Na noite de Lua Cheia do Carneiro de 1992 tive a grata satisfação de ser convidado por um teúrgico hindu shivaíta para assistir ao equivalente do Carnaval no Ocidente, a Festa de Holi, também conhecida como Festival das Cores, sendo que na Índia Ocidental e no Bangladesh é chamada Dolyatra (Doljatra) ou Boshonto Utsav, a Festa da Primavera.

Este Carnaval apesar de muitíssimo diferente do festejado no Ocidente, já sem qualquer resquício de sagrado ao contrário deste, contudo tem algumas parecenças com ele. Por exemplo, invés das máscaras vestem-se roupas velhas que depois são arrojadas à fogueira como quem despe a velha “persona” e renasce purificado pelas flamas de Agni, o Fogo Sagrado.

O festejo processa-se da maneira seguinte: em terreno aberto cava-se o chão abrindo uma cova ou loca (loka), depois enchida com grãos de bico e bagas de milho (expressando a fertilidade irrompendo do seio da Terra, justificando a festa móvel da Primavera). Em seguida, colocam-se quatro paus de sândalo em cruz (pramantha) por cima da cova e que irão servir de suporte ao montículo de qualquer outra lenha que será incendiada. Em volta desta fogueira será desenhado no solo um círculo largo feito com as oferendas dos devotos (bagas de milho, grãos de bico, tâmaras, cocos, bolos de açúcar, flores, moedas…), os quais terão de dar cinco voltas em torno dela (representativas dos cinco alentos ou hálitos vitais, tatvas ou “vibrações subtis da matéria”, animadores do Universo e do Homem – Pritivi, Apas, Tejas, Vayu, Akasha Tatvas, correspondendo aos elementos naturais Terra, Água, Fogo, Ar, Éter – em passadas ritmadas muito semelhantes aos “passos do Munindra”, como se quisessem evolar-se nos ares) antes de lançarem as suas oferendas ao Fogo Sagrado.

Depois vem a folia: as crianças dão o mote e atiram água e pós coloridos (gulal, assinalando todas as cores da Primavera) aos pais, irmãos, amigos e desconhecidos, e todos as imitam para no final ficarem completamente pintados e coloridos, com as roupas velhas manchadas de todas as cores que lhes dão um ar festivo, esfusiante de alegria contagiante com as pessoas cumprimentando-se dizendo Holi Hai, “festa feliz”. Revela-se nisso uma espécie de purificação pela água, uma iniciação lustral ou batismo colectivo, antes de libertar-se da velha personalidade, viciosa e viciada, sendo que só depois, já “purificado e liberto”, se fará o ágape ou “manjar divino”, espécie de hóstia sagrada por Agni, com as oferendas em torno da fogueira. O Holi (pronuncia-se hooli) ou Horî termina com cânticos de júbilo contidos nas escrituras sagradas vishnuítas, nas quais se encontra a origem desta festa em que Vishnu, o Segundo Aspecto do Logos Solar, é reconhecido na primitiva Aryavartha, a Índia, como o Deus Original da Criação.

Com efeito, o aparecimento do Holi remete para a época védica do temível rei Hiranyakashipu. Muito vaidoso, sedento de protagonismo e autossuficiência, queria que todos no seu reino o adorassem como líder incontestado e deus incontestável, mas seria justamente o seu filho Prahlad quem encetaria adoração a uma Entidade diferente chamada Vishnu, e que era puro Purusha ou Espírito. Hiranyakashipu, representação do estado mais denso da Matéria ou Prakriti como Assura revoltado por à mesma estar encadeado desde a sua Queda Celeste, ficou furioso e combinou com a sua terrível irmã Holika, possuidora do poder de não se queimar, que ela entraria numa fogueira com Prahlad em seus braços para matá-lo. Mas foi ela quem ardeu, porque ignorava que o seu poder de enfrentar o fogo seria anulado quando entrasse na fogueira com outra pessoa. O Deus Vishnu reconheceu a bondade e devoção de Prahlad, como Assura obediente ou fiel à Lei, e salvou-o. O festival, portanto, celebra a vitória de um Deus contra o outro e a vitória da devoção. A tradição da queima de Holika ou Holika Dahan vem dessa lenda de fundação da festividade.

Apesar de ser uma festa colorida, existem vários aspectos do Holi que a tornam importantíssima na cultura e religiosidade da Índia. Embora possa não estar evidenciado, o olhar atento e o entendimento das escrituras sagradas revelam o significado do Holi em mais de um aspecto, como o da celebração do episódio de Radha e Krishna, Avatara de Vishnu, retirado do Bhagavad-Gïta, o qual descreve o grande prazer que o Menino Krishna tinha na aplicação de cores sobre Radha e as Gopis ou “serviçais”. Essa brincadeira de Krishna mais tarde tornou-se uma tendência, tornando-se parte principal dos festejos de Holi indo marcar o seu final, envolvendo cores, no Radhapanchami ou Rangapanchami em um Panchami (quinto dia da Lua Cheia), quando as pessoas se borrifam com água e pós coloridos umas às outras, cumprimentando-se dizendo Holi Hai, “festa feliz”. Este dia, o principal do período, é chamado Dhulheti, Dhulandi ou Dhulendi, “festa de cores”.

Segundo o calendário lunar hindu, a Festa de Holi é comemorada na Lua Cheia do mês de Phalugna ou Falguna (Phalgun Purnima), geralmente caindo na parte posterior de Fevereiro ou Março, e muito possivelmente estará nela a origem do Carnaval no Ocidente, exportado do Oriente para Roma donde se espalhou pelo restante continente, cuja primeira versão carnavalesca entre os romanos teriam sido as lupercais e as bacanais. Haviam dois tipos de bacanais: as festas religiosas celebradas em época fixa em homenagem a Baco, e as festas vinícolas com orgias com bacantes do culto de Dionísio, que o Senado romano acabou proibindo no ano 186 a. C., hoje só restando a memória e os resquícios nos excessos carnavalescos da data que tem aí a sua origem.

O Holi remota ao período da primitiva Satya-Yuga, a Idade de Ouro, aquando a Paz, a Ordem e a Justiça imperavam sobre a Terra. Era então a Festa da Concórdia Universal, a da exaltação da Matéria ao Espírito, como seja de Prakriti indo unir-se a Purusha in do expressar, enfim o “adeus à carne”, a carnes vaal latina, donde carnaval

Este festejo iniciou-se com Prahlad ou Hiranyásh, literalmente, “aquele de olhos de ouro”, que terá se recolhido há cerca de 5000 anos, após o término da Satya-Yuga, à região subterrânea de Patala ou Naga-Loka, o Mundo Interior ou Inferior (Inferius, donde Inferno), onde reina como reinou na Aryavartha com a sua consorte Satî ou Satti, à letra, “esposa casta e virtuosa”. Satî foi sacrificada às mãos dos daityas decadentes da primitiva Raça Atlante ou Lunar (Chandra-Vansa) ao tentar proteger o esposo das suas investidas, postando-se no “umbral da porta de seu palácio” segundo o Mahabharata, nisto tanto valendo por umbral entre dois Ciclos Raciais, tendo sido trespassada por espadas afiadas e depois arrojada ao fogo. Foi quando Hiranyásh se recolheu ao Mundo Subterrâneo de Patala, levando consigo as sementes monádicas (assinaladas nos grãos vegetais que encherão a fogueira de Holi) da futura Raça Solar (Surya-Vansa).

O sacrifício de Satî às mãos dos degenerados atlantes, os daityas, com a chegada da Kali-Yuga ou Idade do Obscurantismo onde a superstição fanática se impôs à razão e à verdade dos acontecimentos já esquecidos na poeira do crencismo cego, originou o costume funesto da satî ou suttee, ritual macabro das viúvas serem cremadas vivas com os seus maridos defuntos, felizmente abolido na Índia moderna.

As pessoas de Prahlad e Satî (do devanagari Sat, Verdade) na história da Festa de Holi dispõem esta em relação com o quarto Avatara de Vishnu: Narasimha, o “Homem Leão”, manifestação que aconteceu na quarta Raça-Mãe Atlante no período que marcou a guerra entre os Adeptos da Boa Lei e os Adeptos Sombrios indo até afectar gravemente as Hierarquias Criadoras de Barishads lunares, Agnisvattas solares e Assuras saturninos, o que redundou no caos à escala planetária forçando a Grande Loja Branca – Shuda-Dharma-Mandalam – a recolher-se ao seio da Terra por falta de condições mentais e psicofísicas à superfície.

O Leão, zodiacalmente o quinto signo domicílio do astro-rei marcado pelas cinco voltas em torno da fogueira de Holi, representa-se no Ouro (Kryta) e no Sol (Satya, que como deus é Surya), como tal o seu Homem (Narasimha) foi Prahlad (in Bhagavad-Gïta, X, 30), ou seja, o Supremo Dirigente da Linha Solar Aditya oposta à Daitya, a Lunar dos “gigantes” ou homens de estatura desenvolta que caracterizaram a Raça Atlante. Prahlad ou Prahlâda viveu 15.000 anos, isto é, o tempo de duração da sua linhagem familiar e não de uma só pessoa, o que humanamente seria impossível. Com isto explica-se também a longevidade excessiva dos patriarcas bíblicos, nada mais sendo que quanto durou os seus clãs ou linhagens de que foram cabeças ou origens.

Sendo Prahlad o mesmo Hiranyásh esposo de Satî, como disse, ele era um divino Rei-Sacerdote (Rishi) em que se manifestara Nirsimha como quarta encarnação do Deus Vishnu, que na Trimurti hindu é equivalente ao Filho na Trindade cristã. O pai carnal de Hiranyásh era Hiranyakashipu, como também foi dito, igualmente chamado Daitya, por corporificar toda essa raça de ateus e degenerados de que era rei os quais pereceram no dilúvio universal que submergiu Kusha, a Atlântida.

Tudo quanto disse até aqui encontra-se na lenda simbólica de Nirsimha-Avatara, este último termo significando “A manifestação da Divindade”. Qual o hindu que não a conhece como a história de Prahlad? Tem-se nela tipificada a espiritualidade nascente que se revelaria nas raças mais evoluídas saídas dos daityas hoje reveladas nos aryas da quinta Raça-Mãe, formada na Meseta do Pamir.

É quase desnecessário para um hindu insistir-se nessa conhecida história do devoto de Vishnu; de como o seu pai Daitya esforçou-se para matá-lo por o nome de Hari (“Salve”, donde Hori e Holi, “Salvação”) estar sempre em seus lábios; como quis degolá-lo com a espada e esta quebrou-se quando o tentava fazer; com ele tentou envenená-lo e apareceu Vishnu e comeu em primeiro lugar o arroz envenenado, para depois o jovem comer o restante com o nome Hari sempre nos lábios; como o pai tentou esmagá-lo por meio de um elefante furioso, pelos dentes de uma serpente e atirá-lo de um precipício para que se esmagasse em baixo contra uma pedra. Mas o nome de Hari, Hari trazia-lhe a salvação, pois no elefante, nos dentes da serpente, no precipício e na pedra Hari estava sempre presente e o seu devoto seguro da Sua presença; e finalmente sabe-se como o pai, ao desafiar a Omnipresença Divina, apontou para um pilar e escarneceu: “O teu Hari também está neste pilar?”, tendo o jovem clamado: “Hari, Hari”, e o pilar quebrou-se saindo dele a figura possante de Nirsimha que matou o Daitya que duvidara, para finalmente todos conhecerem a Omnipresença do Deus Supremo. Uma lenda? São factos e não ficção, verdade e não fantasia; se os empedernidos homens de hoje conseguissem lembrar-se dos tempos dessas batalhas que opuseram homens e deuses, por certo nada de estranho ou anormal achariam nessa história, pois a veriam como episódio histórico que um dia no Passado longínquo levou à remissão da Terra e ao urgir de uma nova Humanidade, a actual.

Quanto ao mês Chaitra equivalente ao nosso Março (Mesha, em sânscrito) e ao período da Lua Cheia do Carneiro, Áries, Agnus ou Agni, equivale no Zodíaco Oriental ao signo do Dragão – o mesmíssimo de Ouro do Santuário Akdorge de Portugal junto ao qual os hindus locais celebraram o Holi para que fui convidado – de natureza expansiva ou yang (satva), afinal sendo o período onde o Sol transita influindo sobre a Terra com maior intensidade no plenilúnio afim ao início da Primavera.

Desse modo, tem-se a Festa de Holi igualmente associada à entrada do Ano Novo astrológico que inicia em 20/21 de Março, no primeiro signo do Zodíaco que é o Carneiro, fase em que começa uma vida nova ao despir-se das “velhas roupagens” para assumir-se novel consciência mais humanamente espiritual, sempre sob o olhar intenso do ígneo Dragão d´Ouro, Agni, afinal, a “Alma Gloriosa do Sol” crepitando em chamas brilhantes no imo de todas as criaturas.

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