparecimento foi consequência de uma tragédia ocorrida no Tibete no século X e que envolveu a própria Grande Confraria Branca dos Bhante-Yauls ou Jauls, “Irmãos de Pureza”, e os seus discípulos, os Lamas Gelukpas, já muito próximos do Adeptado. As repercussões kármicas dessa Tragédia Tibetana fazem-se sentir até hoje no “país das neves eternas”, mas também nas reencarnações posteriores dos envolvidos, todas elas dramáticas até à hora feliz do Deus AKBEL os redimir em 23 de Março de 1963. Data apoteótica assinalada como TRIUNFO DO TRONO DE DEUS ou VITÓRIA DOS BHANTE-JAULS. De maneira sucinta mas consciente do inédito que se seguirá, passo a descrever essa Tragédia de tão grande importância na Obra do Eterno na Face da Terra.

Após a Tragédia do Gólgota ocorrida com Jesus, o Cristo, os Bhante-Jauls de categoria menor ou discípulos, ainda assim de natureza ASSURA ou Mental, dirigiram-se inicialmente para Srinagar, Norte da Índia, e daí foram repartidos por 7 outros Mosteiros todos num aro em volta do Templo de Jara-Lhan-Khang-Lhagpa ou Jara-Lagpa (“Templo de Mercúrio”) no Tibete Central, onde estavam os originais Mestres Bhante-Jauls de natureza MAKARA ou Espiritual, portanto, um 8.º Posto Central manifestado (apesar de ser um Lhakang, “Templo Subterrâneo”) cuja missão era criar o Novo Pramantha ou Ciclo de Evolução através dos discípulos novamente reunidos em torno da Grande Loja Branca. Os 777 Assuras foram repartidos em grupos de 111 por esses Mosteiros, Choikongs ou Ashrams, em conformidade às suas aptidões e evolução já alcançada. Por exemplo, os de natureza mais emocional iam para o 5.º Mosteiro e os de condição mais mental iam para o 4.º Mosteiro. Fosse como fosse, todos eles percorriam paulatinamente os 7 Templos até chegarem ao 8.º, já novamente reintegrados à sua natureza superior, e aí iriam penetrar nos seus veículos espirituais em uma perfeita integração ou alinhamento Corpo – Alma – Espírito. Para os do 5.º Mosteiro, o percurso começava aí passando ao 4.º e indo até ao 7.º; para os do 4.º, passavam ao 3.º indo paulatinamente até ao 7.º, e assim sucessivamente, tomando posse das 7 Ciências Sagradas e dos respectivos 7 Atributos, transformando-se em detentores da Sabedoria Universal e da inteira Perfeição Interior. Tais Ciências e respectivos Atributos exerciam-se e apuravam-se nos seguintes do Sistema Geográfico Hindu-Tibetano:

8 – SRINAGAR (“Lugar dos Jinas”, Externo, Sabedoria Universal)

1 – SIMLAH (Sol – Alquimia – Saber)

2 – LEH (Lua – Arte – Beleza)

3 – GARTOCK (Marte – Política – Bondade)

4 – LADAK (Mercúrio – Mecânica – Pureza)

5 – NARINGOL (Júpiter – Literatura – Riqueza)

6 – LHASSA (Vénus – Filosofia – Ventura)

7 – TJIGAD-JÉ (Saturno – Teurgia – Sublimação)

8 – JARA-LAGPA (“Templo de Mercúrio, Interno, Perfeição Universal)

Sistema Geográfico

Sobre este assunto, o Venerável Mestre JHS (Henrique José de Souza) proferiu em Carta-Revelação de 19.05.1958:

“No centro do 1.º Sistema, no Templo Tibetano, haviam 222 Irmãos. Nos sete Templos laterais, haviam 777. Todos como expressão máxima do 4.º Sistema… mesmo tendo retrocedido. Quando se chamou aos Makaras de Munindras, também se fazia um grande e excelso Trabalho redentor. Munindras como Discípulos dos Bhante-Jauls. Makaras como os próprios Bhante-Jauls. Na porta do Santuário, quando eu benzia a água para a minha contraparte distribuir entre os mesmos, chamava-os de “Discípulos dos Bhante-Jauls”. A Tragédia do Templo Tibetano está envolvida em tudo isso. Uma das meditações a ser feita, é aquela da razão de ser do termo Munindras. Agora digo apenas que Muni-Indras equivale a “Místicos da Terra” ou os seus Adeptos. Sim, os Munindras será as Gentes ou Adeptos do 5.º Sistema. Como já se conhece, os Munindras são os Seres internos do 5.º Sistema e os Assuras os externos, ou os que formam o círculo dessa natureza, tal como acontecia no Tibete. Munindras, pois, para o 5.º (Sistema) e Makaras para o 6.º.”

A comunicação entre os vários Mosteiros, alguns muito distantes uns dos outros, era feita de diversos modos e talvez o mais singular fosse o dos mensageiros ou correios que eram os corredores de longo passo precisamente chamados Long-pas ou Lung-gom-pas, vulgarmente apodados “Lamas voadores”, sobre os quais diz ainda o Professor Henrique José de Souza no seu artigo O Mistério do Santo Graal:

“O referido termo tibetano Long-pas, faz lembrar o francês long pas ou “passos longos, compridos, rápidos”, que no caso vertente seria bem empregado para os referidos LAMAS (Lama, Lamaísmo, Lhassa, etc., provém do termo LHA que quer dizer “Espírito”). Em verdade, os mesmos viajam numa velocidade extraordinária, além do mais, porque assim o fazem quase sem tocar no solo, muitas vezes com três e mais palmos de altura. Chame-se ao fenómeno de levitação, como se tem constatado algumas vezes na História do Espiritualismo, assim como em nossa própria Obra na presença de perto de cem pessoas. Para os tibetanos, o termo Long ou Lung-pas, como se viu, quer dizer “voadores”.

“Voltando aos “Lamas voadores”, tal poder, embora que hereditário, exige alguns anos de exercícios esforçados. Um deles é o de se colocar num lugar acima do solo, uns três ou quatro palmos, e daí atirar-se usando apenas dos joelhos, pois que o resto do corpo não deve tocar no solo… Quando já senhores de semelhante poder, escolhem uma estrela (já se vê, que outro anterior não a tenha escolhido, como se fosse uma faixa hertziana, qual acontece com as estações de rádio). E para ela olham enquanto viajam, recitando um Mantram (Dharani) ou Hino. Quando tais viagens são feitas durante o dia, eles procuram ver a sua estrela imaginariamente. Entendido está que ninguém lhes deve dirigir a palavra quando por eles passam. E a prova é que as caravanas param e os seus componentes, em sinal de respeito, no chão se prostram de joelhos… O facto é que se os mesmos falassem (coisa impossível) viriam ter ao solo, o que indica a prática do Pranayama (ou da retenção do ar nos pulmões). Falar, como se vê, obrigaria a respirar e o fenómeno desapareceria.”

Long-pas

No ano 900 d. C. os Bhante-Jauls realizavam a sua Iniciação Colectiva nos sete Templos em torno do oitavo central, no Sistema Geográfico Hindu-Tibetano, com tudo decorrendo normal, harmónica e pacificamente. Essa preparação iniciática era feita com Rituais em sintonia com o Mundo Celeste ou Segundo Logos, já se cantava o Odissonai e realizava-se a Yoga dos Cinco Elementos. Entoavam-se Mantrans como o Bhúdico, de Agni e outros, havendo bailados acompanhados de palavras sagradas, como o Bailado de Krishna, de Srinagar, etc., tudo visando à Transformação do Corpo, à Superação da Alma e à Metástase do Espírito na sua Fonte Original que é o próprio Logos particularizado como Mónada Divina.

A essa altura os 777 Munindras em formas duais já estavam praticamente reintegrados nas suas dignidades primitivas. Havia chegado a hora de passar-se do objectivo espiritual ao material ou prático de todo aquele trabalho, que durou desde o ano 900 até 985 da nossa Era. Os 777 casais deveriam dar nascimento a 777 crianças privilegiadas, para formarem a Corte de Maitreya inaugurando o Novo Pramantha. Mas a vocação dos Bhante-Jauls era toda ela interior e não exterior, fazendo jus ao seu nome de “Irmãos de Pureza”, e devido a essas características recusaram cumprir o que determinava a Lei, que era a geração de novos seres. Havia entre eles um “egoísmo místico”: procuravam integrar-se no Mundo Celeste e desaparecerem para sempre no Além-Akasha, deixando a Humanidade entregue à sua sorte.

O poder desse conjunto harmonioso acabou atraindo a atenção de LUZBEL, o Ishvara ou Logos Revoltado que caíra da Cadeia Lunar na Geração Terrestre por sonegar a Ordem do Eterno Oitavo Logos em prosseguir a Evolução a que ele próprio dera início nesse período longínquo da História do Universo. E a atenção de LUZBEL virou-se para esse Sistema Geográfico, mormente para o 8.º Templo de Mercúrio (Sol Oculto).

Pois sim, nesse Mosteiro Sedote ou Badagas (Bhantulan) manifestado sobre a Terra viviam os 222 Makaras dirigentes dos 777 Assuras em volta. Estavam sob a direcção suprema dos Gémeos Espirituais que entretanto reencarnaram e viviam aí. Os seus nomes eram MI e DA ou DAVA. MI era o nome do SOL, e DA ou DAVA era o da LUA. MIDA ou MIDAVA representava o ANDRÓGINO PERFEITO no Segundo Trono manifestado na Terra, o Terceiro Trono, como GÉMEOS ESPIRITUAIS ou ANDRÓGINO EM SEPARADO, mesmo sendo PERFEITO.

De facto, os Gémeos Espiritual MI e DA estavam destinados a ser avatarizados pelo mesmo MAITREYA, o CHRISTUS, ao lado de sua excelsa contraparte LAKSHAMI ou MORIAH, liderando os Bhante-Jauls que gerariam a Geração do Novo Pramantha, cuja formação fora interrompida pela Tragédia do Gólgota. Retomava-se no Oriente o que deveria já estar criado no Médio Oriente a caminho da sua manifestação no Ocidente… a Humanidade de Maitreya, com este à dianteira.

Mas os Bhante-Jauls de Jara-Lagpa recusaram veementemente tal missão. Nascia assim a semente da discórdia, em breve tomando proporções inimagináveis.

Entretanto, aparecia no cenário hindu-tibetano um personagem que iria ter papel decisivo no destino dos Bhante-Jauls: Padma Sambhava. Considerado o maior Místico do tempo, ele havia-se recolhido como ermitão em uma floresta e praticado Yoga até alcançar um grau de santidade ou virtude e poder que o Tibete jamais vira. Ao alcançar o elevadíssimo nível vibratório dos Logos ou Dhyan-Choans, o 3.º Luzeiro Luzbel ou Maha-Sura aproveitou a “frecha” do seu “egoísmo místico” para passar a vibrar nele fazendo avatara. Reconhecido unanimemente como santo e sábio, o grande Místico foi ter ao Templo de Jara-Lagpa e aí foi aceite como sumo-sacerdote do mesmo. Assim, “o Diabo disfarçado de Santo” ou “a sombra do Arcano 9 como o Diabo que se fez Ermitão”, nas palavras do Mestre JHS, em breve iria mostrar a sua verdadeira natureza.

A intenção de Luzbel avatarizando Padma Sambhava era a de tornar-se Dirigente Espiritual e Temporal do Mundo, como Dhyan-Choan desta 4.ª Cadeia Terrestre sob a égide de Marte. Para isso, necessitava que as suas Hostes de Barishads assúricos (Anjos revoltosos) que o acompanharam na Revolta contra o Trono na 3.ª Cadeia Lunar, acabando todos por cair na Geração Humana ou no Sexo já na presente Cadeia, nascessem no ambiente privilegiado dos Bhante-Jauls, do consórcio amoroso entre os pares cujos rebentos seriam aqueles que iriam dominar toda a Terra.

Padma Sambhava

Dessa maneira Luzbel iria impor a sua Corte à de Maitreya, ou melhor, à de Akbel, de quem Maitreya era Avatara, indo anular a este e com isso anulando a formação legítima e normal do Pramantha, ficando este e Maitreya subordinados ao “Diabo travestido de Santo”. Ele tinha pressa em conseguir os seus intentos velados, e assim, ante os Munindras que já estavam no último degrau da escala evolucional quase habilitados a receber a suprema coroação monádica, levou-os a praticarem actos que conduzissem a conquistar o Céu antes do tempo regular, de maneira violenta e virulenta. A verdade é que com esses actos foram novamente separados os veículos anímicos dos espirituais dos Munindras, num desalinho ainda maior que anteriormente, e quando tomaram consciência de que tinham sido enganados já era demasiado tarde, porque a revolta, a desarmonia, a queda e a destruição haviam-se tornado irreversíveis.

Qual foi o método utilizado por Luzbel? A magia sexual. Passamos a explicar como terá procedido. Ele agiu exclusivamente junto dos 111 Makaras em formas duais, que foram quem iniciou a revolta arrastando os 777 Assuras em formas duais, ao inverso do que acontecera na Tragédia Atlante. Padma Sambhava, aliás, Luzbel enlouqueceu os Makaras ao envolvê-los na grande maya ou ilusão de inverterem todas as Yogas transformando-as de puramente espirituais em bestialmente materiais, ou melhor, sexuais. Ao seu método deu o nome genérico de “Yoga do Dragão”, que os Bhante-Jauls aceitaram acreditando que com ela teriam menor esforço e mais rapidamente atingiriam o Céu. Resultado: criaram-se magias tântricas e tétricas, a bestialidade sexual campeou dentro dos mosteiros e com uns contra os outros praticavam-se livremente os estupros, os assassinatos, os crimes de toda a espécie, e quando quiseram mais, a loucura colectiva provocada pela magia negra levou-os a atacar o 8.º Templo e a assassinar os Gémeos Espirituais.

A principal das Yogas pervertidas foi a dos “Cinco Elementos”, tendo-se trocado a meia-lua akáshica pela meia-lua apásica para revigorar a potência sexual, a qual em breve dominaria inteiramente o Bhante-Jaul dessa maneira cego pelo sexo desregrado em detrimento do mental. Esse processo de inversão foi chamado de Djin-Gara (“Deus invertido”) ou Badana-Yoga (“Espírito invertido”), o que deu na Taragupta-Mara (“Sabedoria invertida”), base de todas as yogas tântricas de foro sexual que existem até hoje. É assim que o Kulârnava-Tantra afirma que “a União com Deus só se obtém pela união sexual dos devotos”, e o Guhyasamâja-Tantra chega mesmo a dizer: “Ninguém alcançará a Perfeição com exercícios morosos e cansativos, porque a Perfeição alcança-se facilmente pela satisfação de todos os desejos” ou apetites carnais, sem olhar a meios morais para os satisfazer.

Alinhamento - Desalinhamento

ALINHAMENTO (INTEGRAÇÃO):

Os três Chakras (Centros Vitais) Raiz (Muladhara), Cardíaco (Anahata) e Coronário (Sahasrara) expressivos de Espírito Santo, Filho e Pai estão alinhados entre si como Actividade Criadora, Amor-Sabedoria e Poder da Vontade, integrados à Mónada Divina que no Homem expressa o Absoluto. Fohat (de cima), Prana (do meio) e Kundalini (de baixo), ou seja, Electricidade, Vitalidade e Electromagnetismo como os 3 Fogos Cósmicos reunidos na composição humana, estão “casados” harmoniosamente entre si, com a Energia Celeste (Fohat) unida à Força Terrestre (Kundalini) temperada pelo Alento de Vida (Prana) no coração. No plano imediato das manifestações humanas, revela-se como Saúde Física (Raiz), Amor e Sabedoria da Alma (Cardíaco) e Poder de Vontade do Espírito (Coronário).

DESALINHAMENTO (DESINTEGRAÇÃO):

A Inteligência está embotada no Chakra Coronário, a Afectividade está embotada no Chakra Cardíaco, e ambas – inteligência e afecto – inteiramente focadas na Sexualidade (Chakra Raiz), por norma sobrexcitada por descontrole de líbido activada por Kundalini sem timão ou controle. A atenção mental e emocional focadas no exclusivo padrão sexual – por uso excessivo, acompanhado ou só, da prática libidinosa – provoca a sobrexcitação de Kundalini que assim age livremente sobre a mente e o coração de quem dela se torna escravo sem o mínimo controlo. É assim que se vêm hoje em dia os furiosos mentecaptos, isto é, mens captus, mente captada ou cortada, e todo o vocabulário provocatório e boçal (de bouça, vísceras) por que se manifestam, na realidade, desalinhados ou desintegrados consigo mesmos e assim mesmo psicossocialmente com a comunidade humana. Manifestam-se pelo impropério, pela intriga, pela injúria, argamassa dos assassinos morais, ao mesmo tempo que apresentam notáveis debilidades orgânicas, psicológicas e mentais que os tolhem, afectando mesmo a estrutura física. Estes são centrípetos (Tamas) ao contrário dos primeiros que são centrífugos (Satva). Mas para que Satva e Tamas (Espírito e Corpo) estejam equilibrados entre si, necessário se torna aquilo que falta a todo o desalinhado: a Alma equilibrante (Rajas), palco da Evolução Humana, e com ela o Amor e Sabedoria que verdadeiramente torna o Homem nobre e digno. Por essa ausência é que a vox populi costuma apodar acertadamente os desalinhados de “desalmados”, isto é, sem alma.

Tudo isso leva-me àquelas outras palavras do Mestre Koot Hoomi endereçadas a Percy Sinnett em 13.8.1882, contidas nas Cartas dos Mahatmas (Carta n.º 127):

“Uma das suas cartas começa por uma citação de uma das minhas: “Lembre-se não haver, no Homem, nenhum Princípio permanente”. Frase que encontro seguida por uma observação sua: “E então o sexto e o sétimo Princípios?” A isto, respondo: nem Budhi e nem Atmã jamais estiveram no Homem. Pequeno axioma metafísico que pode estudar vantajosamente em Plutarco e Anaxágoras. Este com o seu Noûs Autokrates (Mónada Autocriada), o Espírito retirando de si mesmo a sua potencialidade, o Noûs que ele reconhecia nómena (nómeno ou “essência”), enquanto o primeiro ensinava, cobrindo-se com a autoridade de Platão e de Pitágoras, que o Demonium ou esse Noûs permanece sempre fora do corpo, que flutua acima dele adornando, por assim dizer, a parte superior da cabeça do Homem; somente o vulgo é que acredita que está nele. Budha disse: “Tendes de libertar-vos de todos os elementos impermanentes que compõem o corpo, para que o vosso corpo se torne permanente. O permanente nunca se confunde com o impermanente, se bem que os dois sejam um. Quando todas as aparências exteriores tiverem sido rejeitadas, restará esse único Princípio de Vida existindo independente de todos os fenómenos exteriores. Ele é o Fogo que brilha na Luz Eterna, após o combustível esgotar-se e a chama apagar-se; porque esse Fogo não é a chama e nem o combustível, e nem mesmo reside no interior de um ou de outro dos dois, mas acima, muito acima e por toda a parte” (Paranirvana Sutra Koan, XXXIX).

“… Você deseja adquirir dons. Meta-se ao trabalho e tente desenvolver a lucidez. Esta não é um dom mas uma possibilidade universal, comum a todos. Como disse Luke Burke, “os idiotas e os cães têm-na, frequentemente num grau bastante notável, como o homem mais intelectual”. E ainda que nem os idiotas, nem os cães empreguem as suas faculdades de raciocínio, todavia são deixadas livres as suas percepções instintivas naturais.”

Corria o ano 985 da nossa Era quando se deu o ataque ao Templo de Jara-Lagpa, indo marcar a queda dos Bhante-Jauls e consequentemente do Tibete. No furor da loucura, o Templo foi incendiado e destruído. Com ele, a Bandeira de Akdorge e os Painéis de Agharta, a Estátua de Maitreya despedaçada, tudo rasgado e incinerado. Os Gémeos Espirituais MI e DA, acusados por Padma Sambhava e os Bhante-Jauls de os terem feito cair no sexo, quando na verdade eram os maiores inocentes do caso, foram aprisionados, torturados, assassinados e esquartejados, ela pelas mulheres e ele pelos homens, tendo-lhe arrancado o sexo, o espetado num pau e com ele adiante de uma espécie de cortejo macabro entre uivos e risos ferozes, seguiram todos até junto de um penhasco próximo, donde atiraram no abismo os despojos mortais de ambos, falo decepado incluído. O que sobrou dos seus corpos seria depois recolhido e levado num cofre para o Mundo de Duat por Seres daí.

No momento em que os Bhante-Jauls enlouquecidos despedaçavam a Estátua de Maitreya, a 777 passos do Templo Tibetano, instigados por Padma Sambhava, aliás, Luzbel, AKDORGE em corpo astro-etérico descarregou sobre ele o Poder de Agharta e petrificou-o numa nova estátua viva. Esse sacrifício dos Gémeos Espirituais impediu a manifestação do Avatara com o Excelso Bodhisattva AKDORGE confundido ao Budha MAITREYA, indo assim desaparecer para sempre desse lugar profanado passando a agir exclusivamente nesse outro Templo de Jara-Lagpa na 4.ª Dimensão ou Mundo dos Jinas, juntamente com as suas duas Colunas Vivas AKADIR e KADIR.

Guerreiro Celeste

Ao verem o seu líder petrificado subitamente, os Bhante-Jauls tomaram consciência dos seus actos hediondos e caíram em si. A maya terrível desfizera-se e sobrava só a terrível realidade. O mal estava feito, restava o remorso profundo que os acompanharia por muitas vidas sentindo-se feras assassinas e ervas daninhas indignas da condição humana.

Como castigo kármico dessa queda fragosa e do deicídio praticado nas pessoas dos Gémeos Espirituais, doravante os Bhante-Jauls passaram a reencarnar em formas sub-humanas, como seja, eles como “homens animais” e elas como “mulheres flores”. A sua consciência humana avatarizou formas animais e formas vegetais, sempre corroídos pelo remorso e procurando por essas formas, muitíssimo abaixo da sua condição ou dignidade espiritual, a remissão dos seus pecados ao Sexto Senhor AKBEL. Tal vaga de reencarnações em formas abjectas durou até 1924 e terminou em 1963, com a Redenção dos Bhante-Jauls graças aos inauditos esforços de séculos e séculos do Deus AKBEL. Ainda assim, aqui e ali, vez por outra aparecem estes ou aqueles Assuras ainda ligados ao estado animal, mas por certo já não serão antigos Bhante-Jauls mas membros do povo tibetano que tomou parte activa na tragédia.

O evento trágico do Tibete está registado num Livro Jina, nos termos seguintes:

A TRAGÉDIA DO TEMPLO TIBETANO – Secção Central, Caijah – Códice XVIII

Bhante-Jauls: Tenebroso momento foi aquele em que uma revoada de corvos brancos pela sua origem, e negros pela sua queda, abandonou o Templo quase em ruínas. Todo o ambiente exterior – árvores, pássaros e outros animais – dava impressão de estar chorando. Uma aridez imensa confundia o Templo com as areias do deserto próximo, e o famoso BHANTULAN, o lugar onde viveram os Bhante-Jauls, foi destruído, ficando aos olhos do mundo: cinzas e desolação.

Após os dramáticos acontecimentos instalou-se o caos psicossocial e a feitiçaria campeou nas planícies sombrias antes luminosas do Tibete. A mancha negra do Karma impôs-se no seu destino para sempre. Mas, Deus não dorme e atendendo às particularidades singulares do país e do povo, essencialmente propenso à espiritualidade agora afogada no psiquismo necromântico dos bhons como rescaldo kármico da tragédia, fez com que aparecesse entre os tibetanos, nos séculos XIV-XV, a mais luminosa e transcendente figura que reformaria psicossocialmente os hábitos e costumes degenerados do Tibete e daria um golpe mortal nas dominantes práticas necromânticas: Tsong-Khapa, indistintamente apodado Je Rimptoché em breve reconhecido encarnação do Dhyani-Budha Amiba ou Amitaba, veículo anímico ou Shambogakaya do Budha Primordial (Adi Budha). Reformou a antiga Escola Kadampa ou da “Palavra de Sabedoria”, baseada no Bodismo Esotérico (Mahayana) fundada pelo mestre budista hindu Atisha, nos séculos X-XI, cujas instruções orais chamadas Lamrim, “etapas do Caminho da Iluminação”, não se perderam por as ter deixados impressas em livro. Com a sua reforma, Tsong-Khapa fundou a Escola Gelug, Gelugpa ou Gelukpa originalmente constituída de Arhats ou Seres de elevada evolução já no umbral do Adeptado, idênticos aos Chrestus no Ocidente cuja sabedoria e compaixão distingue-os largamente dos comuns mortais. Assim, a mancha negra psicossocial do Karma foi apagada, mesmo não se podendo apagar o Karma uma vez contraído.

Sobre Tsong-Khapa, diz Helena Petrovna Blavatsky no volume VI de A Doutrina Secreta (edição brasileira): “A maior parte dos Bhants do Himalaia eram brahmanes e ascetas ários. Até à época de Tsong-Kha-pa não houve encarnações de Sang-gyas (Budha) no Tibete. Tsong-Khapa ensinou os sinais que permitiam reconhecer a presença em um corpo humano de um dos Budhas Celestes (Dhyan-Choans), e proibiu severamente a necromancia. Isto provocou um cisma entre os Lamas, e os descontentes fizeram aliança com os naturais Bhons para combater o Lamaísmo reformado. Ainda hoje formam uma seita poderosa que pratica os mais abomináveis ritos. Com permissão do Tda-shu ou Teshu-Lama (o “Papa” do Lamaísmo), e para evitar discórdias, algumas centenas de Lohans (Rahats, Arhans, Arhats) foram estabelecer-se na China, no famoso mosteiro nas imediações de Tien-tk-ai, onde cedo grangearam fama lendária que ainda hoje se conserva. Ouros Lohans que os haviam precedido, foram “os discípulos de Tathâgata (“Aquele que veio”, o Budha Gotama), famosos no Mundo inteiro e cognominados “os de doce voz”, pela sua habilidade em cantar Mantrans com mágico e prodigioso efeito” (Chinese Buddhism, pág. 177)”.

Observando-se que Tsong-Khapa instituiu a observância litúrgica dos Dhyan-Choans e dos Dhyanis-Budhas entre os “barretes amarelos” (Gelukpa), tem-se nisso a presença operática da Teurgia ou Obra Divina em que a actual do Ocidente tem a sua origem, nomeadamente a exercida entre os Teúrgicos portugueses mas adaptada ao biorritmo desta Nova Era de Humanidade em conformidade aos postulados esotéricos ou teosóficos do Professor Henrique José de Souza (1883-1963), ele mesmo prosseguidor da Obra de Tsong-Khapa no Ocidente, como se verá mais adiante.

Tsong-Kapa - 2

Acerca dos Arhats do Colégio de Tsong-Khapa, H.P.B. diz ainda no mesmo volume de A Doutrina Secreta:

“As obras dos orientalistas estão repletas de alusões directas aos Arhats (Adeptos), mas eles só se detêm nesse assunto quando não é possível evitá-lo e com um desprezo que não dissimulam. Ignorando, por inocência ou de caso pensado, a importância do elemento oculto e do simbolismo nas diversas religiões que pretendem explicar, passam de largo sobre aquelas passagens e abstêm-se de traduzi-las. No entanto, deve-se reconhecer, em boa justiça, que por muito que a fantasia e a crendice popular houvessem exagerado os poderes taumatúrgicos dos Arhats, não são os seus milagres menos dignos de crédito, nem contam com menos testemunhos, nos anais “pagãos”, do que os milagres dos numerosos santos do Cristianismo nas crónicas da Igreja. Uns e outros têm o mesmo direito a figurar em suas respectivas Histórias.

“Se não mais se ouviu falar dos Arhats na Índia, após o início das perseguições contra o Budismo, foi porque, como os seus votos proibissem o revide, tiveram que abandonar o país e buscar a solitude e a segurança na China, no Tibete, no Japão e em outras nações. Era então ilimitado o poderio sacerdotal dos Brahmanes. Tal como sucedeu com os chamados “heresiarcas” cristãos, os Arhats do Budismo foram perseguidos não porque rejeitassem os Vedas ou a Sílaba Sagrada, mas por compreenderem muito melhor o seu significado secreto; e tiveram que emigrar somente porque foram considerados perigosos os seus conhecimentos e indesejável a sua presença na Índia.

“Não faltavam, porém, Iniciados entre os próprios Brahmanes. Ainda hoje se encontram Sadhus (ascetas, anacoretas, ermitões) maravilhosamente dotados e místicos Yoguis, que são obrigados a manter-se em obscuridade e despercebidos, não só por causa do juramento de absoluto sigilo quando foram iniciados, como ainda por temor aos tribunais anglo-indianos, cujos magistrados consideram como impostura, charlatanice e fraude a exibição ou a simples alegação de poderes anormais. E pelo passado se pode julgar o presente.

Arhat

“Entre os mandamentos de Tsong-Kha-pa há um que ordena aos Arhats fazerem, de século em século, em determinado período do Ciclo, um esforço para esclarecer o Mundo, inclusive os “bárbaros brancos”. Até hoje nenhuma dessas tentativas foi coroada de bom êxito. Os malogros sucederam-se aos malogros. Devemos explica-los à luz de certa profecia? Diz que até ao momento em que Pban-chhen-ri-po-chhe (a Grande Jóia da Sabedoria) consinta em renascer na terra dos P´helings (ocidentais) como conquistador espiritual (Chom-den-da), para destruir o erro e a ignorância dos tempos, de pouco servirá a tentativa de erradicar os preconceitos dos habitantes de P´heling-pa (a Europa), que a ninguém ouvirão. Reza outra profecia que a Doutrina Secreta subsistirá em toda a sua pureza no Bhodyul (Tibete) somente até ao dia em que estiver livre da invasão estrangeira. As próprias visitas dos ocidentais, ainda que amistosas, serão funestas às populações tibetanas. Esta é a verdadeira explicação do exclusivismo do Tibete.”

A Escola Gelukpa cultivou e disseminou a celebração dos Dhyanis-Budhas em número de cinco manifestados (de acordo com os cinco elementos da Natureza: Éter, Ar, Fogo, Água, Terra) e dois imanifestados (ou em formação, os elementos Atómico e Subatómico), prestando ainda homenagens à Mãe de todos eles, Tara-Muni. Até hoje sua celebração tem o ponto maior no Ritual de Kalachakra (Roda da Lei) onde a presença de Shamballah, a Região Oculta dos Deuses capital de Agarthi ou Agharta, é evocada pela dignidade máxima pontificando no rito santo.

Os Dhyanis-Budhas são a mesma Divindade Absoluta (Avalokiteshvara) mas fraccionada, em actividade no seio da Humanidade, sofrendo com ela e por ela todas as contingências, pois a isso estão sujeitos todos aqueles (por mais elevados que sejam) que se limitam nos estreitos laços da encarceração física. Desta maneira, postados nos sete pontos cardeais de que cinco são os principais (zénite, norte, sul, leste e oeste), Eles procuram reconduzir as criaturas humanas à sua Origem Divina, incutindo-lhe o incentivo à transformação da vida-energia em vida-consciência.

Dhyanis-Budhas

O Dhyani-Budha é a síntese, o conglomerado das energias sátvica (espiritual, centrífuga), rajásica (anímica, rítmica) e tamásica (física, centrípeta) que se objectiva tomando forma humana, como o ponto focal de um esforço já consumado. É, pois, o resultado de todas as experiências de um Ciclo da Humanidade. É a reprodução, no Terceiro Trono, do que acontece, em sentido mais amplo, no Segundo Trono, com o Ishvara ou Luzeiro, que só se realiza após a consumação das sete Rondas da Cadeia Planetária.

Como somatório de valores, todo o Dhyani-Budha traduz em seus veículos (físico, psíquico e espiritual) todas as características da Humanidade em elaboração no grande cadinho da Vida. Eles estão, portanto, profundamente encadeados ao conjunto por liames invisíveis, desde logo impossíveis de serem apercebidos pelas mentes concretas dos homens comuns. Isso não impede que sofram, consequentemente, nas suas naturezas hipersensíveis todos os embates decorrentes dos desatinos e desacertos praticados pelo conjunto da grande Família Humana (Jiva). Ecoam nos seus veículos hipersensíveis as mais desencontradas vibrações, decorrentes da ignorância humana (Avidya) a respeito das Leis Universais que regulam a existência nas suas múltiplas e variadas formas. Daí resultam dores, não somente para Eles mais também para seu Pai (o Logos da Terra), que por isso mesmo é conhecido na Tradição Iniciática como A Grande Vítima, sendo-a desde que a Sua Vontade se tornou Actividade neste Mundo das Formas.

As Vestes Dharmakaya, Shambogakaya, Nirmanakaya (o Trikaya ou Três Corpos), ou seja, Espiritual, Psíquica e Física de cada Dhyani-Budha, são completamente diferentes das dos homens comuns, pois na realidade expressam os Princípios Arquetipais Cósmicos humanizados e constituem, por isto, a própria Divindade expressa através das suas Sete Vestes que estão, como tudo o que existe, sujeitas às Leis gerais da Evolução.

Evolução cuja velocidade acelerou a partir de 1898/99 com o término dos primeiros 5000 anos da actual Kali-Yuga ou Idade do Ferro, com isso trazendo à manifestação física (de 1 a 8 de Julho de 1900) os antigos Dhyanis-Jivas ou Adeptos Perfeitos na condição nova de Dhyanis-Budhas, levando ao afastamento de funções, por Lei de Ciclicidade, dos antecessores que assim passaram a condições mais elevadas de Bodhisattvas a caminho de Budhas Integrais como Purusha-Nirvanis.

Ainda hoje, no Tibete, os Dhyanis-Budhas levam os nomes tradicionais de:

lista dos Dhyanis

Tsong-Khapa fez mais ainda: além de ter como discípulo o primeiro Panchen, Teshu ou Tashi-Lama, Khedrup-Je (1385-1438), colaborou activamente na instalação do primeiro da série de Dalai-Lamas no Tibete, que foi o sábio budista Gedun Drupa, nascido em Shabtod em 1391 e falecido no mosteiro de Tashi-Lhunpo em 1474, assistido pelo segundo Tashi ou Teshu-Lama, Sönam Choklang (1438-1505),este como a principal dignidade pontifical e aquele como o máximo regente político do Tibete, função que passou a ser exercida plenamente a partir do século XVII com o quinto Dalai-Lama, Ngawang Lobsang Gyatso (1617-1682).

Assim, a par do Budismo novamente restaurado na ordem e regra tradicionais, Tsong-Khapa devolveu ao Tibete a estabilidade social com a instalação de um dirigente político. Conseguiu apagar a mancha negra do caos psicossocial no país criada no final do século X com a queda dos Bhante-Jauls, mesmo sem poder anular o Karma contraído.

É também no século XVII que se oficializa o cargo de Bogdo Gheghen como chefe supremo do Lamaísmo Gelupka na Mongólia, correspondendo a encarnação do Budha-Vivo que já sucedia desde mesmo antes do primeiro reconhecido oficialmente, Zanabar (1635-1723), pois que a série de Budhas-Vivos da Mongólia perfaz o número de 30 titulares tendo terminado com o Bogdo-Khan Hutuktu de Narabanchi-Kure (1869 – 20 de Maio de 1924), o mesmo que teria recebido o Rei do Mundo (Rigden-Dyepo, “Rei dos Jivas”) em seu palácio em Urga no ano 1890, como regista Ferdinand Ossendowsky em sua obra Animais, Homens e Deuses.

Instalados esses três cargos supremos em pessoas dotadas da mais elevada sabedoria e virtude, caracterizadas pelos seus dotes taumatúrgicos igualando-os aos mais santos e sábios de todas as outras religiões, e necessitando o Governo Oculto do Mundo, agindo desde Shamballah-Agharta, de uma representação viva na face da Terra, de um elo de ligação, estabeleceu-o nos últimos séculos por intermédio do Governo Tríplice existente no Tibete. No cargo mais elevado desse Governo estava o Bogdo-Gheghen, o Budha-Vivo da Mongólia, instalado em Urga, tendo como Colunas Vivas um Chefe Espiritual, o Teshu-Lama, e um Chefe Temporal, o Dalai-Lama. Esta Tríade representou até 1921, na face da Terra, o Governo Oculto presidido pelo Rei do Mundo e suas Colunas ou Projecções, a Trindade Aghartina Brahmatmã, Mahanga e Mahima. Dali passaram a irradiar para toda a Terra energias e influências espirituais que, através de várias Ordens Iniciáticas, dirigiam a evolução da Humanidade nos cinco continentes. Também para lá, para os vales escondidos acessíveis por túneis secretos sob os cumes nevados do Tibete, se dirigiu o maior dos Jinas do Ocidente, São Germano, após terminada a sua Missão na Europa, incluindo Portugal.

Trindade do G.O.M.

Foi esta a razão de H. P. Blavatsky deixar escrito no volume VI de A Doutrina Secreta:

 “Vários séculos depois da nossa Era, os Iniciados dos Templos Secretos e dos Mathams (comunidades monásticas) elegeram um Conselho Superior, presidido pelo Brahm-Âtmã com plenos poderes, Chefe Supremo de todos os Mahatmas. O pontificado só podia ser exercido por um Brahmane de certa idade, que era o único Guardião da Fórmula Mística e o Hierofante que iniciava todos os grandes Adeptos. Só ele podia explicar o significado da Palavra Sagrada AUM e de todos os ritos e símbolos religiosos. E qualquer dos Iniciados de grau superior que revelasse a um profano uma só das verdades ocultas, ou o mais leve segredo confiado à sua discrição, tinha que morrer, incorrendo em igual pena quem recebesse a confidência.

“Mas havia ali, e ainda existe em nossos tempos, uma Palavra muito mais excelsa que o misterioso monossílabo; essa Palavra faz daquele que estiver de posse da sua chave um quase igual a Brahman. Só o Brahmâtmã possui semelhante chave. Sabemos que actualmente há na Índia meridional dois Iniciados que a conhecem. E somente lhes é permitido transmiti-la por ocasião da sua morte – porque é a “Palavra Perdida”. Não há tortura nem força humana que possam obrigar o Brahmane a revelar a “Palavra” de que seja depositário, e ela se acha bem guardada no Tibete.

“Este segredo e este profundo mistério são, no entanto, verdadeiramente desalentadores, pois que só os Iniciados da Índia e do Tibete poderiam dissipar as densas névoas que encobrem a História do Ocultismo, e impor o reconhecimento de seus postulados. São muito poucos os que em nossos dias atendem ao mandamento délfico: “Conhece-te a ti mesmo”. Mas não se deve imputar a culpa aos Adeptos, que fizeram tudo o que estava ao seu alcance, e foram tão longe quanto o permitiam as suas normas, para abrir os olhos do mundo. E se os europeus evitam expor-se ao ridículo e aos apodos de que são frequentemente alvos os ocultistas, os asiáticos, por sua vez, vêem-se desencorajados pelos seus próprios Pandits (ou Panditas, “professores, instrutores”), que parecem actuar sob a triste impressão de que não é possível alcançar o Bîja Vidyâ ou o “Arhatado” na presente Kali-Yuga (Idade Negra). Até mesmo aos budistas se ensina que o Senhor Budha profetizou que os poderes se desvaneceriam “ao fim de mil anos, a contar da sua morte”. Erro completo, porque assim falou Budha no Digha Nikâya:

“Escuta, Subhrada! O mundo jamais ficará sem Rahats, se os membros das minhas congregações observarem com toda a fidelidade os meus preceitos.”

“Krishna, no Bhagavad-Gïta, também se manifesta em sentido contrário aos que dizem os Brahmanes – sem falar na existência inegável de muitos Sadhus e Taumaturgos, tanto no Passado como no Presente. A mesma coisa se pode dizer quanto à China e ao Tibete.”

Como disse H.P.B., “são muito poucos em nossos dias” os que atendem ao chamado da Sabedoria Divina e consequente Realização Espiritual, não só na Europa e América mas também na Índia e Tibete, assim como em toda a Ásia. Quando em Março de 1834 Mr. Navatamram Ootamram Trivedi de Surat, teósofo hindu, interrogou por escrito o Mestre Koot Hoomi sobre “como levar o povo indiano da religião exotérica à religião esotérica?”, obteve a resposta peremptória (in Carta n.º 31 das Cartas dos Mestres de Sabedoria):

“Isso não é obra nem de um dia, nem de muitos anos. A Índia está em decadência desde há milhares de anos (referindo-se ao início da Kali-Yuga com a morte de Yeseus Krishna há 5000 anos). A sua regeneração exige uma duração semelhante. O dever do filantropo é trabalhar com o fluxo e assistir ao movimento avante. Jamais esforço algum se perdeu. O resultado pode variar segundo as circunstâncias que fazem parte da causa. É sempre mais sábio agir e batalhar contra a corrente dos acontecimentos do que esperar uma época favorável, hábito que desmoralizou os hindus e levou à degeneração do país.”

Tudo isso vale por EX ORIENS UMBRA a favor do ECCE OCCIDENS LUX, como Luz que se apaga e Sol que se acende. Dizem as Revelações que em 1921 “o Dragão da Sabedoria virou a cauda para o Oriente e a cabeça para o Ocidente”, querendo isso dizer que se iniciou o Ciclo do Ocidente (bafejado pelo Sol Espiritual), de acordo com outras profecias, as quais também afirmam que com o 31.º Budha-Vivo da Mongólia, S. S. Djebtsungu Damba Hutuktu Khan Bogdo Ghenghen, terminaria o Ciclo do Oriente (ainda iluminado pelo Sol Físico), e nesse ano de 1921 o Sumo-Pontífice de toda a Ásia iniciou a sua retirada das funções que ocupava prevendo a sua morte próxima em 1924, ano que que surge no Ocidente (Brasil) Dhâranâ – Sociedade Mental-Espiritualista como “Quinta Rama das Confrarias Budistas do Norte da Índia e Oeste do Tibete”. Começou assim a transferência dos valores espirituais e humanos do Oriente para o Ocidente na pessoa do “Swami” Henrique José de Souza, como o próprio diz na sua obra magistral O Verdadeiro Caminho da Iniciação:

“Num belo dia de Setembro de 1921, o Bem-Aventurado Buda-Vivo recuperou a sua visão física, o que havia perdido há muitos anos, ou seja, desde 1883. Mandou chamar no seu Santuário particular, em Urga, todos os Marambas (discípulos). Ordenou que estendessem no soalho um tapete de cor azul índigo. Pediu que queimassem perfume conhecido com o nome de Fatyl, a fim de preparar a ambiência ritualística. Logo após ter iniciado o cerimonial, o Bogdo Ghenghen chamou a atenção dos Marambas para o centro do Santuário. A seguir, do centro do tapete ergue-se magicamente uma montanha, por cujas encostas dois cavaleiros subiam até quase ao cume.

“De súbito, os dois Seres se prostraram de joelhos sobre uma pedra, diante de um círio aceso. Com enorme agilidade, Sua Santidade ergueu o braço direito e, com o indicador apontando para o Ocidente, disse:

“EIS OS MEUS SUCESSORES A QUEM PASSO O MEU MADEIRO. SOBRE AMBOS PAIRA O CAVALEIRO DAS IDADES MONTADO EM SEU CAVALO BRANCO. MAIS ACIMA ESTÁ A MAJESTOSA EFÍGIE DAQUELE QUE VIRÁ COMO CHENRAZI, O ESPÍRITO MISERICORDIOSO DA MONTANHA, CUJO NOME É MAITREYA BUDA OU O CRISTO UNIVERSAL.

“Vamos resguardar as nossas relíquias, livros sagrados e outros objectos e símbolos, porque as nossas terras serão invadidas por gentes de outras plagas que virão destruir as nossas tradições, os nossos templos, as nossas bibliotecas, saquear os nossos bens e matar os nossos filhos.”

“Nesse santo momento, lançou a sua Bênção para todo o Mundo. Como despedida do cenário humano, saiu em procissão pelo Tibete durante vários dias. Por onde passava, fazia curas de cegos, paralíticos e doentes portadores de moléstias incuráveis. Antes de deixar o Tibete, encarregou os seus Ministros ou Colunas particulares, Jahantzi e Kampo Ghelung (J. e B.), de manter a sua tradição e orientação espiritual, a fim de não prejudicar a evolução espiritual daquele povo. Estes foram os últimos dias do Buda-Vivo da Mongólia – Takura-Bey – que levou em seu magnânimo coração o EX ORIENTE LUX, porque desse momento em diante o Ciclo passou a ser do EX OCIDENTE LUX.”

Bogdo Gheghen

Isso estava em conformidade ao processo cíclico da marcha da civilização do Leste ao Oeste acompanhando o Itinerário de Io ou a Mónada Humana peregrina, mas também como consequência kármica da Tragédia do Tibete ocorrida com os Bhante-Jauls cujo negro crepe do Karma contraído fora motivo de várias profecias fatais quanto ao destino do país das neves eternas. O próprio Padma Sambhava, no século IX, deixou a seguinte profecia terrível:

“Quando o pássaro de ferro voar (avião) e os cavalos andarem sobre rodas (automóveis), o povo tibetano será espalhado como formigas por todo o Mundo e o Dharma (Lei) chegará da terra do Homem Vermelho (comunista).”

Também nos Preceitos de Tsong-Khapa, fundador do Lamaísmo, encontra-se a profecia de grande valor quanto ao futuro do Tibete:

“A Terra de Bod-Yul (Tibete) será inacessível aos estrangeiros até ao dia em que Pantchen-Rimpotche (Teshu-Lama) reencarnar no País de Pheling-Pa (Ocidente), para aí disseminar a Lei do Tathâgata (Buda Misericordioso, a “Jóia do Lótus”). Nessa ocasião (1924), um grande Movimento renovador terá início para além das águas negras de Kalapani (Oceano Atlântico).”

Por sua vez, o 13.º Dalai-Lama, Thubten Gyatso (12.2.1876 – 17.12.1933), em 1924, ano do desaparecimento do Panchen ou Teshu-Lama, profetizou:

“No Ano do Cão da Terra (1950) a religião e a administração secular do Tibete serão atacadas pela Fénix Vermelha (o Tibete foi invadido pela China comunista, “vermelha”, em 1950). O 14.º Dalai-Lama e o Panchen-Lama, os Guardiões da Fé, serão vencidos pelos invasores. As terras e as propriedades dos mosteiros serão distribuídas. Os nobres e as altas personalidades do Estado terão as suas terras e os seus bens confiscados e serão obrigados a servir à força invasora. Contudo, a Grande Luz Espiritual, que há séculos brilha sobre o Tibete, não se apagará. Ela aumentará, difundir-se-á e resplandecerá na América do Sul, principalmente na terra de O Fu Sang (Brasil), onde será iniciado um novo Ciclo de Progresso: surgirá, então, a sétima Raça Dourada.”

Tubthen Gyatso - 13 Dalai Lama

A revista brasileira O Mundo Ilustrado transcreveu de uma revista inglesa, em 18 de Abril de 1959, o seguinte comentário sobre a invasão do Tibete pelos chineses:

“Quando pela primeira vez na História, em 1904, o País das Neves foi invadido pelas tropas inglesas, sob o comando do coronel Younghusband, os tibetanos opuseram a mesma resistência que hoje estão tendo com os comunistas chineses, apesar dos seus oráculos predizerem que “tudo será inútil”, pois é chegado o momento do crepúsculo dos Lamas. Naquela época, o tenente-coronel médico Wadell escreveu nos seus apontamentos sobre a história da invasão: “É realmente surpreendente como os astrólogos tibetanos puderam prever, com tanta antecedência, a tempestade que ora irrompe sobre o seu país. Entretanto, eu mesmo copiei aquelas palavras proféticas de um velho manuscrito tibetano de 1850, que com extrema exactidão revela o ano, o dia e a hora em que isto sucederia.”

Segundo a mesma revista, em 1948 o Lama Lha Kuo, superior do Mosteiro de Gyang-tsé, por certo inspirado na anterior profecia contida no testamento político do 13.º Dalai-Lama, afirmou:

“O Rei Espiritual do Mundo já não está no Potala. Subiu ao Nirvana no Ano do Pássaro de Ferro (1933). O actual Dalai-Lama é uma grande ilusão (maya) resultante da política maldosa do clero tibetano que não vê a Sabedoria abandonar o Tecto do Mundo. Mas… já mudou o Ciclo… a Fénix Vermelha invadirá o Tibete… depois… surgirá a sétima Raça Dourada na América do Sul.”

“To Lhasa in disguise: a secret expedition through mysterious Tibet”. Illustrated with Photographsby. London: Thornton Butterworth, Ltd.,1924. By William Montgomery McGovern

“To Lhasa in disguise: a secret expedition through mysterious Tibet”. Illustrated with Photographsby. London: Thornton Butterworth, Ltd.,1924. By William Montgomery McGovern

Com efeito, a invasão chinesa do Tibete ocorreu em 1950, tendo o Exército de Libertação Popular derrotado o Exército tibetano (em número inferior e muitíssimo mal-armado, com pouco mais que escopetas e algumas metralhadoras defeituosas cuja ferrugem marcava a idade ultrapassada) em 7 de Outubro desse ano em Chamdo e em Kham (Tibete Oriental), tendo 40.000 soldados chineses entrado em Lhassa nesse mesmo mês, ficando o país sob controle total da China em 1951 e desde 1959 o Tibete passou a ser uma “província chinesa”, após ter sido esmagada violentamente a revolta tibetana, com a destruição de palácios e templos sendo assassinados milhares de monges. O 14.º Dalai-Lama teve de fugir para a Índia onde mantém o seu governo no exílio, sempre perseguido de perto pelas forças ocupantes chinesas que até hoje levam a efeito o holocausto humano e cultural do povo tibetano, com as potências político-económicas e militares do Mundo mantendo-se passivas diante do morticínio de um povo desgraçado que já foi imensamente feliz e dos mais pacíficos do Globo. Estima-se que mais de um milhão de tibetanos já tenha morrido às mãos do Exército chinês, cujo resultado da mão-de-ferro chinesa, motivada por interesses estratégicos e territoriais, são os mais de 100.000 tibetanos refugiados pelo Mundo, a destruição sistemática de mosteiros, a opressão religiosa, a proibição da liberdade política e o constante assassinato de civis em massa. É assim que as forças do materialismo (Tamas) dominam as de um povo que já se regeu exclusivamente pelo espiritualismo (Satva), como efeito do Karma que pode muito bem ser apaziguado, consumido pela razão e dispensa de meios violentos opressivos. O esgotamento do mesmo Karma já ultrapassou os limites toleráveis, porque hoje não se reconhece mais que holocausto por um país, a China, que também já foi espiritualmente grande e agora revela-se absolutamente indigno dos seus maiores como Confúcio ou Lao-Tsé.

Ocupação de Lhassa

Sujeitando a religião lamaísta à sua política ocupacionista, é o governo chinês quem decide da nomeação das principais dignidades do clero por norma sendo chinesas ou então favoráveis à sua política, facto reiterado em 1957 por Alexandra David-Néel na sua obra Iniciações Tibetanas. “Realmente, inútil e sacrílega é a comédia que se representa desde aquela época (1921) no Tibete, como em todo o Oriente. Comédia essa tecida pela política de alguns “Lamas” cobiçosos do País das neves eternas, mas que já começaram a apelar para os homens do Ocidente”, adianta o Professor Henrique José de Souza em seu O Verdadeiro Caminho da Iniciação. E descreve, prevendo a catástrofe próxima de 1950, no seu artigo O mistério dos Dalai-Lamas e a política religiosa do Oriente (in revista Dhâranâ, ano XII, n.º 103, Janeiro a Março de 1940):

“A demora em achar substituto para o último Dalai-Lama demonstra a realidade de tudo quanto temos dito a respeito, e o natural receio dos sacerdotes lamaístas em tentar iludir a Lei que rege os destinos dos povos. Essa Lei, pela boca da Tradição, iniludivelmente lhes ordenava que a descoberta do Dalai-Lama se fizesse, o mais tardar, logo após a sua morte e exigia que, antes de consagrado o novo deus encarnado, houvesse a confirmação de S. S. o Bogdo Djebtsung Damba Hutuktu Khan, ou Buda-Vivo. Sete longos anos de indecisão nos mostram a luta entre o dever e a felonia. Venceu finalmente, como se anuncia, a ganância e a ideia de predomínio sobre um povo cuja missão gloriosa tinha terminado. Nem mesmo a aparição, entre alguns deles, do próprio Dalai-Lama “falecido” – para lhes lembrar “que não deviam abusar do seu nome, pois bem sabiam que a Lei determinava ser ele o último” (segundo noticiaram diversos jornais do mundo) – evitou que os indignos sacerdotes tibetanos e chineses praticassem o nefando crime considerado por nós, por mais exagerado que isso pareça, de lesa-evolução.

“Não tiveram pejo, para levar a efeito os seus desígnios, de usar um processo muito conhecido no Oriente e de facílima execução entre indivíduos dotados de altos poderes psíquicos, como são todos os Hutuktus, Kampas, Marambas e Gheghens tibetanos.

“Consiste esse processo, muito vulgar mesmo no Ocidente entre os “animistas”, em actuar sobre o espírito de uma pessoa e fazê-la dizer e fazer tudo quanto se queira. Nestas condições, a criança escolhida para novo “avatara”, sob o domínio de um Hutuktu mestre nestes trabalhos, não podia deixar de sair-se bem de todas as provas a que foi submetida, tais como revelar segredos do Dalai-Lama há sete anos desaparecido e conhecidos dos assistentes ao exame: indicar, entre vários objectos da mesma natureza, aqueles de que o “deus vivo” se servira na última encarnação; tomar as suas atitudes e pronunciar as suas orações habituais, etc., etc. Era para evitar o erro de um “truque” desta natureza que a escolha de qualquer Hutuktu e, principalmente, do Dalai-Lama e do Trachi-Lama, dependia exclusivamente da prévia aprovação do Buda-Vivo. O seu clarividente espírito não podia ser enganado por um processo tão inferior de verdadeira Maya hipnótica, mais conhecida na Índia pelo nome de Maya-Vada.

“Aproveitamos esta anotação para refutar as notícias publicadas pelos jornais de “que o último Dalai-Lama ultrapassou a idade de 18 anos”, pois vários foram aqueles que alcançaram idades avançadas. Sendo que os tais que não vão além dos 18 anos, os preparados pela política religiosa dos Lamas… acabam vítimas da mesma, pois se vivos continuassem poderiam revoltar-se contra a sua temporal e espiritual escravidão.

“A consequência deste flagrante desrespeito à Lei, será a derrocada mais rápida de um povo cuja missão espiritual, com o desaparecimento dos últimos representantes do Governo Oculto do Mundo, estava definitivamente e para todo o sempre terminada. O Karma abrirá para os autores deste sacrilégio mais uma página na História dos homens…”

Assim aconteceu, repartindo-se as culpas entre o Karma hereditário tibetano e o Karma gerado chinês. De regresso a O Verdadeiro Caminho da Iniciação, diz ainda o Professor Henrique José de Souza:

“Desde 1921 as Consciências ou Divinas Essências que animavam aquela Corte tibetana de nobres e ilustres Marambas, começaram a projectar-se nas mentes dos Filhos do Ocidente. A sublime imagem daquele Santo Ancião (Bogdo Khan) embora tenha deixado o cenário humano não abandonou, no entanto, os nossos corações ocidentais. Com uma precisão matemática as suas profecias vão-se realizando no Oriente, e as suas visões objectivando-se rapidamente. O que outrora era tomado como símbolo, hoje é dura realidade.

“Observando as coisas com os olhos da Iniciação, verificamos que o Oriente de hoje se ocidentalizou com as artes bélicas, com a ciência positiva e materialista, característica do pensamento e temperamento ocidental, ao passo que o Ocidente está aos poucos se orientalizando com as filosofias e conhecimentos das tradições exotéricas e esotéricas do Oriente. As consciências esclarecidas do hemisfério oriental estão voltadas para as nossas plagas. Os mistérios guardados ciosamente nos corações dos transhimalaios, estão aos poucos sendo transladados para o âmago dos templos ocultos em… cordilheiras americanas. A tradição do Monte Meru já cedeu lugar à do Monte Ararat, no Roncador, e do Monte Moreb, nos contrafortes na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, Brasil.

“Isto posto, podemos dizer que o Himalaia e a Mantiqueira se consorciaram, cujo himeneu dará ao Mundo aqueles que realizarão a Concórdia Universal.”

Himalaia - Mantiqueira

A transferência dos valores espirituais e humanos do Oriente para o Ocidente, em uma Nova Renascença espiritual do Mundo, já era prevista pelo próprio Hermes Trismegisto, pois no seu Corpus Hermeticum indicava claramente ao seu discípulo Asclépias:

“Porém, existem outros deuses cujas virtudes activas e cujas operações vão distribuir-se através de tudo o que existe. Esses deuses cujo domínio se exerce sobre a Terra, serão reconhecidos um dia (portanto, no futuro) e venerados em uma cidade no extremo limite do Egipto (isto é, para lá do Egipto, para lá do Mar Mediterrâneo), uma cidade (ou reino) que será fundada do lado do Sol Poente (que é dizer, Ocidente) a que afluirão, por terra e por mar, as raças dos mortais (toda a Humanidade, tanto a do Oriente como a do Extremo Ocidente ou continente americano e a dos restantes continentes, nisto já hoje o Brasil é um caldeirão fervilhante de raças de todas as partes do Mundo, de cuja caldeação racial por certo haverá de sair a profetizada Raça Futura).”

Por outra parte e como motivo filológico, lembro que o tema principal do Livro dos Mortos (cujo título original é Livro da Iluminação) do Antigo Egipto é o lamento de ter-se perdido a direcção do País dos Deuses, o Amenti, o Paraíso que ficaria para os lados do Sol Poente. Pátria de Osíris, o Sol, a localização do Amenti foi procurada durante séculos pelos egiptólogos, mas que poderá muito bem ser a própria Cordilheira de Amenti, Amantika, Mantika ou Mantiqueira no Estado de Minas Gerais, Brasil, a qual também se escreve em tupi Mantiquirá com forte afinidade linguística ao egípcio Amon-ti-kí-ra, a “Montanha Sagrada do Sol, Ra ou Osíris”.

Com a fundação de Dhâranâ – Sociedade Mental-Espiritualista por Henrique José de Souza, a partir de 1924 estavam lançadas as sortes do destino imediato do Mundo, destino cuja esperança num raiar de felicidade e progresso para toda a Humanidade depende um e todos, especialmente dos antigos Bhante-Jauls que um dia se perderam no Oriente, mas acabaram reachando a sua dignidade espiritual no Ocidente séculos depois, como Munindras recuperando dos atrasos e tragédias do Passado de novo reintegrados à Consciência Divina do Mestre Supremo (JHS), que como Pai não regateou aos milénios esforços para redimir os seus Filhos os quais, por sua vez, deverão ser Tochas Vivas levando firme e decisivamente o Amor e a Sabedoria à Humanidade como única fórmula capaz de a redimir, assim ela mesma também recuperando a consciência do que sempre foi e traz no esquecimento, o ser essencialmente Divina.

LADAK – BHANTE-JAULS – LADAK!

LADACK – MUNINDRAS – LADACK!

BIJAM