Lisboa, 2007

Fernando a Pessoa de andar saltitante e nervoso dobra em três passos incertos e velozes a esquina do Chiado de Lisboa e sibilino desaparece algures na cidade, talvez a caminho do Martinho da Arcada, talvez para as bandas da Gare Central, aquela onde está o D. Sebastião à entrada, para tomar o comboio que o leve ao xadrez serrano e paradisíaco de Sintra!… Maneira de deslocar-se, entre o calmo e o inquieto, o devagar e o veloz, numa mudança súbita de humor interior, revela o psíquico potencial, o que lida mais com as coisas do Espírito para maior desprazer das coisas da matéria, para ele simples objectos de prazer e de ilusão efêmeros. Os seus olhos, brilhando inquietos, falam do que lhe vai dentro, do ardor de génio que o consome sem parar. O seu corpo alto e delgado, quase seco mas tendendo a engordar nos últimos anos de vida, as suas mãos de intuitivo potencial, de dedos finos e longos, o trejeito tímido e desajeitado que nunca olhava as pessoas de frente, tudo isso revela psicologicamente os traços do Homem Psicomental em potência e integralidade, ou seja, o Jina, o escritor iluminado pela barda e profética Voz da Intuição, tendo feita da pena uma espada sagrada e do papel um campo de lide, onde a Verdade impressa se oculta sob o véu diáfano da aparente «fantasia» do poeta.

Todo ele [re]velava a discreta compostura de quem vive plenamente a intensidade da disciplina interior, esotérica, autoimposta por necessidade de Perfeição e não por qualquer moralista imposição religiosa.

Foi esse esoterismo que reflectiu na sua vasta obra feita além, muito além, das posteriores catalogações intelectualmente preconceituosas, subversivas e surrealistas dos autoassumidos «especialistas pessoanos», indo complicar o que não era complicado, indo interpretar e firmar tese aquilo que, afinal, foi inteiramente estranho ao poeta e à sua intenção. Esses líteros e intelectuais, repletos de manias e preconceitos, envergonhados de assumir a vida simples do poeta e que nela o mistério é constante e fala a Lisboa dos pregões, das tabernas de má fama, de quem passou fome e só não morreu dela porque os amigos não deixaram, acabam dando a perceber que a fama pública de que gozam como «inteligências pessoanas», de barriguinha cheia e bem vestidos, saltitando de festa para festa de jet-set e achando piroso que os menos favorecidos pela vida andem de saco de plástico na mão por ser sinal de mediocridade – esquecendo que talvez ou certamente esses não tenham posses para adquirir sacos ou maletas mais condignas às marcas da moda do momento –, revela-os, ao contrário das aparências, “os maiores inimigos de Fernando Pessoa”, como desabafava na minha presença, há alguns anos atrás em sua casa de Estremoz, o professor António Telmo (falecido em 21 de Agosto de 2010).

Enquanto esse tipo de críticos se autossatisfaz com a sua «intelectualidade superior», os demais observam-nos sem perceber patavina do que pretendem dizer e onde afinal querem chegar, tal o uso e abuso de um vocabulário forçado e inventado no momento, dando ares surrealistas e abstractos ao que é bem real e concreto, simples em si mesmo, e por isso considero tais atitudes anacrónicas tão-só marketing de autopromoção pessoal à custa do nome e obra de Fernando Pessoa.

De maneira que “o Pessoa como moda é uma característica deste tipo de sociedade e deste tipo de informação”, disse Pedro Teixeira da Mota ao semanário Expresso (sábado, 4 de Junho de 1988), adiantando Yvette Centeno na mesma reportagem: “Fala-se hoje de usar óculos `à Pessoa´, mas também há `cintos à Elvis´. Quando alguém de repente cai na moda e os `media´ tomam conta desse alguém, a dita figura automaticamente se banaliza e comercializa. É óbvio que agora, por altura do centenário, se alguém resolver produzir t-shirts ou camisas com a figura do Pessoa elas se venderão às centenas, mas se as fizerem com o carimbo do Eusébio vendem-se na mesma. São fenómenos que têm a ver com o típico da vida moderna, que é o de facilmente banalizar e comercializar as suas estrelas. Mas isso nada tem a ver com a profundidade ou a genialidade da obra”.

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13.6.1888 - Lisboa, 30.11.1935)

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13.6.1888 – Lisboa, 30.11.1935)

Deve-se ao moderno fenómeno psicossocial do consumismo e uso fácil para que após utilizado seja facilmente esquecido, a visão anacrónica, se não mesmo falaz, dada ao poeta, à sua vida e à sua obra, de quem a maioria desses «especialistas» revela-se completamente ausente de veracidade ou realidade da mesma, isto tanto para Fernando Pessoa como também para outros personagens da nossa História (Afonso Henriques, Luís de Camões, D. Manuel I, etc.). Falta-lhes o Espírito, que é tudo. Foi por isso que num concurso televisivo, no início de 2007, todos os personagens da História de Portugal – de que hoje em dia cada vez se sabe menos, mas se sabe cada vez mais de ficções novelísticas e de concursos medíocres impostos pelos meios audiovisuais brutalizando, petrificando ou estupidificando a mente colectiva, mantendo-a arredada da reflexão sobre o sentido verdadeiro do por que existe – perderam a favor da vitória do dr. António Oliveira Salazar, que lhe foi dada pelos votos públicos de alguns milhares de cidadãos. Seriam todos salazaristas? Não creio. Mas creio que todos exerceram o voto de protesto ao estado caótico em que está a sociedade portuguesa, onde os dirigentes políticos e todos os respectivos partidos políticos, em nome da democracia constantemente exercida como “bur[r]ocracia” e “abusocracia”, desprezam o povo, arrogantes atiram-no no desemprego, condenando-o à fome e à miséria, ameaçam com o despedimento os que ainda têm emprego e crivam-nos de impostos sobre impostos à boa maneira feudal, parecendo mesmo querer reduzi-los à condição de escravos sem quaisquer direitos, achando um abuso  terem férias e até receberem salário, como transparece nos seus subentendidos, ou seja, roubam-lhes da boca o pão nosso de cada dia para encherem as suas e as dos seus, sempre insaciáveis como Moloch, sempre querendo mais e mais; fecham hospitais e maternidades, obrigam os pobres a pagar o que não têm quando têm a infelicidade de adoecer; cobram impostos absurdos e desumanos à velhice nos seus últimos dias, aos pais que oferecem prendas aos filhos, acirram os filhos a denunciar os pais; os alunos contra os professores, roubam a autoridade aos adultos e dão-na aos meninos, não raro soltando criminosos e condenando quem os prendeu; condenam o fumo do tabaco e promovem as drogas «leves» dando subsídios a quem prove ser toxicodependente, assim alimentando a perpetuidade do seu vício; e neste caos satânico, anarquia campeando, sonham sempre com empreendimentos megalómanos, para que por eles os seus nomes fiquem imortalizados no meio da miséria geral que semearam. Até quando este estado caótico das coisas?… Realmente é bem verdade que “quem nasce em Portugal é por missão ou castigo”, mas, Senhor, não bastará já de tanto castigo? Até quando permitirás, Senhor, que os lobos assassinos continuem a devorar os cordeiros inocentes? Onde está o Pastor, guia e protector do seu rebanho? Que liberdade podre é esta?! Que libertinismo desvairado corre ao jorros no mais que estropiado tecido psicossocial…

Moderno «problema socrático» insolúvel? Não, antes questão de Vida e Morte: carece-se da mudança de mentalidade, de uma verdadeira revolução mental a favor de novos e mais amplos valores e hábitos que façam o Homem mais Homem e Deus mais Deus, acabando-se de vez com tudo quanto tenha a ver com um ciclo velho, podre e gasto. Em suma e para afastar de vez algum desses tipos de rótulo político, useiro e vezeiro, que alguns sintam necessidade de atribuir-me para desculpabilizar a indignidade desumana dos seus actos, seja à «esquerda» ou à «direita», logo parcelares e não totais: tudo pela Sinarquia, nada pela Anarquia!

Liberdade também para taxar Fernando Pessoa com as maiores displicências mas que só podem caber a quem as emite. Repete-se, mais uma vez, a história de São Germano e Cagliostro. Depois de desaparecidos, urge raivosa a torrente difamatória vomitando impropérios muitíssimo abaixo da crítica, o que leva a exclamar: – Aprés moi le déluge!

A obra escrita de Fernando Pessoa assenta toda ela em bases ocultistas, que não foram um interesse lúdico e passageiro na sua vida, antes permanentemente assumido em toda a sua existência. Esse equívoco deve-se à carência atroz de informação e formação dos “media” e «especialistas pessoanos» sobre o que seja o Ocultismo – que não é, nem aproximadamente, ciências divinatórias de feirantes que “volta sim e volta sim” aparecem nos jornais e nas televisões contribuindo para o aumento da ignorância, da superstição e do autismo espiritual, como se observa no flagrante do fenómeno psicossocial urbano de «new age», antes e em termos clínicos, “paranóia mística” mista de ingenuidade, superstição e irracionalidade, sempre teimando em “construir a casa pelo telhado”, com cujos simpatizantes, isto confirmei inúmeras vezes, é quase ou mesmo impossível dialogar, tal o estado de alucinação psicomental de quem prefere o facilitismo do que já se publicou e é público, ao esforço nobre da conquista, mas nada sabendo de Ordens Iniciáticas, das suas Egrégoras e dos Mistérios Divinos que encerram e resguardam dos desatentos e despreparados física e psicomentalmente, para que não profanem o Sagrado com a sua ingenuidade não raro deprimente ante a verdadeira Espiritualidade, ao pretenderem saltar degraus na Evolução avante e, não raro com vaidade, encapotada ou desvelada, ainda por cima julgarem sábias e perfeitas as suas noções delirantes apostas de qualquer Ordem e Regra. Os que andaram na escola primária ou no liceu, acaso também terão e sem mais passado subitamente da 1.ª para a 4.ª classe, assimilando tudo de uma assentada sem qualquer disciplina mental e física? É, de facto, muito constrangedor… mas a Lei Suprema se encarregará de ir refreando tais precipitações indisciplinadas que, de momento, nem sequer é possível apontar fraternalmente a quem delas é acometido. Também nisto o caos e a anarquia campeiam, e também nisto repito o lema de Henrique José de Souza (JHS) que adopto como se fosse meu: tudo pela Sinarquia, nada pela Anarquia!

Neste enquadramento bestial próprio de um ciclo mais que podre e gasto onde tudo de mau e pior é passível de aparecer, há uns anos atrás não deixou de ter o seu momento na ribalta pública certo senhor Mário Saraiva, médico psiquiatra arvorado «especialista pessoano», e com esta pretensão  deu-se ao diagnóstico psiquiátrico desse mais alto baluarte contemporâneo da Literatura Portuguesa e, inclusive, do Ocultismo Nacional, que foi Fernando Pessoa. O pasquim – que outro nome não merece – que escreveu e editou, O caso clínico de Fernando Pessoa (Edições Referendo, Lisboa, 1990), anda hoje quase esquecido do leitorado geral mas não o seu conteúdo, aliás, aceite e defendido por muitos «especialistas» que sempre temeram um confronto televisivo comigo, vá-se lá saber por que… Para um materialista convicto, mistura de psiquiatra com várias outras coisas que a oportunidade traz  e se revela oportunismo, antes de tudo o mais tenho a declarar o seguinte: é completamente impossível a um profano fazer o diagnóstico clínico de um Iniciado!

É o próprio Fernando Pessoa quem o diz: “Os psiquiatras sabem (às vezes) como trabalha o espírito doente, mas não como trabalha o espírito são” (in Fernando Pessoa Aforismo e Afins, edição e prefácio de Richard Zenith. Editora Assírio & Alvim, Lisboa).

O carácter do Iniciado é algo muito distinto e profundo que só a Psicologia Esotérica – ou seja, aquela manipulada por alguém conhecedor dos mistérios ocultos da natureza humana – pode dar resposta satisfatória, isto porque ele move-se nas camadas superiores do Pensamento e obedece às regras de uma conduta que poderei chamar de Dever Universal, ou o Dharma no seu sentido mais lato, para com a evolução da Vida e da Consciência. Disciplina que constrói o Espírito, eleva a Alma e faz sábio o Corpo (os sentidos) através das experiências colhidas nas agruras quotidianas que são as provas kármicas, os “escolhos” no Caminho da Verdadeira Iniciação, onde a criatura que o cursa busca cada vez mais a Perfeição de Ser, e cada vez mais o é.

“O esforço é grande e o homem é pequeno.

 A alma é divina e a obra é imperfeita.”

Mensagem in “Padrão”

O facto de taxar Fernando Pessoa de “mórbido, paranóico, homossexual”, etc., o senhor psiquiatra – entretanto já falecido – parece transmitir por fenómeno mórbido e inconsciente os seus próprios males, isto por o seu quod reflectir a quantidade no quid essencial mas desconhecido do analisado ausente, assim supondo e pressupondo mas nunca certeiro e com certeza.

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De maneira que há uma consciência física (quod) e outra psíquica (quid), uma de vigília e outra de sonho. Como geralmente as duas consciências estão desarmonizadas ou desencontradas entre si, é raro ter-se a lembrança nítida do sonho vivido. Apenas se sabe que sonhou. Mas que se sonhou? Há uma ideia nebulosa dos acontecimentos que se passaram em sonho ou que foram vivenciados na consciência psíquica. O subconsciente fica como um ecrã de televisão descontrolado. O desajuste desses dois tipos de consciência traz à criatura humana muita angústia. Ela vive psiquicamente torturada, cheia de problemas. Faz de todo o acto «bicho de sete cabeças», coisas monstruosas, vive imaginando dificuldades que não existem. Antes de tomar uma atitude positiva, vê na sua frente muitas muralhas que imagina estarem ali para a dificultar. De uma coisa simples promove uma tempestade. Está sempre desanimada, é depressiva e neurótica, o intelecto não lhe dá a satisfação completa e vem a neurastenia e a paranóia. Eis o retrato, evidentemente com as devidas e honrosas excepções, da maioria dos «intelectuais pessoanos».

O corpo físico humano não é perfeito: possui lesões, deficiências, carências, intolerâncias, cicatrizes, atrofias e hipertrofias de órgãos, má circulação, enfim, uma série de anomalias causadoras de distúrbios psicossomáticos, de grandes desequilíbrios orgânicos. Os médicos indicam os medicamentos que vão ajustar as disfunções orgânicas, e, de modo análogo, acontece o mesmo às almas imperfeitas com as suas consciências física e psíquica desajustadas, cabendo aos psicólogos e aos psiquiatras, com conhecimento verdadeiro do mecanismo oculto da Alma, Anima ou Vida, fazerem as funções dos medicamentos nesse ajuste consciencial. Com efeito, esse é um estudo importante para compreender, isentado dos erros oriundos dos preconceitos da personalidade, a vida biológica e psicomental dos Iniciados.

A consciência psíquica do ser humano começa a ser deformada, ferida, triturada logo na infância, mantendo-se a infecção psicomental pela vida afora. Muitas vezes torna-se doença crónica e acontecem as neuroses. Recorre-se ao psicólogo, ao psiquiatra ou ao psicanalista, mas como por norma este não é Iniciado, age sobre o cérebro e não sobre o mental, cura o efeito com o efeito e como a causa se mantém, a doença mental também. De maneira que o paciente melhora mas não fica sanado, e vez por outra sobrevém nova crise, e assim até à morte, doente toda a vida, do berço ao túmulo, sem que a cura seja descoberta por se desprezar o Espírito e confundir o mecanismo físico cerebral com o mental subtil que por ele age.

Essa foi a razão mais que suficiente para René Guénon (in Formas Tradicionais e Ciclos Cósmicos) afirmar com muitíssima propriedade: “[…] a psicanálise inverte as relações normais do “consciente” e do “subconsciente”, como também se apresenta, em muitos aspectos, como uma espécie de “religião invertida”, o que demonstra em que fonte pode estar inspirada, e a função pedagógica que pretende desempenhar e a sua infiltração nos diversos métodos chamados de “nova educação”, também são algo bastante significativo…”.

Nesse sentido, uma Escola Iniciática verdadeira, com verdadeiros dirigentes espirituais à dianteira, colocando os interesses da Humanidade acima dos seus, assim não correndo o risco de se tornar uma Escola Negra ambicionando o poder do mundo e a soberania sobre as mentes humanas, dizia, nesse sentido uma Escola Iniciática poderá ser comparada a um “Hospital Psiquiátrico” onde se cura a enfermidade da alma humana.

Todas as Escolas Iniciáticas verdadeiras, credenciadas pela Tradição Iniciática das Idades de quem são fiéis depositárias, têm por finalidade precípua curar a enfermidade psicomental dos que a elas chegam e se tornam discípulos evoluindo através dos seus Graus, dos seus diversos tipos de Iniciação e pelos vários modos que os conduzem diante do Altar de Deus.

De maneira que não há Colégio de Iniciação que não advogue junto dos seus afiliados o exercício físico de práticas de cariz psicomental e espiritual, de maneira a realinharem as diversas expressões da consciência indo conhecer-se a si mesmos e, gradualmente, despertando sentidos e sensações que jamais pensaram haver neles. Este é o objectivo da meditação e de toda a praxes estipulada ao Sanctum privado de um e de todos esses afiliados. A inibição do exercício regular do mesmo inevitavelmente arrastará à dúvida e suspeição face ao imediatismo das coisas; nem poderia acontecer de outra maneira, posto tratar-se da descoberta última de si mesmo e consequentemente dos Mistérios da Natureza. E isto é a verdadeira Iniciação.

A constituição física comum possui os micróbios orgânicos, enquanto a alma tem os seus miasmas psíquicos, de natureza análoga à dos micróbios, os quais devoram e destroem essa mesma alma psicomental, ou seja, a personalidade tanto dos discípulos como de qualquer criatura humana.

O desajuste da personalidade, a neurose, a hidrofobia e a hipocondria – pode-se dizer sem receio de errar – são contagiosas e não raro carecem de isolamento. Donde o provérbio popular dizer: “Uma má ovelha perde todo o rebanho”. Assim também quando numa colectividade há uma ou mais pessoas desajustadas, toda ela não vive em paz. Por isso, disse Aurobindo: “A infelicidade humana é uma questão de desequilíbrio”.

Henrique José de Souza (JHS), afirmou: “Cada um nasce na família com a qual tem afinidades ou qualquer ligação kármica”. Se o discípulo desequilibrar a sua vida cometendo actos contrários à Lei da Evolução, ao Perfeito Equilíbrio, tem necessariamente de nascer em uma família desajustada, para que pela Iniciação possa ajustar-se e igualmente ajustá-la. Nesses casos a Lei do Karma, ou da Causa e Efeito, é severa.

Henrique José de Souza (1883 - 1963)

Henrique José de Souza (1883 – 1963)

Qual a terapêutica usada por JHS a fim de ajustar os seus discípulos? Utilizou o método natural ou eubiótico de simbiose harmónica do Homem consigo mesmo e o seu semelhante, da Humanidade com a Terra e da Terra com o Universo. Para auxiliar nesse trabalho de Iniciação Verdadeira outorgou aos seus discípulos Mantrans, Visualizações, Formas-Pensamento, Yogas especiais, Rituais, Revelações (Conhecimentos do Futuro) e, não raro, aconselhando-os a trabalhar sempre pelo Mundo, e sempre recomendando a autocrítica. Por Lei ou por efeito da Lei é que se diz comumente: “os semelhantes atraem os semelhantes”, logo, os desajustados atraem os desajustados e os ajustados atraem os ajustados. Por via de regra, os desajustados se unem para dar combate aos ajustados. Desse desajuste universal é que surgiu a eterna luta entre magos brancos e magos negros, a qual vem atravessando os milénios feitos de séculos infindos.

Sem dúvida que os desajustados temem a Verdade, por terem pavor de A contemplar face a face. O que é o mago negro? É o mago branco desajustado. Quando a sua estrutura psíquica é invadida por grande quantidade de miasmas, acontece a doença da neurose e até a loucura. Esta pode ser encapotada por sanidade aparente, mas as palavras e actos de quem a carrega acabam denunciando a sua presença. É assim que se vêem «canalizadores cósmicos», «reikis siderais», «conspiradores extraterrestres» e outras coisas mais e más do género à solta por não haver, afinal de contas, quem tenha mão nesses pobres de espírito e piedosamente os conduza ao internato clínico a fim de serem tratados, visto a alucinação mística em tempo algum ser sinónima de Iluminação Espiritual. Ademais, a maioria dessa literatura notoriamente esquizofrénica e paranóica, delirante, insere-se em um dos tratamentos psiquiátricos advogados aos doentes neuro-depressivos: que escrevam ou pintem, para assim desenvolverem, exteriorizarem as suas capacidades psicomentais e psicomotoras e superarem os estados de neurose depressiva. Faz parte do tratamento, não têm outra valia nem utilidade senão essa. Jamais um médico irá pensar que o seu doente é um escritor ou um pintor… e jamais um escritor ou um pintor de facto pensarão estar a lidar com os seus pares, sempre que deparam com redacções grotescas e desenhos infantis vazados no moderno meio de comunicação virtual chamado internet.

É necessário compreender o por que das fantasias delirantes assumidas realidades extraordinárias por certas pessoas que, umas mais que as outras, fazem fé piamente nelas, no produto do seu subconsciente. É por isso que se torna necessário entender o mecanismo da consciência física a qual, nesses casos, está em choque ou atrito com a consciência psíquica, sendo que no homem comum a inteligência imediata é o produto resultante das suas emoções e pensamentos, o que se chama consciência psicomental ou, em bom sânscrito, kama-manásica. Por esta razão é que o cérebro, com a sua semi-consciência orgânica, só age após estimulado por imagens provindas do veículo emocional, nascidas de ideias suscitadas pelo corpo mental. Os três interagem quase em simultâneo. A consciência física dota-se de algumas propriedades específicas, as quais passo descrever:

1.ª – Dispõe de grande autonomia.

2.ª – Parece incapaz de apanhar uma ideia excepto sob a forma em que ela mesma seja a autora, donde resulta que todos os estímulos que provenham do exterior ou do interior sejam imediatamente traduzidos em imagens. É incapaz de apanhar as ideias abstractas, as quais ela transforma logo em percepções imaginárias.

3.ª – Todo o pensamento dirigido para qualquer lugar afastado torna-se para ela um deslocamento para esse lugar. Por exemplo, um pensamento sobre a Grécia transporta imediatamente a consciência em imaginação para a Grécia.

4.ª – Não tem nenhum poder de julgar a sequência, o valor ou a realidade objectiva das imagens que lhe aparecem. Ela aceita-as como se apresentam e jamais se surpreende com o que lhe acontece, por mais absurdo que seja.

5.ª – Acha-se submetida à associação de ideias, e por isso uma série de imagens sem outro laço que a sua associação no tempo, pode baralhá-las dando como resultado a mais espantosa confusão.

6.ª – É singularmente sensível às mais fracas influências exteriores, tais como os sons e os contactos.

7.ª – Tem a propensão para aumentar e deformar as ideias, em proporções enormes.

É assim, pois, que o cérebro físico é capaz de levar à confusão, ao exagero tanto no estado de vigília como no de sono com sonhos. Quando em estado de vigília, o cérebro é afectado por todo o tipo de pensamentos provindos do exterior, mas quando se dorme essa influência é ainda maior, pois a parte etérica do cérebro é muito mais sensível que o órgão físico em si mesmo, assim dominando o cérebro “paralisado” ou “desligado” do estado imediato. Todo o pensamento errante que se acha no cérebro do adormecido, qualquer coisa que esteja em harmonia ou simpatia com ele, com as suas apetências pessoais, aloja-se no cérebro e põe em movimento toda uma série de ideias e de imagens não raro desencontradas, logo desconexas, e por isso um homem de cérebro não controlado está sujeito, quando dorme, a todo o tipo de influências que não o atingiriam se o Espírito controlasse o cérebro.

Composição geral do cérebro humano

Composição geral do cérebro humano

A enfermidade psíquica – onde o foro psiquiátrico deve agir com conhecimento exacto das causas provocadoras dos efeitos – traduz-se por conflito interior, dor de consciência, sofrimentos morais, sentimento de culpa, o martelar constante da consciência inquieta. A cura dela será evidentemente o ajuste, o equilíbrio das duas consciências física e psíquica que irá promover a paz interior e a consequente cura psicomental, não esquecendo a física. Neste ponto do equilíbrio consciencial começa então a funcionar a razão pura, a ponderação, a madureza e a maturidade psicofísica.

Voltando ao facto de quão tenebrosos são certos movimentos psicanalistas de cunho e alcunha “trilógica, dianética, etc.”, muito aparentados a hodiernas seitas carismáticas ditas “igrejas universais”, lembro que os seus métodos são muito semelhantes aos que foram utilizados contra Helena Petrovna Blavatsky na América do Norte e na Índia pelos missionários evangélicos, os metodistas e os jesuítas, visto os modelos metodológicos desses servirem agora ao modus operante dos modernos movimentos psicanalíticos convertidos em novas “religiões”, mexendo directamente com aquilo que é mais sensível à criatura humana: o sistema endócrino-cerebral, a ponto de destruírem-lhe completamente as defesas psicossomáticas, e isso é pura magia negra aberta e descarada. Sim, porque dominando a mente humana dominam o mundo!

A psicanálise sem qualquer base verdadeiramente espiritual acaba sendo, sob o encapotado de cura clínica ou médica, vampirizadora da psique individual e colectiva, tema que remeto à consideração avalizada de René Guénon, no capítulo 34 do seu livro O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos:

“… Fazendo apelo ao “subconsciente”, a psicologia, tal como a “filosofia nova”, tende cada vez mais a juntar-se à “metapsíquica”; e, na mesma medida, aproxima-se inevitavelmente (…) do espiritismo e de outras coisas mais ou menos semelhantes, todas apoiadas nos mesmos elementos obscuros do psiquismo inferior.

“… Os psicanalistas podem naturalmente, na maior parte dos casos, estar tão inconscientes como os espíritas sobre aquilo que se encontra por detrás disso tudo; (…) uns e outros são “levados” por uma vontade subversiva (…) e corresponde às intenções, sem dúvida diferentes, de tudo o que podem imaginar aqueles que são os instrumentos inconscientes pelos quais se exerce a sua acção.

“Nessas condições (…) o (…) uso da psicanálise (…) é extremamente perigoso para aqueles que a ela se submetem, e até para os que a exercem, porque estas coisas são daquelas que nunca se manipulam impunemente; não seria exagerado ver nela um dos meios especialmente utilizados para aumentar o mais possível o desequilíbrio do mundo moderno.

“Falamos em “falsificação”, esta impressão é grandemente reforçada por outras constatações, como a desnaturação do simbolismo (…), desnaturação que tende, aliás, a   estender-se a tudo o que comporta essencialmente elementos “supra-humanos”, tal como mostra a atitude a respeito da religião e até de doutrinas de ordem metafísica e iniciática (…), que também não escapam a esse género de interpretação, a tal ponto que alguns chegam mesmo a assimilar os seus métodos de “realização” espiritual aos processos (…) da psicanálise.”

A desnaturação do simbolismo sagrado trata de levar para estados psicológicos imediatos, misto de oníricos e lúdicos, assim como para a adulteração ou perversão da condição vivente puramente espiritual de santos, sábios e até de preceitos de ordem estritamente iniciática, logo, espiritual, reduzindo-a a «fantasia poética» que procura justificação nos mesmos estados oníricos e lúdicos, a despeito tal simbolismo sagrado e vivência espiritual serem completamente alheios a quaisquer e controversas análises neurológicas com presunção de diagnosticar o comportamento da colectividade, do indivíduo e das coisas, a começar pelas sagradas (a psicanálise resume-se a isso); indivíduo que ela, psicanálise manceba da psiquiatria, considera um doente contínuo cingido a traumas sexuais ocorridos na infância arrastando-se pela vida afora (sendo os seus sonhos e ambições a chave da interpretação do “estado imediato” do mesmo), e por isso, ainda para ela, a psicanálise, ele, o “doente contínuo”, não raro procura a “solução ao seu estado mórbido” na “cura pela religião”, logo assumindo a novel e retumbante “paranóia erótico-religiosa”, ficando ainda “mais doente” do que já estava. É assim, dizia, que a Tradição Universal, Divina, e até mesmo qualquer tradição religiosa local, popular, são disformadas numa crença francamente subversiva, satânica. Portanto, caríssimo leitor, sugiro acautelar-se ante o que lhe oferecem, porque “quando a esmola é grande o pobre desconfia”: a trevas são mais insinuantes que a Luz!

Voltando a Fernando Pessoa, pois que tudo o dito anda à volta dele, a sua natureza tímida e reservada abstinha-o no plano imediato das multidões e dos convívios de salão entre distintos e famosos (hoje chamar-se-ia jet-set), mas para todos quantos em Lisboa o conheceram na “Brasileira do Chiado”, no “Nicola”, no “Martinho da Arcada”, em Cascais ou em Sintra, ele era um Mestre de Pensamento, um homem lúcido, ponderado, calmo, entendedor da natureza humana e, sobretudo, o Iniciado por excelência. A comprovar isso tem-se os testemunhos directos dos que com ele conviveram, dentre muitos outros João Gaspar Simões, Costa Brochado, Almada Negreiros e Agostinho da Silva, mas também os testemunhos fidedignos de Carlos Blanc Portugal, Josué Pinharanda Gomes, Leonardo Coimbra, António Telmo e António Quadros, entre tantos mais, boa parte deles do meu convívio pessoal.

Fernando Pessoa no café-restaurante "Martinho da Arcada", Lisboa

Fernando Pessoa no café-restaurante “Martinho da Arcada”, Lisboa

Quanto à homossexualidade do Poeta – que hoje é coisa que assenta bem em qualquer artista ou intelectual e se deve aplaudir – a sua relação com Ofélia Queiróz (a sua “menina Ofelinha”) desmente categoricamente tal, além de nunca ter se mostrado avesso ao belo sexo, muito pelo contrário, e se rompeu com Ofélia, a sedentária e casadoira jovem secretária de escritório, cujos interesses não passavam do comum e vulgar indo chocar e destoar inteiramente daqueles muitíssimo mais elevados de Pessoa, que não compreendia e até a aterrorizava, razões mais altas se levantaram. Estão claramente expostas na carta do Poeta a Ofélia, datada de 29 de Novembro de 1929:

“Que isto de “outras afeições” e de “outros caminhos” é consigo, Ofelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.”

Esse vínculo secreto e muito pessoal aos Adeptos da Boa Lei, os Superiores Incógnitos da Humanidade com Posto Representativo em Sintra (Serra Sagrada a quem dedicou alguns dos seus poemas), como um certo Henry Moore referido em  fugaz «nota psicográfica» (modalidade linguística usual não passando disso, pois que a acção oculta disponha-se fora de qualquer mecânica mediúnica no sentido comum do termo),  já antes Fernando Pessoa o expressara em carta dirigida a Corte Real, escrita em 19 de Novembro de 1915:

“[] De modo que, à minha sensibilidade cada vez mais profunda, e à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade literária, mera-arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez mais à altura daquelas qualidades que recebi. [] Ter uma acção sobre a Humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a Civilização vêm-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida.”

Quanto ao pretexto de carência afectiva maternal e depois conjugal terem sido o motivo do seu desajuste psicofísico revelado como ânsia permanente e abstracta ou de alguma coisa indefinida por adquirir, que o deixava num estado constante de insatisfação e reclusão hipocondríaca quase maníaca, a verdade é bem diferente dessa análise supérflua e muito equivocada. A «carência afectiva», bem vistas as coisas, foi apenas a alavanca psíquica e sofrível para projectar Fernando Pessoa a esse outro Amor encoberto, Amor espiritual retratado idealmente na Dama desejada (a sua “Bebé”), afinal não sendo Ofélia nem a sua mãe, mas unicamente, como o compreendeu na carne pelo desejo inexplicável de uma sexualidade superlibídica, rarefeita e mental, a sua Alma encoberta, o seu Outro, o Eu Superior assinalado no “Guardador de Rebanhos” (os vários “eus” insublimados, o mesmo que nidhanas ou “vícios” para os orientais) do heterónimo Alberto Caeiro, o Mestre, de maneira que Ofélia, como feminino de Orfeu, tão-só representava a Divina Mãe Sabedoria.

Essa sublimação da libido, factor caríssimo à psicanálise mas mantendo-se no limite estreito das imagens sexuais contidas no subconsciente afim ao passado e que, por se as considerar indicativas de factores imediatos não resolvidos, oprimem o consciente presente, o que é uma interpretação completamente profana, por conseguinte, naturalmente errada, por mais uma vez querer sanar os efeitos com os efeitos, a mesma será sobretudo não a sublimação psicanalítica mas a superação da Consciência pelo despertar interior, pela subtilização dos sentidos grosseiros imediatos, por essa Energia Ígnea que os orientais chamam Kundalini e os ocidentais Fogo Criador do Espírito Santo, discorrendo da base da coluna vertebral ao alto da cabeça e daí volvendo abaixo, num eterno sobe-desce (de que o episódio bíblico do sonho de Jacob, com os Anjos subindo e descendo a Escada do Céu, é uma alegoria das mais significativas), com o qual o líquido encéfalo-radiquiano tem ligação profunda, por nele se encontrar a explicação médica e científica, e sobretudo iniciática, tanto do factor sexual como da actividade mental e da ligação entre ambos.

Esse processo alquímico de transcendência interior, e como diz José Amaro Dioníso em Os passos da morte (in semanário Expresso, sábado, 4 de Junho de 1988), levou o poeta a desabafar: “A solidão desola-me, a companhia oprime-me”.

Confrontando o Amor Ideal com o amor passional, que ele sabia distinguir, confessa-se em tom de desabafo à casta e casadoira Ofélia Queiróz – que ora se deixava seduzir, ora lhe fazia as cruzes – em carta de 29 de Setembro de 1929:

“Resta saber se o casamento, o lar (ou o que quer que lhe queiram chamar) são cousas que se coadunem com a minha vida de pensamento. Duvido.”

Ofélia Queiróz (14.6.1900 - 18.7.1991)

Ofélia Queiróz (14.6.1900 – 18.7.1991)

Se por isso ele procurou a “prata da casa”, o conforto nos braços de um homem preferido à mulher, como sugere o psiquiatra autor do pasquim em questão, então valerá dizer que “o intestino delgado da formiga está onde o senhor doutor devia ter a massa encefálica”. Considero que o próprio Fernando Pessoa lhe responde neste outro excerto da carta por último citada:

“É preciso que todos, que lidam comigo, se convençam de que sou assim, e que exigir-me os sentimentos [] de um homem vulgar e banal, é como exigir-me que tenha os olhos azuis e cabelo louro. E estar a tratar-me como se eu fosse outra pessoa não é a melhor maneira de manter a minha afeição.”

Isso mesmo é testemunhado pelo seu companheiro de tertúlias no Café Montanha, Francisco Peixoto de Bourbon, quando afirma com a certeza de quem sabe porque o conheceu em vida (in semanário Expresso, sábado, 4 de Junho de 1988): “Há muitas ideias feitas à sua volta que não correspondem à verdade, e insinuam-se coisas, como um pretenso homossexualismo, que não passam de calúnias. No que respeita à sua maneira de ser e de estar na vida, o Fernando Pessoa era a antítese de tudo o que se tem dito dele”.

Quanto às alegações prescritas no dito pasquim candidato a raridade literária (e de facto a é no mau sentido): “1.ª) morbidez psíquica, 2.ª) alucinações, 3.ª) fobias, 4.ª) obsessões”, na realidade são:

1.ª – O homem triste por estar no mundo não sentindo apetência a participar na vida comum do mesmo, das suas alegrias e gozos mundanos, sentindo-se morrer diariamente para viver mais eternamente, isto é, cada vez mais se sentindo morrer mundanamente e renascer espiritualmente. Esse é o estado psicomental de quem transcendeu os interesses useiros do vulgo e comum, estando com a sua consciência em plena travessia da ponte ou condição interior que separa um mundo do outro. Consequentemente, o epíteto «morbidez psíquica» não corresponde à realidade por Fernando Pessoa não se ter mostrado neurótico nem hidrofóbico em momento algum, razão porque não necessitou, em toda a sua vida, de espécie nenhuma (seja receituário, seja internato) de tratamento em alguma Casa de Saúde Mental. Angústia existencial certamente a teve, como todos quantos estão no Caminho da Verdadeira Iniciação a têm vez por outra, mas isso é muito diferente da morbidez d´alma.

2.ª – As «alucinações» de Fernando Pessoa são as mesmas de todos os psíquicos potenciais, mas isso nada tem a ver com estados alterados de consciência física misturados caoticamente aos da consciência psíquica, como acontece com a maioria dos doentes mentais incapazes de distinguir o real do irreal. Nestes últimos casos, é costume recorrer-se à intervenção medicamentosa com base opiácea, os psicotrópicos, o que deixa o doente num estado alterado de sonolência induzida ausente de vontade própria. Também se recorre à hipnose clínica e, em casos extremos, aos choques eléctricos e aos banhos de água fria. É desnecessário dizer que esses métodos são desumanos e completamente impróprios no tratamento eficaz de qualquer doente, pois deixam-no num estado semi-vegetal não raro para sempre. Felizmente a Medicina tem evoluído, além de haver outros métodos muito mais eficazes e… eubióticos, para restaurar a saúde psicomental desvalida.

Como Buda, Cristo, Maomé e outros mais Grandes Iluminados que têm feito avançar o Progresso da Humanidade, seguidos pelos melhores desta sustentando uma moral impeditiva da queda do Homem no selvagismo puro e simples, não passam de «paranóicos religiosos» e «místicos alucinados» para a maioria dos psicanalistas, então é «natural» que estes mesmos se alucinem nas suas próprias taras psicossomáticas e desdenhem o básico das «alucinações» espirituais serem, tão-só, a visão supra-sensorial das várias camadas dimensionais de Espaço e Tempo, de que a Ciência Físico-Química só conhece três – comprimento, largura e altura / passado presente e futuro, mas faltando a profundidade e a intemporalidade. No entanto, hoje mesmo a Ciência Experimental já conclui, com êxito, haver outros espaços e energias dotadas de automatismo e consciência próprias além do clássico espaço tridimensional a que o Homem está limitado. Desde logo se fala em quarta e mais dimensões, na curvatura do Tempo e do Espaço e na avenção experimental comprovativa de outros sentidos latentes além dos cinco comuns ao mesmo Homem, que o poderão transportar a esse Espaço/Tempo ultradimensional e nele vivenciar estados de consciência impossíveis doutro modo. As experiências parapsicológicas realizadas nas universidades russas e norte-americanas, por exemplo, provaram cabalmente que o Pensamento influi sobre a Matéria e esta pode ser profundamente alterada por ele. Vários cientistas reputados desses países concluíram que os fenómenos paranormais, ou parapsicológicos, por eles observados após levarem à sua provocação experimental (o que está muitíssimo documentado), assemelhavam-se (não que fossem idênticos, que é coisa diversa de semelhantes) em tudo aos dos Santos da Igreja Cristã, aos dos Yoguis da Índia, aos dos Hierofantes do Antigo Egipto ou aos dos Teurgos e Taumaturgos celebrizados nos anais da História e nos textos sagrados de todas as religiões tradicionais.

Chegado a este ponto, é notório e risível que o médico em questão apesar de “escuro-vidente” assumiu-se “psiquiatra do Além”, pois fez o diagnóstico clínico de quem faleceu há mais de 50 anos e nunca conheceu de parte alguma a não ser por folhas soltas do seu espólio literário. Mas que Fernando Pessoa era clarividente bem o prova na sua carta à Tia Anica [D. Ana Luísa Nogueira de Freitas], redigida em Lisboa a 24 de Junho de 1916, da qual extraio alguns excertos deveras elucidativos para uma clara compreensão do seu verdadeiro perfil psicológico:

“Há momentos, por exemplo, em que tenho perfeitamente alvoradas de “visão etérica” – em que vejo a “aura magnética” de algumas pessoas, e, sobretudo, a minha ao espelho, e, no escuro, irradiando-me das mãos. Não é alucinação porque o que eu vejo outros vêem-no, pelo menos, um outro, com qualidades destas mais desenvolvidas. Cheguei, num momento feliz de visão etérica, a ver, na Brasileira do Rossio, de manhã, as costelas de um indivíduo através do fato e da pele. Isto é que é a visão etérica no seu pleno grau.

“[] Às vezes, de noite, fecho os olhos e há uma sucessão de pequenos quadros, muito rápidos, muito nítidos (tão nítidos como qualquer cousa no mundo exterior). Há figuras estranhas, desenhos, sinais simbólicos, números (também tenho visto números), etc.

“[] Há mais curiosidade do que susto, ainda que haja às vezes cousas que metem um certo respeito, como quando, várias vezes olhando para o espelho, a minha cara desaparece e me surge um fácies de homem de barbas, ou um outro qualquer (são quatro, ao todo, os que assim me aparecem).”

Segue-se, nessa mesma carta, o fundamental quanto ao despertar interior de Fernando Pessoa e quase de certeza ter desfechado com a sua aceitação no seio da Fraternidade dos Mestres Ocultos do Mundo, de que o indicativo Maridj, Maris ou Mariz não é alheio em vários textos esparsos do poeta:

“O que me incomoda um pouco é que eu sei um pouco mais ou menos o que isto significa. Não julgue que é a loucura. Não é: dá-se até o facto curioso de, em matéria de equilíbrio mental, eu estar bem como nunca estive. É que tudo isto não é o vulgar desenvolvimento de qualidades de médium. Já sei o bastante das ciências ocultas para reconhecer que estão sendo acordados em mim os sentidos chamados superiores para um fim qualquer que o Mestre desconhecido, que assim me vai iniciando, ao impor-me essa existência superior, me vai dar um sofrimento muito maior do que até aqui tenho tido, e aquele desgosto profundo de tudo que vem com a aquisição destas altas faculdades. Além disso, já o próprio alvorecer dessas faculdades é acompanhado de uma misteriosa sensação de isolamento e de abandono que enche de amargura até ao fundo da alma.

“Enfim, será o que tiver de ser.

Eu não digo tudo, porque nem tudo se pode dizer. [] Estas cousas são anormais sim, mas não antinaturais.”

Ainda sobre a Tia Anica, tia materna do poeta e médium afamada de Lisboa, realizava em sua casa sessões de espiritismo a que Fernando Pessoa assistiu a algumas delas, sendo muito mal vistas pela vizinhança. Levantaram-se boatos: ali faziam-se orgias de todo o tipo e consumia-se cocaína e ópio a rodos. O boato pegou até hoje: vem daí a ideia abstrusa de que Fernando Pessoa além de «homossexual» também foi um «drogado em cocaína e ópio». O próprio poeta pegou nessa invenção da má-língua e, como bom “blagueur”, gozou com ela pondo-a no papel, mas em boa verdade não passando disso mesmo: pura e simples “blague”. Agora, pergunto eu: como é possível a alguém que se tenha por pessoa de bons princípios, fazer um levantamento biográfico e psicológico minimamente credível só baseado em boatos populares, nascidos da ignorância e da superstição temerosa?

Tia Anica

Tia Anica

3.ª – As «fobias» de Fernando Pessoa já as expliquei, ele próprio foi suficientemente claro na sua carta citada por último, pelo que é desnecessário repetir-me. Ainda assim, algo mais tenho a acrescentar em continuação da alínea 2.ª: antes de tudo, convém não ignorar que a Humanidade reparte-se por vários escalões de consciência de acordo com o temperamento e apetência individual afectando o colectivo – bem conformado ao estado evolucional já alcançado, o que é comprovável, visível e tangivelmente, em cada pessoa pela sua inteligência e pelo seu sentimento, maiores ou menores, mais ou menos grosseiros, com estes ou aqueles interesses, sim, porque o interesse imediato não deixa de ser a causa de um efeito produzido anteriormente e subjacente à sua “psique” ou “ego” (Freud chamar-lhe-ia “super-ego”).

É nesse mesmo “ego” que a hodierna análise e diagnóstico clínico (da psicologia, psiquiatria, psicanálise, etc.) procura as respostas para o comportamento humano, individual e colectivo. Como a acção mental leva à reacção corporal, logo sintomatologia clínica conclui que o cérebro é a «alma» das religiões e a «libido» o motor provocativo do fenómeno da exteriorização dos interesses humanos, e esta é, sucintamente, a bula clínica explicativa dos fenómenos do comportamento humano (sejam quais forem, onde sobretudo a psicanálise realça sempre, quase maníaca-compulsiva, a fenomenologia religiosa como “inimiga adversária” a abater), e como o cérebro se secciona em multivariadas «especialidades» mentais, logo quando uma dessas secções está mais activa o interesse correspondente impõe-se aos restantes. Se a coisa for levada ao extremo em detrimento da restante actividade cerebral, então apelida-se de paranóia, sem mais delongas clínicas, não separando o factor interesse místico, resultante da actividade cerebral normal afim a esse interesse, o que é sinal de boa saúde mental, da alteração cerebral provocada por enfermidade de um ou de todos os sentidos, gerando alucinação psicomental que induz, esta sim, a paranóia, ou seja literalmente, “fora de “Si”, do normal”, ficando assim praticamente explicado todo o fenómeno religioso ou místico. De maneira que, para tais analistas clínicos, todos os religiosos e místicos são «visionários e paranóicos». Por que? Clinicamente por uma ou mais secções cerebrais falharem ou embotarem provocando as anomalias dos sentidos e consequentemente do comportamento. A psicanálise pretende explicar isso muito bem (???) ao querer esventrar os comportamentos psicológicos do Cristo, de Buda ou de Krishna, por exemplo, através da sua interpretação profana, anti-tradicional e contra-iniciática, dos textos sagrados das religiões afins aos mesmos. Mas estarão a psicanálise e a sua associada, a psiquiatria, correctas? Estará assim tão certo e tão redutivo, tão niilista e tão deprimente esse levantamento clínico do comportamento humano, em que a «alma» não passa de um pedaço de carne animada por sangue e nervos, agindo por hábito mecânico que é a inteligência mecânica que é a razão do Homem? Duvido, e muito.

De maneira que assim são explicados clinicamente os fenómenos místicos e religiosos, admitindo as religiões não passarem de criações humanas produtos de simples devaneios lúdicos dos sentidos, e assim, por esse seu positivismo o mais pedante possível que realmente é negativismo, por manifestar neles o estado alterado de negação e culpabilização contínuas, acabo induzido a diagnosticar o grave factor paranóia em muitos clínicos de ciência neurológica. Por que “pedantismo clínico”?

Por de antemão saber-se que o pensamento não é um objecto físico, e nem as correntes eléctricas que percorrem, se chocam e animam o cérebro e o cerebelo poderem ser provocadas pelo sistema neuro-espinal, por ser este quem é animado por aquelas, facto facilmente comprovável num bebé que já manifesta guturalmente os seus interesses mas não tem qualquer domínio sobre o corpo tenro. Isto leva a deduzir que a mente ou pensamento é distinta do cérebro, seu veículo, e que as correntes e descargas eléctricas deste só poderão ter uma causa originadora: aquele, o pensamento. Tanto assim é que hoje até um clínico medíocre sabe que o pensamento antecede o impulso electro-cerebral. Mesmo na morte clínica ou paragem cardíaca, sabe-se que ainda não aconteceu a morte cerebral ou, como se diz em psicanálise, o desligar da mente (grande verdade, apesar dos que a proferem desconhecerem o seu verdadeiro sentido). É assim que quando há a morte cerebral ou apartamento mental e mantém-se a restante vida orgânica, o corpo não responde, fica num estado vegetativo, mesmo com o sistema nevro-sanguíneo mantendo-se vivo mas não activo por lhe faltar o impulsor neuro-cerebral, tal como a este falta o pensamento ou inteligência por estar incapaz de manifestar-se no órgão danificado.

O mesmo se pode dizer das emoções em relação ao coração. Será o órgão nobre quem as provoca após a reacção química provocada por um qualquer reconhecimento simpático ou antipático dos sentidos, principalmente da visão que é o sentido da luz reflectora, sabendo-se que nem todos vêem da mesma maneira e que há espécimes animais que vêem o que o Homem não consegue ver, mas que nem por isso deixa de ser real? Ou serão corpos distintos para os quais os sentidos não passam de agentes ao invés de princípios?

Tanto mais que hoje  em Medicina Legal aplica-se ao cadáver o designativo de “casco”, no sentido de “casca vazia”. Logo, significa que o seu “morador” original já não está lá. De maneira que em princípio pressupõe-se a existência de duas entidades distintas: o “casco” e o “morador”… que partiu. Para onde? Só a Teosofia, “Mãe de todos os saberes” por ter saber e experiência armazenados desde há milhares de anos, poderá responder com maior amplidão e lógica.

Também não será pedagógico nem razoável exigir da vasta e diversificada Humanidade que acompanhe de maneira igual os passos avante dos mais adiantados do seu Género. Isso nunca poderá resultar positivo, pois o que acaso sejam imperfeições para o mais adiantado no desenvolvimento da consciência poderão ser perfeições para o restante comum. Mesmo assim, deve-se saber separar o estado normal dos menos adiantados mental ou espiritualmente do estado anormal dos que estão humanamente doentes. Isto é fundamental. É dever soberano do homem superior respeitar e até aceitar como normais as crenças e actos dos seus irmãos em Humanidade menos adiantados, não se imiscuindo no livre-arbítrio alheio, pois todos têm as suas experiências e vivências a fazer, o que leva a concluir que todas as verdades humanas são relativas!… Se, acaso, um homem superior presume-se com um pouco mais de consciência (eis uma outra palavra complicada, mas que resulta da essência do pensamento e do sentimento), então será seu dever ante a mesma Humanidade, na medida das suas possibilidades e oportunidades, colaborar de maneira não ostensiva e não impositiva na sua evolução ou desenvolvimento consciencial. Foi sempre assim a acção de todas as Escolas de Psicologia Esotérica em todos os tempos e, igualmente, de todos os verdadeiros Iniciados.

Uns mais depressa e outros mais devagar todos evoluem no seu espécime, o Hominal, e todos chegarão ao objectivo último, este aparentemente uma melhor condição humana e desde logo social, ainda que não seja tão-somente isso!… A experiência que cria maior consciência, essa sim é tão diversificada quanto é o Homem no individual e no colectivo. É muito natural que seja assim, visto ele ser a soma de toda a Natureza manifestada.

Dos últimos 500 anos para cá, assistiu-se a um grande avanço intelectual e tecnológico por parte da Humanidade. Falta-lhe só equilibrar o intelecto com a moral. Por isso apareceu no século XIX o grande surto espiritualista para dar resposta ao maior mistério, ao gigantesco dilema do Homem: conhecer-se a si mesmo, encontrando a solução final para o magno problema da Vida, o da Felicidade Humana.

4.ª – A «obsessão» de Fernando Pessoa terá a ver com a «fobia» e a «paranóia» constantes que mostrava por um supranacionalismo e por um sebastianismo com que entendia Portugal mas que não passava de quimera obsessiva, pois não era mais do que dar realidade a uma expressão literária imaginativa dos antigos. Isto, é claro, no considerando do tal psiquiatra supracitado, que também é pedante ao pretender ter domínio da História e do que realmente pensavam os antigos sábios. Postas as coisas assim, fico com o demonstrativo cabal da senilidade desse senhor e desse modo também diagnosticar-lhe fortes indícios de paranóia obsessiva apercebida por uma escrita esquizofrénica, pelo que à sua paranóia mito-psiquiátrica é muitíssimo mais saudável a mítica-espiritual de Pessoa, que bem preferia o seu patrono Padre António Vieira a um Freud esquizofrénico de paixão solapada pelas sobrinhas, dotado de taras pedófilas como se denota em muitas passagens da sua biografia.

O V Império Lusitano de Fernando Pessoa e de todos os adeptos do Sebastianismo Branco, teosófico, esclarecido, bem o definiu o seu amigo e companheiro do Orfeu, Raul Leal, como o cita António Quadros em Fernando Pessoa e o “Império da Cultura” (no semanário Tempo, 28.4.83): “A aliança de D. Sebastião, Imperador do Mundo, e do Papa Angélico, figura esta íntima aliança essa fusão do material e do espiritual. É o próprio Segundo Advento ou nova encarnação do mesmo Adepto em quem outrora Deus projectou o seu Símbolo, ou Filho, não faz senão figurar d´outro modo essa mesma aliança suprema. Não é pois para uma absorção mística que avançamos, sendo para a conjunção clara dos dois poderes da Força, dos dois lados do Conhecimento. Far-se-á a aparente conquista da inteligência material pela espiritual e da espiritual pela material. De aí ser o Império Português ao mesmo tempo um Império da Cultura e o mesmo Império Universal, que é outra coisa”.

O psiquiatra que me serve de mote à defesa cultural e espiritual de Fernando Pessoa, consequentemente da Tradição Iniciática Portuguesa, para não dizer Universal, agiu sinistramente como um mago negro ao desrespeitar inteiramente as três coisas com que um espírito nobre nunca brinca, muito mais sendo ele médico, logo atraiçoando o Juramento de Hipócrates que fez para ter direito ao diploma de Medicina, como muito adequadamente ao presente, em palavras lembradas por José Amaro Dioníso (ob. cit.), o poeta diz: “Há três coisas com que um espírito nobre nunca brinca: os deuses, a morte e a loucura”.

Utilizando como dialéctica e retórica instrumentos mentais desconexos, esse psiquiatra vale-se de uma carta escrita por Fernando Pessoa mas assinada com o nome feminino Maria José, endereçada a um António que nunca existiu a não ser ele próprio. É neste documento que baseia toda a sua teoria anacrónica sobre o «homossexual paranóico» que considera ter sido o vate e poeta. Duas impressões saltam-me desde logo à vista:

1.ª) Maria – José – António, este provindo do radical filológico Aton, o Sol Espiritual, o Filius. De maneira que Fernando Pessoa evoca poeticamente a Santíssima Trindade (estando José para o Pai e Maria para a Mãe) na sua maneira peculiar de escrever, e 2.ª) faz a sua confissão ou autocrítica lançando no papel as suas nidhanas, as suas vicissitudes ou defeitos, livrando-se, desse modo muito seu, delas. Daí a dureza dos termos “hipocondríaco, esquizofrénico, paranóico, etc.” que emprega na carta em relação a si mesmo.

“Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim mesmo…”

Álvaro de Campos in Obras Completas

É uma forma de desabafar, de lançar para fora o peso enorme das inquietações e agruras quotidianas sem que, necessariamente, tenha de ser tudo de quanto se acusa. No fundo, trata-se do queixume íntimo de Pessoa à sua Individualidade Fernando, procurando o lenitivo interior, o estímulo superior, e fê-lo através da escrita que era a sua maneira de combater o “stress” psicossomático.

Ademais muitos, a maioria dos escritos contidos na pessoana “arca” são rascunhos, anotações e ideias do momento que o poeta anotou decerto para não se esquecer depois, umas suas e outras que ouviu de outros. É assim que se chafurda nas coisas mais íntimas e impublicáveis de um homem falecido, com o único objectivo interesseiro de conseguir-se prestígio social e regalias económicas à custa de quem tão nobre, anónima e pobremente em seu tempo serviu a Língua Portuguesa sua Pátria, acabando por morrer só, abandonado na cama fria do Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, na manhã triste de 30 de Novembro de 1935, depois de anos, dias e noites seguidas, intermináveis de solidão e angústia pela feitura de uma Obra que se quer Divina.

Sepultado no Cemitério dos Prazeres, o féretro de Fernando Pessoa foi depois, em 1985, trasladado para o claustro do Mosteiro dos Jerónimos, e na altura verificou-se que o corpo mantinha-se incorrupto, estava como quando falecera, ele que proclamara nas vésperas da sua morte: “Neófito, não há morte!”, e “nunca te deixes vencer pelos incompetentes”.

Túmulo de Fernando Pessoa no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa

Túmulo de Fernando Pessoa no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa

Será por tudo isso que o Pensamento de Pessoa «está deteriorado pelo seu perturbado estado mental», o que «lhe impossibilitou possuir uma personalidade íntegra»?… Realmente, é preciso ser-se muito mau e imensamente ignorante para se afirmar e publicar calúnias dessa monta que só podem provir de um espírito doente, obsedado. A integridade de Fernando Pessoa como homem, escritor ensaísta e poeta, e sobretudo Iniciado, nada tem que se lhe aponte. Pode-se discordar da sua maneira de estar e agir, é natural, mas querer destruir insanamente só por não se gostar dessa maneira de estar e agir, isso já não é natural.

Recordo as palavras de um Mestre Vivo (Morya Rajput), escritas na segunda metade do século XIX, acerca de uma outra incompreendida e injustiçada, Helena Petrovna Fadeef Hahan Blavatsky, as quais se adaptam bem ao caso presente de Fernando António Nogueira Pessoa:

“Nós, pelo contrário, descobrimos diariamente na sua natureza interior traços muito delicados e refinados, que um psicólogo não-Iniciado nunca conseguirá descobrir nas profundezas desse mistério tão subtil – o mental humano – e um dos mecanismos mais complexos – o mental de H.P.B. – senão após muitos anos de observação constante e penetrante, acompanhada pelos esforços de análises cerradas; tal trabalho permitiria a esse psicólogo aprender a conhecer o verdadeiro Ser Interior de H.P.B.”

É claro que no caso do poeta o «ilustre» psiquiatra não o fez, nem jamais o poderia fazer, porque Fernando Pessoa já não existe entre nós. De maneira que enxovalhou a memória universal do Homem e demonstrou incapacidade até em respeitar os mortos, pelo que lhe diagnostico traumas de um passado infeliz e a necessidade premente do seu inconsciente confessar publicamente a sua natureza doentia, como que pedindo desculpa por a ter!…

Quanto à «ciclotimia» de que acusa Fernando Pessoa, ela se desdiz e desfaz perante o facto comprovado, pelos testemunhos dos que com ele conviveram, da sua tranquilidade e lucidez, como pessoa pouco excitável ou deprimível conforme as impressões emocionais do momento, visto a característica da sua natureza ser sobretudo mental. Seja como for e levando a coisa para o nível da psique humana, isso terá a ver com os estados de busca, de angústia e anseio mentais pelo encontro de soluções para problemas de índole metafísica, esta que foi o timão e norte de toda a vida do poeta. De maneira que, ainda que todos os Iniciados não sejam «ciclotímicos», serão ciclotímidos, se assim posso dizer, porque sabem e calam.

É assim que a «paranóia mítica» do poeta é largamente superada pela paranóia psiquiátrica de quem, certamente, pouco ou nada sabia sobre a verdadeira personalidade de Fernando Pessoa.

Não termino sem assinalar um outro ponto controverso que até ao momento tem servido para denegrir o poeta por parte de alguns dotados de um moralismo primário, puritano e castrante, como se fossem «a perfeição em pessoa»: o uso excessivo que fazia das bebidas alcoólicas.

Seja como for e mesmo nisso, não deixa de haver sabor a “blague” no alcoolismo excessivo de Fernando Pessoa. Lá que ele bebia, bebia… “Bebo como uma esponja, não. Como uma loja de esponjas, e com armazém anexo!”, gracejava confessando a Luis Moitinho de Almeida, filho do dono da firma comercial onde trabalhava. Que pretendia ele com afirmações degradantes desse género? Será que já não distinguia a realidade lúcida da alucinação alcoólica, por estar em fase adiantada de delirium tremens? Não creio. A resposta flagrante dá-a um seu parente afastado que com ele conviveu, o professor Calvet de Magalhães, um dos fundadores da Cooperativa de Ensino Árvore, no Porto: “Unanimidade há apenas em torno do facto de que “nunca ninguém o viu bêbado”, […] não bebia tanto assim, cultivava era essa fama, para chocar as pessoas, “blagueur” como sempre foi”. E remata o seu velho companheiro de tertúlias nos cafés da Baixa de Lisboa, Francisco Peixoto de Bourbon, definindo numa só frase concisa o perfil de Fernando Pessoa: “Um aristocrata no verdadeiro sentido da palavra, um puritano, um estóico e um espartano”. Por sua vez, a sua sobrinha “Mimi”, Maria Manuela Nogueira, questionada sobre a morte do seu tio “ter sido repentina ou por já estar doente?”, respondeu: “Não. As coisas que inventam agora — que foi do vinho, que foi daquilo — é tudo mentira. Não foi nada disso. Ele teve uma coisa que se chama “volvo”, que é um nó no intestino. Se fosse hoje em dia, era operado e ficava óptimo. Naquela altura não havia meios de diagnóstico, não se percebeu de onde vinham as dores que ele tinha. Deram-lhe remédios para as dores no hospital.”

"Fernando Pessoa em flagrante delitro", legenda do próprio

“Fernando Pessoa em flagrante delitro”, legenda do próprio

Contudo, como causa da morte do poeta foi diagnosticada uma cólica hepática em adiantado estado crítico, originada pelo álcool consumido. Se bem que do ponto de vista clínico o diagnóstico possa estar correcto, todavia deve-se também observar o diagnóstico oculto, e este só poderá ser feito à luz da ciência dos chakras ou “centros vitais” subtis do corpo humano, manifestando-se pelos plexos e as glândulas.

Sendo a cólica hepática doença de fígado, logo ligada ao aparelho intestinal e ao correspondente plexo solar, gástrico, além do álcool consumido talvez e principalmente ela tenha sido originada em Pessoa pela sua procura, intensa e permanente, em transmutar as energias do centro gástrico de maneira a elevá-las ao centro cardíaco. O seu adiantado estado psíquico motivado por uma vivência psicomental constante, conduzia o seu chakra gástrico, relacionado ao sistema emocional, a estados de congestionamento que ele procuraria desbloquear através de uma descarga ou catarse pela escrita, funcionando assim como método de “higienização psíquica”, o que lhe possibilitava um alívio temporário. Daí a razão e causa ocultas das suas confissões, referidas mais atrás.

Portanto, transmutava as suas emoções de fatalismo e angústia em ideais estéticos e místicos aportados dos níveis superiores do corpo emocional, este exprimindo-se por imagens, enquanto o corpo mental se exprime por ideias, o que também já foi dito. Quanto à sublimação da emoção em sentimento puro de Amor, tanto valendo por elevação do psíquico ao intuicional sito no centro cardíaco, tal processo pode ser extremamente doloroso para a alma que se vê despojada, desnudada, de todas as suas nidhanas ou “desejos” inferiores, passionais, provocando uma verdadeira “dor de parto” místico que o poeta procuraria atenuar através da bebida e recuperar parte da consciência orgânica, de facto já totalmente perdida e, anacronicamente, substituída por uma maior lucidez mental.

“Dêem-me de beber, que não tenho sede!” – dizia nas vésperas da sua morte.

Terá Fernando Pessoa conseguido essa transmutação alquímica interior e consequente elevação redentora da energia inferior da Anima ao Animus espiritual? Os seus sinais psicológicos dizem que sim: a sua serenidade face ao inevitável, os momentos lúcidos antecedendo o seu passamento assumindo a tranquilidade de um sábio, do seu “Outro” Alberto Caeiro com o qual, finalmente, partia.

Tanto a sua vida como a sua obra assinalam que conseguiu a tríplice elevação dos “centros vitais” inferiores aos superiores, a despeito do sofrimento e solidão constantes na sua vida de Adepto que junto aos homens se pode gabar apenas de ser também ele homem, logo sujeito como qualquer um às angústias e incertezas podendo surgir inesperadas numa esquina qualquer da vida.

Essa tríplice elevação, é:

1.ª – A elevação das energias do centro gástrico ao centro cardíaco, ou seja, a sublimação da emoção passional em Amor Espiritual.

2.ª – A elevação das energias do centro esplénico ao centro laríngeo, ou seja, a sublimação da sexualidade em Criatividade Espiritual.

3.ª – A elevação das energias do centro sacral ao centro cranial, ou seja, a sublimação da auto-afirmação em Vontade Espiritual.

Nessa transformação de Pessoa pela superação de Fernando e consequente metástase com o “Outro”, nessa derradeira e sublime vitória, muitíssimo mais importante que todas as vitórias de povos em guerra ou triunfos sociais por atropelos ao próximo, remata ele, o “Supra-Camões”, o Vencedor do Adamastor como matador da própria morte:

“Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.”

Alberto Caeiro in Obras Completas

Para fechar, com texto recolhido por Pedro Teixeira da Mota, endereço a todos os detractores presentes e futuros de Fernando Pessoa estas suas próprias palavras magistrais:

Deseja ardentemente a Luz, conhecendo-te a ti próprio nela.

Priva-te do Egoísmo, Vaidade e Orgulho.

Pensa fraternalmente, não alojes pensamentos maus

E tem o menos possível de pensamentos materiais.

CONHECE-TE A TI PRÓPRIO

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